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6.6.11

Maldito Benedito, parte 1

Os Senhores do Mahamad [Conselho da Sinagoga] fazem saber a Vosmecês: como há dias que tendo notícia das más opiniões e obras de Baruch de Spinoza procuraram, por diferentes caminhos e promessas, retirá-lo de seus maus caminhos, e não podendo remediá-lo, antes pelo contrário, tendo cada dia maiores notícias das horrendas heresias que cometia e ensinava, e das monstruosas ações que praticava, tendo disto muitas testemunhas fidedignas que deporão e testemunharão tudo em presença do dito Spinoza, coisas de que ele ficou convencido, o qual tudo examinado em presença dos senhores Hahamim [conselheiros], deliberaram com seu parecer que o dito Spinoza seja heremizado [excluído] e afastado da nação de Israel como de fato o heremizaram com o Herem [anátema] seguinte:

Com a sentença dos Anjos e dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e com o consentimento de toda esta Congregação, diante destes santos Livros, nós heremizamos, expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza [...] Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito seja em seu entrar [...] E que Adonai [Soberano Senhor] apague o seu nome de sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar bocalmente nem por escrito nem conceder-lhe nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler Papel algum feito ou escrito por ele.

Herem – anátema – pronunciado contra Spinoza, em 27 de julho de 1656, quando tinha 23 anos.

O panteísmo ateu

Após ter sido excomungado do judaísmo, Baruch optou por usar a tradução de seu nome original (Baruch Spinoza) para o latim (Benedictus de Spinoza), ou na forma aportuguesada – Bento de Espinosa.

Espinosa é hoje reconhecidamente um dos grandes apóstolos do racionalismo, e um dos pensadores mais importantes da história ocidental. Entretanto, mesmo tal reconhecimento é ainda muito pouco perto de toda a revolução que seu pensamento provocou em sua época.

Em seu monumental “Iluminismo Radical” (Ed. Madras, tradução de Claudio Blanc), o professor de Princeton, Jonathan Israel, nos traz um panorama incrivelmente detalhado do que efetivamente ocorreu entre 1650 e 1750 na Europa, e de como a Filosofia, e principalmente as ideias de Espinosa, prepararam terreno para a Revolução Francesa, antes mesmo dos primeiros tiros terem sido disparados na Bastilha (trechos adaptados, retirados da obra):

“Já na década de 1740, Antonio Genovesi, um pensador do Iluminismo italiano, que nunca deixou de ser simpático ao cristianismo, examina todas as cinco tradições filosóficas que lutavam para dominar a vida intelectual europeia – o aristotelismo escolástico das escolas [que perdurava por séculos] e as quatro classes dos modernos:

O Cartesianismo merece um respeito considerável. Genovesi louvou Descartes por ter demolido o escolasticismo, usando a “dúvida” como um instrumento de investigação para superar o ceticismo, e por introduzir a “liberdade para filosofar”; e concorda que a alma humana é substância incorpórea, totalmente distinta da matéria. Entretanto, ele também acha que o Cartesianismo contém sérias falhas, sólidas percepções intuitivas imbuídas de erro, as quais levam em última instância ao “fanatismo” e à subversão da verdade cristã.

Haviam também os partidários do sistema leibniziano-wolffiano, idealistas e monistas, que lhe pareciam inofensivos; A seguir vinha o empirismo de Newton e Locke, que de acordo com Genovesi, não fornecia uma base adequada para a coexistência estável da razão e da fé.

A quarta categoria principal de modernos, e de longe a pior, eram os deístas radicais, os quais negam os Evangelhos e os milagres de Cristo, bem como rejeitam o absolutismo do “bem” e do “mal” e a imortalidade da alma. Segundo ele, o líder do deísmo moderno seria Espinosa.

Para Genovesi, nenhum dos sistemas filosóficos modernos trazia de maneira adequada o sentido do mundo: do Cartesianismo, florescera o Espinosismo, o pensamento leibniziano leva ao idealismo, e o Newtonismo, ao puro mecanicismo. O panteísmo ateu, avisa Genovesi, retorna aos pitagóricos e eleáticos da antiga Grécia e era a principal ameaça ao bem-estar da Itália [e de toda a Europa].

Como os espinosistas podiam ser derrotados em termos filosóficos? Genovesi admite que simplesmente não sabe. Talvez, no final, apenas a fé, o coração humano e a ação de um governo determinado podem repelir a ameaça.

Assim, a Filosofia pura aparentou estar falida, inclinada antes a confundir do que ajudar o homem a encontrar sua salvação. Nesse texto, escrito em italiano e dirigido a uma grande platéia, Genovesi mais uma vez cutucou Espinosa, porém sem citar seu nome, apenas aludindo a ele de modo sombrio e deixando clara sua apreensão com relação ao "filósofo mais ímpio e sangue frio do século passado"”.

Ora, se até hoje os ateus não são muito bem vistos na sociedade, como explicar a “blindagem” de Espinosa em meio a tantos ataques e acusações vindas das mais variadas frentes? Como poderia um homem simples, filho de mercadores, ter desenvolvido um sistema de pensamento tão profundo e aparentemente revolucionário de dentro dos cômodos da própria casa? Teria sido este “ímpio”, este “maldito”, sido auxiliado por forças demoníacas?

Não, não, Espinosa não acreditava no Diabo e tampouco em espíritos malignos a seduzir os desavisados... Mas no que ele cria, afinal? Sabe-se que muitas vezes são intitulados ateus aqueles que se voltam contra as doutrinas religiosas ditas “oficiais”. Espinosa cria na liberdade do pensamento, mas seria somente isso? Ou, no fim das contas, seria toda sua filosofia, o sistema que mudou o mundo ocidental, edificada tão somente em nada mais do que o próprio Deus?

» Na continuação, o pensamento de Espinosa

***

Crédito da imagem: Stefano Bianchetti/Corbis.

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2 comentários:

Blogger Ricardo disse...

Caro Raph:
Também tenho o livro "Iluminismo Radical". Adquiri-o depois de um amigo ter comentado o quanto se destacava o protagonismo de Spinoza no texto. Sinceramente, entretanto, não o li ainda.
Neste sentido, seu texto foi muito bom, porque já "adiantou o expediente" - rsss.
Fiquei, entretanto, um pouco intrigado com o "rótulo" dado a Spinoza de "deísta". Como todo rótulo, ele é relativamente frágil, pois normalmente representa apenas uma faceta do pensador - por vezes, nem é aquela mais "destacada". Além disso, é necessário "especificar" bem o que aquela mera palavra quer dizer.
No caso específico de Spinoza, acho que esse "rótulo" engana sobre o conteúdo do "produto".
Vejamos. Se "deísmo" for apenas a racionalização da religião, podemos até admitir que Spinoza teria uma espécie de religião natural em seu sistema metafísico. Entretanto, o deísmo, em sua forma mais divulgada, não para aí. Ele acredita em uma criação efetiva do mundo por Deus. Há a discussão se esse Deus é apenas criador ou, além disso, também mantenedor da ordem do mundo... mas isso seria outra parte da discussão. O fato é que, para Spinoza, essa criação não existe. Aliás, a transcendência deste Deus em relação à sua criação seria outro fato a afastar o deísmo do pensamento spinozano.
Imagino, portanto, que haveria necessidade de circunscrever melhor o conceito de deísmo, a fim de poder "encaixá-lo" no que seria o pensamento de Spinoza.
Gostei da outra parte do seu texto, com uma rápida apresentação da filosofia spinozana. É sempre bom ver o luso-holandês aparecendo nesses nossos tempos.
Valeu pela dica de leitura deixada lá no meu blog.
Abração.

10/6/11 18:48  
Blogger raph disse...

Oi Ricardo,

Realmente o "Iluminismo Radical" vale a pena para qualquer fã do pensamento de Espinosa, embora muitos trechos históricos possam ser maçantes, principalmente os que estão totalmente fora do contexto da filosofia espinosiana. Mas para quem gosta de história e política tanto quanto filosofia, nem vai se importar :)

Acredito que existam tantas interpretações da filosofia de Espinosa quanto as grafias de seu nome... Ou seja, não importa se usam rótulos de deísta, panteísta, ateísta, ou etc., assim como não importa se o chamam de Baruch Spinoza, Benedito de Espinoza ou Bento Espinosa, no fim estamos todos interpretando a filosofia de um grande sábio de seu tempo.

Eu falo sobre isso na segunda parte, de como Espinosa foi, e ao mesmo tempo não foi: deísta, panteísta, ateu, determinista, etc.

Uma das passagens mais interessantes do "Iluminismo Radical" é a que mostra escritores que comparavam a filosofia de Espinosa a cabala judaica... Teriam razão? Certamente, pois Espinosa não precisava seguir a cabala para que os místicos encontrem analogias entre a sua filosofia e a deles... Isso somente demonstra o quanto seu pensamento foi abrangente e deu margem a inúmeras interpretações. Nesse caso, a crença do próprio Espinosa fica em segundo plano, embora certamente estivesse longe de ser algum místico no sentido estrito do termo.

Abs!
raph

11/6/11 12:23  

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