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23.1.12

O manifesto pirata

O texto abaixo é quase uma espécie de manifesto pró-pirataria na web, feito em forma de nota pelo site Pirate Bay. Podemos ser contra a pirataria em muitos casos (principalmente pirataria da obra de pequenos artistas, fora da "grande indústria"), mas realmente o que as grandes corporações de mídia americanas estão tentando fazer com a web em seu país é indiscutivelmente ridículo - particularmente se considerarmos a origem das mesmas. Vejam só que interessante:


Há mais de um século, Thomas Edison conseguiu a patente para um aparelho que faria “para o olho o que o fonógrafo fez para o ouvido”. Ele o chamou de cinetoscópio [Kinetoscope]. Edison não foi apenas o primeiro a gravar vídeo, mas foi também a primeira pessoa a ser dono do copyright de um filme cinematográfico.

Por causa das patentes de Edison para filmes cinematográficos, quase foi financeiramente impossível criar filmes de cinema na costa oeste norte-americana. Os estúdios de cinema, assim, mudaram para a Califórnia e fundaram o que hoje chamamos de Hollywood. A principal razão é que ali não haviam patentes.

Não havia também nada de copyright, então os estúdios podiam copiar velhas histórias e fazer filmes a partir delas – como Fantasia, um dos maiores hits da história da Disney.

Portanto, toda a base dessa indústria, que está hoje aos gritos sobre perda de controle sobre direitos não-materiais, é que eles driblaram direitos não-materiais. Eles copiaram (ou, de acordo com sua terminologia, "roubaram") as obras criativas de outras pessoas sem pagar por isso. Eles o fizeram para obter grandes lucros. Hoje, eles são todos bem-sucedidos e a maior parte dos estúdios está na lista da Fortune das 500 empresas mais ricas do mundo. Parabéns – está tudo baseado em ser capaz de reutilizar criações de outras pessoas. E hoje eles detém os direitos das criações de outras pessoas. Se você quer lançar alguma coisa, você tem que seguir as regras deles. As regras que eles criaram depois de driblar as regras de outras pessoas.

A razão pela qual eles estão sempre reclamando dos “piratas” hoje é simples. Nós fizemos o que eles fizeram. Nós driblamos as regras que eles criaram e criamos as nossas próprias. Nós esmagamos o seu monopólio ao dar às pessoas algo mais eficiente. Nós permitimos que as pessoas tenham comunicação direta entre si, driblando o intermediário lucrativo, que em alguns casos levar mais que 107% dos lucros (sim, você paga para trabalhar para eles).

Tudo se baseia no fato de que representamos competição.

E a parte engraçada é que as nossas regras são muito similares às ideias que fundaram os EUA. Lutamos pela liberdade de expressão. Enxergamos as pessoas como iguais. Acreditamos que o público, não a elite, deveria governar a nação. Acreditamos que leis deveriam ser criadas para servir o público, não corporações ricas.

O Pirate Bay é uma comunidade verdadeiramente interacional. Nossa equipe está espalhada por todo o globo – mas ficamos fora dos EUA. Temos raízes suecas e um amigo sueco nos disse isso:

A palavra SOPA significa “lixo” em sueco. A palavra PIPA significa “um cano” em sueco. É claro que isso não é coincidência. Eles querem tornar a internet um cano de mão única. Eles por cima empurrando lixo cano abaixo para o resto de nós, consumidores obedientes.

A opinião pública nesse assunto é clara. Pergunte a qualquer um na rua e você vai descobrir que ninguém quer ser alimentado com lixo. Por que o governo americano quer que o povo americano seja alimentado com lixo foge à nossa compreensão, mas esperamos que você o impeça, antes que afoguemos todos.

A Sopa não pode fazer nada para brecar o Pirate Bay. Na pior das hipóteses, mudaremos o domínio principal: do atual .org para uma das centenas de nomes que também já usamos. Em países onde estamos bloqueados (os nomes China e Arábia Saudita são os primeiros que vêm à cabeça), eles bloqueiam centenas de nomes de domínios nossos. E adianta? Não muito.

Para consertar o “problema da pirataria” deveria se ir à raiz do problema. A indústria do entretenimento diz que eles estão criando “cultura”, mas o que eles realmente fazem é vender coisas como bonecas caríssimas e fazer meninas de 11 anos se tornarem anoréxicas. Seja de trabalhar nas fábricas que criam as bonecas por praticamente salário nenhum, seja por assistir filmes e programas de TV que as fazem pensar que são gordas.

No grande jogo de computador de Sid Meiers, Civilization, você pode construir maravilhas do mundo. Um dos mais poderosos é Hollywood. Com ele, você controla toda a cultura e mídia do mundo. Rupert Murdoch ficou feliz com MySpace e não via problemas com sua própria pirataria até seu fracasso. Agora ele reclama que o Google é a maior fonte de pirataria do mundo — porque ele está com ciúmes. Ele deseja manter seu controle mental sobre as pessoas e está claro que você consegue uma visão mais honesta das coisas na Wikipedia e no Google do que na Fox News.

Alguns dos fatos (anos, datas) nesse texto estão provavelmente erradas. O motivo é que não podemos acessar essas informações quando a Wikipedia está fora do ar. Por causa da pressão de nossos rivais decadentes. Pedimos desculpas por isso.


Obs: se você também ficou enfurecido porque não consegue mais baixar séries de TV americanas pela web (e, digo isso, porque inclusive algumas delas sequer passam aqui no Brasil), talvez se interesse por essa campanha do Morte Súbita Inc.:

Copyright é Racismo! Diga Não!


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Crédito da imagem: Pirata!

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6.1.12

Um átomo no universo

Eras sobre eras
antes que quaisquer olhos pudessem ver
ano após ano
trovejosamente batendo na praia como agora.
Para quem? Para que?

Num planeta morto
sem vida alguma para entreter.
Nunca a descansar
torturado pela energia
desgastado prodigiosamente pelo sol
derramado pelo espaço.
Um ácaro faz o mar bramir.

Fundo no oceano
todas as moléculas repetem
os padrões de uma outra
até que novas e complexas são formadas.
Elas fazem outras como elas
e uma nova dança se inicia.

Crescendo em tamanho e complexidade
coisas vivas
massas de átomos
DNA, proteína...
Dançando num padrão ainda mais intrincado.

Saindo do berço
para terra seca
aqui estão
de pé:
átomos com consciência;
matéria com curiosidade.

De pé a encarar o mar, refletindo:
Eu, um universo de átomos...
Um átomo no universo.

Poema sem título por Richard Feynman, prêmio Nobel de física de 1965 (traduzido do inglês por Rafael Arrais); Retirado de The Value of Science - an address to the National Academy of Sciences (1955).

» Veja também um vídeo deste poema (em inglês)

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Crédito da foto: Shelley Gazin/Corbis (Feynman)

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16.12.11

Tendências da fé, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 66 a 70. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

O mundo árabe – incluindo os países muçulmanos das regiões central e sul da Ásia
O mundo árabe em geral apresenta uma cenário religioso uniforme, assim como os países muçulmanos de outras partes do mundo. Nos lugares onde o Islã reina, dificilmente há espaço para outras religiões, exceto alguns pequenos grupos tradicionais, como os cristãos cópticos no Egito, os cristãos armênios e zoroastrianos no Irã, os mandeístas no Iraque e os cristãos siríacos no Líbano.

A principal divisão no Islã é entre sunitas e xiitas, mas existem também grupos menores de longa e rica tradição. O Sufismo, por exemplo, a variação mística do Islã, conhecido pelas práticas religiosas extáticas como a dança dos dervixes e pela poesia, tende a ser mais tolerante em relação às outras religiões do que o Islã “normal”, que é, acima de tudo, totalmente baseado no Alcorão e se opõe à expressão religiosa pessoal dos sufistas [1]. O mesmo se aplica aos ismaelitas, que vivem na Síria e em outros tempos dominavam o mundo árabe, do Marrocos ao Iraque; o fato de que os judeus e os cristãos podem viver em paz na Síria e no Líbano se deve principalmente à tolerância dos ismaelitas.

As últimas décadas presenciaram um fortalecimento do fundamentalismo nos países muçulmanos. Com origem em países bem organizados, como o Egito e a Arábia Saudita, o movimento fundamentalista se espalhou para todos os cantos do mundo, principalmente para os países muçulmanos com governos centrais enfraquecidos, como o Afeganistão e o Iêmen, e para regiões com uma grande diáspora [2] muçulmana, como a Europa Ocidental. Dessa forma, existem cerca de 20 milhões de muçulmanos vivendo na Europa atualmente [3].

A principal característica dos vários países muçulmanos é que a religião está ganhando espaço nos assuntos políticos e judiciais. Essa tendência é chamada de “Islamitismo”. Em países como a Malásia e Indonésia, há partidos islamitas de linha dura que querem impor a lei islâmica a todos os habitantes do país, até a quem não for muçulmano. Na Indonésia, onde 90% das pessoas são muçulmanas, vários governos regionais aprovaram leis inspiradas na charia, incluindo condutas obrigatórias de vestimentas, testes de leitura do Alcorão para os alunos e casais que desejam se casar, além de grupos de combate a vícios estruturados de maneira vaga, inspirados naqueles da Arábia Saudita e no Afeganistão na era do Talibã. Em 2008, o governo da Indonésia aprovou uma lei antipornografia, cujas restrições referentes às vestimentas e expressão artística puniram grupos de não muçulmanos, banindo a cultura tradicional balinesa e prejudicando sua economia, que depende do turismo na ilha [de Bali] [4].

Índia
Tradicionalmente, a Índia é uma região onde a religião e a espiritualidade desabrocharam. Ao caminhar pelas ruas de Varanasi, em Nova Délhi, Bombaim, Amritsar ou Jaipur, pode-se sentir e ver religião em cada esquina, seja Hinduísmo, Islã, Budismo, Sikhismo, Jainismo ou Zoroastrismo. Por muito tempo, a Índia teve soberanos religiosos. Em aproximadamente 250 d.C., o Rei Ashoka, que era budista, governou o Império Máuria, que ocupava a região que hoje vai do Afeganistão a Bangladesh. Sob o domínio hindu, o subcontinente indiano foi governado por reis feudais locais, chamados de maharajas. Nos séculos 17 e 18, essa Grande Índia foi novamente unificada e governada por imperadores mongóis e muçulmanos. Em 1947, com a saída dos colonizadores britânicos, e região foi dividida em República da Índia (hindu), Bangladesh e Paquistão (muçulmanos). Os governos que se instalaram nesses três países foram explicitamente seculares, em uma tentativa de acalmar as tensões religiosas.

Na Índia, há uma minoria muçulmana tradicionalmente tranquila, tolerante e não ortodoxa. Porém, influenciados pelo movimento islamita internacional, que possui esconderijos no vizinho Paquistão, os conflitos entre os muçulmanos e hindus na Índia estão aumentando de novo. [...] Ao mesmo tempo, a religião predominante na Índia, o Hinduísmo, perdeu influência na vida da população por causa dos governos seculares.

O sistema de castas da Índia foi oficialmente abolido com a Constituição de 1947. Para os chamados dalits, os 16,2% da população indiana sem casta e considerados “intocáveis”, isso fez uma grande diferença. O governo indiano fornece aos dalits bolsas de estudo em universidades e depois os contratam como funcionários públicos [5]. Historicamente, como sua posição na classe social inferior foi automaticamente associada a ocupações consideradas impuras, os dalits trabalhavam principalmente como artesãos, limpando latrinas e canos de esgoto ou então varrendo ruas. Hoje, trabalham como engenheiros, médicos, advogados, arquitetos, gerentes, profissionais de TI e empresários de sucesso. Até o atual Presidente Pratibha Patil da Índia é descendente dos dalits.

Porém, o sistema de castas ainda predomina em grandes regiões rurais da Índia, apesar da política secular oficial do governo. Mas, em uma cultura global, com televisão em todos os vilarejos, as pessoas podem ver que existem outras formas de viver. Atualmente, muitos dalits de regiões rurais da Índia se convertem ao Marxismo ou Cristianismo em busca de emancipação.

China
A China tem uma história religiosa muito rica. Chang’an, a antiga capital chinesa durante a Dinastia Tang (618-907), era a cidade mais cosmopolita do mundo, com mais de 1 milhão de habitantes, e tolerância religiosa total. Como era o ponto final da Rota da Seda, a cidade atraía muitos estrangeiros, de localidades distantes, como Japão, Pérsia, Império Khmer e Bizâncio. Os mosteiros budistas ficavam ao lado dos santuários confucianos, os templos zoroastrianos próximos às igrejas cristãs nestorianas. As santidades taoistas e os altares nas residências eram utilizados para venerar os antepassados. Muitos dos imperadores eram budistas, outros eram confucianos e alguns eram ateus [6].

Depois de 1949, quando o Partido Comunista assumiu o controle do Império do Meio, a religião foi desencorajada porque, como Marx tinha dito: “a religião é como ópio para as pessoas”. Mas a religião nunca desapareceu por completo, pois os seguidores continuaram suas práticas silenciosamente com os altares montados em suas casas [7].

Depois que a China abriu sua Cortina de Bambu em 1979, a religião começou a ser tolerada novamente. Em 1982, a liberdade religiosa se tornou parte da Constituição da China; porém, essa tolerância ficou limitada a cinco religiões: Budismo, Taoísmo, Islã, Protestantismo e Catolicismo. As outras religiões ainda encontram repressão. O novo movimento religioso Falun Gong, baseado nas práticas qigong tradicionais, como tai chi e controle da respiração, mas que também enfatiza os conceitos morais e as virtudes como o pacifismo, cresceu rapidamente na década de 1990: as fontes do governo chinês indicam que havia 70 milhões de adeptos no país até o ano de 1998. O Partido Comunista começou a se sentir ameaçado por essa nova “seita” e baniu-a em 1999. Em 2001, esmagaram o Falun Gong, que o governo considerou algo inaceitável, depois que 10.000 membros do movimento foram a Pequim protestar por causa de seu ostracismo oficial. Entretanto, outras religiões seguem bem, contanto que não interfiram na política oficial [8].

[...] Uma das religiões que está claramente em alta na China é o Budismo. Tradicionalmente, era popular entre os pobres da China, simplesmente porque o Budismo prega a aceitação dos fardos mundanos e enfoca o esclarecimento pessoal e o futuro. Essa aceitação impede que os não religiosos se revoltem contra os religiosos e pode explicar a tolerância do Presidente Hu Jintao. A população rica da China tradicionalmente apresentava uma tendência maior ao Taoísmo, porque este enfoca o aqui e o agora, principalmente o viver em harmonia com o acúmulo de riquezas. Mas, atualmente, a população bem-sucedida da China apresenta uma tendência maior ao Budismo. Para os jovens estressados, é uma pausa nos conflitos e competições.

A popularidade crescente da fé reflete um desejo por um sentido na China, com muitas pessoas cada vez mais atraídas aos ensinamentos do Budismo de rejeição ao materialismo e ênfase na natureza da vida transitória. [...] O Islã também está crescendo na China. Tradicionalmente, há comunidades muçulmanas relativamente grandes nas principais cidades, a maioria da tribo Hui. No estremo ocidente da China, na Província de Xinjiang, os povos Uygur e Kirgyz acentuam suas razões islâmicas, em parte para proteger a cultura local e enfatizar sua tendência ao separatismo político.

[...] Uma outra religião que está bem na China é o Cristianismo. Os números oficiais mostram que a quantidade de cristãos aumentou de 14 milhões em 1997 para 21 milhões em 2006, mas esses dados excluem as igrejas nos lares e as igrejas clandestinas. Uma estimativa modesta diz que, em 2010, havia mais de 80 milhões de cristãos na China. As igrejas nos lares são particularmente populares, embora o governo tenha estabelecido um limite informal de 25 pessoas para cada “reunião religiosa não autorizada”.

Em seu livro O regresso de Deus, Micklethwait e Wooldridge sugerem que os chineses são atraídos ao Cristianismo porque cada cidade chinesa possui um clube ou rede de cristãos empresários e pessoas que querem se juntar ao clube dos bem-sucedidos. Os pesquisadores mencionam um depoimento de um convertido: “Na Europa, a igreja é velha. Aqui, é moderna. A religião é um sinal de ideais superiores e progresso. A riqueza espiritual e a riqueza material andam juntas. É por isso que vamos vencer” [9].

***

[1] Toda grande religião tem sua vertente mística e verdadeiramente esotérica. No Islã, o sufismo; No cristianismo, os gnósticos e martinistas; No judaísmo, a Cabala (kabbalah), etc. Como todos estes são geralmente mais religiosos que eclesiásticos, se preocupam muito mais em sua religação com Deus (religare) do que em ditar preceitos morais e/ou importunar os praticantes de outras religiões com tentativas de “evangelização forçada”; E tampouco se preocupam em participar de uma elite de “escolhidos por Deus”, pois que em todo o canto que olham veem a verdade: que só existe um Deus, e que ele preenche todo o Cosmos (incluindo nós mesmos).

[2] Comunidades religiosas provenientes de migrações.

[3] Kadafi uma vez chegou a admitir que o “plano muçulmano” era “conquistar” a Europa pelas altas taxas de natalidade. Como vimos, à juventude muçulmana realmente cresce em todo mundo, mas o resultado não foi muito favorável aos ditadores islâmicos...

[4] Uma charia no desfile de Carnaval carioca deveria afetar o turismo no Brasil de forma bem semelhante. Sorte que escapamos dessa.

[5] Nesse sentido, governos seculares foram uma grande benção para a Índia... Há que se ter equilíbrio e harmonia numa sociedade, e às vezes uma visão mais secular e pragmática é necessária ao progresso. O sistema de castas é a grande “chaga cármica” da Índia.

[6] Parecem fábulas, mas em momentos de nossa história, grandes metrópoles ecumênicas efetivamente existiram. Que a antiga Atenas, Chang’an, Al Andalus e a Nova Iorque do final do século 20 não sejam jamais esquecidas, como exemplos de como a humanidade pode conviver em liberdade e tolerância. Esperamos que o Brasil hospede uma dessas, em se consolidando como potência mundial.

[7] Quem compreende a reencarnação sabe que a religiosidade humana jamais desaparecerá, por mais que se exterminem todos os religiosos de um povo – enquanto existir seu povo, eles voltam, eles sempre voltam...

[8] O governo chinês finge que preza a liberdade e os direitos civis, e os governos do resto do mundo fingem que acreditam. Enquanto a balança comercial com a China lhes favorecer, para eles estará bom assim.

[9] Algo me diz que a “teologia da prosperidade” também fará muito sucesso lá do outro lado do globo. Para o deus do consumo, estará tudo muito bom.

***

Crédito das imagens: [topo] Reza/Webistan/Corbis (um dervixe dançando); [ao longo] Paul Howard/Demotix/Corbis (protesto pacífico de seguidores do Falun Gong, em frente a embaixada da China em Londres; eu optei por não mostrar imagens de torturas praticadas pelo governo chinês em praças públicas, mas está tudo no Google).

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15.12.11

Tendências da fé, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus” (A Girafa) – pgs. 62 a 65. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

América Latina
Originalmente, antes de os conquistadores espanhóis e outros europeus colonizarem o continente, a América Latina era dominada por religiões indígenas, algumas delas bem pequenas e locais, e outras maiores, como as religiões dos povos Maias e Astecas. Os europeus trouxeram o Cristianismo para o continente [1] e depois outras influências religiosas foram introduzidas, por exemplo, a tradição Yorubá, que foi trazida com os escravos importados da África.

Nas décadas de 1970 e 1980, a América Latina presenciou o nascimento e o crescimento da chamada Teologia da Libertação, um movimento dentro do Cristianismo que interpreta a Bíblia em termos de libertação da injustiça política, econômica e social. Tornou-se popular principalmente na Igreja Católica Romana, mas depois virou um movimento interdenominacional. Os padres se tornaram politizados, em uma tentativa de emancipar e elevar as massas, empregando palavras como “luta de classe” em seus sermões e reunindo seus seguidores em megaigrejas e práticas ao ar livre.

No início, a Igreja Católica via esse movimento como uma renovação da mensagem de Cristo, mas quando a Teologia da Libertação ficou mais marxista, o Vaticano reagiu, excomungando alguns de seus porta-vozes mais importantes [2]. Quando, na década de 1990, o neoliberalismo assumiu o cenário mundial e o Marxismo foi de repente visto como ultrapassado, a Teologia da Libertação perdeu grande parte de sua influência.

Desde então, a função da emancipação da Teologia da Libertação foi assumida pelo Cristianismo Evangélico e pelas Igrejas Carismáticas. Essas igrejas (por exemplo, a Igreja Pentecostal), não enfatizam a luta de classe e a emancipação de classe, mas se concentram na capacitação e na realização pessoais. Essas igrejas não são hierárquicas, como a Igreja Católica, e portanto “praticam o que pregam” – uma estratégia convincente [3].

Durante a sua história, a maioria dos países da América Latina recebeu novos grupos de imigrantes, o que resultou em um tipo de sociedade multicultural na qual as pessoas tendem a tolerar mais outras religiões. Por exemplo, o Suriname, onde nasceu um dos autores deste livro, é um país cuja população inclui descendentes de colonizadores brancos, escravos negros, trabalhadores indianos e indonésios, refugiados judeus e comerciantes chineses, entre outros. Esses grupos realizaram casamentos entre si, mas as religiões originais dos respectivos grupos ainda existem em Paramaribo, a capital do país. De fato, a mesquita e a sinagoga estão localizadas uma ao lado da outra e não há conflitos religiosos. O Oriente Médio deveria considerar essa tolerância como exemplo! [4]

Um outro fenômeno que pode ser visto com frequência no Suriname é que tanto os cristãos quanto os judeus e hindus recorrem ao Winti, tradição afro-surinamesa ligada ao Candomblé, Vudu e Santeria, à procura de cura ou magia, quando sua religião principal não oferece uma solução forte o suficiente para o seu problema [5]. A cultura latino-americana e os “novos países”, como o Brasil, que ainda atraem muitos migrantes, mostram hoje um caminho com tendência à tolerância religiosa e às práticas espirituais híbridas. Em um mundo que está cada vez mais multicultural, esses modelos podem ser vistos como “o futuro de Deus” [6].

Como o Cristianismo foi a religião dos colonizadores que dominaram a América, ele se tornou a fé principal; Porém, elementos e influências indígenas ancestrais e locais foram integrados e formaram-se novos rituais e práticas. Mais recentemente, com o fortalecimento da autoconfiança e do orgulho dos povos nativos da América Latina, a cultura, incluindo suas religiões e costumes éticos originais, ganhou mais destaque novamente. Na Bolívia, por exemplo, nas áreas montanhosas onde as leis modernas nunca tiveram muita influência, os antigos costumes nativos de praticar justiça estão sendo utilizados novamente, em um processo de descolonização do sistema legal. Entretanto, isso realmente significa que, quando alguém é pego roubando em um vilarejo na região montanhosa da Bolívia, o gatuno corre o risco de ser açoitado no local pelas pessoas ao redor.

No Brasil, o uso de plantas psicoativas em rituais religiosos está se tornando mais comum nas tribos indígenas novamente, não apenas na região da Amazônia, mas também nas grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo [7]. No México, a adoração de La Santa Muerte (A Santa Morte) é o movimento religioso que mais cresce atualmente, com cerca de 10 milhões de seguidores. Obviamente, há um “Anjo da Morte” na tradição cristã, mas La Santa Muerte da Igreja Apostólica Tradicional do México provavelmente se refere ao deus asteca do submundo, Mictlanteuchitili [8]. Em todos os cantos da América do Sul, estão sendo reintroduzidos elementos das religiões e éticas pré-coloniais.

África
A história da África pode ser comparada a história da América Latina, exceto pelo fato de       que os conquistadores trouxeram ao continente não apenas o Cristianismo, como também o Islã. Uma linha que vai se Serra Leoa na parte ocidental, passa pela Nigéria e pelo Sudão e segue até a região do Vale do Rift na Etiópia, divide os muçulmanos no norte dos cristãos no sul. A região da África quê se parece com um chifre e as áreas costeiras do Quênia e Tanzânia são dos muçulmanos novamente.

No período em que os conquistadores muçulmanos e os colonizadores europeus foram para a África, havia muitas religiões tribais no continente. Algumas delas eram animistas, como a do povo San ao sul, mas a maioria das religiões africanas era teísta. Muitas vezes o deus criador supremo sequer era venerado, e sim os deuses e espíritos inferiores [9]. Em muitas religiões africanas, principalmente entre os sudaneses, surgiu uma tradição de soberania ou chefia sagrada, na qual a posição do rei ou chefe era justificada pela lei divina. A religião egípcia clássica também tornou o seu faraó um ser divino, uma característica influenciada pelas culturas sudanesas.

Algumas religiões africanas possuem mais de um deus, por exemplo, a religião Yorubá da Nigéria e de Benim, cujos deuses são chamados de orixás. Essas divindades representam energias fundamentais, atitudes ou formas de abordar a vida, e nos séculos 17 e 18, foram trazidas para a América Latina com os escravos, onde ainda formam o panteão de religiões latino-africanas, como a Umbanda e o Candomblé (no Brasil), Vodu (no Haiti), Winti (no Suriname) e Santeria (em Cuba).

Quando os árabes e os europeus conquistaram a África, as antigas religiões perderam força e foram substituídas pelo Islã e Cristianismo. A única exceção foi à Etiópia, que tem a tradição do Cristianismo Cóptico, que volta aos tempos bíblicos [10]. [...] Atualmente, a África está na linha de frente da luta entre o Cristianismo e o Islã. Essa luta se intensificou recentemente, com argumentos mais fortes para encorajar a conversão de ambos os lados, com ódio renovado e batalhas sangrentas em países como o Sudão e a Nigéria [11].

Assim como na América Latina, o Cristianismo Evangélico e o Pentecostalismo crescem na África. Uma das razões dessa popularização pode ser a prática religiosa de entrar em transe ao realizar um ato religioso, adotada por quase todas as religiões originais africanas, que se encaixa bem nas práticas “extáticas” dessas igrejas cristãs. Uma outra explicação é que a Igreja Pentecostal pode servir como um veículo para que os membros das classes mais inferiores se libertem, não por meio de uma revolução socioeconômica como a Teologia da Libertação prega, mas pela integração em um movimento religioso que oferece grande mobilidade social interna. Os ideais sociais embutidos no Pentecostalismo incentivam que o pobre rejeite a vida de maus hábitos e excessos e favoreça a economia e a responsabilidade, principalmente em relação á vida em família.

» Na continuação, tendências do mundo árabe, Índia e China.

***

[1] Talvez fosse melhor dizer: forçaram o cristianismo goela abaixo dos nativos, isto é, dos que sobreviveram as chacinas...

[2] Por isso que a religião é livre, e a igreja não. Resta saber de onde tiraram a ideia de que Jesus fundou uma igreja...

[3] Obviamente que algumas delas na prática são hierárquicas, pois têm uma “cúpula de liderança” claramente definida. Acredito que não preciso nem dizem quais são, basta ligar a TV aberta na madrugada para assistir a vários dos “chefes de igrejas” discursando, de acordo com o canal sintonizado.

[4] Se fosse viável retirar todos os atuais moradores das zonas de conflito no Oriente Médio e os realocar, por exemplo, nas planícies da Austrália, é bem provável que os conflitos diminuiriam em muito. Às vezes, a “terra santa” é mais um fardo do que uma benção.

[5] As grandes religiões têm muito o quê aprender, em termos de tolerância e ecumenismo, com as tradições religiosas africanas – que, em sua maioria, são bem mais antigas; pelo menos anteriores ao cristianismo e ao islamismo. Também são religiões “sem igreja”, que podem ser praticadas ao ar livre, numa montanha, numa planície, como era o cristianismo primitivo (basicamente, o gnosticismo).

[6] E, talvez, o ditado popular “Deus é brasileiro” acabe fazendo todo o sentido – no futuro...

[7] No caso, os autores estão se referindo principalmente ao Santo Daime.

[8] A Igreja Católica se encontra num grande dilema no México: permitir que o catolicismo local se “misture” com práticas religiosas indígenas antigas, ou perder fiéis para as igrejas evangélicas, em franco crescimento no país – particularmente nas zonas mais pobres.

[9] Acredita-se que o monoteísmo surgiu com o judaísmo, mas se considerarmos que os mitos de doutrinas religiosas ancestrais já compreendiam um “deus criador supremo”, e “deuses secundários inferiores”, pode-se dizer que toda religião teísta já nasceu monoteísta (exceto por algumas poucas que consideravam dois deuses supremos antagônicos, “o bem contra o mal”). Podemos também nos lembrar do estoico Epicteto, que se referia a Zeus como “Deus dos deuses”.
No caso do catolicismo, por exemplo, os anjos e santos vieram preencher a lacuna dos “deuses secundários”. Daí a facilidade com que os escravos africanos que chegaram ao Brasil “adotaram” a religião: cada santo correspondendo a um orixá, muito simples!

[10] O que também inspirou o surgimento de uma curiosa religião jamaicana.

[11] Tudo isso, como sempre, parcamente anunciado pela mídia global. O mundo praticamente ignora as regiões africanas onde não há progresso nem petróleo. E pensar que todos viemos de lá...

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Crédito das imagens: [topo] Axel Koester/Corbis (o culto de La Santa Muerte); [ao longo] Ulysses de Castro (orixás do Dique do Tororó, em Salvador).

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14.12.11

Tendências da fé, parte 1

Texto de Adjiedj Bakas e Minne Buwalda em "O futuro de Deus" (A Girafa) – pgs. 59 a 62. Tradução de Silmara Oliveria. As notas ao final são minhas.

Glocalização é um novo fenômeno, um derivado da crescente globalização. Estamos constatando que as ideias universais e os processos envolvidos na globalização são interpretados e absorvidos de maneiras diferentes, conforme a perspectiva e a história de cada grupo regional, cultural e religioso – isto é, no nível local [1].

Europa e Rússia
O antigo continente europeu foi o lugar onde, após a Revolução Francesa, o Liberalismo, o Humanismo e o Ateísmo começaram a evoluir. Apesar do continente ainda ser predominantemente cristão, com a maioria dos católicos romanos no sul e os protestantes no norte, as sociedades europeias são atualmente caracterizadas pelo multiculturalismo, no qual há coexistência de religiões de todas as partes do mundo, principalmente nas áreas urbanas.

Desde a Segunda Guerra Mundial, o número de cristãos oficialmente afiliados a uma igreja reduziu-se na maior parte da Europa, o que foi interpretado por várias décadas como um sinal de secularização. Mas os cientistas sociais têm uma opinião diferente sobre esse fenômeno, e o chamam de desinstitucionalização.  Frederic Lenoir, editor do Le monde des religions, escreve: “Os indivíduos ultramodernos desconfiam das instituições religiosas [...] e não acreditam mais no futuro brilhante que a ciência e a política sugerem; entretanto, ainda assim deparam com grandes questões sobre sua origem, sofrimento e morte” [2].

E assim descobrimos que, quando questionados, a maioria dos europeus indica que ainda são religiosos ou espiritualmente interessados, mas menos apegados às instituições religiosas que outrora dominavam o continente. Muitos criam sua própria religião pessoal, com elementos do Cristianismo, Paganismo, religiões do Oriente etc. [3] Isso é o que chamamos de individualização da religião.

[...] Na Rússia e em alguns países do antigo Pacto de Varsóvia, a antiga Igreja Ortodoxa Oriental está passando por uma revitalização, mas 70 anos de regras comunistas seculares tiveram sua influência, e a igreja da Rússia não está tendo a mesma força que teve na época czarista [4]. Os membros ortodoxos da Igreja Ortodoxa Russa estão em grande parte inclinados ao nacionalismo político e chauvinismo, mas a maioria dos russos não é ortodoxa e pratica uma forma mais leve e tolerante do Cristianismo Ortodoxo Oriental.

A Igreja Ortodoxa Russa é muito respeitada tanto pelos seguidores quanto por não seguidores, que a veem como um símbolo do patrimônio e da cultura da Rússia. [...] De acordo com uma pesquisa realizada pelo Centro de Pesquisa de Opinião Pública e publicada em 2007, 63% dos entrevistados consideram-se ortodoxos russos, 6% muçulmanos e menos de 1% budista, católico, protestante ou judeu. Porém, as taxas de natalidade na Rússia são muito baixas, exceto nos grupos muçulmanos do Cáucaso, então a porcentagem de muçulmanos na sociedade russa vai aumentar nas próximas décadas [5].

Assim como muitos outros países desenvolvidos, a Rússia está testemunhando uma expansão do Neopaganismo, principalmente nas cidades grandes, como Moscou e São Petesburgo. Os elementos xâmanicos pagãos são associados à mentalidade da Nova Era, à mitologia eslava e as figuras cristãs. O Paganismo Tradicional ainda predomina em áreas siberianas remotas – o termo xamã vem das culturas turco-mongólica e tungúsica, na Sibéria [6].

Os Estados Unidos
O secularismo é muitas vezes explicado como sendo o resultado dos altos níveis de prosperidade, mas os EUA contestam essa afirmação. De acordo com o teólogo e sociólogo norte-americano Peter Berger, a explicação está principalmente no passado. O Iluminismo Europeu foi anticlerical e antirreligioso em sua essência, e o Iluminismo Norte-Americano não. Os intelectuais seculares foram, em todo o caso, muito menos importantes na América. Na Europa, o Iluminismo foi visto como uma libertação da fé, ao passo que nos EUA significava que você tinha a liberdade de seguir a fé de sua escolha.

Um fato crucial que explica o fato de a Europa (Ocidental) secular e a América religiosa terem se distanciado é o desenvolvimento divergente que aconteceu em ambos no século 19. Nos EUA, a dinâmica social foi controlada por todos os tipos de movimento religiosos dissidentes, ao passo que na Europa, o controle ficou nas mãos do movimento trabalhista. Os EUA também eram um país de imigração que recebia muitos refugiados religiosos e onde igrejas exerciam um papel importante de emancipação. Isso significava que a religião era vista de formas bem diferentes nos EUA e na Europa.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Pew Rsearch Center e publicada em 2007, 78,5% dos norte-americanos se consideram cristãos, sendo 51,3% protestantes e 23,9% católicos romanos. O segundo maior grupo é aquele dos “não afiliados”, incluindo agnósticos e ateus, que correspondiam a 16,1% em 2007. A religião nos Estados Unidos não é apenas notável por seu alto nível de aderência se comparada a outros países desenvolvidos, mas também por sua diversidade. Uma das razões é que os imigrantes se atêm ao seu passado religioso e introduzem novas igrejas no país.

Em uma pesquisa de abrangência nacional publicada em 2006, pesquisadores da Universidade de Minnesota descobriram que, apesar da crescente aceitação da diversidade religiosa, havia uma suspeita em relação aos ateus por parte de outros norte-americanos, que os classificavam abaixo dos muçulmanos, recentes imigrantes e outros grupos menores quanto ao “compartilhamento de sua visão sobre a sociedade norte-americana” [7]. Além disso, eles associavam ateus a atributos indesejáveis, como comportamento criminoso, materialismo e elitismo cultural.

Entretanto, o número de norte-americanos que se consideraram não afiliados aumentou de 14,3 milhões em 1990 para 34,2 milhões em 2008, o maior aumento entre todas as “denominações” norte-americanas [8]. Isso não significa necessariamente que os norte-americanos em geral estão ficando menos religiosos; na verdade, os religiosos estão ficando mais ligados às suas crenças. Nos EUA, a mídia e o comércio exercem um papel importante na disseminação de religião e da ética religiosa.

» Na continuação, tendências da América Latina e África.

***

[1] Um curioso exemplo da glocalização da religião são os vários artesanatos do presépio do natal católico, de acordo com a região do globo. Eu recentemente vi um presépio onde os reis magos eram nitidamente andinos, inclusive com roupas de região do Peru.

[2] Há uma espécie de raciocínio “8 ou 80” entre alguns anti-teístas que supõe que qualquer um que não seja filiado há uma igreja, ou que não se declare um “religioso praticante”, seja automaticamente ateu. De certa forma eles têm razão, se considerarmos o ateísmo em sua origem antiga, como uma contestação das doutrinas eclesiásticas oficias... Mas não quer dizer que não creiam mais em Deus, e muito menos que não pratiquem a espiritualidade há seu próprio modo.
Enfim, o Barão de Telve (F.P.) talvez tenha resumido melhor a questão: “Não posso aceitar Jeová, nem a humanidade. Cristo e o progresso são para mim mitos do mesmo mundo. Não creio na Virgem Maria nem na eletricidade.”

[3] Por isso que sempre digo: minha religião é meu pensamento. Para os que consideram isso um egocentrismo, respondo prontamente: Deus é nosso amor. E como poderia ser de outra forma?

[4] Um dos tantos erros graves do comunismo e secularismo conforme praticado na Rússia, como em outros locais do globo, foi pretender eliminar a religião da vida das pessoas, quase como se fosse uma espécie de “ópio para o povo”; Quando ela é muito, muito mais do que uma generalização apressada ad absurdum.

[5] É quase unanimidade entre os pesquisadores da área que o Islã ultrapassará o Cristianismo como um todo em uma ou duas décadas, conforme já ultrapassou o número de católicos no mundo (porém devemos lembrar que o próprio Islã é dividido em vertentes, como os sunitas e xiitas). Como seu crescimento se dá sustentado em altas taxas de natalidade, também será a religião com maior número de jovens do globo (se é que já não é hoje).

[6] O Xamanismo é o exemplo mais antigo da glocalização religiosa no mundo, pois surgiu, sabe-se lá como, em inúmeros pontos do globo, ainda na transição da pré-história para a era atual; Sendo ainda hoje praticado de forma muito parecida por inúmeros povos, primitivos e modernos, em todo o mundo. Claro que, entre os indígenas, o xamã é em realidade o pajé, e assim por diante – mas todos esses termos têm essencialmente o mesmo significado.

[7] Seria tão bom se não houvesse esse deus-barreira se interpondo entre crentes e descrentes. Muito melhor incluir um Deus Cósmico em seu lugar, um Deus que é, sobretudo, amor e conexão. Mas para isso ainda faltará uma “abertura de consciência” mais abrangente no mundo, a glocalização do amor.

[8] Ação e reação, diriam alguns...

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Crédito das imagens: [topo] Andrej Rublev/Corbis (Arcanjo Miguel); [ao longo] Creation Museum (Adão e Eva).

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9.12.11

A pós-mitologia e o batismo

Texto de Joseph Campbell em "O herói de mil faces” (Ed. Cultrix/Pensamento) – pgs. 244 a 246. Tradução de Adail Ubirajara Sobral. As notas ao final são minhas.

Nos estágios posteriores de muitas mitologias, as imagens-chave se ocultam como agulhas num palheiro de anedotas secundárias e de racionalizações; pois quando a civilização passa para um ponto de vista secular, as velhas imagens já não são sentidas ou muito aprovadas [1]. Na Grécia helênica e na Roma imperial, os deuses antigos foram reduzidos a meros patronos cívicos, mascotes domésticos ou preferências literárias [2]. Temas herdados não compreendidos, tais como o do Minotauro – o aspecto negativo, sombrio e terrível da velha representação egípcio-cretense do deus sol encarnado e rei divino –, foram racionalizados e interpretados para servirem a fins contemporâneos.

O monte Olimpo tornou-se uma Riviera, plena de escândalos e negociatas escabrosas, tornando-se as mães-deusas ninfas histéricas [3]. Os mitos eram lidos como romances super-humanos. Na China, comparavelmente, onde a força humanista e moralizadora do confucionismo conseguiu esvaziar razoavelmente as velhas formas míticas de sua grandeza primeva, a mitologia oficial hoje não passa de um amontoado de anedotas a respeito dos filhos e filhas dos funcionários provinciais. [...] E no moderno cristianismo progressista, o Cristo – encarnação do Logos e Redentor do Mundo – torou-se, essencialmente, personagem histórico, um inofensivo sábio do campo, do passado semioriental, que pregou uma doutrina benigna do “fazei aos outros o que quereis que façam a vós” e, não obstante, foi executado como criminoso [4]. Sua morte é interpretada como uma esplêndida lição de integridade e firmeza.

Sempre que é objeto de uma interpretação que a encara como biografia, história ou ciência, a poesia presente no mito fenece. As vívidas imagens estiolam-se em fatos remotos de um tempo ou céu distantes. Ademais, jamais há dificuldades em demonstrar que a mitologia, tomada como história ou ciência, é um absurdo. Quando uma civilização passa a interpretar sua mitologia desse modo, a vida lhe foge, os templos transformam-se em museu e o vínculo entre as duas perspectivas é dissolvido. Uma tal praga certamente se abateu sobre a Bíblia e sobre grande parte do culto cristão.

Para levar essas imagens a recuperar vida, devemos procurar, não aplicações interessantes a temas modernos, mas indícios que nos tragam a luz do passado inspirado. Quando esses indícios iluminadores são encontrados, vastas áreas da iconografia semimorta voltam a revelar seu sempiterno sentido humano [5].

No Sábado Santo da Igreja Católica [...] há um ritual onde os sacerdotes abençoam a água da pia batismal: “A fim de que, tendo concedido a santificação, esta divina fonte faça sair do seu seio puríssimo uma raça celeste, regenerada em criaturas novas, e que a graça, como uma mãe, dê a mesma vida de filhos a todos aqueles que o sexo distingue segundo o corpo, e a idade, segundo o tempo”. O sacerdote toca a água e reza para que ela seja liberta da malícia de Satanás [6], faz o sinal da cruz acima da água, [...] mergulha o círio pascal e profere: “Que a virtude do Espírito Santo desça sobre toda a água dessa fonte [...] E torne fecunda toda a substância dessa água, dando o poder de regenerar”.

[...] A água, feminina, espiritualmente fecundada pelo fogo, masculino, do Espírito Santo, é a contraparte cristã da água da transformação, comum a todos os sistemas de imagens mitológicas [7]. Esse rito é uma variante do casamento sagrado, que se configura como o momento-fonte gerador e regenerador do mundo e do homem, o que é precisamente o mistério simbolizado pela trindade hindu. Entrar nessa fonte equivale a mergulhar no reino mitológico; romper-lhe a superfície significa cruzar o limiar que leva ao mar da escuridão. Simbolicamente, a criança faz essa jornada quando a água lhe é espargida na testa; seu guia e seus auxiliares são o sacerdote e os padrinhos [8]. Seu alvo é uma visita aos pais do seu Eu Eterno, o Espírito de Deus e o Seio da Graça. Depois disso, é devolvida aos seus pais de corpo físico.

Poucos vislumbram o sentido do rito do batismo, que constituiu nossa iniciação na Igreja. Não obstante, esse sentido aparece claramente nas palavras de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo, aquele que ao nascer de novo não poderá ver o reino de Deus”. Nicodemus lhe disse: “Como poderá um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?”. Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, aquele que não nascer da água e do espírito não poderá entrar no reino de Deus” (João, 3:3-5) [9].

A interpretação popular do batismo é de que ele “retira a mácula do pecado original”, recaindo a ênfase antes sobre a ideia de purificação do que sobre a do renascimento. Trata-se de uma interpretação secundária. Ou, quando é lembrada a imagem tradicional do nascimento, nada é dito a respeito do casamento antecedente. Os símbolos mitológicos, entretanto, devem ser seguidos em todas as suas implicações antes de abrirem as portas que levam a todo o sistema de correspondência por meio do qual representam, em termos de analogia, a milenar aventura da alma.

***

[1] É então que “mitos são mentiras, deuses são como o Papai Noel, e histórias de heróis coisa para quem curte gibis”. E quase ninguém mais sabe realmente o que diabos é uma metáfora, ou interpretação de textos poéticos (digo, de verdade)...

[2] A “pós-mitologia” (termo que criei apenas para relacionar ao pós-modernismo), portanto, não é coisa dos tempos modernos, mas algo próprio de toda interpretação superficial e “diluída” de qualquer mitologia. Poderia até dizer que a grande maioria dos ditos religiosos se atém a uma pós-mitologia de suas próprias doutrinas, mas isso é uma outra história; Em todo caso, Campbell tocará no tema a seguir, falando sobre o ritual do batismo.

[3] Hoje as ninfas histéricas são as grandes atrizes e cantoras do show business, isto é, desde que tenham tido escândalos suficientes na vida, ou algum grandioso talento artístico (embora este caso seja bem mais raro), para continuarem a ocupar o Noticiário do Olimpo por anos a fio.

[4] Mas essa “desmitualização” de Jesus não é de todo ruim, pois nos relembra que ele era, afinal, apenas um homem, e não Deus. Pensar assim não é reduzir a Jesus, mas sim colocar ao Cristo em seu devido lugar cósmico. E, a meu ver, o fato de Jesus ter sido um homem, falível, é motivo de o admirarmos ainda mais: enquanto homem, e não enquanto Deus.

[5] Os mitos não existem, no sentido de serem símbolos criados a partir da interação humana com a vasta natureza a sua volta. Mas, por outro lado, eles existem eternamente, já que parecem ser a única forma que encontramos para falar sobre aquilo que não pode ser descrito por mera linguagem... Apenas é sentido, apenas existe: a inefável natureza da Natureza.

[6] Que, por sua vez, só pode ser corretamente compreendido se retornarmos ao mito de Prometeu e o roubo do fogo divino... O que é muito, muito distante, de um ser supremo que rivaliza com Deus numa espécie de Mercado de Almas.

[7] Se algum dia se sentiu “transformado” lendo este blog, talvez seja pelo fato do fogo de seu próprio espírito ter se misturado com a água que corre ali em cima, no pano de fundo da tela... Contanto que compreenda isso como uma metáfora, estará bom.

[8] Obviamente que no caso do batismo católico o ritual serve muito mais aos pais, e sacerdotes, do que a criança em si, que em todo caso não se lembrará de ter “se convertido” a Igreja alguma.

[9] Essa é uma das passagens mais belas e profundas do Novo Testamento, e uma das poucas onde Jesus dialoga com um homem culto, ou seja, alguém que detém teoricamente um conhecimento elevado das Escrituras e seus simbolismos. A despeito da dificuldade do fariseu em compreender ao Rabi da Galiléia, fico feliz por este trecho, genuinamente gnóstico, ter sido mantido... Talvez por que os escribas de Constantino tampouco o compreenderam. Afinal, como complementou Jesus: “Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?”

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Crédito da imagem: Chris Carroll/Corbis

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7.12.11

Adão e Eva em Nova Iorque

Um conto para quem entende metáforas. Por Lisa Lipkin (*). Baseado no Gênesis 2:16-17 – E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: de toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

E Deus, por ser um romântico incorrigível, sabia que a vida não teria graça alguma sem lua. Então, Deus fez a lua, que brilhou no céu. Mas Deus precisava de algo para uivar para ela, então Ele criou o coiote. Ainda tentou várias formas para esse animal e finalmente acabou por criar o cachorro. Mas o cachorro precisava de algo para perseguir, então Deus fez o gato, que era muito travesso e encantador, e Deus gostou tanto dele, que criou uma versão maior, o tigre.

E uma outra versão ainda maior, o leão... e depois o elefante... e o dinossauro. Depois de criar os animais maiores, Ele fez os menores: formigas, gafanhotos, abelhas, mosquitos. E como Deus sabia que um dia haveria um lugar que se chamaria Nova Iorque, fez também as baratas. Mas a lua parecia tão solitária no céu, que Ele criou as estrelas para fazer companhia para a lua. E elas brilhavam e piscavam perto da lua.

Elas eram tão encantadoras, que Deus quis criar algo que fosse especial e que pudesse compreender e apreciar sua beleza. E foi aí que Ele inventou o homem. Um cara bonito chamado Adão, cujos olhos grandes absorviam cada demonstração de vida. Mas, honestamente, por quanto tempo Adão poderia ficar balançando nas árvores, alimentando os macacos ou levando os cães para passear? Ele estava ficando entediado. Ele estava ficando só. Então, numa certa noite, Adão fez um desejo para as estrelas. Ele disse: “Eu gostaria de ter uma companheira humana. Alguém com quem eu possa compartilhar esse lindo lugar, alguém para tomar sol em Miami”.

E foi aí que Eva apareceu na história. Ela era adorável e os dois se deram muito bem. Assim Adão deixou de se sentir só. O casal brincava de esconde-esconde, pular sela e mexe-mexe. Corria pelos gramados sensuais, dançava entre as rosas e os amores-perfeitos, e afundava os dedos dos pés no solo úmido orvalho esmeralda. Adão se divertia com a companhia de Eva e vice-versa, e esse paraíso glorioso se chamava Éden. Até que um dia, uma coisa terrível aconteceu.

Adão tinha ido buscar alimento para o jantar e Eva estava sentada em uma pedra, cantarolando uma alegre canção, quando de repente, ela foi interrompida por uma serpente prata sedutora, com um vibrato como de Mae West, que surgiu sorrateiramente por detrás de uma árvore. “Sssshhhh oi, querida. O que você está cantando?”.

“Oh, é uma simples canção”. As palavras de Eva mal tinham saído de sua boca quando a serpente deslizou para perto dela e disse: “Sssssshhh, Eva, Por que você não vem comigo, ao invésssss de ficar aí cantando?”. Como o flautista, cuja música atraiu rapazes ingênuos para a guerra, Eva se sentiu seduzida pelos sons da serpente. Ela seguiu a serpente por detrás de uma árvore alta e fina, e ficou chocada com o que viu. A serpente estava parada do lado de um computador Apple verde, novinho em folha e brilhante. “Ssssshhh, e aí, querida, por que você não experimenta usar esse Apple?”. A serpente ajeitou um toco de árvore perto do computador para Eva sentar. Eva nunca tinha visto um teclado antes e não sabia o que fazer primeiro.

Cuidadosamente, ela apertou uma tecla, e depois outra e depois outra e outra e outra. Cada vez mais rápido, o ritmo foi-se acelerando! Em questão de minutos, ela tinha aprendido a mexer no Word perfect 6.2, digitar uma lista de mil e-mails e enviar um fax. Resumindo, Eva estava obsecada.

De volta ao bosque, Adão estava preocupado com sua amada. Ele não poderia imaginar para onde ela fora. De repente, ele também se sentiu atraído pelo chamado da serpente, que o levou até onde estava Eva, distraída com um software. “Ei, Eva, aqui é o Adão, o seu homem! Estava preocupado com você. Onde você estava?”. Mas Eva não queria conversar. “Quieto, Adão, estou ocupada. Estou programando o computador para calcular a quantidade máxima de produtos que podemos cultivar no menor raio possível. Além disso, achei ótimas promoções online”. E ela continuou digitando.

Adão não sabia o que fazer. Mas a serpente sabia. “Sssshhhh, e aí, Adão, gracinha, por que você não experimenta esse Mackintosh?!”. E esse também era tão sedutor quanto uma fruta madura. E Adão também ficou obcecado.

E foi assim que tudo começou. Desde aquele momento, tudo que o Adão e a Eva queriam fazer era trabalhar com seus computadores. Na parte da manhã, eles vestiam rapidamente suas três folhas de figueira e corriam pelo bosque até suas estações de trabalho – e deixaram de aproveitar o bosque. Passavam o dia inteiro em seus computadores.

O sol quente brilhava em suas cabeças, mas eles não paravam para sentir os raios. O delicioso cheiro das folhas dos pinheiros e das lilases penetrantes os envolvia, mas eles não paravam para sentir o cheiro. À noite, quando as estrelas piscavam no céu e a lua cobria-os com o seu brilho, eles estavam muito cansados para notá-la. E dessa forma, eles nunca mais conseguiram voltar ao jardim no qual tinham nascido.

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Comentário
Ao ler um belo texto como esse, eu fico imaginando se nossos ancestrais, ouvindo aos contos do chefe da tribo ao redor da fogueira e sob um céu estrelado, se preocupavam em saber se aqueles heróis e heroínas realmente existiram... Decerto que muitos talvez pensassem que sim, mas este não é o caso. O caso é: será que davam maior importância em saber se eram reais, ou em compreender a mensagem por detrás de cada uma daquelas histórias, daqueles mitos?
Quem não aprender a compreender metáforas, dificilmente retornará ao jardim em que nasceu. E isso, obviamente, também é uma metáfora.

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(*) Lisa Lipkin é uma contadora de histórias profissional e autora do livro Bringing the story home: the complete guide to “storytelling for parents” (Trazendo a história para casa: o guia completo de “contar histórias para os pais”). A sua empresa Story Strategies Ltda. ajuda pessoas e companhias a encontrar e contar histórias. Este texto foi traduzido por Silmara Oliveira para o livro “O futuro de Deus” (Ed. Girafa).

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Crédito da imagem: IvyBee

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25.11.11

Educação secular, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 101 a 104, e 134. Os comentários ao final são meus.

Na esfera secular, podemos ler os livros certos, porém frequentemente deixamos de fazer perguntas diretas a partir deles, declinando de propor questionamentos vulgares e neorreligiosos porque temos vergonha de admitir a verdadeira natureza de nossas necessidades interiores. Estamos inevitavelmente apaixonados pela ambiguidade, sem espírito crítico contra a doutrina modernista de que a grande arte não deveria ter conteúdo moral ou desejo de mudar seu público [1]. Nossa resistência a uma metodologia parabólica vem de um confuso desprazer por utilidade, didatismo e simplicidade, e de uma inquestionável suposição de que qualquer coisa que uma criança possa entender seja infantil por natureza [2].

No entanto, o cristianismo sustenta que, apesar das aparências externas, partes importantes de nós mantêm as estruturas mais básicas da primeira infância. Por conseguinte, da mesma maneira que as crianças, precisamos de assistência. Devemos ser alimentados, de modo lento e cuidadoso, com conhecimento, assim como a comida é cortada em pedacinhos para as crianças conseguirem mastigar. Qualquer coisa além de umas poucas lições em um dia nos esgotará indevidamente.

[...] As técnicas que a academia tanto teme – a ênfase na conexão entre ideias abstratas e nossa vida, a lúcida interpretação de textos, a preferência por sumários em detrimento de totalidades – sempre foram os métodos das religiões, que precisavam enfrentar, séculos antes da invenção da televisão, o desafio de apresentar ideias vívidas e pertinentes a plateias impacientes e distraídas. Elas sempre souberam que o maior perigo não era a simplificação excessiva de conceitos, mas a erosão do interesse e do apoio devido à incompreensão e à apatia. Reconheceram que a clareza preserva as ideias, em vez de as enfraquecer, pois cria uma base sobre a qual o trabalho intelectual de uma elite pode mais tarde se apoiar.

O cristianismo tinha confiança em que seus preceitos eram robustos o bastante para ser compreendidos em diversos níveis, que podiam ser apresentados na forma de xilogravuras toscas para o homem simples da paróquia ou discutidos em latim por teólogos na Universidade de Bolonha, e que cada repetição endossaria e reforçaria as outras [3].

No prefácio de uma compilação dos seus sermões, John Wesley explicou e defendeu sua adesão à simplicidade: “Planejo verdades simples para pessoas simples: portanto (...) abstenho-me de todas as especulações belas e filosóficas; de todas as argumentações complicadas e intrincadas; e, tanto quanto possível, até mesmo da exibição de conhecimento. Meu plano é (...) esquecer tudo o que já li na minha vida.” [4]

[...] Os maiores pregadores cristãos foram vulgares no melhor sentido. Ao mesmo tempo em que não abdicavam das suas aspirações à complexidade ou às percepções, desejavam ajudar aqueles que os ouviam. Em contraste, construímos um mundo intelectual cujas instituições mais celebradas raras vezes consentem em perguntar, quanto mais em responder, sobre as questões mais sérias da alma.

Para lidar com as incoerências da situação, poderíamos reformar nossas universidades e eliminar campos como história e literatura, que, no fim das contas, são categorias superficiais que, ainda que cubram um material valioso, em si mesmas não percorrem os temas que mais atormentam e atraem nossa alma [5].

As universidades redesenhadas do futuro recorreriam ao mesmo catálogo de cultura tratado por suas equivalentes tradicionais, promovendo o estudo de romances, histórias, peças e pinturas, mas ensinariam esse material visando a iluminar a vida dos estudantes, em vez de apenas estimulá-los a atingir objetivos acadêmicos. Anna Karenina e Madame Bovary seriam, desse modo, alocados em um curso sobre as tensões do casamento, e não em um outro, focado em tendências narrativas na ficção do séculos XIX, da mesma maneira que as recomendações de Epicuro e Sêneca apareceriam no currículo de um curso sobre morrer, e não em uma pesquisa acerca da filosofia helenística.

Seria exigido que os departamentos confrontassem diretamente as áreas mais problemáticas de nossa vida. Ideias de assistência e transformação, que hoje pairam de maneira fantasmagórica sobre discursos em cerimônias de formatura [6], ganhariam forma e seriam explorados em instituições locais com a mesma abertura com que são nas igrejas. Haveria aulas sobre, entre outros tópicos, estar sozinho, reavaliar o trabalho, melhoras as relações com as crianças, reconectar-se à natureza e enfrentar doenças. Uma universidade interessada nas verdadeiras responsabilidades dos artefatos culturais dentro de uma era secular estabeleceria um Departamento de Relacionamentos, um Instituto de Morrer e um Centro para o Autoconhecimento [7].

[...] Muitos dos métodos das religiões, embora distantes das concepções contemporâneas de educação, deveriam ser considerados essenciais a qualquer plano para transmitir ideias, sejam elas teológicas ou seculares, de modo mais eficaz a nossa mente porosa. Essas técnicas merecem ser estudadas e adotadas, a fim de que tenhamos, no tempo que nos resta, uma chance de cometer pelo menos um ou dois erros a menos que a geração anterior.

***

[1] Paradoxalmente, conforme Tolstói já dizia, “todos pensam em mudar a humanidade, mas quão poucos pensam em mudar a si próprios”. E, além de não pensarem em mudar a si próprios, os “modernistas” ainda condenam quem sugira qualquer mudança “aos outros”. Entretanto, continuam esperançosos em “mudar a humanidade”, sabe-se lá como ou quando.

[2] Este é sem dúvida o livro mais original de Alain; Neste parágrafo encontram-se resumidos tantos conceitos que merecem uma avaliação mais cuidadosa, principalmente no trecho final, que eu recomendaria que o lessem e relessem...

[3] Aqui Alain está sendo otimista demais com a questão da “interpretação em vários níveis”. Se com isso quer dizer que tal evangelização em vários níveis ocasionou apenas o crescimento da Igreja, tem até razão. Mas se quer dizer que a essência dos textos bíblicos foi compreendida corretamente – ou seja, como metáforas em vários níveis de interpretação – pela maioria dos ditos cristãos, obviamente está equivocado.

[4] O ateu secular intelectual pode estar se indagando se isso não seria “infantilizar o conhecimento” (no contexto do primeiro parágrafo), mas aí é que se engana – simplificar não é “infantilizar”, e muitas vezes nossa educação é falha em supor que todos estamos perfeitamente familiarizados com, por exemplo, questões científicas. Em sua lendária série de TV Cosmos, Carl Sagan nos deu um belo exemplo de simplificação da ciência, da filosofia, e até da mitologia e religião, sem, no entanto, “infantilizar” nada: a isso também chamamos divulgação científica.

[5] Não se assustem: ele está propondo que eliminemos as aulas de história e literatura, e passemos a estudá-las de verdade: através de algo mais próximo dos sermões, das questões da alma.

[6] Ou, nem tão fantasmagórica assim, neste discurso de Steve Jobs. Aliás, Jobs, que nunca se graduou, provavelmente seria um assíduo estudante em um Curso de Caligrafia e Design Aplicado a Existência.

[7] Alain está aqui indo muito a frente de nosso tempo. Provavelmente morreremos sem ver a Academia aderindo a sermões, mas me parece inevitável que isso venha a ocorrer lá na frente, após o fim de todas as primaveras árabes e capitalistas... Nesse meio tempo, entretanto, talvez fosse uma boa reflexão para as pequenas igrejas, centros espíritas e terreiros (etc.): não poderíamos ajustar nossa linguagem, de modo a não necessariamente exigir que alguém creia em Deus, ou espíritos, para que possa assistir a nossas palestras e, por que não, participar efetivamente de nossas atividades de caridade? Humanos, todos nós somos humanos!

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Crédito da foto: Divulgação (Ed. Intrínseca - Noite de palestra e autógrafos do autor, na Livraria Cultura do Shop. Fashion Mall, no Rio de Janeiro, em 24/11/11)

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24.11.11

Educação secular, parte 1

Texto de Alain de Botton em “Religião para ateus” (Ed. Intrínseca), tradução de Vitor Paolozzi – Trechos das pgs. 95 a 100. A introdução e os comentários ao final são meus.

Introdução
Neste livro provocativo (e muito corajoso), Alain, que se declara ateu, defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Aspectos esses que podem muito bem sobreviver mesmo quando Deus é deixado de lado. Neste trecho em específico ele faz uma comparação entre a atual educação secular, e a educação cristã...

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Temos familiaridade suficiente com as principais categorias das humanidades, da maneira como são entendidas nas universidades seculares – história, antropologia, literatura e filosofia –, assim como com os tipos de perguntas que aparecem nos exames: Quem foram os carolíngios? Onde surgiu a fenomenologia? O que Emerson queria? Sabemos também que esse esquema deixa os aspectos emocionais de nossas personalidades para se desenvolverem espontaneamente, ou no mínimo de maneira privada, talvez quando estivermos como nossas famílias ou em solitárias caminhadas pelo campo [1].

Em contraste, o cristianismo se ocupa desde o início com nosso lado interior e confuso, declarando que nenhum de nós nasce sabendo como viver; somos, por natureza, frágeis e caprichosos, sem empatia e atormentados por fantasias de onipotência, estando a uma distância enorme da capacidade de reunir até mesmo uma fração do bom senso e da calma que a educação secular toma como ponto de partida para sua pedagogia [2].

O cristianismo está focado em ajudar uma parte de nós que a linguagem secular tem dificuldade até mesmo em nomear, que não é exatamente a inteligência ou a emoção, nem o caráter ou a personalidade, mas outra entidade, ainda mais abstrata, ligada a todas essas de maneira imprecisa e diferenciada delas por uma dimensão ética e transcendental adicional – e à qual podemos nos referir, seguindo a terminologia cristã, como alma. Tem sido a tarefa essencial da máquina pedagógica cristã cultivar, tranquilizar, confortar e guiar nossas almas.

Ao longo da história, o cristianismo se dedicou a longos debates acerca da natureza da alma, especulando como poderia ser sua aparência, onde se localizaria e a melhor forma de educá-la. Na sua origem, os teólogos acreditavam que ela se assemelhava a um bebê em miniatura inserido por Deus na boca de uma criança no momento do nascimento. Na outra extremidade da vida do indivíduo, a hora da morte, o bebê-alma seria, então, expelido pela boca. [...] Uma boa alma era aquela que conseguira encontrar respostas apropriadas para as grandes questões e tensões da existência, uma alma marcada por virtudes pias, como fé, esperança, caridade e amor.

Por mais que possamos discordar da visão do cristianismo com relação àquilo de que nossa alma necessita, é difícil invalidar a provocativa tese subjacente, que não parece ser menos relevante no domínio secular que no religioso – a tese de que temos em nós um núcleo precioso, infantil e vulnerável, que deveríamos nutrir e cuidar ao longo de sua turbulenta jornada pela vida [3].

Por seus próprios padrões, o cristianismo, portanto, não tem escolha senão colocar sua ênfase educacional em questões explícitas: Como podemos viver juntos? Como toleramos os defeitos dos outros? Como aceitar nossas próprias limitações e amainar a raiva? Um grau de didatismo zeloso é mais uma exigência que um insulto. A diferença entre a educação cristã e a secular se revela com particular clareza nos respectivos métodos característicos de instrução: a educação secular fornece aulas, o cristianismo, sermões.

Em termos de intenção, poderíamos dizer que uma se preocupa em transmitir informação, a outra, em mudar nossa vida. Pela própria natureza, os sermões assumem que seus ouvintes estão perdidos, de alguma maneira importante. Os títulos dos sermões de um dos mais famosos pregadores da Inglaterra do século XVIII, John Wesley, já mostram o cristianismo procurando oferecer conselhos práticos a respeito de uma série de desafios comuns da alma: “Sobre seu gentil”, “Sobre manter-se obediente aos pais”, “Sobre visitar os enfermos”, “Sobre a cautela com a intolerância”. Por mais que seja improvável que os sermões de Wesley seduzam ateus por meio de seus conteúdos, eles tiveram sucesso, assim como um bom número de textos cristãos, em categorizar o conhecimento sob títulos úteis.

Ao passo que, a princípio, Matthew Arnold, John Stuart Mill e outros tinham a esperança de que as universidades pudessem fornecer sermões seculares que nos informassem como evitar a intolerância e como encontrar coisas valiosas a dizer ao visitarmos pessoas doentes, esses centros de aprendizado nunca ofereceram o tipo de orientação no qual as igrejas se focaram, a partir de uma crença de que a academia não deveria fazer quaisquer associações entre obras culturais e sofrimentos individuais [4].

Seria uma afronta chocante à etiqueta universitária perguntar o que um livro de literatura [não religiosa] poderia nos ensinar de útil sobre o amor, ou sugerir que os romances de Henry James possam ser lidos como parábolas sobre se manter honesto em um escorregadio mundo mercantil. Contudo, a busca por parábolas é exatamente o que se encontra no núcleo da abordagem dos textos cristãos.

O próprio Wesley era um homem profundamente erudito [...] Ele possuía um grande conhecimento textual de Levítico e Mateus, Coríntios e Lucas, mas citava versos desses apenas quando podiam ser integrados em uma estrutura parabólica e usados para aliviar as tribulações de seus ouvintes. Assim como todos os pregadores cristãos, ele via a cultura principalmente como um instrumento, observando quais regras gerais de conduta cada passagem bíblica poderia exemplificar e promover.

» Na continuação, o Dpto. de Relacionamentos, o Instituto de Morrer e o Centro para o Autoconhecimento :)

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[1] Em entrevista num programa brasileiro, o médico Patch Adams (que é ateu), diz que costuma perguntar as pessoas que encontra: “Qual é sua estratégia de amor para a vida?”. Dentre jornalistas, médicos, cientistas, etc., normalmente ninguém sabe responder...

[2] É que não somos exatamente máquinas que se auto educam pelo mero registro e computação de informações sobre o mundo. No fundo, todos sabemos que somos seres que interpretam informações e têm sentimentos específicos sobre o mundo, que precisam ser encarados, expostos, analisados, “apaziguados”, etc. Embora qualquer educador secular provavelmente já saiba disso, ele raramente saberá como ensinar nesse formato. E, assim então, tudo permanece como está – até que venha a primavera.

[3] Você pode estar agora se perguntando se de Botton é realmente ateu. Sem dúvida: ele chega a dizer que cresceu com a certeza de que Deus não existia. A questão é que de Botton é um grande filósofo e, talvez mesmo por conta disso, um ateu sem preconceitos com as coisas “irracionais”.

[4] Arnold e Mill foram defensores dos objetivos da educação após o Iluminismo. Segundo Arnold a universidade era “um lar para o que melhor foi dito e pensado no mundo”. Para Mill, “o propósito das universidades não é produzir advogados, médicos ou engenheiros competentes. É criar seres humanos capazes e cultos”. E, voltando a Arnold, uma educação cultural deveria inspirar em nós “um amor pelo vizinho, um desejo de acabar com a confusão humana e diminuir sua miséria”. Infelizmente, até hoje a educação secular está algo distante desses objetivos essenciais.

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Crédito da imagem: Hulton-Deutsch Collection/Corbis

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19.11.11

Egito perdido, Egito reencontrado

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.

O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.

Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.

Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.

Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.

Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].

Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].

Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].

Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.

A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.

Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.

Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].

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Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.

[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...

[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...

[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).

[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.

[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.

[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis

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