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13.7.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 2)

« continuando da parte 1


A Montanha Mágica se inicia com uma belíssima e vívida descrição do percurso de trem que sai da Alemanha e escala o mundo até os Alpes suíços. Tal narrativa domina boa parte do primeiro subcapítulo da obra, A chegada, que vai se encerrar justamente com o encontro entre Hans Castorp e o primo adoentado, Joachim Ziemssen, que o espera na estação de trem em Davos.

Conversa vai, conversa vem, e o subcapítulo se encerra desse modo na tradução mais conhecida até 2026 (quando a obra de Thoman Mann entra em domínio público), a de Herbert Caro (revisada por Paulo Astor Soethe; trecho retirado da edição tradicional da Cia. das Letras, pág. 20):

“[...] Você vai gostar dele. E ainda há o Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No prospecto fala-se especialmente da sua atividade: a dissecação psíquica dos pacientes.

— O quê? Dissecação psíquica? Que coisa nojenta! – gritou Hans Castorp, e com isso, a hilaridade tomou conta dele. Já não conseguia dominá-la. Depois de tudo o que ouvira, a dissecação psíquica lhe encheu as medidas. Riu-se tanto que as lágrimas lhe brotavam entre a mão com que, inclinando-se para a frente, cobria os olhos. Também Joachim riu de todo o coração, o que parecia fazer-lhe bem. Assim, o desembarque dois dois jovens deu-se com alegria e descontração, ao deixarem o carro que lentamente os trouxera por uma rampa íngreme e serpenteante até o portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Fim de subcapítulo. Pois bem, a despeito do uso de alguns termos meio datados na tradução do trecho, fica evidente que os primos literalmente choraram de rir de uma coisa que Joachim disse, e que em seguida chegaram ao Sanatório Berghof. Tudo bem, mas seja sincero: você entendeu a piada? O que diabos, afinal, é “dissecação psíquica”? E, supondo que saiba exatamente do que se trata, por que ambos os personagens iriam rir tanto da mera pronúncia do termo?

Ora, nada disso é explicado na tradução de Caro. Mesmo na cuidadosa revisão e edição da Cia. das Letras, sem dúvida uma das principais editoras do país, não há sequer uma nota de rodapé. Eles simplesmente supuseram que todo leitor teria plenas condições de entender a piada – ou, quem sabe, que faria uma busca rápida na internet para entender.

Mas eu nem entendi a piada e nem consegui resolver tão facilmente tal enigma, a despeito de ter toda a rede mundial ao alcance das mãos e dos olhos. Após algumas buscas, eventualmente cheguei à informação de que “dissecação psíquica” é, na realidade, uma abreviação de “dissecação da personalidade psíquica”, uma teoria ou técnica da análise apresentada por Sigmund Freud no início dos anos 1930. Eis abaixo um resumo da coisa:

“A ‘dissecação da personalidade psíquica’ é um conceito fundamental na psicanálise. Introduzido por Freud na Conferência XXXI de 1933, o modelo propõe que a mente não é uma unidade global, mas um aparelho psíquico dividido em três instâncias interligadas: o Ego, o Id e o Superego.”

Até aqui tudo bem, aparentemente o tal Krokowski era um psicanalista do Sanatório, isto é, alguém que praticava a “dissecação psíquica”. Tudo certo, mas aonde exatamente isso é tão engraçado?

Para resolver esse enigma, tive de recorrer ao termo em alemão, e ao seu significado literal. O termo em si, seelenzergliederung, que aparece na obra original de Mann, e que foi traduzido para “dissecação psíquica”, significa literalmente “a dissecação da alma”...

Finalmente estava resolvida a questão: os personagens choraram de rir pelo absurdo da ideia de que a alma possa ser dissecada, como se fosse um corpo morto. Em alemão, é isso o que a palavra quer dizer; e, além disso, é bem possível que na época em que se situa a história o próprio termo fosse desconhecido ao ponto de poucos o associarem, ao menos de imediato, à atividade da análise ou da psicanálise. Pelo que entendi do trecho, fica evidente que Hans Castorp nunca tinha ouvido o termo antes, e que apenas o seu primo sabia que se tratava de “análise” – mas que, mesmo assim, não conseguiu escapar de rir junto com Hans Castorp do absurdo da imagem de uma alma sendo dissecada.

Na minha tradução, essa explicação toda veio resumida numa nota de rodapé. Vejam como ficou o mesmo trecho:

““[...] Aposto que vai gostar dele. E depois há Krokowski, seu assistente – um tipo muito capaz. No guia falam especificamente da sua atividade: a dissecação da alma dos pacientes. [nota de rodapé]”

“O quê? Dissecação da alma? Que coisa bizarra!” – Hans Castorp exclamou, e o riso novamente levou a melhor sobre ele. Ele não conseguia mais se controlar ante tantos absurdos. A dissecação da alma havia terminado o trabalho, e ele se inclinou e riu tanto que as lágrimas escorreram por baixo da mão com a qual cobrira os olhos. Joachim riu com vontade também – isso pareceu fazer bem a ele. E assim os dois jovens estavam de bom humor no desembarque de sua carruagem, que os carregou lentamente por uma via íngreme, serpenteando pela paisagem até chegar ao portal do Sanatório Internacional Berghof.”

Para mim, este tipo de nota de rodapé é algo essencial num trecho como este, que encerra um subcapítulo. O mesmo termo reaparece algumas vezes nos capítulos subsequentes, sempre associado à algo engraçado – mas, sem o auxílio desse tipo de explicação, infelizmente a grande maioria dos leitores provavelmente seguiu sua leitura sem entender a piada.

Mais para o final do livro aparece outro caso parecido. Ludovico Setembrini, o homem das letras italiano que acompanha Hans Castorp por quase mil páginas, eventualmente se despede do grande amigo, que está retornando à Alemanha pela mesma estação de trem que chegou, lá no início. Vejamos como se deu a tradução de Herbert Caro (pág. 823):

“[...] — E così in giù – ele disse –, in giù finalmente! Addio, Giovanni mio! Eu teria preferido ver você partir de outra forma, mas vá lá, que seja, os deuses dispuseram as coisas assim e não de outro modo.”

Italiano à parte (a obra, apesar de alemã na sua maior parte, traz muitos trechos em francês, italiano, espanhol e latim), a grande questão aqui é que Hans Castorp, após literalmente centenas de páginas, é chamado pela primeira e única vez de Giovanni... Novamente, nenhuma nota de rodapé, os editores supuseram mais uma vez que o leitor saberia identificar facilmente o motivo do uso de “Giovanni” no lugar de “Hans”.

E eu, não tendo entendido nada, tive de sair à busca de uma explicação para aquilo. E eventualmente cheguei numa solução surpreendente. Abaixo trago na íntegra a minha nota de rodapé específica para o caso:

““Giovanni” nada mais é do que “Hans” em italiano. Aliás, se nosso herói tivesse nascido no Brasil (como a mãe de Thomas Mann), ele se chamaria “João”. E tanto o “João” português quanto o “Giovanni” italiano e o “Hans” alemão derivam do latim medieval “Johannes”, ou do latim clássico “Ioannes”. Esta obra é a história de João Castorp.”

Ou seja, o personagem italiano chama Hans pelo seu nome italiano, pela primeira e única vez, quando se despedem, possivelmente em definitivo, após quase mil páginas, e alguns bons anos de convívio.

Espero que com notas como essas eu tenha conseguido facilitar o entendimento do leitor. Creio, inclusive, que a própria edição da Cia. das Letras teria muito a ganhar com a adição de algumas notas como essas numa eventual nova edição. Acho muito inconveniente quando tradutores e editores simplesmente supõem que o leitor terá plenas condições de ler obras como essa sem o auxílio da edição. Afinal, o leitor não tem a menor obrigação de ser tão erudito quanto o tradutor.


» Na sequência, uma noite de Carnaval... em francês!

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estrada de ferro para Davos; imagem atual); [ao longo] Google Image Search (Freud).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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30.4.26

Traduzindo a Montanha Mágica (parte 1)

Quando buscamos resumir um grande clássico da literatura, geralmente aludimos ao seu enredo, isto é, a uma sequência de eventos que conecta os capítulos da narrativa, onde é muito comum haver alguma espécie de conflito a ser resolvido, mistério a ser solucionado, mal a ser combatido etc.

Neste sentido, é curioso notar que A Montanha Mágica, obra-prima de Thomas Mann, alemão Nobel de Literatura em 1929, já tenha sido acusada de simplesmente não ter um enredo. Então é preciso que façamos aqui uma defesa da obra em si, e também uma sugestão para o novo leitor: não é verdade, penso eu, que toda grande obra da literatura precise de uma narrativa clara, uma estrutura que já se apresente desde o início; não, na verdade o que todo livro, todo capítulo, todo parágrafo precisam é fazer com que o leitor continue interessado pelo que vem a seguir. É isso o que faz da obra uma leitura agradável, ao menos para quem não tiver pressa de terminar, já que estamos falando de um livro de proporções bíblicas.

E se você tiver curiosidade em saber o que se dará na viagem de um jovem engenheiro alemão, que vai visitar o seu primo adoentado num sanatório nos Alpes Suíços, sem tanta pressa de saber do que exatamente se trata a história toda, então meu caro, minha cara, você terá em mãos uma das maiores obras literárias do século XX para saborear com calma, página por página, capítulo por capítulo. É possível que nem veja o tempo passar (embora ninguém nunca tenha de fato visto o tempo).

Thomas Mann iniciou a escrita da obra em 1912, o mesmo ano em que sua esposa, Katharina Mann, foi internada num sanatório em Davos, na Suíça, para se curar de uma tuberculose. O livro foi obviamente inspirado nesse episódio. No entanto, embora a descrição do prédio em si, da rotina de sessões de descanso e refeições regulares, e da própria natureza daquela região montanhosa sejam completamente fiéis à realidade, eventualmente fica evidente que a grande maioria dos personagens surge da imaginação do autor, e do seu intuito de debater e refletir sobre todas as questões que dizem respeito ao ser humano, aos seus vícios e virtudes, seus altos e baixos, o que obviamente inclui temas como o amor, a morte, a percepção do tempo, a filosofia, as artes em geral etc.

Sim, há tudo isso, e muito mais, nesta obra aparentemente “sem enredo”. E é justamente por conta da habilidade do autor em encapsular tanta coisa em dias aparentemente banais, onde supostamente “nada acontece”, que A Montanha Mágica raramente é esquecida pelos leitores que a completaram de cabo a rabo. Acredite em mim, valerá a pena.

Dito isso, há dois assuntos inescapáveis de que devemos tratar para ambientar melhor o novo leitor no panorama histórico de quando a obra foi escrita:

Primeiro, como já dissemos, o autor a iniciou em 1912. Ocorre que logo em seguida estourou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que bagunçou toda a Europa, particularmente a Alemanha. Em 1915, Mann interrompeu seu trabalho no manuscrito, e dizem que a essa altura já não sabia que fim dar a história. Retorna a ela somente em 1919, já após o fim da guerra, e vai publicá-la apenas em 1924, mais de uma década depois de começar a escrita. Com isso, fica claro que muitos dos conflitos políticos daquele tempo exerceram algum tipo de influência nas conversas, discussões e reflexões dos personagens. No entanto, vale salientar que você não precisa ser um grande entendido em Primeira Guerra, ou mesmo em política, para apreciar a obra. Fosse assim, aliás, ela jamais teria alcançado a popularidade que alcançou, justamente por ser uma obra universal, que abrange diversos aspectos da vida e do ser humano em si.

E, finalmente, a tuberculose, motivo pelo qual o personagem principal vai visitar o primo nos Alpes. A tuberculose é uma doença infecciosa antiga, altamente transmissível, que afeta principalmente os pulmões. Hoje sabemos que é causada pelo Mycobacterium tuberculosis (ou bacilo de Koch), e todo ano milhares de pessoas no mundo ainda são vitimadas por ela. Muitas vezes, sem diagnóstico. Mesmo assim, há décadas a tuberculose tem tratamento com grandes chances de cura, de modo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem a meta de erradicá-la do planeta até 2030. No entanto, até meados da metade do séc. XX, a tuberculose ainda era bastante letal. Na época em que A Montanha Mágica é situada, inclusive, o melhor tratamento disponível pela medicina era literalmente “respirar o ar puro das montanhas”, e por isso o sanatório da história (assim como o real) fica nos Alpes.

A título de curiosidade, a esposa de Thomas Mann, que contraiu tuberculose logo após o nascimento de uma filha (eles tiveram ao todo seis filhos), conseguiu se curar da doença após alguns meses de “ar puro” nas regiões montanhosas, e inclusive viveu muitos anos além do marido, ele tendo nos deixado em 1955 (aos 80 anos), e ela em 1980 (aos 96 anos).

Em primeiro de janeiro de 2026, setenta anos após a morte do autor, toda a sua obra entrou em domínio público, podendo ser traduzida e publicada à vontade na maior parte do mundo. Eu fui mais um dos seus tradutores: durante inesquecíveis 16 meses, trabalhei na mais longa tradução da minha carreira como tradutor de obras clássicas, que naquela altura já ultrapassava uma década.

Em alguns casos especiais, preferi deixar para “ler” a obra na medida em que traduzia, pois tinha a intuição de que o fato de cada parágrafo, cada página, cada capítulo ser inédito para mim, de alguma forma tornaria a tradução como um todo mais cheia de alma. Foi este o caso, também, com A Montanha Mágica. Assim como o leitor de primeira viagem, não fazia a mais vaga ideia de onde estava exatamente me metendo, e sem dúvida há muita coisa na obra que eu jamais esperaria encontrar ali, de experiências místicas a debates altamente filosóficos, de um mergulho na história da Maçonaria até o próprio hermetismo, de profundas reflexões sobre o amor a abordagens altamente sutis da bissexualidade e até mesmo de algo que hoje é chamado não monogamia, mas que certamente não tinha nome na época da sua escrita.

Tudo isso, tudo isso que toca tão fundo no coração de qualquer ser humano, estava lá, e espero que tenha tido sucesso em trazer tanta luz alemã para o português mais legível possível... Seja como for, fato é que eu, tão acostumado à leitura e tradução de não ficção, e que no campo ficcional sempre fui mais atraído pela fantasia e pela ficção científica, e bem menos pela literatura mais tradicional, hoje considero A Montanha Mágica mais ou menos como O Senhor dos Anéis ou o Duna dos romances de ficção – e diria, ainda, que Thomas Mann se entenderia muito bem com Ursula K. Le Guin.

Por conta disso, resolvi falar mais sobre o meu processo de tradução numa série de artigos, dos quais este foi o primeiro. Na sequência, adentrarei aos poucos em detalhes da obra, escolhas de tradução e características dos personagens. É certo que trarei um ou outro spoiler ao longo do caminho, então estejam avisados.


» Na sequência, a dissecação da alma.

***

Crédito das imagens: [topo] Picture Alliance (Davos, Suíça); [ao longo] Google Image Search (Thomas Mann; montanhas de Davos).

Você pode encontrar minha tradução de A Montanha Mágica em ebook ou na versão impressa, ambas disponíveis na Amazon.

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28.6.24

Zigue-zague (ou traduzindo o Atthaka Vagga)

Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. Dentre todo o Cânone, o Atthaka Vagga (em páli, Capítulo [vagga] das Oitavas [atthaka]) é um dos registros mais antigos que se conhece dos ensinamentos do Buda. Ele é chamado de Atthaka (oitavas) por ter sido escrito originalmente em 16 seções de 8 estrofes. Em português, eventualmente ficou conhecido como O Livro das Oitavas, ou O Livro Budista das Oitavas.

Após traduzir o Dhammapada anos trás, hoje estou me aventurando nessa tradução de um texto bem mais curto, embora incomparavelmente mais complexo e poético, usando como base diversas versões inglesas. O quinto poema (ou seção) do Atthaka segue abaixo sob o título de Zigue-zague. Os estudiosos irão notar que optei por um título bem exótico – o mais “correto” seria usar O supremo, ou talvez A suprema visão, mas não pude evitar o termo, e creio que muitos dos leitores irão entender o porquê.


Zigue-zague

Ao insistir em uma visão de mundo
que julga ser “suprema”,
uma pessoa a eleva ao pedestal
da coisa mais importante do mundo;
e então, a partir daí,
ela julga todas as outras visões como inferiores,
e não se desenlaça dessas disputas.

Quando ela se vê em vantagem
em tudo o que observa, escuta e sente,
ou em seus hábitos e suas práticas,
quando ela se enlaça em tal sentimento,
ela vê todo o resto, todos os demais,
como inferiores.

E isso também é, dizem os engenhosos,
o que mantém o nó em seu laço
cada vez mais apertado:
a sua vantagem é dependente
do julgamento do outro
como inferior.

Por isso um monge não deve ser dependente
do que é visto, ouvido ou sentido,
nem de seus hábitos nem de suas práticas;
tampouco deve teorizar uma visão de mundo
atrelada a algum conhecimento,
ou hábito, ou prática;
um monge não deve se considerar “um igual”,
muito menos inferior ou superior [1].

Tendo abandonado o que abraçou,
não se apegando a nada,
ele não se torna dependente
nem mesmo do seu conhecimento;
ele não segue esta ou aquela facção
entre aqueles que vivem divididos;
ele não percorre seu caminho
em zigue-zague.

Aquele que não está inclinado
para nenhuma dos lados –
em vir ou não a ser,
neste mundo ou no próximo –;
que não se deixa entrincheirar
ao considerar o que aprendeu
desta ou daquela doutrina;
que não nutre a mínima
percepção teorizada
com relação ao que é visto, ouvido ou sentido:
por quem, sob quais parâmetros
uma pessoa assim poderia ser rotulada
aqui neste mundo?
“Este sábio, este amigo
que não adotou nenhuma visão de como viver,
apenas viveu”.

Pessoas assim não teorizam, não anseiam,
não aderem a nada, nem mesmo às doutrinas.

O sábio, que não se deixou conduzir
nem por hábitos, nem por práticas,
mirou o que há além,
alcançou o que há além:
ele já não anda mais
em zigue-zague.


(tradução por Rafael Arrais)

Obs.: em breve a tradução completa será vendida na Amazon, a princípio apenas na versão digital.

***

[1] Nota do tradutor: Não confundir com questões sociais de igualdade. Aqui me parece que o monge deve se bastar em si mesmo, em sua própria identidade, e não ficar se comparando aos demais, ou adentrando em disputas sobre “qual é a melhor doutrina” – isto é, se juntando a esta ou aquela facção “entre aqueles que vivem divididos”.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search.

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18.1.24

A Tábua de Esmeralda (traduzida por Rafael Arrais)

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Também conhecida como Tábua Esmeraldina ou O Segredo de Hermes, trata-se de um texto antiquíssimo que influenciou tanto o Oriente como o Ocidente, e que se propõe a revelar a natureza do universo e suas transformações. Sua autoria remonta a Hermes Trismegisto, o lendário semideus greco-egípcio, também associado aos deuses Thoth, Hermes e Mercúrio. Sua origem exata é incerta, mas há indícios míticos e históricos que apontam para o Egito Antigo.

Em breve as Edições Textos para Reflexão vão lançar minha versão da Tábua de Esmeralda, traduzida e comentada, com introdução luxuosa de Thiago Tamosauskas (de onde foi retirado o parágrafo acima), alquimista praticante e autor do Principia Alchimica. Enquanto o e-book não sai (ele está sendo escrito nesse momento), trago aqui a minha tradução da Tábua, que no fim das contas é um texto bem curto mesmo:


A Tábua de Esmeralda

(1) É verdade, sem falsidade, certo e muito verdadeiro:
(2) O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma coisa só.
(3) E assim como todas as coisas vieram do Um, pela sua mediação, assim todas as coisas nasceram desta única coisa, por adaptação.
(4) O seu pai é o Sol, a sua mãe é a Lua, o Vento o embalou em seu ventre; a Terra é a sua ama de leite.
(5) A Origem de toda Telesma [1] do mundo está aí.
(6) Seu poder permanece intacto, se estiver voltado para a Terra.
(7) Você irá separar a terra do fogo, o sutil do denso, suavemente e com muito talento.
(8) Suba da Terra para o Céu, e desça novamente à Terra, e receba o poder das coisas superiores e inferiores.
(9) Desse modo você terá a glória do mundo inteiro.
(10) E todas as trevas se afastarão da sua presença.
(11) Aí está a força mais poderosa de todas: aquela que conquista todas as coisas sutis e penetra em tudo o que é sólido.
(12) Assim o mundo foi criado.
(13) Esta é a fonte das admiráveis adaptações que indiquei aqui.
(14) Por isso fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia de todo o mundo.
(15) O que eu tinha a dizer sobre a Obra Solar está completo.

(tradução por Rafael Arrais)


***

[1] O termo latino, telesma, veio do árabe ṭilasm, sendo este o idioma onde temos o registro mais antigo da Tábua (os originais se perderam). No árabe, ṭilasm significa "talismã" e/ou "enigma". Obviamente eu vou me aprofundar bastante em seu significado nos comentários do livro.

Crédito da imagem: uma gravura (de autoria desconhecida) do livro de Heinrich Khunrath, Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, publicado em 1595; esta mesma imagem é usada na capa do nosso livro digital, a ser lançado em breve:

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29.9.23

Minha tradução de O Príncipe publicada pela Faro Editorial

Em 2020 eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial e me tornei definitivamente um tradutor profissional. Este ano negociei mais uma das minhas traduções com a Faro, o célebre O Príncipe de Nicolau Maquiavel.

Logo abaixo trarei imagens da edição, que já foi lançada. Eu não recebo direitos autorais pela venda do livro, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês o comprem na loja da Amazon utilizando o link abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as imagens do livro:

Comprar O Príncipe na Amazon

***

Obs.: O Príncipe foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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25.4.23

Lançamento: Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne

As Edições Textos para Reflexão retornam à filosofia com uma seleção de seis dos melhores Ensaios de Montaigne.

Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da filosofia, e na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios é a mais nova tradução de Rafael Arrais – um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Google)

» Leia o Prefácio desta edição


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6.4.23

Os Ensaios de Montaigne

Prefácio escrito para a minha tradução de Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne, a ser lançada em e-book pelas Edições Textos para Reflexão (em breve).


No sudoeste da França, no topo de uma colina arborizada, em torno de cinquenta quilômetros a leste de Bordeaux, há um castelo de pedras amareladas e telhado vermelho. Foi lá que Michel Eyquem de Montaigne nasceu (em 1533), residiu e morreu (em 1592, aos 59 anos).

A propriedade foi adquirida pelo seu avô, que atuava no ramo da pesca, em 1477. Mais tarde, seu pai adicionou algumas alas ao castelo e expandiu sua área de cultivo agrícola. Aos 35 anos, Montaigne tornou-se responsável pelo castelo, embora tivesse pouco interesse pela administração dos negócios familiares, e não entendesse praticamente nada de agricultura. Apesar de ter esposa, filha e um séquito de criados convivendo na mesma propriedade, ele preferia passar boa parte de seu tempo em uma biblioteca circular no terceiro e último andar de uma das torres laterais do castelo. Ela continha em suas prateleiras cerca de mil volumes de filosofia, além de algumas máximas (frases curtas) filosóficas que ele mandou gravar nas ripas de madeira do teto. Ademais, uma cadeira, uma escrivaninha e três janelas com vista para a natureza da região. Este era o seu mundo, e foi nele que encontrou forças para escrever seus Ensaios.

Montaigne viveu em plena Renascença, que marcou um grande reencontro da cultura europeia com os clássicos da Antiguidade. Através de um grande esforço de seus pais e preceptores, ele havia sido alfabetizado em latim, de modo que desde a tenra infância tinha mais facilidade para ler os clássicos do que os próprios livros franceses de sua época. Por volta dos sete ou oito anos, ele já havia lido As metamorfoses de Ovídio. Antes de chegar aos dezesseis, adquiriu a obra de Virgílio e passou a dominar a Eneida. Mas foi de filósofos e pensadores da Antiguidade que ele extraiu a maior inspiração para os seus escritos, particularmente das traduções recentes da obra de Platão para o latim, assim como das obras de Sêneca e Lucrécio, além da descrição de outros sábios dada em Vidas, doutrinas e sentenças dos filósofos ilustres, de Diógenes Laércio.

Tal como Epicuro, outro filósofo clássico, ele acreditava que a amizade era um componente essencial da felicidade humana. Durante poucos anos, ele teve a sorte de encontrar e conviver com um grande amigo. Aos 25 anos, foi apresentado a um escritor de 28 anos e membro do Parlamento de Bordeaux, seu nome era Étienne de La Boétie. Foi um caso de amizade à primeira vista: com La Boétie, Montaigne sentiu que não precisava ocultar os traços de personalidade que costumava ocultar dos demais. Em seus Ensaios, ele chegou a afirmar que apenas La Boétie “teve o privilégio de conhecer a sua verdadeira face”; isto é, ele foi a única pessoa com quem Montaigne se sentiu à vontade para falar de tudo, ou quase tudo, sem os costumeiros filtros do convívio social – particularmente entre a nobreza.

Infelizmente, tal encontro de almas foi um tanto breve. Em agosto de 1563, quatro anos após se conhecerem pela primeira vez, La Boétie caiu de cama com dores no abdômen, e morreu poucos dias depois. Montaigne passou o restante da vida buscando, sem sucesso algum, encontrar um substituto para o convívio com aquele amigo. No fim das contas, ao se retirar em seu castelo, em sua biblioteca circular, para se dedicar a escrita dos seus Ensaios, ele recriou por outros meios o verdadeiro retrato de si mesmo que La Boétie havia reconhecido. Afinal, conforme o próprio Montaigne nos comunica no início da obra, é sobre ele mesmo que ela trata.

É bem possível que Montaigne tenha começado a escrever para abrandar um sentimento pessoal de solidão, mas sua obra também serviu, de certa forma, para abrandar a solidão dos próprios leitores. Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da Filosofia, e se não conseguiu encontrar outro La Boétie enquanto vivo, na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

A primeira edição dos Ensaios foi publicada em 1580, na cidade de Bordeaux, composta por dois livros. Após a segunda edição de 1582 e a terceira de 1587, em Paris no ano de 1588 é publicada a quinta edição dos Ensaios, já com três livros. Curiosamente, não há registros da publicação da quarta edição, mas um exemplar impresso da quinta edição contendo correções e alterações de Montaigne é conhecida como a Cópia de Bordeaux, hoje localizada na Biblioteca Municipal de Bordeaux. Com esta e as várias anotações deixadas por Montaigne, em 1595 é publicada por Marie de Gournay, espécie de discípula intelectual do autor, a primeira edição póstuma, onde ela acrescentou citações, notas e um longo prefácio; esta edição serviu como base para as diversas publicações dos Ensaios ao longo dos séculos. A edição completa traz 107 ensaios de tamanhos variados; esta seleção traz 6 dos seus melhores ensaios, incluindo Filosofar é aprender a morrer e A amizade.


Do editor, neste 06 de abril de 2023.

***

Crédito das imagens: Google Image Search (uma das estátuas de Montaigne, situada em Paris).

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1.1.23

Lançamento: Autobiografia de um Iogue

As Edições Textos para Reflexão publicam um grande clássico espiritual do séc. XX: Autobiografia de um Iogue, por Paramahansa Yogananda, na tradução de Rafael Arrais.

Este é um livro de muitas jornadas, há nesta obra muitos livros dentro de um só. Publicado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas escrito ainda ao longo do terror, ele sinaliza uma nova esperança, uma nova era para a espiritualidade humana: que tenha sobrevivido ao tempo, e que seja até hoje um bestseller global, é um sopro de alívio para todos aqueles que despertaram da ilusão material.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle, Google Play e outras lojas; e também na versão impressa:

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» Leia o Epílogo desta edição: As aventuras de Makunda

» Leia um trecho da tradução


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29.12.22

As traduções de Rumi

Neste vídeo Raph traz o conteúdo de sua palestra proferida no evento Primavera de Rumi, realizado em Outubro (2022) no Farol do Saber Khalil Gibran, em Curitiba. Trata-se de um breve resumo da história da poesia de Rumi e suas traduções para o inglês e o português. Também são abordadas algumas polêmicas acerca da supressão arbitrária de menções a Maomé nas traduções inglesas, principalmente as de Coleman Barks. Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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30.8.22

Samádhi, ou traduzindo Yogananda

No primeiro dia de 2023 entra em domínio público em praticamente todo o planeta toda a obra de Paramahansa Yogananda, o yogui, ou iogue, responsável por uma das maiores obras da espiritualidade do século XX, Autobiografia de um iogue.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem justamente com este lançamento, cuja tradução tem se provado um trabalho longo, profundo, e incrivelmente prazeroso.

O grande mérito aparente do livro é se tratar da autobiografia de um legítimo iogue da Índia, ou seja, escrita por ele mesmo, e não por algum jornalista ou pesquisador. Mas esta obra é muito maior que isso: em suas dezenas de capítulos, Yogananda teceu um intrincado passo a passo de conexão com o divino, de modo que não seria exagero dizer que a mera leitura atenciosa de suas centenas de páginas já é, ao menos de alguma forma, uma prática de yoga em si mesma.

E, para que ninguém duvide disso, trago abaixo um poema que consta no capítulo 14, onde o autor relata sua experiência com a Consciência Cósmica. O próprio título, Samádhi, remete a um estado de “meditação perfeita”, uma iluminação que, embora passageira no tempo, transforma a vida de quem a experimentou, para sempre.

Com vocês, Paramahansa Yogananda:


Desvanecidos os véus de luz e sombra,
Evaporada toda bruma de tristeza,
Naveguei além de todas as manhãs de alegria fugaz,
Até que a miragem dos sentidos ficou para trás.
Amor e ódio, saúde e doença, vida e morte:
Todas estas sombras falsas pereceram na tela da dualidade.
Ondas de riso e sarcasmo, redemoinhos de melancolia,
Tudo se dissolveu na vastidão oceânica do êxtase.

A tempestade de maya aplainou
Pela varinha mágica da intuição profunda.
O universo e os sonhos esquecidos espreitavam no subconsciente,
Prontos para invadir minha memória divina, recém-desperta.
Então eu vi: eu vivo sem a sombra cósmica,
Mas ela não vive sem mim;
Tal qual o mar perdura mesmo sem ondas,
Embora elas precisem dele para existir.

Sonhos e despertares, estados de sono profundo,
Presente, passado e futuro nada mais significam para mim;
Eu estou em cada momento, sempre a fluir, sempre em tudo:
Nos planetas, nas estrelas, na poeira que cintila na terra,
Nas erupções vulcânicas dos grandes cataclismas,
Nos fornos que moldam a matéria, nas geleiras silenciosas
De raios-x, nas inundações de elétrons ardentes,
No pensamento de todos os homens, de antes, agora e depois,
Em cada lâmina verde do prado, eu e a humanidade inteira
Somos cada átomo da poeira sideral;
Desejo e raiva, bem e mal, salvação e luxúria:
Eu engoli a todos, e os transmutei num vasto oceano
Que forma o sangue de meu próprio Ser!

A labareda do êxtase, tantas vezes acalentada pela meditação,
Cegou meus olhos úmidos, cresceu em fogaréu,
Tornou-se um baile imortal de fogo e contentamento,
Até consumir minhas lágrimas, minha forma, tudo o que eu era.

Você sou Eu, Eu sou Você;
O Conhecer, O Conhecido e Aquele Que Conhece: somos Um!
Sereno, inabalável, eternamente vivo, numa paz que sempre se renova!
Aqui experimentamos tal regozijo:
Uma alegria além de qualquer possibilidade imaginada, o êxtase do samádhi!
Todavia, não um estado sem consciência,
Tampouco um clorofórmio mental anestesiando a vontade.
O samádhi tão somente expande as fronteiras do reino consciente
Além dos limites mundanos,
Até as distâncias mais longínquas da eternidade,
Onde Eu, o Oceano Cósmico,
Contemplo o ego, pequenino, a flutuar.

A queda de um pardal, cada grão de areia soprado pelo vento,
Nada acontece que esteja além da minha visão.
Eu sou o espaço colossal que abarca tudo o que é, foi e será.
E através da meditação profunda, dedicada, que anseia por Mim,
Chega um dia este samádhi celestial.

O murmúrio do baile atômico pode ser ouvido;
E, veja: as montanhas e os vales dançando com a lava,
Esculpindo novas paisagens e territórios!
Mares fluem pelo cosmo, agora são vapores de nebulosas!
AUM [Palavra Criadora] os sopra, rompendo seus véus;
E, veja: eles se espalham pelas galáxias, que maravilha!
Elétrons cintilam em tudo, como pérolas no mar,
E tudo está em paz...
Até que, ao toque do tambor cósmico,
Desvanecem os aglomerados em radiação eterna;
Um êxtase além das palavras, além dos limites,
Preenche tudo que há.

Do êxtase eu vim, pelo êxtase eu vivo, no sagrado êxtase eu sou diluído.
Como uma mente oceânica, eu bebo as ondas da criação.
Quatro véus se estendem pelo cosmo:
Sólido, líquido, gasoso e luminífero.
Eu, estando em tudo, adentro o Grande Eu.
Sombras vacilantes e tênues da memória mortal
Parecem ter se aniquilado para sempre.
No grande céu mental, já não estou aqui ou acolá,
Nem muito acima nem abaixo, nem perto nem distante:
Eu e a eternidade, um único facho singrando o vazio...

Então, uma pequena bolha de riso se forma,
E eu me torno o próprio Oceano da Alegria.


(tradução por Rafael Arrais)

***

Abaixo, segue uma prévia (de parte) da capa de nossa edição. Ela será vendida como e-book na Amazon, Google Play e demais lojas (pelo preço de um café!). E possivelmente teremos ainda uma versão impressa à venda em alguns sites internacionais da Amazon (como de costume, não temos a intenção de competir no mercado impresso nacional, que já conta com uma tradução em português).

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2.12.21

A vida de Éliphas Lévi

Prefácio de Dogma e Ritual da Alta Magia, por Arthur Edward Waite, retirado da sua tradução inglesa de 1896. Alguns trechos foram suprimidos em prol da fluidez da leitura e de um melhor entendimento do público leigo nos detalhes da história do ocultismo europeu.

Arthur Edward Waite (1857-1942) foi um célebre poeta, tradutor e ocultista estadunidense, que é mais conhecido por ter sido o cocriador do Tarot de Rider-Waite, ou Tarot de Waite-Smith.

Tradução ao português por Rafael Arrais.


ÉLIPHAS LÉVI ZAHED é o pseudônimo adotado por Alphonse Louis Constant em seus escritos acerca do ocultismo, e aparentemente se trata do equivalente hebraico do seu nome de batismo. O autor de Dogma e Ritual da Alta Magia (Dogme et Rituel de la Haute Magie no original, em francês) nasceu em circunstâncias humildes no ano de 1810, e era o filho de um sapateiro. Como demonstrou ter uma inteligência acima da média desde cedo, o padre da paróquia local desenvolveu um amável interesse pelo garoto, e o trouxe para a fundação de São Sulpício, onde ele recebeu educação gratuita, sendo encaminhado para a vida do sacerdócio. Ao que tudo indica, ele atravessou o período de estudos no seminário sem desapontar as expectativas que se formaram em torno dele. Além de grego e latim, ele provavelmente adquiriu um considerável conhecimento do hebraico; entretanto, seria um erro supor que qualquer uma de suas obras nos trouxe realizações linguísticas notáveis.

Ele entrou em ordens religiosas como noviço e, pouco a pouco, acabou se tornando um diácono, portanto vinculado a um voto de celibato perpétuo. Porém, não muito tempo depois disso ele foi expulso de São Sulpício por expressar opiniões contrárias aos ensinamentos da Igreja Católica. Os relatos existentes acerca de sua expulsão são nebulosos, e trazem elementos inverossímeis como, por exemplo, de que ele havia sido enviado por seus superiores eclesiásticos para discursar em igrejas de cidades afastadas, onde pregou com grande eloquência, mas em dados momentos se desviou da doutrina oficial da Igreja – no entanto, eu creio que não há precedentes para pregações de diáconos na Igreja Latina. O certo é que, para além da biografia que circulou por alguns anos na França, nós temos pouquíssimo material disponível sobre a vida de “Abbé” Constant.

Em todo caso, ele foi enviado de volta ao mundo lá fora, ainda com as limitações de seus votos religiosos, mas com sua carreira sacerdotal barrada. O que ele fez da vida, ou como sobreviveu ao longo dos anos seguintes, nos é desconhecido. Fato é que lá pelo ano de 1839 ele tinha adquirido alguns amigos no meio literário, incluindo Alphonse Esquiros, o autor esquecido de um romance fantástico intitulado O Mago; e Esquiros eventualmente o apresentou a Simon Ganneau, uma espécie de profeta naqueles tempos, que usava vestidos de mulher e morava em um sótão, de onde pregava um tipo de iluminismo político. Ele era, de fato, a reencarnação do rei Louis XVII, “de volta à Terra para cumprir um trabalho de regeneração”. Constant e Esquiros, que um dia visitara Ganneau por pura zombaria, foram seduzidos por sua eloquência, e tornaram-se seus discípulos. Alguns elementos do socialismo devem ter se mesclado com o iluminismo visionário de Ganneau, e tudo isso parece ter frutificado no cérebro de Constant, o que eventualmente deu origem a um livro, ou panfleto ideológico, intitulado A Bíblia da Liberdade (La Bible de la Liberte), para o qual só se dá alguma importância hoje em dia pelo fato de ter levado o autor a ser preso por seis meses. Há alguma razão para supormos que Esquiros teve uma parte tanto na escrita da obra quanto na punição de Constant.

Com o fim do período de encarceramento, Constant retornou destemido, ainda seguindo seu profeta, e iniciou uma espécie de missão apostólica pelas províncias francesas, falando diretamente ao povo, e sofrendo, conforme ele mesmo nos contou, uma perseguição dos invejosos. No entanto, o tal profeta desistiu de seguir com suas próprias profecias, presumivelmente por falta de uma audiência para a qual falar, e assim o discípulo retornou à Paris, onde, a despeito de seus votos como um diácono, ele teve um envolvimento amoroso com uma bela garota de dezesseis anos, chamada Marie-Noémi Cadiot. Com ela, ele eventualmente teve dois bebês, que infelizmente morreram ainda na tenra infância. Pouco depois de tais eventos trágicos, ela o abandonou. Dizem que, além de belíssima, ela foi muito talentosa, e mais tarde veio a se tornar uma escultora de renome.

Quando exatamente Alphonse Louis Constant se iniciou no estudo das ciências ocultas é algo incerto, como quase tudo em sua vida. A declaração dada no Dogma e Ritual da Alta Magia, de que no ano de 1825 ele entrou em um caminho fatídico que, através do sofrimento, o encaminhou ao conhecimento, não deve ser entendida no sentido de que sua iniciação ocorreu exatamente nesse período, que de fato se deu em sua adolescência. Ele obviamente se refere a sua entrada em São Suplício, o que, em certo sentido, o levou ao sofrimento, quiçá à ciência, e certamente lhe conduziu a uma boa educação. Todo o episódio com Ganneau o conectou a uma forma de transcendentalismo, ao menos na parte da alucinação, e pode ter tido algum impacto decisivo ou duradouro em sua mente. Dessa forma, o período em que Constant se devotou a fundo ao estudo do ocultismo muito provavelmente se deu entre a separação de sua mulher e a publicação de Dogma e Ritual da Alta Magia, em 1854.

Nesse interim ele também achou tempo para escrever o extenso Dicionário de Literatura Cristã (Dictionnaire de Littérature Chrétienne), que no entanto não faz nenhum tipo de menção às ciências ocultas – de fato, nele Constant veste a máscara da ortodoxia, e suas palavras estão perfeitamente alinhadas à Igreja em Roma. Em 1860, ele publicou História da Magia (Histoire de la Magie); no ano seguinte, veio A Chave dos Grandes Mistérios (La Clef des Grands Mystères). Em 1864 e 1865 chegaram, respectivamente, Fábulas e Símbolos (Fables et Symboles) e A Ciência dos Espíritos (La Science des Esprits).

Se em sua juventude Constant não dispunha de recursos suficientes, no restante de sua vida a sua situação financeira não teve melhora significativa. Seus livros nunca chegaram a ter grandes tiragens, mas lhe garantiam admiradores e alguns pupilos, de quem volta e meia ele recebeu remuneração por cursos de escrita ou aconselhamentos em geral. Ele costumava circular com vestes de mago medieval, o que pode ser perdoado pelo fato de ter sido um ocultista francês. Constant passou incólume pela guerra franco-prussiana, e eventualmente substituiu a crença no socialismo por uma espécie de “imperialismo transcendentalista”. Em 1875, sua vida contraditória se encerrou em meio ao trabalho na Igreja que por pouco não o expulsou de seu seio. Ele nos deixou diversos manuscritos, muitos dos quais se encontram em processo de publicação. Também há inúmeras cartas enviadas a seus pupilos, como é o caso do Barão Spedalieri, que preservou farta correspondência entre os dois – que, de certa maneira, é mais valiosa que muitos dos livros já publicados [Nota do Tradutor: essa correspondência hoje se encontra no livro Curso de Filosofia Oculta, publicado pela Editora Pensamento].

Nenhum divulgador moderno das ciências ocultas pode ser comparado a Éliphas Lévi. Já entre os antigos, apesar de muitos estarem em maior patamar, nenhum nos é tão interessante de ser estudado, pois ele representa o próprio espírito dos tempos modernos tentando reinterpretar, por vezes forçadamente, os oráculos da antiguidade. É óbvio que há nomes mais grandiosos, mas ninguém excede o fascínio que o mago francês trouxe para a literatura ocultista. Os demais são destinados aos especialistas e aos típicos estudantes sérios capazes de escavar significado em tomos quase incompreensíveis, enquanto nos livros de Lévi conseguimos apreciar de fato a leitura, da mesma forma que podemos apreciar poetas modernos. No texto de Lévi as concepções antigas são devidamente revisitadas e consideradas, mas de cada parágrafo emana um novo espírito primaveril.

Por outro lado, o período de estudo que veio a produzir Dogma e Ritual da Alta Magia como resultado literário não é indicado com exatidão na vida do autor, e tampouco considero que Lévi era capaz de realizar o tipo de estudo profundo e extensivo dos tomos antigos que pudesse produzir resultados mais historicamente consistentes. Assim, seu texto é ao mesmo tempo intenso e fascinante, mas sem muita profundidade de análise; esplêndido em suas generalizações, porém pobre em detalhes. Na realidade, como guia histórico, não pode sequer ser recomendado. Aliás, o seu História da Magia deixa isso muito evidente. Como um ensaio filosófico é admirável, e não há na literatura ocultista nada que chegue perto da sua excelência de escrita, mas ele está inundado de erros históricos. Dessa forma, podemos dizer que se trata de um trunfo literário, mas não de um livro erudito. Para falar a verdade, não creio que Lévi sequer se deu ao trabalho de ler as obras completas dos autores citados.

O seu método de estudo se aproxima mais do verbo francês parcourir (navegar) do que de outro verbo do seu idioma, approfondir (aprofundar). Ou seja, ele mais navega pela história oculta do que se aprofunda em seus detalhes. Assim, não me parece irracional afirmar que se Lévi tivesse sido deixado a sós, jamais teria avançado tanto nas ciências ocultas, pois sua vivacidade teria sido rapidamente apagada pelos horrores da pesquisa em si. Mas, de alguma forma, ele eventualmente encontrou algum círculo iniciático que encurtou enormemente suas necessidades de pesquisa, e o colocou no caminho certo. Aí está, portanto, a importância de Dogma e Ritual da Alta Magia. Ele carrega a voz da iniciação, embora disfarçada. De qual escola, não faz diferença, até mesmo porque nada pode ser dito a céu aberto nesse ramo. E, nesse caso, eu só posso pedir a meus leitores que confiem em mim em tal julgamento.

Lévi ainda estava no meio do caminho de ascensão nos graus iniciáticos quando publicou Dogma e Ritual da Alta Magia. E, se ele havia sido expulso de São Sulpício por ter se desviado em demasia de sua estrutura doutrinária, é provável que tenha sido expulso de sua ordem por haver exposto o que não devia ser exposto. Se foi assim, tais fatos explicariam, em primeiro lugar, a importância dessa obra, pois ela carrega um tipo de conhecimento que não deriva unicamente da leitura de livros de ciências ocultas; em segundo lugar, a falta de detalhamento da mesma, pois ela não é o resultado de um conhecimento completo e absoluto dos temas em questão; e, finalmente, eu penso que isso também evidencia o motivo de vermos tantas retratações e subterfúgios nos livros que se seguiram à sua publicação. Tendo avançado tanto no desvelar dos Mistérios, Lévi naturalmente tentou voltar atrás, e assim como ele se esforçou para seguir o modo de vida eclesiástico em sua adolescência, da mesma forma ele se empenhou em fazer as pazes com tal iniciação ao jogar areia nos olhos dos leitores de suas demais obras. Entretanto, ele falhou em ambos os casos.

Só me resta declarar, portanto, o que eu pessoalmente acredito ser a maior limitação de Lévi: o fato de ter sido um transcendentalista, mas não um místico. Além disso, ele era um cético quanto a qualquer tipo de comunicação com o mundo dos espíritos. Ele define o misticismo como a sombra que limita a luz do intelecto, e não perde oportunidades para destacar seu falso iluminismo, seus excessos e futilidades. Finalmente, não há via direta possível do homem para Deus em seu sistema, e as avenidas de Deus para o homem estão atravancadas por todo tipo de sacramento. Dessa forma, o homem deve se contentar apenas com a intelectualidade se deseja permanecer no reino da razão. A esfera da experiência material é onde deve residir todo o seu conhecimento – além dela, só nos resta confiar em presunções e analogias.

Eu suponho que essa não é a doutrina ensinada pela maioria das ciências ocultas, muito menos o resultado final da via iniciática, da “grande iniciação”. A ordem das coisas do mundo visível tem o seu complemento no invisível, e esse tipo de analogia nos leva a um melhor discernimento da realidade, de modo que todo o processo depende mais de um aprimoramento da nossa própria percepção do que de seguir alguma lei rígida que governa a manifestação de todas as coisas, visíveis e invisíveis. A iniciação nos leva aos primeiros degraus da escada para o mundo invisível, e nos instruí em como subi-la, mas efetivamente subir seus degraus depende inteiramente de nós. As vozes de alguns que nos precederam podem ser ouvidas acima, mas elas também pertencem aqueles que ainda estão subindo – pois que vão morrendo, pouco a pouco, dentre aqueles que alcançaram o Silêncio. E é para lá que nós também devemos ascender sós, lá onde a iniciação já não poderá nos auxiliar, lá na fronteira do limiar, de onde nenhum viajante retorna, e cuja luz só está envolta em mistérios para aqueles que se encontram abaixo.

LONDRES, Setembro de 1896.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search [Éliphas Lévi]; [ao longo] Google Image Search [Igreja de São Sulpício, em Paris; Estátua de Baphomet, de acordo com a ilustração original de Lévi em Dogma e Ritual da Alta Magia].

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13.9.21

Minha tradução de 1984 publicada pela Faro Editorial

Em 2020 eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial e me tornei definitivamente um tradutor profissional. Este ano negociei mais uma das minhas traduções com a Faro, o célebre 1984 de George Orwell.

Logo abaixo trarei imagens da edição, que já foi lançada. Eu não recebo direitos autorais pela venda do livro, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês o comprem na loja da Amazon utilizando o link abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as imagens do livro:

Comprar 1984 na Amazon

***

Obs.: 1984 foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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21.5.21

Minha tradução de A Arte da Guerra publicada pela Faro Editorial

Ao longo do ano passado (2020) eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial. Duas delas já foram publicadas: O Pequeno Príncipe (de Antoine de Saint-Exupéry), ainda em 2020, e A Revolução dos Bichos (de George Orwell), no início deste ano. Como já tinha dito, havia uma terceira tradução sendo negociada, e hoje posso revelar qual era: A Arte da Guerra, de Sun Tzu.

Logo abaixo trarei imagens da edição, que já foi lançada. Eu não recebo direitos autorais pela venda do livro, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês o comprem na loja da Amazon utilizando o link abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as imagens do livro:

Comprar A Arte da Guerra na Amazon

***

Obs.: A Arte da Guerra foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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6.5.21

Não, esse blog não morreu

Há pouco mais de 5 anos eu fui demitido de uma empresa da área de TI na qual já estava há quase 12 anos. Na maior parte desse tempo, por conta de ter ido morar noutro estado, eu trabalhei em home-office. Muito antes da pandemia e das reuniões por videochamada, eu já tinha meu “escritório em casa”, e isso certamente explica como arranjei tempo para tocar esse blog. Tanto que, logo após a demissão, minha preocupação não era tanto ficar desempregado (um webdeveloper front end não costuma ter muita dificuldade de se realocar, mesmo na crise), mas sim de como diabos manter o blog vivo após assumir um novo emprego “tradicional”, do tipo que lhe obriga a se deslocar até outro local da cidade, perdendo justamente as horas preciosas que eu até então usava para a escrita.

Foi nesse ano de 2016, não mais que semanas após a minha demissão, que eu tive a sorte de encontrar o Léo Lousada para tomar um chope. Ele, que é de São Paulo/SP, estava visitando Campo Grande/MS por conta de uma questão de trabalho, e ficou hospedado num hotel a alguns quilômetros de onde moro. Marcamos de nos ver num bar aqui pertinho, de modo que eu fui a pé, e ele veio de uber. Para quem não sabe, o Léo é um dos criadores e apresentadores do canal Conhecimentos da Humanidade, que hoje conta com quase 400 mil inscritos no YouTube, mas que naquela época ainda tinha somente poucas dezenas de milhares. Bem, eu já conhecia o Léo dos Simpósios de Hermetismo que havia assistido em São Paulo, mas foi após a nossa interação por conta do Conhecimentos da Humanidade que nos tornamos mais próximos.

Em todo caso, o que importa é que naquela noite dois hermetistas tomavam chope amigavelmente, mas um estava empregado, e o outro (talvez por ser de Capricórnio) estava consideravelmente aflito. Uma aflição do tipo que às vezes nem o estoicismo consegue amainar. Honestamente, eu não me lembro do que o Léo me falou, mas conhecendo ele, provavelmente teve algo a ver com estar tranquilo e compreender que por vezes essa é a forma do Universo lhe encaminhar para uma outra via, mais essencial. E hoje é muito claro para mim que ele tinha razão, mas eu não conseguia entender como ser demitido estaria me ajudando a ter mais tempo para a escrita. Eu não ganho mesada de pais ricos, e ainda pago aluguel.

Ora, mas se não me lembro do que ele disse exatamente, me lembro de outra coisa: ao nos despedirmos, ele optou por voltar caminhando em plena noite para o hotel. De fato, o clima estava agradável e ele seguiria por uma avenida relativamente movimentada (e, portanto, relativamente segura), mas como andava aflito eu não pude evitar perguntar:

“Vai andar tudo isso a pé, tem certeza?”

“Tenho, quero conhecer a cidade.”

Era o único tempo que o Léo teria para conhecer a cidade. De fato, ele sempre trabalhou muito. Não faço ideia de como consegue tocar tantos projetos em paralelo com o emprego formal. Eu não conseguiria, mas cada um é cada um. O fato é que a expressão tranquila dele, naquela noitinha, ao se despedir, é a imagem que me marcou a memória: ele tinha com ele o tipo de estoicismo, o tipo de paz mental, que eu precisava naquele momento. Muitas vezes um amigo ajuda o outro pelas vias mais esquisitas, principalmente um amigo hermetista. O Léo me ajudou ao me lembrar de um estado de consciência que eu havia perdido naquele momento. E ele nem mesmo precisou se esforçar ou pensar em algo importante para dizer: bastou apenas ser ele mesmo, e dividir alguns chopes comigo naquela noite.

É fácil entender hoje o que se seguiu de lá para cá. Mas você nunca percebe como tudo se encaminha para esta ou aquela direção quando se sente perdido no meio do turbilhão da própria mente, e suas elucubrações.

Literalmente dias após ser demitido eu consegui manter um trabalho do tipo freelancer (temporário) com uma grande empresa do ramo de alimentos. A questão é que o contrato durava 3 meses. Ou seja, em 3 meses eu precisaria estar novamente empregado, e dificilmente voltaria a trabalhar em home-office. Nesses meses eu participei de um longo processo de seleção para a maior empresa de TI do estado onde moro (MS). Me lembro vividamente do último dia do processo, onde a vaga ficaria entre eu e um outro sujeito, um descendente de japoneses gente boa que havia acabado de ter um filho com a esposa, e também ficado desempregado por conta da crise econômica no país. Me lembro de como olhei para os olhos dele quanto o cumprimentei a primeira vez e tive uma intuição muito forte que dizia mais ou menos assim: “A vaga é dele, eu preciso perder essa vaga”. Então, eu simplesmente me autossabotei no restante da avaliação. Talvez ele tivesse ganhado a vaga ainda assim, mas de alguma forma eu já sabia que aquele não seria o meu futuro.

Minha intuição costuma ter razão. O contrato de 3 meses foi renovado por mais 3, depois por mais 4, eventualmente a cada 6 meses. Com isso alguns anos se passaram, e eu decidi me dedicar com mais afinco as traduções de grandes autores em domínio público, algo que eu havia iniciado em 2013. Ora, se até então as Edições Textos para Reflexão tinham servido para que eu pudesse autopublicar e-books que eram traduções de alguns dos melhores livros que li na vida, dali em diante eu decidi que teria de me dedicar também a alguns best-sellers que talvez não estivessem na minha lista de “melhores livros da história”.

Eu não imaginava que um dia poderia viver somente da venda de e-books, é claro. Primeiro porque não abriria mão de vendê-los “pelo preço de um café” (até hoje eles custam entre R$0,98 e R$5,99 na Amazon, afora os gratuitos); segundo porque ainda era um mercado um tanto pequeno e relativamente estagnado. Mesmo assim, foi mais ou menos a partir dessa época que O Príncipe de Maquiavel, A Metamorfose de Kafka e o Fausto de Goethe surgiram no catálogo. O primeiro sendo um estrondoso sucesso de vendas desde 2017; o segundo com suas idas e vindas às listas de mais vendidos; e o último, por conta da concorrência de outras editoras digitais, um retumbante fracasso. Claro que nem sempre são traduções minhas: no caso do Fausto, por exemplo, o tradutor também já havia entrado em domínio público.

Mas fato é que minhas vendas de e-books tinham se estabelecido como um consistente complemento salarial, de modo que além de eu continuar como freelancer, ainda poderia trabalhar menos horas do que anteriormente. O tempo para a escrita estava mais do que assegurado!

Então chegou 2019. Meu primeiro filho nasceu no início do ano, e em Maio eu perdia definitivamente o contrato que havia mantido como freelancer. Ocorre que Maio de 2019 não estava tão longe do dia 01/01/2021, data em que a obra de George Orwell, peso pesado da literatura do século XX, entraria em domínio público. Eu ficaria seriamente no vermelho nesses cerca de 18 meses, mas eu tinha dinheiro guardado para isso; e, além do mais, se a partir de meados de 2021 eu conseguisse viver só da venda de e-books, estaria garantindo não somente o tempo para a escrita [1], como algo até mais valioso do que isso: o tempo para estar bem perto do meu filho, para vê-lo dar os primeiros passos e falar as primeiras palavras. Era um sonho que em realidade não tinha preço.

Em meados do início de 2020, entretanto, o inimaginável aconteceu: após cerca de um século, o mundo vivia uma nova pandemia. Enquanto o país se trancava em casa, enquanto o mundo realizava conjuntamente a maior quarentena de sua história, as vendas de e-books simplesmente decolaram! Fazia todo sentido, afinal: é MUITO mais seguro comprar online, mas ao contrário de um livro impresso, um e-book chega ao seu dispositivo de leitura em questão de segundos. Assim, em Março de 2020 eu já havia alcançado a meta de renda que planejava para 2021. Mas não fazia tanto sentido comemorar uma vitória dessas enquanto as estatísticas de mortes pela Covid-19 só aumentavam.

Foi quando a curva de mortes caiu com certa consistência, mais para o fim de 2020, que eu me permiti comemorar o sonho. Vale lembrar que eu não sabia exatamente o que era um e-book até o fim de 2012 (se me perguntasse, diria que é um PDF, mas um e-book é muito mais que isso), e cerca de 8 anos depois eu estava vivendo inteiramente da venda deles. Por isso o caminho para a chamada Verdadeira Vontade é algo tão imprevisível: por mais que você possa ser um artista, alguém criativo, quiçá intuitivo, o Universo sempre será infinitamente mais criativo do que você. Por isso também que nesse caminho o amor pelo que realizamos sempre contará MUITO mais do que quaisquer expectativas de resultado.

Tudo isso para finalmente explicar porque esse blog não morreu:

Sim, eu estou há meses sem escrever por aqui, e isso teve uma boa razão: George Orwell. Desde a metade de 2020 eu tenho me dedicado à tradução de suas principais obras: A Revolução dos Bichos e 1984. Hoje, ambas já foram lançadas. A primeira, lançada pontualmente em 01/01/2021, é o maior sucesso das Edições Textos para Reflexão, tendo alcançado o #1 geral na Loja Kindle da Amazon, e estacionado entre os 50 mais vendidos desde então. A segunda, que levou quase 8 meses e, por isso, só pôde ser lançada no final de Abril, está brigando com a concorrência para também alcançar os 50 mais vendidos, quiçá estacionando um bom tempo por lá. Esse trabalho de tradução (particularmente no caso de 1984) me tomou absolutamente todo o tempo livre, foi algo dificílimo, mas acabou. Um dia, quando voltar a abordar Orwell aqui no blog, falarei mais sobre isso.

Não, esse blog não morreu. Para falar a verdade, está mais vivo do que nunca. E tudo indica que continuará assim. Mesmo sem projeto de financiamento coletivo, tenho a sorte de ter alcançado a condição financeira necessária para “viver da escrita”. Para alguém como eu, é como a sensação de ser milionário, só que melhor.

E, se ainda não comemoro mais, é pelos mais de 400 mil cadáveres do lado de fora...

***

[1] Nesse meio tempo eu também cheguei a criar um canal no YouTube, homônimo ao blog. Ao contrário da escrita, no entanto, a criação de vídeos não é exatamente o meu “habitat natural”, e eu não tenho certeza se algum dia voltarei a produzir vídeos com regularidade. Nada me impedirá, por outro lado, de criar vídeos pontuais (quando der na telha).

Crédito das imagens: [topo] Mike Tinnion/unsplash; [ao longo] Garçom anônimo (meu encontro com o Léo Lousada; estou na esquerda da imagem).

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2.2.21

O ano em que virei tradutor profissional

Muitos aqui devem saber que tenho trabalhado há alguns anos com tradução, edição e autopublicação de e-books e livros impressos na Amazon e outras lojas. Bem, para quem não sabe, ou não conhece a história toda, ela está bem relatada noutro texto aqui do blog, O ano em que virei editora.

Pois bem, ocorre que até pouco tempo atrás eu talvez nem pudesse ser considerado um tradutor profissional, mas sim alguém que traduzia por hobby. Isso mudou. Mudou não somente porque com o advento da pandemia de COVID-19 as vendas de e-books deram um salto, e eu passei a conseguir viver somente disso, mas também, e talvez o mais importante nesse caso, pelo fato de eu ter sido procurado por uma editora para vender minhas traduções!

Sim, após tanto enviar meus originais para diversas editoras ao longo de anos e anos, calhou de eu ser publicado por uma delas sem nem precisar ir atrás dos seus editores: foram eles que vieram “bater a porta” da minha caixa de e-mail.

É claro que fui publicado não como autor, e sim como tradutor, mas fato é que hoje também estou presente em estantes de livrarias físicas, não somente em lojas virtuais.

Ao longo do ano passado (2020) eu vendi três das minhas traduções à Faro Editorial. Duas delas já foram publicadas: O Pequeno Príncipe (de Antoine de Saint-Exupéry), ainda em 2020, e A Revolução dos Bichos (de George Orwell), no início deste ano. Quanto à terceira tradução, ainda não foi publicada, e não posso revelar qual é.

Logo abaixo trarei imagens de ambos os livros. Eu não recebo direitos autorais pela venda deles, pois a negociação de uma tradução se dá por um pagamento único, como a venda de um produto mesmo. No entanto, caso vocês os comprem na loja da Amazon utilizando os links abaixo, eu ganharei uma comissão praticamente equivalente à parte que um autor leva de direitos autorais :)

Eis as obras:

O Pequeno Príncipe

Comprar O Pequeno Príncipe na Amazon

A Revolução dos Bichos

Comprar A Revolução dos Bichos na Amazon

***

Obs.: A Revolução dos Bichos foi publicado pelo selo Avis Rara, da Faro Editorial.

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1.10.20

Traduzindo Orwell: 1984

No primeiro dia de 2021 entra em domínio público em todo o planeta (exceto os EUA) toda a obra de Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu célebre pseudônimo: George Orwell.

Orwell foi um peso pesado da literatura do século XX, e duas de suas obras são best-sellers praticamente eternos: 1984 e A Revolução dos Bichos. Desde o início de Maio deste ano eu tenho me dedicado a traduzir ambas. A última, uma tradução consideravelmente mais curta, foi finalizada há algumas semanas, e recentemente eu finalmente dei início à tradução da primeira.

Sim, é isso mesmo: neste momento eu, Rafael Arrais, estou no início da tradução de 1984. É importante deixar isso divulgado aqui, pois tenho certeza de que não serei o único a publicar traduções de Orwell ano que vem, seja na Amazon ou nas outras plataformas de autopublicação.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem em grande estilo, com lançamentos das traduções das obras já citadas em versão digital e impressa [1]; além de, pela primeira vez na história da editora, estarmos preparando um lançamento na própria língua inglesa. Quem viver verá!

Na sequência, trago um trecho da minha tradução de 1984:


Parte 1, Capítulo 1

[...] Winston despertou de seus devaneios e se acomodou melhor na cadeira. Soltou um arroto. Era o gim em seu estômago começando a subir.
Seus olhos voltaram a focar a página. Constatou que durante o tempo em que esteve ali sentado em devaneios, sentindo-se só e desamparado, havia continuado a escrever, numa espécie de ação automática. E já não era mais a letra pequenina e desajeitada de antes. A sua pena havia deslizado como uma libertina através do papel macio, escrevendo em letras grandes e nítidas:

ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO
ABAIXO O GRANDE IRMÃO

Muitas vezes. Elas preenchiam a metade de uma página.
Ele não conseguiu deixar de sentir uma pontada de pânico. Era absurdo, já que ter escrito aquelas palavras não era nada mais perigoso do que o próprio ato de iniciar um diário; mesmo assim, por um momento, teve a tentação de rasgar as páginas já escritas e abandonar por completo aquela ideia toda.
Não o fez, porém, porque sabia ser algo inútil. Quer tivesse ou não tivesse escrito ABAIXO O GRANDE IRMÃO, era algo inteiramente irrelevante. Não fazia a menor diferença prosseguir ou não com aquele diário. A Polícia do Pensamento o descobriria de um jeito ou de outro. Ele havia cometido – ainda que não tivesse escrito nada no papel – o crime essencial, que englobava todos os demais dentro de si. Era chamado de pensamento-crime. O pensamento-crime não era algo que pudesse ser ocultado indefinidamente. Seria possível escondê-lo durante algum tempo, às vezes por anos a fio, no entanto mais cedo ou mais tarde o criminoso sempre era pego.
E era sempre à noite – as prisões invariavelmente ocorriam à noite. A interrupção súbita do sono, a mão bruta sacudindo o ombro, as luzes cegando os olhos, o círculo de rostos impiedosos em torno da cama. Na grande maioria dos casos não havia julgamento, nem mesmo o registro da prisão. As pessoas simplesmente desapareciam, sempre durante a noite. Seus nomes eram removidos dos registros, todas as menções a qualquer coisa que tivessem realizado eram apagadas, suas existências anteriores eram negadas e logo mais totalmente esquecidas. Você era abolido, aniquilado: VAPORIZADO era o termo corriqueiro.
Por um momento, Winston foi tomado por um ataque de histeria. Assim, foi logo escrevendo, em garranchos apressados:

me darão um tiro que isso me importa me darão um tiro na nuca não me importa abaixo o grande irmão eles sempre atiram na nuca não me importa abaixo o grande irmão...

Ele se recostou outra vez na cadeira, ligeiramente envergonhado de si mesmo, e largou a pena. Logo em seguida levou um susto imenso. Batiam na sua porta.
Já?! Ele permaneceu sentado, imóvel como um rato, esperando que a pessoa fosse embora sem insistir. Mas não, bateram outra vez. Seria ainda pior se atrasar para atender. Com seu coração batendo tal qual um tambor – mas com o rosto provavelmente sem expressão alguma, fruto do velho hábito – ele se levantou e se dirigiu à porta, pé ante pé.

(tradução de Rafael Arrais)


***

[1] Infelizmente será praticamente impossível finalizar a longa e desafiadora tradução de 1984 até o início de 2021, mas espero publicá-la até a metade do ano, possivelmente ainda no primeiro trimestre. Já a minha tradução de A Revolução dos Bichos será lançada logo no início de 2021.

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