Pular para conteúdo
16.9.25

Existe algo

Existe algo, e não nada:
eu não preciso de mais do que isso.

Ainda que nossa vida seja uma insignificância,
um pequeno milagre
que fez do inorgânico algo orgânico
nas profundezas de um oceano primordial
deste planetinha a girar em torno de uma estrela
na periferia de uma entre trilhões de galáxias,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que realmente não tenhamos a decisão final,
ainda que nossos desejos, vontades e consciência
sejam mero devaneio de alguém que sonha desperto,
e acredita que segura as rédeas
do próprio sonho,
ainda assim sonhamos,
ainda assim somos algo,
e não nada.

Ainda que todos esses anjos e demônios
sejam mero fruto da imaginação;
ainda que uns digam que Deus é a cauda do elefante,
e outros, que é a tromba,
e outros, que são as orelhas, as presas, as patas,
ainda assim, imaginados ou não,
anjos, demônios e elefantes são algo,
e não nada.

Portanto, meu amigo,
eu sou da filosofia de que há esta única certeza,
e nenhuma outra:
eu não preciso de mais do que isso.

E ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
não temerei mal algum,
pois que algo está comigo,
e eu mesmo sou formado por algo,
e eu mesmo, quando já não for mais “eu”,
ainda serei algo.
E, para ser bem franco,
até mesmo o vale, a sombra e a morte
são algo, e não nada.

“Algo”: alguma coisa indeterminada;
qualquer coisa;
todas as coisas.

Portanto, meu amigo,
se você me acompanhou até aqui,
deve ter percebido que precisamos consertar
o início do poema...

Existe algo:
eu não preciso de mais do que isso;
pois não preciso negar
aquilo que não existe, existiu ou existirá.


raph'25

***

Crédito da imagem: Photos by Beks/unsplash

Marcadores: , , , ,

28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

***

Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

Marcadores: , , , , , , , , ,

6.9.22

A origem do universo, com o Boteco Mayhem

Por que a noite é escura? Para responder a esta pergunta, eu e os outros participantes do Bate-papo Mayhem fizemos uma jornada até o início de tudo, num episódio cheio de ciência, mitologia e espiritualidade. Assista abaixo:

Marcadores: , , , , , , , , , , , , , , ,

18.4.22

Eu sou, eu era, e eu serei

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

Assim se inicia o livro de João, parte do Novo Testamento bíblico. É muito comum que se use essa frase para associar a ideia de Deus com o vociferar, o verbalizar, o colocar em palavras, o que em última análise também está associado a causar alguma alteração no mundo lá fora, a expressar o que se sabe, o que se sente, em suma: a evangelizar, difundir a palavra sagrada.

Entretanto, é estranho de se pensar que a palavra mais sagrada das religiões abraâmicas (que remontam a Abraão) é um dos termos de significado mais complexo e, em geral, desconhecido da maioria dos seus seguidores. A inscrição mais antiga conhecida que contém o tetragrama YHWH é a Pedra Moabita, de cerca de 840 a.C., que celebrou a vitória de um rei moabita sobre um rei israelita. O tetragrama também foi encontrado em inscrições menos solenes de fragmentos de cerâmica um pouco mais recentes. Aparece, por exemplo, nas chamadas Cartas de Laquis, que contêm frases como “Que YHWH faça que meu senhor ouça hoje mesmo notícias de paz”.

Mas o que é YHWH afinal? Ele se refere as quatro letras do alfabeto hebraico que compõem o nome de seu Deus (escritas da direita para a esquerda): י (yod), ה (he), ו (vav, chamada também waw), e de novo ה (he). Em português (assim como em inglês e francês) a transliteração usual é YHWH, mas encontram-se também na forma YHVH (como em espanhol). Isso significa que os antigos hebreus vociferavam um som parecido com Iodhêvavhê quando se referiam ao seu Deus. Dito isso, até aqui não demos nenhum significado a YHWH muito diferente de dizer que “Deus” se escreve com um D, seguido de um E, um U e um S. Então precisamos repetir a pergunta: mas o que é YHWH afinal?

Para atingir o significado mais profundo de YHWH, a princípio não é necessário ser um cabalista com décadas de experiência mística, mas antes um especialista no... hebraico. Há um trecho do livro do Êxodo, no Antigo Testamento bíblico, que nos dá uma bela pista sobre o significado de YHWH para um hebreu:

Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

(Êxodo 3:13,14)

Esse trecho corrobora a tese de alguns estudiosos do hebraico bíblico que afirma que Deus, ou YHWH, não é propriamente um substantivo, mas um VERBO! YHWH não somente é, como está sendo, foi e será: um verbo conjugado em todos os tempos existentes, um verbo que está na fonte do que existe, no princípio, mas também no fim de todas as coisas; e, igualmente, em todas as coisas em todos os tempos.

Há um ensinamento da tradição oral judaica, atribuído ao Rabino Akiva, em que o próprio Deus afirma:

Eu sou, eu era, e eu serei. Eu era antes do mundo ser criado, eu sou desde que o mundo foi criado, e eu serei aquele que estará no mundo vindouro.

Esse tipo de interpretação é poderoso porque não deixa nenhuma margem para que possamos considerar qualquer coisa, em qualquer tempo, como estando fora, ausente, ou até mesmo distante de Deus. De fato, não há como algo EXISTIR sem que isso implique a existência em si, e a existência em si é parte de Deus.

Assim, Deus sempre esteve mais próximo de você do que o seu próprio olho, e quando você respirou a primeira vez após vir ao mundo como um ser humano, o ar que respirou era Deus, assim como seus pulmões e a placenta que ainda o conectava a sua mãe. E, ainda que não possamos nos lembrar por certo onde estávamos antes do nascimento, muito antes da própria Terra se formar, muito antes dos primeiros elementos pesados serem forjados nos núcleos dos primeiros sóis, Deus já estava lá, porque não é possível se falar em existência sem usar o verbo existir: se um universo existe, se há algo que chamamos de espaço-tempo, então lá também está Deus.

Eu poderia decorar esse texto com mais infindáveis parágrafos acerca do que existe, poderia lembrar de Krishna e do Bhagavad Gita, ou do Tao no livreto de Lao Tse, ou até mesmo da Substância de Espinosa e outros conceitos mais metafísicos do neoplatonismo e do hermetismo, mas o que considero mais importante aqui não são as palavras, mas o verbo, o existir, o estar sendo, e isso é algo que vai muito além das palavras, meras cascas de sentimento.

Então abandone estas palavras, abra a janela e olhe para fora, esteja onde estiver, e simplesmente sinta que existe, abra seu coração e sua alma para o estar sendo, aqui e agora: lembre-se de que aquilo que busca também sempre esteve lhe buscando, mas deixe as palavras para depois...

raph

***

Com agradecimentos a Caio Ribeiro Chagas pela exposição inicial do conceito de YHWH como verbo, no podcast Pele de Cordeiro sobre o Sefirat ha Ômer.

Crédito das imagens: [topo] Noah Holm/unsplash; [ao longo] Tanner Mardis/unsplash.

Marcadores: , , , , , , , ,

6.11.18

Onde vivem os deuses (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo vamos nos aventurar pela roda dos deuses, e falaremos do Uno tanto do ponto de vista da pura lógica quanto do ponto de vista teológico e religioso. Veremos também como o culto a Deusa Mãe se perdeu juntamente com o Matriarcado, e como o "deus tataravô" se tornou o deus cósmico da Bíblia. No meio do caminho, ainda falaremos de anjos, orixás, e deuses mensageiros... Ao final, ainda recito um poema de minha autoria, quando talvez descubramos, finalmente, o que diabos é Deus.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , ,

24.4.18

Deus é nosso amor (Reflexões no YouTube)

Em meu segundo vídeo na TV Aberta das Internetz, falo um pouco mais sobre as diversas formas de se conceber a Deus, tanto as ocidentais quanto as orientais. Também veremos como Joseph Campbell foi um sujeito fod@, e como os sábios hindus já debatiam assuntos divinos complexos desde pelo menos a época de Cristo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , ,

12.2.18

A nossa temperatura

Houve época em que vivia em meu próprio casulo,
como um astronauta sem contato com a Terra,
perdido no universo de si mesmo,
dono de tudo, e só.

Em meu casulo espacial eu achei conhecer Deus:
ele era onipotente, onipresente, onisciente,
ele era muito muito grande, maior que o infinito,
e por isso não aparecia,
tinha coisa mais importante para fazer...

Até que chorei tanto de solidão,
que meu cosmo pessoal se incendiou de dor,
e foi assim que meu casulo se rompeu.
Sim, ó caminhantes das inúmeras vidas:
foi através da ferida que a luz adentrou meu ser,
foi batendo por dentro
que o portão se abriu...

Então vi o mundo lá fora, e pousei de volta
aqui em nossa Terra.
Em minhas andanças pelas planícies e montanhas,
busquei saber quem eu era,
com quem poderia me relacionar,
e tudo o que seria bom ou mal,
claro ou escuro, certo ou errado,
moral ou imoral, louco ou são...

Mas eis que lhes digo, caminhantes,
por fim acabei sentindo,
e sentindo percebendo,
e percebendo compreendendo,
que além de todas essas ideias
há um campo
onde não há homem nem mulher,
nem quente nem frio;
há um campo
onde toda a nossa temperatura
se mede pela alma.

Foi justamente lá
que Deus apareceu para mim,
e todo o seu ser era a imagem e a semelhança
do nosso amor...


raph'18 (após dialogar com a Lua)

***

Este poema também se encontra na página Poetas do Caos: facebook.com/caospoetas/

Crédito da imagem: Sam Manns/unsplash

Marcadores: , , , , ,

17.10.17

A filosofia para viver bem (parte 3)

« continuando da parte 2 | ler do início

3. O homem encontra Deus

Se Montaigne, assim como os céticos, se sentia a vontade com um mundo estranho, do qual não podemos saber tudo sobre ele, que está sempre a nos surpreender com algo novo, não podemos dizer o mesmo de René Descartes.

Em suas meditações, Descartes partiu do ceticismo. A dúvida era o seu método. Questionou absolutamente tudo para saber o que poderia ser realidade e o que era falso.

Após duvidar de todas as verdades, chegou a uma conclusão: ainda que ele duvidasse de tudo, não poderia duvidar dele mesmo enquanto aquele que duvida. Daí “penso, logo existo”.

É deste modo que levando a dúvida até suas últimas consequências, Descartes chega num ponto de certeza, um critério confiável para a verdade. Se eu penso sobre o mundo, posso até duvidar que meus pensamentos sobre o mundo sejam falsos ou verdadeiros, mas não há dúvida que eu de fato os pense. Voilà, a consciência.

Claro que Descartes não passou sem críticas. Leibniz criticou o pensamento cartesiano como circular, não havendo uma demonstração real de uma certeza. O “eu” conduz ao “penso”, e vice-versa. Já Nietzsche percebeu em Descartes uma série de pressupostos como “eu” e “pensamento” dos quais eles também podem ser colocados em dúvida, e, portanto, não há a menor certeza de suas existências. Bertrand Russell disse que Descartes pode objetar no máximo que existe pensamento, mas jamais que o pensamento é produto do eu.

De qualquer modo, somos cartesianos. O pensamento de Descartes foi fundamental para a Modernidade. A partir de então, não somos mais guiados por critérios externos de verdade como no Mundo Antigo – o mundo ou os deuses – mas referidos à subjetividade e a consciência.

É curioso, no entanto, que Descartes em algum momento precisou apelar para Deus para sustentar seu pensamento.

Afinal, como não imaginar que a verdade talvez seja um engano criado por um gênio maligno que queira nos dissimular?

Descartes responde: se há o imperfeito, é porque há o perfeito. Caso contrário, não haveria sentido supor uma perfeição. E Descartes supostamente já havia chegado num conhecimento perfeito para a consciência: penso, logo existo.

Deus é a própria perfeição, externo ao próprio mundo, mas que garante sua existência ainda que imperfeita. O pensamento não poderia existir se não existisse um Deus que o garantisse, e não um gênio maligno tentando nos enganar sobre isso.

Ou seja, se há verdade, há Deus.

A filosofia sempre esteve às voltas com o problema de Deus, mas nunca conseguiu se livrar Dele. Não faltaram tentativas.

Mesmo um pensador como Spinoza – cujo objetivo era erradicar toda transcendência e afirmar um mundo de imanência absoluta, em que não há outra coisa senão tudo o que há e podemos ver/sentir – chegou a uma ideia de Deus. Claro que o pateísmo de Spinoza se diferencia da visão dos religiosos ortodoxos sobre Deus, em que Ele existe enquanto entidade pessoal.

O Deus de Spinoza é imanente. Nós e Ele somos Um só. O Universo e Ele também. Nós e todas as coisas somos a mesma coisa, e não há um mais-além da realidade do Um. Ou seja, não há espaço na filosofia imanente para a transcendência de Deus que Descartes imaginou.

E Spinoza chega a Deus justamente porque não era possível chegar a qualquer outra coisa.

Não. Eu não estou falando que Deus existe.

Estou dizendo que há um ponto de absurdo em que a própria realidade não faz sentido se não cedermos dos questionamentos, do ceticismo. Tal como fizeram Descartes ou Spinoza.  Precisamos inevitavelmente tomar algo a priori como infalível e disso tirar todas as conclusões consequentes.

A Ciência tem Deus no seu próprio método científico. Este que pode colocar tudo em dúvida, questionar a realidade, descobrir a verdade do universo. A única coisa que fica fora de questão é o próprio método científico.

Qualquer filósofo, por mais ateu, tem que admitir Deus em algum ponto do seu pensamento. Não enquanto a entidade que os religiosos pensam existir. Mas justamente enquanto este ponto de incongruência que faz todo o restante do universo ser coerente, e não sermos meros céticos a duvidar de tudo indefinidamente, como fizera Pirro, jamais chegando a qualquer certeza.

Para os analíticos, são os pressupostos lógicos que servem de base para o pensamento. Já os construtivistas encontraram Deus na História: tudo é um fato histórico, e pode ser explicado por ela, não havendo nada de real para além da mesma.

A ideia que existe um vazio por baixo de tudo não é muito reconfortante. Todos nós assumimos irracionalmente algum ponto de certeza – convictos dele de forma bastante emocional – para dar sentido e orientar nosso pensamento. Negamos assim que a realidade possa ser apenas um absurdo.

Se podemos relacionar o epicurismo ao hedonismo e o estoicismo ao ascetismo, o ceticismo chega na modernidade sob a forma do niilismo. A ausência de um critério absoluto que possa definir a realidade. Mais do que a morte de Deus, o niilismo é a radicalização do ceticismo sob o entendimento de que a dúvida é a única certeza. Não há um significado para a existência, tampouco um objetivo para estarmos vivos. As coisas simplesmente existem.

Estamos acostumados a imaginar que por detrás das aparências existe uma verdade oculta, a qual devemos buscar para compreender melhor o mundo. A perspectiva niilista é que, por detrás das aparências, não há outra coisa senão o Vazio. As aparências são tudo que temos enquanto existência, e não há uma verdade mais além disso, apenas uma existência negativa: o Vazio.

O niilismo se tornou o grande bicho-papão da modernidade. Muitos o identificaram como depressivo, trágico, destrutivo. Coube finalmente a alguns franceses – sempre eles – subverterem isso. Mas veremos no próximo texto.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

***

Crédito da imagem: Felix Russell-Saw/unsplash

Marcadores: , , , , , , , ,

24.4.17

Entre eu e você

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Não sei se alguns aqui já devem saber, mas até alguns anos atrás eu costumava dizer que:

Minha religião é meu pensamento
Minha vida é minha Bíblia
Minha igreja é meu coração
Deus é meu amor

Um dia (já não lembro quando), alguém "corrigiu" o último trecho (já não lembro quem, mas sei que foi o comentário de uma mulher, na internet), de modo que passou a ficar:

Deus é nosso amor

Para mim, de fato fez toda a diferença do mundo. No momento em que li dessa forma, percebi o quanto o erro estava associado ao meu próprio ego. É óbvio que o amor divino não é "meu", nem "seu", nem "dele", ele é "nosso", necessariamente!

Há uma belíssima passagem dos poemas de Jalal ud-Din Rumi, o poeta sufi persa do séc. XIII, que fala assim:

Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

É desse tipo de amor divino que estou falando quando digo que "Deus é nosso amor". Não uma fonte de amor que transborda de algum canto do Cosmos e nos alcança como uma chuva permanente, mas a própria chuva, e o solo que ela rega, e a vida que cresce deste solo, e os mortos que o solo sepulta, e tudo, tudo o que há ou foi ou será.

Há este conflito entre perceber a Deus como um ser pessoal ou impessoal, o interessante é que há milênios atrás o próprio Bhagavad Gita falava precisamente disto no início do Cap. 12 (a tradução é minha, a partir da versão inglesa de Sir Edwin Arnold; no diálogo Arjuna representa o homem e Krishna, o ser divino):

Arjuna perguntou: Daqueles devotos que desejam alcançar o seu refúgio, qual deles são os melhores yogis, os que meditam e se conectam ao seu aspecto pessoal e manifesto, ou aqueles que focam a sua mente em seu aspecto universal e sem forma definida? (12.01)

Lorde Krishna disse: Considero os melhores yogis aqueles que me amam como um aspecto pessoal, com intimidade e familiaridade, pois esses terão maior facilidade em me imaginar ao seu lado. (12.02)

No entanto, aqueles que me amam como o absoluto, inefável, onipresente, indiviso, manifestado não somente numa pessoa, mas em todo o universo, infinito e eterno, o uno em tudo, se eles mantêm o seu ânimo inabalado em todas as circunstâncias da vida, se respeitam todos os seres e colaboram para o bem estar da sua vizinhança, se são capazes de compreender que a minha substância preenche a tudo o que há, foi ou virá a ser, eles também alcançarão o meu refúgio, ó príncipe. (12.03-04)

O caminho para a autorrealização é muito mais árduo para aqueles que me imaginam como o absoluto e sem forma definida, pois que a concepção do que é eterno e infinito é algo muito complexo para uma mente finita que viaja junto ao fluxo do tempo. (12.05)

Mas aqueles que me imaginam em meu aspecto pessoal, me amam e adoram, dedicam a mim todas as ações de suas vidas, e sempre meditam em mim como o seu alvo mais elevado, eles me alcançarão mais facilmente, ó Arjuma, e eu os salvarei do oceano das mortes e renascimentos. (12.06-07)

Assim, ignorando o conselho do próprio Krishna, eu mesmo optei por me arriscar a me religar não com uma divindade pessoal, mas com tudo o que existe, pois que não há neste vasto universo nenhum canto fundo o suficiente onde Ele não se encontre, nem espaço vazio e escuro o suficiente onde Ele não esteja, mesmo que oculto em flutuações quânticas.

No fim das contas, creio que o objetivo da união mística é precisamente este: de estar ao lado de Deus em todos os momentos, onde quer que esteja, e com quem esteja, pois como disse o poeta sufi enquanto rodopiava naquele campo precioso, eterno:

Entre eu e você não existe nem eu, nem você.

***

Crédito da imagem: Oleg Oprisco

Marcadores: , , , , , , ,

28.3.17

O sentido da vida, do universo e tudo mais

Era uma vez uma civilização intergaláctica avançada que construiu um supercomputador chamado Pensador Profundo e lhe fez a pergunta que julgaram ser a mais importante e vital de todas, “Qual o sentido da vida, do universo e tudo o mais?”.

Assim, após milênios de cálculos avançados, o Pensador Profundo finalmente chegou a uma resposta, e ela era “42”.

Esta passagem altamente metafísica é talvez o trecho mais famoso da série O Guia do Mochileiro das Galáxias, do britânico Douglas Adams, que se iniciou como um programa de radio muito bem humorado em 1978, e eventualmente se tornou a “trilogia de cinco livros” mais aclamada entre os nerds deste planeta.

O bom humor, aliás, se mantém até hoje, mesmo após a morte do autor, em 2001. Afinal, não poderíamos esperar uma resposta muito profunda para alguém que já escreveu que “no início, o universo foi criado. Isso irritou profundamente muitas pessoas e, no geral, foi encarado como uma péssima ideia” (mais um trecho da série), ou poderíamos?

O próprio Adams já tentou resolver a questão uma vez, e explicou que “a resposta é muito simples: foi uma brincadeira. Tinha que ser um número, um ordinário, pequeno, e eu escolhi esse. Representações binárias, base 13, macacos tibetanos são totalmente sem sentido. Eu sentei à minha mesa, olhei para o jardim e pensei ‘42 vai funcionar’ e escrevi. Fim da história”. Mas obviamente não foi o suficiente para aplainar a angústia dos fãs: e se ele estava querendo desconversar? E se de fato a resposta para o sentido de tudo o que há seja mesmo “42”, o que diabos isso realmente significa?

Numa “jornada mística” pelas profundezas da cultura nerd e geral, muitos leitores de Adams tentaram encontrar pistas para a resposta. Alguns encontraram associações surpreendentes, por exemplo: há um total de 42 ilustrações no original de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll; há um total de 42 Km no percurso de uma maratona; um Big Mac nos EUA já chegou a conter 42% da ingestão diária de sódio recomendada no país; o número do apartamento de Fox Mulder na série de TV Arquivo X era 42; na página 42 da versão inglesa de Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry descobre que é um mago; e por aí vai [1]...

Mas talvez tenham sido os programadores, esta casta da elite de sapiência entre todos os nerds, quem finalmente desvendaram o mistério oculto no “42”: de acordo com eles, 42 é o código ASCII para o asterisco (*), e o asterisco, na programação, significa “qualquer coisa”. Assim, segundo essa teoria, 42 seria mais que um número aleatório, e sim o código para algo como “a resposta para o sentido de tudo é: qualquer coisa que você quiser”.

Ainda que tudo isso ainda seja obviamente uma grande brincadeira, fato é que, mesmo que de certa forma “driblando” a pergunta com um intrincado e refinadíssimo humor inglês, Adams acabou nos trazendo este imensamente profundo ensinamento (ainda que sem querer): de fato, o sentido da vida, do universo e tudo mais é aquilo que quisermos, é aquilo o que fazemos da vida com o tempo que nos é dado viver. E isso casa perfeitamente não somente com os livros de Adams ou o pensamento de Gandalf o Cinzento, mas também com doutrinas espiritualistas muito mais antigas, principalmente as do Oriente.

Há muitos de nós, espiritualistas, que associam o sentido da vida a existência de uma força maior, uma divindade, quem sabe aquele ou aquilo que criou tudo o mais, e que seria também a sua explicação final. O que faríamos de nossas vidas, neste sentido, necessariamente estaria em conexão com tal essência. Quem sabe Joseph Campbell, eminente estudioso de mitologia do século passado, e que influenciou diretamente outro cânone nerd, Star Wars, possa explicar melhor o que estou tentando dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental [2].

Mas Adams, é claro, não acreditava em Deus. Não somente não acreditava, como inspirou muitos ateístas com suas obras. Por exemplo, em Deus, um Delírio, o biólogo e ateísta militante Richard Dawkins faz uma carinhosa dedicatória ao seu amigo, citando um trecho dos seus escritos que diz: “Não é suficiente ver que o jardim é belo sem ter que acreditar que há fadas morando nele também?”.

Apesar de ter sido bem menos militante no seu ateísmo do que Dawkins, o Deus que Adams desacreditava com seu bom humor incomparável era, obviamente, um Deus “comparável às fadas”: uma espécie de metáfora tirada da mitologia, onde o Criador poderia muito bem ser um ancião muito velho, de barda muito muito branca, sentado num trono no alto do Céu e com poderes de X-Men. Este não é, obviamente, o mesmo Deus de que Campbell fala logo ali em cima...

Há muitos mistérios ainda insondáveis na ciência e no conhecimento humanos. Do alto de todo o seu entusiasmo pela tecnologia, Adams foi profundamente sábio e humilde ao trazer uma não-resposta para a pergunta que foi feita ao Pensador Profundo. Na sequência da história, os seres que lhe fizeram a questão compreendem que o problema não estava na resposta, e sim na pergunta: o dia em que soubermos a pergunta definitiva para a vida, o universo e tudo o mais, talvez a resposta sequer seja necessária. Afinal, foi através das perguntas, e não exatamente das respostas, que alargamos nosso conhecimento do Cosmos até nosso estágio atual.

No entanto, faz alguns séculos que as nossas perguntas, particularmente as científicas, têm talvez se demorado muito com o que acontece lá fora. Talvez seja tempo de começarmos a nos aventurar com nossa toalha não pelas galáxias externas, não pelos bilhões e bilhões de mundos deste universo lá fora, mas pela inefável fantasia de nosso próprio interior.

E então, quem sabe, poderemos fazer esta pergunta que, se não é a última, poderá muito bem ser a primeira: Quem sou eu? Quem somos nós, de verdade?


O universo, como já foi dito anteriormente, é um lugar desconcertantemente grande, um fato que, para continuar levando uma vida tranquila, a maioria das pessoas tende a ignorar. (Douglas Adams)

***

[1] Veja mais associações incríveis neste artigo do The Independent (em inglês).

[2] Trecho de O Poder do Mito, de Joseph Campbell (livro e série de vídeos homônima).

Crédito da imagem: Google Image Search (Douglas Adams)

Marcadores: , , , , , , , , ,

28.9.16

A canção da Unidade

Ainda lembro a primeira vez em que ouvi esta voz vinda diretamente do céu. Era um show de rock no Ocidente, mas era também um show de Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis que, além de músico, é também um produtor musical de mão cheia, que nunca limitou seu olhar somente a música ocidental. Foi achar justo no Paquistão esta voz celeste, a voz de Nusrat Fateh Ali Khan.

Na época, década final do século passado, antes dos atentados de 11 de Setembro, os islâmicos não eram tão facilmente associados a atos de terrorismo e intolerância, porém já se pressupunha uma grande ortodoxia religiosa, sobretudo no meu caso que não conhecia nada de islamismo...

Assim, por anos dancei as músicas de Nusrat me sentindo um herege, pois supunha que todos deviam ouvir os cânticos religiosos, quase todos falando da unidade divina ou do amor universal, da mesma maneira com que eram cantados por Nusrat e seu grupo familiar (literalmente, a maior parte são parentes): sentado e em posição respeitosa.

Somente muitos anos depois fui descobrir o sufismo de Rumi e Shams de Tabriz, e então entendi que tais canções sempre foram sufis, sempre foram místicas, e os místicos jamais limitam as expressões da alma: as incentivam! Hoje sei que não foram poucos os shows onde parte da plateia dançava próxima ao palco, próxima a voz celeste de Nusrat. E ele, conectado que estava ao céu, nunca ligou para nenhuma possível “heterodoxia” em tais danças.

Nusrat também buscou se aproximar do Ocidente. Peter Gabriel foi somente uma de suas parcerias. Cantou por toda a Europa, e tem exibições memoráveis em Paris. Infelizmente nos deixou ainda antes da virada do século, mas a sua voz perdura e ainda deve perdurar por muitas gerações. Nusrat foi o tipo de cantor que não encontra paralelo, que não pode ser imitado, enfim, um artista único...

A canção abaixo, Allah Huu [Deus é], é um canto acerca da Unidade. Para quem conseguir acompanhar a quase meia hora, e todas as improvisações vocais (ou magias) do percurso, o dia poderá se tornar verdadeiramente especial – quiçá, inesquecível!

A tradução do urdu para o inglês é encontrada ao longo dos comentários do vídeo na página do YouTube, e aparentemente corrige alguns erros das próprias legendas. Eu obviamente somente traduzi do inglês para o português. Segue abaixo os versos em urdu seguidos dos versos correspondentes em português:

Malik-Ul-Mulk, Lashareeka Lahoo
Ó governante do mundo, você não tem iguais
Wahadahoo Laa Ilaahaa Illaahoo
Você é o prometido, não há nada além de ti
Shams Tabraiz Gar Khuda Talabee
Shams de Tabriz [grande sábio sufi] é o seu estudante
Khushboo Khuwan La Illaha Illahoo
Em cada fragrância, não há nada além de ti
Qounain Ka Masjood Hai Maa'bood Hai Tu
Ó criador, você é venerado nos dois mundos
Her Shay Teri Shahid Hai K Mashhood Hai Tu
Tudo o que há é testemunho da sua manifestação
Her Aik K Lab Per Hai Teri Hamd-O-Sana
Cada lábio guarda uma oração para ti
Her Sooz Mein Her Saaz Mein Moujood Hai Tu
Em cada acorde, em cada canção, você está presente

Tere He Naam Say Her Ibtida Hai
Tudo se inicia em seu nome
Tere He Naam Per Tak Intiha Hai
Tudo se encerra em seu nome
Teri Hamd-O-Sana Alhamdulillah
Todo o louvor pertence a Allah
K Tu Mere Mohammad Ka Khuda Hai
Você, o Deus de Maomé...

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

[Allahu Akbar é uma conhecida expressão árabe que significa "Deus é grande"; aqui no entanto eles cantam somente "Deus é", repetindo várias vezes a mesma frase que dá nome a própria canção]

Yeh Zameen Jab Na Thi Yeh Jahaan Jab Na Thaa
Quando esta terra e este mundo ainda não existiam
Chaand Suraj Na Thay Aasman Jab Na Tha
Quando não havia lua, sol ou céu
Raaz-E-Haq Bhi Kisi Per Ayaan Jab Na Tha
Quando o segredo da verdade ainda era desconhecido
Tab Na Tha Kuch Yahaan Tha Magar Tu Hee Tu
Quando nada havia, havia ti

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

Har Shay Tere Jamaal Ki Aainaa Daar Hai
Tudo que há é um reflexo da sua glória
Har Shay Pukaarti Hai Tu Parvardigaar Hai
Tudo o que há clama: você é o Senhor

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

Teri Ruboobiyat Ki Ada Ka Kamaal Hai
Esta é a distinção da sua visão arrebatadora:
Tu Rab-e-Qayaanat Hai, Tu Lajwal Hai
Você é o Senhor do Universo, não há rivais para ti

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

Tu Jo Her Aan Nayi Shaan Dikha Deta Hai
Você que revela uma nova beleza a cada instante
Deeda-E-Shouq Ko Hairan Bana Deta Hai
E surpreende mesmo aqueles que anseiam por mais e mais
Daali Daali Teri Takhleeq K Gun Gaati Hai
Cada jovem canta a sua criação
Patta Patta Teri Qudrat Ka Pata Deta Hai
Cada folha é uma assinatura da sua natureza

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

Laa Ilaahaa Teri Shaan Ya Wahdahoo
Meu Deus, você é todo o esplendor que nos foi prometido
Tu Khayaal-O-Tajassus Tu He Aarzoo
Você é a curiosidade, você é o desejo
Aankh Ki Roshni Dil Ki Awaaz Tu
A luz dos meus olhos, a voz do meu coração
Tha Bhi Tu! Hai Bhi Tu! Hoga Bhi Tu Hee Tu!
Você foi, é e sempre será! Somente ti, somente ti!

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

Khaalik-E-Kul Hai Tu Is Mein Kia Guftagu
Você é tudo, e é este o argumento que aqui se encerra:
Saare Aalam Ko Hai Teri He Justaju
Todo o mundo busca somente por ti
Teri Jalvaagari Hai Ayaan Chaar Su
Pois a sua magnificência se encontra em cada canto desta terra
La Shareeka Lahoo Maalik-E-Mulk Tu
Ó governante do mundo, você não tem iguais

Allah Huu! Allah Huu! Allah Huu! [várias vezes]

(trad. Rafael Arrais)

***

Nota: No vídeo Nusrat acrescenta bastante coisa a letra, o que muitas vezes parece ser um discurso de improviso inspirado no momento. Se formos considerar a história de conflitos entre Índia e Paquistão, não é de surpreender que ele muitas vezes cite os hindus e os islâmicos, inclusive os repreendendo. Os sufis, apesar de surgidos do Islã, são universalistas o suficiente para conservarem este tipo de olhar crítico para com sua própria religião.

Crédito da foto: Google Image Search/BBC/Divulgaçao (Nusrat Fateh Ali Khan)

Marcadores: , , , , , , ,

4.7.15

A linguagem divina

No início, era o silêncio...

Então, quando as primeiras nuvens de poeira
se encontraram, colidiram e formaram sóis,
não havia ninguém espreitando à beira,
ninguém para ouvir, nenhum de nós...

Desde o tempo ancestral
ao primeiro despertar da consciência,
desde o início até o longínquo final
deste inefável Dia Divinal,
o que a tudo permeia e abraça,
que não o silêncio?

Todos somos como breves sibilos,
o leve tilintar de notas musicais
que pontuam o intervalo das vidas
e das eras e civilizações humanas;
ó Sadhu, observa bem:
todos somos ancestrais!

E o que permite que todas as melodias,
todos os acordes e pontos de tambor
tornem este tempo que escorre pelas vias
uma única e grandiosa canção de amor?

Ora, já lhe chamaram de El,
Brâman, Olorun, Nhanderuvuçu,
e de Supremo Senhor do Céu.
Mesmo Parmênides e Espinosa
lhe deram o mesmo nome...
Já eu, eu lhe chamo “silêncio”.

E há aqueles que ainda seguem angustiados,
sem ter respostas para suas orações;
sem ouvir sua voz, vivem exilados
do mundo, dos seres, e dos próprios corações...

Ó Sadhu, ó Sadhu,
vai e lhes ensina
que o silêncio é a linguagem divina!
Vai e lhes diz
que nunca houve nem haverá
um momento sequer
em que Deus não esteja a lhes abarcar
e a lhes sussurrar, bem baixinho,
tudo o que nunca pôde ser dito
nem ouvido... 

“...”


raph'15

***

Crédito da foto: Petr Horálek

Marcadores: , , ,

29.1.15

Frases (18)

Palavras nômades que vêm e vão. Costumam aparecer primeiro no meu twitter, e depois aqui:


"Para quem fala em nome de Deus, Deus muitas vezes é apenas um nome."

"Quem fala em nome de Deus, fala por si. Quem vive mergulhado em Deus, fala pelo silêncio."

"O caminho não tem sentido, o caminho é o sentido."


"Quando nada faz mais sentido, quando tudo tende ao nada, não custa nada abandonar de vez ao ego."

"O mundo só pode não fazer sentido para quem o observa em busca de sentido."

"Para quem aprendeu a contemplar o mundo, qualquer pequeno monte é um templo sagrado."


"A vida é florescimento."

"Quando todos nascerem alma e permanecerem alma, só haverá alma."

"A poesia trata sobretudo de coisas inúteis. O que tem utilidade para a alma, é inútil para o mundo. Porém, é a alma que cria o mundo."

"Todos somos como pássaros fênix quando colocamos nossas cabeças em nosso ninho e dormimos para renascer noutro dia, noutro universo..."


"Não existe política mais velha do que a política do apedrejamento."

"Aqueles que matam não sabem o que fazem. De certa forma, já estão mortos."


"As almas vazias são atraídas pelas opiniões extremistas." (W. B. Yeats)

"A ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência." (Clóvis de Barros Filho)


"As cenas de nossa vida assemelham-se às figuras de um mosaico grosseiro que de perto não produz nenhum efeito, do qual porém devemos estar distantes para achá-lo belo." (Schopenhauer)

"Busque pela resposta oculta em sua dúvida..." (Rumi)


"O amor é a única arma que temos contra a morte." (Guel Arraes)

"Dia virá em que as pedras serão plantas; as plantas, animais; os animais, homens; e os homens, deuses." (Heine)

***

Crédito da foto: Joel L. (Lalibela)

Marcadores: , , , , ,

16.12.14

Deus, segundo as crianças

Nesta reportagem especial para a revista Serafina, da Folha de São Paulo, Ana Virginia Balloussier e Gabriel Cabral foram atrás de 9 crianças brasileiras, de 9 diferentes religiões, para através delas aprenderem um pouco mais sobre Deus. Nada mais sensato, afinal foram elas que acabaram de chegar da mansão do amanhã, e talvez a sua memória esteja mais aguçada que a nossa...

Clique na imagem para assistir o vídeo da reportagem em uma nova janela (caso não abra a janela, clique aqui):

Onde está seu Deus agora? Bom, depende.

Enquanto o Pai Nosso da católica Beatriz vive dentro de um coração, o da rastafári Núbia habita um deserto com montanha e cachoeira.

Deus é a atração principal do teatro, na visão do judeu Luke. Às vezes Deus é ela – a orixá que protege a aspirante a mãe de santo Manuella.

No censo do IBGE de 2010, a maioria dos brasileiros (64%, ou 123 milhões), diz ser "católica apostólica romana".

Mas quem tem fé nem sempre vai a Roma. Em segundo e terceiro lugar, estão os evangélicos (42 milhões, ou 22%) e os espíritas (3,8 milhões, 2%). E existe uma leva considerável de 643 mil brasileiros que declararam múltipla religiosidade.

Convidamos nove crianças de religiões distintas para desenhar o divino. Cada um por si e Deus para todos.


"Não tem um Deus físico. Deus é tudo e tudo é Deus. Ele é feito de luz. O arco-íris, no budismo, representa uma pessoa com coração iluminado"

Ariom Scheffler, 11, budista

***

"Oxum é a santa que me protege. Ela tá no mato, para curtir a vida. Uma professora uma vez contou que um lobo ia na porta da criança que não é batizada [como cristã]. Fiquei com medo, chorando"

Manuella Araújo da Costa, 10, candomblé

"Para nós não tem inferno, só céu. Assim: vamos fingir que você está no teatro. Se foi uma muito boa pessoa, ficaria na frente, mais perto de Deus. Se foi uma ruim pessoa, ficaria lá atrás"

Luke Saul Jospa, 9, judaísmo

***

"Sonhei que Jah estava no deserto e fazia todas as pessoas ficarem felizes. Ele é o meu coração e fica batendo em todos os momentos. Peço a Jah que o mundo fique bem limpinho"

Núbia Selassie Cestari Granello, 6, rastafári

"Deus é tudo para mim. Peço para Ele deixar chover, mas algumas vezes não penso na água. Penso em jogar Nintendo DS"

Mohamed Hussein Abid Ali, 8, muçulmano

***

"Deus nos ama e nos ilumina. Ele me ajuda quando alguém briga comigo. Teve uma confusão na escola, e a professora disse que eu participei, mas só estava lá comendo meu lanche"

Pietra Hanna Castanho, 10, evangélica

"Desenhei o mestre Gabriel, o nosso guia. É muito legal beber [ayahuasca]. Tem gente que vomita, mas eu não sinto medo, sinto amor. E vontade de rir muito! Já vi árvores falando comigo"

Darah Cally Patrício, 8, União do Vegetal (dissidência do Santo Daime)

***

"No antigo tempo, não cortavam cabelo, então Deus tem o cabelo longo. Hoje Ele tá no meio do coração de todo mundo. Eu rezo para Ele deixar a gente ficar com o recreio um pouquinho maior"

Beatriz Dias Samuel, 8, católica

"Deus criou a borboleta. Ela é bonita e feliz. Começa como se fosse um bicho horroroso, gosmento, e vira uma borboleta linda. É como o espírito que reencarna: você vai crescendo e evoluindo"

Clara Veiga Carvalho, 10, espírita

***

Crédito das fotos: Gabriel Cabral (o desenho na última imagem é de Clara Veiga Carvalho)

Marcadores: , , , , , , ,

24.11.14

Unicidade

Há muitos agnósticos que creem que Deus talvez até exista, mas pouco intervem. Equivale a dizer que, na prática, todo o debate acerca da existência de Deus é um tanto inútil, já que nem mesmo Ele está interessado em intervir para dar a discussão por encerrada. A verdade é que não se convence ninguém da existência de Deus – há muitos que foram convencidos da existência do Diabo e que, por temerem o seu Lago de Enxofre, acabam por achar melhor crer num Deus salvador. Mas como pode Deus salvar, se não intervem?

Já dizia o velho Lao Tse que o melhor governante é o governante desconhecido, o que faz com que seu povo prospere por si mesmo e nem se preocupe com quem está sentado nalgum trono distante... Trazendo para a época atual, poderíamos imaginar duas universidades: a primeira, uma instituição de ponta, onde todos os professores e funcionários seguem a um estatuto muito bem elaborado, que já previra todos os percalços do caminho, e mantém seus alunos em constante aprimoramento; a segunda, um caos completo, onde um estatuto falho faz com que funcionários e professores não tenham regras claras a seguir, e não consigam manter o bom funcionamento da instituição nem tampouco manter seus alunos interessados nas aulas...

Onde vocês acham que um reitor teria de intervir mais, na primeira ou na segunda universidade?

Ora, nós estamos acostumados a questionar e a reelaborar constantemente nosso conhecimento, nossa ciência, nossa arte e até mesmo nossas doutrinas religiosas. Porém, não é sempre mirando a ordem grandiosa da Natureza que temos, passo a passo, evoluído ao longo de tantas eras humanas?

Foi preciso, afinal, nos apoiarmos em ombros de gigantes para que pudéssemos enxergar mais adiante. E os gigantes eram nós mesmos... Mas todos os gigantes da Terra, no final das contas, tinham os pés plantados no solo. A relva nos precede tanto quanto o nascer e o pôr do sol. As leis naturais, as forças naturais, as grandezas naturais, as simetrias naturais, estão a nossa volta desde que aprendemos a captar a luz e, com ela, formar as mais belas e variadas formas em nossas mentes ancestrais... Até onde isso leva?

Dizer "Deus é a Natureza" não é bem o problema, o problema é crer que isto seria reduzir a Deus. Pois a questão é que por "Natureza" muitos compreendem somente o seu Mecanismo, e daí reduzir Deus a "mera Natureza" não seria tão diferente de reduzir a Natureza a "mero Mecanismo". É o Sentido, o Sentido que traz para a nossa alma um vislumbre da grandiosidade de tudo o que há!

A ciência, infelizmente, nada tem a nos dizer acerca deste Sentido (embora não deixe de indicar o caminho)... É necessário elaborarmos o estatuto de uma nova Academia, de uma Universidade da Alma, e a sua primeira aula será: Unicidade.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , , ,

6.7.14

As cartas de Deus

Poema de Walt Whitman em "Folhas de Relva" (Ed. Martin Claret). Tradução de Luciano Alves Meira. O comentário ao final é meu.


Eu disse que a alma não é mais do que o corpo,
e disse que o corpo não é mais do que a alma,
e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo,
e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral vestindo sua mortalha,
e eu ou tu sem um centavo no bolso podemos comprar a nata da terra,
e vislumbrar com um olho, ou apresentar um grão na sua vagem, confundindo o conhecimento de todas as eras;
e não há negócio ou emprego em que um jovem, seguindo carreira, não possa se tornar um herói;
e não há objeto que seja tão delicado que não posso funcionar como o centro em que se ligam todas as rodas que movem o Universo;
e digo para qualquer homem ou mulher, “Deixe que sua alma esteja tranquila e íntegra perante um milhão de universos.”

E digo para a humanidade, “Não tenha curiosidade sobre Deus”,
pois eu que sou curioso sobre todas as coisas não tenho curiosidade alguma sobe Deus.
(Não há uma gama de termos grande o suficiente com a qual eu possa dizer o quanto estou em paz sobre Deus e sobre a morte.)

Ouço e observo Deus em todos os objetos e ainda assim não compreendo Deus minimamente;
não posso compreender quem possa haver que seja mais maravilhoso do que eu.

Por que eu deveria ver Deus melhor do que este dia?
Eu vejo algo de Deus a cada hora das vinte e quatro horas do dia, e a cada momento,
nos rostos dos homens e mulheres eu vejo Deus, e em minha própria face no espelho;
encontro cartas de Deus espalhadas pelas ruas e todas elas são assinadas por Ele,
e deixo-as ficar onde se encontram, pois sei que onde quer que vá,
outras virão pontualmente – para toda a eternidade.

***

Grandes místicos e poetas não precisam ir longe para encontrar a Deus, e tampouco têm curiosidade sobre tal encontro.
Eles quebram um galho seco, removem uma pedrinha do lugar, observam a relva que preenche os campos, e não estão curiosos acerca do mistério divino.
Eles vivem este mistério, e leem a assinatura divina em cada pequeno pedacinho do Cosmos.
E eles vivem isto neste momento, pois não poderia haver outro.
E eles sabem que estão em Deus e Deus está neles, pois não haveria nenhum outro lugar onde um ou outro pudessem estar.
Não há neste vasto Universo, tampouco num milhão deles, alguém tão maravilhoso quanto você.
Não há nenhum grande herói ou vilão dos mitos de outrora que não seja você mesmo, e não há nenhum deus que não contemple a humanidade inteira.
De fato, não há nenhum deus além deste que sempre esteve ainda mais próximo de ti do que o seu próprio olho.
Não há, enfim, uma gama de termos grande o suficiente para descrever o que Walt Whitman sentia no momento em que escreveu tais palavras.
E palavras são somente as cascas do que se sentiu, os rascunhos da Eternidade, a flutuar pelos campos como as folhas secas carregadas pelo vento outonal...
Você pode ler suas assinaturas?

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

Marcadores: , , , , ,

13.2.14

Uma breve consideração sobre a existência de Deus

Muito se debate sobre a existência ou não existência de Deus. Como alguns devem saber, eu considero este um debate particularmente inútil.

Há ateus ferozes que acusam de infantil e fantasioso qualquer um que creia num “velho de barba muito branca que sabe de antemão quando cada fio do seu cabelo cairá”. No entanto, isto foi um espantalho de deus que foi criado; e qualquer místico, isto é, qualquer um que já observou a Deus de relance, sabe que se trata somente de um espantalho.

No fundo, todos nós, mesmo os ateus mais ferozes, sabemos por intuição própria que nada pode surgir do nada, nem mesmo um espantalho ou as leis que permitem as flutuações quânticas no vácuo. Até mesmo os yorubás, que trouxemos acorrentados de sua terra natal, e que tanto acusamos de “paganismo”, sabem que os orixás não surgiram do nada e tampouco criaram a si mesmos – são, todos eles, filhos de ainda outra entidade que os precedeu, chamada Olorun, e para a qual não se fazem oferendas ou cultos, pois ela já é todas as oferendas e já se encontra presente em todos os cultos.

E, se não acreditam nos yorubás, podem ler o grande Espinosa, que disse algo muito parecido em sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras. O que Espinosa talvez não tenha compreendido é que a “demonstração geométrica” era em realidade desnecessária, sendo apenas uma espécie de óculos para enxergar com a razão lógica o que a intuição já enxergava muito bem há tempos, e sempre enxergou!

No entanto, o fato de sabermos que existe um Deus anterior e acima de qualquer espantalho ou “teoria do tudo” não significa que saibamos exatamente como é a face deste Deus, ou sequer que ele tenha alguma face...

É neste sentido que há muitos místicos que concordam plenamente com os agnósticos: “Nós o vimos de relance, mas não sabemos se um dia o veremos face a face”. Ou, como diria Feynman, “a inefável natureza da Natureza”!

Mas que sabe dançar, isto ele sabe...

***

Crédito da imagem: Grafite de Cosmo Sarson (em Bristol, Ingalterra)

Marcadores: , , , , ,

29.1.13

O software angélico que roda no eixo do mundo, parte final

« continuando da parte 2

Eu tendo a pensar o Paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o Monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e quem a emite nem sequer a entende (Alan Moore).

“Watson derrota a humanidade”
Essa foi uma das manchetes para a vitória de Watson, um computador que ganhou dos melhores competidores que a raça humana tinha disponível no Jeopardy!, um jogo de perguntas e respostas da TV americana. Como seus concorrentes humanos, Watson não estava ligado à internet. Tudo o que ele tinha à disposição era uma memória de 15 mil gigabytes com alguns milhões de textos arquivados e uma capacidade de processamento equivalente à de 2.800 micros caseiros. Um computadorzão bem programado, só isso.
Os cérebros humanos por trás são tão importantes que o próprio Watson errou questões por bobeira de programação. Um dos deslizes: perguntaram qual categoria da elite do automobilismo tem o nome de uma tecla de computador. "F-1" era a resposta. Qualquer batedeira tem capacidade de processamento para cruzar uma lista de nomes de teclas com uma de categorias de corridas. Mas a coisa mais próxima que Watson tinha para dizer era "Nascar". Falha dele? Não, dos programadores - a Fórmula 1 é solenemente ignorada nos EUA.
O erro nessas horas é imaginar que as máquinas são uma espécie à parte. Computadores são só alicates e martelos mais complexos. E quando você marreta o dedo não é culpa da natureza do martelo, mas sua, que não soube "programar" a martelada. A vida é melhor com martelos. Com supercomputadores também [1].
O que os bons observadores constatam, portanto, é que não existe nem existirá exatamente uma inteligência artificial, mas apenas uma ferramenta que é a extensão de alguma inteligência natural, que a programou. Computadores somente computam informação, mas são os seres que as interpretam, são os seres que as moldam em suas mentes, e as passam adiante, com uma nova forma e uma nova luz. E quem sabe disso, torna-se, nesta Criação, um cocriador.

Os muwakkals
Os sufis, místicos do Islã, dizem que assim como no corpo físico de um indivíduo muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados muwakkals ou elementais. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, o homem muitas vezes imagina que seus pensamentos não têm vida; ele não percebe que eles são mais vivos do que os germes físicos, e que eles também passam por nascimento, infância, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam. Um sufi os repete e os educa através de sua vida; ele forma seu exército e subjuga seus desejos.
Para os descrentes, a possibilidade de que nossa mente possa criar “pensamentos vivos”, e os educar para que sigam adiante com vidas próprias, pode parecer algo mais próximo do pensamento mágico do que da ciência. Mas, se procurarem saber o que Richard Dawkins, apóstolo do ateísmo, descreveu tão bem em sua obra prima, O gene egoísta, chegarão a um conceito muito próximo dos muwakkals sufi – apenas Dawkins os chamou de memes.
Sejam o que for, entretanto, estamos aqui analisando a possibilidade lógica de que seres possam ser criados “com algum grau de perfeição” do nada, sem passar por evolução alguma. Sejam robôs com inteligência artificial, sejam memes, sejam muwakkals, todos estes são candidatos, mas absolutamente nenhum deles é realmente capaz de se enquadrar no que buscamos. Pois o que buscamos, de fato, não existe: uma ferramenta, um computador, um algoritmo, um pensamento vivo – todos são tão somente extensões da mente que os criou em primeiro lugar, e não seres que evoluem por conta própria. No fim, um robô será sempre um robô.

O Grande Desconhecido
Conforme já dissemos, muitas mitos de criação das mais diversas e antigas culturas humanas falam de um “deus obscuro e ocioso”, que criou tudo o que há, inclusive os demais deuses, e depois se retirou. Olorun, afinal, não aceita oferendas, pois já possuí todas as oferendas do Cosmos, pois que é o próprio Cosmos, e estamos neste momento, como em todos os outros, encharcados por sua substância divina. No Evangelho de Tomé, Jesus também diz que o Reino de Deus se encontra espalhado pela Terra, mas os homens não o veem. No taoismo, o Tao é aquela substância “anterior ao Soberano do Céu”, um “vazio” que a tudo preenche, profundo e inesgotável. Benedito Espinosa a chamou de “a substância que não poderia haver criado a si mesma”. Mesmo o cristão de religiosidade mais superficial a conhece como algum elemento estranho chamado de Espírito Santo...
Mas e qual é o santo, iogue, rabi ou guru, que pode bater no peito e bradar: “Eu sei o que é Deus”? E, ainda que saiba, será mesmo que qualquer outra mente, qualquer outra máquina de interpretar a realidade, poderá chegar exatamente a mesma concepção? Como saber de que forma seu amante lhe ama? Como saber de que forma uma pessoa sente dor?
Para criar uma torta de maçã a partir do nada, antes seria preciso criar todo o universo... Para compreender exatamente como outro ser sente, ama ou sofre, antes seria preciso ser todo o universo.
Seria preciso conhecer o Grande Desconhecido, o Inefável, o Inalcançável, como ele mesmo se conhece. E esta é a aventura, a jornada, o prazer de todo verdadeiro religioso: religar-se a Deus.

O software angélico que roda no eixo do mundo
Tendemos a ver o xamanismo, o politeísmo e o paganismo em geral com certa desconfiança, particularmente no Ocidente. O que o monoteísmo sempre nos ensinou é que os pagãos são incapazes de perceber a mais básica das ideias: que tudo o que existe necessariamente surgiu de algo eterno e incriado, um Deus antes dos deuses... Entretanto, como já vimos, sempre existiram pagãos que sabiam perfeitamente disso, e devemos antes nos sentir orgulhosos destes sábios ancestrais, que muito antes dos hebreus já haviam chegado a tal concepção maravilhosa: a ideia de que há um Deus, uma substância ou ser incriado, anterior a tudo, causa primeira de tudo, o que se opõe ao nada... Aquele quem primeiro disse, quem sabe, “Eu sou”.
Como podemos ter alguma esperança de conhecer este Infinito? Ora, da mesma forma que temos esperança de um dia conhecer todas as leis da Natureza... A ciência nos ensinou, na verdade, uma lição que lhe era ainda muito anterior: separar o Infinito em pequenas partes, em aspectos e reflexos, para quem sabe um dia, estudando e compreendendo, amando e sentindo, uma a uma, cheguemos a uma compreensão melhor e mais profunda daquele Ser que tanto incomodou a Nietzsche: “Eu quero Te conhecer, Desconhecido” – disse o alemão quando ainda jovem, para uma plateia de jovens.
Assim como a ciência elaborou a Biologia, a Física, a Química ou a Neurologia, a mitologia elaborou o Soberano do Céu, Palas Atena, Hermes, Odin, Oxalá, e tantos outros deuses (e orixás) que são tão somente pequenas partes do Uno, aspectos do Infinito... Os deuses são o alfabeto com o qual a mente humana é capaz de reencenar, neste mundo objetivo, os fatos subjetivos de sua própria alma. Toda a mitologia é uma encenação da alma humana, toda a mitologia diz respeito a você: “Você venceu o seu monstro interior? Você morreu para seu lado animal, para renascer, três dias depois, como um novo ser?”.
Mas, seja este Grande Desconhecido quem for, talvez tenha tanta necessidade de nos amar, e reconhecer a si mesmo, através de nós, quanto nós temos esta necessidade ancestral de caminhar em sua direção – cada vez mais adentro. Nesta grande aventura, talvez também sejamos como o João no Pé de Feijão, que precisa escalar o axis mundi, e retornar com a galinha dos ovos de ouro... Ou talvez sejam precisas várias tarefas de Hércules, muitas e muitas aventuras, e inúmeras vidas.
Podemos então precisar de aliados, pois a longa jornada por vezes vai além de nossas capacidades humanas... E se o Grande Desconhecido não pode se revelar ainda, se é ainda muito arriscado que o vejamos face a face, sem estarmos amadurecidos para tal momento, quem sabe ele não nos ajude de outra forma?
Um software é uma sequência de instruções a serem seguidas e/ou executadas, na manipulação, redirecionamento ou modificação de uma informação ou acontecimento. Na mente divina existe tudo o que há, o Todo é mental. Na própria engenharia da realidade, ou mesmo no eixo que liga a Terra ao Céu, e o consciente ao inconsciente, pode sim haver um software rodando sem que o percebamos. Não fomos nós os programadores – os anjos podem ser robôs, portanto, mas robôs programados pelo Grande Arquiteto, o Programador dos programadores, o Deus dos deuses.
Eles são o Seu presente para esta grande aventura, e dizem que existem 72 deles a bailar pelo axis mundi. De vez em quando, um poeta vê uma de suas asas no céu, e de alguma forma sabe que não se trata apenas de um pássaro...

***

[1] O texto dos últimos 3 parágrafos foi retirado de um artigo de Pedro Burgos e Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante, edição 290.

Crédito da imagem: Latajace

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

29.12.12

Um podcast para reflexão

No último podcast Conversa entre Adeptus de 2012 (*), o primeiro após o fim do mundo, fui o convidado especial e falei sobre meu blog Textos para Reflexão; assim como sobre Espinosa, Deus, mitologia, sexo, morte e amor, não necessariamente nesta ordem. Uma boa oportunidade para refletir neste início de mundo. Clique na imagem abaixo para acessar a primeira parte da conversa:

» Na segunda e última parte, continuamos falando sobre o amor (ao final, eu recito uma de minhas poesias)


(*) Agradecimentos aos Adeptus: Emerson, Danda e PH; e também a excelente edição de Élder Bernardi, com Beatles e Sigur Rós ao fundo :)

***

Artigos citados e/ou complementares a conversa:

» Frescobol cósmico

» Reflexões sobre o nada

» Maldito Benedito

» A roda dos deuses

» O sexo e a morte

» 4 amores

» Filhos de neandertais

Marcadores: , , , , , , , , , ,

26.9.12

A roda dos deuses, parte 1

Há uma lenda bastante difundida entre as religiões ocidentais que afirma, basicamente, que o monoteísmo, a “descoberta” do Deus Único, foi uma concepção originária do judaísmo. Segundo esta lenda, existem no mundo algumas poucas religiões monoteístas, derivadas da crença hebraica, e outras tantas que creem na existência de vários deuses de origem paralela – o chamado politeísmo.

A verdade, no entanto, pode ser mais profunda... Joseph Campbell foi um estudioso de mitos e religiões em todo o globo, e em O poder do mito ele deixa muito claro o que acredita ser a principal diferença entre as grandes religiões ocidentais, e as orientais: Enquanto a oeste do canal de Suez, a maioria das pessoas identifica Deus com a fonte da Alma do Mundo, a leste de Suez, a associação que se faz é a da divindade como o veículo desta energia transcendente.

Por isso as religiões ocidentais tendem a identificar a Deus como um Grande Senhor que, sabe-se lá de onde, mantém a fonte da vida em constante afluência, enquanto que as religiões orientais tendem a ver esta divindade por toda a volta – ela seria o próprio fluido em movimento, a habitar a essência de todos os seres e de todas as coisas.

O curioso é que ambas as visões são complementares, e parecem ser apenas formas diferentes de se observar este grande mistério: “porque existe algo, e não nada?” Para resolver tal questão ancestral, a mente humana tem se aventurado a observar os recônditos mais distantes do Cosmos, e a mergulhar cada vez mais profundamente dentro de si mesma... Este grande conjunto de dualidades, de opostos, emanados de uma única fonte, mas que preenchem a tudo o que há, é precisamente isto a roda dos deuses. Reflitamos:

O Uno
Conta-nos o estudioso de mitologia e religiões, Mircea Eliade [1], que os poetas criadores do Rig Veda hindu já se questionavam, provavelmente muito tempo antes dos hebreus, acerca do problema do ser, ou do incrível fato de, afinal, algo existir: “O Uno respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração (...) Afora isso, nada mais existia”. Depois, segundo eles, através de um ato de desejo e vontade, a “semente primeira” dividiu-se em “alto” e em “baixo”, num princípio masculino e noutro feminino, e depois irradiou ou emanou de si mesma, como um pensamento, tudo o que há.
Desta forma, os milhares de deuses hindus são, eles mesmos, uma “criação secundária”. Daí nasce o grande questionamento de um desses poetas hindus anônimos e ancestrais: “Será que aquele que zela por este (mundo) no lugar mais alto do firmamento é o único a saber (da origem da “criação secundária”) – ou nem mesmo ele sabe?”.
Se é verdade que nem todas as interpretações dos Vedas chegaram a tal profundidade, não é verdade que nenhum sábio hindu tenha chegado a conclusões muito próximas dos hebreus – tudo o que há haveria de ter sido criado ou irradiado de uma só fonte, de um só Deus. Dessa forma, a ideia básica do monoteísmo está longe de ser uma criação do judaísmo, ou pelo menos, apenas do judaísmo.
Esta mesma conclusão está presente no Antigo Egito (particularmente no hermetismo), na filosofia de Parmênides (e alguns filósofos pré-socráticos que não a desenvolveram com a mesma profundidade), no estoicismo, no pensamento de Plotino e, mais recentemente, na monumental obra de Espinosa, a Ética.
Mas, e seria este Uno um ser pessoal, ou alguma espécie de energia inefável, de força ou lei oculta da Natureza? Disto não podemos saber, apenas apostar... Mas, ainda que apostemos na hipótese da energia inefável, ainda aqui teremos sido precedidos por Lao Tsé em muitos séculos: “O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu” (Tao Te Ching, verso 4).

A Deusa Mãe
A adoração do aspecto feminino, fértil e vivificador da divindade data da pré-história (o que pode ser comprovado pelas inúmeras estatuetas de uma “grande mãe” encontradas pelos arqueólogos em vários pontos do mundo).
Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. O matriarcado dominou grande parte do período em que se cultuou a Deusa Mãe.
Certamente o advento da agricultura contribuiu ainda mais para que o mistério do nascimento ocupasse um ponto central das religiões antigas. A Terra era associada ao ventre e, como os vegetais, os homens nasciam do solo, e voltavam ao solo durante a morte. Provavelmente tais mitos tenham sido a fonte primária dos mitos de criação do homem a partir do solo, presentes não somente na mitologia hebraica como em alguns mitos africanos bastante similares.
Mas com o tempo, e o advento das primeiras cidades (com estoques de grãos), dos saqueadores de cidades, e dos exércitos que guardavam as cidades dos saqueadores, o mundo tornou-se mais bruto e violento, e o matriarcado foi sendo suprimido pelo patriarcado. A Deusa Mãe saía de cena...

O “deus do pai”
Ainda nos conta Mircea Eliade que a religião dos patriarcas hebreus, já desde Abraão, era muito próxima ao culto dos antepassados, prática comum tanto do paganismo como de doutrinas orientais, como o budismo e o xintoísmo. O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. É um deus dos nômades e pastores, que não está ligado a santuários fixos, mas acompanha e protege um grupo de homens. Ele “se compromete diante de seus fiéis por meio de promessas” – o que fica muito claro nas barganhas relatadas no Antigo Testamento (“faça isto por mim, que farei isto por você”) [2].
Mas ao penetrarem em Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El (o Deus Criador nas culturas suméria e babilônica), e o “deus do pai” acaba por lhe ser identificado [3]. Dessa forma, obtém a dimensão cósmica que não podia ter como uma divindade de famílias e clãs.
O “deus do pai”, o deus dos patriarcas hebreus, torna-se o Deus Criador e, dessa forma, é também associado ao Uno, ao “único Deus”. Mas isto não foi “a origem do monoteísmo”, como dizem as lendas, mas tão somente um dentre muitos sincretismos religiosos similares, que ocorreram não somente em Canaã, como em diversas outras partes do mundo...

» Em seguida, a roda continua a girar com as entidades divinas e os avatares...

***

[1] Alguns dos trechos de livros sagrados nesta série de artigos foram retirados de seu livro, História das crenças e das ideias religiosas, vol I (Zahar).

[2] As barganhas religiosas, onde "se cobra a Deus por sua parte do trato", existem até os dias de hoje. É surpreendente que certas igrejas, que teoricamente são protestantes, ainda hoje colaborem para esta prática de uma espiritualidade tão superficial.

[3] É por isso que o Deus hebreu ora é chamado de Javé, ora de Elohim. Javé seria o “deus do pai”, e Elohim seria sua associação a El.

Crédito da foto: Frederic Soltan/Corbis (O Templo do Sol de Konark, Orissa/Índia)

Marcadores: , , , , , , , ,