Pular para conteúdo
13.5.21

Orwell Político

George Orwell é um fenômeno. Juntas, as suas principais obras, A Revolução dos Bichos e 1984 (publicadas, respectivamente, em 1945 e 1949 [1]), venderam mais cópias do que os dois livros mais vendidos de qualquer outro escritor do século XX. Uma grande parte da fama de tais livros se deve a maneira como o escritor britânico soube mesclar a literatura com a crítica política. Ou, como ele mesmo descreveu:

Quando eu me sento para escrever um livro, eu não digo a mim mesmo que vou produzir uma obra de arte. Eu escrevo porque há alguma mentira que eu quero expor, algum fato para o qual quero chamar atenção, e minha preocupação inicial é conseguir ser lido por uma boa audiência.

Lançadas nos últimos anos de sua vida, tais obras se destacaram pela coragem com que Orwell atacou o totalitarismo, particularmente o stalinismo e o fascismo, em uma época onde boa parte dos regimes criticados ainda estava em plena operação. Apesar de ter atacado o comunismo russo (ou o que ele se transformou), Orwell também nutria clara simpatia pelo socialismo. Isso, por si só, explica como até os dias de hoje qualquer menção a sua obra suscita as mais acaloradas discussões nas redes sociais: os simpatizantes da direita dizendo que ele na verdade nunca foi socialista, e que dedicou-se somente a criticar a esquerda autoritária; os simpatizantes da esquerda afirmando que, pelo contrário, ele sempre foi socialista, e suas críticas na verdade se direcionavam mais ao fascismo, ao totalitarismo de direita, do que ao stalinismo e outros regimes de esquerda que assassinaram a democracia [2].

Qual deles tem razão? Para tentar responder essa pergunta, é preciso voltar no tempo, conferir as obras e ensaios anteriores, onde ele esteve morando, quais guerras lutou, enfim: tentar entender melhor o que fez de Orwell o que ele é até hoje, um mito da literatura.

Para compreender sua importância, temos de tentar entender o que ele amava, e o que odiava. Contra o que ele se rebelou, e o que ele exaltou. É isso que nos dará a chave para a compreensão da sua obra. Orwell sempre odiou o grupo social do qual ele mesmo era, apesar dos pesares, um membro exemplar: os intelectuais. Desde cedo, ele quis ser um escritor, mas sempre se destacou em nunca realmente se encaixar em emprego algum. Ele nasceu em 1903, na Índia, que era na época uma parte do Império Britânico, mas foi enviado ainda criança para a Inglaterra, onde cresceu sem muita presença do pai, um funcionário público que atuava na colônia indiana. Era filho de pais em frágil situação econômica, que lutaram duro para que ele tivesse uma clássica educação inglesa de classe média, e esperavam que ele pudesse se tornar um médico ou um advogado. Orwell acabou conseguindo uma bolsa para estudar em Eton, um colégio tradicional de Berkshire (onde teve aulas de francês com Aldous Huxley), mas nunca teve notas boas o suficiente para tentar bolsas em grandes universidades. Mais tarde, decidiu servir como policial imperial na Birmânia (atual Mianmar), onde pôde conhecer mais da cultura do Oriente, e de como se estruturavam e funcionavam um império colonial e suas colônias. Ao retornar à Inglaterra, passou a se dedicar com mais afinco à escrita, e construiu uma carreira como jornalista e ensaísta político.

A geração de intelectuais da qual Orwell fazia parte, que havia testemunhado a Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão, estava obcecada por novas doutrinas grandes e abstratas para redimir a humanidade. Alguns eram comunistas fanáticos, outros firmes defensores do capitalismo radical, e alguns estavam admirados com os novos regimes autoritários da Itália, Espanha e Alemanha, e queriam algo semelhante para a Inglaterra. Orwell ouviu, e foi por um breve período seduzido por algumas dessas doutrinas. Mas ele gradualmente veio a defender algo muito mais radical: os gostos, as opiniões, as necessidades e as perspectivas de alguém que ele chamou de “a pessoa comum”.

A jornada de Orwell na vida comum começou na primavera de 1928, quando ele deixou os privilégios de sua classe para trás, e passou a trabalhar em uma série de serviços braçais, nas capitais francesa e inglesa. Experiências que ele estava para contar em seu livro, Na pior em Paris e Londres (1933). Em outro livro narrando suas viagens ao redor da indústria de mineração de carvão, no norte da Inglaterra, O caminho para Wigan Pier (1937), Orwell lança um olhar generoso e complexo sobre as pessoas que conheceu. Sua experiência com a vida das pessoas comuns e ordinárias, em geral as grandes vítimas das guerras e dos regimes ditatoriais, explica em boa parte a profundidade de suas obras mais conhecidas.

E, se Orwell podia falar com propriedade da vida comum, também sabia o que era uma guerra em primeira mão! Juntou-se ao POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), uma milícia de marxistas revolucionários não-stalinistas, na luta contra Francisco Franco e seus aliados Mussolini e Hitler, na Guerra Civil Espanhola. Foi ferido no pescoço. Uma bala danificou suas cordas vocais, saindo pelas costas, e desde então sua voz ficou ligeiramente inaudível. Mais tarde escreveria o livro Lutando na Espanha (1938), em que relata sua experiência no conflito.

Mas foi num ensaio intitulado O Leão e o Unicórnio: O Socialismo e o Gênio Inglês, escrito em 1941, em plena Segunda Guerra, literalmente com bombas caindo nas proximidades [3], que Orwell me parece ter deixado mais clara a sua real posição política. Apesar da sua importância, é um ensaio relativamente desconhecido e/ou esquecido pelas editoras, quem sabe justamente por desmistificar muito do que já foi dito, tanto à direita quanto à esquerda, sobra suas crenças políticas.

A tese do seu ensaio afirma, basicamente, que aquele era o momento ideal para uma revolução socialista na Inglaterra [4]:

Não podemos esperar que este, ou qualquer governo similar, leve a cabo as mudanças necessárias por conta própria. A iniciativa terá de vir de baixo. Isso significa que será preciso surgir algo que nunca existiu na Inglaterra, um movimento socialista que de fato conte com o apoio da massa da população. Mas é preciso começar reconhecendo os motivos pelos quais o socialismo inglês fracassou.

Segundo Orwell, a grande mácula do socialismo na Inglaterra foi fazer chacota do patriotismo da população, ao invés de abraçá-lo, como ocorreu no fascismo e no nazismo:

Não é possível entender o mundo moderno tal como ele é sem que se reconheça a força esmagadora do patriotismo, da lealdade nacional. O cristianismo e o socialismo internacional são fracos como palha em comparação com ele. Hitler e Mussolini ascenderam ao poder em seus países em grande medida porque compreenderam esse fato, e seus opositores, não.

O escritor também busca explicar porque regimes totalitários nos moldes fascistas e nazistas conseguiram chegar ao poder sem grande oposição dos mais ricos:

Hitler defende uma economia centralizada, que despoja o capitalista de grande parte de seu poder, mas preserva quase intacta a estrutura anterior da sociedade. O Estado controla a indústria, mas ainda há ricos e pobres, patrões e empregados. Portanto, enquanto opositoras do socialismo genuíno, as classes abastadas sempre estiveram ao lado dele. Isso ficou cristalino na época da Guerra Civil Espanhola, e de novo claro na época em que a França se rendeu. O governo títere de Hitler não é de trabalhadores, mas uma gangue de banqueiros, generais caducos e políticos de direita corruptos.

E, mais para o final do longo ensaio, Orwell deixa muito claro que ainda acreditava num movimento socialista genuinamente democrático e igualitário como solução dupla para a Inglaterra: tanto no sentido de se igualar ao Estado nazista no fomento da máquina de guerra, e assim poder lutar de igual para igual, quanto nos sentido de criar uma nova sociedade onde a distribuição de renda seja uma realidade, e onde a pessoa comum possa enfim ter uma vida mais digna e justa. Eis o que ele diz:

Em tempos [de guerra] há a possibilidade, inexistente em épocas de paz, de sermos ao mesmo tempo revolucionários e realistas. Um movimento socialista que consiga atrair o apoio da massa da população, que desaloje os pró-fascistas das posições de comando, que elimine as injustiças mais flagrantes e permita à classe trabalhadora entrever uma razão pela qual lutar, que conquiste as classes médias em vez de antagonizá-las, que resulte numa política imperial viável em vez de uma mescla de enganação e utopianismo, que estabeleça uma parceria entre o patriotismo e a inteligência — pela primeira vez, um movimento desse tipo torna-se possível. [...] Esse governo socialista fará o essencial: nacionalizar a indústria, reduzir a disparidade de renda e implantar um sistema educacional não classista. Sua verdadeira natureza se tornará patente a partir do ódio que os homens ricos remanescentes no mundo sentirão por ele.

O Leão e o Unicórnio foi escrito anos antes das duas grandes obras literárias de Orwell, e no ensaio vemos claramente que, a despeito de já ser um crítico ferrenho do comunismo nos moldes stalinistas, Orwell continuava acreditando que uma revolução socialista seria o caminho mais eficaz para garantir que a pessoa comum inglesa, a única coisa que contava com sua genuína adoração, pudesse ter uma vida melhor. Depois disso vieram as bombas atômicas no Japão, a derrota de Hitler e a manutenção do totalitarismo do regime soviético (que contava com a conivência de boa parte do Ocidente). É difícil dizer se, ao escrever 1984, já perto da morte (por conta da tuberculose, que ele provavelmente contraiu ao ser tratado do tiro no pescoço em um hospital espanhol), Orwell ainda mantinha viva a crença no socialismo democrático, mas fato é que em nenhum momento da vida ele se aproximou do espectro oposto, seja no conservadorismo, seja no liberalismo econômico.

Assim, o veredito mais provável e honesto é este: Orwell foi um socialista que defendia a liberdade com unhas e dentes, e que não se furtou a criticar ferozmente o próprio socialismo, quando este enveredou pelo totalitarismo. Se ainda fosse vivo hoje, o mais provável é que Orwell fosse de centro-esquerda, devido à falência da ideia de uma revolução socialista viável.

***

[1] Eu também traduzi as duas principais obras de Orwell pelas Edições Textos para Reflexão. Leia A Revolução dos Bichos e 1984 no seu Kindle, pelo preço de um café (os links levam para a loja da Amazon).

[2] Eu falo mais sobre totalitarismo de esquerda e de direita na série Reflexões Políticas. O tema é abordado mais especificamente na Parte 3, mas recomendo ler desde o início para ter uma visão abrangente do que busquei dizer.

[3] O ensaio se inicia de maneira épica: “No momento em que escrevo, seres humanos extremamente civilizados estão voando sobre mim, tentando me matar”. Era um momento em que Londres vinha sendo bombardeada pelos forças de Hitler.

[4] A partir desse ponto, todos os parágrafos em itálico trazem trechos retirados do ensaio. Ele pode ser encontrado em português na coletânea da Penguin & Companhia das Letras, Por que escrevo (Ensaios de Orwell na tradução de Cláudio Marcondes).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Orwell); [ao longo] luciusbooks.com (capa original do ensaio; ainda pode ser adquirido aqui).

Marcadores: , , , , , , , , , ,

2.3.18

O Jardim de Epicuro

Há cerca de 2.300 anos caminhou sobre a antiga Grécia um pensador que alçou a felicidade ao centro da sua filosofia, e que segue em boa parte incompreendido até os dias atuais.

Epicuro nasceu em 341 a.C. na ilha de Samos, onde passou a infância e a juventude, tendo aprendido a filosofia platônica através do acadêmico Pânfilo. Com cerca de 18 anos, vai morar em Atenas, cidade natal de seu pai, a fim de cumprir os dois anos do treinamento militar obrigatório. Durante seu breve tempo de soldado, se torna amigo do futuro dramaturgo Menandro.

Tendo se mantido em Atenas, numa época em que tanto a Academia de Platão quanto o Liceu de Aristóteles ainda funcionavam em pleno vapor, encontrou oportunidade para continuar seus estudos. Após haver sido forçado a ir se juntar aos pais e outros colonos atenienses que haviam sido expulsos de Samos pelo sucessor de Alexandre Magno, vive por alguns anos na cidade de Colófon, na costa asiática.

Depois perambula por várias regiões da Grécia, quando já está colocando em prática a sua filosofia, e conquista pelo caminho diversos seguidores igualmente filósofos, como Pítocles, Heródoto e Meneceu, que o acompanham pelo resto da vida.

Em 306 a.C., finalmente regressa a Atenas, onde adquire uma ampla casa com um grande jardim, lá fundando a sua famosa escola, reconhecida pelos séculos como “O Jardim de Epicuro”. Tal escola, no entanto, era muito diferente da Academia ou do Liceu: nela, tanto mestres quanto discípulos costumavam conviver juntos a maior parte do tempo, não somente nas aulas de filosofia em si, mas também nos almoços e lanches, nas conversas e brincadeiras, e por vezes até mesmo na cama.

A doutrina de Epicuro, conhecida também como epicurismo, era basicamente centrada na importância do prazer e da felicidade no cotidiano da vida:

O prazer é o princípio e o fim da vida feliz. O homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou se assemelha ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.

Obviamente, Epicuro foi tanto exaltado quanto apedrejado ao longo dos séculos, justamente pelo foco central que a felicidade tinha em sua filosofia. Mas, será que tanto os que o exaltaram quanto os que o demonizaram entenderam exatamente de que tipo de felicidade o pensador grego falava?

Epicuro considerava que a felicidade era sustentada em três pilares principais (desde que uma pessoa tivesse acesso aos bens mínimos para uma existência sadia, como moradia, alimentação e roupas):

A amizade
Quando fundou o seu Jardim em Atenas, Epicuro já convivia com um grupo inseparável de amigos, incluindo aí suas irmãs e esposas, embora não esteja tão claro se as mulheres participavam plenamente dos estudos filosóficos (algo já extremamente heterodoxo para a vida grega de então). Convivendo a maior parte das horas do dia ao lado de seus amigos e discípulos, Epicuro colocou em prática a parte mais essencial da sua filosofia:

De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade. Antes de comer ou beber qualquer coisa, reflita com mais atenção sobre sua companhia do que sobre o alimento em si, pois que alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.

A liberdade
Epicuro e seus amigos fizeram uma segunda inovação radical. Para que não precisassem trabalhar para pessoas de quem não gostavam ou se submeter aos seus caprichos, se afastaram do mundo comercial ateniense e formaram o que poderia ser hoje descrito como uma comunidade autossustentável, cultivando seus próprios alimentos e abraçando um modo de vida mais simples, em troca de sua quase total independência financeira do resto da cidade.

Assim, como nenhum de seus amigos tampouco se envolveu com os negócios ou a política ateniense, não havia entre eles nenhum senso de status, nenhuma necessidade real de exibir posses nem conquistas materiais ou políticas.

A reflexão
Tais epicuristas talvez tenham formado a primeira comunidade hippie do mundo, mas é preciso lembrar que eles se dedicavam a filosofia todos os dias, que a sua felicidade era também algo sempre em construção.

Todos os frequentadores do Jardim eram encorajados a refletir. Muitos de seus amigos eram escritores. Segundo Diógenes Laércio, somente Metrodoro, por exemplo, teria escrito doze obras, entre elas: Sobre o caminho que conduz à sabedoria. Todas se perderam, infelizmente, juntamente com a quase totalidade dos cerca de 300 livros atribuídos exclusivamente ao próprio Epicuro (algumas poucas cartas nos restaram, como a famosa Carta sobre a felicidade, a Meneceu).

São famosas as reflexões epicuristas acerca dos deuses e da morte, por exemplo. Da morte, disse Epicuro na Carta a Meneceu:

Então, o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; e, ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos. A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui.

Quanto aos deuses, ele acreditava que eles viviam noutro mundo, onde desfrutavam da felicidade divina, e que pouco se interessavam pelo nosso. Não caberia aos homens, portanto, temer ou se angustiar com os desígnios divinos, mas tão somente tê-los como modelos de bem-aventurança, modelos para o auxílio da busca do homem pelo estado de felicidade, e não como motivo para angústias inúteis. Neste sentido, Epicuro se aproximava dos atomistas, e chegou muito perto do que hoje é compreendido como agnosticismo teísta.

Afinal, Epicuro foi hedonista?
Embora muitas vezes pareça que Epicuro buscava o prazer a qualquer custo, a realidade estava bem distante disso. Os epicuristas na verdade buscavam um estado de espírito definido como Ataraxia. Neste estado, nos encontramos sem inquietações ou preocupações, e nosso ânimo em geral estará sempre equilibrado.

Epicuro acreditava sim na felicidade que adivinha de se estar com amigos na mesa, mas não precisava ser num banquete. De fato, o mero consumo de queijo, para os epicuristas do Jardim, era algo para ser celebrado somente de tempos em tempos. Ter queijo à mesa, portanto, já era considerado um luxo. O mesmo se estende para todo o resto dos chamados “bens materiais”:

Com relação aos desejos, alguns são naturais e necessários; outros são naturais e desnecessários. E há aqueles que não são nem naturais nem necessários.

O que é natural e necessário para a felicidade:
Casa, comida e roupa; Amigos; Liberdade; Reflexão filosófica.

O que é natural, mas desnecessário para a felicidade:
Palacete; Terma privada; Banquetes; Empregados; Peixe e carne.

O que não é nem natural nem necessário para a felicidade:
Fama; Poder político; Status.

Seguindo a essência dos ensinamentos de Epicuro, podemos imaginar nossa felicidade como um copo onde é necessário haver alguma água, talvez até pouco menos da metade, para que tenhamos alguma felicidade. Esta água corresponde a termos moradia, alimentação adequada, e algumas roupas para o convívio social básico. Dali em diante, podemos aumentar nossa felicidade na medida em que enchemos o copo com alguns luxos a mais, como uma alimentação mais elaborada, uma casa mais espaçosa e bem decorada etc. O que Epicuro nos afirma, no entanto, é que de nada adianta continuarmos enchendo o copo: a água vai simplesmente transbordar, e a nossa felicidade continuará inalterada.

Assim, se associarmos a água deste copo às nossas riquezas materiais, nós veremos que a partir de certo limite, um limite bem menor do que costumamos imaginar, o mero acúmulo de dinheiro não nos garantirá mais felicidade alguma...

Se quisermos realmente ser felizes, é bom que saibamos que há algo que vale muito mais do que o dinheiro, algo que é realmente capaz de nos preencher de entusiasmo e alegria perenes: o amor – seguido da liberdade e da reflexão.

***

Bibliografia
Carta sobre a felicidade, a Meneceu, Epicuro (UNESP); As consolações da filosofia, Alain de Botton (Rocco); Epicuro e a felicidade, documentário de Alain de Botton para a BBC.

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O Jardim de Epicuro - A Felicidade no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Antal Strohmayer, O Jardim dos filósofos (1834); [ao longo] raph; Google Image Search.

Marcadores: , , , , , , ,

31.8.17

A filosofia para viver bem (parte 1)

1. Entre o Céu e a Terra

A filosofia não foi sempre uma abstração praticada pelos acadêmicos. Na Grécia Antiga, existiram alguns pensadores mais pragmáticos, que exploravam questões mais cotidianas. Problemas sobre como enfrentar a morte de um amigo, como agir corretamente em determinada situação ou aproveitar a vida da melhor forma possível.

O objetivo da vida para um grego antigo era alcançar a eudaimonia. Geralmente, traduzimos por alcançar a felicidade ou o desenvolvimento das potencialidades. De forma mais simples, podemos dizer que chegar a eudaimonia é aprender a viver bem. Em todos os sentidos: crescer enquanto ser humano, desfrutar da vida, ser uma pessoa boa.

Isto é muito mais difícil do que parece, pois, na vida, somos acometidos por toda sorte de problemas que geralmente nos impedem de nos dizermos felizes. Preocupações, ansiedades, medos, conflitos.

Os filósofos entendiam que o caminho para a eudaimonia se daria, portanto, através da ataraxia.

Ataraxia pode ser traduzida como “imperturbilidade”, ou um estado livre de tensões. Uma vez que as tensões da vida são aquilo que nos impedem de desfrutar das nossas experiências ou fazer escolhas com sabedoria, a prática da ataraxia buscava alcançar um estado de tranquilidade, livrando-se de tensões desnecessárias, mantendo o equilíbrio e a consciência das nossas emoções.

Como alcançar esse estado de tranquilidade? Os filósofos discordaram justamente quanto a isso.

Cada um deles tinha uma concepção de como deveríamos reagir ao mundo ou lidar com a vida. Duas escolas do período helenístico se destacaram enquanto doutrinas neste sentido: o epicurismo e o estoicismo.

Os epicuristas entendiam que a vida devia ser prazerosa. Porém, deveríamos ter cuidado com os excessos. Desejos exacerbados ou fúteis podem nos conduzir às perturbações, medos e sofrimentos.

Para Epicuro, a felicidade podia ser alcançada quando realizássemos nossos desejos de forma estável e equilibrada. Epicuro mesmo tinha uma vida extremamente simples. A amizade era uma coisa essencial para si. Portanto, vivia cercado pelos seus amigos, compartilhando com eles seus pensamentos num belo jardim. Uma vida extremamente simples, mas prazerosa e equilibrada.

Os estoicos, por sua vez, acreditavam que seríamos felizes quando não tivéssemos mais motivos para sofrer. Portanto, deveríamos abandonar nossos desejos, paixões, ou qualquer tentativa desnecessária de mudar o curso do mundo.

Segundo Zenão, somos como um cão amarrado a uma carroça. Esta última representa o mundo, os eventos maiores que nós mesmos, o destino. Quando a carroça avança, somos puxados pelo curso do mundo. Se lutarmos contra ela, iremos nos machucar. O cão também não pode ficar parado. A carroça obriga-o a se mexer.

Isto não significa que não temos liberdade. A coleira tem uma folga suficiente para o cão poder andar livremente enquanto acompanha a carroça. Ele só não pode ir para além do laço que o prende. Deste modo, temos a liberdade de escolher como nos comportar, responder ou pensar durante os eventos. Só não podemos – sozinhos – crer que vamos curvá-los ao nosso desejo.

Pensamos que só podemos ser felizes quando as coisas são como desejamos, quando elas estão além do nosso poder para conquistar ou alterar. O objetivo estoico é desenvolver uma espécie de indiferença perante as paixões e frustrações, de modo que os acontecimentos não afetem nosso humor. A felicidade advém, para um estoico, não de experiências simples e prazerosas (como diria um epicurista), mas de uma vida virtuosa.

Hoje podemos reconhecer ambas as escolas sob outros nomes, ainda em disputa: o ascetismo e o hedonismo.

Segundo o ideal asceta, o objetivo da vida é nos elevarmos acima dos prazeres e sofrimentos do mundo, transcendendo a realidade inferior do mundo.

A visão hedônica define que o mundo é tudo que possuímos, e não há nada de inferior nele.  Portanto, devemos aproveitar a vida que temos, desfrutando dos prazeres e aprendendo com os sofrimentos.

Há ainda uma terceira escola que geralmente é esquecida da tradição clássica.  Vamos falar dela no próximo texto da nossa série.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: Olu Eletu/unsplash

Marcadores: , , , , , ,

13.10.15

Sheldrake contra a ortodoxia científica

Entre 2007 e 2008, quando participava de produtivos fóruns de discussão online sobre fé e razão no saudoso Orkut, acabei dialogando com um sujeito (que chamarei aqui de Flávio, embora não seja o nome real, pois não se trata de pessoa pública) que tinha uma fé cristã tão arraigada que acreditava piamente que tudo o que ocorria no universo era uma ação direta de Deus.

Me lembro de haver perguntado ao Flávio assim: "Mas se eu estou aqui digitando e discordando de você, pois creio que guardo uma certa liberdade própria, então seria Deus que estaria me fazendo digitar cada tecla do meu teclado e enviar esse texto para você?"... Flávio respondeu que sim. Esse tipo de negação total de qualquer espécie de liberdade ou livre-arbítrio sempre me pareceu um tanto radical, embora não admirasse menos a fé de Flávio por conta disso, visto que ele sempre me tratou educadamente, apesar de discordar do meu pensamento.

O mesmo tipo de espanto eu senti ao me deparar com os materialistas mais radicais, ou poderia-se dizer, mais fiéis a premissa básica do materialismo. Filósofos como o americano Daniel Dennett defendem que a consciência não existe, e aquilo que entendemos pelo "ato de se estar consciente" não passa de uma ilusão cerebral. Materialistas eliminativos como Dennett creem piamente que todas as nossas escolhas são fruto de reações químicas em nosso cérebro, e que os cerca de 4% da matéria e energia detectadas no universo são suficientes para explicar todos os processos conscientes.

Eu continuo até hoje espantado com o fato da mente humana conseguir chegar a extremos de crença como os dois citados acima, e até já escrevi um artigo sobre isso...

Mas felizmente existem mentes mais céticas e curiosas, que ainda creem não somente em sua própria liberdade de conhecer e questionar o mundo, como conseguem fazer isso através do próprio método científico. Nesta palestra para o TED, o biólogo britânico Rupert Sheldrake questiona diretamente os maiores dogmas do materialismo científico, e critica a Academia por limitar o escopo da ciência moderna ao se manter presa a dogmas do século XIX. O mais interessante é que Sheldrake não é um "cientista qualquer": possui mais de 80 artigos científicos publicados (inclusive na Nature), além de 10 livros (um deles o monumental Ciência sem Dogmas, que ele menciona no vídeo) e diversos artigos que ainda hoje aparecem com certa regularidade em reconhecidos jornais ingleses.

Talvez por isso tal palestra tenha sido "banida" do canal do TED no YouTube, devido a pressão de cientistas mais ortodoxos, digamos assim. É claro que isso só fez o interesse pelo que Sheldrake diz nela aumentar enormemente, de modo que somente um dos "espelhos" dela no YouTube já se aproxima de um milhão de visualizações.

Antes de escutarem ao que ele tem a dizer, no entanto, vale lembrar duas coisas: (1) A intenção de Sheldrake não é substituir o dogma materialista por algum dogma religioso, tanto pelo contrário – a despeito do que dizem por aí, as suas teorias também vão contra visões de mundo muito mais antigas do que o materialismo do século XIX; (2) O fato de Sheldrake chegar a questionar consensos estabelecidos, como até mesmo se a velocidade da luz é realmente constante, não significa que ele tenha razão em sua crítica, apenas levanta uma via de pesquisa que pode eventualmente nos trazer uma visão mais abrangente das "leis naturais" – o que é certamente mais de acordo com a ciência genuína do que termos a velocidade da luz estabelecida "por decreto", como ocorre hoje.

E agora, com vocês, o homem que desafiou a Academia:

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Red Ice Radio

Marcadores: , , , , , ,

2.3.15

O garoto de ouro da internet

“Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.”

Aaron Swartz contava 22 anos de vida quando conseguiu resumir, com as palavras acima, o seu objetivo de vida. Parecem palavras de um sujeito um tanto experiente não? De fato, nesta idade Aaron já era considerado um expert em sua área.

Desde os 14 anos, ele trabalhava criando ferramentas, programas e organizações na Web. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Por exemplo, ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento acima, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, e o contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em Abril de 2013. Se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

O julgamento, entretanto, nunca ocorreu. Em 11/01/2013 Aaron foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York, aos 26 anos. A causa mais provável é o suicídio... Há argumentos de que ele sofria de depressão, mas não há como deixar de considerar que o que o levou a morte foi, direta ou indiretamente, a grande perseguição que sofreu das forças da estagnação.

“O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”, declarou Kevin Poulsen em artigo da Wired Magazine. Para o mundo da computação, da colaboração, do livre pensamento e do compartilhamento do conhecimento que é produzido para toda a humanidade, particularmente o científico, a perda de Aaron, mais um dos que vieram da Mansão do Amanhã, é irreparável...


Esta história triste, porém vital para a compreensão do nosso século e do advento da chamada "era da informação", é narrada de forma brilhante no documentário abaixo, The Internet's Own Boy, com legendas em português. Recomendamos enormemente que tirem cerca de 2 horas para vê-lo com a mente aberta e tranquila:

Aaron está morto. Andarilhos deste mundo louco, nós perdemos um mentor, um sábio ancião. Hackers do bem, hoje somos um a menos. Educadores, instigadores, cuidadores, ouvintes, todos os pais aí fora, nós perdemos um filho. Deixemos que as lágrimas escorram. (Tim Barners-Lee, 11/01/13)

***

Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação

Marcadores: , , , , , ,

12.8.14

Conectados, parte 4

« continuando da parte 3

Direitos autorais ou direitos de autor são as denominações empregadas em referência ao rol de direitos dos autores sobre suas obras intelectuais, sejam estas literárias, artísticas ou científicas. Já o copyright trata exclusivamente dos direitos de cópia e distribuição das obras.


O homem do amanhã

“Eu sinto fortemente que não é suficiente simplesmente viver no mundo como ele é e fazer o que os adultos disseram que você deve fazer, ou o que a sociedade diz que você deve fazer. Eu acredito que você deve sempre estar se questionando. Eu levo muito a sério essa atitude científica de que tudo o que você aprende é provisório, tudo é aberto ao questionamento e à refutação. O mesmo se aplica à sociedade. Eu cresci e através de um lento processo percebi que o discurso de que nada pode ser mudado e que as coisas são naturalmente como são é falso. Elas não são naturais. As coisas podem ser mudadas. E mais importante: há coisas que são erradas e devem ser mudadas. Depois que percebi isso, não havia como voltar atrás. Eu não poderia me enganar e dizer: “Ok, agora vou trabalhar para uma empresa”. Depois que percebi que havia problemas fundamentais que eu poderia enfrentar, eu não podia mais esquecer disso.”

Aaron Swartz contava 22 anos de vida quando conseguiu resumir, com as palavras acima, o seu objetivo de vida. Parecem palavras de um sujeito um tanto experiente não? De fato, nesta idade Aaron já era considerado um expert em sua área.

Desde os 14 anos, ele trabalhava criando ferramentas, programas e organizações na Web. E, de algum modo, em algum momento, quem usa a rede foi beneficiado por algo que ele fez. Por exemplo, ele participou da criação do RSS (que nos permite receber atualizações do conteúdo de sites e blogs de que gostamos), do Reddit (plataforma aberta em que se pode votar em histórias e discussões importantes), e do Creative Commons (licença que libera conteúdos sem a cobrança de alguns direitos por parte dos autores). Mas não só. A grande luta de Aaron, como fica explícito no depoimento acima, era uma luta política: ele queria mudar o mundo e acreditava que era possível.

Aaron era um grande entusiasta da livre distribuição de todo tipo de obra em domínio público – literária, artística e, principalmente, científica. Uma obra entra em domínio público após uma certa quantidade de anos desde a morte do autor original. Isto significa que qualquer pessoa pode utilizar a obra do autor como quiser, inclusive escrever novas histórias com os seus personagens. Por exemplo, qualquer pessoa pode editar um livro com poemas de Fernando Pessoa e publicá-lo (não a toa, vemos tantas editoras publicando coletâneas de Pessoa hoje em dia) [1]; da mesma forma, qualquer pessoa pode escrever uma história com o personagem Sherlock Holmes, criação de Sir Arthur Conan Doyle (não a toa, vemos surgir tantos filmes e livros onde Holmes reaparece um tanto quanto “repaginado”) [2].

A maior parte dos países do mundo define o início do domínio público quando passados exatamente 70 anos da morte do autor das obras e personagens originais. Alguns países contam somente 50 anos, poucos outros contam até um século, e nos EUA... Bem, nos EUA é mais complicado...

No caso americano, qualquer obra publicada antes de 1923 está em domínio público desde 1998, independente da data da morte do autor original (mesmo que ele ainda se encontre vivo!); já o que foi publicado após 1923 pode estar em domínio público até 70 anos após a publicação original. Isto, em teoria, pois para “casos específicos”, como o famoso Mickey Mouse da Disney, este prazo pode ser prorrogado indefinidamente – o ratinho, que cairia em domínio público em 2003, ganhou uma sobrevida no cativeiro por mais 20 anos, mas nada impede que a Disney não vença outra batalha judicial para prorrogar novamente este prazo, em 2023.

Na verdade, é bem provável que os personagens da Disney, assim como boa parte dos super-heróis dos quadrinhos, como Superman e Homem-Aranha, jamais entrem em domínio público. Isto não deixa de ser um tanto quanto curioso, pois no universo dos personagens citados, vemos muitos outros personagens diretamente inspirados em contos de fadas e mitos, alguns dos quais não foram publicados há tanto tempo assim... Walt Disney nasceu cerca de um quarto de século após a morte de Hans Christian Andersen, célebre escritor de fábulas dinamarquês. Se a entrada em domínio público pudesse ser constantemente prorrogada desde aquela época, ou desde 500 anos atrás, ou desde o início da escrita, até hoje editoras como a Marvel deveriam montantes de dinheiro pelo uso de personagens como Thor ou Hércules. Difícil seria dizer a quem eles seriam pagos...

A própria Wikipedia só existe por causa do chamado copyleft, uma brincadeira (que se tornou séria) com o termo copyright. O copyleft significa liberdade para copiar, distribuir e modificar uma obra, desde que tudo que for agregado ao seu conteúdo também continue da mesma forma livre. A ideia surgiu mais ou menos assim: no início da década de 1980, um programador chamado Richard Stallman, indignado com a decisão da AT&T de proibir acesso amplo ao sistema operacional Unix, resolveu ele próprio escrever um sistema operacional e garantir que ele continuasse aberto, podendo ser modificado, copiado e redistribuído, desde que as pessoas que o modificassem subsequentemente também o mantivessem livre.

Nascia assim o sistema operacional chamado GNU, que veio a gerar o Linux. A grande peculiaridade desse sistema é que a colossal tarefa de desenvolvê-lo é distribuída entre colaboradores de todo o mundo, que, tal como a Wikipedia, testam, aperfeiçoam e modificam o software, desde que ele permaneça aberto. O copyleft representa uma flexibilização, feita de baixo para cima, da ideia de direito autoral que herdamos do século 19.

Até hoje em boa parte do mundo qualquer obra, mesmo um rabisco num guardanapo, já nasce legalmente com “todos os direitos reservados ao autor”. Foi precisamente a compreensão da necessidade de viabilizar uma distribuição mais simples do conteúdo autoral na era da internet que fez com que Aaron Swartz se dedicasse não somente ao desenvolvimento do conceito de Creative Commons, onde qualquer pessoa pode declarar previamente que a sua obra pode ser distribuída sob certas condições [3], como a muitas outras ideias que, infelizmente, dispararam um enorme sinal de alerta entre os agentes da estagnação e das ideias fossilizadas.

Aaron ajudou a criar o Watchdog, website que permite a criação de petições públicas; a Open Library, espécie de biblioteca universal, com o objetivo de ter uma página na web para cada livro já publicado no mundo; e o Demand Progress, plataforma para obter conquistas em políticas públicas para pessoas comuns, através de campanhas online, e o contato com congressistas e advocacia em causas coletivas. Em 2008, lançou um manifesto no qual dizia: “A informação é poder. Mas tal como acontece com todo o poder, há aqueles que querem guardá-lo para si”.

Indignado com a passividade dos acadêmicos diante do controle da informação por grandes corporações, ele conclamava a todos para lutar juntos contra o que chamava de “privatização do conhecimento”. Baixou milhões de arquivos do judiciário americano, cujo acesso era cobrado, apesar de os documentos serem públicos. Chegou a ser investigado pelo FBI, mas sem consequências jurídicas. Em 2011, porém, Aaron foi alcançado.

Em alguns dias, ele baixou 4,8 milhões de artigos acadêmicos de um banco de dados chamado JSTOR, cujo acesso é pago pelas universidades e instituições. Aaron usou a rede do conceituado MIT (Massachusets Institute of Technology) para acessar o banco de dados, fazendo download de muitos documentos ao mesmo tempo, o que era – é importante ressaltar – permitido pelo sistema. Não se sabe o que ele faria com os documentos, possivelmente dar-lhes livre acesso. Mas, se era esta a intenção, Aaron não chegou a concretizá-la. Ao ser flagrado, ele assegurou que não pretendia lucrar com o ato e devolveu os arquivos copiados para o JSTOR, que extinguiu a ação judicial no plano civil.

Havia, porém, um processo penal: Aaron foi enquadrado nos crimes de fraude eletrônica e obtenção ilegal de informações, entre outros delitos. Aaron seria julgado em Abril de 2013. Se fosse acatado o pedido da acusação, esta seria a sua punição: 35 anos de prisão e uma multa de 1 milhão de dólares.

O julgamento, entretanto, nunca ocorreu. Em 11/01/2013 Aaron foi encontrado morto em seu apartamento em Nova York, aos 26 anos. A causa mais provável é o suicídio... Há argumentos de que ele sofria de depressão, mas não há como deixar de considerar que o que o levou a morte foi, direta ou indiretamente, a grande perseguição que sofreu das forças da estagnação.

“O mundo é roubado em meio século de todas as coisas que nós nem podemos imaginar que Aaron realizaria com o resto da sua vida”, declarou Kevin Poulsen em artigo da Wired Magazine. Para o mundo da computação, da colaboração, do livre pensamento e do compartilhamento do conhecimento que é produzido para toda a humanidade, particularmente o científico, a perda de Aaron, mais um dos que vieram da Mansão do Amanhã, é irreparável.

Mas para o mundo do deus do consumo, dos grandes contratos de copyright, dos grandes conglomerados de mídia, e para todos aqueles que se deleitam em continuar atolados em seu Charco de Estagnação, a eliminação de Aaron do tabuleiro é uma jogada a ser comemorada.

Alguém aí pode ouvir suas gargalhadas e o brinde das champanhes?


Aaron está morto. Andarilhos deste mundo louco, nós perdemos um mentor, um sábio ancião. Hackers do bem, hoje somos um a menos. Educadores, instigadores, cuidadores, ouvintes, todos os pais aí fora, nós perdemos um filho. Deixemos que as lágrimas escorram. (Tim Barners-Lee, 11/01/13)


» Em seguida, a vida sem o botão de pausa...

***

» Veja também o site criado pelos parentes de Aaron em sua memória e o excelente artigo de Eliane Brum sobre a sua morte (do qual retirei alguns trechos).

» The Internet's Own Boy: The Story of Aaron Swartz (documentário sobre a vida de Aaron realizado via crowdfunding; ainda sem legendas em português)

[1] Toda a obra de Pessoa entrou em domínio público em 30/11/2005, 70 anos após sua morte.

[2] Como veremos no restante do artigo, nem sempre é simples definir quando uma obra entra ou sai do domínio público nos EUA. Até o momento, pelo menos, Holmes continua público.

[3] O meu blog, Textos para Reflexão, está dentro do Creative Commons, como podem ver no rodapé de todas as páginas. Qualquer conteúdo publicado aqui pode ser livremente distribuído, desde que o a fonte original seja citada, o conteúdo não seja modificado, e que o uso não seja comercial.

Crédito das imagens: [topo] Wired Magazine (Aaron Swartz); [ao longo] Brooks.

Marcadores: , , , , , , , , , ,

4.3.13

Pássaros

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Aqui perto de casa existe uma rua cheia de árvores de copas esféricas, embora nenhuma esfera viva seja ou precise ser perfeita... Todos os dias eu atravesso ela para poder ir tomar café. Eu a chamo de Rua dos Pensadores, embora a prefeitura tenha lhe dado outro nome.

Uma vez tomei um baita susto: um pássaro enfurecido veio bicar minha cabeça. Acho que nunca vi um pássaro voar na minha direção, geralmente eles fogem da gente... Aquele não, aquele tinha alguma razão para arriscar a vida e dar bicadas na cabeça de um gigante. Se algum dia eu tive vontade de esganar um pássaro, ela passou rapidamente.

Ainda bem, porque depois acabei compreendendo: era um pássaro defendendo o seu ninho. A Natureza, em sua guerra da fome e da morte, privilegia a vida acima de tudo. Não fosse assim, o pássaro iria abandonar seu ninho ao primeiro sinal de perigo, e só voltar se fosse perfeitamente seguro. No entanto, existem animais, como uma espécie de polvo, que dão a vida por sua cria. Existem ainda outros animais, como uma espécie de inseto, que dão a vida ainda no ato da cópula. “Sexo mortal”? Ou “criação da vida”?

Não é a toa que o Abujamra sempre pergunta duas vezes aos entrevistados do seu programa (Provocações, na TV Cultura): “O que é a vida?”. Eu acho que ele tem esperança de que um dia alguém responda. Na primeira ou na segunda pergunta? Em nenhuma das duas. Quem quer que saiba responder isso, não precisará de palavras.

A vida é uma deusa alada que anseia por si mesma, ad infinitum. Seu combustível é o amor, e ele nunca se esgota. Sua vontade é o mistério: inefável, inalcançável... Há muitos eclesiásticos e cientistas que tentaram trepar pela árvore que cresce na Rua dos Pensadores e roubar um ou outro ovo do ninho deste pássaro. Mas não viram ovo algum!

Não sabemos quem ou o que criou a vida. Não sabemos criar vida, apenas copiar uma ou outra pequena parte daquilo que é chamado “orgânico”. E há muitos eclesiásticos que bradam assim, ainda trepados no tronco colossal: “Nós já vimos o que está no ninho. Temos agora todas as respostas!”; Enquanto há céticos que dizem isto: “Não há ninho algum. Larguem esta infantilidade! Trepar em árvores é coisa de criança.”

Dizia o poeta libanês que “nossos filhos são os filhos da ânsia da vida por si mesma”... É isto: as crianças quem sabem o que havia no ninho, na Mansão do Amanhã, e por isso elas gostam tanto de trepar em árvores. Mas depois nós as ensinamos a serem “sérias”, e elas se esquecem de tudo, ou quase tudo.

Tenho uma certa dificuldade em seguir doutrinas. Algumas delas são bem profundas, e isto está muito bom. Mas eu posso simplesmente reconhecer sua profundidade, e aprender o que há para se aprender dela. O que não posso é ficar ancorado nesta ou naquela doutrina.

Há algumas coisas que somente os pássaros e as crianças sabem, e todos estes seguidores de doutrinas, todos estes que acreditam que alguma palavra infalível resolverá a questão da vida para eles, jamais saberão de toda esta brincadeira.

O ninho que eu defendo, incondicionalmente, como o pássaro louco que vai bicar o gigante, é o ninho da liberdade!

No topo de todas as árvores do mundo há um ninho semelhante. Mas somente as crianças os viram, de relance, em meio ao pique esconde. Há pássaros que vêm e vão, de vez em quando, entre eras, para semear a Terra com as sementes de cada ninho desses...

Na Rua dos Pensadores os ninhos não têm ovos, mas sementes de um novo pensamento. Se um pássaro louco vier lhe bicar, não fique revoltado: às vezes, ele pode estar apenas lhe trazendo uma nova experiência.

***

Crédito da foto: Templer/Corbis

Marcadores: , , , , ,

14.2.13

Condutoras

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...

“Só podia ser mulher! Nessas horas eu sou machista...”.

Quem disse isso foi uma mulher. Ela estava dirigindo o carro, e eu era o carona. No cruzamento, alguma outra mulher conduzia seu carro sem muita pressa, o que é sempre um incômodo para o mundo do fast food.

Mas eu não estou aqui para falar de fast food, e sim de machismo. Já pararam para pensar? – São as mães, são as mulheres, primordialmente, quem ensinam seus filhos e filhas a serem machistas. Ou, pelo menos, a maioria pouco faz para evitar a sedução do pensamento machista na maior parte das sociedades do mundo.

Em comerciais de TV (inclusive de carros), músicas pop, novelas, e até mesmo na literatura softcore altamente vendável: o machismo ainda está por toda a parte. Mas é claro que as coisas mudaram: hoje em dia, na maior parte do mundo civilizado, as mulheres tem alma, podem escolher com quem vão se casar, tem direito ao voto, e estão a caminho de ganhar quase tanto quanto os homens pela mesma função no trabalho. Dizem até que no ensino superior já ultrapassaram os homens há algum tempo, ao menos em porcentagem de inscritos... Então, qual é o problema?

O problema está na origem do machismo, isto é, na origem do mundo patriarcal. Como alguns devem saber, há muito, muito tempo, a maioria das sociedades tribais era matriarcal, pois eram as mulheres, as sacerdotisas, quem “dominavam” os mistérios da vida, e da Deusa Mãe. Era somente através delas que novos seres humanos chegavam a Terra, e por isso parecia justo que fossem elas as responsáveis por organizar e celebrar os cultos e rituais religiosos.

Então chegou a agricultura. No início, deu ainda mais poder as mulheres: afinal, elas já cuidavam de organizar a tribo enquanto os caçadores-coletores se arriscavam no meio selvagem. Agora cuidavam também da plantação e do estoque de grãos. Estocar comida, isto sim, era algo inédito na história humana. Infelizmente, nem todas as tribos tinham a mesma habilidade para tal função.

Em épocas de fome, tribos de nômades pensaram assim: “Porque me arriscar a caçar na selva, se posso simplesmente invadir aquela tribo onde há vasos cheios de comida estocada, e somente mulheres cuidando dela?”. Os caçadores nômades passaram a invadir tribos estabelecidas, e foi então que o mundo viu o surgimento do primeiro exército: um grupo de caçadores passou a ser pago em comida, para proteger a comida.

Ainda que todo soldado sirva, idealmente, para manter a paz, na prática foi com violência e sangue, muito sangue derramado, que ela vem sendo mantida desde então. O matriarcado não fazia mais sentido num mundo violento. A Deusa Mãe tornou-se submissa ao Deus Pai. Freyja tornou-se apenas a esposa de Wotan.

O machismo está, portanto, intimamente ligado à violência, a ideia de que “os homens são fortes e lhe protegem, mas não os irrite porque eles são mais fortes que você”. Então, se na teoria o machismo pode parecer somente algo engraçado que aparece de vez em quando na TV, na prática o que ele gera são estatísticas alarmantes de violência doméstica e estupros. E isto não aparecia na TV até pouco tempo, mas mesmo o que aparece é somente a ponta do iceberg...

No entanto, isto não responde a pergunta: “se o machismo é tão nocivo as mulheres, porque grande parte delas, quem sabe a maioria, é machista?”.

Neste caso, precisaremos recorrer a mitologia: Enquanto boa parte das deusas perdeu sua força ancestral, o gênero feminino conseguiu se manter no pensamento masculino como uma espécie de joia preciosa, de troféu... A musa que dá inspiração aos artistas, a princesa que precisa ser resgatada de algum monstro vil (e que é ela mesma o prêmio da aventura), a miss que, com sua beleza, reina sobre homens e mulheres.

E, conforme os mitos não existem, mas existem sempre, isto significa que existem ainda neste momento. Talvez por isso muitas mulheres aceitem o machismo. Elas podem até saber, ainda que inconscientemente, que correm algum risco de serem estupradas ou esbofeteadas ocasionalmente num mundo de homens machistas, mas talvez aceitem o risco pela possibilidade de serem, elas mesmas, o grande prêmio cobiçado por todos!

Qual mulher machista, afinal, não quer ser a musa, a princesa prometida ao grande herói, a miss universo, a mais bela de todo o mundo, de todo o Cosmos?

E isto só é possível num mundo machista. Num mundo machista as mulheres que são mais cobiçadas não são exatamente aquelas donas do próprio nariz, senhoras de si, livres pensadoras, mas sim aquelas que esperam, tal qual a princesa do castelo, pelo príncipe encantado. Num mundo machista estamos atrás de mulheres-troféu. E as mulheres machistas, afinal, querem muito ser este troféu tão adorado.

Infelizmente para elas, e felizmente para os que desejam um novo mundo, a grande maioria das mulheres não alcança tal posto... Um dia, quem sabe, elas cansem das dietas milagrosas e da obsessão pela estética, e se voltem para dentro, e descubram a si mesmas, e rasguem esta ridícula veste de princesa que as limitam por todos os lados. Quem sabe, um dia, as mulheres aceitem a celulite e algum tanto de culote.

Neste dia o machismo estará em sérios apuros. Neste dia a Deusa Mãe, e a sensibilidade, e o amor e respeito a Natureza, e o amor e respeito a integridade da mulher, estarão em vias de retomar seu lugar no mundo. Não um lugar de dominância, acima do Deus Pai, pois neste novo mundo Deus poderá ser, finalmente, Pai e Mãe!

E, em toda essa história, teremos citado apenas uma lenda, um mito efetivamente falso: As mulheres são melhores condutoras de automóveis que os homens, e já faz algum tempo. Se duvidam, pesquisem pelo preço do seguro para homens, e para mulheres.

O que falta a mulher é, portanto, ser a condutora da própria vida. Os homens, afinal, não as deixaram num mundo tão maravilhoso assim. O príncipe encantado, e seu Reino Encantado, podem existir no futuro, não hoje.

***

Crédito da foto: Tomas Rodriguez/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , ,

1.11.12

Das sociedades secretas

(I)

O problema das sociedades secretas na era da informação é que qualquer um pode falar o que quiser delas, inclusive que é membro ou ex-membro de uma delas, e que a sociedade W pratica os rituais x ou y...

Elas eram secretas porque as pessoas iam pra fogueira se fossem pegas. Hoje em dia isso não faz mais sentido: qualquer livraria megastore tem dezenas de livros com "conteúdo secreto".

Porém, novamente voltamos ao mesmo dilema de que "cada um pode falar o que quer"... A única maneira de avaliar é experienciando por contra própria. Ler manuais de natação pode ser bom, mas um dia temos de mergulhar também.

Se por "secreto" pressupomos "não saber dos ritos", então a grande maioria das religiões é secreta para aqueles que nunca participaram de seus ritos. O problema é que certas sociedades nasceram secretas por razões de sobrevivência (como evitar ir para a fogueira), mas hoje em dia ainda há muitas lendas sobre elas (incluindo as "demonizações" elaboradas pela Igreja).

Não se sabe exatamente o que é verdade ou não. Não parece ser possível saber sem pesquisar a fundo ou, preferencialmente, participar.

(II)

Não existe coisa mais simples do que colocar a culpa dos "males da sociedade" em "elites secretas". O problema é que os bancos centrais e os governos (ou mesmo a antiga aristocracia) nunca foram secretos... Então sobrou esta conta para as sociedades secretas.

Mas é claro que a culpa dos males da sociedade é da sociedade como um todo, ao menos se partimos do pressuposto de que existe a democracia.

O Vaticano é o mais próximo de uma "elite que controlou o mundo", mas nunca controlou o mundo todo, e já não é nem sombra do que foi um dia (a nível de influência e poder governamental)... E ainda, certamente, nunca foi secreto.

Dito isso, eu tampouco sou membro de uma sociedade secreta, então não tenho como ter certeza de nada disso. Apenas acredito que os maiores corruptores do mundo nunca precisaram exatamente "se esconder", pois o sistema em vigor sempre lhes permitiu corromper "as claras".

Entretanto, isso tem mudado.

(III)

Na era da informação, "controla o mundo" quem controla a mídia (ao menos enquanto a mídia ainda pode ser controlada por uma "elite").

O maior inimigo dos "controladores" é o livre-pensador, este que pensa realmente por si, e consegue navegar nesse mar de informação irrelevante, sempre auxiliado pela âncora da própria alma.

Mas ser livre-pensador é ser questionador: é questionar a Academia e a Igreja, as teorias de conspiração, as respostas fáceis, as promessas de utopias que não envolvem um esforço de cada um de nós, etc.

Não há nada mais secreto do que o pensamento livre.

***

Crédito da imagem: Elisa Lazo de Valdez/Corbis

Marcadores: , , ,

19.9.12

A educação proibida

A escola pública completou 200 anos de existência e é considerada a principal forma de acesso dos jovens a educação. Hoje em dia, a escola e a educação são conceitos amplamente discutidos em fóruns acadêmicos, políticas públicas, instituições educativas, meios de comunicação e espaços da sociedade civil. Desde sua origem, a instrução escolar tem sido caracterizada por estruturas e práticas que hoje são consideradas, em sua maioria, já obsoletas. Elas não acompanham as necessidades do Século XXI. Seu principal erro se encontra no paradigma que não considerar a natureza do aluno, a liberdade do pensamento e a importância do amor nos vínculos humanos, assim como no desenvolvimento individual e coletivo. Este documentário, rodado em 8 países da América Latina, com 90 entrevistas de educadores modernos, procura apontar um novo rumo para o futuro da educação, além de apontar os graves defeitos do sistema atual. Com vocês, A Educação Proibida:

"Acreditamos que a Educação está proibida. Não por culpa das famílias, das crianças ou dos docentes. Todos proibimos a Educação. Cada vez que você escolhe olhar para outro lado, em vez de escutar. Cada vez que escolhemos a meta, em lugar do trajeto. Cada vez que deixamos tudo igual, em vez de experimentar algo novo. Seja professor, seja aluno, seja pai, seja quem for, ajude-nos... A Educação tem que avançar, tem que crescer, tem que mudar. Encontrar-nos com os outros, conhecer e explorar suas experiências, trocar ideias e levá-las a nossa realidade. Essa é a nossa proposta, e começa hoje mesmo."

***

Comentário
É preciso suavizar o corte, deixar que novas rodas percorram os velhor sulcos, e não mais procurar reproduzir seres com uma mesma opinião e visão de mundo (como se isso fosse possível, em todo caso), pois seres são almas, e não autômatos ou robôs. De nada valerá para as crianças e os jovens, estes recém chegados da Mansão do Amanhã, ouvirem de seus "mestres" a mesma repetição das informações de outrora - isso eles podem buscar na internet. Importa é despertar a paixão pelo conhecimento e, neste processo, procurar aprender junto com eles, junto com o futuro onde, cada vez mais, haverá liberdade para pensar e amar o que se bem entende.

Conforme nos alertou Gibran, "nenhum homem poderá revelar-vos nada senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento". Temos então, ido e voltado a este mundo, e somente assim se explica como as novas ideias vêm. É preciso fugir do veneno que os acomodados vem sugando da História, e não mais escrever de novo o que já estava escrito, não mais copiar o que já não se sustenta de pé, mas apontar para o horizonte e reescrever uma Nova História, e depois outra, e ainda outra, de acordo com as necessidades de cada época...

É hora de nos prepararmos para despertar neste Céu de Liberdade: bem aqui, contanto que o saibamos erguer, contando que saibamos cuidar ainda antes de ensinar. Contanto que, como Sócrates, deixemos que nossos jovens pensem como bem entendam, e atuemos não como "mestres", mas como sábios - a incentivar o amor pelo saber.

Obs: Vocês podem pensar que o documentário traz "ideias novas e revolucionárias", mas estão longe disso. Na verdade, são ideias que têm sido postas em prática pelas escolas logosóficas há décadas. A mudança de paradigma, portano, nem sequer teria de "reescrever o novo ensino do zero", pois isso diversas instituições, como a logosófica, já têm realizado e experimentado ao redor do globo. Basta, portanto, a vontade para impelementar a mudança - mas, e qual é o "político" que vê com bons olhos um eleitorado jovem que "sabe pensar por si mesmo"?

***

» Vejam também: O homem que brincava com a Natureza

Crédito da foto: John-Francis Bourke/Corbis

Marcadores: , , , , , ,

2.8.12

O senhor do destino

Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado (Gandalf em O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien).


Um dos maiores sábios da Antiguidade nasceu escravo, mas isso não o impediu de ter sido uma das almas mais livres do mundo. Epicteto nasceu em Hierápolis – na atual Turquia – em cerca de 55 d.C., e provavelmente foi levado ainda jovem para Roma, onde teve como mestre Epafródito, que por sua vez servia ao então imperador Nero. Tendo reconhecido a sabedoria e o potencial de seu escravo, Epafródito o declarou homem livre para seguir os ensinamentos de Musônio Rufo, filósofo estoico que o tomou como discípulo.

Epicteto foi manco desde a juventude, provavelmente devido ao reumatismo, mas foi com a razão e as ideias que caminhou muito além de seu professor no estoicismo, uma escola de filosofia helenística fundada em Atenas por Zenão de Cítio, no início do século III a.C. Os estoicos ensinavam que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, e que um sábio não deveria “se deixar abalar” por tais emoções.

Os estoicos se debruçavam na relação dinâmica entre o determinismo cósmico e a liberdade humana, defendendo a crença de que é virtuoso manter uma vontade que esteja de acordo com a natureza. Por causa disso, os estoicos apresentaram a sua filosofia como um modo de vida, e pensavam que a melhor indicação da filosofia de uma pessoa não era o que teria dito, mas sim como teria se comportado em vida.

Epicteto foi, junto com Sêneca, um dos estoicos tardios que defendiam que a virtude é suficiente para a felicidade. O sábio que nasceu escravo, entretanto, teve uma existência muito mais dura do que Sêneca, um intelectual nascido entre uma família nobre romana [1]. Sua fama, no entanto, se deveu sobretudo ao seu exemplo de vida. Como Sócrates e outros sábios antigos, jamais deixou nada escrito; foi graças a Ariano, um de seus discípulos, que nos chegou a modernidade as anotações de seus cursos: os Discursos (Diatribes) e o Manual (Enchiridion) de Epicteto, sendo o último apenas um resumo do primeiro.

Ao longo do tempo, a despeito de terem influenciado inúmeros grandes filósofos e religiosos posteriores, os estoicos também foram alvo de muitas críticas, usualmente por quem mal conheceu sua obra, ou a interpretou de forma apressada, ou ainda, como no caso de Nietzsche, que a transportou para um contexto inadequado, dentro do cristianismo...

Quando Epicteto falava em Zeus, o deus dos deuses, ou nos deuses como “um todo, um conjunto divino”, não se referia a Divindade da mesma forma que muitos religiosos de sua época, nem da mesma forma que a grande maioria dos cristãos que lhe foram posteriores. Sim, de fato Epicteto compreendia na Divindade uma substância, uma força única, mas daí a imaginar que ele via a Divindade como os cristãos veem a Deus é um passo muito grande, que talvez não se sustente:

“Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar.” (Discursos, III, 24)

O sábio estoico defendia o uso da razão acima das emoções destrutivas, que poderiam levar ao desespero e a angústia permanentes, mas não se deve imaginar que ele era contrário as emoções em geral, tanto pelo contrário! Para Epicteto, a existência era uma grande festa, uma grande oportunidade de se contemplar a grandiosidade da natureza, e de se caminhar, passo a passo, para cada vez mais próximo da Divindade. A razão na Antiguidade grega era muito mais o logos, uma razão conectada ao Cosmos, aos desígnios da natureza, a intuição e a experiência mística e religiosa, do que propriamente a razão fria e demasiadamente científica, conforme a maioria de nós a tem interpretado nos tempos modernos. O que os estoicos procuravam suprimir através de sua “medicina mental” eram as emoções destrutivas, e jamais as prazerosas.

De fato, a felicidade e o contentamento com a existência, a paz de espírito, eram os grandes objetivos a serem alcançados pelos estoicos – e isso não tinha nada a ver com “ir para o céu”. Para tais sábios, o céu se construiria no espírito de cada ser, quando devidamente conectado ao Cosmos. Mas, se por um lado alcançar tal conexão com a Divindade era o grande objetivo da vida, também era necessário compreender que a festa não deveria durar para sempre:

“A vida é como uma navegação. Quando o barco está atracado, e vais em busca de água, no teu caminho poderás também encontrar uma concha ou uma cebola, mas é preciso guardar o espírito direcionado para o barco e mirá-lo constantemente para ver se acaso o piloto não te chama, e se te chama, deixar tudo isso, para não ser arrastado a bordo como um animal. Assim, na vida, se no lugar da concha ou da cebola está uma mulher e um filho que te foram dados, nada te impeça. Mas, ao apelo do piloto, corre para o barco, deixando tudo para trás, sem retornar. E se és velho não te distancies muito do barco para não correres o risco de faltar à chamada.” (Manual, VII)

Longe de ser uma atitude covarde e passiva, como muitos têm interpretado apressadamente, a calma estoica perante os infortúnios da vida, e até mesmo perante o fim da vida, é antes de tudo uma grande lição de coragem. Epicteto não ignorava os infortúnios, a escravidão, e nem mesmo a morte, e viveu sempre com o espírito atento para a possibilidade do barco vir lhe buscar a qualquer momento (como de fato pode o ser para cada um de nós); mas foi exatamente por saber pesar os infortúnios e os benefícios, os prós e os contras da existência, e por ter percebido que os benefícios (mesmo há 2 mil anos atrás) ainda excediam em muito os infortúnios, que viveu sua vida em paz e tão feliz quanto era possível.

A maior lição dos estoicos sempre será esta que está muito bem descrita no início do seu Manual:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Não deve ter sido a toa que Ariano iniciou suas anotações exatamente por esta – parece-me que esta foi à primeira lição que Epicteto aprendeu com seu professor, Musônio, e provavelmente a primeira que também passava adiante, ele mesmo, para seus discípulos. Mas o sábio que nasceu escravo não era apenas um teórico: sua própria vida foi sua maior obra, seu grande exemplo para posteridade. O desconhecido que nasceu escravo e, não obstante, através do logos, tornou-se senhor de si mesmo, e por consequência, senhor do próprio destino – um genuíno livre-pensador.


Não temo a morte. Peço a Deus que não me dê um dia a mais de vida se eu não puder me orgulhar desse dia (José Alencar, ex-vice-presidente do Brasil, que travou uma luta de 13 anos contra o câncer, sempre atento ao chamado do piloto).

***

[1] Mas Sêneca, por sua vez, teve um final bem mais dramático, condenado injustamente ao suicídio (sem julgamento), pela acusação de ter tramado para o assassinato do imperador Nero – na morte, porém, provou que uma vida de filosofia não foi em vão, foi-se “de modo muito sereno”.

***

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Epicteto e os Estoicos no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito das imagens: [topo] Macduff Everton/Science Faction/Corbis; [ao longo] Paul Edmondson/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , , ,