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7.7.12

Parker

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Acabei de ver o novo filme de Peter Parker.

Para quem não sabe, Peter Parker é o Homem-Aranha. Mas o que todo mundo está comentando é sobre o reinício da série de filmes no cinema: “Como assim, não é o Homem-Aranha 4? É outro ator? Vão contar a história toda outra vez? Para que?”.

Tudo bem, talvez tenham relançado a “nova franquia” cedo demais; Em essência, no entanto, estão apenas seguindo a mitologia do Homem-Aranha: as histórias mitológicas estão sendo recontadas há milênios, e Parker é apenas mais um herói, mais um mito...

Nas noites estreladas de outrora, em torno das fogueiras, nas tavernas vikings, nas baladas medievais, os mitos não eram vistos por espectadores passivos através de uma projeção de cinema, mas ainda tanto melhor: eram imaginados, vivenciados e, por vezes, incorporados.

A melhor cena do filme pode ter passado desapercebida – não é central a história do filme em si, mas sim uma referência ao mito de Parker, o jovem herói com grandes responsabilidades... Nela, um garotinho precisa fugir de um carro suspenso pela teia do Aranha, mas sem poder contar com sua ajuda, já que o herói está a sustentar o carro no ar, evitando que caia de uma ponte. Parker retira a máscara e joga para o garoto: “Vá, ponha a máscara; Ela te transforma num herói, com ela não precisará ter medo”. No fim, claro, o garoto consegue alcançar o Aranha, é salvo, e Parker recoloca a máscara. Metalinguagem?

O cético não crê em deuses e antigos mitos: “É tudo mentira!”. Mas o cético pode ser um grande fã do Homem-Aranha: “Sei que não existe, mas eu amo o Peter Parker... As vezes me sinto como se fosse um herói como ele”. Ironia da ironia – por vezes é o cético quem melhor vivencia o mito, quem faz dele uma verdadeira religião sem dogmas... Como os homens de outrora.

Para não sair das histórias em quadrinhos, foi Alan Moore quem alertou [1]: “A maioria das pessoas tem pavor da responsabilidade de cuidar da própria alma”... Grandes poderes, grandes responsabilidades!

Todos temos o maior dos poderes: a vontade. O Homem-Aranha é rápido, ágil, escala paredes e têm um sentido que lhe alerta do perigo – mas foi Peter Parker quem teve a vontade de ser um herói.

Outro grande herói, bem mais antigo, nos disse algo bem parecido com isso: “Sois heróis! Dia virá que farão tudo que tenho feito, e ainda muito mais!”

Em nossa mente, em nossa alma, um lagarto monstruoso está na espreita, esgueirando-se pelo esgoto de nossa metrópole de pensamentos...

Mas não é o Homem-Aranha quem virá nos socorrer – nós somos o herói, nós somos Parker... “O que está esperando aí? Trate de saltar pela janela, para dentro de si mesmo, e caçar o seu lagarto!”

***

[1] Em The Mindscape of Alan Moore.

Crédito da imagem: Divulgação (O Espetacular Homem-Aranha, 2012)

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2 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Gostei muito do texto. A cena do garoto me lembrou muito o teatro antigo. Gosto de Dionísio/Baco como imagem de Tiferet extamente por causa do teatro antigo, onde cada personagem era uma manifestação do deus, uma máscara e veículo diferente para sua encenação cósmica. Mas vejo por um angulo um pouco diferente dos antigos: a máscara não é a face do herói/deus, mas a face que decidimos mostrar ao mundo, como persona; o herói, o deus, está escondido atrás da máscara confeccionada e da máscara de carne que lhe serve de apoio... a criança brinca, sob todas essas cascas criadas. Então, me faço máscara, para que ela encene a si mesma, sem se mostrar... Coroada seja, criança, menino deus! No fim, todos são como avatares seus, em sua brincadeira de "SIMS"... Tudo o que preciso é da alegria de brincar com vc...

8/7/12 11:39  
Blogger raph disse...

Linda esta sua criança coroada... Me remeteu imediatamente a este outro conto, que também fala, de certa forma, das crianças e suas brincadeiras:

Uma nova era

Abs
raph

8/7/12 22:16  

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