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16.1.17

Eles não sabem o que fazem

Noite na periferia paulista. José havia acabado de voltar do hospital com a filhinha de 8 meses. Quase teve um troço com o diagnóstico do médico, “sífilis congênita”, mas ficou mais tranquilo quando lhe explicaram que não era nada grave. Na calçada em frente de casa, José explicava a dois amigos como tinha sido a viagem até o hospital. Todos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, mas apenas ele já havia se tornado pai. Foi “sem querer”, e a filhinha ficava mais na casa da avó materna. “Pelo menos não abandonei minha filha” – gostava de dizer aos amigos, o que sempre deixava sua própria mãe, Dona Maria, orgulhosa (ela havia criado José sem ajuda de pai algum).

De repente, um barulho de correria. Passaram pela calçada uns 3 ou 4 sujeitos correndo apavorados. “Foge, polícia!” – um deles gritou... Na verdade José mal teve tempo de entender o que estava acontecendo, logo cerca de 3 motos da polícia militar de São Paulo cercaram a todos, e mandaram encostar no muro do outro lado da rua, com as mãos para cima. Na revista, foram encontrados com o grupo 20 pinos de cocaína, uma quantidade irrisória de maconha, e cerca de 37 reais. Os 37 reais estavam justamente com José, que era o troco dos 50 reais que sua mãe havia lhe emprestado para levar a bebê no hospital e “tomar um suco”. Ele era ajudante de pedreiro, mas estava desempregado.

“Manda todos os vagabundos para a delegacia”, disse um dos policiais. Naquele dia José foi liberado, mas depois teve de ir com a mãe se defender da acusação de tráfico de drogas na audiência do Tribunal de Justiça. Dona Maria não pôde entrar... Antes de José o seu advogado, um defensor público, fez perguntas aos policias: “Vocês já o conheciam?”. A resposta foi “não”. “A droga estava no bolso da blusa ou da calça?”. “Da blusa”. “Havia mais gente na rua?”. “Sim, mas alguns conseguiram fugir”. A promotoria não se manifestou.

Durante os cerca de 3 minutos que teve para se defender na frente da juíza, José explicou que havia acabado de voltar do hospital (como sua mãe lhe instruiu a fazer). “Sífilis?”, perguntou a juíza. “Sim”, respondeu José. “Quantos anos ela tem?”. “8 meses”. “Não deve ser nada grave”, amenizou a juíza... O advogado também tentou tranquilizar José: “Foi o que falei, você é réu primário. Vão negar nosso recurso, normal. Você vai ficar oito meses preso e depois entra no regime semiaberto”. Antes de sair, algemado, José pediu ao advogado para que ele mandasse um beijo para a mãe dele.

Tal relato é uma ficção, mas baseado em fatos reais e corriqueiros. Desde 2006, com a promulgação de uma nova lei de combate às drogas, o crescimento de casos como esse foi vertiginoso. Segundo dados de 2014, grande parte dos encarcerados no Brasil tem o ensino fundamental incompleto (53%) e está na cadeia por conta de tráfico de drogas (27%). No mesmo relatório, vemos que apenas 1% dos presos têm o ensino superior completo, e aqueles presos por casos envolvendo assassinato, como homicídio ou latrocínio, não chegavam a 20% do total.

A primeira coisa que um réu primário como José precisa decidir ao entrar na cadeia é se vai ou não se juntar a uma das facções criminosas. Em se tratando de São Paulo, é quase certo que a única opção disponível seja mesmo o Primeiro Comando da Capital (PCC), que já domina as prisões paulistas há tempos, visto que também administra o próprio tráfico de drogas na Grande São Paulo.

O PCC surgiu no início da década de 1990 num presídio do interior paulista. Oito presidiários se juntaram para formar uma espécie de “irmandade” e assim tentar se proteger da violência nas cadeias. Antes do PCC os réus primários geralmente sequer tinham essa opção de “se juntar a irmandade para se proteger”. Muitas vezes, eram “vendidos” como escravos sexuais para os presos de alta periculosidade, os “bandidões”. Eram usados de todas as formas, até como “cofre” para guardar objetos no ânus ou no estômago. Apesar de tudo, antes do PCC, o destino de gente como José era geralmente muito mais trágico. Hoje, gente como José pode optar por se juntar ao PCC e se manter vivo, pelo menos nas prisões onde não há guerra de facções criminosas.

Outra grande facção criminosa no país é o Comando Vermelho (CV), ainda mais antiga que o PCC. Até outro dia, o CV, que é carioca, dominava o negócio de drogas no maior ponto de vendas da América Latina, a Rocinha. O PCC tomou o ponto sem disparar um único tiro, apenas pela via da negociação comercial. Explica-se: faz alguns meses, o PCC se internacionalizou ao assassinar de forma cinematográfica o “rei do tráfico” no Paraguai, e agora controla boa parte da plantação da maconha no país vizinho. Ora, se a maconha responde por cerca de 80% das vendas do tráfico, não deve ser difícil imaginar como o PCC simplesmente “cooptou” a Rocinha ao oferecer o seu produto de maior destaque por um preço bem mais barato do que o dos demais atravessadores.

A resposta do CV foi tentar investir na outra via de comércio ilegal de drogas e armas no país: ao invés de recorrer à via Paraguai-Bolívia, teve de se voltar para a via amazônica. Talvez por isso as recentes rebeliões e chacinas nos presídios brasileiros tenham se iniciado justamente em Manaus. Mas claro, não deve terminar por lá, e de fato já se espalhou pelas cadeias de todo país, uma espécie de “guerra interna” entre PCC e CV.

Um ex-Ministro da Justiça já afirmou que nossos presídios são como “masmorras medievais”. Se a maior autoridade de segurança no país disse isso, é porque de fato já não era segredo para ninguém. Há muitos “homens de bem” que passaram a crer justamente que as chacinas seriam a solução para a nossa criminalidade. Bem, se fossem, as estatísticas de violência já teriam diminuído há décadas, justamente antes da criação do PCC, quando ocorriam bem mais assassinatos dentro das prisões (só não dava manchete nos jornais porque não tinham decapitações em série).

Quando imaginamos a prisão como uma espécie de “limbo” ou “buraco negro” de onde os presos jamais sairão, estamos simplesmente ignorando a realidade do ciclo de violência no Brasil: ora, é justamente porque em geral a sociedade pouco se interessa pelo que ocorre dentro das cadeias que facções como o PCC proliferaram à vontade. Pense só, num estado como São Paulo, é a própria Justiça que ajuda o PCC a estar sempre recrutando novos funcionários. Ao misturar réus primários ou não violentos com a “nata da bandidagem”, damos um fluxo gratuito e contínuo de gente para o PCC; afinal não é bem a questão de escolher entre “ser honesto ou criminoso dentro da cadeia”, é antes algo como “viver ou morrer”. Darwin explica.

Assim, o Estado paga caro para manter um sistema que não só não ressocializa ninguém para a vida em sociedade, como funciona mais como uma verdadeira “fábrica de criminosos”, onde gente como José, se tiver sorte, sairá muito, muito pior do que entrou. E, se não tiver sorte, pode nem sair vivo, mas tal fato não diminuí o ciclo da violência, apenas aumenta. O Karma explica.

Afinal, se o PCC pode até funcionar como um “agente de proteção social” dentro dos presídios, fora deles pratica sequestros, assassinatos, e outros crimes, além de intimidar agentes da lei e políticos ou, muitas vezes, simplesmente comprá-los para o seu lado. Quando necessário, o PCC também pode muito bem atuar “fora dos presídios”, causando um verdadeiro caos nas grandes cidades. Da última vez que algo assim ocorreu, em São Paulo, pouco mais de uma década atrás, foram às próprias autoridades quem correram para chegar a um acordo de “cessar fogo” com a facção, e o acordo saiu. Mas, e se não tivesse saído? E se o PCC resolver voltar a “se manifestar” fora das cadeias, como será? O que podemos dizer hoje é: cada vez pior.

Se voltarmos ao exemplo de José, veremos que ele pelo menos teve um julgamento, enquanto cerca de 40% dos nossos presos aguardam por um. E pelo menos teve um defensor público, coisa inexistente em mais da metade dos estados...

Você pode me dizer que na verdade a história de José era mesmo uma baita mentira, que ele de fato estava correndo junto com os outros traficantes que passaram pela calçada da sua casa, que ele também era um deles. Tudo bem, você pode até julgar daí que José era mesmo um bandido. E, ainda que o mantra “bandido bom é bandido morto” possa lhe soar como a solução derradeira de todos os problemas, devo lhe dizer que é justamente por pensamentos como este que chegamos na situação em que chegamos. Morram quantos Josés forem, eles continuarão nascendo, e a violência continuará ardendo mais e mais nesta imensa pira de ignorância.

E, se queremos manter os presos realmente perigosos e violentos dentro das cadeias, é justamente tratando réus primários como José de uma outra forma, liberando espaço e recursos no sistema penitenciário, que teremos alguma chance de começar a mudar este cenário.

Afinal, não foi nos países onde há pena de morte que a violência se reduziu ao ponto de faltarem presidiários para popular as cadeias, pelo contrário, foi nos países que tratam mais a causa do que os sintomas, em todas as dimensões que envolvem o crime: na educação, na ressocialização, na política em relação às drogas etc. Sim, ainda estamos muito distantes do nível de desenvolvimento humano dos países escandinavos, mas até quando vamos permanecer ignorantes dos exemplos que deram certo? Até quando vamos continuar vendo nossos criminosos com um olhar tão arcaico, alimentando infindavelmente este ciclo macabro de decapitações e banhos de sangue?

Há dois mil anos, o doce Rabi da Galileia, aquele quem nos ensinou toda a profundidade do Amor, também cumpria sua pena ao lado de dois bandidos, todos crucificados ao público. A sua volta, o povo gritava a sua própria versão de “bandido bom é bandido morto” para a época. Segundo Lucas 23:34, esta foi a sua resposta:

Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

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Créditos das imagens: [topo] Salve Geral/Divulgação; [ao longo] Google Image Search

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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

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Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
“Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

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[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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5.11.14

O caso Mignonette

Imaginem um bote a deriva em alto mar, com quatro sobreviventes do naufrágio de um navio (o Mignonette) em meio a uma forte tempestade. Imaginem que eles estão há muitos dias sem comida ou água, e que um deles, o mais novo e órfão, está passando muito mal devido ao fato de haver – contra a recomendação dos outros ocupantes do bote – bebido da água salgada do mar. Imaginem que os três que ainda parecem ter maiores chances de sobreviver por mais alguns dias são todos pais de família e altamente estimados por seus pares na sociedade. Imaginem que lhes passa pela mente que a única chance de sobreviverem seria assassinar o garoto doente e se alimentar da sua carne e do seu sangue... Podem parar de imaginar, pois se trata de um caso real, ocorrido no final do século XIX em mares ingleses, e que se tornou bastante conhecido na história do Direito.

Michael Sandel, em sua série sensacional de aulas sobre filosofia moral na Universidade de Harvard, usa tal história para demonstrar como o utilitarismo, uma doutrina ética que prega que o bem-estar das pessoas deve ser sempre a meta a ser buscada, nem sempre é de fácil compreensão ou interpretação, e abre uma discussão sensacional com os próprios alunos do curso, que basicamente devem tentar chegar a um acordo para responder a questão: "Seria admissível o assassinato de um para que três pudessem sobreviver?".

Na cerca de meia hora abaixo, podemos refletir junto com a turma em Harvard:

» Veja o restante da série no YouTube (este é o segundo episódio)

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Crédito da imagem: Google Image Search

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7.10.14

A Igreja da Alma do Mundo

Há um trecho do Alcorão, na Surah Al Falaq, que nos incita a dizer: "Refugio-me no Senhor da Alvorada contra o mal daquilo que Ele criou".

Ora, o mal é a ignorância do bem. Não chegamos a existência perfeitos em conhecimento, sabedoria ou moral, e portanto estamos lentamente, passo a passo, desenvolvendo nossas potencialidades, depurando nossa ignorância, nosso mal... Pela lógica, é impossível atribuir a maldade a ideia de Deus. No entanto, é logicamente plausível que exista mal "naquilo que Ele criou", e que esse mal seja exatamente o atestado da eficiência e do sentido do sistema da Criação: fôssemos criados perfeitos, seríamos autômatos, robôs programados para fazer o bem (e isto não seria "ser bom").

Acredito que não exista uma ideia mais bela do que a ideia de se deixar um princípio, uma semente de perfeição, aflorar e se desenvolver por si mesma, bastando o contato do sol para que floresça, e nada mais... É claro que o próprio conceito de "perfeição" encerra inúmeras complexidades. Até que ponto ela iria? Quando seria o suficiente? Quando estaríamos, enfim, aptos a ver Deus "face a face"?

Já disse o Rabi da Galileia que "um dia faremos tudo o que ele fez, e muito mais". E disse também que éramos deuses... Quem sabe esta "perfeição" não resida num ponto do caminho, mas no caminho em si, e no sistema que o possibilitou existir?

Portanto, Deus, ou o que quer que tenha imaginado o Cosmos, não é mal, e nem devemos supor que alguma maldade de sua parte seria justificada pela "justiça divina". A justiça não faz o mal, ela aplica remédios. Tais medicinas podem ser amargas, é bem verdade, mas elas visam tão somente a nossa cura, e a nossa religação ao caminho.

Não há médico, porém, que possa nos prometer ou garantir a cura, nem o mais santo dos santos. Somente nós mesmos podemos nos curar, mas existem diversos tratamentos. Algumas pessoas chamaram algumas dessas receitas de "doutrinas religiosas", mas fato é que a nossa verdadeira igreja reside mesmo é em nosso coração. É somente lá, na Igreja da Alma do Mundo, que as orações tomam forma, as mais belas formas de todo o universo...

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Crédito da imagem: Vorrarit Anantsorrarak

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11.12.12

Questões infernais

A palavra inferno, que hoje conhecemos, origina-se da palavra latina pré-cristã inferus, que significava "lugares baixos"; foi dela que surgiu o termo infernus. Na Bíblia latina, a palavra é usada para representar o termo hebraico Seol e os termos gregos Hades e Geena, sem distinção. A maioria das traduções ao português seguem o latim, e elas não fazem distinção do original hebraico ou grego.

Geena, do grego, se refere a um lago de fogo. Já o Seol hebraico e o grego Hades parecem se referir a uma mesma ideia, muito anterior à própria Bíblia: um reino dos mortos (que ficava abaixo da terra, daí a conexão com infernus).

Segundo a mitologia grega, os deuses olímpicos saíram vitoriosos da batalha travada contra os titãs (a titanomaquia), e Zeus, Poseidon e Hades partilharam entre si o universo; Zeus ficou com os céus, Poseidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos, que leva o nome deste deus (além disso, todos eles partilharam a terra igualmente, daí a ideia de que poderiam influenciar os vivos).

A influência de Hades no reino dos vivos é quase que estritamente negativa e maléfica, vinculada à pragas, doenças, destruições e guerras, mas também é tida como influência de desafios, afinal nas tradições antigas, para seguirem o "caminho do herói", testes e provações físicas e psicológicas eram necessárias... Da mesma forma, o reino de Hades, o reino dos mortos, não é um conceito que poderia ser associado somente ao que o cristianismo passou a compreender por inferno.

No Hades as almas eram julgadas por três juízes [1], com responsabilidades específicas: Minos tinha o voto decisivo; Éaco julgava as almas europeias; e Radamanto julgava as almas asiáticas. Nem mesmo Hades interferia no julgamento deles, a não ser em raras ocasiões. Este tipo de julgamento moral se assemelha a concepção cristã do julgamento do final dos tempos, mas o que ocorre com as almas boas? Elas saem do Hades?

Aí é que está: não saem, pois o próprio Hades é um reino com o seu céu e o seu inferno. O céu é conhecido na mitologia grega como Campos Elíseos; o inferno, como Tártaro. Ambos ficam no reino dos mortos, no Hades. Dessa forma, apesar de a mitologia bíblica haver bebido da fonte da mitologia antiga, há algumas contradições importantes... O exegeta bíblico poderá dizer que o cristianismo é uma espécie de refinamento das ideias pagãs anteriores, mas será que isto se sustenta?

Por “refinamento”, quero dizer “interpretação mais espiritualmente aprofundada”. Porém, ocorre que, apesar de tanto a mitologia bíblica quanto a grega concordarem que os mortos são julgados pelas suas obras, o julgamento do deus bíblico me parece mais autoritário e implacável. Dependendo da interpretação, mesmo um ladrão de galinhas pode ser condenado ao inferno. Outro problema é a gradação de penas: na mitologia bíblica, o ladrão de galinhas e o assassino parecem destinados a receber a mesma pena (arder eternamente num lago de fogo); na mitologia pagã, pelo contrário, as penas são dadas de acordo com as faltas, como ocorre num tribunal de justiça terrena. Eu, sinceramente, não vejo refinamento algum nesta exegese bíblica.

Há, em todo caso, uma primeira questão infernal que se aplica ao inferno bíblico: Os bons, aqueles que chegarão ao céu, não ficariam tristes por saber que boa parte de seus familiares e amigos estarão condenados a arder num lago de fogo por toda a eternidade?

Ora, segundo a mitologia grega, no Hades os julgamentos ocorrem após a morte, e não após um juízo final. Ainda assim, a questão persiste... Mas no caso pagão, há muitas interpretações alternativas que dizem que o condenado ao Tártaro pode eventualmente cumprir sua pena e assim se elevar aos Elíseos; Ainda outras teorias, mais antigas, simplesmente afirmam que após o cumprimento da pena no Tártaro o condenado estaria apto a reencarnar na terra. Enfim, no paganismo não haviam dogmas infalíveis, e os mitos eram constantemente reinterpretados.

Mas no mito bíblico nada disso ocorre. Há um julgamento final, e depois cada grupo irá para o seu canto, por toda a eternidade... Ora, de fato, ainda que o inferno cristão não fosse um local de sofrimento eterno, o simples fato de familiares e amigos serem separados pela eternidade inteira seria um motivo de sofrimento... Eterno?

Como se não bastasse esta, há uma segunda questão infernal ainda mais complexa. Segundo a bíblia, o governante do inferno é um anjo que, por haver se corrompido e escolhido o caminho do mal, tornou-se ele próprio o supremo representante do mal – o anjo caído. Eis a questão: Seria este anjo incapaz de arrepender-se, por toda a eternidade? Um anjo, quando cai, e se corrompe, não tem nenhuma, nenhuma oportunidade de se arrepender, de remediar sua situação? Haveria justiça divina nesta ideia?

Se não houvesse o livre-arbítrio, todos seríamos fantoches nas mãos de Deus. Portanto, é preciso a liberdade para que um ser exista enquanto ser, e não enquanto autômato [2]. Dessa forma, se o anjo caído, Lúcifer, não tiver a liberdade para decidir se arrepender, isto significa que ele é mero fantoche nas mãos do deus bíblico – o que equivale a dizer que tudo o que Lúcifer faz seria, no fundo, decidido pelo Mestre dos Fantoches. Eu não sei quanto a vocês, mas acho esta uma ideia absurda.

O exegeta bíblico poderá responder a tais questões infernais de forma superficial, quem sabe: (a) Ao chegar no céu, Deus apaga da memória dos escolhidos todas as lembranças daqueles que foram para o inferno, e dessa forma não sentirão saudades nem sofrerão pelo que ocorre a eles; e (b) Lúcifer simplesmente não se arrependeu, e talvez jamais se arrependa, por isso ainda existe o mal no mundo. Pois bem, vocês acham, honestamente, que tais respostas vagas resolvem essas questões?

Os pensadores contemporâneos têm concepções bem mais profundas e interessantes do mito do céu e inferno. Sejam cristãos, não cristãos, agnósticos, existencialistas, espiritualistas, estudiosos de mitologia, não importa muito, pois este é um mito que toca a humanidade inteira [3]: Não poderíamos interpretar o céu e o inferno como estados da consciência humana?

Seguindo esta bela reflexão, devemos considerar que cada um constrói o seu próprio céu e inferno em sua própria consciência. Portanto, aquele que encontrou Deus dentro de si [4], mesmo no deserto mais árido e seco, estará ainda num Oceano de Amor em sua própria consciência, dentro da alma, que carrega consigo para todo lugar.

E, assim, chegando neste céu, não titubeará nem por um segundo em descer ao inferno [5] para convidar quem lá está a se aventurar neste vasto Oceano. A questão, no entanto, é que apenas um convite não basta: é preciso mergulhar. Somente o ser em si poderá decidir por abandonar os dogmas antigos, e dar este verdadeiro salto de fé no desconhecido, na imensidão da própria alma... Então, quem sabe, alcance o céu. Então, quem sabe, seja salvo – salvo da ignorância.

Mergulhe suave. Os mensageiros orientam!

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[1] Os juízes não são deuses e sim mortos que devido à sua forte personalidade e seu senso de justiça tornaram-se juízes. Em algumas versões Hades seria o presidente do tribunal dos mortos.

[2] Fôssemos criados “já perfeitos”, não somente não haveria mérito algum de nossa parte em “sermos perfeitos”, como na prática seríamos autômatos, robôs “programados para a perfeição” por algum deus estranho. Isto é, seja lá o que for esta “perfeição”...

[3] A concepção de alguns ditos cristãos que afirma que somente aqueles que aceitam Nosso Senhor Jesus Cristo serão salvos é tão absurda que nem a incluí neste artigo. Para início de conversa, isto seria condenar todos que viveram antes do Cristo, e todos que jamais ouviram falar do Cristo, automaticamente ao inferno. Isto dá um montão de inocentes condenados!

[4] Ou “o amor”, ou “a iluminação”, ou “a vida”, ou “o Cosmos”, ou “o Verdadeiro Eu”, etc.

[5] Como Sartre já disse: “o inferno são os outros”.

Crédito da imagem: John Springer Collection/CORBIS (cena do filme Dante's Inferno)

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20.8.12

O filho da vida

Numa noite fria um homem letrado veio tratar com Yeshua, que o recebeu em sua tenda, animado por poder conversar com um sacerdote. Seu nome era Nicodemus...

Sacerdote – Shalom, rabi.

Mensageiro – Está errado: tu que és o rabi, e eu é que estou em paz.

Sacerdote – Mas como pode estar em paz, vendo seu povo sofrendo, oprimido?

Mensageiro – E quem não sofre nesta vida?

Sacerdote – Mas nós judeus temos sofrido em demasiado. Onde está Adonai para libertar nosso povo? Dizem que você trouxe-nos sinais de que é seu enviado, seu filho... Então me diga, onde está este Senhor Ausente?

Yeshua apanhou um galho seco do solo onde foi montada a tenda...

Mensageiro – Você vê a vida aqui?

Sacerdote – Não, isto é apenas um galho seco.

Mensageiro – Esta é a diferença. Tu achas que teu senhor está aqui e ali, e eu o percebo em todo lugar, para onde quer que olhe estou sempre coberto por seu perfume. Este galho seco um dia abrigou vida, e agora se torna inerte novamente, porém não menos sagrado. Eis o meu sinal e a minha mensagem, rabi: tudo é sagrado, tudo vibra e nada está parado. Quem há de ter iniciado esta roda senão aquele quem proclamas ausente?

Sacerdote – E porque não o convoca então? Quero vê-lo!

Mensageiro – Ele já está aqui. Ainda mais perto de tua alma do que teu próprio olho.

Sacerdote – Mas não o vejo, não o vejo! Se o vê, diga-te então que nos ajude, que nos lidere, que expulse os opressores de nossa terra...

Mensageiro – Mas como pode alguém retirar a moeda ou o trigo da balança, sem que torne a transação injusta para o vendedor ou o comprador? Tu desejas um Senhor dos Exércitos, mas como pode um general marchar contra o seu próprio exército?

Sacerdote – O que está dizendo, rabi? E acaso Adonai também defende aos opressores?

Mensageiro – E como poderia existir um exército de homens que não pertença ao Senhor da Vida? Não é sua culpa que os homens busquem a morte, e não a vida. Em verdade lhe digo, ó Nicodemus, que Nosso Pai não é um general, mas um semeador... E nós somos as sementes! Algumas há que germinaram em solo fértil, enquanto outras encontraram o solo seco, e viveram vidas de galhos secos. Porém, há sempre a oportunidade de aproveitar as chuvas que antecedem a primavera.

Sacerdote – Eu não compreendo... Se este de quem fala é o senhor dos romanos, não pode ser Adonai. Você é filho de um falso deus, um deus ausente, um deus traidor. Quem é você afinal?

E dizem que aquela foi a primeira vez que o viram exaltado:

Mensageiro – Ó Nicodemus, porque tanto proclamas ser um conhecedor das coisas celestes, se mal compreende das coisas do mundo? A quem pretende ensinar com esta alma cega? Tu acusas Nosso Pai de ser ausente, e, no entanto, ele é tão ausente quanto à luz das estrelas é ausente da noite! Tu acusas Nosso Pai de ser traidor, quando não há no mundo quem ele possa trair, visto que não fez promessa alguma! Tu me acusas de ser filho de um deus falso, quando ele é a fonte única de todos os Elohim, que são a essência de tudo o que há de belo e verdadeiro no mundo!
Saia desta tenda, Nicodemus, e volte para seus manuais de palavras vazias e sem vida. De nada adianta conhecer as palavras se você não percebe o baile da vida a escorar pelo ombro, o vento que sopra onde quer, e não atende ao chamado de almas secas.

Mas, antes de sair, Nicodemus virou-se e perguntou:

Sacerdote – E como tu fazes para falar com esse tal deus? Quem sabe um dia eu consiga falar com ele, para que possa fazer por nosso povo o que você se recusa a pedir...

Mensageiro – Em verdade lhe digo, hipócrita, que ele fala na única linguagem que não és ainda capaz de compreender sequer duas palavras: o amor. E, caso te perguntem como eu sei de tudo isso, diga-lhes que eu sou o Filho da Vida.


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Este conto é uma continuação direta de "O zelote", e continua em "O recitador".

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Crédito da foto: Janis Christie/Corbis

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3.7.12

Gênesis: o mundo antes da lei

O Discovery Channel, canal de TV a cabo, tem uma série com documentários acerca dos grandes livros da humanidade. Este episódio fala sobre o Gênesis. Bem, gostemos ou não, todos devemos levar em consideração que boa parte do pensamento ocidental foi influenciada pelo conteúdo deste que é o primeiro livro da Bíblia, e narra o início de tudo - do mundo e dos homens que habitam o mundo...

O grande mérito deste documentário, na minha opinião, é ir além da teologia, da história, da moral e mesmo da metáfora, e analisar o Gênesis como "uma cultura humana em formação". Um exemplo está logo no início (1:55), quando um dos comentaristas, Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, diz assim:

"Gênesis é sobre o mundo antes de haver lei. É sobre um Deus em aprendizagem, lutando para ser justo, sem regras [antecedentes]. Deus não teve problemas em criar um universo físico, só precisou de seis dias. Ele teve mais dificuldade quando chegou à parte da justiça... O Gênesis é sobre isso, sobre tentar fazer as coisas direito, com justiça."

Vejam o documentário, em 4 partes (cerca de 50min no total), no YouTube. Abaixo, a parte 1:

Ver a parte 2 | Ver a parte 3 | Ver a parte final


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26.8.11

Levítico: pedras não faltarão

Em agosto de 2011, na véspera da Parada do Orgulho Gay de Ribeirão Preto, a Justiça mandou retirar da rua um outdoor considerado homofóbico. O outdoor foi feito pela Casa de Oração de Ribeirão Preto e continha citações bíblicas, entre elas uma do livro de Levítico: "se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável...".

Em sua decisão, o juiz que julgou o caso afirmou que "a Constituição Federal protege a conduta do réu de expor suas opiniões pessoais, mas, ao mesmo tempo, também protege a intimidade, honra e imagem das pessoas quando violadas". Um dia antes da realização da parada gay em Ribeirão Preto, o outdoor foi retirado.

Nos diversos portais de notícias onde essa informação foi divulgada, podemos observar a habitual animosidade entre os defensores dos homossexuais e os pretensos “defensores da liberdade de expressão”. Esses últimos costumam afirmar algo mais ou menos assim – o que pode se estender não somente para este caso, como para inúmeros outros:

Da mesma maneira que o homossexual tem o direito de viver sua vida como lhe apraz e os simpatizantes dessa conduta demonstrarem sua simpatia, também aqueles que não apoiam esse comportamento devem ter direito a voz e opinião, é simples assim, um peso e uma medida para todos. Parada gay pode, mensagem bíblica em outdoor não pode?

Costumam simpatizar com esse ponto de vista todos aqueles que pensam que “está na moda ser gay”, ou que “defender os gays agora é o politicamente correto”; ou ainda que “precisamos agora é de uma Parada do Orgulho Hetero!”. Se você por acaso também pensa assim, me desculpe, mas acho que precisará rever um pouco os seus conceitos...

Abra a bíblia, e leia
O Levítico é o terceiro livro do Antigo Testamento, cujo autor supostamente é Moisés, inspirado diretamente por Javé (Deus). Basicamente é um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possuí ainda o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião. Obviamente, se trata de uma legislação compatível com um povo parcialmente nômade que sobrevivia nos desertos do Oriente Médio há mais de 2 mil anos atrás.

Se reparar bem, a mensagem do outdoor de Ribeirão Preto está incompleta, o versículo completo se lê assim: Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles (Le 20:13).

Como podem ver, no deserto não haviam prisões e, infelizmente, o Deus de Moisés determinava que essas e outras “faltas” fossem punidas com a morte – não se sabe ao certo se pela mão dos homens, ou do próprio Deus.

Ocorre que, esta não é a única “falta” passível de tal punição. Existem muitas, muitas outras...

Algumas “faltas”, segundo o Levítico
- Tatuagens, nem pensar... Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós (Le 19:28).
- É preciso muito cuidado com a forma que cortamos o cabelo... Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba (Le 19:27).
- A cada menstruação, passados 8 dias será necessário sacrificar dois pombos para a purificação da mulher... Quando, pois, o que tem o fluxo, estiver limpo do seu fluxo, contar-se-ão sete dias para a sua purificação [...] E ao oitavo dia tomará duas rolas ou dois pombinhos, e virá perante o SENHOR, à porta da tenda da congregação e os dará ao sacerdote (Le 15:13-14).
- Comer carne de porco? Deus me livre... Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina; este vos será imundo (Le 11:7).
- Muito cuidado antes de consultar um “feiticeiro” [1]... Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros, para se prostituir com eles, eu porei a minha face contra ele, e o extirparei do meio do seu povo (Le 20:6).
- Mulher casada? Sai fora... Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera (Le 20:10).
- Se por acaso acha sua sogra bonitinha, tire imediatamente este pensamento da cabeça... E, quando um homem tomar uma mulher e a sua mãe, maldade é; a ele e a elas queimarão com fogo, para que não haja maldade no meio de vós (Le 20:14).

Bem, acho que já deu para ter uma ideia do “problema” não? Repare, inclusive, que as 3 últimas “faltas” da lista acima foram retiradas praticamente da mesma página onde se encontra o versículo do outdoor.

Você pode dizer que eu estou apenas citando versículos fora de contexto, que não tenho “a exegese necessária para a interpretação da bíblia”, mas então eu lhe pergunto: e por acaso os versículos do outdoor não estavam mais fora de contexto ainda?

Pois, me parece que numa interpretação mais aprofundada, não seriam somente os homossexuais que mereceriam a morte, mas no mínimo também os adúlteros, os que se consultam com “feiticeiros” e, quem sabe, até mesmo aqueles que comem carne de porco na churrascaria...

Atire a primeira pedra...
No entanto, estranho de se pensar, no mesmo Levítico encontramos ensinamentos do tipo: “Não oprimir os estrangeiros” (Le 19:33); “Não amaldiçoar os deficientes” (Le 19:14); “Não se vingar” e “Amar o próximo como a si mesmo” (Le 19:18).

Não quero aqui discutir se Moisés conseguiu ou não receber as leis de Javé na forma correta, ou ainda se era o próprio Javé quem parecia ter algum problema em elaborar leis que fizessem algum sentido, mas, antes, lembrar do doce Rabi da Galiléia, que nos disse:

Atire a primeira pedra quem não houver pecado.

Será mesmo que o temos escutado? Será mesmo que temos sido cristãos, ou ainda estamos perambulando pelas tribos de Israel, ainda mais no “olho por olho, e dente por dente”, do que no “ama ao próximo de todo o teu coração”?

Errar o alvo
Podemos interpretar as “faltas” mencionadas acima como pecados, sem dúvida.

A origem etimológica da palavra “pecado” remete a um conceito até mesmo bastante simples: errar o alvo. Errar o alvo! Sim, como quem gostaria muito de estar agindo acertadamente mas, seja por ignorância do bem, ou do que quer que seja “o certo”, ainda tem errado o alvo...

Agora, eu te pergunto: quem será que tem errado o alvo por uma distância maior? Aqueles que se dizem cristãos, mas que se aventuram em cruzadas e guerras santas, esquartejando infiéis e fendendo grávidas, ou os pacíficos que atendem a “feiticeiros”? Aqueles que se dizem cristãos, mas traem as esposas, e às vezes até humilham e batem nas esposas, ou os pacíficos que, embora em relações homossexuais, procuram adotar crianças necessitadas? Aqueles que se dizem cristãos, mas julgam “pecadores e condenados a queimar eternamente num lago de enxofre” todos aqueles que cometem às menores faltas, embora não vejam as inúmeras traves a obstruir a própria visão, ou os pacíficos que valorizam a liberdade acima de tudo, e deixam que cada um leve sua própria vida da forma que achar melhor?

Antes de atirar a primeira pedra, cerifique-se de que você mesmo não esteja a errar o alvo – ainda mais do que aqueles a quem as pedras estão endereçadas... Pode ser que mude de ideia, e opte por deixar a pedra cair ao chão, inofensiva. Se, no entanto, não mudar, que Deus tenha piedade de nós, pois pedras não faltarão, e nem alvos.

Você não precisa viver pensando nas “faltas alheias”
Sobretudo, ao encontrar com um homossexual, lembre-se que ele não passa metade da vida fazendo sexo... Mas, ainda que fosse o caso, isso não o impediria de lidar com ele de forma civilizada (supondo, é claro, que ele também seja civilizado): você não precisa apertar a mão de um homossexual imaginando onde ele a tem colocado; você não precisa sentar ao lado de um homossexual imaginando onde ele tem sentado; você não precisa abraçar um homossexual imaginando quaisquer espécies de práticas sexuais “heterodoxas”, pois um abraço é um ato amoroso, e não sexual; e, sobretudo, você não precisa passear na rua próxima a uma Parada Gay – haverão inúmeras outras oportunidades no ano para tal.

Os estrangeiros
Voltando ao Levítico: não oprimais os estrangeiros. Sejam os estrangeiros de sua terra, sejam os estrangeiros de sua cultura, sejam os estrangeiros de sua raça, sejam os estrangeiros de sua crença, sejam os estrangeiros de sua opção sexual.

Se Javé é mesmo o Senhor, ele é o Senhor de todos nós.


Eu sou heterossexual, casado há quase uma década... Não me preocupo nem um pouco com o que homossexuais fazem ou deixam de fazer em suas camas, mas me preocupo com as pessoas que os acham "abomináveis", verdadeiros estrangeiros de si próprias, quase como se fossem demônios ou seres a parte... Como deve ser complicado viver cruzando com demônios imaginários em todos os cantos!

***

Obs (1): Você pode conferir facilmente todas as citações de versículos do Levítico na Bíblia Online.

Obs (2): Há um consenso atual, mesmo entre os defensores dos direitos homossexuais, de que a Parada Gay se tornou uma espécie de "micareta de carnaval" no Brasil (e provavelmente em boa parte do Ocidente), que retrata os homossexuais como "fanáticos sexuais em busca de sexo fácil e go-go-boys", não exatamente como a maioria deles realmente é: casais como quaisquer outros, que as vezes até criam crianças adotadas, e a noite vão a restaurantes e não a casas de swing. Porém, ainda assim na Parada Gay não há violência, e qualquer manifestação popular onde não haja violência ou depredação do patrimônio público deve ser respeitada em um estado democrático. Ou, em outras palavras, as mesmas críticas que cabem a promiscuidade em uma Parada Gay, cabem igualmente a promiscuidade dos bailes de Carnaval e afins (onde a maioria é heterossexual).

[1] Existem inúmeras discussões acerca do que “feiticeiros e necromantes” significavam exatamente no contexto da época. Em todo caso, é bastante conveniente para os que interpretam a bíblia ao pé da letra considerar “feiticeiros” praticamente qualquer praticante de uma religião situada (teoricamente) fora do cristianismo.

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Crédito das imagens: [topo] Agência O Globo (este é o outdoor vetado pela Justiça em Ribeirão Preto); [ao longo] Ted Horowitz/Corbis.

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15.8.11

A descoberta do Cosmos, parte 1

Texto de Werner Jaeger em "Paidéia: a formação do homem grego” (Ed. Martins Fontes), tradução de Artur M. Parreira – Trechos das pgs. 201 a 204. Os comentários ao final são meus.

A ideia de Sólon é esta: a dike [1] não depende dos decretos da justiça terrena e humana nem resulta da simples intervenção externa de um decreto da justiça divina, como sucedia na antiga religião de Hesíodo. É imanente ao próprio acontecer, no qual se realiza para cada caso a compensação das desigualdades. Portanto, a sua inexorabilidade é o “castigo de Zeus”, a “paga dos deuses”. Anaximandro vai muito além. Esta compensação eterna não se realiza só na vida humana, mas também no mundo inteiro, na totalidade dos seres. A evidência deste processo e a sua imanência na esfera humana levam-no a pensar que as coisas da natureza, com todas as suas forças e oposições, também se encontram submetidas a uma ordem de justiça imanente e que a sua ascensão e sua decadência se realizam de acordo com essa ordem [2].

Nesta forma – se a encararmos do ponto de vista moderno – parece esboçar-se a ideia prodigiosa de uma legalidade universal da natureza. Mas não se trata de uma simples uniformidade do fluxo causal, no sentido abstrato de nossa ciência atual. O que Anaximandro formula com as suas palavras é mais uma norma universal do que uma lei da natureza no sentido moderno. O conhecimento desta norma do acontecer da natureza tem um sentido religioso imediato [3]. Não é uma simples descrição de fatos, mas uma justificação da natureza do mundo. O mundo revela-se como um cosmos, isto é, como uma comunidade jurídica das coisas. Elas afirmam o seu sentido na incessante e inexorável geração e corrupção, quer dizer, naquilo que a existência tem de mais incompreensível e insuportável para as aspirações da vida do homem ingênuo. Não sabemos se o próprio Anaximandro empregou nesse sentido a palavra cosmos. No seu sucessor Anaxímenes já a encontramos, se é autêntico o fragmento que se atribui a ele.

Mas, em princípio, a ideia de cosmos encontra-se – embora sem o sentido rigoroso que teve mais tarde – na concepção de um acontecer natural governado pela dike eterna, de Anaximandro. Temos, portanto, o direito de caracterizar a concepção do mundo de Anaximandro como a íntima descoberta do cosmos. Esta descoberta não se podia fazer senão no fundo da alma humana. Nada se teria podido fazer com telescópios, observatórios ou qualquer outro tipo de investigação empírica. Foi da mesma faculdade intuitiva que brotou a ideia de infinidade dos mundos, atribuída a Anaximandro pela tradição [4]. Sem dúvida alguma, a ideia filosófica do cosmos representou uma ruptura com as representações religiosas habituais. Mas esta ruptura representa a aparição de uma nova concepção da divindade do ser, no meio do horror da fugacidade e da destruição, que tanto impressionou as novas gerações, como mostram os poetas.

É neste estado de espírito que reside a semente de incontáveis desenvolvimentos filosóficos. O conceito de cosmos constituiu até os nossos dias umas das categorias essenciais de toda concepção do mundo, embora nas modernas interpretações científicas tenha gradualmente perdido o sentido metafísico original [5]. A ideia do cosmos mostra, com simbólica evidência, a importância da primitiva filosofia natural para a formação do homem grego. Assim como em Sólon o conceito ético-jurídico da responsabilidade deriva de teodicéia para a epopeia, também em Anaximandro a justiça do mundo recorda que o conceito grego de causa, fundamental para o novo pensamento, coincidia originalmente com o conceito de culpa e foi transferido da imputação jurídica à causalidade física. Esta transposição espiritual está ligada a transposição análoga dos conceitos de cosmos, dike e tisis, originários da vida jurídica, para o acontecer natural [6].

O fragmento de Anaximandro permite-nos obter uma visão profunda do desenvolvimento do problema da causalidade a partir do problema teológico. A sua Dike é o princípio do processo de projeção da polis no universo. É certo que nos pensadores jônicos não encontramos uma transposição expressa da ordenação do mundo e da vida do Homem para o ser das coisas não humanas. Não podia acontecer isso, porque as suas investigações prescindiam totalmente das coisas humanas e visavam exclusivamente a determinação do fundamento eterno das coisas. Mas, dado que se serviram da ordem da existência humana para tirar conclusões a propósito da physis e sua interpretação, a sua concepção continha em germe, desde o início, uma futura e nova harmonia entre o ser eterno e o mundo da vida humana com os seus valores.

Pitágoras de Samos foi também um pensador jônico, embora a sua ação se tenha desenrolado na Itália meridional. É difícil determinar o seu tipo espiritual e a sua personalidade histórica. A sua figura tradicional mudou com a evolução da cultura grega. Assim, ele nos foi apresentado como descobridor científico, político, educador, fundador de uma ordem ou de uma religião e como taumaturgo [...] Comparada com a grandiosa plenitude espiritual de Anaximandro, a união em Pitágoras de elementos tão heterogêneos, seja qual for a ideia que nós formemos desta mistura, é, efetivamente, coisa singular e acidental. A recente maneira de apresentá-lo como um curandeiro já não pode aspirar a nenhuma consideração séria. Da imputação de polimathia pode concluir-se que procedem de Pitágoras aqueles que mais tarde Aristóteles referiu como “os chamados pitagóricos”, considerando-os fundadores de um novo tipo de ciência que eles, diversamente da “meteorologia” dos Jônicos, denominaram apenas Mathemata, isto é, “os estudos”.

» Na continuação, Pitágoras e a transmigração de almas...

***

[1] Dike era o termo grego que trazia os conceitos de ordem moral e julgamento justo baseados no espírito da sociedade Grega, a Paidéia. Sólon, além de legislador, era poeta.

[2] Mais a oeste, tal doutrina seria chamada de karma.

[3] É preciso lembrar que na Grécia antiga um sábio era ao mesmo tempo poeta, filósofo, cientista e espiritualista. Se é possível, talvez, debochar do politeísmo do cidadão grego comum, já não é possível fazer o mesmo com os grandes pensadores, que subordinavam todos os deuses a Zeus – um Deus dos deuses – ou ao próprio Cosmos – a Natureza da natureza.

[4] Há mais de 2 mil anos, os sábios gregos já antecipavam, ainda que apenas pela intuição, muito do que viria a ser comprovado pela ciência moderna. Além da “infinidade de mundos”, Anaximandro também previu a teoria da evolução, ainda que de forma rudimentar: para ele, os animais nasceram do lodo marinho, e o homem teria se formado, no princípio, dentro de peixes, onde se desenvolveu e donde foi expulso logo que se tornou de tamanho suficiente para bastar-se a si próprio.

[5] Em sua grandiosa série de TV (Cosmos), Carl Sagan afirma que o Cosmos é tudo o que é, o que foi e o que será. Embora certamente a visão científica moderna não enxergue a natureza como um “sistema jurídico”, Sagan foi buscar inspiração nos gregos antigos para muito do que foi exposto em sua série; onde há sim muita espiritualidade, na pura essência do termo.

[6] Isso quer dizer, se é que não estarei aqui resumindo demasiadamente um pensamento tão complexo, que os gregos passaram a compreender a “lei de causa e efeito”, ou karma, não como uma “paga dos deuses”, mas antes como uma lei natural, que nada tem a ver com o antigo conceito de culpa – ou, para se entender melhor, de pecado perante os deuses.

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Crédito da foto: Paul Almasy/Corbis (Delfos, Grécia).

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16.9.10

O problema da criança e do câncer

Trecho do Projeto Ouroboros

(P.) Bem, antes que nossa amiga procure me refutar, devo deixar claro que o conceito de “deus ausente” será sempre uma meia-verdade, pois da mesma forma que ele não intercede diretamente nos eventos de sua criação, pode-se dizer que também intercede a cada momento, na manutenção das leis naturais que, bem ou mal, permaneceram estáveis desde o início deste universo. É principalmente por conta disso que a ciência existe, afinal se as leis da natureza mudassem com o tempo, ou tivessem comportamentos diferentes de acordo com uma dada região do espaço-tempo, seria provavelmente impossível elaborar um estudo consistente das mesmas. Ou, em outras palavras, E=mc² será sempre E=mc², não importa o tempo ou a região do universo.

(S.) Correto, é bom deixar isto sempre claro a todos.

(P.) Entretanto, o mero fato de Deus manter, por exemplo, a lei da gravidade funcionando, não necessariamente explica toda a sua justiça divina. Ou pelo menos, não evidencia uma justiça que seja inteiramente compatível com o nosso senso de justiça, humano.
Eu explico: conforme combinamos há algum tempo, eu concordei em considerar a possibilidade da existência de Deus, para que pudéssemos prosseguir no debate de seus atributos... Muito bem, eu não estou arrependido de acompanhá-los nessa empreitada, pois muito embora continue não encontrando evidências para a crença em um deus pessoal, concordo que há algo de sagrado e profundamente misterioso na vida, na forma com a qual resíduos de estrelas se reuniram para formar tantas e tão complexas máquinas moleculares que insistem em desafiar a entropia do Cosmos. Até que surgiu o ser humano e sua consciência, com características tão maravilhosas e insondáveis que é praticamente uma pequena “heresia” chamá-lo de máquina de células. Sim, concordo que sejamos muito mais do que isso, e concordo igualmente que ainda teremos uma longa via pela frente, até que possamos desvendar sequer uma pequena parte de nosso mecanismo mental e do processo de consciência.
Portanto, a vida sendo tão sagrada, a vida sendo a principal função do sistema-natureza, pela lógica era de se esperar que um Deus justo fizesse tudo ao seu alcance para preservá-la, da mesma forma que é a reação natural de toda mãe a preservação e proteção de seus filhos...

(I.) Interrompe.
Perdoe-me, meu amigo, mas não foi exatamente esta a nossa conclusão há pouco? Ora, se todos somos emanações de Deus, ou como O. gosta de chamá-lo – da substância-primeira –, então me parece que aquele que cria e possibilita a vida é automaticamente seu maior protetor e preservador.

(P.) De certa forma, concordo plenamente contigo. É impossível discordar que, num universo onde nada se cria e tudo se transforma, estamos então todos conectados, e todos somos originários de um mesmo “ponto” no espaço-tempo. Todos somos constituídos de “partículas-irmãs”, por assim dizer, todas filhas da singularidade que iniciou o espaço-tempo. Nesse sentido, é óbvio que Deus é justo, e que suas leis são justas.
Mas, por outro lado, este deus poderia ser chamado de natureza, e apenas natureza... Porém, segundo a idéia de Deus pessoal que muitos dos humanos acreditam, ele nos criou a sua imagem e semelhança, e nos inseriu na Terra como seres humanos. Isso nos traz diversos problemas lógicos que não podem ser desconsiderados.
O primeiro deles é até mesmo óbvio: como conciliar a teoria da evolução das espécies com esta criação incessante de Deus?

(I.) Como já lhes disse, não desconsidero a teoria de Darwin-Wallace. Entretanto, ela jamais teve quaisquer intenções de explicar a origem da vida ou da consciência humana... Ora, e o que é a alma além da consciência humana? O que ocorre, há meu ver, é que esta teoria explica a evolução física das espécies, mas nada nos diz acerca das almas criadas pelo ser divino.

(P.) Bem, mas receio que a discussão sobre a existência da alma nos tomaria um outro tanto de tempo...

(O.) Concordo, sugiro que pulemos esta discussão por agora. Considere então, P., a alma como uma possibilidade lógica. Ao menos por enquanto, pois suspeito que seu argumento independa da existência ou inexistência da alma humana.

(P.) Está certo, você tem razão. Independe mesmo em realidade...
Digamos então, caro I., que a evolução física se dê ao largo da criação incessante dessas almas. Você sustenta então que cada alma humana é criada por Deus e então enviada para habitar um corpo recém-nascido?

(I.) Certamente. Chegará o dia em que a ciência se renderá a tal explicação, pois que existem características da alma humana que estarão sempre fora do alcance da explicação mecanicista com a qual muitos estudiosos do cérebro procuram explicar nossa consciência e nosso livre-arbítrio.

(P.) Muito bem, quero lembrar novamente que estou deixando a discussão sobre a natureza da alma humana para outro momento... Ainda assim, sua resposta já é o suficiente para que eu coloque uma pergunta central nessa discussão, uma pergunta que é capaz de abalar os alicerces da crença em um Deus justo!

(I.) Ora, pois faça a pergunta então...

(S.) Muitos foram os sábios que afirmaram que as perguntas são mais importantes do que as respostas... São as perguntas que nos movem sempre à frente!

(O.) Sorri.
Bem, eu já imagino o que vai perguntar... Tem a ver com crianças, não?

(P.) Acena com a cabeça em concordância.
Mais precisamente com recém-nascidos, com aquelas almas que têm poucos segundos de vida, seja no útero materno ou já fora dele, mas que já são herdeiras de uma carga maldita, um destino infeliz...
Respondam-me então, como um Deus justo pode criar uma alma destinada a habitar o corpo de uma criança que nasce com câncer [1]?

***

[1] Conforme a nota existente no livro: Gostaria de deixar claro que não é minha intenção “justificar” ou ditar uma razão infalível pela qual uma criança nasce com doenças como o câncer (e outras tantas doenças até piores, que é desnecessário citar aqui). O cerne da discussão irá girar em torno da justiça divina, que é um conceito importantíssimo do livro, mas que é no fundo apenas um conceito. Qualquer que seja a resposta para esse problema, jamais será minha intenção afirmar que um evento desses deva ser “aceito” sem sofrimentos, como se fosse uma coisa normal e/ou corriqueira. Não é, é algo extremamente trágico, e esta discussão procura trazer um consolo filosófico para a questão, sem pretender encerrar o assunto e muito menos fazer julgamentos do tipo: “a criança nasceu assim porque merecia” ou “foi a vontade de Deus”... Achamos que tais respostas serão sempre equivocadas, pois se trata de um assunto que deve ser abordado mais pela emoção do que pela razão. Afinal, apenas o amor pode realmente consolar – ainda que o amor sob a razão.

Obs: Aqui no blog eu estive "preparando terreno" para este post do Projeto Ouroboros. Para qualquer um que tenha se sensibilizado com a questão, recomendo levar em consideração estes outros posts: "Definição da saudade" e "O homem que pede pelo pior".

***

Crédito da foto: Jackson Rubem

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16.8.10

Injusto consigo mesmo

Trecho do Projeto Ouroboros

(S.) Pois bem, mas estivemos atrelando o conceito de justiça divina primordialmente a igualdade, ou igualdade universal. Devemos então retornar a ela...
Estive considerando que um homem ou mulher pode nascer livre e pertencente a uma fraternidade. Mas pode alguém ser igual em si mesmo?

(I.) Igual em si mesmo?

(S.) Sim, da mesma forma que dizemos “este é um homem livre”, poderíamos construir uma frase como “aquela é uma mulher igual”... Mas ela faria algum sentido?

(I.) Ah sim, agora lhe entendi... Realmente não faria sentido algum.

(S.) Dessa forma, quando falamos em igualdade, estamos falando sempre de uma relação entre uma ou mais partes, uma ou mais pessoas ou seres.

(I.) Não há dúvida.

(S.) Nesse sentido, conforme estivemos atrelando o conceito de justiça universal e divina a uma igualdade universal, chegamos a conclusão de que ninguém pode ser justo ou injusto para consigo mesmo – a justiça envolve sempre a interação e o relacionamento com um ou mais seres distintos. Você ainda concorda?

(I.) Com muito gosto. Uma bela exposição lógica, minha cara!

(S.) Obrigado, mas então permaneça atento a este fio de pensamento...
Muitos concordarão, portanto, que é justo afirmar que onde termina o direito de um se inicia o direito do outro. Há aí uma linha extremamente tênue, e é precisamente esta “fronteira” de direitos que demanda a interpretação cuidadosa e lúcida dos grandes juízes, sobre os quais recaiu a monumental tarefa de atuarem conforme deuses – julgando o destino daqueles que são encaminhados as suas cortes...
Dessa forma, obviamente aquele que rouba ou agride ou tira a vida de algum outro deve se penalizado pela lei dos homens, que está tentando imitar a justiça divina desde sua criação. Quanto a isso praticamente não há discussão, exceto nos casos de legítima defesa, mas não quero entrar em detalhes; Consideremos que o assassino que mata sem ter sido provocado ou ameaçado está agindo injustamente, isso me parece sempre claro a todos não?

(I.) Certamente, a vida é sagrada e não deveria caber aos homens julgar ou decidir quem se vai e quem fica. Na realidade nunca coube, e aqueles que se acharam no direito de efetuar tal julgamento estavam equivocados, como nossa conversa já deve ter deixado claro até aqui...

(S.) Sim, conforme falamos de liberdade e fraternidade, esperamos que isso tenha ficado claro... Mas, e quando alguém pratica uma injustiça consigo mesmo, isso é passível de repreensão e julgamento?

(I.) Você fala do suicídio?

(S.) Não somente o ato de se matar, mas qualquer ato consciente que vise prejudicar a manutenção da própria vida... Ora, acabamos de afirmar que a igualdade sempre se aplica a um conjunto de seres, e que como a justiça universal também está atrelada ao conceito de igualdade, ninguém teoricamente poderia ser injusto consigo mesmo... Porém, o que dizer daqueles que intencionalmente atentam contra a própria vida, seja em curto prazo – um ato direto de suicídio –, ou à longo prazo – geralmente através de vícios em substâncias nocivas a vida –?

(I.) Realmente havia me esquecido dessa possibilidade. Como me pegou novamente em sua armadilha lógica, vou deixar que você mesmo continue a expor uma solução enquanto eu continuo nesta profunda reflexão.

(S.) Pois bem, minha intenção não era pregar peças em você meu amigo, mas apenas fazer com que todos possam chegar a uma conclusão mais completa, se conseguirem seguir este fio de idéias.
Ora, se é viável afirmar que ninguém é desigual para consigo mesmo, me parece que não podemos prosseguir e afirmar que ninguém é injusto para consigo mesmo...
Ocorre que, embora tenhamos sido criados iguais, e todos sejamos responsáveis por nossas próprias escolhas; e embora resida exatamente nesses conceitos o cerne do que estivemos discutindo sobre a justiça divina e universal, não podemos nos apressar e esquecer de uma coisa: embora não sejamos a Eva que mordiscou a maça proibida [1], todos temos ainda um débito que talvez nunca possamos quitar, e que por isso mesmo deve ser sempre respeitado.
Me diga, meu caro I., se alguém lhe pedisse emprestada uma roupa fina para comparecer a uma festa, o que você esperaria dessa pessoa nos dias seguintes a festa em que ela foi com sua roupa?

(I.) Que me devolvesse, conforme o combinado...

(S.) E o que você diria se a roupa fosse devolvida com rasgos ou manchas permanentes?

(I.) Que a pessoa foi descuidada!

(S.) E se, digamos, ela nem chegue a lhe devolver nada, não iria atrás dela para cobrar satisfações?

(I.) Certamente, iria cobrar uma nova roupa ou o valor da antiga, se ela encontra-se arruinada...

(S.) E você julga que estaria agindo conforme a justiça, pelo menos a justiça dos homens, correto?

(I.) Correto, não que eu vá ficar muito revoltado se alguém arruinar uma roupa minha, mas sem dúvida seria uma coisa injusta...

(S.) Pois bem, isto já é o suficiente para eu encerrar a exposição...
O que diriam então, amigos, de uma roupa preciosíssima que nos foi ofertada no início da vida, a qual formos encumbidos de preservar da melhor forma possível, visto que é nosso veículo essencial na existência – não seria um ato injusto rasgá-la e arruiná-la de forma intencional?
Ora, conforme expomos no início de nossa conversa, todos somos parte da substância-primeira (ver conclusões do cap. X) [2], e embora ainda não tenhamos discutido sobre o que exatamente forma nossa alma, e mesmo que sejamos apenas um corpo formado por poeira de estrelas distantes, ainda assim esta poeira nos foi emprestada, e não nos pertence – ainda que simplesmente porque somos incapazes de criá-la por nós mesmos.
Dessa forma, já viemos para a existência com pelo menos este débito e esta responsabilidade: a de cuidar e preservar o veículo de nossa própria vida, a começar obviamente pelo próprio corpo. Concluindo, ainda afirmo que todo ato que atenta contra a própria vida é injusto, e cada vez mais injusto na medida em que temos consciência plena deste ato. Digo isso porque, apesar de sermos responsáveis por nossa própria vida, por nossas próprias escolhas, é impossível crer que somos os criadores de nós mesmos... Ora, se uma substância não pode criar uma outra substância, e se somos todos parte da substância-primeira, se todos somos os devedores desse empréstimo sagrado, obviamente que estaremos sendo justos, cada vez mais justos, na medida em que preservamos nossa própria existência, e compreendamos cada vez mais os mistérios que a encerram.
Todos estão de acordo?

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[1] Conforme a nota existente no livro: Em sua análise mais aprofundada o mito de Adão e Eva se refere ao estágio em que os seres tiveram consciência de si próprios, de sua individualidade, e também das noções de “bem” e de “mal” (poderia-se também dizer: quando deixaram o estágio de animalidade). No caso em questão, a personagem alude a visão menos aprofundada mesmo: uma alegoria que sugere que os filhos de Adão e Eva estão em débito com Deus por conta do “ato pecaminoso” de Eva.

[2] No capítulo em questão temos uma discussão em torno da célebre pergunta: "Porque existe algo, e não nada?" – Já postei um trecho deste capítilo no blog: "Como criar um universo". Notem que o objetivo da exposição de trechos do livro no blog não visa uma espécie de marketing (até mesmo porque nem sei ainda quando terminarei de escrever a obra), mas sim colher comentários e interpretações dos leitores...

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Crédito da foto: sadheartgirl

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