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9.12.11

A pós-mitologia e o batismo

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 244 a 246. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

Nos estágios posteriores de muitas mitologias, as imagens-chave se ocultam como agulhas num palheiro de anedotas secundárias e de racionalizações; pois quando a civilização passa para um ponto de vista secular, as velhas imagens já não são sentidas ou muito aprovadas [1]. Na Grécia helênica e na Roma imperial, os deuses antigos foram reduzidos a meros patronos cívicos, mascotes domésticos ou preferências literárias [2]. Temas herdados não compreendidos, tais como o do Minotauro – o aspecto negativo, sombrio e terrível da velha representação egípcio-cretense do deus sol encarnado e rei divino –, foram racionalizados e interpretados para servirem a fins contemporâneos.

O monte Olimpo tornou-se uma Riviera, plena de escândalos e negociatas escabrosas, tornando-se as mães-deusas ninfas histéricas [3]. Os mitos eram lidos como romances super-humanos. Na China, comparavelmente, onde a força humanista e moralizadora do confucionismo conseguiu esvaziar razoavelmente as velhas formas míticas de sua grandeza primeva, a mitologia oficial hoje não passa de um amontoado de anedotas a respeito dos filhos e filhas dos funcionários provinciais. [...] E no moderno cristianismo progressista, o Cristo – encarnação do Logos e Redentor do Mundo – torou-se, essencialmente, personagem histórico, um inofensivo sábio do campo, do passado semioriental, que pregou uma doutrina benigna do “fazei aos outros o que quereis que façam a vós” e, não obstante, foi executado como criminoso [4]. Sua morte é interpretada como uma esplêndida lição de integridade e firmeza.

Sempre que é objeto de uma interpretação que a encara como biografia, história ou ciência, a poesia presente no mito fenece. As vívidas imagens estiolam-se em fatos remotos de um tempo ou céu distantes. Ademais, jamais há dificuldades em demonstrar que a mitologia, tomada como história ou ciência, é um absurdo. Quando uma civilização passa a interpretar sua mitologia desse modo, a vida lhe foge, os templos transformam-se em museu e o vínculo entre as duas perspectivas é dissolvido. Uma tal praga certamente se abateu sobre a Bíblia e sobre grande parte do culto cristão.

Para levar essas imagens a recuperar vida, devemos procurar, não aplicações interessantes a temas modernos, mas indícios que nos tragam a luz do passado inspirado. Quando esses indícios iluminadores são encontrados, vastas áreas da iconografia semimorta voltam a revelar seu sempiterno sentido humano [5].

No Sábado Santo da Igreja Católica [...] há um ritual onde os sacerdotes abençoam a água da pia batismal: “A fim de que, tendo concedido a santificação, esta divina fonte faça sair do seu seio puríssimo uma raça celeste, regenerada em criaturas novas, e que a graça, como uma mãe, dê a mesma vida de filhos a todos aqueles que o sexo distingue segundo o corpo, e a idade, segundo o tempo”. O sacerdote toca a água e reza para que ela seja liberta da malícia de Satanás [6], faz o sinal da cruz acima da água, [...] mergulha o círio pascal e profere: “Que a virtude do Espírito Santo desça sobre toda a água dessa fonte [...] E torne fecunda toda a substância dessa água, dando o poder de regenerar”.

[...] A água, feminina, espiritualmente fecundada pelo fogo, masculino, do Espírito Santo, é a contraparte cristã da água da transformação, comum a todos os sistemas de imagens mitológicas [7]. Esse rito é uma variante do casamento sagrado, que se configura como o momento-fonte gerador e regenerador do mundo e do homem, o que é precisamente o mistério simbolizado pela trindade hindu. Entrar nessa fonte equivale a mergulhar no reino mitológico; romper-lhe a superfície significa cruzar o limiar que leva ao mar da escuridão. Simbolicamente, a criança faz essa jornada quando a água lhe é espargida na testa; seu guia e seus auxiliares são o sacerdote e os padrinhos [8]. Seu alvo é uma visita aos pais do seu Eu Eterno, o Espírito de Deus e o Seio da Graça. Depois disso, é devolvida aos seus pais de corpo físico.

Poucos vislumbram o sentido do rito do batismo, que constituiu nossa iniciação na Igreja. Não obstante, esse sentido aparece claramente nas palavras de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, aquele que ao nascer de novo não poderá ver o reino de Deus”. Nicodemus lhe disse: “Como poderá um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?”. Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, aquele que não nascer da água e do espírito não poderá entrar no reino de Deus” (João, 3:3-5) [9].

A interpretação popular do batismo é de que ele “retira a mácula do pecado original”, recaindo a ênfase antes sobre a ideia de purificação do que sobre a do renascimento. Trata-se de uma interpretação secundária. Ou, quando é lembrada a imagem tradicional do nascimento, nada é dito a respeito do casamento antecedente. Os símbolos mitológicos, entretanto, devem ser seguidos em todas as suas implicações antes de abrirem as portas que levam a todo o sistema de correspondência por meio do qual representam, em termos de analogia, a milenar aventura da alma.

***

[1] É então que “mitos são mentiras, deuses são como o Papai Noel, e histórias de heróis coisa para quem curte gibis”. E quase ninguém mais sabe realmente o que diabos é uma metáfora, ou interpretação de textos poéticos (digo, de verdade)...

[2] A “pós-mitologia” (termo que criei apenas para relacionar ao pós-modernismo), portanto, não é coisa dos tempos modernos, mas algo próprio de toda interpretação superficial e “diluída” de qualquer mitologia. Poderia até dizer que a grande maioria dos ditos religiosos se atém a uma pós-mitologia de suas próprias doutrinas, mas isso é uma outra história; Em todo caso, Campbell tocará no tema a seguir, falando sobre o ritual do batismo.

[3] Hoje as ninfas histéricas são as grandes atrizes e cantoras do show business, isto é, desde que tenham tido escândalos suficientes na vida, ou algum grandioso talento artístico (embora este caso seja bem mais raro), para continuarem a ocupar o Noticiário do Olimpo por anos a fio.

[4] Mas essa “desmitualização” de Jesus não é de todo ruim, pois nos relembra que ele era, afinal, apenas um homem, e não Deus. Pensar assim não é reduzir a Jesus, mas sim colocar ao Cristo em seu devido lugar cósmico. E, a meu ver, o fato de Jesus ter sido um homem, falível, é motivo de o admirarmos ainda mais: enquanto homem, e não enquanto Deus.

[5] Os mitos não existem, no sentido de serem símbolos criados a partir da interação humana com a vasta natureza a sua volta. Mas, por outro lado, eles existem eternamente, já que parecem ser a única forma que encontramos para falar sobre aquilo que não pode ser descrito por mera linguagem... Apenas é sentido, apenas existe: a inefável natureza da Natureza.

[6] Que, por sua vez, só pode ser corretamente compreendido se retornarmos ao mito de Prometeu e o roubo do fogo divino... O que é muito, muito distante, de um ser supremo que rivaliza com Deus numa espécie de Mercado de Almas.

[7] Se algum dia se sentiu “transformado” lendo este blog, talvez seja pelo fato do fogo de seu próprio espírito ter se misturado com a água que corre ali em cima, no pano de fundo da tela... Contanto que compreenda isso como uma metáfora, estará bom.

[8] Obviamente que no caso do batismo católico o ritual serve muito mais aos pais, e sacerdotes, do que a criança em si, que em todo caso não se lembrará de ter “se convertido” a Igreja alguma.

[9] Essa é uma das passagens mais belas e profundas do Novo Testamento, e uma das poucas onde Jesus dialoga com um homem culto, ou seja, alguém que detém teoricamente um conhecimento elevado das Escrituras e seus simbolismos. A despeito da dificuldade do fariseu em compreender ao Rabi da Galiléia, fico feliz por este trecho, genuinamente gnóstico, ter sido mantido... Talvez por que os escribas de Constantino tampouco o compreenderam. Afinal, como complementou Jesus: “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?”

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Crédito da imagem: Chris Carroll/Corbis

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2 comentários:

Blogger Rafael disse...

Raph, excelent post.

Ao terminar de lê-lo, tive uma súbita (mas talvez reincidente) compreensão do que de fato representa a “queda do homem”. Indiferente, se é pelo torpor misantrópico daquele não compreende com o coração e nem adapta as Escrituras à realidade, ou se é pela negligência completa ao Sagrado daquele que iludido com o palpável material nega a beleza e o sentido na poesia da arte de transcender. Então, esta “queda” é a ignorância, o rompimento com o a substância etérea do mito, e o resultado é toda barbárie encontrada entre nós desde muito tempo atrás. Neste rompimento, nossa consciência fica isolada, à deriva, e a moralidade torna-se tão subjetiva, que um assassino pode argumentar que seu crime é um benefício...

12/12/11 13:07  
Blogger raph disse...

Exato, é o que Campbell parece ter tentado dizer com: "Sempre que é objeto de uma interpretação que a encara como biografia, história ou ciência, a poesia presente no mito fenece."

Ou seja, mesmo a interpretação literal da Bíblia toma o mito por história ou biografia.. Não é muito diferente da interpretação materialista (radical) de que "é tudo uma fábula sem conexão com a realidade".

No caso dos que lêem os mitos "ao pé da letra", há uma dissociação da realidade no sentido da abundância da imaginação. No caso dos materialistas, há uma dissociação da realidade no sentido da praticamente ausência da imaginação (ou seja, na prática eles creem que a subjetividade "não faz parte da realidade")...

Por isso que precisamos tentar percorrer o caminho do meio, sem cair em nenhum dos extremos. A poesia se esvai nos extremos.

Abs
raph

12/12/11 14:13  

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