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21.12.12

Um adendo ao fim do tempo

Em Maio de 2011 publiquei no blog a série Reflexões sobre o tempo, e na última parte, O fim do tempo, falei sobre o apocalipse dos rapanui, povo da ilha da Páscoa, famoso por seus gigantes de pedra, os moais.

Para meu comentário acerca do fim da cultura rapanui, me baseei num artigo chamado As testemunhas de pedra, que havia sido publicado numa especial da revista Superinteressante sobre o fim do mundo. Aquele artigo trazia a versão mais aceita, até hoje, acerca do que ocorreu aos rapanui. Segundo esta versão, resumidamente, a construção dos moais se tornou cada vez mais dispendiosa, pois cada um dos clãs da ilha desejava mostrar para o outro que era capaz de construir o moai mais alto e pesado. Ainda segundo esta versão, para transportar seus gigantes de rocha vulcânica, os rapanui empregavam trilhos, trenós e alavancas de madeira. Ora, esta madeira era extraída da própria ilha, e precisamente isto teria sido a razão principal do colapso ecológico de Páscoa: extração predatória excessiva da madeira, para construção de monumentos religiosos, até o ponto onde a natureza não podia mais se regenerar.

Esta versão é particularmente atraente num mundo acadêmico com tendências seculares e ecológicas, por duas razões principais: (a) Demonstra como um disputa religiosa entre clãs rivais levou ao colapso de um povo (Moral da história: religião é veneno!); e (b) Demonstra como a extração predatória de árvores levou ao colapso ecológico do meio ambiente da ilha (Moral da história: Desmatar nos levará a extinção!). Mas será que esta versão, apesar de ser de longe a mais conhecida e aceita, corresponde a história real do que ocorreu em Páscoa?

O que sabemos, ou melhor, não sabemos, acerca dos rapanui, se deve precisamente ao fato de a colonização européia haver terminado de extinguir uma cultura já decadente. A única coisa que sabemos com boa dose de convicção é que quem terminou de extinguir os rapanui foram as doenças e "evangelização" europeias. Não sobrou um registro escrito do povo rapanui, tudo que sabemos sobre eles vem do estudo dos vestígios deixados em Páscoa: os moais e outras pequenas esculturas religiosas (como os moais kavakava, que mostravam seres com olheiras profundas e costelas sempre a mostra, características de um povo que passava fome, que foram talhados já na fase decadente dos rapanui).

Na metade de 2012, a National geographic lançou um programa especial sobre os moais de Páscoa, trazendo uma teoria, relativamente convincente, que demonstra que os moais podem ter "caminhado" até o local onde hoje se encontram sem o uso de madeira, mas apenas de cordas presas as suas cabeças, e uma engenhosa brincadeira de "puxa puxa" realizada por algumas dúzias de rapanui musculosos. Embora não necessariamente esta teoria de transporte dos moais dê conta de como foram transportados os moais maiores [1], ela lança luz a possibilidade de que não fora a extração de madeira, afinal, que ocasionou o colapso ecológico da ilha.

Mais para o final do ano de 2012, uma outra reportagem sobre o apocalipse rapanui, com embasamento científico bem maior, foi publicada na Scientific American. Em O colapso dos rapanui, Terry L. Hunt demonstra como análises mais profundas dos vestígios da fauna e flora de Páscoa revelam que a causa do apocalipse pode muito bem ter sido algo antes impensável - uma explosão demográfica descontrolada de roedores:

Durante milhares de anos, a maior parte de Páscoa esteve coberta de palmeiras. Registros de pólen mostram que a Jubaea se estabeleceu lá há pelo menos 35 mil anos e sobreviveu a várias mudanças climáticas e ambientais. Mas, na época em que Roggeveen chegou, em 1722, a maior parte da floresta havia desaparecido. Não se trata de uma observação nova o fato de que virtualmente todas as cascas de sementes de palmeira encontradas em cavernas ou escavações arqueológicas de Páscoa mostram sinais de terem sido roídas por ratos, mas o impacto desses ratos no destino da ilha pode ter sido subestimado. Evidências de outros locais no Pacífico revelam que com freqüência esses animais contribuíram para o desmatamento, e eles podem muito bem ter tido um papel importante na degradação ambiental da ilha dos rapanui.

Ora, na posse dessas informações, podemos considerar que: (a) Não necessariamente o homem é a causa direta de desastres ambientais, pois muitas vezes são outras espécies, quando vivem sem preadores por perto e podem se procriar aceleradamente, as causadoras dos desastres. Entretanto, os ratos não chegaram em Páscoa nadando, vieram em navios e barcos humanos. Isso demonstra o quanto o estudo sistemático da natureza é tão importante quanto a ecologia e sustentabilidade: há, certamente, muita coisa que ainda não sabemos; e, finalmente (b) Não necessariamente houve alguma disputa religiosa entre os clãs rapanui. Não necessariamente a religião é veneno. O veneno está na ignorância, e na falta de religiosidade, mas não na religião.

Isto tudo invalida minha crítica as disputas religiosas feitas no artigo? Em relação ao exemplo dos rapanui, certamente (devemos desculpas aos sacerdotes de Páscoa); Já em relação as disputas religiosas que vemos pelo mundo afora, não - neste caso, a crítica continua válida. Se em Páscoa o que ocorreu foi apenas um colapso ecológico que, provavelmente, tenha sido atribuído pelos sacerdotes rapanui a alguma "punição divina" (enquanto a culpa pode ter sido dos ratos), em muitas outras partes do mundo, e da história humana, o que vemos são "guerras santas", e gente matando em nome de algum deus estranho, e outros anunciando um fim do mundo sempre iminente, talvez por ansiarem chegar nalgum céu de ociosidade eterna, para fazer "sabe-se lá o que"... Enfim, pelo que nós, espiritualistas, sabemos, o problema não é necessariamente a religião, mas o dogma, o pensamento represado, incapaz de ver os ratos que devoram nossa própria alma, nos afastando de Deus. O Deus que existe em nossa mente, e por toda a natureza a volta, e por tudo o que há.

***

[1] A National geographic fez demonstrações de transporte de moais pequenos, mas grande parte dos moais é bem maior. Muitos não sabem, por exemplo, que boa parte de seus "corpos" está enterrada abaixo da terra, e que vemos somente a parte superior das esculturas (ver imagem que ilustra este artigo).

Obs: Agradeço a quem me enviou o link do artigo da Scientific American nos comentários da série de artigos sobre o tempo, quando esta foi publicada no Portal TdC (quem enviou pediu para o comentário não ser publicado).

Crédito da imagem: Anônimo/Desconhecido (moais da ilha de Páscoa)

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