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14.11.12

Uma filosofia para o erotismo

Texto de Alain de Botton em "Como pensar mais sobre sexo” (Ed. Objetiva) – trechos das pgs. 29-31 e 41-42. Tradução de Cristina Paixão Lopes. As notas ao final são minhas.

Eles se deitam na cama e acariciam-se ainda mais [1]. Ele leva a mão para o meio das pernas dela e faz uma delicada pressão, percebendo, com intensa alegria, que ela está molhada. Ao mesmo tempo, ela o toca e fica satisfeita de forma equivalente ao sentir a extrema rigidez do pênis.

Se estas duas reações fisiológicas são emocionalmente tão satisfatórias (tão eróticas) é porque sinalizam um tipo de aprovação que está totalmente além da manipulação racional. Ereções e lubrificações simplesmente não podem ser estimuladas somente pela força de vontade e são, portanto, indícios de interesse particularmente verdadeiros e honestos [2]. Em um mundo em que falsos entusiasmos são frequentes, em que é muitas vezes difícil dizer se as pessoas estão nos dizendo a verdade ou se estão sendo delicadas apenas por educação, a vagina molhada e o pênis rígido funcionam como agente inequívocos de sinceridade [3].

[...] Os momentos em que o sexo domina nosso ser racional costumam ser altamente eróticos. Daqui a algumas semanas, nosso casal irá para o litoral passar o fim de semana. No sábado à noite, no hotel, depois de um dia de sol e banhos de mar, eles se deitarão juntos e começarão a conversar e, eventualmente, o assunto sobre fantasias sexuais irá surgir. Ambos admitirão que gostam muito de uniformes. [...] O erotismo em relação a uniformes parece brotar da lacuna entre o controle racional que eles simbolizam e o desejo sexual que pode, momentaneamente, mesmo que na fantasia, ganhar vantagem sobre ele.

Claro que, na maior parte do tempo, quando as pessoas conversam conosco – de médicos e enfermeiras a gerentes de investimento e contadores –, elas não estão molhadas ou com ereções; elas quase não nos notam e com certeza não estão dispostas a interromper um procedimento médico ou atrasar uma teleconferência por nossa causa. Essa indiferença profissional pode ser dolorosa ou humilhante para nós. Daí o poder particular da fantasia de que a vida pode ser virada de cabeça para baixo e suas prioridades normais podem ser revertidas [4].

[...] Em nossos jogos sexuais, podemos reescrever o roteiro: agora a enfermeira deseja tanto fazer amor conosco que se esquecerá totalmente de que está ali para tirar uma amostra de sangue. [...] Ao transarmos apaixonadamente em uma cabine de banheiro de um hospital imaginário ou em um armário, a intimidade, ao menos simbolicamente, prevalece sobre o status e a responsabilidade. Muitos ambientes formais podem ser inesperadamente eróticos em si mesmos.

[...] Transar no fundo de um avião cheio de viajantes executivos é experimentar inverter a hierarquia normal das coisas, é tentar introduzir o desejo em um ambiente onde a fria disciplina geralmente predomina sobre os nossos desejos. A 10 mil metros de altura, a vitória da intimidade parece maior, e nosso prazer aumenta na mesma proporção. Dizemos que o cenário no banheiro do avião é “sexy”, mas o que realmente queremos dizer é que estamos excitados por termos superado um tipo de alienação do contrário opressiva.

O erotismo é, portanto, manifesto de forma mais clara na interseção entre o formal e o íntimo. É como se precisássemos ser lembrados das convenções para apreciar de maneira adequada as maravilhas de se estar desprevenido ou para continuar a ultrapassar os limites de nosso ser vulnerável a fim de sentir com real intensidade as qualidades especiais do local ao qual nos foi permitido acesso. Isso explica o apelo das lembranças da nossa primeira noite com alguém, quando os contrastes eram mais nítidos [5]. Por outro lado, mais tristemente, também explica a falta de erotismo que sentimos numa praia de nudismo ou com um parceiro de longa data que se esquece de esconder sua nudez contra os constantes perigos de nossa predatória ingratidão [6].

[...] Uma das dificuldades do sexo é que – no quadro mais amplo – ele não dura muito tempo. Mesmo em seus extremos, estamos falando de um fenômeno que pode ocupar apenas raramente duas horas, ou a duração aproximada de uma missa católica.

O ânimo, depois disso, tende a ser deprimido. A tristeza pós-coito normalmente se instala no casal. Pode haver um impulso de um ou ambos para dormir, ler o jornal ou fugir. O problema, em geral, não é o sexo em si, mas o contraste entre sua inerente ternura, energia e hedonismo, e os aspectos mais mundanos do resto de nossa vida, o eterno tédio, repressão, dificuldade e frieza. O sexo pode dar um alívio quase insuportavelmente grande aos desafios que enfrentamos [7].

Além disso, com nossa libido gasta, nossos entusiasmos anteriores podem parecer inibidoramente estranhos e desconectados do nosso eu cotidiano e de nossas preocupações triviais. Esforçamo-nos para ser sensíveis, mas um momento antes – é isso mesmo? – estávamos desesperados para chicotear nosso amante. Vivemos contentes num moderno mundo democrático, mas agora mesmo passamos parte da noite dando asas ao nosso desejo de ser um sádico nobre que aprisiona uma donzela numa masmorra medieval.

Nossa cultura os encoraja a reconhecer bem pouco de quem normalmente somos no ato sexual. Parece um processo puramente físico, sem importância psicológica. Mas, como vimos, o que acontece quando se faz amor está ligado a algumas de nossas ambições mais importantes. O ato do sexo acontece pelo roçar de órgãos, mas a excitação não é uma reação fisiológica grosseira; é um êxtase pelo encontro de alguém que pode ser capaz de solucionar alguns de nossos maiores temores e nos ajudar a construir uma vida em comum calcada em valores partilhados [8].

***

[1] Alain está usando como personagens um casal que está fazendo sexo pela primeira vez, neste trecho ele fala especificamente sobre a excitação que antecede o ato sexual em si.

[2] Em suma, não é possível fingir o genuíno interesse sexual, ao menos não sem o auxílio de drogas e lubrificantes. Mesmo os atores pornô mais profissionais necessitam de ajuda para manter o pênis ereto entre interrupções de cena, enquanto as atrizes pornô provavelmente têm de caprichar nos lubrificantes.

[3] Alain parece que pegou emprestada a ironia socrática, e a têm utilizado de forma magistral...

[4] Este é o princípio básico do período de Carnaval, quando a loucura e a fantasia “saem da toca” por breves momentos, e salpicam com um pouco de cor a um mundo excessivamente racional e cinzento. Mas felizes são aqueles que pulam o seu Carnaval todos os dias, em suas mentes livres de tabus e preconceitos descabidos. Mas é claro que existe o Carnaval, e os carnavais; Assim como existe a filosofia de Epicuro, e os que a interpretaram de forma absolutamente equivocada.

[5] Alain postula que as pessoas vivem em espécies de “casulos de intimidade”, e que a primeira noite de sexo com alguém é por si só especial, talvez principalmente, por ser a primeira vez que “penetramos no casulo alheio”. No sexo com intimidade, é preciso dar e receber, se expor para estar apto a explorar – é meio caminho andado para o amor em si.

[6] O amor que ainda não aprendeu a arder por si mesmo, quando depende de um erotismo renovado, esbarra na rotina da vida conjugal. Ou, em outras palavras: a intimidade é uma merda.

[7] Mas não faz milagres, particularmente em quantidade. E, mesmo na qualidade, o sexo nada resolve por si só: é preciso a Vontade para acender de uma vez a pira do próprio Amor. A sociedade moderna, algo esquizofrênica, de um lado “anuncia” por todos os cantos ao sexo como o grande catalisador da felicidade, mas de outro condena a promiscuidade e a infidelidade, para ainda assim escancarar a promiscuidade e infidelidade das celebridades nas revistas onde há mais fotos do que texto – e, para nossa surpresa, vendem como água. Há algo errado, definitivamente...

[8] Neste livro recente, primeiro com o selo de sua School of Life (“Escola da Vida”), uma espécie de “universidade da filosofia do dia a dia”, Alain de Botton me parece estar no auge da forma, mais irônico e original do que nunca – e mais pensador, mais filósofo, mais sábio. Há essa altura, já devem ter percebido que o próprio título do livro é uma provocação, uma provocação muito bem vinda: precisamos realmente pensar mais sobre sexo, mas com a mente, com a alma, não com o pênis ou a vagina, e muito menos com um Manual de Preceitos nas mãos. Chico teria adorado.

***

Crédito da imagem: beyond/Corbis

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