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2.1.13

O ano do desassossego, parte 1

Em homenagem a 2013, um ano onde o mundo vive um grande desassossego, quando os sistemas antigos já não funcionam, enquanto que os novos ainda esperam ser inventados, trago alguns trechos memoráveis deste gênio da palavra, e mago das personalidades. Fernando Pessoa, o homem que foi muitos:

Texto de Bernardo Soares (semi-heterônimo) em "O livro do desassossego” (Ed. Cia. das Letras) – trechos das pgs. 75 a 76, 125 a 126, e 140 a 141.

Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Esta madrugada é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que foi será outra coisa, e o que eu vir será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão.

Altos montes da cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que não sereis amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro navio e há saudades desconhecidas na passagem.

***

De repente, como se um destino mágico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anônima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terremoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo.

Fui outro durante muito tempo – desde a nascença e a consciência –, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Com a vida? Recordo-lhes os atos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demônio da Realidade.

Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mônada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consome tudo, deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

***

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.

Não é esse o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi, e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é uma expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.


» Em seguida, continuaremos meio sonolentos, meio despertos, meio desassossegados...

***

Crédito da imagem: Anônimo

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4 comentários:

Blogger Rato Saltador disse...

hehehe... queria ver esse "rosa amarelecendo para branco quente", mas esse amanhecer só Pessoa viu pra nunca mais! Mas não há que desassossegar-se, veremos outras cores inusitadas, se estivermos atentos!

2/1/13 20:20  
Anonymous Anônimo disse...

Bom modo de começar o ano: lendo Pessoa. "E nao sendo o ator, mas seus gestos", temos consciencia de que somos (enquanto nosso eu inferior)apenas veículos do que realmente é, a essencia, pois sem forma, ela molda a todas e sem conteúdo específico,abarca a todos... Só discordo um pouco da visao da literatura. Na dança e na encenação ritualística (assunçao de formas-deuses ou mesmo personalidades mágicas)deixamos a essencia se manifestar atraves de formas mais refinadas sobre nosso eu inferior, mesmo assim formas, pois sem elas nao há manifestação abaixo do abismo. Enfim, para nao me estender demais, na dança e encenaçao, se bem feitas, vc se sente o gesto do ator, do eu superior, ou de um gesto mais sutil dele. Na literatura, se feita imerso, vc é a mente do arquiteto, é a "mão" do artesao. vc cria vida, só que em outro plano, vc imprime a estoria moldando energia psíquica...é vida, só não é em malkuth e é tão ilusória e guardiã de verdades veladas quanto... Claro, nem sempre se entra na vibe correta, mas em alguns contos, vc realmente constrói mentalmente, numa visualização tão clara quanto um filme 3d, tanto cenário, quanto personagens, como se constroi templos astrais e formas-pensamento-personalizadas... vc cria mundos como a terra média de Tolkien e personagens como papai noel... claro, é só um ponto de vista, como qualquer outro e qualquer um será o correto, só dependerá do angulo usado pelo observador... feliz ano novo pra vc!

2/1/13 21:55  
Blogger raph disse...

Opa,

Na verdade acredito que Bernardo Soares seja uma personalidade semi-desperta, semi-sonolenta.

Nesta passagem mesmo ele demonstra como sempre tende a querer voltar a dormir, e ignorar a verdade que viu por um momento:

"E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir."

Dessa forma, nalguns trechos, ele é sarcástico ou, talvez, esteja dando vazão ao seu "lado sonolento".

Quando fala na literatura como uma maneira de ignorar a vida, esta sendo profundamente irônico... Como no caso do "poeta fingidor, que finge ser dor a dor que deveras sente"...

Abs e feliz ano novo!
raph

ps. Saltador, o importante é estar sempre atento para a manhã seguinte!

3/1/13 11:58  
Blogger Pedro Paulo disse...

"Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mônada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consome tudo, deixa-nos nus até de nós."

Esse ponto é genial. É como estar nesse limiar entre o que somos e o que queremos ser. Como se de repente toda essa possibilidade pudesse nos levar a algum lado - ou não. Me lembra o Louco, do Tarot - ou a sensação que tenho desse caminho refletido nesse pequeno trecho.
old, but gold! :)

6/10/14 23:38  

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