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28.11.12

Em nome do sexo

Texto de Alain de Botton em "Como pensar mais sobre sexo” (Ed. Objetiva) – trechos das pgs. 139 a 142. Tradução de Cristina Paixão Lopes. As notas ao final são minhas.

Seria tão melhor se não tivéssemos desejo sexual. Durante a maior parte de nossa vida, ele só representa problemas e angústias. Em nome dele, fazemos coisas revoltantes com pessoas de quem, na verdade, não gostamos, e acabamos nos sentindo nojentos e pecaminosos. As pessoas que desejamos geralmente nos dispensam por nos considerarem feios demais, ou não sermos seu tipo; os bonitinhos quase sempre já têm um namorado ou namorada. A maior parte da vida adulta envolve rejeição, música triste e pornografia ruim. É um milagre quando finalmente alguém se compadece e nos dá uma chance; mas, mesmo quando isso acontece, não muito tempo depois já começamos a nos interessar pelas pernas e cabelos de outras pessoas. Seria tão bom se não houvesse sexo – bom como são os meninos e meninas de 7 anos, cheios de doçura e encantamento com a vida dos saguis e veados [1].

Quando envelhecemos, podemos esperar o horror e a humilhação de não conseguir um bom desempenho, de olhar com luxúria para pulsos e tornozelos de pessoas que ainda eram bebês quando estávamos na universidade, e assistir ao lento colapso de nosso corpo, antes viçoso e elástico. Num dia ruim, a coisa toda parece feia para nos derrotar.

Mas há um outro lado, claro; um lado de êxtase e descoberta. Talvez o melhor momento para percebermos isso seja numa noite clara de verão numa cidade grande, por volta das 18h30, quando o trabalho em boa parte já acabou e as ruas cheiram a diesel, café, fritura, asfalto quente e sexo.

[...] O sexo nos faz sair de casa e de nós mesmos. Em nome dele, abrimos nossos horizontes e nos misturamos imprudentemente com membros aleatórios de nossa espécie. Pessoas que de outro modo se manteriam para si mesmas, que acreditam tacitamente que nada tinham em comum com a classe ordinária da humanidade, entram em bares e discotecas, sobem nervosas as escadas de cortiços, esperam em ambientes desconhecidos, [e] gritam para se fazerem ouvir acima da vibração da música [2].

[...] Em nome do sexo, expandimos nossos interesses e pontos de referência. Para nos ajustarmos aos nossos amantes, ficamos fascinados com a história dos móveis suecos do século XVIII, aprendemos sobre ciclismo de longa distância, descobrimos a porcelana sul-coreana. Por sexo, um carpinteiro robusto e tatuado se sentará em um café com uma delicada aluna de doutorado com franja, e ouvirá parcialmente uma torturante explicação sobre a palavra grega eudaimonia, deixado seus olhos traçarem padrões em sua impecável pele de porcelana, enquanto alguém grelha salsichas ao fundo.

[...] Somente pelo prisma do sexo o passado torna-se apropriadamente inteligível. A estranheza aparente da Roma Antiga e da China da Dinastia Ming não poderia, afinal, ter sido tão grande, apesar das barreiras da língua e da cultura, porque ali também as pessoas conheciam a força das fazes coradas e dos tornozelos bem-torneados. Durante o reinado de Montezuma I, no México, ou de Ptolomeu II, no Egito, deve ter sido mais ou menos igual entrar em alguém e suspirar ante a pressão de seu corpo contra o nosso.

Sem o sexo seríamos perigosamente invulneráveis. Poderíamos achar que não éramos ridículos. Não conheceríamos a rejeição e a humilhação tão de perto. Poderíamos envelhecer respeitavelmente, nos acostumaríamos aos privilégios e acharíamos que compreendíamos o que estava acontecendo. Poderíamos sumir apenas nos números e palavras. É o sexo que cria o estrago necessário nas hierarquias comuns de poder, status, dinheiro e inteligência [3].

O professor se colocará de joelhos e implorará para ser açoitado pela trabalhadora rural sem estudos. O CEO perderá a razão diante da estagiária; já não importará que ele comande alguns bilhões de dólares e que ela alugue um quartinho no porão. Sua única prioridade será o prazer dela; por ela ele aprenderá os nomes de bandas que não conhece, entrará numa loja e comprará um vestido amarelo-limão que não caberá nela; será delicado onde antes era indiferente, reconhecerá suas idiotices e sua humanidade; e quando tudo estiver terminado, ele se sentará em seu carro alemão do lado de fora da imaculada casa de sua família e chorará incontrolavelmente [4].

Talvez até mesmo abraçaremos a dor que o sexo nos causa, pois sem ela não conheceríamos tão bem a arte e a música. Haveria muito menos sentido nos Lieder de Schubert e na Ophelia de Natalie Merchant, nas Cenas de um casamento, de Bergman, e na Lolita de Nabokov. Estaríamos muito menos familiarizados com a agonia – e, portanto, muito mais cruéis e menos prontos a rir de nós mesmos. Quando já se tiver dito tudo de desprezível, mas justo, sobre nossos infernais desejos sexuais, ainda poderemos celebrá-los por não nos permitirem esquecer por mais do que uns poucos dias o que realmente está envolvido no viver uma vida humana encarnada, química e imensamente insana.

***

[1] Conforme Adão e Eva, antes de comerem do fruto proibido, e “descobrirem a nudez”. Mas é nossa sina inevitável: tornarmo-nos adultos.

[2] Segundo Schopenhauer, a força da vida é a grande responsável por muito do que fazemos, inconscientemente, no sentido de tentar propagar nossa prole adiante (sim, ele postulou isso muito antes da psicologia evolutiva). Muito do que os paulistanos fazem na Rua Augusta, assim como muito do que os cariocas fazem na Lapa, pode ser compreendido dessa forma: a maneira com que a vida anseia por si mesma. E, uma vez isto tendo sido compreendido, trazido à consciência, será tanto mais fácil “entrar em acordos” com nosso lado animal, nos tornando cada vez mais humanos, de fato.

[3] Pois o entendimento ao qual o sexo nos catapulta, o amor, este jamais seguiu hierarquias.

[4] A vida está sempre apontando para dentro: “Lá está o que procura!”, ela grita... Mas insistimos em ignorar nosso próprio pensamento e intuição, insistimos em procurar lá fora por fórmulas mágicas de sabedoria instantânea e, mais recentemente, por comprimidos de felicidade diluída.

***

Crédito da imagem: Hans Neleman/Corbis

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1 comentários:

Anonymous xico95 disse...

tambem ja tinha pensado nisto e tenho menos de 18 anos, cncordo q era melhor n haver sexo, assim n tavamos desesperados para arranjar uma rapariga, e termos imensa vontade de fazer sexo

28/11/12 22:16  

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