O amante
Numa noite fria da Galileia, enquanto acampavam próximos a Magdala, Yeshua teve um sonho com o Anjo do Senhor:
Anjo – É chegada a hora de encontrar-te com aquela que fala conosco.
Mensageiro – A essênia?
Anjo – Tu já cruzaste com ela, mas não em sonho. Esta que vê em teus sonhos pertence somente a tua imaginação. A outra de que falo é ainda mais sábia do que imaginas. Tu foste o mensageiro das coisas do Alto, mas será ela quem fará tua mensagem chegar ao mundo todo...
Yehsua acordou subitamente com um raio de sol nascente lhe cegando os olhos. Enquanto ainda se habituava de volta ao mundo dos despertos, disse aos demais: “Amigos, levantem-se. Devemos aproveitar a manhã, nosso próximo destino será a própria aldeia de Magdala”.
“O que iremos fazer em Magdala, mestre?” – perguntou Shimon (aquele a quem Yehsua chamou Kepha). “Iremos nos encontrar com um mestre essênio, e o convidar para o nosso grupo” – tendo dito isso, fez com que todos se entusiasmassem com aquele dia, particularmente Shimon, que sempre teve curiosidade em conhecer mais sobre os essênios.
***
Chegaram na pequena Magdala, nada mais do que uma antiga torre em ruínas perto da costa, onde um dia houve um agrupamento de essênios, mas que naquele tempo estava mais para um agrupamento de pescadores e mercadores.
Não foi sequer necessário perguntar pela essênia. Uma bela mulher, de pele morena e cabelos negros, contrastando com sua longa veste branca que ajudava a ornar um corpo sinuoso, aproximou-se do grupo de Yeshua. Ela logo disse o seu nome, “Miriam”.
Yeshua parecia aturdido (não se sabe se por sua beleza ou por sua presença), então Shimon falou em seu lugar:
Shimon – Olá mulher. Acaso sabe de algum essênio que ainda tenha permanecido em Magdala?
Miriam – Em realidade todos se foram. Foram buscar um local ainda mais afastado do mundo dos homens, onde não existe propriedade nem a necessidade de pagar tributos a César. Mas vocês têm sorte, pois que hoje há um deles que retornou a aldeia em visita.
Shimon – Mas nós buscamos por um mestre essênio, um Mestre da Justiça.
Miriam – Quem veio é também Mestre da Justiça.
Shimon – E onde está?
Miriam – Está diante dos seus olhos, ó caminhante.
Shimon (confuso) – Mas como? Eu só vejo uma mulher na minha frente!
Não foi preciso que Miriam de Magdala explicasse, foi o próprio Yeshua quem interrompeu a conversa, já recobrado da espécie de transe em que tinha entrado repentinamente:
Mensageiro – Kepha, meu caro amigo, não seja rude... Acaso não sabe que entre os essênios mesmo as mulheres podem ser mestras?
***
Já se passavam três dias desdê que a comitiva de Yeshua havia se hospedado na antiga torre de Magdala. Os discípulos começavam a ficar impacientes, não somente pelo fato de que não havia muito o que se fazer naquela aldeia, mas sobretudo pelo fato de seu mestre passar quase todo o tempo conversando a sós com a Mestre da Justiça. Ora eram vistos no entorno da aldeia, ora muito distantes, caminhando juntos sob a sombra de um pequeno bosque que crescia na direção da costa...
Mensageiro – Então você é aquela garotinha que encontrei há anos quando me dirigia ao Oriente. Inacreditável como cresceu, e neste caso me refiro a sua alma e sua sabedoria.
Miriam – É muito gentil, Yeshua. Mas, ainda que minha sabedoria crescesse muito além da torre de Magdala, jamais haveria de alcançar o Céu, como você parece fazer todos os dias.
Mensageiro – Se consigo alcançar o Céu, não sou como você que vê aos anjos ainda acordada...
Miriam – Você não precisa ver aos anjos. Eles vêm somente para nos ensinar, e não há nada que tenham para lhe ensinar, Yeshua.
Mensageiro – Bobagem; há sempre o que se aprender, mesmo entre os que sabem menos do que nós. Ainda que este fosse o caso dos anjos, mas não é... Há alguns anjos que sabem muito mais do que outros, e há alguns que sabem muito mais do que eu. Foi exatamente um destes que me enviou até você há quase três dias atrás...
Miriam – E os anjos que vejo raramente são desta falange, Yeshua. Veja bem, eu sei que o Pai e a Mãe estão espalhados por todas as coisas, naquela pedra ali, naquele outro galho partido acolá. Mas eu ainda não participo deste casamento, ainda não fui convidada a presenciar esta cerimônia, ainda não trouxe o Céu para a Terra. Você quem se aventurou nas terras do Alto e retornou, Yeshua, me conte dessas maravilhas!
Mensageiro – Você quer a história verdadeira?
Miriam – Se acha que mereço a verdade, me conte a verdade...
Mensageiro – No início, eu era levado à força. O Pai surgia como um pássaro raivoso, embora eu não pudesse vê-lo. Tudo que sentia eram suas garras: uma me segurava pelo pescoço e impedia que eu fugisse, e a outra se enterrava em minha cabeça... Era então que a dor se iniciava. Era como se eu explodisse e me separasse em milhares de pedaços, para só então renascer em sua Casa. Lá o Anjo do Senhor me falava do que vim fazer neste mundo, enquanto uma grande luz pairava por todo o ambiente. Nesta época em me rebelei, eu não suportava mais toda aquela luz, e sussurrei em meio às lágrimas que escorriam: “Pai, afasta de mim este cálice”.
Então passei alguns anos da minha infância pretendendo não ser o que sou, mas com o tempo me arrependi, pois percebi que o mundo precisava de um pouco daquela luz, e talvez eu fosse mesmo aquele quem deveria trazer a mensagem, refletir um pouco dela para aqui embaixo... Mas não sabia se eu era o único, e por isso rumei para o Oriente...
Miriam – Existiram outros como você?
Mensageiro – Sem dúvida, muitos, muitos outros! Mais sábios e mais antigos... Mas parece que o grande plano do Céu era reunir toda a sabedoria antiga nalguma espécie de ensinamento simples que pudesse ser transmitido a todos, e não apenas aos mestres e aos príncipes.
Após muito sofrer e muito duvidar, eu finalmente compreendi o que o Pai queria de mim, foi então que descobri o que sou... Não sou eu quem vai divulgar tais ensinamentos pelo mundo, Miriam, eu sou apenas um mensageiro.
Miriam (entristecida) – Foi o que os anjos me contaram... Então, é verdade... Então, não lhe resta muito tempo junto conosco, junto comigo?
Mensageiro – Miriam, Miriam, não chore para que eu não chore junto contigo. Saiba que o Pai veio até mim como uma brisa suave de primavera, e me encheu de entusiasmo e de sentido!
Eu me pus de pé e agora estou aqui entre vocês para realizar o que precisa ser realizado. E quando eu me for, será você quem divulgará minha mensagem. A tarefa não foi dada a um homem, mas a uma mulher – a única capaz de fecundar um novo pensamento na alma dos homens.
Miriam – Mas você não é um homem nem uma mulher, Yeshua. Sua natureza nos transcende... É como se a própria terra houvesse sido fecundada pela chuva, para que nascesse um ser como você... Se eu serei aquela quem divulgará sua mensagem, ao menos isto eu tenho de saber: O que, afinal, é você?
Mensageiro – Um coração. Um amante de tudo o que há, foi e ainda está para ser... Eu sou um coração, Miriam, e todo o sangue do mundo passa pela minha alma...
FIM
Este é o fim da série de contos Mensageiro dos Céus,
que havia iniciado em 1996. Gostaria de agradecer
a todas as brisas de primavera
que tornaram isto possível...
raph’13
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Este conto é uma continuação direta de "O recitador".
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Crédito da foto: worldwidehealth.com
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