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22.2.11

Nova Andalus, parte 1

Achadu ala ilaha ila Allah. Achadu ana Mohammad Rassululah (Testemunho que não há outra divindade senão Deus. Testemunho que Maomé é seu profeta mensageiro). Pronunciando este testemunho 3 vezes ante 2 testemunhas, podemos nos converter ao islamismo. Mas o que significa ser um islâmico?

O islamismo nasceu quando o profeta Maomé “intuiu” o Alcorão. Os ensinamentos de Allah (palavra árabe para Deus) estão contidos no Alcorão (Qur'an, "recitação"). Os muçulmanos acreditam que Maomé recebeu esses ensinamentos de Allah por intermédio do anjo Gabriel, através de revelações que ocorreram entre 610 e 632 d.C. Maomé recitou essas revelações aos seus companheiros, muitos dos quais se diz terem memorizado e escrito no material que tinham à disposição.

Maomé estabeleceu não só uma nova religião, como também uma nova organização política unificada na península Arábica, a qual logo após sua morte, sob o subsequente domínio dos califas do Rashidun e Omíadas, experimentou uma rápida expansão do poder árabe para muito além da península, sob a forma de um vasto Império Árabe muçulmano.

Edward Gibbon escreveu em sua “História do Declínio e Queda do Império Romano”, um dos maiores tratados da história das civilizações:

Sob os últimos Omíadas, o Império Árabe estendia-se por uma jornada de duzentos dias do leste para o oeste, dos confins da Tartária e Índia até as praias do Oceano Atlântico. [...] Em vão buscaríamos a união indissolúvel e a obediência fácil disseminados no governo de Augusto e dos Antoninos; mas o progresso do Islã difundiu por este amplo espaço uma semelhança generalizada de modos e opiniões. A língua e as leis do Qu'ran eram estudadas com igual devoção em Samarcanda e Sevilha: os mouros e os hindus abraçavam-se como conterrâneos e irmãos em peregrinação à Meca; e a língua árabe era adotada como idioma popular em todas as províncias a oeste do rio Tigre.

O islamismo talvez tenha atingido seu ápice quando Al-Andalus, ou a “colonização” islâmica da Península Ibérica, viveu seus dias de paz e ecumenismo, onde quase todas as grandes culturas da história estiveram reunidas. A população de Al-Andalus era muito heterogênea e constituída por árabes e berberes (uns e outros muçulmanos), moçárabes (os hispano-godos que, sob o domínio muçulmano conservaram a religião cristã), e judeus. Para além destes existia outro grupo, os muladis, que eram os cristãos que se tinham convertido ao islamismo. Os moçárabes e judeus, apesar de algumas restrições, tinham liberdade de culto, e se mantiveram integrados as cidades islâmicas, o que resultou em um período de vivência pacífica e ecumênica sem precedentes na história.

Abd ar-Rahman II foi um dos primeiros governantes que se esforçou por converter a sua corte em Córdoba num centro de cultura e sabedoria, tendo recrutado com esse objetivo vários sábios do mundo islâmico. Essa integração pacífica de culturas e religiões diversas resultou em inúmeros legados artísticos e científicos. Principalmente na arquitetura, que até hoje pode ser admirada em partes da Espanha onde as mesquitas permaneceram intactas, e na matemática, particularmente pela disseminação do conceito do número zero – de origem hindu – pelo Ocidente.

Entretanto, foram os próprios islâmicos ortodoxos quem trataram de destruir sua “Meca” das artes e ciências. Insatisfeitos com a convivências harmoniosa entre muçulmanos e não-muçulmanos, enfraqueceram Al-Andalus o suficiente para que, ironicamente, fosse reconquistada pelos cristãos até o fim do século XV. Depois, as Cruzadas e todas essas guerras inúteis, que são proclamadas “em nome de Deus”, mas que obviamente servem apenas para que reis e califas conquistem e reconquistem territórios e poder econômico.

Alguns creem que o passado é uma nação estrangeira, mas este precioso mito das nações sempre foi um poderoso aliado para que os reis, califas e ditadores pudessem manter seu próprio povo sob rédeas curtas – rédeas para a mente. Desde a derrocada de Al-Andalus (e, de certa forma, desde a morte de Maomé e da divisão entre muçulmanos xiitas e sunitas), o grande Império Árabe descrito por Gibbons tem somente se dividido e enfraquecido.

O pan-islamismo é um movimento político que evoca a unidade dos Estados islâmicos, cujas raízes se situam em Jamal al-Din al-Afghani, divulgador de ideais pan-islâmicos no mundo árabe. Ele possuía uma visão romântica da história do povo árabe e marcada por um profundo pensamento anti-iluminista, renegando as ideias de Jean Jacques Rousseau e François Voltaire, por exemplo.

Em 1969, o revolucionário Muammar Gadafi tomou o poder na Líbia através de um golpe de estado. Na qualidade de presidente do conselho da revolução, nacionalizou a indústria do petróleo e converteu-se no primeiro representante do pan-islamismo. Gadafi fechou as danceterias, bordéis e bares trazidos pelos americanos, impondo a toda Líbia respeito aos preceitos e morais do islamismo, proibiu a exportação de petróleo para os EUA e confiscou propriedades internacionais. A Líbia tornou-se então, por décadas, um exemplo vivo da decadência do islamismo, um exemplo que refletia-se em ditaduras similares por toda a região do Oriente Médio.

Apesar das condições de não-liberdade a que submetia seu próprio povo, em sua loucura Gadafi aparentemente acreditava que o islamismo ainda iria dominar novamente a Europa. Toda a reestruturação do Império Árabe, assim como o novo avanço sobre o continente europeu, se daria por um mecanismo tão antigo quanto o ser humano, a natalidade:

Há sinais de que Allah garantirá vitória ao Islã na Europa sem espadas, sem armas, sem conquistas. Não precisaremos de terroristas ou bombas homicidas. Os mais de 50 milhões de muçulmanos na Europa a transformarão em um continente islâmico em poucas décadas.

Teria ele razão? Sim e não.

continua na parte 2

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Crédito da imagem: Wikipedia (turistas visitam pátio do palácio de Alhambra, um dos legados de Al-Andalus)

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