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16.3.12

Nada a temer, nada a duvidar

Yorgana era médium firme, experiente, daquelas que parece já ter ido ao inferno e retornado para contar história, sempre com um sorriso, ou um meio sorriso, pela face nem mais tão jovial. Tomé estava ali, apreensivo, para observar e aprender...

Após a oração inicial, as luzes foram apagadas e as pessoas entraram em meditação, tanto na mesa grande quanto nas cadeiras em torno. Tudo o que se ouvia, a princípio, era o barulho dos dois ventiladores velhos e desgastados, que já aliviavam o calor daquele centro espírita há uma boa década ou mais. Tomé ansiava pelo que estava por vir, e logo alguns começaram a gemer e se contorcer e reclamar. Como sempre, Yorgana estava lá para oferecer conforto aqueles que foram convidados, de tão longe, aquele recinto de luz:

“Está tudo bem minha filha, quer me dizer alguma coisa?” – Dirigiu-se, sussurrante, a senhora que meditava na cadeira a sua frente.

De início não houve resposta, e exatamente por isso que alguma coisa parecia estar a ocorrer... Logo, aquela senhora pacata e serena tinha ido embora, alguém irrequieto e angustiado tomou o seu lugar:

“Ai! Ai! O que eu estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Tá dolorido... Minha cabeça dói, tem insetos no meu corpo, tira isso, tira eles, me tira daqui!!”

Yorgana trouxe suas mãos para próximo da cabeça da senhora (ou quem quer que estivesse ali agora), e continuou serena, quase carinhosa:

“Calma... Calma! Vamos respirar mais devagar, assim, comigo, vamos...”

E o que se seguiu foi uma verdadeira luta para que a senhora conseguisse passar a respirar mais lentamente, no ritmo que a médium demonstrava, expirando e inspirando profundamente o ar seco do ambiente.

“Vamos, vamos... Assim comigo. Inspira, segura um pouco, expira... Calma que aqui são todos seus amigos...”

“Amigos? Não, eu não tenho amigos... Não aqui, principalmente aqui... Que lugar estranho é esse, porque me trouxeram? Porque, isso não tem nada a ver comigo... Eu não pertenço aqui, ninguém vai me aceitar aqui...”

“Isso já é contigo. Primeiro, você é quem precisa se aceitar... Você está aqui, é verdade, só por um tempo, e pode ficar tranquila que logo logo volta para onde veio... Você foi convidada... É, digamos assim, um certo privilégio, pois nem todos têm a oportunidade de vir a essa casa de cura.”

“Cura? Mas como você vai me curar de toda essa dor? E esses malditos insetos que não me largam! Me ajude então, se gosta de mim...”

“Só se você também abrir uma brecha para gostar de si... Vamos, esqueça o que te deixou nesse estado, há sempre tempo de recomeçar... Vamos, inspire comigo e imagine a cor azul, o ar sendo de um azul tão puro, que entra na sua cabeça e ajuda a limpar, e limpando vai levando a dor embora, e daí você expira essa dor, essa coisa ruim aí dentro, e isso tudo sai de você na cor vermelha... Deixa o azul entrar, deixa o vermelho sair... Deixa entrar, deixa sair... Isso... Isso, tá melhorando não tá?”

“Tá melhorando a dor, sim... Que coisa incrível, há tanto tempo que doía que eu nem sabia mais como era estar assim... Os insetos não picam mais meus braços, minhas pernas...”

“Isso, isso mesmo... Mas continua, continua imaginando as cores, continua inspirando, expirando... Eu poderia te ajudar só aqui, mas não sei quando vai poder voltar, e pode continuar fazendo isso onde quer que esteja, basta lembrar: deixa o azul entrar, deixa o vermelho sair... E se acalma, e se perdoa, e dê uma chance a si mesma de recomeçar.”

“Isso... Isso é maravilhoso! Mas eu não sei se vai funcionar onde eu moro... Lá é tudo tão gelado e úmido, o ar é ruim, o céu é escuro, não tem ar azul por lá...”

“Tem ar azul em tudo quanto é lugar... Vou te contar: o que você acha que é o ar que entra azul e sai com sua dor vermelha?”

“Algum ar que só existe aqui nessa casa de santos... Eu preciso ficar aqui, me deixa, me deixa ficar!!”

O atendimento estava acabando, e Yorgana tinha só alguns segundos:

“O ar azul, é Deus. Ou você imaginou que nalgum dia estranho poderia realmente estar fora Dele? Ele está em todo lugar, mais próximo que o seu pensamento mais querido, porém tão distante quanto a sua culpa mais profunda... Se perdoe, vá em paz, há sempre tempo de recomeçar. Adeus!”

***

Após a cantoria ao final da sessão, Tomé estava ainda enxugando as lágrimas. Ele havia sentido de perto, bem de perto, toda a dor e angústia, todo o caos mental naquela senhora, ou no que quer que a tenha visitado ali. Alguém que sofria imensamente, mas que foi consolada. Alguém que pareceu, depois de muito tempo, enxergar uma vez mais a luz ensolarada da esperança...

Ele tinha de perguntar a Yorgana:

“Nossa, como você atendeu bem, firme! Como você faz para ter as palavras certas nesse momento? Você não fica com medo do que pode aparecer? Você não... Duvida do que está ocorrendo?

“Eu nunca sei o que virá, e certamente fico apreensiva, e certamente tenho dúvidas acerca do ocorrido... Se foi realmente alguém que apareceu, se era uma memória antiga, algum distúrbio mental, alguma personalidade trancafiada que pôde finalmente vir a tona... Quem vai saber?”

“Mas, na hora você...”

“Na hora, não era eu. Era algo acima de mim, algo que me toma e que me faz ser alguém maior, alguém que tão somente deixa a luz do alto passar, o mais límpida possível... Na hora, não há nada a se temer, nem nada a se duvidar. Na hora, eu apenas amo, e o amor faz o resto. E, Tomé, não há como se temer o amor, não há como se duvidar dele.”

raph’12


Agora vou viajar, até breve...

***

Crédito da imagem: Fraternidade Espírita Monsenhor Horta

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6 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Pegou pesado hoje comigo: bem parecido com algumas experiencias minhas de Imaginação Ativa, para usar termos da psicologia analítica. Demorei muito a aprender a lidar com isso, mas aprendi a me focar nas lembranças boas, a deixar isso que chamamos de "amor" fluir e tudo acaba bem assim, neste teatro mental, diferente dos poços de depressão e confusão nos quais me afundava quando ocorriam na adolescencia. Já me perdi no ódio sentido, na dor, na revolta, até mesmo no "amor" a dois. Não me leve a mal, não estou dizendo que o que ocorre nas sessões espíritas seja teatro no termo corriqueiro, pois vejo a própria vida "real" como um teatro mental/espiritual. Como não aprendi a calar as emoções, os arquétipos personificados, personagens ou "entidades" que "saltam", aprendi ao menos a viver isso e fazer acabar bem, como em qualquer boa estória... nem sou eu a ajudar ou ser ajudado, a revoltar e fazer justiça, ou o que quer que seja: são os "vários em mim", se alternando e se resolvendo. Resolvi deixar o teatro acabar sozinho e só deixar meu coração aberto em amor, que eles se viram... para mim, fica sempre uma boa estória, uma lição, uma emoção que sempre acaba em amor... o engraçado é que sozinho, as experiencias sao assim, num terreiro, sempre é um "desmaio"... e quem ousa entender experiencias assim?! acho que basta experimentar mesmo...

obs:não podia deixar de comentar a imagem com as frases: a luz é uma e as cores são muitas e vice-versa... há unidade na diversidade e diversidade na unidade; unidade que é infinita luz...

abraços

16/3/12 20:22  
Blogger Alfredo Carvalho disse...

Raph, eu conheço muitos blogs legais que falam sobre espiritualidade, mas é neste aqui que tenho vontade de entrar todos os dias pois sei que hora ou outra você sempre aparece com uma mensagem primorosa como essa. =)

16/3/12 23:50  
Blogger raph disse...

Obrigado pessoal, vou responder com mais calma quando puder digitar num teclado maior :)

Abs
raph

17/3/12 11:31  
Blogger raph disse...

Valeu Alfredo, é um privilégio poder contar com visitantes que voltam e voltam tantas vezes, e as vezes até refletem junto comigo :)

Abs
raph

17/3/12 20:33  
Blogger raph disse...

Pois é, Anônimo, mas, sendo teatro ou não, o que impressiona é que essas histórias são emocionantes, muitas vezes mais emocionantes que a "realidade"... E o tratamento, por mais estranho que possa parecer aos que não o conhecem e compreendem, muitas das vezes funciona, funciona muito bem até. Enfim, se alguém está sendo efetivamente tratado, curado, seja encarnado ou desencarnado, me parece ser algo feito de luz, e não escuridão...

E a luz, não importa tanto a cor (aquela magia é apenas uma questão de associação de significados, para a mente...), nos abarca, nos preenche por todos os lados, por todo o tempo.

Abs
raph

17/3/12 20:46  
Anonymous Anônimo disse...

Lindo o texto.
Concordo completamente com o Alfredo.

Abs

20/3/12 18:06  

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