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19.6.12

Aquele que tudo vê

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome do quarto personagem, até então apenas "I.", agora Ismael). Com isso, agora foram divulgados os nomes de todos os personagens (Sofia, Otávio, Petrius e Ismael).

(Sofia) [...] Agora, com a palavra nosso amigo Ismael: escolha um atributo divino e disserte sobre ele para nós!

(Ismael) Que Deus me auxilie, pois não será tarefa fácil...
Estive até agora observando o distinto debate de vocês acerca do mistério da existência e de como uma substância eterna pode ter criado o Cosmos. A partir de agora discursarei sobre a consciência divina que criou o tudo. O próprio ser a quem chamávamos de substância, mas que eu sempre compreendi como um deus pensante, um deus pessoal.
Há aqueles que o chamam de Grande Desconhecido, o incognoscível, do qual não poderemos nunca compreender a menor nuance de personalidade, nem sequer ouvir um breve assobio de sua voz. Eu não os censuro, pois decerto eu também mau o conheço e mau o compreendo, mesmo após tantos anos em sua exclusiva dedicação. Arrisco-me, entretanto, a discursar sobre seus atributos, talvez mais pela intuição do que pela razão, mais pelo assombro diante da imensidão de sua obra do que pela análise meticulosa de seu Mecanismo. Perdoem-me os que discordam, mas eu vejo Sentido em tudo o que existe: não fomos criados apenas para flutuar a esmo pelo turbilhão cósmico.
Somos poeira de Deus, pequenas e preciosas lágrimas, ávidas por voltar ao seu oceano de amor. Ávidas por retornar ao seu Reino, e admirá-lo sem que os olhos pisquem, pois que se piscarem será como ter perdido toda uma vida de êxtase incomensurável.
Eu sou um apaixonado por Deus. Não é paixão passageira, não é barganha: amo-o incondicionalmente, como ele me ama. Amo-o, sobretudo, acima de todas as coisas, pois que sua luz se vê refletida nos olhos de uma formiga, na amplitude do vôo das aves, no reflexo do Sol nos mares, nas estrelas da noite, em todo lugar, enfim – inclusive dentro de nós mesmos.
Se não posso explicá-lo somente pela razão, é que seu amor é uma irradiação de beleza peculiar, que não se vê com os olhos, mas se sente com a alma. Que não chega para todos, mas somente para aqueles que estão abertos para a experiência de viver em sua comunhão. Não busco, sobretudo, verdades absolutas, mas sim dúvidas iluminadas, indagações que irão me levar, cada vez mais, passo a passo em sua direção.
Perdoem a delonga, mas esta foi minha evocação e minha oração em seu nome, para que de minha boca saiam palavras mais próximas da luz de sua música sublime do que do ruído confuso de minha mente.

(Sofia) Eu diria que o senhor está cheio de Deus. Certamente não poderíamos encontrar pessoa em melhor sintonia para falar de seus atributos. Siga em frente, que nós aqui estamos apenas a admirar este momento.

(Ismael) Pois bem, o primeiro atributo do qual desejo falar é a onisciência.
Onisciência é o conhecimento de tudo o que há, de tudo o que foi, e de tudo o que será. O saber divino é, portanto, perfeito, pois é o saber de si mesmo, é o saber de seu próprio infinito, do qual o homem, em toda sua caminhada milenar, não sabe sequer uma ínfima parcela. Até mesmo porque qualquer parcela do infinito será sempre extraordinariamente pequena em relação ao infinito em si.
Perto de tal conhecimento, mesmo o vastíssimo intelecto do demônio de Laplace [1] não seria mais do que o intelecto da formiga ante o intelecto do homem: tal demônio saberia da posição e direção de todos os corpos da natureza, mas ainda não faria a mais vaga idéia dos pensamentos que transitam pelo Cosmos em todo momento; conheceria o material, mas nada saberia do espiritual.
Deus, entretanto, é maior! Sua onisciência abrange não só o desenrolar do tempo e do espaço através do movimento que ele mesmo iniciou, mas também a potência e a intenção de cada pensamento já pensado, as nuances sutis de cada emoção já sentida, os mistérios desvelados de cada intuição recebida, a influência de cada instinto em cada um dos seres da criação: desde o peixe que nada no mar, passando pela ave que plana no ar, até o homem que ora no altar...
Não há nada que pensemos, nenhuma angústia ou contentamento, nenhum ódio e nenhuma paixão, nenhuma dúvida ou certeza, nenhuma idéia plena de luz ou eclipsada pela escuridão, que ele que é onisciente já não saiba de antemão.
Nada há, enfim, dentre todas as partículas ínfimas até as estrelas mais densas, dentre animais, homens ou anjos, dentre símbolos, conceitos e idéias, que ele não saiba perfeitamente. De fato, seria mais fácil crer que dois e dois não somam quatro, do que conceber que Deus não saiba de cada milímetro de cabelo que cresceu em sua cabeça em todos os dias de sua vida. E, por mais que eu me alongue nesta explanação, ela nunca será capaz de entrever a mais ínfima parcela do que significa ser, realmente, onisciente.
Isto é, portanto, meus caros amigos, o que eu posso dizer por ora sobre a onisciência. Algum de vocês tem considerações a fazer?

(Otávio) É uma bela explanação, senhor Ismael...

(Ismael) Interrompe Otávio.
Obrigado meu filho, mas o “senhor” está no céu.

(Otávio) Sorri.
Sim, claro, e é para lá que estamos tentando ir não é mesmo? No entanto, fica uma dúvida pertinente: se Deus é onisciente e sabe de cada necessidade nossa, de que vale orar e pedir a Deus por alguma sorte ou benefício?

***

[1] Conforme a nota existente no livro:
Pierre Simon Laplace, o Marquês de Laplace, foi um matemático, astrônomo e físico francês que acreditava fortemente no determinismo, o que é expresso na seguinte citação da introdução do “Essai”:

Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.

Este intelecto freqüentemente é chamado de demônio de Laplace. Note-se que a descrição do intelecto hipotético descrito acima por Laplace como um demônio não veio de Laplace, mas de biógrafos posteriores.

***

Crédito da imagem: Geo Rittenmyer/Corbis

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