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27.11.12

Abrindo portas na mente, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

Eu era criança e tinha a visão de uma criança. A mesa a minha frente era enorme, exatamente como seria para uma criança. Eu mesmo, nesta vida, me lembro bem de como a pia do banheiro da minha casa era tão alta que, quando eu tinha de escovar os dentes, precisava subir num banquinho. Foi uma associação direta, visual, com esse tipo de lembrança...

Em torno da grande mesa, via as pernas das pessoas andando para cá e para lá. Parece que havia um bolo, ou coisa parecida, sendo feito pelas serviçais da minha casa. Minha família era nobre, e era um dia tradicional, haveria uma festa à tarde em minha casa. Podia ver que tinha muitos irmãos.

Pois bem, há muitos que desejariam ter sido grandes reis ou nobres em suas vidas passadas, como se isto fosse indicativo de alguma espécie de “superioridade”... Ledo engano, são exatamente estes que, muitas vezes, se enveredaram pelas vidas mais corruptas e distantes do amor, não muito diferente de como ocorre ainda hoje com todas as famílias que possuem muitos bens materiais – muitas coisas com que se preocupar, e se esquecer do amor. Quando o amor, ou melhor, a potencialidade de amar, esta sim, é tudo o que viemos aqui desenvolver, passo a passo, vida após vida.

E esta criança, que havia nascido nalguma região da atual França, nalgum tempo entre 120 a.C. e 105 a.C., pelos meus cálculos [1], podia perceber claramente esta falta de afeto numa grande família nobre. Preferiu migrar em direção à península grega, mesmo contra a recomendação dos pais (isto provavelmente nunca muda), e se estabelecer, como escriba, na grande Atenas, o centro da cultura mundial – ou, pelo menos, o mundo conforme a visão de um jovem europeu da época:

Cheguei lá após as vidas de Sócrates e Platão, daí eu ter ido também por causa da fama da cidade. Primeiramente fui a um templo bem tradicional onde uma mulher, o oráculo, me disse que só eu posso seguir meu próprio caminho, não adiantava tentar achar a um sábio, um guia, ou mestre, pois ninguém poderia trilhar meu próprio caminho além de mim. Depois me vi conseguindo trabalho como escriba, e talvez com a ajuda de uma carta de meu pai, que por certo era um homem influente.

Se depois, ao relembrar tais memórias com a razão da vida atual, fiquei feliz em saber que já era um “sujeito letrado” desde esta época, na prática isto não me ajudou muito, pois me faltava ainda a sabedoria que as letras não ensinam... Quando Atenas foi “finalmente anexada” pelos romanos, não houve guerra nem destruição na cidade em si; mas nas imediações, nas pequenas zonas rurais em seu entorno, houve morte e carnificina, estupros e todo tipo de horror que acompanha a sina dos inocentes que tiveram o azar de estar no caminho das hordas de soldados.

Pois é, ocorre que o tal sujeito letrado tinha um grande amor nos arredores de Atenas – que poderia ter sido salva, quem sabe, se tivesse sido “assumida” e trazida para residir em sua casa, na segurança da cidade:

Depois me vi já mais velho, provavelmente acima dos 30 ou 40, e percebi que havia me apaixonado por uma camponesa... Até o dia em que vi Atenas sendo invadida por soldados, e eram romanos, com certeza. Eles passaram a controlar a cidade, era o período da tutela romana... Mas eu nem me importava, pois ao que parecia eles atacaram antes os campos, e eu sabia que aquela camponesa havia sido morta. Então eu pensei que se eu tivesse assumido meu amor por ela talvez ela estivesse ainda viva, e isso doeu demais. Daí eu comecei a frequentar festas e me relacionar com diversas mulheres. Passei a me autocastigar, e não tomar mais conta da minha própria saúde como deveria. Comecei a beber bastante...

De que me valia haver “nascido nobre” agora? Provavelmente, foi à prepotência adquirida através desta “nobreza” que me impediu de assumir um amor “não tão nobre”. Os preconceitos que temos hoje, o desejo de ser “superior”, é algo tão antigo, tão antigo... E mais antiga ainda é a cerveja, e o vinho, e os inúmeros entorpecentes que nos têm servido como “rotas de fuga da realidade”. Quantas vidas teremos desperdiçado assim?

Me vi morrendo com 50 para 60 anos [2], num quarto com minhas serviçais e meus amigos. Então eu lamentei profundamente por não ter amado nessa vida tanto quando poderia ter amado. Aprendi muitas coisas, mas não pude aprender a ser sábio sobre mim mesmo, e não pude amar como gostaria. Vi duas luzes chegando, os seres que me levariam de volta. Não os conhecia, e isso me deixava muito apreensivo. Mas fiquei mais tranquilo ao saber que iria para um lugar onde poderia tentar aprender tudo aquilo que ficou faltando dessa vida... Então, eu subi...

Somente muitos anos depois, ao ver documentários e estudar sobre as experiências de quase morte (EQMs [3]), é que pude reparar que os relatos de “pontos de vista flutuando no teto, vendo o corpo abaixo, numa cama” eram surpreendentemente parecidos com tais “visões de morte” que tive na regressão. De fato, não existe vida após a morte, mas vida após a vida, por tudo o que estudei e “vivenciei”, provavelmente exista.

Antes de prosseguirmos, gostaria de tecer duas considerações finais acerca desta experiência de morte: (a) Me parece ser muito, muito importante, ter familiares, amigos e conhecidos, no momento da morte. Isto é uma pena, pois em nossa era morremos sozinhos, em hospitais, entubados e ligados a máquinas. Naquela época, e durante muitos séculos, a morte não era assim tão assustadora [4], e as famílias compareciam aos momentos finais do moribundo, que muitas vezes morria em casa, na mesma cama em que dormia todas as noites; e (b) Se tem uma coisa que parece ser intransponível, é o acesso as memórias que ocorreram entre vidas, no chamado plano espiritual. Mesmo nas centenas de casos de crianças que lembram vidas passadas, estudados minuciosamente por Ian Stevensson [5], que eu saiba não se viu um único relato do período entre vidas. Um mistério, um mistério!

» Na continuação, guerras e navegações...

***

[1] Baseados na época em que, segundo a História, Atenas foi invadida pelos romanos (após uma revolta contra o domínio do Império, cerca de 88 a.C.). Eu não me lembro de ter estado atento a estes eventos em específico antes de ter realizado a regressão, mas é possível que tenha estudado isto, por alto, muitos anos antes, nas aulas de história do colégio. Em todo caso, já conhecia Atenas (e Sócrates, Platão, etc.) nesta época, de modo que certamente fiquei em dúvida se tais memórias não poderiam ser produção de uma “imaginação que tentava reconstruir uma Atenas antiga”. Por fim, considerando outras vidas relembradas (estas sim, que nada tinham a ver com qualquer assunto que estivesse lendo ou estudando na época), acabei considerando que mesmo esta vida, em que estive em Atenas (conforme será explicado na sequencia do texto), foi uma “vida real”.

[2] É preciso considerar que a minha tentativa de “conferir uma idade” as fases desta vida foi baseada na razão desta vida atual, moderna, onde uma pessoa que aparenta ter de 50 para 60 anos muitas vezes pode ser até mais velha. Naquela época antiga, pelo contrário, talvez alguém com 40 anos já aparentasse ter mais de 50 (por nossa visão atual).

[3] Sobre o assunto, recomendo a série Quase morte.

[4] Ver o artigo O sexo e a morte.

[5] Ver a série Caso Parmod.

***

Crédito da foto: SOPA RF/SOPA/Corbis

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2 comentários:

Blogger Juliano disse...

Que relato legal :-)
Conheço bem pouco do assunto, tenho curiosidade e li o livro O Passado Cura de Brian Weiss.
Neste livro, e em conversa com um amigo que também fez regressão, percebi que sempre havia algum trauma físico, do tipo, feri alguém na garganta e atualmente sofro de dor de garganta.

Achei diferente você conseguir se lembrar de tantos detalhes e bem legal você conseguir estimar o ano.

Nos relatos que havia lido, as vezes as pessoas conseguem relacionar as pessoas de vidas passadas com pessoas da vida presente, mesmo que se apresentem em físicos totalmente diferentes e com diferentes "papéis".

Obrigado :-)
Abraço.

22/1/14 12:22  
Blogger raph disse...

Oi Juliano,

Valeu, mas acho bastante problemática esta "associação com pessoas da vida presente", pois ainda que haja uma ínfima chance de estarmos certos no julgamento, e que seja o mesmíssimo espírito que encontramos outrora, a personalidade muda muito entre vidas. Se ela já muda em 15 anos, imagina de uma vida, de uma época e uma cultura, para a outra... Imagina comparar o séc. XXI com o XIX ou quaisquer séculos anteriores...

Ao invés de ficarmos preocupados em reencontrar nossa "patota" das vidas passadas, acho mais produtivo simplesmente considerar que nossa "patota", eventualmente, é toda a humanidade :)

Dito isto, não desconsidero que na hora da "morte", daí sim, é muito prazeroso ser recebido por espíritos que conhecemos de outrora, ainda que não lembremos racionalmente de quando ou onde.

Abs!
raph

22/1/14 16:36  

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