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27.4.26

Lançamento: Por que a guerra? - Einstein & Freud

As Edições Textos para Reflexão publicam sua primeira tradução* do maior cientista do século 20.

Nessa coletânea, trazemos artigos, entrevistas, manifestos e a correspondência histórica entre Albert Einstein e Sigmund Freud, onde ambos analisam a natureza e os motivos da guerra.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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(*) No início de 2026, publicamos este mesmo e-book sob outro título, Einstein Político. Ocorre que o e-book ficou "escondido" na loja da Amazon, de modo que não aparecia no topo de nenhuma pesquisa relacionada (talvez por ter "político" no título?) - então, por conta disso, resolvemos republicá-lo com outro título, inclusive dando maior destaque à participação de Freud. Caso você tenha adquirido o outro e-book, saiba que o conteúdo é basicamente o mesmo, mudando apenas a ordem dos capítulos.


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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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11.6.24

Oceânico, parte 1

Um debate entre amigos

Sigmund Freud, fundador da psicanálise e grande desbravador do inconsciente humano, costumava debater sobre a religião com um amigo, Romain Rolland, escritor e biógrafo de grandes espiritualistas do seu tempo, como Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda. O debate é usado como ponto de partida do célebre O mal-estar na civilização, de Freud, onde o autor cita que Rolland até concorda com as teses de O futuro de uma ilusão [1], mas afirma que a verdadeira religiosidade humana tem muito pouco a ver com isso tudo:

Eu lhe enviei meu pequeno manuscrito, no qual trato a religião como uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com a minha opinião, lamentando, todavia, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Segundo ele, ela seria um sentimento peculiar que jamais o abandonava, sendo que a sua existência fora confirmada por muitas outras pessoas, de modo que ele supunha que ela estaria atuante em milhões de indivíduos.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Mais adiante na obra, Freud explica que para Rolland tal sentimento não era propriamente mero “artigo de fé”, mas um verdadeiro contato com algo ilimitado, sem fronteiras, eterno: um sentimento oceânico. Ora, mas Freud era um entusiasta da ciência, das observações objetivas dos casos clínicos, e confessa no livro que ele mesmo jamais conseguiu tocar esse tal sentimento que, segundo seu amigo, era a verdadeira fonte da religiosidade humana. Daí em diante, sem recorrer à desonestidade intelectual ou a alguma espécie de ceticismo de negação [2], Freud dedica o restante do primeiro capítulo da obra a tentar desvendar de onde viria tal sentimento oceânico.

É então que ele nos traz uma comparação curiosa com a percepção de mundo dos recém-nascidos. Segundo Freud, inicialmente o bebê não consegue diferenciar a si mesmo do restante do mundo a sua volta, mas aos poucos vai aprendendo que há “objetos distintos de si”, como o próprio seio da mãe, que só “aparece” quando chamado. Assim o bebê aprende que, ao chorar de fome, é amamentado por um objeto externo, que não era parte de si mesmo. Com o tempo, vamos aprendendo a nos dissociar do mundo, vamos delimitando nosso ego:

Originalmente o ego contém tudo, e só mais tarde separa, de si mesmo, um mundo exterior. Assim, o nosso presente sentimento do ego não passa de um atrofiado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo – de fato, totalmente abrangente –, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Caso nós pudéssemos supor que esse sentimento primário do ego persistiu, em maior ou menor grau, na vida mental de muitas pessoas, ele poderia ser colocado, como um tipo de contraponto, lado a lado com o sentimento do ego da maturidade, que é mais nitidamente demarcado. Nesse caso, os conteúdos imaginativos a ele pertinentes seriam justamente aqueles da ausência de limites e de um vínculo ao universo como um todo, precisamente os mesmos que meu amigo utiliza para descrever o sentimento “oceânico”.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Segundo a tese de Freud, o tal sentimento oceânico não teria uma fonte mística, não seria relacionado com um suposto contato real com a divindade ou alguma manifestação cósmica, mas antes seria tão somente o “resíduo” de um sentimento de nossa primeira infância, que por alguma razão jamais foi esquecido. Em resumo, é como se o que chamamos de misticismo fosse reduzido a alguma espécie de sentimento de amamentação cósmica, como se ainda bebêssemos algum leite metafísico direto da fonte eterna.

Como espiritualistas, devemos aplaudir Freud por ter ido até onde poderia ir, por ter se esforçado em tentar compreender o incompreensível. É como se algum mergulhador tivesse retornado do oceano em estado de êxtase, maravilhado com seu primeiro mergulho no mar, e tentasse descrever com palavras algo que não pode realmente ser descrito em palavras; e Freud, sem nunca ter mergulhado sequer numa piscina, tentasse explicar tal descrição com sua própria visão de mundo. Mas as palavras são apenas cascas de sentimento, e o misticismo de fato vai muito além disso.

O que quer que pensem de nós, em nada lembrará o que somos.

(Rumi)

Seja como for, também me parece que Freud teria sido mais feliz em sua analogia se considerasse o sentimento de um recém-nascido como algo mais digno de nota, e não somente parte de um mero instinto de sobrevivência. Pois o bebê chora quando tem fome, e é amamentado; mas, quando não tem fome, ele vive em uma espécie de estado de êxtase persistente. Ou, como bem resumiu Satyaprem, um budista brasileiro:

Uma criança é um buda que não sabe que é um buda.
Um buda é uma criança que sabe que é um buda.

Ou seja, a criança saudável e bem cuidada vive em seu próprio estado de iluminação, muito embora tal estado seja lentamente vencido pelo peso do mundo. Nascemos, e não nos entendemos como algo separado do resto, somos parte de tudo. Então, lentamente vamos construindo/delimitando um ego, tão necessário a nossa sobrevivência, mas que também necessariamente nos retira do Céu, e somos expulsos desse paraíso oceânico. Mas um buda, um iluminado, é aquele que, mesmo tendo caído no mundo adulto, consegue de alguma forma alcançar novamente tal estado, ainda que em curtos espaços de tempo (se é que o tempo pode ser medido no Céu).

Nada disso se explica com palavras. Se não entendeu, leia novamente o parágrafo acima, mas com o coração. E, se ainda não sabe ler com o coração, talvez seja porque sofre desse mal do Ocidente, que tenta se relacionar com o sagrado apenas do ponto de vista masculino, como uma espécie de fonte eterna de onde todas as coisas são criadas e cuidadas. Isso é uma visão bem diversa da do Oriente, que em geral considera que o sagrado é todas as coisas, de modo que jamais poderíamos estar longe, muito menos fora do Céu. Se não vemos o sagrado a nossa volta, se quando choramos de angústia não há nenhum seio da Grande Mãe que venha nos amamentar, quiçá tenhamos de retornar ao passado, quando a religião era ditada pelas mulheres, para beber uma vez mais desse leite.


» Na sequência, quando Deus era mulher.

***

[1] Outra obra de Freud, onde ele basicamente considera o monoteísmo do Ocidente como uma grande ilusão cuja função primordial é frear os instintos humanos e manter a sociedade “em ordem”.

[2] O ceticismo de negação afirma que algo não existe somente porque não há evidências objetivas da sua existência. No entanto, é impossível comprovar objetivamente que algo não existe, apenas que existe. Ou, usando as palavras de Carl Sagan, a ausência de evidência não é evidência de ausência.

Bibliografia
O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Freud e Romain Rolland); [ao longo] Bia Octavia/unsplash.

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6.6.24

Lançamento: O mal-estar na civilização

As Edições Textos para Reflexão publicam uma das principais obras do fundador da psicanálise.

Em O mal-estar na civilização vemos Sigmund Freud teorizando como um grande pensador da humanidade, disposto a comentar não apenas questões individuais e clínicas, mas sendo um pensador profundo, capaz de fazer uma análise da cultura e da sociedade. É uma obra importante não apenas para a psicanálise, mas também para a filosofia.

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31.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte final)

« continuando da parte 4


Esta é uma verdade

Ainda antes que os homens fossem homens, espécies ancestrais de hominídeos conheceram o fogo. A primeira visão dele deve ter sido inesquecível, eterna: primeiro, mais um relâmpago no céu; depois, um trovão assustador ressoando pela terra inteira. Mas isso já era conhecido, a novidade é que havia logo ali, bem à frente, um arbusto em chamas. Uma sarça ardente e sagrada, queimando, abençoada com um pedacinho do sol.

Foi pela domesticação do fogo que os seres arcaicos aprenderam a caçar de modo mais eficiente e, principalmente, a cozinhar a carne caçada. Foi isso que possibilitou que as imensas quantidades de energia gastas na ingestão de carne crua pudessem ser canalizadas para o cérebro. O resultado disso foi o surgimento dos homens: nós somos os filhos e as filhas do fogo.

Desde que a chama não se apague, qualquer templo, qualquer concepção divina, qualquer nova religião poderá perdurar para sempre, atemporal como o fogo e o sol e a natureza. Em suas chamas, em incessante mutação, os xamãs de outrora tinham muitas visões, e delas extraíam conselhos para a sobrevivência da tribo. Eles filosofavam pelo fogo, se devotavam a ele de corpo e alma, para que seus irmãos pudessem prosperar na terra.

Até hoje não há artista, sensitivo ou pastor que saiba exatamente de onde vem sua intuição, aquela vontade antes do próprio querer, aquela voz que diz, “Será assim”, e para a qual eles respondem, “Que assim seja”.

Imersos na atemporalidade do fogo, tais guias da humanidade se assemelham aos primeiros contadores de histórias em torno da fogueira da aldeia. É pela palavra que eles encaminham seu rebanho, mas mesmo a palavra antes foi luz em suas almas. Luz vinda de onde? Luz feita do quê? Não importa, a luz foi criada para ser refletida, não explicada.

Somente eles aprenderam, de alguma forma que mal sabem explicar, a roubar o fogo dos deuses, e compartilhá-lo com os seres de baixo. Você pode achar que tal regalia coube somente aos grandes santos, profetas e gurus, mas infelizmente não foi assim: há também muita sombra e escuridão entre os arautos do fogo.

Pense nas atrocidades que já foram cometidas em nome daqueles que afirmavam falar em nome de algum deus, ou mesmo alguma ideologia infalível. Até mesmo os cientistas se tornaram submissos àqueles que dizem representar o seu deus, o deus-da-matéria-que-a-tudo-explica. Não é preciso dar detalhes: você sabe do que estou falando.

Aos que brincam com fogo, coube a maior das responsabilidades, que é evitar que ele consuma a tudo e a todos. Na escala correta, ele pode iluminar o templo do coração de muitas almas; na errada, ele pode destruir vilarejos, bibliotecas, templos alheios, países inteiros.

Somente a água pode equilibrar tal balança. É só com o exercício constante da empatia que aquele que se depara com as verdades universais poderá se abster de dizer, “Esta é a verdade”; e, no lugar, constatar, “Esta é uma verdade”.

Pois se o seu deus é algum senhor de exércitos, que demanda que todos se curvem à sua vontade ou desapareçam da terra, então que os deuses tenham piedade de nós. Mas, se o seu deus é como o sol que aquece a manhã, e jamais deixa de vencer a noite, e que não descansará até que toda a tribo se torne céu, então, meu irmão, minha irmã, bem-vindo, bem-vinda ao caminho.

***

Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Kimson Doan/unsplash.

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30.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 4)

« continuando da parte 3


As palavras mágicas

Imaginem a surpresa dos aldeões iletrados ao simplesmente observarem os escribas, os construtores e os magos em geral: gente que conseguia se comunicar somente pelo ar. Um construtor desconhecido chega num vilarejo e, ao apresentar um pedaço de papiro para outro construtor que nunca viu na vida, logo ambos parecem ser não somente colegas de longa data, como sabem exatamente o que irão construir a seguir, nos mínimos detalhes. Pura magia!

Era, então, a era da civilização humana. Os primórdios de um tempo em que nem todos precisavam sobreviver à duras penas, ao custo do trabalho braçal, do suor do corpo: havia também alguns poucos afortunados que, por conhecerem as palavras mágicas, por saberem lê-las em paredes, letreiros ou papéis, podiam se dar ao luxo de se dedicar somente ao ar, enquanto os analfabetos cuidavam da terra.

Decerto inúmeros sábios caminharam pelo mundo, mas foram somente os poetas, os filósofos e os escritores que foram lembrados pelas demais gerações, pois foram eles que dominaram a tecnologia primordial das brisas, o livro. Com o livro, seja sagrado ou não, eles eternizaram suas lendas, suas ideais mais iluminadas e sombrias, seus relatos mais fantasiosos e verdadeiros, sua visão de mundo, enfim, sua própria história. Pouco se sabe do que pensavam os xamãs ancestrais, os pajés e líderes de tribos selvagens, dentre outras coisas porque a eles jamais foi permitido contar sua própria história às gerações e aos povos futuros.

Sim, a história sempre foi escrita pelos vencedores, mas também havia dois tipos de conquistadores de terras: aqueles que davam pouco valor à cultura alheia, e aqueles que, de alguma forma, entendiam que todos os povos eram um só, que toda a humanidade deveria, mais dia menos dia, se entender, equalizar seus mitos de origem, mesclar seus deuses uns com os outros, ou seja: tornar-se uma só tribo, pois que o mundo é um só. Isso não significa aniquilar culturas, substituindo um deus pelo outro, pelo contrário: isso quer dizer que todos os deuses podem se irmanar, como os primeiros construtores, e para tal basta que sejam capazes de falar a mesma língua.

Porém, mesmo passados os tempos da guerra da fome e da morte, mesmo com o mundo se encaminhando para uma terra de cooperação, e não de matança e disputas inúteis, o ar ainda guardaria muitos perigos invisíveis em suas elucubrações infindáveis.

O homem redescobriria a ciência, e a chamaria de “moderna”, e começaria a declarar coisas sem sentido. Por exemplo: que a cor vermelha não existe, pois é somente um comprimento de onda eletromagnética; ou que dois amantes apaixonados jamais podem realmente se tocar, pois que os átomos se repelem entre si; ou ainda que a noite não é salpicada de deuses luminosos, que todas aquelas luzes são apenas sóis de outros sistemas, irradiando algo da mesma consistência que aquilo que sai de uma lamparina.

Ora, tais burocratas do conhecimento já não eram mais capazes de compreender toda a beleza da poesia romântica, nem todos os matizes das pinturas grandiosas, muito menos o que os antigos sentiam ao contemplar a noitinha, sem ter nenhum aparelho para registrar tamanha beleza que não seus próprios olhos.

Decerto eles mal sabiam que até mesmo os xamãs, os magos e os druidas tinham suas bibliotecas em plena floresta, e que sabiam “ler” cada filamento de uma planta, cada ranhura de uma casca de tronco, cada signo de uma flor. Que os sábios antigos também sabiam se mover pelo ar, sem, no entanto, ter de abandonar a terra. Com seus pés firmes, tal qual raízes, eles elevavam seus pensamentos aos céus, mas nenhuma tempestade era capaz de lhes levar embora.

Com suas facas, espadas e foices, eles sabiam quais galhos cortar, e quais preservar: quais dariam frutos saborosos, e quais estavam acometidos de ervas daninhas. Mas, acima de tudo, eles jamais abandonavam a terra, pois eram incapazes de esquecer a sua origem.

Nós só podemos contemplar o céu porque estamos aqui, bem posicionados, na terceira pedra do sol.

» Na sequência, os mistérios do fogo.


***

Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] CHUTTERSNAP/unsplash.

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27.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 3)

« continuando da parte 2


Profundo, misterioso, infindável, inenarrável

Embora tenhamos perambulado por grande parte da terra, nenhuma grande civilização foi capaz de florescer longe da água. Mares primordiais, abarrotados de peixes, rios de água límpida descida do alto: nenhum Éden poderia existir sem eles. Acima de tudo, o que os antigos caçadores-coletores logo entenderam, é que água é sinônimo de vida.

Assim, tão logo descobriram a agricultura, também perceberam que não bastavam só as sementes e a terra, era preciso a fertilização das águas que caíam do céu. Se a terra era uma deusa de onde nasciam frutos infindáveis, eram os deuses do céu que garantiam a germinação.

Mesmo os grandes deuses montanhosos choravam, constantemente, emocionados com tantos milagres. Foi assim que muitos rios se tornaram sagrados, com suas águas correntes, filhas das grandes rochas; e há quem diga que alguns filósofos ancestrais foram capazes de atravessar as águas de uma deusa! Ora, nem mesmo Heráclito foi capaz de conceber tal maravilha.

E todas as águas correm rumo ao oceano, a grande divindade, e também a mais humilde delas: estando no nível menos elevado, recebe todos os afluentes das terras altas. A única associação que os primeiros nadadores-pensadores poderiam fazer era ao amor. Assim como o mar, o amor é profundo, misterioso, infindável, inenarrável.

Afinal, não há manual para o amor: o seu reino é alienígena, cheio de corais multicolores e correntes invisíveis e nefastas. Só o mergulhador que se arriscou em suas ondas pode saber de toda a maravilha e todo o perigo que há no mundo da água. Nada disso se ensina em cartilhas ou escolinhas de natação, tampouco nas grandes universidades ou nos laboratórios mais modernos.  

Estando além de qualquer capacidade lógica de catalogação, as ondas do amor quebram indistintamente sobre os nadadores iniciantes ou experientes. Mas há também os grandes sábios, em suas pranchas antigas, que aprenderam a observar o movimento das marés, e surfam acima de todas as mágoas e desentendimentos, jamais se apegando a esta ou aquela praia, pois sabem muito bem que ainda hão de atravessar muitas e muitas ilhas.

O grande perigo é crer que não precisaremos jamais aprender a nadar, que poderemos subir no pico mais elevado e viver em nossa caverna pequenina, tal qual eremitas, renunciantes do amor. É então que os deuses são forçados a enviar um verdadeiro dilúvio, para que todos sejam batizados, sem exceção.

Um dia, todos seremos como Noé, a pilotar nossa arca em meio à tempestade. E a única forma de se guiar pelas águas turbulentas é compreender que elas seguem sempre os desígnios do ar. Há ventos que vêm para causar naufrágios, é verdade, mas até mesmo esses podem ser bem aproveitados, se formos capazes de construir um mastro, e uma imensa vela, em nossa arca. Daí bastará usar a própria força do ar para nos levar para longe dos mares tumultuosos.

O amor é poderoso, inefável, capaz de nos carregar como náufragos para longe de toda e qualquer razão. Mas o amor tem muitos nomes, e é somente pela mesma razão que conseguiremos saber mais sobre eles. O amor é a lei dos mares, mas os mares ainda obedecem à vontade das brisas e dos vendavais. Não há grande navegador que tenha alcançado o Novo Mundo sem tal conhecimento.

Foi ao mar que os deuses deram o perigo e o abismo, mas também foi nele que espelharam o céu.

» Na sequência, as elucubrações do ar.


***

Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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26.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 2)

« continuando da parte 1


Tudo estava cheio de deuses

Para os antigos caçadores-coletores, a terra significava sobrevivência. Seja em que parte do mundo caminhassem, era dela que extraíam os frutos, plantas e raízes. Afora isso, havia os demais animais: alguns, presas fugidias; outros, feras selvagens, que tornavam caça os caçadores. Era a guerra da fome e da morte, onde tudo o que importava era atravessar mais um dia vivo; e, se possível, bem alimentado.

Se existia algum espaço para se pensar na vida e nos deuses, era na noite, onde dançavam e entoavam seus rituais em torno da fogueira do xamã da tribo, o único que tinha o privilégio de poder se dedicar inteiramente à vida, e não à sobrevivência. Naquele tempo, a vida era mágica, e tudo o que existia fazia parte do sopro divino. Não havia grandes lamentações acerca do passado, que era apenas ontem, nem angústia pelo futuro, que ainda não chegou a existir. Apenas o presente era concreto. O pão nosso de cada dia era de fato sagrado, de fato celebrado, pois não se sabia do amanhã.

Então, algum cientista pré-histórico percebeu que onde a tribo jogava as sementes dos frutos consumidos, por vezes surgiam novas árvores e novos frutos. Um grande espanto se sucedeu ante tamanho milagre tecnológico: para aquelas plantas já não havia aniquilação, e sim morte e renascimento. Elas poderiam crescer em qualquer solo fértil para sempre, e abastecer os antigos nômades de dias futuros, de um amanhã garantido. Era o começo da vida e o fim da sobrevivência.

Os deuses já não habitavam somente as estrelas distantes da noite, agora eles estavam aqui, na própria terra. As plantações eram sagradas, eram oferendas dos deuses da terra para os andarilhos cansados de perambular por vales e desfiladeiros. Tudo, em toda a volta de onde se assentaram para plantar, estava cheio de deuses. Não era mais preciso batalhar por mais um dia de comida: agora, era possível relaxar, e pensar na existência em si. Até hoje, os artistas, os poetas e os magos são devedores deste dia.

Este poderia ter sido o Éden prometido, se os homens não tivessem se cansado da contemplação dos deuses, se não tivessem chegado a acreditar que uma pedra era somente uma coisa sólida qualquer. Em sua ganância, eles ansiavam por pedras mais bonitas, e silos cada vez mais abarrotados de grãos. Eles descobriram que havia tribos que tinham mais coisas, mais riquezas, mais terras, e outras menos. Eles passaram a acreditar, enfim, que algum homem poderia ser dono dessas coisas.

Por isso, jamais houve paz, e sim mais e mais guerra. Não o embate sagrado do homem contra si mesmo, mas a estupidez das batalhas externas, pela conquista de mais e mais coisas que não significavam nada no fim das contas: eram apenas coisas. O homem já não vivia mais junto aos deuses, seu entusiasmo havia sumido, lentamente, de tal forma que ele já não se lembrava mais o que era estar entusiasmado, preenchido de sentido, cheio de espírito.

Mas não foram todos que padeceram da doença de crer que a terra era tudo o que há. Alguns conservaram a chama acesa, carregada cuidadosamente em tochas acesas nas fogueiras dos primeiros xamãs. Com o fogo, eles eram capazes de renovar inteiramente a natureza dos homens, em cerimônias de morte e renascimento, que ocorriam no refúgio das cavernas, escondidas da ignorância do mundo.

Rebatizados no ventre da terra, tais homens se tornavam irmãos pelo resto da existência. Foram tais guias que mantiveram a família dos deuses na memória dos homens, de modo que não pudessem se esquecer definitivamente de sua origem. Foram eles que não nos deixaram esquecer do caminho.

Era preciso o fogo para tornar a terra sagrada outra vez. E todos que aprenderam tais segredos se tornaram irmãos e irmãs: não somente amigos de deuses, mas da família, da linhagem divina.

Por isso todo xamã ancestral que é capaz de andar descalço pela terra, e sentir toda a imensidão da rocha, sem se desconectar dos deuses da noite, do sagrado que há acima, e abaixo, e por todos os lados, bate no coração e diz:

“Eu também sou da raça dos deuses.”


» Na sequência, as marés da água.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Hikersbay Hikersbay/unsplash

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24.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 1)

Um convite para a caminhada

Tales de Mileto, possivelmente o primeiro grande filósofo do Ocidente, considerava a água a substância primordial, de onde se originaram todas as coisas. Já um de seus discípulos, Anaxímenes, afirmou que era o ar o princípio de todas as coisas. Parmênides de Eleia, nascido quando Tales já era idoso, defendia que a tal substância é imutável, e que suas transformações visíveis, tudo o que vemos no mundo a nossa volta, era mera ilusão. Heráclito de Éfeso, que viveu na mesma época, discordava totalmente, e dizia que “não podemos atravessar duas vezes o mesmo rio”, pois que tudo na natureza está em constante mudança.

Para um materialista atual, é muito difícil compreender o que todos esses pensadores da nossa antiguidade estavam realmente discutindo. Para a ciência moderna, os elementos são formados pelos diferentes tipos de átomos que formam as moléculas. A água, por exemplo, é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Nos primeiros minutos após o big bang, o evento cósmico que originou o universo conhecido, havia de fato uma abundância de hidrogênio (e hélio), mas o oxigênio só surgiu centenas de milhões de anos depois. A terra e o ar podem ser formados por uma infinidade de materiais sólidos e gasosos, e o fogo sequer pode ser considerado “matéria”, uma vez que é o resultado de reações químicas.

Falta à visão moderna, obviamente, a concepção metafórica do mundo. Ora, é claro que Tales não supunha que o mundo inteiro era uma espécie de ilha surgida, de alguma forma estranha, de um oceano primordial infinito. A “água” a que o pensador antigo se referia não era somente a água que encontramos nos rios, ou que usamos para beber e tomar banho, mas uma ideia, um conceito. Para Tales, fazia mais sentido que todas as coisas tivessem se formado a partir de uma substância tão plástica quanto àquela que encontramos em um jarro de cerâmica – e que, se despejada, por exemplo, numa caneca de latão, assumirá imediatamente a nova forma.

O que os antigos compreendiam pelos quatro elementos – terra, fogo, água e ar – era essencialmente um conjunto de metáforas, usualmente associadas a ideias grandiosas, como substâncias primordiais ou deuses, mas igualmente a tipos psicológicos e qualidades e características puramente humanas. Nesse sentido, tais elementos ainda estão presentes no nosso dia a dia, em nossa linguagem e simbologia, quiçá com outros nomes, sem que percebamos.

Minha intenção aqui é, portanto, investigar a origem de tais associações simbólicas. Se puderem me acompanhar nessa viagem de pura imaginação, ela nos levará aos primórdios da civilização humana – da escrita, da religião, da filosofia etc. –, não importando realmente a região do planeta ou etnia específica. Dito isso, vale lembrar que inúmeros povos antigos chegaram a sistemas parecidos de quatro ou cinco elementos, por vezes se valendo de tipos diversos, como madeira, metal, vácuo ou éter. Minha intenção não é dar uma explicação definitiva para tudo isso, o que seria impossível, mas tão somente refletir sobre a terra, o fogo, a água e o ar.

Nossa viagem percorrerá cavernas iniciáticas, onde o fogo engravida a terra; mares calmos e raivosos, governados pelos espíritos do vento; pensamentos elevados, que necessitam de âncoras densas para permaneceram no mundo; e, finalmente, aos mistérios das chamas que caíram do céu.

Nada disso será acadêmico, no sentido de tentar explicar metáforas antigas, mas talvez uma experiência literária interessante. Se lhe interessa, vamos caminhar juntos por aí.


» Na sequência, a iniciação da terra.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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17.6.22

Nossa vida nas cartas (parte final)

« continuando da parte 2

Nessa altura do campeonato, talvez já tenha ficado claro que o tarot pode servir para muitas coisas. Entretanto, de um ponto de vista estritamente prático, mundano, se algo serve para alguma coisa, é preciso saber qual é a sua função, real utilidade ou, para resumir em uma pergunta que já ouvi muitas vezes: “Afinal, o tarot funciona?”

Essa é uma boa pergunta. Ocorre que, em se tratando do tarot, ela também pode ter uma miríade infindável de respostas. Antes de prosseguirmos, no entanto, é preciso deixar claro que para aquele que não acredita no tarot, que não o conhece nem se sente minimamente inclinado a conhecer, é bastante óbvio que o tarot não funciona, e jamais irá funcionar.

Até mesmo os mais céticos dentre nós podem encontrar uma utilidade para o tarot: a apreciação artística. Se o tarot é encarado enquanto obra de arte, ele é tão funcional quanto uma pintura, uma escultura ou uma sessão de teatro. No que essas coisas podem funcionar, afinal, senão no sentido de tocar as teclas de nossa alma, de nos encaminhar a estados de consciência mais poéticos, mais espirituais, mais próximos das belezas da arte do que das mazelas da rotina mundana? E, se é assim para tais expressões artísticas, o mesmo se dá com o tarot. Nesse sentido, um cético pode colecionar baralhos de tarot pela mesma razão que coleciona graphic novels de super-heróis, por exemplo. E, se prefere ilustrações modernas às representações medievais de baralhos como o de Marselha, tanto melhor: de fato, a grande maioria dos baralhos atuais foi concebida há poucas décadas, e alguns deles são primorosamente ilustrados.

Então entra a questão da simbologia. Agora sabemos que as cartas espelham arquétipos, e que eles perduram, de alguma forma, por centenas ou milhares de representações diversas. Mas, isso não teria um limite? Um artista contemporâneo não precisaria saber minimamente sobre o que o tarot quer dizer para conceber um baralho capaz de reter ao menos uma parte da luz arquetípica? Ora, mas a beleza da coisa é que o tarot regula a si mesmo: baralhos que tentem falsificar ou tratar de forma demasiadamente superficial os Arcanos Maiores, ou mesmo os Menores, serão esquecidos bem mais facilmente do que outros.

Isso não quer dizer que o tarot não possa se atualizar. Na realidade, ele deve. Se nossa vida está nas cartas, elas devem espelhar de alguma forma o nosso tempo, e não se manterem fossilizadas no medievo. Peguemos a figura do Louco, por exemplo. Nem sempre ele teve esse nome. No Tarot de Marselha, o seu nome era Le Mat, o que provavelmente foi um erro de tradução ao francês do italiano Matto, que significa Louco (este baralho na verdade surgiu no norte da Itália). No entanto, até mesmo isso repercutiu na história: mat vem do árabe, e está relacionado à “morte”, ou ao “xeque-mate” no jogo de xadrez, quando o rei adversário está encurralado, e perdeu a partida. Ocorre que mesmo esse “final de partida” continua tendo tudo a ver com a ideia arquetípica do Louco: o aventureiro ou iniciado que se encontra no início de uma nova jornada. Isto é, perde-se ou ganha-se uma partida e inicia-se outra [1].

Pictoricamente, o Louco em Marselha é uma espécie de andarilho maltrapilho, que traz seus pertences embrulhados num pequeno saco atado na ponta de um bastão, e tem um cachorro rasgando parte de sua calça. Isso está mais próximo do “xeque-mate” da pobreza do medievo do que de outras representações mais modernas. No Tarot de Waite-Smith, por exemplo, criado mais ou menos na época do sonho de Jung, o Louco se parece com um viajante nobre, com roupas confortáveis e uma espécie de bolsa de couro no lugar do saco, enquanto atrás dele um belo cão branco saltita sem no entanto tentar mordê-lo. Ainda que o novo Louco continue se vestindo com roupas relativamente antigas para sua época, ele é claramente um filho dos ideais humanistas e espiritualistas do início do século XX, e já abandonou há tempos a pobreza de alguns dogmas dos séculos mais antigos.

Todavia, houve a introdução de um elemento novo: o abismo. O Louco se encaminha para ele, e o cão amigo talvez tente alertá-lo do perigo da jornada à frente, do caminho espiritual. Mas ele segue com fé e esperança de que, de alguma forma, “saltará” sobre o abismo. Um cético dos segredos do tarot certamente estaria mais seguro retornando com seu cão para casa. Em nosso Tarot da Reflexão, eu e meu amigo Roe Mesquita representamos um Louco místico, já iniciado, que simplesmente voa para fora da carta e arrasta seu cão pela coleira. Ele já passou por aquela colina muitas vezes, e sabe que ainda serão infindáveis jornadas no caminho. Nosso Louco é fruto de uma esperança renovada, quiçá ingênua, na espiritualidade de nosso próprio século.

Quem estará “mais certo”? Nós? Arthur Edward Waite e Pamela Smith? Ou os criadores do Tarot de Marselha, sejam eles quem forem? Todos, e ninguém. Tudo vai depender do que cada baralho é capaz de despertar na alma daquele que se utiliza dele. Seja como obra de arte. Seja como simbologia. Seja como oráculo.

E aqui retornamos ao início de tudo, a quando eu achava que o tarot era “somente” um oráculo divinatório. Ora, ele é decerto muito mais do que isso, como temos visto até aqui, mas isso não significa que ele deixe de ser oráculo. E, em sendo um oráculo, como ele pode funcionar? Aliás, o tarot funciona?

Meu amigo Marcelo Del Debbio descreve uma espécie de “exercício” para quem quer se conectar com o tarot: todos os dias pela manhã, retirar uma carta do baralho e colocá-la sobre uma mesa com a face voltada para baixo. Depois, ao fim do dia, ao chegar em casa do trabalho ou antes de ir dormir, desvirar a carta e refletir sobre o que o seu Arcano tem a ver com o que foi vivido naquele dia. A ideia é que, com o tempo, você se torne tão afinado com o tarot que já vai saber qual é a carta antes mesmo de desvirá-la. Eventualmente, você também poderá desvirar a carta logo cedo e prever como será o seu dia, de tão adaptado que estará ao seu tarot.

O cético poderá ficar boquiaberto ao perceber que isso, de alguma forma estranha, funciona. Afinal, o que diabos seria se conectar, se afinar ou se adaptar ao tarot? Ora, no espiritualismo em geral há vários nomes para isso, mas no Brasil nos acostumamos a usar o termo mediunidade.

Há inúmeras teorias acerca de como e porque a mediunidade pode funcionar, mas podemos resumir em, talvez, três grandes hipóteses:

A primeira postula que o nosso inconsciente é algo muito mais vasto que nossa experiência consciente, e assim ele guarda consigo uma imensidão de informações que, no dia a dia, são simplesmente filtradas de nossa consciência, do contrário a vida seria impossível. Pense na quantidade de informação que uma pessoa moderna, moradora de alguma metrópole e conectada as redes sociais, acessa de alguma forma todo santo dia. Decerto muita coisa é varrida para debaixo do tapete da consciência, rumo ao inconsciente. A mediunidade poderia ser uma forma de acessar pedacinhos específicos desse inconsciente. Isso explicaria como podemos nos autoconhecer melhor através do tarot, mas se formos considerar que o tarot também pode trazer respostas acerca da vida de outras pessoas, isso só poderia ser viável através do acesso ao inconsciente coletivo proposto por Jung.

A segunda hipótese diz respeito à ideia de um anjo da guarda, Eu Superior ou Sagrado Anjo Guardião, ou ainda, a entidades espirituais em geral, sejam elas espíritos desencarnados ou deuses. Através da mediunidade, todos poderíamos nos conectar e conversar de alguma forma com tais seres do chamado mundo astral, e o tarot nada mais seria do que uma dessas interfaces – assim como, por exemplo, o jogo de búzios no candomblé ou a psicografia no espiritismo. Tais entidades não necessariamente seriam externas: há teorias que afirmam que o Sagrado Anjo Guardião, por exemplo, é nós mesmos em algum futuro distante, onde saberíamos tudo o que se passou nos milhares de anos de caminho espiritual. Segundo essa teoria, nós usaríamos o tarot para fazer perguntas a nós mesmos no futuro. Dá um baita filme de ficção científica!

Finalmente, a terceira hipótese, de longe a mais metafísica, parte da ideia que veio do hermetismo e afirma basicamente que “o Todo é mente”. Simplificando bastante, isso quer dizer que quem ou o que criou o espaço-tempo está, sempre esteve e sempre estará presente nele. Ou seja, não haveria nada no cosmos fora ou mesmo longe deste Todo, que é tudo o que existe. E, como fomos criados “a sua imagem e semelhança” ou, para citar outro conceito hermético, “o que está em cima é como o que está embaixo”, este Todo é tão mente quanto a gente: nós fazemos parte dele, somos como personagens na sua história. Nesse sentido, enquanto o inconsciente coletivo de Jung seria, para nós, inconsciente, para o Todo ele seria pura consciência – consciência universal. E, sim, isso tudo quer dizer que nós usaríamos o tarot para fazer perguntas diretamente a Deus, ou como queira chamá-Lo.

Seja de que ponto de vista você observe o tarot, fato é que há que se ter certa humildade diante dele, afinal ninguém, absolutamente ninguém, pode dizer que o compreendeu inteiramente. Nossa vida está e sempre estará nas cartas, mas as cartas são lâminas espelhadas, não estão vivas: refletem a vida. Há quem use tais lâminas para objetivos mesquinhos e egóicos, e se cortam nelas, e sangram sem necessidade. Mas há quem compreenda que elas podem refletir a luz do Alto, e assim jogar luz na escuridão da inconsciência, e tornar nosso caminho como um todo mais prazeroso, mais iluminado e mais colorido. A luz foi criada para ser refletida, e ela tem muitas cores!

***

[1] Alguns podem dizer que isso teria mais a ver com o próprio Arcano da Morte. Ora, mas é preciso lembrar que o Louco se encontra espalhado por todos os outros Arcanos. Ou foi só um erro de tradução mesmo...

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens (com links da maioria dos tarots na Amazon): [topo] Jack Sephiroth/Heaven & Earth Tarot (a imagem traz o Louco, e este tarot é obviamente uma releitura do Tarot de Waite-Smith); [ao longo] Anônimo e Pamela Smith (a imagem traz o Louco no Tarot de Marselha e no Tarot de Waite-Smith); Roe Mesquita (a imagem traz o Louco no Tarot da Reflexão, do qual sou cocriador, mas não ilustrador); Jen Theodore/unsplash (na imagem, o Wild Unknown Tarot, de Kim Krans).

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16.6.22

Nossa vida nas cartas (parte 2)

« continuando da parte 1

No início do século XX um homem teve um sonho muito curioso, que de certa forma mudou a história da psicologia. Eis o seu relato em primeira mão [1]:

“Sonhei que estava em minha casa, aparentemente no primeiro andar, numa sala de estar muito confortável e agradável, mobiliada no estilo do século XVIII. Estava admirado por nunca ter estado naquela saleta antes, e começava a me perguntar como seria o andar térreo. Desci e cheguei a um cômodo bastante escuro, de paredes almofadadas e uma mobília do século XVI, ou talvez mais antiga ainda. Minha surpresa e curiosidade aumentaram. Queria conhecer toda a disposição da casa. Desci então ao porão, onde encontrei uma porta que abria para uma lance de degraus de pedra, levando a uma grande sala abobadada. O piso era de enormes lajes de pedra e as paredes pareciam muito antigas. Examinei a argamassa e verifiquei que estava misturada a pedaços de tijolos. Obviamente eram paredes de origem romana. Sentia-me cada vez mais agitado. Num canto vi uma laje com uma argola de ferro. Puxei a argola e encontrei outro lance de degraus estreitos que conduziam a uma gruta, uma espécie de sepultura pré-histórica, onde se encontravam duas caveiras, alguns ossos e cacos de cerâmica. Nesse momento acordei.”

Este homem era Carl Gustav Jung, e foi ele próprio quem decifrou seu sonho, associando-o ao desenrolar da própria vida ou, mais especificamente, ao desenvolvimento de sua mente, desde a infância. Jung cresceu numa casa que tinha duzentos anos, filho de pais protestantes (o pai era reverendo luterano), tendo estudado as filosofias de Kant e Schopenhauer na juventude. O grande acontecimento da época era o trabalho de Charles Darwin. Até ali, o jovem ainda vivia orientado pelos conceitos medievais de seus pais, para quem o mundo humano ainda era conduzido primordialmente pela providência divina. Logo aquela visão tornou-se para ele antiquada, e sua fé cristã perdeu preponderância ao se ver defrontada com as religiões orientais e a filosofia grega. Depois, eventualmente se interessou por paleontologia e, enquanto foi assistente em um instituto de pesquisas na área, ficou fascinado com fósseis de hominídeos ancestrais. Tudo isso estava descrito de alguma forma em seu sonho, e Jung viu tudo isso analisando-o desperto, mas optou por não falar sobre sua autoanálise a Sigmund Freud, de quem ainda era grande colaborador na época:

“Logo verifiquei que Freud procurava algum “desejo inconfessável” no meu sonho. Por isso sugeri que as caveiras poderiam referir-se a alguns membros da minha família cuja morte eu desejasse, por um motivo qualquer. [...] Mas não se tratava do sonho de Freud, e sim do meu. Num lampejo intuitivo compreendi o que meu sonho queria me dizer. Tal conflito ilustra um ponto vital na análise dos sonhos: é menos uma técnica que se pode aprender e aplicar de acordo com certas regras do que uma troca dialética entre o analista e o sonhador. [...] Assim, eu desejava que o processo de cura nascesse da própria necessidade do paciente analisado, e não de minhas sugestões enquanto analista, que teriam apenas um efeito passageiro.”

Pouco depois de chegar a tais conclusões, Jung rompeu sua célebre parceria com Freud, e os dois grandes expoentes da psicologia do século XX passaram a seguir caminhos consideravelmente diversos na exploração do inconsciente humano. Eventualmente, Jung chegou a uma ideia que até hoje é polêmica: a de que o inconsciente humano poderia ser coletivo. Que, assim como uma cidade grande cresce, ao longo dos séculos, sobre as ruínas de bairros antigos, e assim como o próprio cérebro humano segue uma evolução parecida, com áreas associadas aos instintos animais sendo incrementadas com outras bem mais sofisticadas, relacionadas a raciocínios complexos, o mesmo se deu com a própria cultura humana, seus símbolos, deuses, heróis etc.

Para elaborar sua tese, Jung foi profundamente influenciado pelas ideias de Darwin. Ele dizia que nossa mente jamais poderia ser um produto sem história, ao contrário de nosso corpo, cuja história evolutiva pode ser traçada até pequenos mamíferos roedores que viveram há dezenas de milhões de anos. E, se houve um longo desenvolvimento do corpo humano, se por milhões de anos fomos mais animais que homens, o mesmo se deu com a mente. Para Jung, essa parte infinitamente antiga da mente é na realidade a base sobre a qual todo o resto foi erguido. Assim, em toda mente humana há “resíduos arcaicos”, “imagens primordiais” ou, para usar um termo que ficou para a história: arquétipos.

Mas tais arquétipos, ao contrário do que muitos são levados a pensar, não têm nada que ver com imagens específicas ou temas mitológicos bem definidos. Isso é o que se dá em cada geração ou grupo de gerações humanas, nesta ou naquela cultura. O arquétipo é algo anterior: é uma tendência a formar essas mesmas representações de um motivo (que podem ter inúmeras variações de detalhes) sem perder a sua essência ou configuração original.  O arquétipo é muito mais uma tendência instintiva do que algo que possa ser definido racionalmente, é como o impulso das aves para fazer seu ninho ou o das formigas para se organizarem em colônias: se nos pedem para definir racionalmente porque damos tanto valor a grandes heróis ou a uma ideia de Grande Mãe, não sabemos explicar bem o porquê, da mesma forma que uma abelha não saberia explicar porque se dedica tanto a produção de mel.

O próprio Jung nos traz um belo exemplo de como foi um arquétipo que deu origem à figura do Cristo:

“A ideia geral de um Cristo Redentor pertence ao tema universal e pré-cristão do herói e salvador que, apesar de ter sido devorado por um monstro, reaparece de modo milagroso, vencendo seja qual for o animal que o engoliu. Onde e quando essa imagem surgiu, ninguém sabe. E tampouco sabemos de que maneira conduzir tal investigação. A única certeza aparente é que essa imagem parece ter sido conhecida tradicionalmente em cada geração, que por sua vez a recebeu de gerações precedentes. Assim, podemos supor que a sua “origem” vem de um período em que o homem ainda não sabia que possuía o mito do herói; numa época em que nem mesmo refletia, de maneira consciente, sobre aquilo que fazia. A figura do herói é um arquétipo – existe desde tempos imemoriais.”

Finalmente retornando ao tarot, creio que já sabem onde quero chegar: assim como as figuras mitológicas em suas variadas representações, os Arcanos Maiores do tarot foram sendo construídos com o tempo, muito embora ninguém saiba ao certo por quem, e com que intenção. É que se trata essencialmente de uma criação coletiva, uma criação do inconsciente humano: nossa vida está nas cartas porque elas também espelham arquétipos. É nesse sentido que o tarot pode ser “declarado egípcio”, não porque tenha sido criado por um sacerdote específico há milhares de anos, mas porque, assim como nossos mitos mais antigos, o tarot diz respeito a arquétipos que se recusaram a desvanecer no tempo.

Um analista meticuloso da simbologia dos 22 Arcanos Maiores que compõem o tarot atual, baseados em baralhos clássicos como o Tarot de Marselha, dirá que eles surgiram da Europa cristã de cerca de 500 anos atrás, com representações do poder (o Papa, o Imperador, a Papisa, a Imperatriz), de três das virtudes cardeais (a Força, a Temperança, a Justiça), de alegorias religiosas (a Morte, o Diabo, a Casa de Deus – mais tarde, a Torre –, o Juízo Final ou Julgamento), de símbolos da cultura popular da época (a Roda da Fortuna, o Amor ou Enamorados, o Carro, o Louco, Bobo da Corte ou Andarilho) e, enfim, os planetas e os astros (a Estrela, a Lua, o Sol, o Mundo). No entanto, também sabemos que já existiram baralhos com número diferente de Arcanos, em ordenações diversas e com incontáveis representações pictóricas – afinal, até hoje a essência de um baralho de tarot original consiste em trazer novas imagens, e não as mesmas de séculos atrás, e nos primórdios não foi diferente. Ora, até mesmo o próprio Marselha teve versões bem específicas para regiões protestantes da Europa, onde o Papa e a Papisa foram substituídos pelos deuses Júpiter e Juno.

O que isso tudo quer dizer é que, à luz dos arquétipos e do conceito de inconsciente coletivo, pouco importa quem criou o primeiro tarot, quantos eram os seus Arcanos Maiores e quais eram exatamente suas imagens e simbologia: o tarot não se tornou tão difundido por um pretenso mistério acerca de suas origens, o tarot importa, e continuará importando por séculos e séculos, justamente por não sabermos ao certo de onde veio, e porquê. Essa resposta cabe a cada geração humana.

» Na sequência, por que o tarot não funciona.

***

[1] Os parágrafos com trechos entre aspas foram retirados do livro de Jung na Bibliografia.

Bibliografia
Para esta série nos valemos de conhecimentos e trechos obtidos nos livros História do Tarô (Isabelle Nadolny; tradução Luciana Soares da Silva; Editora Pensamento), Tarot Hermético (Marcelo Del Debbio e Priscilla Martinelli; Daemon Editora) e O Homem e seus Símbolos (Carl G. Jung e colaboradores; tradução Maria Lúcia Pinho; Harper Collins), no portal Clube do Tarô (por Constantino K. Riemma e outros colaboradores) e nos cursos Os Mistérios do Tarot – Arcanos Maiores e Menores (Marcelo Del Debbio) e Tarot: Os Mitos Modernos e a Cultura Pop (Rodrigo Grola e Marcos Keller).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Carl Jung); [ao longo] Marcos Paulo Prado/unsplash (Cristo Redentor, no Rio de Janeiro); Manik Roy/unsplash (Tarot Mitológico).

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8.10.20

Papo de Quinta (no Instagram)

Recentemente meu amigo Igor Teo (psicólogo, filósofo, escritor e taoista) me convidou para participar de uma Live ao vivo no seu canal no Instagram. A princípio a gente mal sabia do que iria se tratar nosso bate-papo, não tínhamos sequer um título para a coisa. Mas no finalizinho da primeira Live já surgiu o nome: Papo de Quinta. No Papo de Quinta a gente fala sobre filosofia, espiritualidade, ciência, política, redes sociais, escrita e mercado editorial, dentre outros assuntos.

Assim, para quem tiver interesse em acompanhar, recomendo que sigam nossos canais no Instagram (@rarrais e @cuide.si) para ficarem sabendo com antecedência do horário da próxima Live. Hoje não teve, mas quinta que vem deve ter... Abaixo, trago os dois primeiros episódios: