Pular para conteúdo
7.1.25

Para estar com nosso Amigo

Há um bebê em seu carrinho
passando do outro lado da rua.
Ele me observa, e me pego indagando
o que será que vê:
uma parte dele, com pernas, braços,
cabeça e coração;
uma parte dele
a olhar de volta.

Sei que também já fui assim,
recém-nascido na Criação,
consciente de tudo,
inconsciente de mim.
Sei que também já fui assim,
anjo, santo, inocente:
haverá Céu maior que este?

Por que será, então, que temos de despencar
cá abaixo?
Por que será que temos de provar
do chumbo do mundo?
Seria essa toda a história:
cair e, desde ali, lutar para retornar?

Ou não seria justamente neste mundo
que deveríamos achar o Céu?
Não na vida que nos mandam viver,
não no dinheiro que nos mandam ganhar,
não nas quinquilharias que nos mandam comprar,
mas na essência da vida em si,
esta que jamais foi guiada por mandamentos,
por promessas de ganhos eternos
ou pelo medo de fogaréus.

Sim, na essência de tudo,
no encantamento que sentimos
em simplesmente observar
a brisa passar, as folhas farfalharem,
as formigas marcharem, pé ante pé;
no que quer se dê em nosso coração
quando percebemos que há partes de nós
que vivem, sempre, nos amigos e nas amigas
que amamos.

Para mim o Céu não poderia ser uma colônia de férias,
nem qualquer lugar específico na Criação,
mas antes um hometruck, um trem, um dirigível,
o que quer que possa levar a mim,
a minhas amigas e meus amigos
por todos os cantos e paragens,
por todos os céus e infernos,
por todas as partes de Deus.

E eu lhe digo, meu coleguinha de viajem:
não é preciso voltar a caber neste carrinho;
não é preciso morrer, nem renascer,
para estar com nosso Amigo.


raph'25

***

Crédito da imagem: Google Image Search

Marcadores: , , , ,

29.5.20

O mundo vai acabar

Neste vídeo vamos analisar o que significa, de fato, o chamado Apocalipse, e porque isso não tem nada a ver com fugir deste planeta numa nave espacial (ou numa carruagem angelical). Ao final, leio um trecho do Evangelho de Tomé (apócrifo).

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


Marcadores: , , , , , , , ,

31.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte final)

« continuando da parte 2


Há anos atrás, na minha época de faculdade, me chegou às mãos um livro chamado Projeto Evacuação Mundial, da autoria de um sujeito chamado Ergom. De início, ele se parece com uma ficção científica acerca de um futuro catastrófico, onde uma pequena parte da humanidade seria salva por naves de seres alienígenas. Poderia até ser uma leitura interessante, não fosse pelo fato do autor, e de quem havia me indicado o livro, acreditarem piamente que ele descrevia um futuro real.

Aqui vai uma sinopse bem resumida do enredo: Os tempos “são chegados”, uma “nova era” se aproxima e ela não trará a princípio boas notícias para nosso planeta. Grandes desastres naturais e guerras causadas pela ignorância humana vão transformar a Terra em um inferno. Porém, alguns “eleitos” e “iniciados nos mistérios do Comando Ashtar” serão selecionados para escaparam do desastre terreno na Nave-Mãe do Comandante Ashtar e outras naves de sua frota. Através desses seres “evoluídos espiritualmente” espera-se que a raça humana persista, e que possamos povoar outros mundos.

Antes que me perguntem, o Comandante Ashtar Sheran seria uma espécie de líder de povos alienígenas que teria por função garantir a boa manutenção e sobrevivência das raças conscientes da nossa galáxia. Ou algo assim, pois podem apostar que eu não pesquisei muito a fundo.

Em todo caso, o que me incomoda nessa história não é exatamente o fato de que ela dá por certo a existência de alienígenas inteligentes e organizações políticas interplanetárias, mas sim o fato dela recontar, usando nova roupagem, uma história muito antiga – aquela em que um pequeno grupo de eleitos é salvo de um mundo arruinado, e então encaminhados para alguma espécie de reino celeste de boa aventurança. Ou seja: um Apocalipse.

A retirada do véu
Como já foi dito, o termo “Apocalipse” vem de uma palavra grega que significa “revelação”. Sendo mais específico, o termo indica que esta revelação se dá pela “retirada do véu”, como se houvesse um véu ocultando alguma verdade, que é retirado, revelando-a.

Segundo diversas tradições religiosas, esse Apocalipse está intimamente associado a eventos que se darão no fim dos tempos. É algo tão tradicional que existe até um termo para o estudo de tais histórias: “escatologia”. Embora ela esteja usualmente associada às narrativas judaico-cristãs, também há a escatologia do zoroastrismo, do hinduísmo e até mesmo do budismo.

Tradicionalmente, a interpretação literal dessas histórias indica que o nosso mundo irá passar por um período de depravação e degradação moral nalgum futuro mais ou menos próximo, e que alguma espécie de divindade raivosa irá nos punir com pragas e catástrofes. No entanto, aqueles que se mantiverem “puros” e fieis aos preceitos da divindade serão poupados (ou “salvos”), para serem em seguida encaminhados a algum Céu. Aos que aqui sobrarem, restará os castigos do Inferno.

Ora, esta é uma ideia estranha para mim. Afinal, como poderiam os “puros”, os “espiritualmente elevados”, os “amorosos”, contentarem-se em fazer “sabe lá o quê” nalgum Céu, enquanto sabem que a maior parte dos seres humanos permaneceu em sofrimento num mundo infernal? Isto seria mais ou menos o mesmo que oferecer aos médicos que atuam nos rincões mais miseráveis da África (como a organização Médicos Sem Fronteiras) a grande oportunidade de viverem o resto da vida nalgum resort paradisíaco das Bahamas, com tudo pago. Eu posso estar enganado, mas creio que a grande maioria deles iria preferir permanecer exatamente onde estavam, ajudando a salvar vidas. O Céu pode esperar.

Pois a mim sempre pareceu óbvio que, enquanto há sofrimento e ranger de dentes em qualquer parte infernal da Criação, o Céu estará vazio. Ele seria no máximo um ponto de encontro ocasional para reuniões de anjos e arcanjos, pois o seu trabalho se daria justamente onde são mais necessários: no Inferno. Se um anjo é insensível ao sofrimento dos que padecem nos infernos, se não busca lhes ajudar e iluminar com seu amor celeste, então é porque em realidade nunca foi anjo.

Por outro lado, o reino celestial pode ter estado todo o tempo aqui no mundo, bem diante dos nossos olhos, e só nos faltou levantar o véu.

“Então serão a pobreza”
O Jesus descrito no Evangelho de Tomé, um dos evangelhos apócrifos (achados em jarros enterrados em Nag Hammadi – Egito – em 1945, mas que datam dos primórdios da era cristã) tinha uma visão muito distinta deste Reino celestial. Por exemplo, quando seus discípulos lhe perguntaram “quando viria o Reino”, esta foi a sua resposta:

Ele não virá somente por sua espera; não dirão: Ei-lo aqui! Ou ei-lo acolá!
O Reino do Pai está espalhado sobre a terra e os homens não o veem.

Ora, há muitos de nós que aguardam pelo fim dos tempos, pela volta do Cristo, pelas naves de Ashtar Sheran, como quem já está cansado deste mundo, como quem já não nutre nenhuma esperança na sua melhora, como quem prefere que tudo se acabe logo, para que possam ser salvos, supostamente, por algum julgador estranho que determinará quem deve passar o restante dos seus dias nalgum paraíso de ócio eterno, e quem deve ser deixado para trás.

“Muitos são os chamados, e poucos os escolhidos”. Eu penso que essa passagem do Novo Testamento tem sido mal interpretada há séculos: os escolhidos não serão aqueles que serão “salvos” na nave do Comandante Ashtar ou nas carruagens angélicas; mas, pelo contrário, os verdadeiros escolhidos são aqueles que já encontraram a divindade em si mesmos, e já estão trabalhando para erigir nesta terra um Novo Céu. Em suma, os escolhidos são aqueles que já criaram olhos para ver o Reino espalhado sobre a Terra.

O que muda quando todo o mundo entra em transe, quando as ruas esvaziam, as fábricas reduzem a produção, os bares fecham, e os transeuntes passam a transitar somente em si mesmos, confinados em seus lares? O que muda quando bilhões de pessoas têm a oportunidade de estarem todas ao mesmo tempo sós, sem poder consumir, apartadas momentaneamente da ânsia pela produtividade? O que muda quando o tempo já não é mais dinheiro, já não é mais uma corrida pela sobrevivência, mas um tempo de viver, de tratar, de curar?

Infelizmente nem todos têm o privilégio de poderem deixar de trabalhar pelo pão do dia seguinte enquanto vivem esta quarentena. Mas, para as dezenas de milhões de almas que podem parar e refletir sobre o que são e o que realmente desejam para suas vidas, quiçá pela primeira vez em décadas, talvez esta quarentena seja um Apocalipse, uma revelação, um desvelar, uma reconexão com o que elas em verdade são, em detrimento do que possuem ou deixam de possuir.

E o mundo, o mundo continuará sendo o mundo. Não é o mundo que muda, somos nós; e cabe a nós construir o Reino, um tijolo por vez...


Disse Jesus: Se aqueles que os guiam disserem, “Vejam, o Reino está no céu”, então os pássaros os precederão. Se lhe disserem, “Ele está no mar”, então os peixes os precederão.

Mas certamente o Reino está dentro, e também fora, de vocês mesmos. Se o reconhecerem, serão reconhecidos, e saberão que são filhos do Pai Vivo.

Mas se não o reconhecerem, então estarão na pobreza, serão a pobreza.

***

Crédito das imagens: [topo] Getty Images; [ao longo] Jesus (Joaquin Phoenix) no filme Maria Madalena (2018).

Marcadores: , , , , , , , , , ,

14.9.14

O lado animal

Nas tradições místicas em geral o que muitos chamam de "desejos do corpo" está associado ao chamado lado animal. Rumi o chamava de Asno. Mas o interessante é que o lado animal não é algo que exista para ser exterminado, pois neste caso o "extermínio" nada mais será do que o "varrer para debaixo do tapete da consciência". E, quanto mais demônios internos pensamos exterminar, mais e mais Inferno se forma em nosso inconsciente... Até o dia da faxina!

O lado animal não existe para ser exterminado, mas para ser domesticado. E é precisamente nesta domesticação que aprendemos a ser angelicais, por pura dualidade: nos tornamos amigos de nossos demônios internos, os compreendemos e perdoamos, e assim nos tornamos anjos... Afinal, se os anjos moram no Céu, é no Inferno que eles trabalham.

Já o pecado nada mais é do que errar o alvo. Pensar no pecado como algo intransponível e sem solução é, muitas vezes, apenas a desculpa daqueles que desistiram de acertar o alvo. "Já estou no Inferno mesmo, qual a diferença?"... Ora, a diferença é que é exatamente por estarmos no Inferno que devemos buscar o Céu.

O Céu é o alvo, mas não chegaremos lá necessariamente após a vida, nem pelo julgamento de algum deus estranho. O Céu já está espalhado por tudo o que há, só nos faltam olhos preparados para o enxergar!

***

Crédito da imagem: Katerina Plotnikova

Marcadores: , , , , ,

28.9.13

Uma pergunta para Debora

Não há porque temermos o Lago de Enxofre
Debora, este mundo já é um inferno.
As guerras por restos fósseis,
as matanças e perseguições,
os estupros, as famílias divididas,
e mesmo as pequenas violências
do dia a dia...

Não existem “violências pequenas”.
E eu bem sei, Debora, o quanto
sua mente está cansada disso tudo;
tudo o que os “homens de bem”
fazem pela África e outros grotões
e tudo o que dizem ser
na TV: “Paladinos agindo
em nome de Deus!”

Mas a África não é “um grotão”.
É a casa de nossos ancestrais,
a nossa primeira casa.
Pise em suas terras com reverência,
dê graças por suas chuvas e rios,
pelas montanhas e as savanas,
e por todos os demais deuses.

O que falta, minha amiga,
para este inferno todo queimar
no fogo inefável do amor
até que se torne, novamente,
o Paraíso?

Antigamente, os deuses julgavam estranho
apenas ao que é estranho.
Não estavam tão preocupados
com a promiscuidade dos bonobos,
nem com o andar desengonçado dos elefantes
ou com a vaidade dos leões.

Quando o presidente em Washington
ofereceu uma quantia em dólares
ao Chefe Seattle, ele respondeu assim,
“Você deseja comprar nossa terra,
mas os homens não são donos da terra,
são parte dela.
Como podem comprar aos rios e as matas?
Esta é uma ideia estranha para nós.”
Foi o que eu quis dizer com
“Apenas ao que é estranho”.

Disso tudo você já sabe, Debora.
Que neste inferno de desejos desenfreados
não somos realmente proprietários de nada,
exceto do que há de mais precioso
e assustador...

Há muitos que tem preferido
viver anestesiados e alheios,
repetindo as orações das igrejas
e as fórmulas de sucesso
das celebridades.

Você que não é famosa neste mundo,
mas nos reinos de cima;
Você que tomou coragem
e se atirou nesse abismo infinito;
Você, ó grande dona
dos jardins da alma,
me diga:

Como conseguiu abraçar ao mundo todo
e realizar toda esta Alquimia
de dor e desespero
em sentido
e missão?


raph'13 (escrito na AE)

***

Crédito da imagem: Martin Bartsch Salvadores

Marcadores: , , , , , ,

5.2.13

O Reino

I.
“Que é a vida?”
Um desconhecido me perguntou
Há muitas vidas, quando lhe disse:
“A vida é o que me foi revelado
Por um profeta cheio de segredos
Falando aos brados”

“Tudo é pecado, tudo é pecado!”
Gritava aquele homem santo
Que sabia ver a sombra do Demônio
Debaixo de cada pedra e galho seco...

Com ele aprendi a orar para me salvar
Do grande Fim de Tudo
E do Julgamento do Pai Justo:
Aquele quem diria quem de nós iria ao Céu
E quem iria arder abaixo da Terra

Mas, foi nalguma vida que pensei...
“Ó Pai Justo e Onisciente, se Tu a tudo criou
Mesmo o Inferno é Tua obra
E mesmo do que lá ocorre, Tu bem sabes:
Sabes de cada gemido e ranger de dentes
De cada filho Teu a arder no enxofre
Sabes perfeitamente!”

Foi nesta vida que tornei-me ateu...

II.
“Que é a vida?”
Perguntei a um rabi que andava pela Galileia
E parecia estar cheio de vida
No olhar
E em todos os poros do corpo...

“A vida é uma festa que se dá no Reino”
“Mas onde está o Reino, é alguma ilha além do mar?”
“Se o fosse, os peixes teriam nos precedido...”
“Então, estaria acima das nuvens?”
“Se estivesse, os pássaros seriam já como anjos...”
“Onde está tal Reino? Diga-me, ó rabi!”

“Primeiro é preciso que você aprenda a dançar;
Pois que, do contrário, não será convidado para a festa”

III.
Foi então que me dediquei a essa tal dança
De corpo e alma
E, em cada vida que fosse
Se houvesse aprendido mais um passo
Um movimento sequer...

Não teria vivido em vão

IV.
“Que é a vida?”
Me perguntará outro desconhecido
Nalguma vida que virá;
E eu citarei o rabi:
“Uma dança. Uma dança belíssima”

E mostrarei seus passos
E o desconhecido ficará espantado
E achará que sou um homem santo
Ou profeta...

“Não há santos nem profetas”
“Mas como se pode dançar tão perfeitamente?”
“Nenhuma dança nunca será perfeita”
“Mas quero dançar como tu, ó dançarino!”
“Digo-te o que me disse uma vez um rabi, há muitas vidas:
Tudo que tenho feito, dia virá que farão o mesmo
Mesmo a minha dança, dia virá que a dançarão com ainda mais vida
E ainda mais entusiasmo
Pois que são deuses
E é dançando
Que os deuses alcançam ao Céu”

“Mas, onde está o Céu?”
“Onde sempre esteve: na alma do dançarino...
Hoje danço e apenas danço
E sei que nada precisa ser revelado
Além do que já percebo em meu coração
Ouça, ouça o ritmo!”
“Nada ouço, ó dançarino”
“Como pode?
Como pode não ouvir o ritmo da vida
Na ânsia por si mesma
Tempestuosa e caudalosa
Preenchendo todos os espaços?”

“Onde está a vida? Está aqui, no presente?”
“O presente é como um rio a escaldar
Uma chuva torrencial
De vida ancestral

Não há mais medo
Não há mais dúvida ou certeza
Não há mais profecias
Nem Deus ou o Demônio
Há apenas esta dança na chuva
Há apenas esta vida, gota de inúmeras outras
Que encharcam há tudo que há...

Agora vejo:
Debaixo da cada pedra e galho seco
Além do mar e das nuvens
E ainda dentro da alma que dança:
Tudo foi Céu
Tudo será Céu
Tudo é Céu!”

Bem vindo, tu que não é mais desconhecido
Meu semelhante...
Bem vindo ao Reino

raph'13'A.'.A.'.

***

Crédito da foto: favim.com (Anônimo)

Marcadores: , , , , , ,

2.2.13

Citações (11)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Neste mundo há espaço, e há tempo, tanto para que o mais sábio dos mestres evolua, quanto para o mais ignorante dos discípulos. Quando a sabedoria chega, enfim, não há mais discípulos na ignorância. E, de fato, nem mestres... Em cima do Pé de Feijão mágico há um Céu, e em cima do Céu há uma festa onde todos, mestres e discípulos, entrarão de mãos dadas.

Os convites estão chegando...

***

Paganismo: Vem do latim paganus, que significava "camponês", "rústico", "alguém que mora em aldeias". Desde muito cedo, nas primeiras cidades, houveram elites sacerdotais que tentaram ditar qual doutrina religiosa seria dominante, e desde esta época todos aqueles "vindos de fora" eram geralmente considerados inferiores, rústicos, camponeses, seres da periferia - pagãos. Na origem, nenhum pagão chamava a si mesmo de pagão, assim como nenhum gnóstico chamava a si mesmo de gnóstico, mas geralmente de cristão.

***

Igreja: O termo grego ekklesia originalmente se referia a principal assembleia da democracia ateniense, na Grécia antiga. Já a palavra latina, ecclesia, de etimologia muito próxima, originalmente significava “um curral, ou abrigo de ovelhas”. Em sua origem etimológica, portanto, a palavra que hoje chamamos “igreja” não necessariamente tinha cunho religioso algum. Mas é a partir do cristianismo que é feita esta associação de “abrigo de ovelhas” com uma comunidade onde os fiéis são as ovelhas e os eclesiásticos, os pastores. O que os pastores têm prometido, é que mediante a fé (fidelidade a Deus), aquele grupo comunitário alcançará, eventualmente, a salvação. Daí a ideia, para muitos de nós equivocada, de que possa existir “uma comunidade dos escolhidos de Deus”, que se salvam, enquanto todos os demais são condenados a arder num lago de enxofre por toda a eternidade.

***

Não há como não haver uma festa celestial para cada um de nós quando, finalmente, alcança o Céu.

Isto é, dentro de nós mesmos...

Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século passado, uma vez concluiu que "o Éden não foi nem será, o Éden é".

É assim que vejo este mito universal... Primeiro foi preciso que comecemos o fruto do conhecimento do bem e do mal, que fossemos expulsos do estágio animal e ignorante, para então retornar aquele estágio de pureza, só que desta vez conscientemente... Não por intervenção divina, mas por mérito próprio.

Eu sei que nem todos creem nisso, mas para mim é uma crença libertadora.

A existência pode ser uma festa. O Éden pode ser aqui e agora; e, as vezes, até mesmo eu consigo dançar no ritmo de sua música...

***

É muito difícil que as pessoas entendam que um milagre (conforme a maioria das pessoas compreende um milagre, pelo menos) seria uma injustiça de Deus para com os seres que vivem em igualdade dentro das leis naturais. Interceder por um ou outro em detrimento dos demais é injusto.

Mas isso não significa que a oração seja inútil, imagino. Penso que a oração serve para que o próprio ser que ora solidifique sua fé, e doe de si mesmo para o outro ser pelo qual está orando. Não que nossa própria energia seja maior que a de Deus, mas as vezes as pessoas "se fecham" para a energia que preenche todo o Cosmos, e orando por alguém, quem sabe não a ajudemos a "se abrir".

Acho que a maior oração que podemos fazer por alguém é amar alguém. E, neste caso, nenhuma palavra (decorada ou não) sequer precisa ser dita para que nossa oração de amor funcione...

***

Seria a "escalada do crime" um efeito da "escalada do ateísmo"? Tem gente que gosta de dizer isso a tarde na TV aberta...

Mas, vamos refletir um pouco:
Se os cristãos dizem que os ateus são uma grande minoria, significa que a maioria dos criminosos é cristã. Ora, na verdade, o que faz um criminoso não é sua orientação religiosa ou não religiosa, mas sua moral. Se todo cristão fosse automaticamente um ser de "elevada moral", o paraíso já haveria chegado há tempos.

Eu, que também me considero cristão, não acredito que isto seja a garantia para que eu seja uma pessoa boa. Eu serei uma pessoa boa se for, enfim, uma pessoa boa.

***

Chico dizia que "o telefone só toca de lá para cá". E há muitos espiritualistas que condenam a possibilidade de "ligarmos de cá para lá". Só que Kardec, por exemplo, cansou de fazer ligações assim. Chico decerto teve suas razões para dizer o que disse. Lembrem da quantidade de gente que ia visitá-lo somente pelas mensagens que chegavam, imaginem se ainda se achassem no direito de pedir ao Chico para "ligar para os parentes do lado de lá". Ou seja, há que se analisar o contexto em que Chico se manifestou. Mas, sobretudo, há que se tomar cuidado com a conta das ligações que pretendemos fazer.

(escrito com o auxílio de uma arara)

***

"Não digo: eu descobri essa terra porquê meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo. Ela existe desde sempre, antes de mim." 
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)

"Para nós indígenas, a palavra é de grande valor. É através das histórias contadas pelos mais velhos que mantemos viva a nossa identidade e firme a memória da nossa história, o uso e o cuidado com a nossa terra sagrada. Mas, descobrimos nesses 500 anos de colonização que para os não-índios a palavra não vale nada." 
(Carta do Ororubá; IV Assembléia Geral do povo Xukuru do Ororubá)

"Eu não fico deitado sem pensar." 
(Rupawê; velho sábio do povo Xavante, do Mato Grosso)

***

Fábio de Melo, católico, dá uma lição sobre como "descrer sem desmerecer"...

***

Crédito da imagem: Berndnaut Smilde

Marcadores: , , , , , , ,

24.12.12

Os anjos de Swedenborg

Texto de Jorge Luis Borges em "O livro dos seres imaginários” (Ed. Cia. das Letras) – trechos das pgs. 16 e 17. Tradução de Heloisa Jahn.

Durante os últimos vinte e cinco anos de sua estudiosa vida, o eminente homem de ciência e filósofo Emanuel Swedenborg (1688-1772) fixou sua residência em Londres. Como os ingleses são taciturnos, adquiriu o hábito cotidiano de conversar com demônios e anjos. O Senhor lhe permitiu que visitasse as regiões ultraterrenas e trocasse ideias com seus habitantes. Cristo havia dito que as almas, para entrar no céu, devem ser justas; Swedenborg acrescentou que deveriam ser inteligentes; Blake estipularia depois que fossem artísticas. Os anjos de Swedenborg são as almas que escolheram o céu.

Podem prescindir de palavras; basta que um anjo pense em outro para tê-lo junto de si. Duas pessoas que se amaram na Terra formam um só anjo. Seu mundo é governado pelo amor; cada anjo é um céu. Sua forma é a de um ser humano perfeito; a do céu também é. Os anjos podem olhar para o norte, o sul, o leste e o oeste; sempre verão a Deus frente a frente. São antes de mais nada teólogos; seu maior deleite é a prece e a discussão dos problemas espirituais. As coisas da Terra são símbolos das coisas do céu. O Sol corresponde à divindade. No céu não existe o tempo; as aparências das coisas mudam segundo os estados de ânimo. Os trajes dos anjos resplandecem de acordo com sua inteligência.

No céu os ricos continuam sendo mais ricos que os pobres, já que estão acostumados à riqueza. No céu, os objetos, os móveis e as cidades são mais concretos e complexos que os da nossa Terra; as cores, mais variadas e vívidas. Os anjos de origem inglesa têm propensão à política; os judeus, ao comércio de joias; os alemães andam com livros que consultam antes de responder. Como os muçulmanos estão acostumados à veneração de Maomé, Deus lhes propiciou um anjo que finge ser o Profeta. Os pobres de espírito e os ascetas estão excluídos dos gozos do paraíso porque não os compreenderiam.


Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza (O Evangelho de Tomé, versículo 3).

***

Crédito da imagem: Ole Graf/Corbis

Marcadores: , , , , ,

11.12.12

Questões infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava "lugares baixos"; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias... Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes... O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste... Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade... Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento... Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma... Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

***

[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.

[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”...

[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!

[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.

[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante's Inferno)

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

4.7.12

Uma breve citação não aleatória...

Há aqueles que criticam o aparente excesso de significado das grandes religiões. Creem que os homens criaram a deuses e céus e infernos, e até mesmo a ideias de carma, simplesmente por não terem coragem de encarar o aleatório.

Eu já não sei... Voltaire um dia disse a uma senhora aflita: "Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado"... Isso já é fugir do aleatório?

Na verdade, para fugir do aleatório primeiramente deveríamos descobrir onde há exatamente aleatoriedade na Natureza que não, quem sabe, num jogo de dados. De fato o elétron na física quântica tem a probabilidade de estar aqui ou acolá, passando por esta ou aquela fenda, mas não há um espectro de aleatoriedade infinita aqui: apenas possibilidades dentro de um mesmo "campo".

Talvez o mais aflito seja o gato de Schrödinger, que não sabe nem se está vivo ou morto... Na verdade, as vezes o medo do inferno pode ser pior do que o medo do "sonho sem sonhos", muito embora tenhamos tido inúmeros deles durante várias noites desta vida.

Não sei mais quem eu era há 15 anos atrás. Será que aquele quem eu era morreu? Será que devo estar enlutado por isso? Será que a ideia da reencarnação me conforta?

Tudo passa, tudo flui, tudo muda, e nada se perde. Nunca vi, em toda a minha vida, uma única pedra chutada que tenha chutado a si própria. Há por aí, sem dúvida, algum deus brincalhão chutando pedras... Mas não aleatoriamente... Esta é a sua brincadeira, quem mais tem vontade para brincar assim?

raph'12

***

Crédito da imagem: Don Johnston/All Canada Photos/Corbis

Marcadores: , , , , ,

20.4.12

Antes que se apague a chama

Eu queria lhes apresentar um amigo...

Foi um dos maiores educadores que já se viu e, no entanto, diz-se que seu primeiro trabalho foi de auxiliar da mãe, Phaenarete, que era parteira. Ainda assim, ao observar um parto complicado da mãe, já demonstrou a extensão de seu pensamento: “Minha mãe não irá criar o bebê, apenas auxiliá-lo a nascer, e tentar diminuir a dor do parto. Porém, se ela não realizar o parto, talvez ambos, a mulher e seu filho, morram... Eu também serei um parteiro, um parteiro do conhecimento que jaz na alma das pessoas, mas, por ignorância dele, elas não se dedicam devidamente ao seu nascimento. Eu os ajudarei fazer nascer sua sabedoria.”

Este era Sócrates, o maior dos filósofos, a luz perene de Atenas. Ele que serviu sua cidade-estado como quem serve a um ideal maior do que ele próprio, uma paideia, uma cultura universal condensada e absorvida pela cultura de um só povo, uns 70 mil que, não obstante, influenciaram a linguagem e as ideias de todo o Ocidente. E, servindo a tal pátria, lutou em diversas guerras como soldado, felizmente escapando ileso de todas elas. Ao fim da carreira de soldado, poderia haver se aposentado da vida, mas foi aí, pelo contrário, que sua vida de sábio e educador começou.

Tendo consultado o oráculo em Delfos e recebido a inquietante resposta de que era “o homem mais sábio de toda Grécia”, prontamente dedicou-se a abordar outros homens ditos sábios, na esperança de provar que o oráculo estava errado. Como, para sua surpresa, descobriu que todos aqueles que se julgavam sábios, em realidade não o eram, passou a perseguir a sabedoria – que ele mesmo julgava não possuir – noutro mundo.

Sócrates buscou aos jovens, e os jovens buscaram a Sócrates, como as abelhas buscam as flores, e as flores as abelhas. Sabiam, de alguma forma oculta, que necessitavam uns dos outros: os jovens precisavam de um parteiro para que sua própria sabedoria florescesse, e o filósofo, em seu papel de parteiro do conhecimento, necessitava do contato direto com o fogo das almas recém-chegadas ao mundo, antes que sua chama houvesse sido apagada pelos hábitos moribundos da estagnação dos homens ignorantes.

Precisamente por isso, mais do que por ter professado servir a um Deus desconhecido, foi Sócrates acusado e sentenciado a morte por seu próprio povo: corromper aos jovens. Ora, mas não poderia ter sido diferente – aqueles que haviam se acostumado com o musgo e o breu das cavernas, jamais poderiam suportar aqueles jovens falando sobre uma luz, uma divina luz, a irradiar sob os campos da superfície das mentes libertas do claustro.

Sócrates demarcou a alternância do entendimento da justiça, da ética e da política como elementos de um conjunto de regras de convívio social, para a era da justiça, da ética e da política a serem realizadas primeiramente na própria alma, a juíza de si própria, num conflito perene para que deixasse de ser escrava de seus próprios instintos inferiores, de sua ignorância, e se reacendesse em chamas, no fogo que veio do Alto, e do qual ainda poderiam se lembrar – como ideias inatas de um Grande Bem.

Não é culpa do velho atarracado com seus olhos de touro que a Igreja tenha, muitos séculos depois, se apropriado deste conceito e determinado que ele seria deste ou daquele jeito: um Céu Eterno, contrapondo um Inferno Eterno. O Céu de Sócrates era, antes de tudo, o Céu da liberdade, da amizade, da fraternidade, do amor ao saber. Não poderia jamais ser delimitado por dogmas ou manuais de como seria exatamente tal região, até mesmo porque, para o filósofo, tal Céu estava por ser erigido em alguma época futura, onde todos os jovens houvessem feito o parto de sua própria sabedoria, sua própria potencialidade, com a ajuda do grande parteiro, ou de outros que viriam após ele... O Deus de Sócrates estava no futuro, mas sua chama atingia o passado.

Ao ser condenado por ingestão de cicuta, seus amigos mais próximos lhe imploraram que fugisse da cidade para viver no exílio. Sócrates, porém, os fez tentar compreender: não havia cidade para onde fugir, Atenas era sua paideia, e sua paideia era todo o mundo. Havia ali permanecido desde o nascimento, e por 70 longos anos, não somente porque pensava estar no centro físico do mundo conhecido, mas principalmente porque acreditava ser ali o centro espiritual de todo o horizonte. Foi em Atenas, e com ideias, que Sócrates lutou toda sua guerra... Fugir, naquele momento, seria o mesmo que debandar de uma batalha enquanto soldado, somente por medo de perecer em combate. Sócrates não tinha medo da morte, mas antes da desonra, algo que poderia fazer com que todo o seu pensamento, e tantos e tantos partos, houvessem sido em vão.

Mas, ainda mais do que isso, Sócrates sabia de um outro mundo, aquele mundo onde a chama que observara na memória dos jovens ardia em puro esplendor e essência. Por boa parte da vida procurou fazer com que os jovens enxergassem tal mundo antes que a chama se apagasse por completo... Agora, era a sua vez de chegar, uma vez mais, ao mundo das essências. Se estaria em melhor posição que aqueles que permaneceriam no mundo das sombras, deixou que cada um decidisse por si só.

“Levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota.

Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.

- Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair às mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!

Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem [que lhe deu] o veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:

- Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!

"Assim farei!", respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.

Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.” (Fédon – Platão)

Feliz foi Sócrates, o filósofo que viveu entre amigos, e não entre discípulos.

***

Crédito da imagem: Sven Hagolani/Corbis

Marcadores: , , , , , , ,

10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


» Ver todos os posts desta série


Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

***

[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

***

Crédito da foto: moodboard/Corbis

Marcadores: , , , , , , , , , , , , ,

29.1.12

Para ser um médium, parte 4

« continuando da parte 3

Estudos místicos trazem consigo, assim como a música ou poesia – embora em grau muito mais elevado –, uma estranha euforia, como se nos levassem para mais perto de uma poderosa fonte de Ser, como se estivéssemos finalmente na iminência de desvendar o segredo que todos buscamos. (William James em Variedades da experiência religiosa)

Anjos de cima, demônios de baixo

O termo misticismo é uma das palavras mais mal empregadas na linguagem popular. O filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia, observou que ele se tornou abusivo, geralmente sendo aplicado a “qualquer opinião que tomemos como vaga, exagerada e sentimental, e sem base nos fatos ou na lógica”. Em Mysticism, a escritora britânica Evelyn Underhill nos trouxe uma explicação mais profunda acerca do termo [1]:

“O misticismo [...] não é uma opinião: não é uma filosofia. Nada tem em comum com a busca de conhecimento oculto. Por um lado, tampouco é apenas o poder de contemplar a Eternidade: por outro, não se deve identificá-lo com qualquer tipo de esquisitice religiosa. É o nome desse processo orgânico que envolve a perfeita consumação do Amor a Deus: a realização aqui e agora da herança imortal do homem. Ou, se preferirem – pois significa a mesmíssima coisa –, a arte de estabelecer nossa relação consciente com o Absoluto.”

Podemos, talvez, dizer que os transes mediúnicos, em seus diferentes graus, fazem parte do misticismo conforme delineado por Underhill. Pode parecer estranho que o contato com outros seres seja algo análogo ao contato com Deus – mas, no fundo, um dia talvez você também compreenda: o Reino de Deus já preenche a tudo desde sempre, e ao nos dedicarmos ao contato, a amizade, a compaixão, ao amor, com outros seres, vivos ou “mortos”, estamos aos poucos nos aproximando cada vez mais de Deus, mesmo que não o compreendamos muito bem.

Ainda assim, é preciso analisar cuidadosamente os pensamentos e sentimentos que nos assaltam a mente durante tais experiências, ou mesmo fora delas. Pois é preciso nos assegurar que estamos nos dedicando a mediunidade por uma boa razão, e não por uma razão egoísta – que ao contrário de nos aproximar do Absoluto, nos afasta. O maior perigo para um médium é algo que costumeiramente nos passa de forma desapercebida, de modo que mesmo os médiuns com décadas de atividade podem estar ainda afundados nesse problema sem que o percebam. Na falta de um nome melhor, eu o chamo de “complexo de santo”...

Você pode achar que isso só ocorre com os médiuns “ignorantes”, mas mesmo Divaldo Pereira Franco, um dos grandes expoentes do espiritismo no Brasil, admitiu que no início de sua mediunidade queria “se sacrificar pela causa”, até mesmo com a própria vida... Esse tipo de pensamento é muito próprio do meio religioso, particularmente no cristianismo e islamismo – parece haver um “céu assegurado” para os mártires, os profetas, os santos, e para ser um santo todo sacrifício seria válido!

Mas a questão é que, infelizmente, muitos recaem no “complexo de santo” não por um sentimento genuíno de entrega aos desígnios da espiritualidade, mas simplesmente por um motivo bem mais mundano e egoísta: ora, da mesma forma que um aspirante a ator quer ser um grande astro de Hollywood, um aspirante a espiritualista quer ser um grande santo. Desnecessário dizer: é o talento e a ardorosa dedicação que constrói um grande artista e, da mesma forma, é a disciplina e a lenta e constante afloração do amor que constrói um santo. De modo que um santo jamais se considera um santo – são os outros que o chamam assim. Pense nisso: quanto antes perceber que os espíritos de cima querem amor, e não sacrifício, tanto melhor...

Além deste conselho primordial aos que se iniciam na mediunidade, acredito que alguns outros sejam também importantes, embora secundários:

Não se vira médium ativo da noite para o dia
Apesar de já ter tocado neste assunto ao longo da série de artigos, é algo importante de ser lembrado: se você é um médium iniciante, principalmente se for ainda ignorante da parte teórica de sua doutrina espiritualista (seja espiritismo, umbanda sagrada ou outras) e/ou se sua mediunidade lhe causa desequilíbrio e desconforto emocional (nos mais variados graus) [2], jamais aceite convites de dirigentes ou coordenadores de casas espiritualistas para “começar a trabalhar na semana seguinte” (ou em qualquer período de tempo muito curto).
Rejeite respeitosamente a oferta, e não se sinta desafiado se lhe disserem que “precisa começar a trabalhar logo, pois seu mentor espiritual assim o quer”, ou ainda que “precisa começar a trabalhar, do contrário coisas ruins se sucederão na sua vida”, etc. Na verdade, se insistirem muito, seria melhor você procurar alguma outra casa espiritualista... O ideal é que procure primeiro as aulas teóricas, caso existam, ou pelo menos informações acerca de alguns livros que poderia ir lendo em casa enquanto frequenta a casa espiritualista (notadamente, os de Kardec, que em todo caso você já pode ler por conta própria desde hoje).
Mas, independente da parte teórica, que nem sempre é a essencial, é preciso que desenvolva sua mediunidade de forma gradual. Ou seja: em reuniões frequentadas apenas por médiuns experientes e “discípulos”, de modo que algum “mestre” possa lhe auxiliar no afloramento gradual de sua mediunidade. Assim, quem sabe após uns 6 a 12 meses, você já possa efetivamente começar a atender o público como um médium da casa. E, quem sabe, após uns 10 a 15 anos, você descubra coisas dentro de você mesmo, e no Cosmos ao redor, que jamais teria imaginado conhecer um dia...

Não se vira um médium comprando manuais de conhecimento oculto
Apesar de acreditar que a maioria das casas espiritualistas seja idônea, não podemos ignorar que existem “espertalhões” por aí, principalmente no meio religioso. Fuja de qualquer casa que procure lhe vender “manuais de conhecimento oculto” (do tipo que não se encontra em livrarias comuns) e/ou cobre quantias fora do normal por suas aulas teóricas... Na verdade, a imensa maioria das casas espiritualistas sequer cobrará alguma coisa. Algumas podem lhe pedir uma contribuição mensal de, quem sabe, até uns 20 reais, para cobrir despesas com manutenção e contas de água e luz. Outras podem lhe pedir que compareça a almoços beneficentes ou a palestras pagas de tempos em tempos – mas desconfie de quaisquer valores exorbitantes, dízimos (valores percentuais baseados em sua renda mensal) ou pedidos extraordinários de doações materiais (como doar uma TV LED, ou qualquer coisa relativamente cara).
Dito isso, se você por acaso goza de boa situação financeira e sente a vontade genuína de ajudar materialmente a casa espiritualista que frequenta, sinta-se a vontade (doações de ar condicionado, por exemplo, seriam muito bem-vindas na maioria das casas).

Faça caridade
Alguns médiuns podem, pelas mais variadas razões, se abster de desenvolver sua mediunidade, e não há nenhum problema específico nisso (nem nenhuma futura “punição” de Deus ou de algum mentor espiritual). No entanto, a caridade é algo que todos, sem exceção, podem e deveriam pensar seriamente em fazer.
A grande maioria das casas espiritualistas tem atividades semanais, quinzenais ou mensais de caridade. Seja visitar um hospital, um asilo, uma creche, uma instituição de doentes mentais, etc. Embora não necessariamente a caridade seja “a única salvação” – embora muitos espíritas a entendam dessa forma –, ela é sem dúvida muito, muito importante para o afloramento da empatia e, por consequência, de nossas potencialidades no amor. E são essas potencialidades, mais do que quaisquer outras, o grande objetivo, o grande sentido de estarmos retornando a Terra por tantas vezes, aprendendo a amar: uma vida de cada vez.
A visita a instituições de doentes mentais pode ser particularmente reveladora para os que ainda têm dúvidas do alcance efetivo da própria mediunidade. Afinidades quase que instantâneas poderão surgir, e talvez um dia compreendam toda a beleza que há nisso tudo.

Esteja preparado para a descida...
No atendimento aos “mortos”, mesmo durante as sessões de desenvolvimento mediúnico, e particularmente nas que envolvem médiuns de incorporação total [3], desde o início ficará muito claro que a intensidade da dor e da angústia trazidos pelos espíritos em desequilíbrio é alguns graus de magnitude superior a toda a dor e angústia que você algum dia pensou existir na Terra. As dores da alma não se comparam as dores do corpo físico, sobretudo quando o espírito passa para o outro lado do véu ignorante, sem fazer ideia do sistema de reencarnação e, muitas vezes, crendo piamente que suas dores serão eternas...
Não acho necessário entrar em detalhes, até porque palavras são apenas cascas de sentimento, e seriam incapazes de lhe transmitir o tipo de dor de que estou falando. Mas, esteja preparado para a descida ao pântano negro e pegajoso de desejos desenfreados e escuridão da alma – ou, em outras palavras, esteja preparado para descer ao inferno.
Dependendo da casa espiritualista e do tipo de trabalho espiritual realizado nela, pode ser que esse tipo de coisa jamais ocorra, ou ocorra raramente – por outro lado, principalmente nas casas mais engajadas na real caridade espiritual, esse tipo de coisa é até mesmo trivial, de modo que, infelizmente, somos obrigados com o tempo a aceitar que os seres fazem suas escolhas, e arcam com as consequências... Simples assim.
Para os seres aturdidos com seus pensamentos obsessivos, complexos de culpa e lembranças contínuas de seus atos pregressos de ignorância do bem, toda e qualquer luz que chega do alto é, quase sempre, muito bem vinda – ainda que eles muitas vezes não aceitem tal luz de início, se não os julgarmos, se tivermos a devida compaixão que efetivamente merecem (a compaixão que Deus têm nos ensinado), com o tempo aceitarão beber de nossa água, e quem sabe, poderão mesmo ter uma nova chance ainda antes do previsto.
Para os demônios de baixo, nós seremos os anjos de cima. E, ainda que isso seja obviamente um absurdo – pois sabemos que de anjos não temos nada (ou deveríamos saber) –, de certa forma, nos pântanos lodosos das dores antigas, nós de alguma forma somos mesmo anjos. Nessas ocasiões divinas, é importante lembrar que um dia, nalguma vida, estivemos em situação muito semelhante, ou até pior, a situação daqueles seres que naquele momento nos imploram ajuda... Então talvez percebamos que é o inferno, e não o céu, o local de trabalho de todos os anjos do Cosmos.

» A seguir, concluindo a série: a reforma íntima...

***

[1] Este livro será o próximo lançamento digital da Editora Alta Cultura, uma tradução de meu amigo Alfredo Carvalho. O título traduzido, como era de se esperar, será Misticismo.

[2] A mediunidade é uma potencialidade sagrada, e não deve jamais ser compreendida como um “fardo”. Existe a mediunidade e o desequilíbrio mental, e embora eles possam andar juntos, particularmente nos médiuns iniciantes, não devem ser compreendidos como “a mesma coisa”, nem mesmo como “coisas que não existem em separado”.

[3] A incorporação total é uma forma de mediunidade ativa que, ironicamente, pode envolver a passividade total do próprio médium. Muitos sequer se lembram do que ocorreu enquanto estavam “desligados de si”, ou seja, enquanto outros espíritos ocupavam suas mentes e boa parte das funções motoras de seus corpos. Mas o ideal seria tentar manter a consciência, ou semiconsciência, de tudo o que ocorre durante a incorporação.
Há muitas casas espiritualistas mais “ortodoxas” (principalmente as casas espíritas) que não irão aceitar incorporações de seus médiuns – apesar de às vezes elas ocorrerem de maneira “forçada”, ou sem que os próprios coordenadores percebam (em médiuns particularmente hábeis)... Se você tem algum receio de participar de sessões onde há incorporação (ainda que você mesmo não seja, de forma alguma, “obrigado” a incorporar), a melhor coisa é procurar uma casa espiritualista onde não exista esta prática. Ou seja, usualmente o trabalho envolverá apenas orações, música, passes magnéticos e, por vezes, psicografia ou psicopictografia.

***

Crédito da imagem: Jari Schroderus

Marcadores: , , , , , , , , ,

29.11.11

Intoxicados, parte 3

« continuando da parte 2

A criança que fui chora na estrada / Deixei-a ali quando vim ser quem sou / Mas hoje, vendo que o que sou é nada / Quero ir buscar quem fui onde ficou (Fernando Pessoa)

Por onde andam os mortos

Um homem caminha pelas vielas do inferno. Ele se veste a caráter: parece mais um mendigo, numa das mãos traz um saco com alguns pães que acabou de comprar na padaria, a face foi cuidadosamente maquiada para parecer tão suja quanto às faces dos mortos que perambulam por lá – perdidos das próprias almas, perdidos de suas essências. No entanto, não há nada de sobrenatural nesse inferno... Os seres mortos são apenas mortos em vida, não mortos-vivos; O inferno fica bem no centro da maior cidade do Brasil; Um homem visita a cracolândia.

Uma menina aborda o homem no meio da rua. Parece menor de idade, mas mesmo assim se porta como se não fosse. Ela está suja – suja no corpo, suja no olhar, suja na alma. Mas não há nada mais a oferecer em troca de um pedaço de pão ou, quem sabe, de 30, 20, 10 reais... Ela oferece a alma, ela oferece o olhar... E o corpo. O homem entrega o saco com os pães, e vai-se embora. Ele queria poder ver mais, mas sua estada no inferno, embora breve, já pesava muito em sua própria alma. Por um momento, se imaginou como aqueles que vivem naquela escuridão, nas trevas do inferno terreno, perdido, sem esperança... Caminhando junto aos mortos... Não foi uma boa imagem [1].

O crack é uma droga feita da mistura de cocaína com bicarbonado de sódio e outros pedaços de sujeira pelo caminho. Geralmente, é fumada. A fumaça produzida pela queima da pedra de crack chega ao sistema nervoso central em dez segundos, devido ao fato de a área de absorção pulmonar ser grande. Seu efeito dura de 3 a 10 minutos, com efeito de euforia mais forte do que o da cocaína, após o que produz muita depressão, o que leva o usuário a usar novamente para compensar o mal-estar, provocando intensa dependência. Não raro o usuário tem alucinações e paranoia... Na cracolândia, vive-se em intervalos esporádicos de alguns minutos, numa semivida eufórica e mecânica que se esvai tão logo chega, como um estranho sonho curto em meio a um pesadelo. No resto do tempo, se morre.

Desde 2005, a Prefeitura de São Paulo tem se dedicado, timidamente, a restaurar a área da cracolândia. Sua ideia de restauração passa pelo fechamento de bares e hotéis ligados a prostituição e ao tráfico de drogas, o aumento do policiamento e a desapropriação de centenas de imóveis numa tentativa de criar “bolsões” onde a iniciativa privada se sinta a vontade para investir. Os moradores de rua, catadores de material reciclável e dependentes de drogas que perambulam pelo inferno vão sendo expulsos aos poucos – sabe-se lá para onde, mas certamente hão de levar seu inferno junto com eles... Muitos grupos de menores de rua dependentes, impedidos de caminhar por seu inferno particular, perambulam sem rumo pelos bairros vizinhos. Bandos e bandos de crianças que, mal tendo nascido, já se encontram mortas...

Na verdade, muitas grandes cidades do mundo em desenvolvimento têm suas cracolândias, seus infernos, para onde se dirigem todos aqueles sem rumo, perdidos de suas almas, que deixaram a si mesmos em algum canto, em alguma esquina, em alguma estrada, e nunca mais encontraram... E muitos se dizem sensibilizados, se dizem “cristãos”, mas se sentem mais a vontade o mais longe possível do inferno. Quase ninguém quer ir para o inferno, contanto que lá não se encontre nenhum parente, familiar, ou grande amigo. Ninguém quer em realidade saber de onde andam os mortos: “deixem que fiquem por lá, morrendo, aos poucos, mas longe, muito longe de nós!”.

E tratamos aos dependentes como seres perdidos, sem volta, condenados. Mas não são todos que pensam assim... A Missão Batista Cristolândia, como foi chamada, é a sede de todos os batistas que desejam capacitação no trabalho de evangelização de dependentes químicos e excluídos socialmente. Como apresenta a coordenadora local do Radical Brasil, missionária Soraya Machado: "A Missão é a resposta dos batistas brasileiros a esta atrocidade chamada cracolândia". O quartel general do Radical Brasil está localizado dentro da cracolândia e nesse espaço são oferecidas 300 refeições diárias - café, almoço e janta, espaço para banho, lavanderia, doação de roupas e calçados. Além do amparo social, o investimento espiritual é alto, com quatro cultos por dia nos períodos da manhã, tarde, noite e madrugada... Felizmente, alguns ainda são crentes o suficiente no ser humano, crentes a ponto de imaginarem que podem sim, adentrar ao próprio inferno, e sair de lá não com demônios ou mortos-vivos, mas com pessoas que podem sim viver uma vez mais.

Nós podemos criticar os evangélicos e crentes fervorosos por algumas de suas crenças descabidas, mas enquanto existirem crentes da esperança, crentes da vida que pode vencer a morte, todas as suas exaltações serão não somente perdoadas pelos que adoram a vida, mas admiradas... Nesse aspecto, pouco importa a crença ou descrença de cada um, e sim os frutos de suas obras, sua caridade, seu amor. É muito fácil desistir dos dependentes como se esses não fossem mais seres vivos, como se não tivessem mais almas, ou, pelo menos, como se não houvesse mais nenhuma esperança de as reencontrarem pela estrada... Mas a alma perdura, em meio ao mais pavoroso inferno, nos vales das sombras e da morte, ela não teme o mal, ela permanece ali, impávida, esperando ser resgatada – como a mais pura e inocente criança a chorar pela estrada: “Veja, aqui estou eu. Venha e salva-me! Venha e cuida de mim! Venha e me ame, que eu também te amarei...”

Paracelso já dizia que a diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose. As drogas e os vícios podem sim nos permitir escapar da tristeza perene da vida, mas o custo é alto: é a própria vida. Ao aprendermos a encarar a melancolia de frente, face a face, poderemos quem sabe perceber que mesmo ela, mesmo ela, era apenas uma dose do leve veneno da vida, mas dose esta que também pode virar um grande remédio... Se estamos intoxicados de angústias, devemos também tentar nos intoxicar de alguma sabedoria, e compreender que há sempre tempo de recomeçar – mesmo o nosso próprio corpo, em sua renovação incessante, será um novo corpo assim que nos limparmos do charco de toxinas químicas e nos banharmos na água cristalina de um rio, uma cachoeira, um oceano, ou da própria vida.

E então, quem sabe, poderemos passar a nos intoxicar da única substância que, independente da dose, só nos fará avançar, mais e mais, cada vez mais, para um céu de liberdade, e felicidade – sejamos todos dependentes do amor, e apenas dele, para que todos os infernos se façam céus, toda a indiferença se faça dor, e toda compaixão, fortaleza intransponível.

***

[1] Este trecho foi inteiramente baseado no depoimento de um amigo.

***

Crédito das fotos: [topo] AMCCE; [ao longo] ALESP

Marcadores: , , , , , , , ,