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17.7.12

Intervista, parte 1

Esta é uma "entrevista de mim mesmo" que escrevi em 1999 e agora trago para este blog. Achei que seria mais interessante usar o título "Intervista", já que todos que olham para o espelho por algum tempo, acabam por encontrar uma vista de si mesmos:


-Muito bem, aproveitando este tempo que dispomos, vamos iniciar logo essa entrevista. Começarei com uma pergunta bem simples...

Quem é você?

-(arregala os olhos surpreso) Essa é a sua ideia de pergunta simples?

-Qual o problema com ela? Basta responder seu nome, o que faz, onde mora... Coisas assim...

-(sorri) Quer dizer que por saber tais coisas você poderá me dizer quem eu sou?

-Bem... Se quiser pular essa não tem problema. Eu já sei quem você é de qualquer jeito.

-Para você saber quem eu sou, antes teria de saber quem é você mesmo; E, por  consequência, quem são todos os outros.

-Tudo bem, eu não sei sobre os outros, mas seu nome é...

-(interrompe) Não, não é meu nome quem lhe dirá quem eu sou. Não é meu nome nem meu sobrenome, muito menos meu signo, tampouco minha data de nascimento, ou mesmo o lugar onde nasci. Não será minha casa, nem meus pais, nem meus amigos, nem meu gato, nem minha agenda ou plano de saúde. Minha carteira de identidade não lhe dará muitas pistas, e todos esses outros códigos que presumem nos resumir a uma reles sequência de números também não lhe serão de nenhuma utilidade...

-Entendi o que quer dizer, apenas seu interior me dirá quem você é. O coração, a alma, coisas desse tipo não?

-Talvez lhe dêem uma pequena pista. Talvez se você me ouvir por mais alguns anos, prestando atenção em tudo o que falo, faço e penso. No que gosto e no que não gosto, no que acredito e no que amo... Talvez depois de anos você tenha uma pista de quem eu sou de verdade. E então achará uma pista sobre quem é você da mesma forma.

-Depois de anos? Então só quem vive junto pode conhecer um ao outro?

-Claro, mas em realidade todos vivemos juntos, estamos juntos nesse planeta a milhares de anos, estamos muito próximos, o suficiente para podermos observar um ao outro e aprender com isso sobre nós mesmos... Quem somos, o que fazemos, ou ao menos o que deveríamos fazer. O que procuramos? Poderemos achar? E se acharmos, o que vem depois? Até onde, ou até quando, penetraremos no mistério da vida?

-(sorri com leve ironia) Você está começando a me convencer de que não era uma pergunta tão simples afinal...

-As perguntas nunca são simples como achamos que são, apenas as respostas o são; Mas, quando não sabemos as respostas, tendemos a complicar as perguntas também. Como saber o que somos, se não sabemos do que somos feitos exatamente, muito menos de onde viemos, ainda menos quanto tempo temos. Só se pode definir alguma coisa depois de se ter compreensão total sobre ela... Antigamente achávamos que os raios que caiam do céu nos dias chuvosos eram lançados por deuses raivosos, hoje usamos esses mesmos raios para ver TV, ligar lâmpadas, acessar a internet, e tantas outras coisas... Talvez ainda venhamos a utilizar esses raios para outras coisas mais, isso porque nós temos apenas uma pista do que vem a ser um raio, e não podemos prever até onde ele nos levará. Eu só tenho uma pista sobre mim.
Eu sei que eu acordo geralmente de manhã, e só às vezes me lembro do que aconteceu comigo enquanto dormia, e mesmo quando me lembro acho tão estranho que não consigo associar com a minha realidade desperta. Mas eu continuo tentando, sabendo que vou sentir fome algumas vezes ao dia, sabendo que vou desejar alguma coisa, que vou amar e até mesmo odiar, que vou sorrir e infelizmente chorar, que vou, sobretudo, aprender; Mas nunca será o bastante, e quando a lua vier e me obrigar a me distanciar da minha realidade de novo, ainda não farei à mínima ideia do que irá acontecer. Acredito, e estudo, muitas coisas, muitas formas de se pensar esse mundo, essa realidade que nos é apresentada, mas são muitos os caminhos, e nunca sabemos quantos são e para onde exatamente nos levam...
Portanto eu não posso mesmo lhe dizer quem sou, pois eu não sei para onde estou indo, apenas sei que tenho de caminhar, pois essa questão é exatamente o que me impele a seguir sempre em frente, e a tentar o melhor caminho. Eu não sei quem sou, mas daria tudo, aliás, estou dando o máximo de mim para saber. Porque se um dia eu finalmente descobrir, talvez não tenha mais de caminhar, e talvez possa ainda ajudar os outros em seus caminhos... Mas até lá provavelmente ainda falta muito, e o que me preocupa nesse momento não é chegar, mas saber caminhar da melhor maneira. Então quem serei eu? Rei ou mendigo? Santo ou devasso? Amado ou odiado? Como eu posso saber? Que diferença isso faz?

-Sim, concordo com o que diz... Mas você me deixa um tanto confuso quando afirma que se descobrir quem é, saberá quem eu sou, e quem são todos nós...

-Talvez não saiba, talvez saber não venha a ser a questão; Talvez ser seja o verbo mais indicado. Porque saber que estou vivo aqui nesse planeta, que sou um cidadão e devo me dedicar a auxiliar o progresso de meu país, não me diz muita coisa. Na verdade todos pensam da mesma forma, todos estão aqui para isso, e tentam viver suas vidas da melhor forma... Mas então, porque todos não somos iguais? Porque uns roubam e outros doam? Porque uns são chefes e outros subordinados? Porque uns querem ser artistas e outros médicos? Acho que apesar de tudo isso todos continuamos a ser profundamente iguais. Acho que nossa profissão ou sexo, ou cor da pele, ou o que quer que seja, não nos diferenciará nem um pouco. Talvez diferencie uma vírgula, mas todos somos livros extremamente iguais, extremamente bem escritos, o problema todo vem da nossa incompetência para a leitura de nós mesmos.
Nós vemos que alguns livros têm uma vírgula fora do lugar, ou uma frase com o predicado antes do sujeito, e nos convencemos de que somos histórias diferentes. Mas nossas histórias sempre se repetem, com os mesmos inícios e finais, os mesmos temas e elementos, às vezes até os mesmos personagens... No entanto poucos se dão conta disso, então cada um passa a viver isolado em sua própria história, em seu próprio mundo. Nós temos apenas um planeta, e mais ainda, temos apenas uma raça pensante nesse planeta. Somos só nós aqui, os seres humanos, e somos todos personagens do mesmíssimo livro, a mesma história, sempre...
Talvez uns sejam mais cômicos, outros mais poéticos, outros mais voltados para o terror, mas a história é a mesma, e quem a está escrevendo somos nós. Não podemos deixa-la chata e repetitiva, temos de descobrir novos caminhos, novas formas de narrativa, talvez até novos personagens para ela. E será mesmo muito difícil conhecer ela toda, porque quando chegamos aqui ela já estava no meio, então só nos resta ajudar a escrevê-la o melhor que pudermos.
Mas uma coisa é extremamente importante compreender: Nossa história tem muitos, muitos personagens, e estão errados aqueles que acreditam serem os únicos personagens de sua história... Uma história de um personagem só pode ser muito monótona, quando não algo pior; Mas a nossa história, a história do ser humano, é um conto maravilhoso, um livro que não me canso de folhear, e é exatamente para isso que estou aqui vivo, apesar de não fazer ideia exata do por que.

» A entrevista continua em breve...

***

Crédito da imagem: Sung-IL Kim/Sung-Il Kim/Corbis

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