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11.12.12

Questões infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava "lugares baixos"; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias... Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes... O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste... Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade... Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento... Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma... Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

***

[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.

[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”...

[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!

[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.

[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante's Inferno)

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12 comentários:

Blogger Rato Saltador disse...

Se não me engano, em uma das versões do mito de Tristão e Isolda, o casal compromete-se um com o outro apesar da posterior pena da danação eterna. Penso que isso mostra que, mesmo na idade média, percebia-se o absurdo da doutrina do inferno ao ponto de que na história o personagem escolhe viver a beleza do amor puro que tem nas mãos a livrar a sua alma do fogo eterno.

Quanto ao questionamento sobre o que seria das almas anteriores ao cristianismo caso o inferno realmente exista, o mormonismo tem uma solução interessante: o batismo vicário. Sendo uma religião relativamente nova, eles admitem o batismo de pessoas que JÁ morreram e estão a espera do juizo final, visto que lhes faltou a oportunidade de conhecer a doutrina "verdadeira". Não obstante, considero a saída tão forçada quanto o "apagamento da memória dos salvos"...

11/12/12 18:21  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Da hora, raph.

Então, kra, eu não manjo de mitologia, mas através de uma ou outra leitura tenho visto que os deuses representam aspectos da realidade e da nossa própria consciência e talz, relacionados tbm com as sefirot da cabala e tal. Mas vc saberia me dizer o que significam os titãs?? Esta seria uma pergunta mais apropriada ao MDD, mas sabemos que ele dificilmente responde.

Sobre o cristianismo escroto:


Esquimó: “Se eu não soubesse nada sobre Jesus e pecado, eu iria para o inferno?
Missionário: “Não, não se você não soubesse.
Esquimó: “Então por que você me disse? ”



kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Acho que essa é a melhor que eu vi até hoje.

11/12/12 20:08  
Blogger raph disse...

@Saltador:
Apesar de ser bastante "forçada", a solução dos mórmons é bem mais humana do que a da "doutrina da salvação exclusiva pela fé no Cristo".

@Franco:
Heh boa piada... Sobre os titãs, vou ter de pensar melhor e pesquisar um pouco aqui. Volto já :)

11/12/12 20:42  
Blogger raph disse...

Acho que a guerra entre deuses e titãs, na mitologia grega, está simbolicamente muito próxima da guerra dos vanir e aesir, da mitologia nórdica.

Ou seja, o panteão de deuses de um povo nômade que invade e conquista um povo agrário, usualmente mais pacífico, acaba mitologicamente triunfando sobre o panteão do outro.

A diferença, talvez, é que o panteão vencido, entre os nórdicos, foi "incorporado" a mitologia do povo vencedor. No caso dos titãs, eles foram meio que "banidos" mesmo...

Abs
raph

11/12/12 20:47  
Blogger Rato Saltador disse...

Certamente, Raph, bem mais humana. Tem uma Livro de Mórmon presenteado por uma amiga dessa religião e acho bem curioso a teologia deles. É uma espécie de protestantismo adaptado as Américas, eles acreditam que Jesus esteve por aqui também quando veio pela primeira vez. No livro você vê imagens de Cristo pregando entre os Astecas e coisas do tipo.

Mto boa a piada Franco-Atirador. Fez juz ao apelido hehehe.

11/12/12 21:58  
Blogger Islan Alex Triumpho da Conceição Lex disse...

Deuses e titãs, na mitologia grega, está simbolicamente muito próxima da guerra dos:

Vanir e Aesir, da mitologia nórdica;

Entre os Pandavas e Karauvas, povos (raças que existiam antes dos humanos) que o Mahabharata narra na Batalha de Kurukshetra para o Hinduísmo;

A guerra entre os Anunnaki para os Sumérios;

Ou a querela entre Seth Osíris e Ísis, para os egípcios;

E o clássico caso dos "Nefilins", "anjos caídos", segundo o Livro de Enoque.

No Livro do Gênesis 6:4.

"Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de [Elohim] אלהים adentraram às filhas dos homens e delas geraram filhos;estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama. ”


Lembrando que a palavra Elohim em hebraico está no plural e significa Deuses e Deusas trazendo a referência lógica e clara de onde surgiram os Nefilins. Nefilim portanto é o grupo de Elohim que se rebelaram adquirindo o epíteto que corretamente significa: Os Deuses desertores...

12/12/12 14:27  
Blogger Islan Alex Triumpho da Conceição Lex disse...

Os Sumérios parecem ter a "origem" mais elaborada de guera dos deuses, onde todos os deuses são de carácter duvidoso e com alguma fragilidade...

Embora os Anunaqui sejam de origem divina isto não os fazem ""bons"".

O Relato de Guilgamésh é uma maravilhosa história de deuses inconstantes e passionais...

12/12/12 14:33  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Islan Alex Triumpho da Conceição Lex

Primeiro, que nome comprido, man!!!

Segundo, esse lance de Anunaki e o escambau parece mais uma coisa física mesmo, d Etes criando humanos geneticamente e talz... q c acha? Parece que não tem muita simbologia, Zecharia Sitchin trabalhou muito nisso. Mas sei lá... devo achar isso pq quando comecei pesquisar esses assuntos não tinha idéia do poder e da necessidade dos mitos pra descrever a natureza. Mas é intrigante ver como apareceram (Sumérios) tão derrepente, com tanta cultura, escrita, artes... Tão aflorada.

12/12/12 14:52  
Blogger raph disse...

Islam, obrigado pelo complemento.

É por essas e outras que não podemos desconsiderar a teoria do Monomito de Joseph Campbell, pois na essência muitos mitos (de povos distintos e distantes) são bem parecidos. Mas claro que existem as críticas a teoria.

Já Mircea Eliade me parece chegar as vezes a conclusões bem próximas das de Campbell, com a vantagem de quase ninguém o ter criticado de forma contundente, talvez pelo fato de ele ser um dos maiores especialistas em mitologia da era moderna (creio eu, até mesmo mais do que Campbell, embora Campbell seja mais filósofo que ele).

Abs
raph

12/12/12 19:34  
Blogger Islan Alex Triumpho da Conceição Lex disse...

Franco-Atirador disse: ..."esse lance de Anunaki e o escambau parece mais uma coisa física mesmo (...) Parece que não tem muita simbologia"

Eu já acho absolutamente simbólico e não físico. Entendo como uma cultura que foi "sampleada" pelas outras ao ponto que não é mais possível entende-la sem ser como "representação".

"Mas é intrigante ver como apareceram (Sumérios) tão derrepente, com tanta cultura, escrita, artes... Tão aflorada." Até bem pouco tempo se falava que era a "cultura" mais antiga do mundo. Até acharem evidência de cidades de até 5000 anos ANTES das de Uruk... Mais velhas que Guilgamesh...

Acho que ainda não entendemos corretamente como a evolução do ser humanos e do planeta se deu. Mas acho pouco provável a coisa dos seres evoluídos que fazem experiências genéticas. Aposto mais na intervenção natural da natureza em cobrir evidências basais simples.

Somos apenas mais velhos que imaginávamos e postos em posições evolutivas dispares as condições climáticas e geográficas.

13/12/12 22:39  
Blogger Islan Alex Triumpho da Conceição Lex disse...

Imagine que a raça humana seja 20, 30 mil anos mais velha que supomos e que foi exposta a cataclismas que apagou parte (significativa) de nossa própria história, nos passando a impressão de sermos mais novos do que realmente somos.

13/12/12 22:43  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Tem um livro que comprei mas ainda não lí, porque achei muito chata a leitura, parei logo no começo, mas o tema é interessante, postula sobre a possibilidade de existirmos aqui há muitos milhões de anos, chama-se A História Secreta da Raça Humana. Espero um dia ter motivação pra ler.

14/12/12 07:49  

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