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13.1.13

Lançamento: Ad infinitum

Hoje, 13.01.13, lancei meu livro, Ad infinitum.

Quando comecei a escrevê-lo, em meados de 2009, não fazia ideia de que hoje existiria um serviço como o Clube de Autores, que permite que lancemos um livro com o controle total do resultado final, de cada vírgula do texto a diagramação da capa, contracapa e orelhas. Tampouco poderia prever que hoje teria uma página do meu blog, no Facebook, com quase 3 mil seguidores; ou que meu próprio blog, o Textos para Reflexão, teria uma média de visitas diárias de mais de mil acessos; muito menos que seria um colunista regular de um grande portal de ocultismo e espiritualidade, o Teoria da Conspiração [1].

Quando a ideia para este livro me veio, martelando a cabeça, quis que fosse embora. Daria muito trabalho levá-la adiante. Quando finalmente comecei a escrever, tive medo de não estar à altura da tarefa. Quando enviei os primeiros dois capítulos a leitores que considero cultos e exigentes, e eles gostaram do que leram, tive medo de não saber como terminar o restante do livro. Agora, no entanto, me sinto aliviado, realizado. Este livro não é mais uma questão minha, não é mais o meu livro, mas o livro de vocês, leitores. O que virá daqui para frente dependerá muito mais de vocês do que de mim.

Com este livro, procurei demonstrar como num diálogo amigável de quatro personagens com crenças e descrenças diversas, ainda assim podemos chegar a grandiosos acordos. E, mesmo quando não chegamos a um acordo geral, nada deveria indicar que um desacordo de crenças e ideias leva, necessariamente, a inimizades.

A existência é muito grandiosa, complexa, inefável e brutal, para que percamos tempo em brigas inúteis. Os personagens no fim são todos aspectos de mim mesmo (e de todos nós, quem sabe) que são capazes de se tornar amigos uns dos outros: uma filósofa, um cético, um espiritualista, um crente. Por que não?

Neste livro falaremos de Deus, do Cosmos, de fé e razão, ciência e religião, arte e espiritualidade, filosofia e ceticismo, etc. Tudo para que estas ideias possam melhorar a vizinhança.

Já me disseram que meus textos mudam as pessoas. Não é verdade: as pessoas é que mudam elas mesmas, e a vizinhança em torno (e quem sabe o mundo todo), quando mudam seu pensamento. O que escrevo sobre os ombros de gigantes, como Benedito Espinosa, Hermes Trimegisto, Carl Sagan e Gibran Khalil Gibran, dentre outros, é apenas uma mensagem. Uma luz. Reflitam adiante, ad infinitum!

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» Baixe gratuitamente uma amostra do livro (25 páginas, PDF)

» Conheça a simbologia do Ouroboros e da Árvore da Vida (capa do livro)

» Veja a galeria do livro em nossa página no Facebook

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Algumas perguntas e respostas sobre o livro:

Ele pode ser encontrado em livrarias?
Não. No momento só pode ser comprado pelo site do Clube de Autores, na versão impressa ou em PDF; ou pela Amazon Brasil, na versão digital (eBook).

Como faço para comprar na Amazon? Preciso de um Kindle para ler a versão digital?
A Amazon é a maior livraria online do mundo, e você poderá começar a ler meu livro literalmente minutos depois da compra. Caso não tenha um Kindle, poderá lê-lo em Tablets, Smartphones, Laptops ou PCs, bastando para tal instalar os aplicativos gratuitos de leitura específicos de cada plataforma. Saiba mais sobre o lançamento para Amazon Kindle.

Posso confiar no Clube de Autores? Quais são as formas de pagamento e envio?
O Clube de Autores é a maior comunidade de autores do país, e vende livros por demanda, impressos com qualidade profissional. Você poderá pagar com cartões Visa e Mastercard, boleto bancário, PagSeguro e/ou transferências online. O livro impresso será enviado para seu endereço pelos Correios, sendo possível rastrear a encomenda a qualquer momento do processo. A versão em PDF será disponibilizada para download imediatamente após a confirmação da compra.

Posso confiar na revisão e diagramação do livro?
O livro foi diagramado conforme exemplos de livros profissionais, composto com as fontes mais legíveis do mercado, e com os devidos cuidados de revisão gramatical. Você também pode conferir uma amostra do livro (25 páginas, PDF).

Posso confiar na qualidade do conteúdo?
Depende. Se você gosta do que escrevo em meu blog (Textos para Reflexão), é bem provável que o livro lhe agrade. Se, por outro lado, não conhece ainda o meu blog, talvez seja melhor primeiramente navegar por lá e ver se gosta do que tenho a refletir.

Você desistiu de tentar publicar o livro por uma editora de grande distribuição?
Pelo contrário, ainda nem comecei. Este será o segundo passo. O fato de o livro estar sendo vendido online não significa que eu tenha perdido os direitos sobre ele. Pelo contrato do Clube de Autores, posso cancelar a venda a qualquer momento, e o farei, caso alguma boa editora se interesse por publicá-lo. Mas, se nenhuma se interessar, fato é que os leitores do meu blog já terão acesso a ele, e isso já é suficientemente extraordinário para mim.

***

“Gostei do livro! Como posso ajudar a divulgá-lo?”

1 – Boca a boca: é a alma do negócio!

2 – Você pode entrar na página dele no Clube de Autores e comentar, ou avaliar (clicando nas estrelinhas), ou recomendar nas redes sociais, etc.

3 – Você pode tirar uma foto sua com o livro nas mãos (mesmo sendo a versão eBook), e nos enviar por nossa página no Facebook (clique em mensagens e mande uma mensagem com a imagem em anexo). Contanto que dê permissão para que eu possa publicar sua foto nas galerias de imagens por lá. Acredite, isto já será uma baita ajuda...

4 – Você pode comprar outros livros e dar de presente para quem ama.

5 – Caso seja amigo de algum editor, você pode recomendar o livro a sua editora (contanto que ela tenha uma boa distribuição nas livrarias).

6 – Você pode ajudar de alguma outra forma criativa, que não consta nesta lista, contanto que seja de coração...

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[1] Não poderia deixar de agradecer imensamente ao irmão Del Debbio pela oportunidade, assim como aos demais colunistas.


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10.1.13

Ad infinitum: a capa está pronta!

A capa do meu livro, Ad infinitum, acabou de ficar pronta...

Se tudo correr bem, o resultado final ficará muito parecido com o que podem ver nesta galeria em nossa página no Facebook:

» Vejam a galeria com as imagens da capa

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Também podem visualizar a imagem da capa completa, em tamanho grande:

» Capa completa

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O livro está bem próximo de ser lançado. O que será, é claro, anunciado neste blog :)


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8.1.13

O Ouroboros e a Árvore da Vida

Trecho do meu livro, Ad infinitum, que será lançado em 2013. Esta é uma nota acerca do símbolo representado na capa do livro...

Penso que os símbolos expostos na capa merecem alguma explicação:

A serpente formando um círculo quase perfeito, mordendo a própria cauda, representa o ouroboros. O nome vem do grego antigo, uma junção de oura (cauda) com boros (devora, devorar). Este símbolo antigo está relacionado à ideia de eternidade, e dos ciclos ininterruptos da existência: a serpente morde a própria cauda e forma um novo ser, assim como pode se livrar da pele antiga, e formar uma nova, embora sempre continue a ser, em essência, serpente. É possível que o símbolo matemático do infinito (∞) tenha se originado a partir da representação de dois ouroboros lado a lado. Finalmente, conforme o círculo formado pela serpente nunca será um círculo perfeito, isto nos remete a ideia de que a busca pelo conhecimento é um eterno “vir a ser”, sem que necessariamente devamos nos preocupar com a ideia opressora de “chegarmos à perfeição final”, pois talvez algo assim sequer exista. Agostinho de Hipona resumiu melhor: “Crer para compreender, compreender para crer; Buscar para encontrar, e então continuar buscando”.

Já a árvore no interior do círculo formado pela serpente pode remeter a pelo menos três simbologias distintas:

(a) A Árvore da Vida na Cabala, que representa um sistema hierárquico que pode ser lido de duas formas: De cima para baixo, se inicia na centelha divina (Kether), e vai se tornando mais “densa”, até atingir o mundo físico (Malkuth). De baixo para cima, se inicia na consciência “mundana”, que vai se elevando, esfera por esfera, até que se abra inteiramente para a comunhão com a divindade do Cosmos. Estes dois caminhos representam tanto a criação de tudo que há a partir desta substância primeira, como o caminho de religação que a consciência humana precisa galgar para que consiga se reunir novamente com sua origem divina;

(b) A Árvore da Ciência do Bem e do Mal, que no mito bíblico representa ao mesmo tempo o perigo e a benção de se tomar conhecimento da própria mortalidade. Afinal, os animais irracionais são imortais, na medida em que não têm a ciência da própria morte. O ser humano se torna mortal a partir do momento em que começa a desenvolver a própria racionalidade, o próprio conhecimento, o próprio sentimento, a própria intuição. Este é o caminho que todos precisamos percorrer – “sair do Éden” para, depois de muito esforço, descobrir finalmente que o Éden não foi nem será, mas é, e sempre esteve em nossa própria consciência, a ciência do nosso ser;

(c) A árvore filogenética, que na biologia representa as relações evolutivas entre várias espécies ou outras entidades que possam ter um ancestral comum. Na árvore de todas as espécies de vida que existem ou já existiram na Terra, o ser humano é apenas um pequeno galho, bem lá no topo, um recém-chegado no teatro ancestral da vida...

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Crédito da imagem: Ayon (o símbolo referido na nota acima)

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19.6.12

Aquele que tudo vê

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome do quarto personagem, até então apenas "I.", agora Ismael). Com isso, agora foram divulgados os nomes de todos os personagens (Sofia, Otávio, Petrius e Ismael).

(Sofia) [...] Agora, com a palavra nosso amigo Ismael: escolha um atributo divino e disserte sobre ele para nós!

(Ismael) Que Deus me auxilie, pois não será tarefa fácil...
Estive até agora observando o distinto debate de vocês acerca do mistério da existência e de como uma substância eterna pode ter criado o Cosmos. A partir de agora discursarei sobre a consciência divina que criou o tudo. O próprio ser a quem chamávamos de substância, mas que eu sempre compreendi como um deus pensante, um deus pessoal.
Há aqueles que o chamam de Grande Desconhecido, o incognoscível, do qual não poderemos nunca compreender a menor nuance de personalidade, nem sequer ouvir um breve assobio de sua voz. Eu não os censuro, pois decerto eu também mau o conheço e mau o compreendo, mesmo após tantos anos em sua exclusiva dedicação. Arrisco-me, entretanto, a discursar sobre seus atributos, talvez mais pela intuição do que pela razão, mais pelo assombro diante da imensidão de sua obra do que pela análise meticulosa de seu Mecanismo. Perdoem-me os que discordam, mas eu vejo Sentido em tudo o que existe: não fomos criados apenas para flutuar a esmo pelo turbilhão cósmico.
Somos poeira de Deus, pequenas e preciosas lágrimas, ávidas por voltar ao seu oceano de amor. Ávidas por retornar ao seu Reino, e admirá-lo sem que os olhos pisquem, pois que se piscarem será como ter perdido toda uma vida de êxtase incomensurável.
Eu sou um apaixonado por Deus. Não é paixão passageira, não é barganha: amo-o incondicionalmente, como ele me ama. Amo-o, sobretudo, acima de todas as coisas, pois que sua luz se vê refletida nos olhos de uma formiga, na amplitude do vôo das aves, no reflexo do Sol nos mares, nas estrelas da noite, em todo lugar, enfim – inclusive dentro de nós mesmos.
Se não posso explicá-lo somente pela razão, é que seu amor é uma irradiação de beleza peculiar, que não se vê com os olhos, mas se sente com a alma. Que não chega para todos, mas somente para aqueles que estão abertos para a experiência de viver em sua comunhão. Não busco, sobretudo, verdades absolutas, mas sim dúvidas iluminadas, indagações que irão me levar, cada vez mais, passo a passo em sua direção.
Perdoem a delonga, mas esta foi minha evocação e minha oração em seu nome, para que de minha boca saiam palavras mais próximas da luz de sua música sublime do que do ruído confuso de minha mente.

(Sofia) Eu diria que o senhor está cheio de Deus. Certamente não poderíamos encontrar pessoa em melhor sintonia para falar de seus atributos. Siga em frente, que nós aqui estamos apenas a admirar este momento.

(Ismael) Pois bem, o primeiro atributo do qual desejo falar é a onisciência.
Onisciência é o conhecimento de tudo o que há, de tudo o que foi, e de tudo o que será. O saber divino é, portanto, perfeito, pois é o saber de si mesmo, é o saber de seu próprio infinito, do qual o homem, em toda sua caminhada milenar, não sabe sequer uma ínfima parcela. Até mesmo porque qualquer parcela do infinito será sempre extraordinariamente pequena em relação ao infinito em si.
Perto de tal conhecimento, mesmo o vastíssimo intelecto do demônio de Laplace [1] não seria mais do que o intelecto da formiga ante o intelecto do homem: tal demônio saberia da posição e direção de todos os corpos da natureza, mas ainda não faria a mais vaga idéia dos pensamentos que transitam pelo Cosmos em todo momento; conheceria o material, mas nada saberia do espiritual.
Deus, entretanto, é maior! Sua onisciência abrange não só o desenrolar do tempo e do espaço através do movimento que ele mesmo iniciou, mas também a potência e a intenção de cada pensamento já pensado, as nuances sutis de cada emoção já sentida, os mistérios desvelados de cada intuição recebida, a influência de cada instinto em cada um dos seres da criação: desde o peixe que nada no mar, passando pela ave que plana no ar, até o homem que ora no altar...
Não há nada que pensemos, nenhuma angústia ou contentamento, nenhum ódio e nenhuma paixão, nenhuma dúvida ou certeza, nenhuma idéia plena de luz ou eclipsada pela escuridão, que ele que é onisciente já não saiba de antemão.
Nada há, enfim, dentre todas as partículas ínfimas até as estrelas mais densas, dentre animais, homens ou anjos, dentre símbolos, conceitos e idéias, que ele não saiba perfeitamente. De fato, seria mais fácil crer que dois e dois não somam quatro, do que conceber que Deus não saiba de cada milímetro de cabelo que cresceu em sua cabeça em todos os dias de sua vida. E, por mais que eu me alongue nesta explanação, ela nunca será capaz de entrever a mais ínfima parcela do que significa ser, realmente, onisciente.
Isto é, portanto, meus caros amigos, o que eu posso dizer por ora sobre a onisciência. Algum de vocês tem considerações a fazer?

(Otávio) É uma bela explanação, senhor Ismael...

(Ismael) Interrompe Otávio.
Obrigado meu filho, mas o “senhor” está no céu.

(Otávio) Sorri.
Sim, claro, e é para lá que estamos tentando ir não é mesmo? No entanto, fica uma dúvida pertinente: se Deus é onisciente e sabe de cada necessidade nossa, de que vale orar e pedir a Deus por alguma sorte ou benefício?

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[1] Conforme a nota existente no livro:
Pierre Simon Laplace, o Marquês de Laplace, foi um matemático, astrônomo e físico francês que acreditava fortemente no determinismo, o que é expresso na seguinte citação da introdução do “Essai”:

Nós podemos tomar o estado presente do universo como o efeito do seu passado e a causa do seu futuro. Um intelecto que, em dado momento, conhecesse todas as forças que dirigem a natureza e todas as posições de todos os itens dos quais a natureza é composta, se este intelecto também fosse vasto o suficiente para analisar essas informações, compreenderia numa única fórmula os movimentos dos maiores corpos do universo e os do menor átomo; para tal intelecto nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, seria presente perante seus olhos.

Este intelecto freqüentemente é chamado de demônio de Laplace. Note-se que a descrição do intelecto hipotético descrito acima por Laplace como um demônio não veio de Laplace, mas de biógrafos posteriores.

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Crédito da imagem: Geo Rittenmyer/Corbis

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23.2.12

Poligenecentrismo

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um terceiro personagem, até então apenas "P.", agora Petrius). Também gostaria de deixar claro que, apesar de tantos meses sem um post desta série, o livro continua a ser elaborado... Ele está hoje mais deste lado do que do outro.

(Otávio) Desde que o DNA foi descoberto, seu conceito tem sido expandido – na maior parte das vezes, muito além dos seus próprios limites – para explicar praticamente qualquer característica das espécies, e mais particularmente do homo sapiens, o ser humano, que é onde pretendo focar nossa análise agora...
Diga-me, Petrius, o DNA pode servir para definir, por exemplo, a cor dos olhos?

(Petrius) Sem dúvida. De fato, foi uma das primeiras capacidades comprovadas em experimentação – se não me engano, nos olhos de uma mosca... Mas certamente isso pode ser estendido ao ser humano.

(Otávio) Ótimo.
E você concordaria se afirmasse que é o DNA que define a pigmentação de nossa pele, tornando ridícula a crença antiga de que existiam raças distintas de homens?

(Petrius) Mas é claro: o genoma do ser humano é praticamente idêntico para toda a espécie, e a variabilidade genética entre um e outro ser humano é tão ínfima que, de acordo com a biologia, não justifica a existência de “sub-espécies humanas”...
Nesse sentido, hoje é perfeitamente válido afirmar que o racismo não é apenas um defeito moral, mas também uma ignorância das leis naturais.

(I.) Interrompe.
E, ainda que existissem, ainda seria absurda a antiga idéia de que certas raças tinham alma, e outras não...

(Otávio) Sorri.
Perfeito, meu amigo. E não esqueçamos que mulheres e animais também têm alma, pois a natureza não opera de modo seletivo, e a vida que anima a bactéria e o roedor é a mesma que eventualmente permitiu que um dia surgisse a espécie humana. Espécie, e não raça!
Mas, prossigamos meus amigos: Meu caro Petrius, você também concorda que o DNA pode ser decisivo na influência do desenvolvimento de cânceres e outras doenças de nascença?

(Petrius) Muitas doenças, incluindo o câncer, podem ter sua probabilidade de incidência aumentada pelo histórico genético da família, ou da hereditariedade genética. Vale ressaltar, no entanto, que em medicina trabalhamos com possibilidades: jamais um médico poderá afirmar, analisando o histórico genético de sua família, que você terá 100% de chance de desenvolver um câncer – seja na infância ou em qualquer outra fase da vida. Ou, pelo menos, até hoje não ouvi dizer de algo assim.
Já para algumas doenças, particularmente em heranças genéticas ligadas ao sexo, podemos realmente ter uma chance de incidência em 100%...

(Otávio) Pois bem, até aqui falamos somente de características físicas associadas à determinação dos genes.
Agora entrarei em terreno mais pantanoso. Meu amigo, você já ouviu falar no “gene da fé”?

(Petrius) Sorri.
Sim, sim, eu já li sobre isso. O vmat2 é um gene isolado por um polêmico geneticista norte-americano [1]. Ele supostamente estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Aparentemente, para este cientista, a fé se resume a estados alterados de consciência que propiciam “bom humor”... Talvez não esteja de todo errado em relação à fé, mas certamente está errado em relação à função desse tal gene. Desnecessário dizer: não há nada comprovado quanto a isso!

(I.) Levanta a mão e articula em desaprovação.
Pois eu diria que está bastante equivocado em relação a ambos!

(Petrius) Sorri.
Tudo bem, não levantemos uma polêmica em torno das idéias de um cientista equivocado. Prossigamos...

(Otávio) Mas a questão é mais importante do que parece...
Ora, esse tal cientista faz parte do ramo de estudos da chamada genética comportamental. Além deste nome curioso para este campo em específico, temos ainda o campo da psicologia evolutiva, que se baseia na teoria de Darwin-Wallace para tentar elucidar as razões para uma série de comportamentos humanos que têm sido identificados conforme padrões específicos, ao longo do tempo.
Você diria, Petrius, que o DNA pode explicar o surgimento de características não físicas desde o nascimento – como a tendência a crer em Deus, a tendência para esta ou aquela inclinação sexual, ou até mesmo a aptidão para música ou matemática?

(Petrius) O DNA, sozinho, não.

(Otávio) Mas você concorda que há muitos desinformados, seguidores cegos das determinações da ciência moderna, que crêem piamente que o DNA opera como uma espécie de “caixa mágica”, ou algum deus, que determina todas as nossas características, físicas, mentais e até mesmo espirituais, numa espécie de determinismo genético que não deve em quase nada a crença no determinismo divino?

(Petrius) Sim, é claro que isso ocorre. Infelizmente nem todos têm a vontade de estudar ciências, ou pelo menos ler divulgação científica. E, ainda pior, muitos de nossos cientistas mais célebres pouco fazem para tentar remediar o problema. Se surge, por exemplo, um cientista genuíno – e não nego que seja, mas cientistas podem estar errados, e muitas vezes estão – afirmando ter encontrado um “gene da fé” ou um “gene da homossexualidade”, ou ainda uma espécie de “tendência a atos de estupro fomentada pela herança genética da espécie” [2], certamente ele ganha um grande espaço na mídia, rapidamente. Mas as experiências que comprovam a falsidade dessas teorias não são anunciadas da mesma forma, e muitas vezes são anunciadas tarde demais.
Mas, se parte da culpa é dos cientistas equivocados, a maior parcela recaí sem dúvida em nosso sistema social: na mídia que confia quase cegamente em qualquer baboseira que surge de uma “fonte científica oficial”, e na própria sociedade que aceita novas determinações científicas, algumas as mais absurdas, de forma passiva, se abstendo de pesquisar por si mesmos e, em última instância, de pensar.
Eu diria, para terminar, que estamos vivendo na era do genecentrismo, ou melhor, do poligenecentrismo, visto que cada ano que passa surge uma nova pesquisa para adicionar um novo gene ao nosso “panteão de deuses genéticos”. Eu admito que gostei da sua analogia, isso nada mais é do que um novo politeísmo, onde deslocamos os deuses naturais, a determinar nossas vidas desde o berço, para esses tais genes “quase divinos”. Vale ressaltar, no entanto, que até o momento a ciência não encontrou um gene que determine quaisquer características não físicas – não encontrou, mas pode ser que um dia encontre, embora eu certamente não me abstenha de duvidar profundamente disso...

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[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de Dean Hamer. Ele também já afirmou ter encontrado o “gene da homossexualidade masculina”, mas outros cientistas falharam em replicar suas experiências, e ele foi exposto ao ridículo... Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

[2] Eva Jablonka e Marion J. Lamb fazem uma crítica muito mais contundente e embasada da “persona púbica” da genética comportamental no livro “Evolução em quatro dimensões”. Ver, por exemplo, um trecho transcrito neste blog: A pornografia científica.

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Crédito da imagem: Mike Agliolo/Corbis

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18.7.11

A odisséia da informação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um segundo personagem, até então apenas "O.", agora Otávio)

(Otávio) Fico feliz que estejam seguindo meu raciocínio e concordem com a importância desse tipo de reflexão. Mas sigamos adiante: quando falamos em uma substância, pela definição usual, científica, estamos falando em qualquer tipo de matéria formada por átomos de elementos específicos em proporções específicas. Nesse sentido, substâncias possuem conjuntos específicos de propriedades e composições químicas, e se for conveniente dividi-las em dois grandes agrupamentos, estes certamente seriam de substâncias inorgânicas – como a água e os sais minerais –, e substâncias orgânicas, presentes nos seres vivos da Terra – como proteínas, carboidratos e vitaminas.
Tudo isso é bastante conhecido da ciência, da química e da biologia. No entanto, obviamente quando nos referimos a absolutamente todas as substâncias do Cosmos como irradiações da substância primeira, estaremos tratando o conceito de substância como algo infinitamente mais abrangente – capaz de definir não somente a matéria, como a energia, o pensamento, e certamente tudo aquilo que ainda escapa a nossa detecção; seja porque não interage com a luz, seja porque está além do alcance de nossos sentidos e aparelhos, seja porque se aproxime daquilo que chamamos de imaterial.
Felizmente não precisarei iniciar aqui uma nova discussão sobre a existência ou inexistência de qualquer coisa imaterial – para minha teoria, bastará nos atermos ao material, detectado ou não.
Entretanto, como o conceito de substância está, nos dias atuais, intimamente ligado a este significado de elementos materiais, creio que será mais proveitoso utilizar um novo conceito. Este “novo conceito”, em realidade, está longe de ser novo, e já é conhecido da humanidade há bastante tempo – a questão central está na interpretação que damos a ele. O que diriam vocês, portanto, se eu afirmar que tudo o que partiu da Causa Primeira e foi irradiado ao infinito do Cosmos é, tão somente e nada mais, informação?

(P.) Eu já ouvi falar disso antes, mas irei esperar que desenvolva melhor o tema para tecer minhas considerações...

(I.) Surpreso.
Ora, devo confessar que não faço idéia do que pensar neste momento. Apesar de, ao contrário de nosso amigo, nunca ter ouvido falar disso, irei igualmente aguardar seu desenvolvimento – inclusive para compreender e aprender sobre ele, se possível.

(Sofia) Alguns sábios antigos já falavam nisso, mas creio que será melhor esperar você terminar de expor o conceito de informação conforme nos trouxe agora...

(Otávio) Folgo em saber que pelo menos dois de vocês já ouviram falar no assunto. Talvez tenham chegado a ele por vias diferentes da minha, o que será ainda mais interessante para nosso debate.
Em todo caso, para desenvolver e aprofundar o assunto, primeiro precisarei lhes trazer uma definição usual para o termo “informação”.
Conforme já disse, este conceito é também bastante antigo, bem anterior a era moderna, a comunicação de massa e a computação, onde ele é comumente mais utilizado e associado. Informação é qualquer evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Bem, esta é uma definição mais moderna, mas igualmente válida para o prosseguimento de minha exposição – em todo caso, o termo “informação” vem do latim informatio, e em sua designação verbal significa dar forma a mente.
A mim me pareceu bastante interessante como ambos os significados, o moderno e o antigo, não somente parecem se complementar, como se casam muito bem com tudo o que discutimos até aqui sobre a Causa Primeira como uma criação mental, e sobre o Cosmos como um sistema cuja função é a evolução...
Ora, se o ato de informar é “dar forma a mente”, poderíamos agora dizer, inclusive, que o início do Cosmos nada mais foi do que a primeira informação divulgada, irradiada de algum lugar para o Todo. E, se a subseqüente sub-divisão desta substância primeira resultou nas infindáveis substâncias que compõem o Cosmos, então podemos igualmente afirmar que tudo o que tem ocorrido desde o início são informações: “eventos que alteram o estado do universo, um sistema dinâmico”.
Eu agora gostaria de dar voz a nossos amigos, P. e Sofia, pois tenho certeza que cada um terá mais a acrescentar a este assunto fascinante...

(P.) De fato, mesmo no meio científico moderno há físicos que chegaram a teorias bem parecidas com essa...
Apesar de ter chegado a sua conclusão dentro de uma teoria consideravelmente mais abrangente sobre a mecânica quântica – e que não convém expor aqui –, um físico americano [1] cunhou a curiosa expressão “o it que vem do bit”. Em suas próprias palavras:
Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a idéia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem [2].
Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. A grande diferença, a meu ver, é que eles jamais se afastam muito das observações da ciência – e particularmente da cosmologia.
Apesar de partir do pressuposto de que todo o Cosmos nada mais é que uma espécie de supercomputador, a princípio não vejo nada de absurdo neste tipo de conclusão... Há muitas conclusões “mais absurdas” do que esta na ciência moderna, a começar pelas conclusões da própria física quântica, por exemplo.
Eu pessoalmente não concordo que a informação seja em essência imaterial, pois afinal de contas continua sendo “alguma coisa”; E é exatamente por isso que sua exposição tem me agradado, pois parece que por fim nos trará alguma “materialidade” a informação – ou seja, nada mais do que uma parte da substância primeira, que vem se dividindo e se irradiando ad infinitum, desde os primórdios do Cosmos.

(Otávio) Sorri em contentamento.
Que maravilha, vejo que nosso pensamento está agora bastante afinado. Agora nos resta ouvir o que nossa amiga tem a dizer – imagino que retornaremos uma vez mais a Grécia antiga, não?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de John Wheeler. Para maiores detalhes sobre suas considerações acerca da mecânica quântica e da informação, consultar o livro “O universo inteligente”, de James Gardner. De sua expressão, não foram traduzidos os temos do inglês ao longo do texto, mas equivaleria a algo como “(o) isso que vem do bit”. Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

[2] Conforme a nota existente no livro: O parágrafo inteiro foi retirado do livro “At home in the universe” (“Em casa no universo”), de John Wheeler.

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Crédito da foto: Troy House/Corbis

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3.3.11

À espera da embarcação

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de uma das personagens, até então apenas "S.", agora Sofia)

(Sofia) Pois então eu lhe pergunto, O., e alguém escolhe morrer estando saudável?

(O.) Estando saudável tanto do físico quanto da mente quanto do espírito, acredito que ninguém escolha morrer...

(Sofia) Então, nosso amigo I. falou que um recém-nascido não teve tempo de escolher nada, recebeu a dádiva da vida e juntamente com ela uma família, um corpo e um local de nascimento no planeta. Eu vou procurar estender a questão...
Ora, enquanto uns nascem com corpo perfeitamente saudável, em famílias ricas e em nações desenvolvidas, outros nascem com sérias deficiências como o câncer, em famílias pobres ou às vezes sem família alguma, e nas regiões mais miseráveis do planeta. Podemos crer que a partir de então, apesar da sorte ou azar no nascimento, tais crianças passarão a depender única e exclusivamente de suas próprias escolhas para seguir numa vida feliz e produtiva, ou numa vida infeliz e trágica... Mas na verdade não é bem assim, pois não temos nem nunca tivemos controle total sobre o nosso destino, sobre todos os eventos que ocorrem a nossa volta. E, mais fundamentalmente, tampouco temos controle sobre como e quando iremos morrer.
Toda essa falta de opções, todo esse lado aparentemente sombrio da existência obviamente já têm sido tema de discussões filosóficas há muito tempo. Eu gostaria de trazer a vocês o pensamento estóico e sua solução para esse tipo de aflição existencial.
Epicteto talvez tenha sido o maior exemplo de como um grego pôde ser bem sucedido na vida apesar das adversidades: nasceu escravo [1] e viveu a maior parte da vida em Roma tendo como seu “proprietário” um dos mais cruéis secretários do imperador Nero. Apesar disso, através da própria sabedoria, soube lidar com as adversidades e aprofundar o estoicismo entre seus inúmeros seguidores, já que terminou a vida como homem livre, devido ao reluzir de seus ensinamentos sobre a mente dos homens de sua época.
Diga-me, O., se ninguém saudável escolherá morrer, por outro lado, alguém pode saber quando e como irá partir desta vida?

(O.) Há alguns que pressentem a morte chegando, mas creio eu que ninguém tem a certeza absoluta do dia e hora da própria morte, tampouco como exatamente irá morrer...

(Sofia) Sendo a morte, portanto, uma viagem para alguma outra existência – ou para existência alguma –, poderíamos tomá-la metaforicamente como uma embarcação que devemos um dia tomar nalgum porto, mas que não temos como saber exatamente o dia nem a hora de sua chegada?

(O.) Acredito que seja uma boa metáfora.

(Sofia) Portanto, não sabendo a hora exata da viagem, mas sem termos tampouco como descobri-la, você diria que faz algum sentido nos preocuparmos com ela enquanto aqui estamos?

(O.) Acredito eu que não, mas as pessoas se angustiam com o desconhecido, com o fato de não saberem nem quando e nem para onde irão viajar...

(Sofia) Mas, supondo que não temos mesmo como saber disso com exatidão, não seria mais sábio nos abstermos dessa angústia e preocupação?

(O.) Certamente. Eis o motivo porque os sábios são tão poucos!

(Sofia) Mas não importa se são poucos, o que importa é que sua mensagem chegou até nós... Ao que me parece, este sábio escravo estóico sempre soube que sua liberdade estava assegurada em sua consciência, apesar de tudo.
Ou seja, as adversidades sempre existiram e sempre existirão, e a morte sempre será esta embarcação que um dia iremos tomar. Sabe-se lá para onde, sabe-se lá quando, mas iremos...
E em nossas vidas, à espera da embarcação, temos sempre tal liberdade de escolha em nossa consciência: ou nos angustiarmos com a morte, a maior das adversidades, ou simplesmente nos abstermos da preocupação com tudo aquilo que não nos é dado escolher.
Sob nosso controle, dentro do que nos é dado escolher, estão nossas opiniões, crenças, aspirações, desejos a as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Essas áreas são justificadamente da nossa conta porque estão sujeitas à nossa influência direta. Temos sempre a possibilidade de escolha quando se trata do conteúdo e da natureza de nossa vida interior.
Fora de nosso controle, entretanto, estão coisas como o tipo de corpo que temos, se nascemos ricos ou se tiramos a sorte grande e enriquecemos de repente, a maneira como somos vistos pelos outros ou qual é a nossa posição e status na sociedade, assim como tudo que se refere à morte. Devemos lembrar que estas coisas são externas e, portanto, não dependem de nós. Tentar controlar ou mudar o que não podemos só resulta em aflição e angústia.
As coisas sob o nosso poder estão naturalmente à nossa disposição, em nossa consciência, livres de qualquer restrição ou impedimento. As que não estão, porém, são frágeis, sujeitas à dependência, ou determinadas pelos caprichos ou ações dos outros. Ter a pretensão de controlar as opiniões e pensamentos alheios, as forças da natureza ou mesmo o tempo em que devemos tomar a embarcação só nos trará decepções e angústias desnecessárias. No fim, portanto, nossas escolhas são mesmo limitadas, mas não deveria haver nenhum bom motivo para nos afligirmos com isso... Muito pelo contrário, deveria ser motivo de alívio saber que existem muitas coisas que não estão nem nunca estarão sob nosso controle, que a natureza cuida de si mesma e que nessa existência muitas vezes somos mais espectadores do que diretores.
Dessa forma, com a sabedoria estóica, podemos viver focados nas preocupações certas – aquelas que podemos efetivamente controlar –, e sempre preparados para tomar a embarcação para a morte, seja quando e como ela eventualmente ancorar em nosso porto.
O que você acha dessa visão, O.?

(O.) Eu acho esplêndida, de fato algo que deveria ser ensinado a todas as pessoas, para que ao menos elas se dêem conta de que não devemos nos apegar tanto aos eventos fortuitos nem nos afligir tanto com as dificuldades no caminho, pois tanto um quanto outro muitas vezes estão além de nossa escolha e vão ocorrer independente do que façamos.

(P.) Também me agrada muito a visão estóica. No entanto, estamos falando essencialmente de filosofia [o debate anterior a exposição de Sofia se focava na justiça divina]...

(Sofia) Na verdade a filosofia estóica, e particularmente a de Epicteto, se confunde com a religião. Dentre as referências à deusa Fortuna e a um Zeus que era o Deus dos deuses, temos um misto de monoteísmo com uma profunda elaboração filosófica da aleatoriedade da existência. De fato, eu pessoalmente não vejo religião, filosofia e nem mesmo a ciência como campos hermeticamente separados um do outro, mas talvez isso ainda seja um outro debate...

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Apesar de sua condição, conseguiu assistir as preleções do famoso estóico Gaio Musônio Rufo. De sua obra se conservam o Enchyridion, o "manual de Epicteto", e alguns discursos editados por seu discípulo Flavio Arriano.
Como viver uma vida plena, uma vida feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais? Responder a estas duas perguntas fundamentais foi à única paixão de Epicteto. Embora suas obras sejam menos conhecidas hoje em função do declínio do ensino da cultura clássica, tiveram enorme influência sobre as idéias dos principais pensadores da arte de viver durante quase dois mil anos.

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Crédito da foto: Joaquín Vicente

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1.2.11

Ouroboros: Sugestões de leitura

Parte do Projeto Ouroboros

Bem, como devem ter notado, eu não tenho tido muitos avanços no Projeto Ouroboros ultimamente. Viagens no final de um ano e mudança no início de outro ano contribuiram, mas espero retornar em breve a esta grande aventura... Enquanto isso, achei por bem trazer a vocês a seção "Sugestões de leitura", conforme ela se encontra neste momento. Todos esses livros inluenciaram de alguma forma a minha vida, minha visão do Cosmos e, consequentemente, o Ouroboros em si. Boa leitura...

Agostinho, Santo. Confissões. Nova Cultural.
________. Sobre a potencialidade da alma. Editora Vozes.
Aristófanes. As nuvens. Nova Cultural.
Aurélio, Marco. Meditações. Martin Claret.
Bhagavad-Gîtâ, a sublime canção. Cultrix/Pensamento.
Bíblia sagrada, velho e novo testamentos, diversas traduções. http://www.bibliaonline.com.br/
Botton, Alain de. As consolações da filosofia. Rocco.
________. Desejo de status. Rocco.
Bulfinch, Thomas. O livro de ouro da mitologia. Martin Claret.
Buscaglia, Leo. Amor. Nova Era.
Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Cultrix/Pensamento.
Campbell, Joseph. Moyers, Bill. O poder do mito. Palas Athena.
Confúcio. Os Analectos. Cultrix/Pensamento.
Darwin, Charles. A origem das espécies. Livros Escala.
Del Debbio, Marcelo. Enciclopédia de mitologia. Daemon Editora.
Denis, León. O problema do ser, do destino e da dor. FEB.
Descartes, René. Regras para a orientação do espírito. Martins Fontes.
Duhot, Jean-joël. Sócrates ou o despertar da consciência. Edições Loyola.
________. Epicteto e a sabedoria estóica. Edições Loyola.
Espinoza, Benedito. Ética. Editora Autêntica.
________. Tratado da reforma da inteligência. Martins Fontes.
Falcão, Waldemar. O Deus de cada um. Editora Agir.
Gaarder, Jostein. Hellern, Victor. Notaker, Henry. O livro das religiões. Companhia das Letras.
Gardner, James. O universo inteligente. Cultrix/Pensamento.
Gautama, Siddharta. A doutrina de Buda. Martin Claret.
Gibran, Khalil. O profeta. ACIGI.
Gleiser, Marcelo. A dança do universo. Companhia das Letras.
________. O fim da Terra e do Céu. Companhia das Letras.
________. Criação imperfeita. Editora Record.
Greene, Brain. O universo elegante. Companhia das Letras.
________. O tecido do cosmo. Companhia das Letras.
Grimaldi, Nicolas. Sócrates, o feiticeiro. Edições Loyola.
Hawking, Stephen. O universo numa casca de noz. Mandarim.
Heeren, Fred. Mostre-me Deus. Editora Clio.
Impey, Chris. O universo vivo. Editora Larousse.
Jablonka, Eva e Lamb, Marion J. Evolução em quatro dimensões. Companhia das Letras.
James, William. Variedades de experiência religiosa. Cultrix/Pensamento.
________. A vontade de crer. Edições Loyola.
Kant, Emmanuel. Crítica da razão pura. Nova Cultural.
________. Crítica da faculdade do juízo. Forense Universitária.
Kardec, Allan. O livro dos espíritos. LAKE.
________. O evangelho segundo o espiritismo. LAKE.
________. O céu e o inferno. LAKE.
________. A gênese. LAKE.
Meyer, Marvin. Mistérios gnósticos: as novas descobertas. Cultrix/Pensamento.
Miller, Ron. O evangelho de Tomé, uma bússola para a evolução espiritual. Nova Era.
Mithen, Steven. A pré-história da mente. Editora UNESP.
Moses, Jeffrey. Unidade. Editora Sextante.
Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Martin Claret.
________. Para além do bem e do mal. Martin Claret.
Parnia, Sam. O que acontece quando morremos. Editora Larousse.
Pires, J. Herculano. O espírito e o tempo. Editora Paidéia.
Platão. Fédon. Editora Nova Cultural.
________. Apologia de Sócrates. Nova Cultural.
________. Defesa de Sócrates. Nova Cultural.
________. A república. Nova Cultural.
________. Críton. Nova Cultural.
________. Eutífron. Nova Cultural.
________. Fedro. Martin Claret.
________. O banquete. Editora Bertrand Brasil.
Rousseau, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Martins Fontes.
Sacks, Oliver. Um antropólogo em Marte. Companhia das Letras.
Sagan, Carl. O mundo assombrado pelos demônios. Companhia das Letras.
________. Bilhões e bilhões. Companhia das Letras.
________. Variedades da experiência científica. Companhia das Letras.
________. Cosmos. Ballantine Books (em inglês).
Tagore, Rabindranath. A morada da paz. Verus Editora.
Tomé, Apóstolo. O quinto evangelho. Martin Claret.
Três Iniciados. O Caibalion. Cultrix/Pensamento.
Tse, Lao. Tao Te Ching, o livro do caminho perfeito. Cultrix/Pensamento.
Xavier, Francisco. Mecanismos da mediunidade. FEB.
Xenofonte. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. Nova Cultural.
________. Apologia de Sócrates. Nova Cultural.

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ex nihilo, nihil fit - do nada, nada se cria

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Crédito da foto: Massimo Listri/CORBIS

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16.9.10

O problema da criança e do câncer

Trecho do Projeto Ouroboros

(P.) Bem, antes que nossa amiga procure me refutar, devo deixar claro que o conceito de “deus ausente” será sempre uma meia-verdade, pois da mesma forma que ele não intercede diretamente nos eventos de sua criação, pode-se dizer que também intercede a cada momento, na manutenção das leis naturais que, bem ou mal, permaneceram estáveis desde o início deste universo. É principalmente por conta disso que a ciência existe, afinal se as leis da natureza mudassem com o tempo, ou tivessem comportamentos diferentes de acordo com uma dada região do espaço-tempo, seria provavelmente impossível elaborar um estudo consistente das mesmas. Ou, em outras palavras, E=mc² será sempre E=mc², não importa o tempo ou a região do universo.

(S.) Correto, é bom deixar isto sempre claro a todos.

(P.) Entretanto, o mero fato de Deus manter, por exemplo, a lei da gravidade funcionando, não necessariamente explica toda a sua justiça divina. Ou pelo menos, não evidencia uma justiça que seja inteiramente compatível com o nosso senso de justiça, humano.
Eu explico: conforme combinamos há algum tempo, eu concordei em considerar a possibilidade da existência de Deus, para que pudéssemos prosseguir no debate de seus atributos... Muito bem, eu não estou arrependido de acompanhá-los nessa empreitada, pois muito embora continue não encontrando evidências para a crença em um deus pessoal, concordo que há algo de sagrado e profundamente misterioso na vida, na forma com a qual resíduos de estrelas se reuniram para formar tantas e tão complexas máquinas moleculares que insistem em desafiar a entropia do Cosmos. Até que surgiu o ser humano e sua consciência, com características tão maravilhosas e insondáveis que é praticamente uma pequena “heresia” chamá-lo de máquina de células. Sim, concordo que sejamos muito mais do que isso, e concordo igualmente que ainda teremos uma longa via pela frente, até que possamos desvendar sequer uma pequena parte de nosso mecanismo mental e do processo de consciência.
Portanto, a vida sendo tão sagrada, a vida sendo a principal função do sistema-natureza, pela lógica era de se esperar que um Deus justo fizesse tudo ao seu alcance para preservá-la, da mesma forma que é a reação natural de toda mãe a preservação e proteção de seus filhos...

(I.) Interrompe.
Perdoe-me, meu amigo, mas não foi exatamente esta a nossa conclusão há pouco? Ora, se todos somos emanações de Deus, ou como O. gosta de chamá-lo – da substância-primeira –, então me parece que aquele que cria e possibilita a vida é automaticamente seu maior protetor e preservador.

(P.) De certa forma, concordo plenamente contigo. É impossível discordar que, num universo onde nada se cria e tudo se transforma, estamos então todos conectados, e todos somos originários de um mesmo “ponto” no espaço-tempo. Todos somos constituídos de “partículas-irmãs”, por assim dizer, todas filhas da singularidade que iniciou o espaço-tempo. Nesse sentido, é óbvio que Deus é justo, e que suas leis são justas.
Mas, por outro lado, este deus poderia ser chamado de natureza, e apenas natureza... Porém, segundo a idéia de Deus pessoal que muitos dos humanos acreditam, ele nos criou a sua imagem e semelhança, e nos inseriu na Terra como seres humanos. Isso nos traz diversos problemas lógicos que não podem ser desconsiderados.
O primeiro deles é até mesmo óbvio: como conciliar a teoria da evolução das espécies com esta criação incessante de Deus?

(I.) Como já lhes disse, não desconsidero a teoria de Darwin-Wallace. Entretanto, ela jamais teve quaisquer intenções de explicar a origem da vida ou da consciência humana... Ora, e o que é a alma além da consciência humana? O que ocorre, há meu ver, é que esta teoria explica a evolução física das espécies, mas nada nos diz acerca das almas criadas pelo ser divino.

(P.) Bem, mas receio que a discussão sobre a existência da alma nos tomaria um outro tanto de tempo...

(O.) Concordo, sugiro que pulemos esta discussão por agora. Considere então, P., a alma como uma possibilidade lógica. Ao menos por enquanto, pois suspeito que seu argumento independa da existência ou inexistência da alma humana.

(P.) Está certo, você tem razão. Independe mesmo em realidade...
Digamos então, caro I., que a evolução física se dê ao largo da criação incessante dessas almas. Você sustenta então que cada alma humana é criada por Deus e então enviada para habitar um corpo recém-nascido?

(I.) Certamente. Chegará o dia em que a ciência se renderá a tal explicação, pois que existem características da alma humana que estarão sempre fora do alcance da explicação mecanicista com a qual muitos estudiosos do cérebro procuram explicar nossa consciência e nosso livre-arbítrio.

(P.) Muito bem, quero lembrar novamente que estou deixando a discussão sobre a natureza da alma humana para outro momento... Ainda assim, sua resposta já é o suficiente para que eu coloque uma pergunta central nessa discussão, uma pergunta que é capaz de abalar os alicerces da crença em um Deus justo!

(I.) Ora, pois faça a pergunta então...

(S.) Muitos foram os sábios que afirmaram que as perguntas são mais importantes do que as respostas... São as perguntas que nos movem sempre à frente!

(O.) Sorri.
Bem, eu já imagino o que vai perguntar... Tem a ver com crianças, não?

(P.) Acena com a cabeça em concordância.
Mais precisamente com recém-nascidos, com aquelas almas que têm poucos segundos de vida, seja no útero materno ou já fora dele, mas que já são herdeiras de uma carga maldita, um destino infeliz...
Respondam-me então, como um Deus justo pode criar uma alma destinada a habitar o corpo de uma criança que nasce com câncer [1]?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Gostaria de deixar claro que não é minha intenção “justificar” ou ditar uma razão infalível pela qual uma criança nasce com doenças como o câncer (e outras tantas doenças até piores, que é desnecessário citar aqui). O cerne da discussão irá girar em torno da justiça divina, que é um conceito importantíssimo do livro, mas que é no fundo apenas um conceito. Qualquer que seja a resposta para esse problema, jamais será minha intenção afirmar que um evento desses deva ser “aceito” sem sofrimentos, como se fosse uma coisa normal e/ou corriqueira. Não é, é algo extremamente trágico, e esta discussão procura trazer um consolo filosófico para a questão, sem pretender encerrar o assunto e muito menos fazer julgamentos do tipo: “a criança nasceu assim porque merecia” ou “foi a vontade de Deus”... Achamos que tais respostas serão sempre equivocadas, pois se trata de um assunto que deve ser abordado mais pela emoção do que pela razão. Afinal, apenas o amor pode realmente consolar – ainda que o amor sob a razão.

Obs: Aqui no blog eu estive "preparando terreno" para este post do Projeto Ouroboros. Para qualquer um que tenha se sensibilizado com a questão, recomendo levar em consideração estes outros posts: "Definição da saudade" e "O homem que pede pelo pior".

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Crédito da foto: Jackson Rubem

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16.8.10

Injusto consigo mesmo

Trecho do Projeto Ouroboros

(S.) Pois bem, mas estivemos atrelando o conceito de justiça divina primordialmente a igualdade, ou igualdade universal. Devemos então retornar a ela...
Estive considerando que um homem ou mulher pode nascer livre e pertencente a uma fraternidade. Mas pode alguém ser igual em si mesmo?

(I.) Igual em si mesmo?

(S.) Sim, da mesma forma que dizemos “este é um homem livre”, poderíamos construir uma frase como “aquela é uma mulher igual”... Mas ela faria algum sentido?

(I.) Ah sim, agora lhe entendi... Realmente não faria sentido algum.

(S.) Dessa forma, quando falamos em igualdade, estamos falando sempre de uma relação entre uma ou mais partes, uma ou mais pessoas ou seres.

(I.) Não há dúvida.

(S.) Nesse sentido, conforme estivemos atrelando o conceito de justiça universal e divina a uma igualdade universal, chegamos a conclusão de que ninguém pode ser justo ou injusto para consigo mesmo – a justiça envolve sempre a interação e o relacionamento com um ou mais seres distintos. Você ainda concorda?

(I.) Com muito gosto. Uma bela exposição lógica, minha cara!

(S.) Obrigado, mas então permaneça atento a este fio de pensamento...
Muitos concordarão, portanto, que é justo afirmar que onde termina o direito de um se inicia o direito do outro. Há aí uma linha extremamente tênue, e é precisamente esta “fronteira” de direitos que demanda a interpretação cuidadosa e lúcida dos grandes juízes, sobre os quais recaiu a monumental tarefa de atuarem conforme deuses – julgando o destino daqueles que são encaminhados as suas cortes...
Dessa forma, obviamente aquele que rouba ou agride ou tira a vida de algum outro deve se penalizado pela lei dos homens, que está tentando imitar a justiça divina desde sua criação. Quanto a isso praticamente não há discussão, exceto nos casos de legítima defesa, mas não quero entrar em detalhes; Consideremos que o assassino que mata sem ter sido provocado ou ameaçado está agindo injustamente, isso me parece sempre claro a todos não?

(I.) Certamente, a vida é sagrada e não deveria caber aos homens julgar ou decidir quem se vai e quem fica. Na realidade nunca coube, e aqueles que se acharam no direito de efetuar tal julgamento estavam equivocados, como nossa conversa já deve ter deixado claro até aqui...

(S.) Sim, conforme falamos de liberdade e fraternidade, esperamos que isso tenha ficado claro... Mas, e quando alguém pratica uma injustiça consigo mesmo, isso é passível de repreensão e julgamento?

(I.) Você fala do suicídio?

(S.) Não somente o ato de se matar, mas qualquer ato consciente que vise prejudicar a manutenção da própria vida... Ora, acabamos de afirmar que a igualdade sempre se aplica a um conjunto de seres, e que como a justiça universal também está atrelada ao conceito de igualdade, ninguém teoricamente poderia ser injusto consigo mesmo... Porém, o que dizer daqueles que intencionalmente atentam contra a própria vida, seja em curto prazo – um ato direto de suicídio –, ou à longo prazo – geralmente através de vícios em substâncias nocivas a vida –?

(I.) Realmente havia me esquecido dessa possibilidade. Como me pegou novamente em sua armadilha lógica, vou deixar que você mesmo continue a expor uma solução enquanto eu continuo nesta profunda reflexão.

(S.) Pois bem, minha intenção não era pregar peças em você meu amigo, mas apenas fazer com que todos possam chegar a uma conclusão mais completa, se conseguirem seguir este fio de idéias.
Ora, se é viável afirmar que ninguém é desigual para consigo mesmo, me parece que não podemos prosseguir e afirmar que ninguém é injusto para consigo mesmo...
Ocorre que, embora tenhamos sido criados iguais, e todos sejamos responsáveis por nossas próprias escolhas; e embora resida exatamente nesses conceitos o cerne do que estivemos discutindo sobre a justiça divina e universal, não podemos nos apressar e esquecer de uma coisa: embora não sejamos a Eva que mordiscou a maça proibida [1], todos temos ainda um débito que talvez nunca possamos quitar, e que por isso mesmo deve ser sempre respeitado.
Me diga, meu caro I., se alguém lhe pedisse emprestada uma roupa fina para comparecer a uma festa, o que você esperaria dessa pessoa nos dias seguintes a festa em que ela foi com sua roupa?

(I.) Que me devolvesse, conforme o combinado...

(S.) E o que você diria se a roupa fosse devolvida com rasgos ou manchas permanentes?

(I.) Que a pessoa foi descuidada!

(S.) E se, digamos, ela nem chegue a lhe devolver nada, não iria atrás dela para cobrar satisfações?

(I.) Certamente, iria cobrar uma nova roupa ou o valor da antiga, se ela encontra-se arruinada...

(S.) E você julga que estaria agindo conforme a justiça, pelo menos a justiça dos homens, correto?

(I.) Correto, não que eu vá ficar muito revoltado se alguém arruinar uma roupa minha, mas sem dúvida seria uma coisa injusta...

(S.) Pois bem, isto já é o suficiente para eu encerrar a exposição...
O que diriam então, amigos, de uma roupa preciosíssima que nos foi ofertada no início da vida, a qual formos encumbidos de preservar da melhor forma possível, visto que é nosso veículo essencial na existência – não seria um ato injusto rasgá-la e arruiná-la de forma intencional?
Ora, conforme expomos no início de nossa conversa, todos somos parte da substância-primeira (ver conclusões do cap. X) [2], e embora ainda não tenhamos discutido sobre o que exatamente forma nossa alma, e mesmo que sejamos apenas um corpo formado por poeira de estrelas distantes, ainda assim esta poeira nos foi emprestada, e não nos pertence – ainda que simplesmente porque somos incapazes de criá-la por nós mesmos.
Dessa forma, já viemos para a existência com pelo menos este débito e esta responsabilidade: a de cuidar e preservar o veículo de nossa própria vida, a começar obviamente pelo próprio corpo. Concluindo, ainda afirmo que todo ato que atenta contra a própria vida é injusto, e cada vez mais injusto na medida em que temos consciência plena deste ato. Digo isso porque, apesar de sermos responsáveis por nossa própria vida, por nossas próprias escolhas, é impossível crer que somos os criadores de nós mesmos... Ora, se uma substância não pode criar uma outra substância, e se somos todos parte da substância-primeira, se todos somos os devedores desse empréstimo sagrado, obviamente que estaremos sendo justos, cada vez mais justos, na medida em que preservamos nossa própria existência, e compreendamos cada vez mais os mistérios que a encerram.
Todos estão de acordo?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Em sua análise mais aprofundada o mito de Adão e Eva se refere ao estágio em que os seres tiveram consciência de si próprios, de sua individualidade, e também das noções de “bem” e de “mal” (poderia-se também dizer: quando deixaram o estágio de animalidade). No caso em questão, a personagem alude a visão menos aprofundada mesmo: uma alegoria que sugere que os filhos de Adão e Eva estão em débito com Deus por conta do “ato pecaminoso” de Eva.

[2] No capítulo em questão temos uma discussão em torno da célebre pergunta: "Porque existe algo, e não nada?" – Já postei um trecho deste capítilo no blog: "Como criar um universo". Notem que o objetivo da exposição de trechos do livro no blog não visa uma espécie de marketing (até mesmo porque nem sei ainda quando terminarei de escrever a obra), mas sim colher comentários e interpretações dos leitores...

***

Crédito da foto: sadheartgirl

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8.6.10

Como criar um universo

Trecho do Projeto Ouroboros

(S.) Antes que fiquem angustiados com nossa questão pendente, vamos tentar finalmente resolvê-la... Diga-me P., sobre aquele mesmo carpinteiro que falamos anteriormente: você diria que ele precisa apenas de seu corpo e da madeira para construir uma cadeira decente?

(P.) Vejo onde quer chegar: ele precisaria antes estudar carpintaria.

(S.) Mas digamos que fosse o maior mestre de carpintaria que já existiu. Ainda assim ele usaria apenas seu corpo e a madeira para construir a cadeira?

(P.) Bem, ainda que sua mente faça parte de seu corpo, ele sem dúvida usaria os comandos do cérebro para guiar suas mãos na construção da cadeira.

(S.) Não vamos discutir sobre a dualidade mente-corpo agora, digamos que mente e corpo fossem uma mesma entidade chamada carpinteiro: ainda assim, ele necessitaria da mente para sua construção, correto?

(P.) Sem dúvida, sem a mente suas mãos de nada serviriam...

(S.) Mas a mente não serve apenas para guiar as mãos. Diria que, antes que as mãos recebam o comando da mente, a cadeira de certa forma já existia como uma espécie de “imagem mental” na mente do carpinteiro... Da mesma forma que um pintor não escolhe uma cor de tinta sem antes consultar a imagem do quadro em sua mente; Ou que um construtor não coloca um tijolo na parede sem antes consultar o projeto que, em última análise, é fruto de sua mente.

(P.) É a mais pura verdade, acredito.

(S.) Dessa forma, antes da cadeira ser concebida pelas mãos que talham a madeira, foi concebida na mente do carpinteiro... Ou poderíamos imaginar uma cadeira que fosse construída a esmo, e que só penetrasse na mente do carpinteiro após estar, de alguma forma estranha, já pronta?

(P.) Não poderíamos, ao menos não dentro da natureza.

(S.) E toda obra material foi antes, uma obra mental.

(P.) Correto.

(S.) Chamemos a essa terceira forma de criação: a mental. Mas ainda não temos a questão ganha... O que se diz da velocidade do pensamento?

(P.) Que é bem rápida, embora no cérebro certamente não possa ser mais rápida que a velocidade da luz.

(S.) Poderíamos dizer, no entanto, que o pensamento depende apenas da própria mente para existir? Ou seja, que não necessitaria a priori de qualquer outra substância além da própria mente que o originou?

(P.) Bem, tecnicamente um pensamento está atrelado às memórias já existentes no cérebro, e dependeria delas para ocorrer. Por exemplo: o carpinteiro só pensaria em construir a cadeira porque já tem toda a experiência da carpintaria registrada em sua memória...

(O.) Permitam-me interromper: a substância de que falamos não seria exatamente um cérebro. Pensemos em uma analogia da mente e da criação mental, e não exatamente em um “cérebro gigantesco flutuando no nada”... Um sábio antigo já nos disse que “o que está em cima é como o que está embaixo”, porém não é exatamente a mesma coisa.

(S.) Exato, aqui não temos escolha senão deixar nossa imaginação flutuar um pouco acima de nossa razão.

(P.) Bem, nesse caso, concordo: o pensamento depende apenas da própria mente para existir.

(S.) Além disso, o pensamento pode se realizar de forma muito rápida, ou pelo menos mais rápida do que qualquer outra ação não mental.

(P.) Explique isso melhor, por favor.

(S.) Você afirmou, com razão, que no cérebro o pensamento se realiza em velocidade necessariamente inferior a velocidade da luz. Porém, pensemos em um quantum de luz, um fóton: ele não pensa. Se considerarmos, portanto, qualquer ação mental, o pensamento será a mais rápida delas, e necessariamente mais rápido do que uma ação não mental.
Por exemplo: não poderíamos dizer que o carpinteiro tenha talhado à cadeira ainda mais rápido do que tenha pensado em construí-la inicialmente. De fato, sequer poderíamos dizer que o primeiro corte da madeira tenha sido mais rápido do que a mera idéia, o pensamento de criá-la.

(P.) Certo, faz sentido, embora isso esteja ficando confuso... O que exatamente isso tem a ver com a Causa Primeira?

(S.) Ora, deixe-me explicar então... Não dissemos que a substância que originou a Causa Primeira existia, antes da criação do Cosmos, fora do tempo?

(P.) Certo.

(S.) E não postulamos que ela, a substância eterna, não poderia depender de qualquer outra substância além dela própria para realizar a criação?

(P.) Correto.

(S.) E que não poderia se dividir nem se transformar em outra substância?

(P.) Dissemos tudo isso.

(S.) Então que os sábios me perdoem se estiver errada, mas a única forma de criação que nos restou é a criação mental, e somente esta pode explicar, por analogia, a Causa Primeira!
Vejamos: uma mente-substância eterna, causa de si mesma, que existindo fora do tempo elaborou mentalmente uma idéia peculiar, a idéia da criação do Cosmos; E dependendo somente de si própria em sua elaboração mental, essa mente, em uma velocidade incomensurável criou o próprio tempo, o espaço, as partículas e todo um sistema de leis naturais que se desenvolveram e deram lugar à evolução gradativa do universo que conhecemos através do tempo em nossa interação com tudo o que existe.
Este Cosmos semente, surgindo dentro da mente-substância, irradiou-se como um grandioso pensamento, uma explosão criativa, sem nunca ter dependido de qualquer outra substância “fora dele” para se desenvolver e continuar existindo; Sem nunca ter realmente se dividido, sendo ainda neste preciso momento à mesma idéia, a mesma mente-substância, o mesmo pensamento infinito que nada mais é do que a grande causa, a Causa Primeira.

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Crédito da imagem: Photo2217

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11.5.10

O homem que afirmava levitar

Trecho do Projeto Ouroboros

(O.) Vamos dizer que tenhamos ouvido falar de um homem que afirma levitar. E vamos dizer que ele já tenha realizado o fenômeno algumas vezes na presença de inúmeras testemunhas, e que muitas delas afirmem que de fato este homem levitou bem à frente de seus olhos. Digamos também que ele tenha de realizar uma espécie de meditação e invocar alguma espécie de auxílio divino para realizar o fenômeno, mas que ainda assim não consiga levitar mais do que alguns palmos acima do chão.
Não retirei esse exercício mental do nada, ele reflete mais ou menos uma média das características do que o conhecimento popular afirma acerca do fenômeno da levitação, e das pessoas que dizem levitar.
Dito isso, o que vocês teriam a me dizer acerca da possibilidade? Provável, improvável, possível ou impossível?

(I.) Certamente possível, há inúmeros relatos de santos católicos que levitavam, assim como de xamãs e yogis... Mas creio que para tal fenômeno se realizar tais homens tenham de ter uma comunhão com Deus própria das grandes almas!

(P.) Absurdo! Se formos confiar em todos os relatos do que os santos, xamãs e yogis fazem, teríamos antes que afirmar que a gravidade “nem sempre é a mesma”. O sistema-natureza teria então os seus defeitos de funcionamento...

(S.) Eu preferia responder com outra indagação: E seriam tais homens mais ou menos sábios, mais ou menos conectados a Deus ou ao Cosmos, somente porque levitam a alguns palmos do chão?

(O.) Precisamente minha amiga. Há mesmo muitas perguntas que se tornam secundárias ante à perguntas ainda mais profundas... Você acaba de nos trazer um belo exemplo.
Quando tocamos no tema de fenômenos sobrenaturais, freqüentemente caímos na questão superficial: se Deus permite ou não permite, se intercede ou não intercede... Ora, e o que Deus tem a ver com isso? O que pode lhe interessar se um homem na periferia de uma de suas bilhões de galáxias vai ou não conseguir levitar alguns palmos do solo?
Se estivemos falando de igualdade universal, de como a gravidade e outras forças naturais afetam a todos e à todo momento, sem distinções, e que por isso mesmo esse sistema-natureza seria “perfeito” – ao menos no sentido de que sua totalidade induz ao florescimento da vida, sem que para tal algum Criador precise interceder, modificando ou deturpando suas próprias leis –, então a questão da levitação se torna secundária ante uma outra questão bem mais profunda: e Deus acaso se “disporia a atender” a todos os chamados desses homens que afirmam levitar?

(S.) Não se disporia. Se é que algum homem pode levitar, o faz por suas próprias forças e conhecimento...

(P.) Concordo plenamente. Hoje mesmo temos algumas tecnologias que permitem a levitação, como a dos modernos trens de Xangai. Se é verdade que é possível levitar objetos até mesmo milhares de vezes mais pesados que um ser humano, não acredito que um homem consiga fazer levitar-se apenas pela “força do pensamento”, por auxílio divino ou qualquer outro efeito sobrenatural parecido.

(I.) Decerto o fenômeno da levitação não é algo para ser utilizado de forma leviana, como que para entreter platéias... Acredito que Deus possa sim interceder a favor daqueles que entram em contato estreito com Ele, e estão em comunhão divina.
Porém, não creio que o fenômeno seja um fim em si mesmo, e sim apenas um efeito de tal contato direto com as forças divinas.

(O.) Bem, acho que podemos chegar num consenso prévio sobre o assunto, meu amigo: você diria então que o fenômeno da levitação, em sendo real, não deveria ser utilizado como um “teatro” ou “show de mágica”, visto que Deus não deveria se sujeitar a esse tipo de evento?

(I.) Certamente, isso é algo sagrado, próprio da comunhão divina dos grandes santos da humanidade.

(O.) Então, se acaso o homem de nosso exemplo não fosse um grande “santo”, poderíamos pressupor que a alegação de que ele pode levitar é falsa de antemão?

(I.) Sim. Correto.

(P.) Levanta a mão e intercede na conversa.
Permita-me comentar: muito provavelmente falsa. Mas não inteiramente falsa, visto que não fomos lá para ver por nós mesmos, ou realizar algum tipo de estudo ou experiência objetiva para comprovar se é ou não uma fraude.

(O.) Surpreso.
Mas você acabou de afirmar que não acredita que esse tipo de fenômeno seja possível.

(P.) Correto: e eu não acredito mesmo. Porém, não posso afirmar objetivamente que seja falso sem estar lá para ver ou realizar um estudo. Da mesma forma, não acredito no relato das levitações de santos católicos, xamãs, yogis e etc., mas não posso afirmar objetivamente que não ocorreram.
Isso é o cerne do ceticismo: não crer sem evidências, não descrer sem evidências. Mas toda a prova tem de ser objetiva, e cabe a quem afirma provar o fenômeno... Enquanto o tal homem que afirma levitar não provar sua afirmação em algum experimento objetivo, replicável, e que não dependa apenas de relatos subjetivos de sua platéia, eu me reservo ao direito de não acreditar.
Mas não posso julgá-lo uma fraude a priori, por mais absurda que seja a sua afirmação, sem ao menos estar presente em seu “espetáculo” e encontrar algum mecanismo secreto ou truque de mágica pelo qual ele faça sua “levitação”. E, da mesma forma, não posso afirmar que é impossível que ele consiga levitar. É, na minha opinião, algo extremamente implausível, mas não impossível...

(O.) Parabéns, eis uma coerência de pensamento notável.

(P.) Obrigado amigo. Eu acredito que se Deus existe, também trata e ama da mesma forma crentes e descrentes. Assim como os céticos oferecem iguais oportunidades para que todos comprovem suas alegações, têm de tomar o cuidado para não atacar injustamente aqueles que teoricamente afirmam coisas absurdas. A ausência de evidência não é uma evidência da ausência.
No entanto, se fica comprovada a fraude, tenho o direito de tratar o homem que afirma levitar como um falsário. Até lá, entretanto, nada posso afirmar sobre suas intenções...

(O.) Fico feliz que tenha encontrado tamanho senso de justiça independente da crença em um Deus pessoal. Mas prossigamos em nosso exercício mental...
Acredito que a questão não está em se Deus intercede ou não intercede. Como concluímos ao longo de nosso diálogo, as leis naturais já operam à todo momento e o sistema-natureza provavelmente não necessita de uma interferência divina, ou de um “milagre” ou evento sobrenatural. Afirmamos isso através de nossas conclusões lógicas, e não porque fomos investigar a todo e qualquer evento em que algum homem afirme levitar ou realizar quaisquer outros fenômenos do tipo.
Simpatizo com a abordagem de nosso amigo P. para com o assunto: há certos fenômenos realmente implausíveis, mas não podemos afirmar que sua totalidade seja formada por fraudes. Talvez ocorram fenômenos ainda desconhecidos da ciência, talvez o homem que afirme levitar realmente consiga afetar campos magnéticos ao redor de seu corpo e, com algum mecanismo mental desconhecido, levitar por alguns momentos a alguns palmos do chão.
Mas, se é que tais fenômenos são possíveis, acredito que deveríamos lhes dar outro título: paranormais, e não sobrenaturais. Pois na natureza não há nada que possa “entortar” ou “desligar” as forças e as leis naturais, sequer por alguns momentos... No entanto, toda nossa ciência dos mecanismos naturais é ainda precária e infantil, e me parece ser plausível que muitos dos fenômenos compreendidos como sobrenaturais sejam apenas fenômenos paranormais ainda incompreendidos pela ciência.
Se, por outro lado, Deus realmente intercedesse a favor de certos homens, por mais “santos” que fossem, para “desligar” a gravidade por alguns momentos, ele estaria sendo injusto – no sentido estrito de estar tratando aos seres de forma desigual, privilegiando alguns poucos “santos” em detrimento de todos os outros.
Há menos que o fenômeno seja paranormal, que dependa de alguma técnica ou mecanismo desconhecido da ciência, mas que repouse apenas na vontade e nas forças do ser em si, não acredito que devamos aceitá-lo como plausível. Ao menos não em detrimento de toda a noção de igualdade universal há que estivemos ligando o conceito de justiça divina. O que me dizem?

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Crédito da imagem: Juanpri

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