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9.1.12

O traçador de círculos

Caminhando pela Galileia, o Mensageiro dos Céus falava aos desavisados sobre o Reino, e alguns poucos decidiam segui-lo por onde quer que fosse, enquanto a maioria apenas o agradecia ou amaldiçoava ou, talvez tanto pior, simplesmente o ignorava...

As almas simples que o admiravam em sua parca compreensão começaram a tratá-lo como um deus encarnado na terra, no que ele sempre se irritava: “Apenas uma vez pude ver ao Pai de relance, nalgum sonho esquecido, mas sua luz era tanta que fui obrigado a cobrir os olhos... Sigo esta luz até hoje, mas não sou este de quem falam. Como já lhes disse: vocês mesmos farão tudo que tenho feito e saberão tudo que tenho conhecido, e ainda muito mais, pois este é o destino infinito do Reino!”. Mas nem todos o compreendiam, e o Mensageiro estava saudoso de seus mestres do Oriente, com quem podia conversar sobre assuntos celestes.

Até que um dia seu grupo chegou a um vilarejo onde todos afirmavam haver um grande profeta que tinha o poder de trazer chuvas, o que se fazia bastante necessário naquela secura das regiões próximas aos desertos, pois poderia garantir colheitas de trigo e milho e, tanto mais importante, impedir que crianças e idosos e doentes morressem de fome.

O Mensageiro ficou entusiasmado com a oportunidade de falar a um profeta: Honi, o traçador de círculos. Se ele podia mesmo trazer chuvas, dispunha de um acesso ainda mais íntimo ao Pai e a seu Reino, mais íntimo do que o dele próprio... Aproximou-se enfim do ancião de vestes brancas e um longo cajado de madeira, meditando de olhos entreabertos em meio a um círculo traçado na terra, nos arredores do vilarejo:

Mensageiro – Desculpe-me, sei que pedira para não ser perturbado, mas eu gostaria muito de falar por um momento com o senhor...

Honi – Mas você não me perturba, apenas me traz luz, como a lua a refletir o sol na noite de nossa alma.

Mensageiro – Pois é isto: o perturbado então sou eu mesmo... Como podem me saudar desta forma no Oriente e na Galileia, se sou ainda tão ignorante da luz, dos assuntos celestes? Há tantos outros, mais sábios e mais famosos que eu... Menahem, Simão, Apolônio, até mesmo meu primo Batista...

Honi – Estes são sábios também, tanto quanto nós. Mas eu, como eles, sou famoso no reino de baixo. Você, Yeshua, é conhecido no reino de cima. E digo-te: nossa mensagem passará como o novo dia cobre a noite e a primavera nos faz esquecer do inverno, mas não a tua, a tua mensagem perdurará. E, através dela, todos conhecerão um pouco mais do reino celeste.

Mensageiro – É assim, assim que consegue trazer as chuvas? Você pede por elas no reino de cima?

Honi – Eu não sei nada de trazer chuvas, meu amigo. Tudo que faço dentro deste círculo é tentar me religar aos céus e agradecer, agradecer por cada dia vivido neste Reino maravilhoso – sejam dias secos ou molhados...

Mensageiro – Então você também é como eu, prefere rezar com terra debaixo dos pés e pássaros a sobrevoar os céus, do que dentro de sinagogas?

Honi – Sinagogas são importantes para proteger o pensamento que está dentro daquele que está fora. Mas de nada adiantam se abrigam dentro de seus próprios tetos adornados os pensamentos mais obscuros... Eu aprendi que é muito mais simples traçar a minha própria sinagoga no solo, e apenas meditar sobre o Reino dentro dela.

Mensageiro – Mas isso só vem a confirmar meus questionamentos: como posso ser o profeta de que dizem, se não sei de tantas coisas ainda?

Honi – Você, Yeshua, apenas pensa que não sabe. Venha, trace um círculo ao meu lado, entre nele e ore, e medite, e agradeça, e relembre de quem realmente é, de quem está destinado a ser!

Seguindo o conselho do traçador de círculos, o Mensageiro traçou o seu próprio círculo no solo sagrado do Reino, e adentrando nele, tentou se lembrar da vez em que viu o Pai, e dessa vez tentou descobrir o rosto, lentamente, e tentou ver por um breve momento a luz que se irradiava por tudo o que há...

Em alguns minutos, uma chuva fina cobriu a vila inteira.


raph'12

***

Este conto é uma continuação direta de "O ungido", e continua em "O zelote".

***

Crédito da imagem: Corbis (RF)

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1 comentários:

Blogger Fábio Camacho disse...

rede wi-fi direto com o pai estabelecida! um círculo: símbolo do protegido ou impenetrável

22/12/13 18:09  

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