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23.5.13

O amante

Numa noite fria da Galileia, enquanto acampavam próximos a Magdala, Yeshua teve um sonho com o Anjo do Senhor:

Anjo – É chegada a hora de encontrar-te com aquela que fala conosco.

Mensageiro – A essênia?

Anjo – Tu já cruzaste com ela, mas não em sonho. Esta que vê em teus sonhos pertence somente a tua imaginação. A outra de que falo é ainda mais sábia do que imaginas. Tu foste o mensageiro das coisas do Alto, mas será ela quem fará tua mensagem chegar ao mundo todo...

Yehsua acordou subitamente com um raio de sol nascente lhe cegando os olhos. Enquanto ainda se habituava de volta ao mundo dos despertos, disse aos demais: “Amigos, levantem-se. Devemos aproveitar a manhã, nosso próximo destino será a própria aldeia de Magdala”.

“O que iremos fazer em Magdala, mestre?” – perguntou Shimon (aquele a quem Yehsua chamou Kepha). “Iremos nos encontrar com um mestre essênio, e o convidar para o nosso grupo” – tendo dito isso, fez com que todos se entusiasmassem com aquele dia, particularmente Shimon, que sempre teve curiosidade em conhecer mais sobre os essênios.

***

Chegaram na pequena Magdala, nada mais do que uma antiga torre em ruínas perto da costa, onde um dia houve um agrupamento de essênios, mas que naquele tempo estava mais para um agrupamento de pescadores e mercadores.

Não foi sequer necessário perguntar pela essênia. Uma bela mulher, de pele morena e cabelos negros, contrastando com sua longa veste branca que ajudava a ornar um corpo sinuoso, aproximou-se do grupo de Yeshua. Ela logo disse o seu nome, “Miriam”.

Yeshua parecia aturdido (não se sabe se por sua beleza ou por sua presença), então Shimon falou em seu lugar:

Shimon – Olá mulher. Acaso sabe de algum essênio que ainda tenha permanecido em Magdala?

Miriam – Em realidade todos se foram. Foram buscar um local ainda mais afastado do mundo dos homens, onde não existe propriedade nem a necessidade de pagar tributos a César. Mas vocês têm sorte, pois que hoje há um deles que retornou a aldeia em visita.

Shimon – Mas nós buscamos por um mestre essênio, um Mestre da Justiça.

Miriam – Quem veio é também Mestre da Justiça.

Shimon – E onde está?

Miriam – Está diante dos seus olhos, ó caminhante.

Shimon (confuso) – Mas como? Eu só vejo uma mulher na minha frente!

Não foi preciso que Miriam de Magdala explicasse, foi o próprio Yeshua quem interrompeu a conversa, já recobrado da espécie de transe em que tinha entrado repentinamente:

Mensageiro – Kepha, meu caro amigo, não seja rude... Acaso não sabe que entre os essênios mesmo as mulheres podem ser mestras?

***

Já se passavam três dias desdê que a comitiva de Yeshua havia se hospedado na antiga torre de Magdala. Os discípulos começavam a ficar impacientes, não somente pelo fato de que não havia muito o que se fazer naquela aldeia, mas sobretudo pelo fato de seu mestre passar quase todo o tempo conversando a sós com a Mestre da Justiça. Ora eram vistos no entorno da aldeia, ora muito distantes, caminhando juntos sob a sombra de um pequeno bosque que crescia na direção da costa...

Mensageiro – Então você é aquela garotinha que encontrei há anos quando me dirigia ao Oriente. Inacreditável como cresceu, e neste caso me refiro a sua alma e sua sabedoria.

Miriam – É muito gentil, Yeshua. Mas, ainda que minha sabedoria crescesse muito além da torre de Magdala, jamais haveria de alcançar o Céu, como você parece fazer todos os dias.

Mensageiro – Se consigo alcançar o Céu, não sou como você que vê aos anjos ainda acordada...

Miriam – Você não precisa ver aos anjos. Eles vêm somente para nos ensinar, e não há nada que tenham para lhe ensinar, Yeshua.

Mensageiro – Bobagem; há sempre o que se aprender, mesmo entre os que sabem menos do que nós. Ainda que este fosse o caso dos anjos, mas não é... Há alguns anjos que sabem muito mais do que outros, e há alguns que sabem muito mais do que eu. Foi exatamente um destes que me enviou até você há quase três dias atrás...

Miriam – E os anjos que vejo raramente são desta falange, Yeshua. Veja bem, eu sei que o Pai e a Mãe estão espalhados por todas as coisas, naquela pedra ali, naquele outro galho partido acolá. Mas eu ainda não participo deste casamento, ainda não fui convidada a presenciar esta cerimônia, ainda não trouxe o Céu para a Terra. Você quem se aventurou nas terras do Alto e retornou, Yeshua, me conte dessas maravilhas!

Mensageiro – Você quer a história verdadeira?

Miriam – Se acha que mereço a verdade, me conte a verdade...

Mensageiro – No início, eu era levado à força. O Pai surgia como um pássaro raivoso, embora eu não pudesse vê-lo. Tudo que sentia eram suas garras: uma me segurava pelo pescoço e impedia que eu fugisse, e a outra se enterrava em minha cabeça... Era então que a dor se iniciava. Era como se eu explodisse e me separasse em milhares de pedaços, para só então renascer em sua Casa. Lá o Anjo do Senhor me falava do que vim fazer neste mundo, enquanto uma grande luz pairava por todo o ambiente. Nesta época em me rebelei, eu não suportava mais toda aquela luz, e sussurrei em meio às lágrimas que escorriam: “Pai, afasta de mim este cálice”.
Então passei alguns anos da minha infância pretendendo não ser o que sou, mas com o tempo me arrependi, pois percebi que o mundo precisava de um pouco daquela luz, e talvez eu fosse mesmo aquele quem deveria trazer a mensagem, refletir um pouco dela para aqui embaixo... Mas não sabia se eu era o único, e por isso rumei para o Oriente...

Miriam – Existiram outros como você?

Mensageiro – Sem dúvida, muitos, muitos outros! Mais sábios e mais antigos... Mas parece que o grande plano do Céu era reunir toda a sabedoria antiga nalguma espécie de ensinamento simples que pudesse ser transmitido a todos, e não apenas aos mestres e aos príncipes.
Após muito sofrer e muito duvidar, eu finalmente compreendi o que o Pai queria de mim, foi então que descobri o que sou... Não sou eu quem vai divulgar tais ensinamentos pelo mundo, Miriam, eu sou apenas um mensageiro.

Miriam (entristecida) – Foi o que os anjos me contaram... Então, é verdade... Então, não lhe resta muito tempo junto conosco, junto comigo?

Mensageiro – Miriam, Miriam, não chore para que eu não chore junto contigo. Saiba que o Pai veio até mim como uma brisa suave de primavera, e me encheu de entusiasmo e de sentido!
Eu me pus de pé e agora estou aqui entre vocês para realizar o que precisa ser realizado. E quando eu me for, será você quem divulgará minha mensagem. A tarefa não foi dada a um homem, mas a uma mulher – a única capaz de fecundar um novo pensamento na alma dos homens.

Miriam – Mas você não é um homem nem uma mulher, Yeshua. Sua natureza nos transcende... É como se a própria terra houvesse sido fecundada pela chuva, para que nascesse um ser como você... Se eu serei aquela quem divulgará sua mensagem, ao menos isto eu tenho de saber: O que, afinal, é você?

Mensageiro – Um coração. Um amante de tudo o que há, foi e ainda está para ser... Eu sou um coração, Miriam, e todo o sangue do mundo passa pela minha alma...

 

FIM

 

Este é o fim da série de contos Mensageiro dos Céus,
que havia iniciado em 1996. Gostaria de agradecer
a todas as brisas de primavera
que tornaram isto possível...

raph’13

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Este conto é uma continuação direta de "O recitador".

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Crédito da foto: worldwidehealth.com

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6.11.12

O recitador

Numa noite quente, enquanto retornava de seu passeio pelo deserto, Yeshua reencontrou o rabino andarilho, que um dia havia lhe convidado para sua sinagoga. Parecia cintilante em meio aquela noite sem tantas estrelas, uma alma entusiasmada sempre parecia mais com um oásis em meio a tanta secura...

Andarilho – Rabi! Rabi! Finalmente encontrei-o novamente. Estive perdido, com saudades de tua luz, então decidi abandonar as sinagogas e rumar para o deserto, atrás de tuas pegadas!

Mensageiro – Mas porque abandonou sua sinagoga?

Andarilho – Os textos antigos me escravizavam, eu quero uma nova religião, uma nova interpretação. Eu quero ser livre como tu e teus pescadores, me ajude a ser também um pescador de almas.

Mensageiro – Mas rabi, existe um lugar para cada um de nós neste grande deserto, e cada um de nós deve fazer sua parte para que ele um dia se torne um pomar.

Andarilho – Não me chame de rabi, tu que és o Rabi da Alma, e agora eu sei disso... Todos aqueles textos antigos, de nada nos servem mais, tu veio renovar à tudo, tu veio trazer uma nova lei; Tu nos oferta a Verdade, e os livros de minha sinagoga são incapazes de transmiti-la.

Mensageiro – E você acha que eu vim negar a lei antiga, apagar o texto e escrever um outro? Rabi, rabi, eis o que ocorre: a Verdade já está nos textos, e espalhada pelos ventos, pelas pedras e os galhos secos, mas nós temos dificuldade em interpretá-la, em criarmos olhos de enxergar, e compreender... Vou demonstrar o que quero dizer: você conhece a história de como Moshê guiou nosso povo para longe do jugo do Faraó?

Andarilho – Sim, claro... Mas peço encarecidamente que me rememore, pois algo me diz que, saindo de tua boca, será uma nova história, um novo êxodo...

Assim, Yeshua começou a recitar:

Mensageiro – Moshê foi encontrado no Nilo, o rio sagrado, pela filha do Faraó. Admirada pela presença de um filho das águas, decidiu educá-lo como um príncipe dentro da metrópole. Mas, apesar de sábio, Moshê cresceu inquieto, turbulento, como a água que deseja sair da represa...
Diz-se que, ao ver um feitor egípcio açoitando um escravo israelita, foi tomado de imensa compaixão para com o escravizado, e por uma cólera avassaladora contra seu opressor. Matou-o com um pensamento.
Assim, apesar de príncipe do Egito, foi obrigado a fugir da metrópole, para escapar da pena de morte do Faraó. Agradeceu a mãe, e iniciou um longo exílio pelo deserto, levando consigo boa parte dos escravos israelitas. Agora, eram todos livres, e ele era o seu santo pastor pelas areias escaldantes e as noites frias.
Diz-se que o Faraó mudou de ideia, e mandou legiões de soldados em seu encalço, para que os trouxessem de volta a sua metrópole. Moshê pensou que sua mãe poderia estar com saudades dele, mas não poderia retomar uma vida onde houvessem escravos  e opressores por toda a parte – e decidiu apertar o passo, embora não soubesse ao certo para onde fugir de tantos soldados.
Numa dessas noites, enquanto caminhava ao redor da aldeia, como eu mesmo costumo fazer, eis que Moshê se depara com um pequeno arbusto em chamas, a iluminar sua noite como a mais bela das estrelas. Seu fogo não findava, pois parecia ser o gerador de si mesmo. Moshê criou olhos de enxergar, e compreendeu a mensagem que Jeová havia lhe transmitido. Alegrou-se: agora, finalmente, sabia para onde lavar seu povo!
Diz-se que, antes que pudesse adentrar aos territórios prometidos por Jeová, foi encontrado e encurralado pelos soldados do Faraó. E lá estava Moshê, com seu povo liberto, e duas opções: arriscar a travessia do Mar Vermelho, ou render-se ao desejo do Faraó.
Moshê decidiu arriscar um milagre. Levantou, com toda convicção e vontade, seu longo cajado; e, quando o pousou ao solo, veio uma ventania, com nuvens esvoaçantes, que dividiu ao próprio mar a sua frente em duas imensas colunas, cada qual com 36 carpas douradas a nadar tranquilamente em direção à outra margem, como que apontando o caminho, e dizendo: “Venha Moshê, traga contigo todo o teu povo liberto, agora basta dar o primeiro passo”...
E ele, inspirando longamente, tomou da coragem final e adentrou, com seu povo, ao mar. Assim, na medida em que caminhavam dentre as colunas, eram abençoados e elevados, de modo que os soldados que vinham atrás, mesmo com suas carruagens e camelos, escorregavam e tropeçavam uns nos outros, até que metade foi levada pelas águas, quando as colunas desceram.
Diz-se que a outra metade retornou e, contando a notícia ao Faraó, fez com que este enlouquecesse ante sua ausência. Mas Moshê havia vencido, e era livre, finalmente livre. Com a ajuda de seu povo, plantou na Terra Prometida um imenso bosque; e diz-se também que, até hoje, todo aquele com a vontade suficiente para atravessar o deserto, e mergulhar ao mar, é recebido por este povo liberto e alegre, na outra margem da Alma do Mundo.
Isto foi o que compreendi da história da fuga de Moshê do Egito...

O outro rabi tinha lágrimas nos olhos, transbordando de luz irradiada:

Andarilho – Deus te ilumine em todos os teus passos, no deserto ou acima do mar, tu és um recitador divino!

Mensageiro – Mas tudo o que fiz foi ler o mesmo texto que você leu, ó rabi. Agora que sabe do mesmo que sei, vai e retorna a sua sinagoga, e trata de os ensinar tudo isso... Pois eu vim trazer a este mundo todo o tipo de luz que tenho visto na casa de meu Pai. Mas algumas luzes são cintilantes demais para que sejam expostas de uma vez ao mundo. Você, que tem olhos para enxergar, e não ficar cego, será aquele que guardará este segredo, até que um dia este deserto esteja suficientemente ungido e umidificado, para que a luz possa ser exposta, a fim de que o povo do futuro também possa, como Moshê, rebelar-se contra seu Faraó, meditar no deserto, atravessar o mar, e atingir sua própria terra de boa aventurança.
Vá em paz, ó rabi!


(escrito com base na interpretação compartilhada por Rafael Chiconeli no III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, Novembro de 2012)


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Este conto é uma continuação direta de "O filho da vida". A série se concluí em "O amante".

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Crédito da foto: RelaXimages/Corbis

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20.8.12

O filho da vida

Numa noite fria um homem letrado veio tratar com Yeshua, que o recebeu em sua tenda, animado por poder conversar com um sacerdote. Seu nome era Nicodemus...

Sacerdote – Shalom, rabi.

Mensageiro – Está errado: tu que és o rabi, e eu é que estou em paz.

Sacerdote – Mas como pode estar em paz, vendo seu povo sofrendo, oprimido?

Mensageiro – E quem não sofre nesta vida?

Sacerdote – Mas nós judeus temos sofrido em demasiado. Onde está Adonai para libertar nosso povo? Dizem que você trouxe-nos sinais de que é seu enviado, seu filho... Então me diga, onde está este Senhor Ausente?

Yeshua apanhou um galho seco do solo onde foi montada a tenda...

Mensageiro – Você vê a vida aqui?

Sacerdote – Não, isto é apenas um galho seco.

Mensageiro – Esta é a diferença. Tu achas que teu senhor está aqui e ali, e eu o percebo em todo lugar, para onde quer que olhe estou sempre coberto por seu perfume. Este galho seco um dia abrigou vida, e agora se torna inerte novamente, porém não menos sagrado. Eis o meu sinal e a minha mensagem, rabi: tudo é sagrado, tudo vibra e nada está parado. Quem há de ter iniciado esta roda senão aquele quem proclamas ausente?

Sacerdote – E porque não o convoca então? Quero vê-lo!

Mensageiro – Ele já está aqui. Ainda mais perto de tua alma do que teu próprio olho.

Sacerdote – Mas não o vejo, não o vejo! Se o vê, diga-te então que nos ajude, que nos lidere, que expulse os opressores de nossa terra...

Mensageiro – Mas como pode alguém retirar a moeda ou o trigo da balança, sem que torne a transação injusta para o vendedor ou o comprador? Tu desejas um Senhor dos Exércitos, mas como pode um general marchar contra o seu próprio exército?

Sacerdote – O que está dizendo, rabi? E acaso Adonai também defende aos opressores?

Mensageiro – E como poderia existir um exército de homens que não pertença ao Senhor da Vida? Não é sua culpa que os homens busquem a morte, e não a vida. Em verdade lhe digo, ó Nicodemus, que Nosso Pai não é um general, mas um semeador... E nós somos as sementes! Algumas há que germinaram em solo fértil, enquanto outras encontraram o solo seco, e viveram vidas de galhos secos. Porém, há sempre a oportunidade de aproveitar as chuvas que antecedem a primavera.

Sacerdote – Eu não compreendo... Se este de quem fala é o senhor dos romanos, não pode ser Adonai. Você é filho de um falso deus, um deus ausente, um deus traidor. Quem é você afinal?

E dizem que aquela foi a primeira vez que o viram exaltado:

Mensageiro – Ó Nicodemus, porque tanto proclamas ser um conhecedor das coisas celestes, se mal compreende das coisas do mundo? A quem pretende ensinar com esta alma cega? Tu acusas Nosso Pai de ser ausente, e, no entanto, ele é tão ausente quanto à luz das estrelas é ausente da noite! Tu acusas Nosso Pai de ser traidor, quando não há no mundo quem ele possa trair, visto que não fez promessa alguma! Tu me acusas de ser filho de um deus falso, quando ele é a fonte única de todos os Elohim, que são a essência de tudo o que há de belo e verdadeiro no mundo!
Saia desta tenda, Nicodemus, e volte para seus manuais de palavras vazias e sem vida. De nada adianta conhecer as palavras se você não percebe o baile da vida a escorar pelo ombro, o vento que sopra onde quer, e não atende ao chamado de almas secas.

Mas, antes de sair, Nicodemus virou-se e perguntou:

Sacerdote – E como tu fazes para falar com esse tal deus? Quem sabe um dia eu consiga falar com ele, para que possa fazer por nosso povo o que você se recusa a pedir...

Mensageiro – Em verdade lhe digo, hipócrita, que ele fala na única linguagem que não és ainda capaz de compreender sequer duas palavras: o amor. E, caso te perguntem como eu sei de tudo isso, diga-lhes que eu sou o Filho da Vida.


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Este conto é uma continuação direta de "O zelote", e continua em "O recitador".

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Crédito da foto: Janis Christie/Corbis

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18.7.12

O zelote

Na primeira vez que o olhou nos olhos, quando passava pelas aldeias de Ezron, Yehudhah sentiu como se estivesse na presença de um verdadeiro rei. Seu olhar exalava tanta confiança, tanta força e determinação, que teve a certeza de que aquele seria o homem quem uniria os judeus e os libertaria do jugo de Roma... Mas, quando Yeshua falou, tudo que saia de sua boca eram ensinamentos de amor, paz e sabedoria. "Isto será muito bom" - pensou, na época - "mas somente após termos conquistado nosso território de volta".

Não obstante, seu mestre parecia ver nele alguma espécie de sábio, e não um guerreiro. Apesar de ser conhecido por toda Judeia como um artista dos punhais, um exímio assassino de romanos, para Yeshua ele era um amigo próximo, um confidente, um dos poucos há quem ele levava para caminhar a sós pelo deserto, enquanto refletia sobre o que fazer a seguir... Yeshua iria libertar a Judeia, disso ele não tinha dúvidas, mas por vezes se perguntava se levariam décadas para reunir um bom exército, e não apenas alguns poucos anos, como ele ansiava.

Naquele final de tarde, afastados dos outros seguidores, observando os desertos ao longe, ele caminhava junto com seu mestre, que cantarolava em alguma língua ao mesmo tempo estranha e familiar, da qual ele conseguia compreender somente um trecho, algo como: "Vá, vá para o deserto, o vento esconderá a trilha, a noite está para chegar, vá agora, meu irmão, vá para o deserto"... Ele não compreendia, não suportava mais esperar, tomou coragem e o interrompeu no meio do canto:

Yehudhah - Me desculpe mestre, mas eu tenho uma pergunta.

Mestre - Diga, meu amigo.

Yehudhah - Quando me juntei a você, você me disse que estava juntando um exército para libertarmos a Judeia. E eu confiei em você, pois sei quando alguém mente para mim se posso ver seus olhos, e você não mentiu, você nunca mente para mim... Mas eu não entendo, que espécie de exército estamos formando? Até agora temos apenas alguns poucos que sabem manejar um punhal adequadamente, e todos os outros são fracos, e alguns até doentes. Poderiam até se tornar soldados, quem sabe, mas o treinamento deveria ter começado já. Você quer que eu os treine todos os dias ao nascer do sol? É a melhor hora, quando aprendem mais.

Mestre - Meu amigo, eu não preciso de soldados...

Yehudhah - Mas, como assim? E como diabos iremos nos libertar?

Mestre - Yehudhah, e acaso algum soldado poderá nos fazer livres?

Yehudhah - Você me disse que seria o zelote que nos libertaria! Você me prometeu...

Mestre - Meu amigo, eu falei a verdade: eu serei um zelote da alma.

Yehudhah - Da alma? Mas como cuidaremos de nossa alma se Roma nos domina? Primeiro precisamos expulsar os romanos, depois cuidamos da alma!

Mestre - Yehudhah, acaso o deserto não lhe ensinou há essa altura? Acaso o sangue dos inocentes que degolou não lhe fez enxergar? Primeiro a alma, meu amigo, primeiro a alma... Mesmo que reuníssemos o maior exército da Judeia, e ainda que degolássemos cada soldado romano, no fim teríamos apenas substituído César por algum outro imperador opressor, e nada terá realmente sido modificado no mundo.

Yehudhah - Mas você será o imperador da Judeia, o rei dos Judeus! E você não irá oprimir, e sim ensinar tudo isso que nos tem ensinado; E então não serão alguns poucos pobres coitados a lhe ouvir, mas todos os rabinos e sacerdotes, todos os grandes mercadores e generais, todos irão reconhecer sua majestade, como eu reconheci.

Mestre - Você me reconheceu pois, como você mesmo disse: sabe olhar fundo nos olhos da alma. Você sabe que eu falo a verdade, pois então confie em mim, meu amigo... Não haverá luta nem matança. Eu não estou convidando pescadores e marceneiros para serem transpassados pelas lanças romanas. Para vencer esta guerra, apenas uma morte será necessária, e eu conto com você para isso: você é parte essencial do plano.

Yehudhah - Mas como? E que plano é esse, mestre?

Mestre - Dia virá que nossa mensagem, embora pacífica, chegará aos ouvidos daqueles que não compreendem a paz, e temem a união do povo. Você sabe como eles resolvem isso: mandam seus soldados e suas lanças. Mas será mais simples entregar o líder dos agitadores, o zelote da alma...

Yehudhah - Não! Jamais, eu não deixarei que morra na mão dos romanos!

Mestre - Mas se o corpo morre, tampouco fará alguma diferença. O que importa é a guerra da alma, a modificação do pensamento dos homens. Se o pensamento não muda, o que está a volta continuará igual, enquanto alguns corpos caem mortos, e outros se erguem em seu lugar... Se eu morrer, terá sido apenas meu corpo, Yehudhah, pois minha alma e minha mensagem continuarão no mundo por ainda muito tempo, no pensamento daqueles que compreenderam parte do que vim dizer. Contemple, meu amigo, onde está situado o meu exército...

E Yeshua, colocando-se entre ele e o sol poente, pareceu se transfigurar em inúmeras figuras de luz, a carregar belíssimas espadas pontiagudas, e armaduras reluzentes. Eles não estavam ali, não eram homens como ele, disso tinha toda certeza, mas por um momento lhe pareceu que esteve a vida toda a lutar por um mísero pedaço de terra, por um canto da Judeia, enquanto que existiam tantas outras terras por serem exploradas e conquistadas, ali ao lado, do lado de dentro, no vasto reino da própria alma... Yehudhah então disse: "Eu farei o que me pedir" - porém, ao mesmo tempo, também pensou para consigo mesmo - "Mas jamais lhe condenarei a morte, e cuidarei para que ainda viva deste lado, e ainda cantarole no deserto, por longos anos...".


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Este conto é uma continuação direta de "O traçador de círculos", e continua em "O filho da vida".

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Crédito da foto: John and Lisa Merrill/Corbis

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9.1.12

O traçador de círculos

Caminhando pela Galileia, o Mensageiro dos Céus falava aos desavisados sobre o Reino, e alguns poucos decidiam segui-lo por onde quer que fosse, enquanto a maioria apenas o agradecia ou amaldiçoava ou, talvez tanto pior, simplesmente o ignorava...

As almas simples que o admiravam em sua parca compreensão começaram a tratá-lo como um deus encarnado na terra, no que ele sempre se irritava: “Apenas uma vez pude ver ao Pai de relance, nalgum sonho esquecido, mas sua luz era tanta que fui obrigado a cobrir os olhos... Sigo esta luz até hoje, mas não sou este de quem falam. Como já lhes disse: vocês mesmos farão tudo que tenho feito e saberão tudo que tenho conhecido, e ainda muito mais, pois este é o destino infinito do Reino!”. Mas nem todos o compreendiam, e o Mensageiro estava saudoso de seus mestres do Oriente, com quem podia conversar sobre assuntos celestes.

Até que um dia seu grupo chegou a um vilarejo onde todos afirmavam haver um grande profeta que tinha o poder de trazer chuvas, o que se fazia bastante necessário naquela secura das regiões próximas aos desertos, pois poderia garantir colheitas de trigo e milho e, tanto mais importante, impedir que crianças e idosos e doentes morressem de fome.

O Mensageiro ficou entusiasmado com a oportunidade de falar a um profeta: Honi, o traçador de círculos. Se ele podia mesmo trazer chuvas, dispunha de um acesso ainda mais íntimo ao Pai e a seu Reino, mais íntimo do que o dele próprio... Aproximou-se enfim do ancião de vestes brancas e um longo cajado de madeira, meditando de olhos entreabertos em meio a um círculo traçado na terra, nos arredores do vilarejo:

Mensageiro – Desculpe-me, sei que pedira para não ser perturbado, mas eu gostaria muito de falar por um momento com o senhor...

Honi – Mas você não me perturba, apenas me traz luz, como a lua a refletir o sol na noite de nossa alma.

Mensageiro – Pois é isto: o perturbado então sou eu mesmo... Como podem me saudar desta forma no Oriente e na Galileia, se sou ainda tão ignorante da luz, dos assuntos celestes? Há tantos outros, mais sábios e mais famosos que eu... Menahem, Simão, Apolônio, até mesmo meu primo Batista...

Honi – Estes são sábios também, tanto quanto nós. Mas eu, como eles, sou famoso no reino de baixo. Você, Yeshua, é conhecido no reino de cima. E digo-te: nossa mensagem passará como o novo dia cobre a noite e a primavera nos faz esquecer do inverno, mas não a tua, a tua mensagem perdurará. E, através dela, todos conhecerão um pouco mais do reino celeste.

Mensageiro – É assim, assim que consegue trazer as chuvas? Você pede por elas no reino de cima?

Honi – Eu não sei nada de trazer chuvas, meu amigo. Tudo que faço dentro deste círculo é tentar me religar aos céus e agradecer, agradecer por cada dia vivido neste Reino maravilhoso – sejam dias secos ou molhados...

Mensageiro – Então você também é como eu, prefere rezar com terra debaixo dos pés e pássaros a sobrevoar os céus, do que dentro de sinagogas?

Honi – Sinagogas são importantes para proteger o pensamento que está dentro daquele que está fora. Mas de nada adiantam se abrigam dentro de seus próprios tetos adornados os pensamentos mais obscuros... Eu aprendi que é muito mais simples traçar a minha própria sinagoga no solo, e apenas meditar sobre o Reino dentro dela.

Mensageiro – Mas isso só vem a confirmar meus questionamentos: como posso ser o profeta de que dizem, se não sei de tantas coisas ainda?

Honi – Você, Yeshua, apenas pensa que não sabe. Venha, trace um círculo ao meu lado, entre nele e ore, e medite, e agradeça, e relembre de quem realmente é, de quem está destinado a ser!

Seguindo o conselho do traçador de círculos, o Mensageiro traçou o seu próprio círculo no solo sagrado do Reino, e adentrando nele, tentou se lembrar da vez em que viu o Pai, e dessa vez tentou descobrir o rosto, lentamente, e tentou ver por um breve momento a luz que se irradiava por tudo o que há...

Em alguns minutos, uma chuva fina cobriu a vila inteira.


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Este conto é uma continuação direta de "O ungido", e continua em "O zelote".

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Crédito da imagem: Corbis (RF)

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6.3.11

O ungido

De volta a região onde havia nascido da última vez, o Mensageiro dos Céus havia encontrado seus pescadores, e juntamente com um punhado deles, havia aprendido a pescar almas. Até então não havia sido notado pelas hostes sombrias, mas isso foi tão somente até ser batizado com água por Yohánan, o Batista. Desde então, foi como se um aviso houvesse sido espalhado pelas mentes de todos os seres etéreos a vagar pela escuridão, até então desinformados: o Ungido havia retornado!

Um deles era o mais influente sobre os pensamentos alheios, como uma enorme sombra a pairar sobre os desavisados ou de vontade fraca. Gabava-se, particularmente, de influenciar decisões de governantes, rabinos, e até mesmo reis e imperadores. Ele intitulara a si mesmo de Senhor da Sombra, e por onde andava uma legião de espíritos subjugados o seguia, serviçais que o adoravam como a um deus; Um deus que podiam ver e ouvir, mas um deus que dificilmente perdoava qualquer indisciplina, qualquer hesitação no caminho da sombra.

Foi enquanto o Mensageiro dormia junto a seus seguidores, debaixo de algumas árvores entre uma e outra cidade da Galileia, que eles finalmente se encontraram em um sonho obscuro:

Senhor da Sombra – Ora, ora, então você é aquele que tem expulsado meus seguidores dos homens e mulheres... É você o “grande exorcista”?

Mensageiro – Eu não expulso ninguém. O que expulsa é o pensamento. Tudo que tenho feito é trazer um pensamento novo aos miseráveis que se arrastam pelo pântano do desejo desenfreado.

Senhor da Sombra – E de que adianta toda essa encenação? Você acha que vai conseguir transformá-los? Pois saiba que, a exceção de alguns poucos que você e Yohánan tem tocado, a grande maioria volta a pecar tão logo você se despede e segue pelas estradas!

Mensageiro – E o que é pecar, senão errar o alvo?

Senhor da Sombra – Como assim?

Mensageiro – Todo ser procura trilhar um caminho ascendente. Em suas escolhas, intuitivamente são sempre levados a agaranhar mais e mais do que quer que estejam buscando... Ocorre que, de acordo com a Lei, todo ser colhe o que planta – quando o que busca não lhe faz sair do lugar, ele permanece preso ao mesmo local, ele erra o alvo, e sua colheita só lhe traz a angústia.

Senhor da Sombra – Muito bonito, muito bonito... Mas palavras não resolverão nossa angústia. Eu estive diversas vezes neste mundo e tudo o que vi foi a brutalidade e a ganância. Seu precioso mundo me ensinou que o poder reside na força do desejo, e o que desejo é ser o que sou: o Senhor de toda uma hoste de espíritos sombrios.

Mensageiro – E você é feliz?

Senhor da Sombra – A felicidade é uma ilusão passageira, uma luz que brilha tão ligeiramente na escuridão que logo a esquecemos... Não desejo mais a felicidade, mas apenas me vingar de todos estes que se dizem santos e divinos reis, e em realidade são tão sombrios, ou mais, quanto eu.
E eis que chego a você, o Ungido! Eu até hoje não sei por onde Deus tem andado, mas certamente está muito distante deste mundo... Você, que se diz o Rei dos Judeus, nada mais é que mais uma fraude!

Mensageiro – Se sou alguém ungido no óleo sagrado, então sou tão ungido quanto qualquer outro, pois não há lugar no Reino que não esteja ungido, e o Reino nos abarca a todos. Pense nisso, meu irmão, que nos reencontraremos em breve...

Assim terminou o sonho. O Senhor da Sombra foi pego de surpresa, alguma coisa em seu frio coração voltara a fervilhar... Havia muito tempo, muitas e muitas vidas, que alguém havia lhe chamado de irmão com tamanha sinceridade. Mas este breve encontro não foi o suficiente para lhe modificar, ele tinha uma reputação a zelar, e muitas mentes para obsediar.

Alguns dias depois, o Mensageiro se aproximara de uma vila onde algumas pessoas estavam sob o domínio das hostes do Senhor da Sombra, e ele tratou de recebê-lo pessoalmente:

Senhor da Sombra – O que veio fazer aqui Yeshu? Acredita que vai os livrar contra a minha vontade?

Mensageiro – Muito pelo contrário. É você mesmo quem os livrará, meu irmão, e por vontade própria...

Senhor da Sombra – Absurdo! E o que vai fazer, me “converter”? Me “batizar” em suas águas imundas?

Mensageiro – Vejamos o que posso fazer por ti, irmão... Observe, vê aqueles homens a me seguir? Pois eles abandonaram suas famílias, seu comércio, sua casa, para me seguir por este mundo tão angustiado, como você mesmo bem sabe... Pois você acredita ter hostes de seguidores, mas em realidade é apenas um cego guiando outros cegos pela força, pela subjugação. Ninguém o segue por vontade espontânea, mas simplesmente porque estava tão perdido quanto você, e acredita que você os tem guiado a algum lugar.
Mas eis, meu irmão, que você é o seu Senhor, você não tem ninguém mais para passar esta responsabilidade: você sabe que o seu caminho é como uma estrada que não leva a cidade alguma, um rio que jamais encontrará oceano algum. Você precisa tão somente admitir isso a si mesmo...
Veja, neste meu caminho, apesar de ser árduo, apesar de ser reconhecido por pouquíssimos, reside a única esperança de felicidade. Pois é uma passagem estreita de início, mas que depois se expande em uma via sagrada da qual sequer conhecemos o final.
Venha, venha conosco, trilhar o único caminho que vale a pena ser trilhado... Venha ser mais um ungido, não o Rei de algum povo, não o conquistador da vontade alheia, mas o rei e o conquistador de si próprio, sob a luz do óleo sagrado que sempre nos cobriu a todos, mas que estivemos cegos para ver, e insistimos em errar o alvo, em escolher o caminho inútil. Eu sou o Ungido, mas vocês também são, e farão tudo que tenho feito, e muito, muito mais!

E desde esse segundo encontro, o Mensageiro passou a contar seguidores e discípulos também no mundo invisível. Não foi da noite para o dia que o Senhor da Sombra se modificou, mas foi o início de um novo caminho...


raph'11

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Este conto é uma continuação direta de "O pescador de almas", e continua em "O traçador de círculos".

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Crédito da foto: youngdoo

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4.12.10

O pescador de almas

Então, após uma longa jornada de auto-conhecimento pelas terras orientais, o Mensageiro dos Céus chegou caminhando nos arredores de antigos povoados judeus, na costa do Mar da Galileia. Ficou surpreso ao ver que uma cidade romana estava a ser construída onde antes havia apenas uma aldeia de pescadores. Foi então que encontrou outro andarilho e teve com ele a seguinte conversa:

Mensageiro – Porque se erguem essas muradas em torno de Rakkat, meu amigo?

Andarilho – Herodes Antipas quis prestar uma homenagem ao imperador, eis que surge Tiberíades...

Mensageiro – Então este é o legado dos imperadores, muros de pedra a cercar antigas aldeias?

Andarilho – E não é este o legado da conquista e da brutalidade? Mas esperemos o dia que Jeová nos enviará um guerreiro para que possamos ser livres uma vez mais!

Mensageiro – E de que adianta derrubar muros com espadas, para logo após sermos forçados a reconstruí-los, para que outras espadas não os derrubem?

Andarilho – Deixaremos um legado de liberdade para nossos filhos.

Mensageiro – Liberdade? Mas quem com ferro fere, com ferro será ferido. Isso não é liberdade, mas escravidão... Antes ser escravo de Roma do que escravo da espada.

Andarilho – Você é estranho, estrangeiro. Como acha que devemos conquistar a liberdade, portanto?

Mensageiro – Primeiro, aprendemos a sobreviver, a caçar, a pescar, a plantar, e nos sustentar, e vemos que isso nos trouxe liberdade...

Andarilho – Sim, mas isso é óbvio, continue.

Mensageiro – Depois aprendemos a viver, a observar a natureza, a passagem dos dias, as brisas e as pequenas coisas do reino. Então percebemos que isso nos traz um outro tipo de liberdade, e pensamos em Deus.

Andarilho – Mas apenas pensar em Deus não basta. Precisamos orar para que Jeová nos envie logo o messias!

Mensageiro – Então aprendemos a morrer, e desvelamos o lado oculto das coisas do reino, e vivemos somente este momento sagrado, livres dos grilhões do passado e do futuro.

Andarilho – Mas essa liberdade é fajuta, não nos livra do grilhão de Roma...

Mensageiro – Você não percebe, meu amigo, que é exatamente o contrário? Mesmo os romanos, mesmo o imperador, todos estão presos dentro de si próprios, como aves enjauladas.

Andarilho – E como nos libertar, afinal?

Mensageiro – Após morrermos para nossa antiga vida, percebemos que não há realmente morte, e nos tornamos renascidos no reino de Deus. Em todo lugar onde víamos escuridão e morte, passamos a ver luz e renovação. E nenhuma murada conseguirá nos prender em nossa aldeia. E teremos liberdade para atravessar todos os muros e adentrar todos os corações!

Andarilho – Mas onde está essa liberdade? Onde encontrar tal reino?

Mensageiro – A liberdade está aqui e agora, na eternidade do ser. E o reino, se não estivesse aqui, em torno de nós, e dentro de nós, onde mais estaria?

O andarilho não sabia identificar completamente o conteúdo daquelas palavras recém pronunciadas, porém, não sabia ao certo dizer o porque, talvez a forma como foram ditas, talvez a liberdade que brotava dos olhos daquele homem a sua frente, talvez o sentimento de profunda paz que sentiu no momento – tudo contribuiu para que acreditasse no que o Mensageiro dizia, como se acredita que o Sol vai nascer novamente no dia seguinte...

Andarilho – Tu és algum sábio de terras distantes?

Mensageiro – Não, sou apenas um andarilho, como tu meu amigo.

Andarilho – Leva-me contigo, eu quero experimentar essa liberdade de que falas!

Mensageiro – Mas tu és um pescador?

Andarilho – Não, na verdade sou um rabino, tenho bastante conhecimento, mas jamais vi alguém falar como você. Poderia levá-lo para nossa sinagoga, tenho certeza que teria uma vida bem tranqüila por lá.

Mensageiro – Mas eu não procuro a tranqüilidade, em verdade eu vim trazer a inquietação e o conflito! Sinto não poder segui-lo meu amigo, mas meu Pai me disse que deveria procurar aprender mais com os pescadores, por agora...

Andarilho – Aprender com os pescadores? O que alguém como você teria a aprender com eles?

Mensageiro – Eu preciso me tornar um pescador de almas, preciso ser a rede arremessada ao mar, para que Ele possa nos puxar... Até a volta, meu amigo.


raph'10

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Este conto é uma continuação direta de "O rabi", e continua em "O unigido".

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Crédito da foto: Aliraza Khatri

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29.4.09

O rabi

Essa é a narrativa da conversa que o jovem Ayatsu teve com o Mensageiro dos Céus no topo de uma colina na Índia, no final da tarde após a morte do velho monge que um dia havia estado em Jerusalém, e que era o mestre de ambos no budismo...

Ayatsu – Nosso mestre dizia que era nosso professor apenas nos ensinamentos de Buda, mas que você era o rabino de todos nós... O que isso quer dizer?

Mensageiro – De onde caminhei antes de chegar aqui, rabino significa “professor”; Espero ser um bom rabino, para poder passar tudo aquilo que aprendi de outros mestres, e do reino de Deus.

Ayatsu – O reino de Deus! Gostaria de saber mais sobre isso... É verdade que quando atingimos o nirvana nos livramos da roda de encarnações e podemos entrar no reino de Deus?

Mensageiro – Qualquer um que nascer de novo pode entrar no reino de Deus.

Ayatsu – Ora, mas e todos nós não nascemos de novo? Então, você encontrou o reino de Deus, sabe onde fica?

Mensageiro (ele olhou de forma enigmática para Ayatsu, e levantou uma pequena pedra do chão) – Você vê o reino de Deus aqui?

Ayatsu – Não, isso é apenas uma pedra!

Mensageiro (ele suspirou e lançou a pedra longe, e ela rolou colina abaixo até cair em um pequeno lago) – Então você ainda não sabe onde fica o reino de Deus...

Ayatsu (confuso) – Mas, não entendo o que quer dizer. E eu estudei anos com meu mestre. Eu sei ler e escrever, conheço os segredos da meditação... E não entendi. Você não veio ensinar a todos nós? Não vai retornar a sua terra e ensinar o povo de Jeová? Como você espera que eles compreendam algo?

Mensageiro – Mas Buda não veio e ensinou-nos sobre o nirvana e sobre o reinado de nós mesmos? (Ayatsu concordou) Pois eu vim falar também de coisas celestiais, e haverão poucos que as entenderão e passarão adiante, exatamente como nosso mestre que ensinou-nos apenas o que pode ensinar. É assim que o reino de Deus se instaura no mundo, pois todos devemos entrar nele de mãos dadas.

Ayatsu – Mas nem todos vem estudar nos mosteiros, com os sábios. A maioria prefere tratar de assuntos de ouro e guerras, e todas essas coisas mundanas... Eles não vão aceitar esse novo conhecimento. Eles vão preferir continuar como estão. Eles podem mesmo te expulsar de sua terra... Você não teme isso?

Mensageiro – E eu não vim apenas trazer uma mensagem do reino de Deus? Como poderei ser expulso se aqui não está minha terra? Na verdade lhe digo que cada um compreende o que pode compreender. Se o reino de Deus ficasse abaixo do mar, os peixes seriam nossos mestres. Se ficasse acima das nuvens, as aves seriam nossas sacerdotisas. Mas, se o reinado se faz no coração, o único caminho até ele é o amor.

raph'09

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Este conto é continuação direta do "O mensageiro dos céus", e continua em "O pescador de almas".

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Crédito da foto: huminiak

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28.4.09

O mensageiro dos céus

Há quase dois milênios atrás, um sexagenário budista indiano, que tinha um grande número de seguidores estudantes da doutrina de Buda, resolveu viajar até o oriente médio. O senhor só iria levar consigo suas roupas, seu cajado de madeira e um seguidor ainda jovem... Poucos na localidade sabiam o que iria o velho monge fazer tão longe, mas alguns especulavam que ele seguia uma mensagem dos espíritos; Iria atravessar enormes distâncias em nome da fé: a mensagem dizia que o mensageiro dos céus, o filho de deus, estava entre os povos do mundo; E logo iria se revelar, mudando para sempre o coração entristecido e desorientado da humanidade.

Ayatsu foi o escolhido para acompanhar o monge. Era ainda jovem e vibrava com o glorioso destino de conhecer o filho de Deus! Após anos de andanças, os dois finalmente chegaram à cidade de Jerusalém. Lá encontraram um outro velho budista, que havia vindo do Nepal anteriormente. O outro monge disse que havia desistido da procura; Afinal, era impossível achar um único homem numa região tão extensa... Depois voltou para sua terra natal.

Após algum tempo de reflexão, o monge teve uma idéia e a seguiu: montou uma tenda numa das entradas da cidade e mandou Ayatsu espalhar a notícia de que naquela tenda recrutavam-se pobres e pastores para trabalhos de empregaria em casas abastadas. No outro dia formava-se uma pequena fila fora da barraca. O monge disse a Ayatsu que iria se ajoelhar e reverenciar cada um dos que entrassem pela tenda como o filho de Deus, mas só uma reação específica indicaria ser aquele o homem dos céus.

Durante aquele dia e outros, e semanas, e meses, nenhum homem reagiu da forma adequada... E finalmente o monge se deu por vencido e decidiu retornar a Índia. Ayatsu tentava imaginar que tipo de reação indicaria ser o filho de Deus: brilhar como o Sol? Levitar? Fazer algum milagre?

Depois de anos voltaram a Índia. O monge já estava conformado e não esperava mesmo encontrar o mensageiro dos céus. Porém, numa ensolarada manhã, um homem de aparência judia, barba e cabelos acastanhados, olhos verdes e trajando roupas leves e de cores quentes apareceu na entrada do mosteiro. Ele falou:

"Eu vim aprender sua religião. Não procuro nada senão teu conhecimento."

Extasiado, o velho monge ajoelhou-se ante o homem; E o homem, inconformado com a atitude do monge, ajoelhou-se também. O monge então encostou sua cabeça no chão, e foi imediatamente acompanhado. Com enorme alegria em seu coração, o budista olhou nos olhos do desconhecido e bradou:

"Tu és o senhor de todos nós, o mensageiro dos céus!"

Com a face plena de paz, o homem respondeu:

"Não, nada além do que você ou qualquer homem do mundo, todos nós trazemos um pouco de Deus em nosso interior. Todos somos filhos de Deus. O que eu fiz foi olhar em meu coração e descobrir a verdade sobre todas as coisas maravilhosas que compõe a divina criação, o tudo."

raph'96

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Este texto "chegou" para mim de maneira inesperada. Em meados de 1996 eu era apenas um jovem universitário que gostava de quadrinhos, esportes e RPG - nunca tive qualquer tipo de educação religiosa, a não ser as intuições que trouxe comigo desde o nascimento (imagino)... No entanto, não lembro bem o que assistia na TV, peguei uma carta impressa de condomínio, uma caneta, e na parte de traz do papel (que estava em branco) escrevi a mão esse conto que acabou de ler (não estou dizendo que psicografei o texto, apenas estava estranhamente inspirado).

Fato é que, de lá para cá, obviamente a temática de meus textos mudou consideravelmente (embora não tenha deixado de escrever sobre fantasia). Se hoje tenho esse blog, um livro de filosofia espiritualista e mais de uma centena de poesias escritas, é porque de certa forma tudo se iniciou naquele dia em que escrevi esse conto - em que deixei ele chegar, por assim dizer. Para mim pessoalmente ele é importante por inúmeras razões: pelos comentários que recebeu, pelas pessoas que o leram, pelos lugares onde foi lido, etc. Mas acima de tudo ele iniciou um ciclo pessoal, por assim dizer. Ciclo este que se renovou com o conto que vem na sequência deste:

» Leia o próximo conto desta série, O Rabi

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Este conto também se encontra traduzido para o inglês: "The messenger of the skies"

Crédito da foto: Wikipedia (cristianismo arcaico)

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