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31.7.13

Sobre a leitura e os livros

Texto de Arthur Schopenhauer em "A arte de escrever” (Ed. LP&M) – trechos do capítulo “Sobre a leitura e os livros”. Tradução de Pedro Süssekind. As notas ao final são minhas.

A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o prazer e ocupam o pensamento [1]. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor.

Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? [2]

Em consequência disso, que lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar em nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar.

Mas é este o caso de muitos eruditos: leem até ficarem burros. Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que um trabalho contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo a sua elasticidade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios.

E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago [...], também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras. Com isso não se chega à ruminação: mas é por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos [3].

[...] Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele deixou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos [4].

Nenhuma qualidade literária pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aparição em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só assim possuiremos tais qualidades in actu.

Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever, na medida em que ela nos mostra o uso que podemos fazer de nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência deles. Sem eles, não aprenderemos coisa alguma pela leitura, a não ser uma forma fria e morta, de modo que não nos tornaremos nada mais do que imitadores banais [5].

[...] Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo. Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade. [...] Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos livros bons e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos [6].

Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico literário compactuam [7].

Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura o seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo.

[...] Como as pessoas leem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das ideias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama [8].

Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público [9]. [...] Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com frequência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito.

Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, e o tempo e a energia são limitados.

***

[1] Vale lembrar que na época de Schopenhauer os pobres trabalhavam por quase todas as horas despertas de seus dias, sobrando muito pouco tempo livre para o lazer que, em todo caso, devido ao analfabetismo geral, geralmente nada tinha o que ver com livros.

[2] O autor faz um elogio da leitura como “fuga da realidade” sem se esquecer de seu maior perigo: a alienação pela fossilização da capacidade de pensar por si mesmo. Na sequência ele fala do problema e de como remedia-lo.

[3] Apesar da metáfora meio bruta com a ruminação, Schopenhauer está falando de algo essencial a todo leitor, estudante ou buscador da sabedoria: a reflexão. Não à toa este blog tem o título que tem :)

[4] Neste curto parágrafo o autor resume todo o problema da linguagem e das palavras: serão sempre, como bem disse o poeta John Galsworthy, tão somente cascas de sentimento. Nenhum manual de natação poderá algum dia nos fazer experimentar exatamente o que sente aquele que mergulha no mar – somente saberemos ao mergulharmos nós mesmos.

[5] Khalil Gibran resumiu o tema numa frase: “Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento”. Alcançar, desvelar e desenvolver aos próprios dons naturais é e sempre será muito mais importante do que o mero acúmulo mental de frases, citações e histórias de outros autores.

[6] Se já criticava ferozmente a crescente produção de livros irrelevantes naquela época, imagina o que o autor acharia do atual mercado editorial!

[7] Não é de surpreender que Schopenhauer tenha feito tão poucos amigos, e tantos inimigos, no meio acadêmico de sua época. Entretanto, apesar de não medir as palavras que utilizava, ele falava muitas verdades inconvenientes. De fato, até hoje as coisas não mudaram quase nada.

[8] As Edições Textos para Reflexão foram criadas também no intuito de remediar um pouco este quadro que, afinal, dura até hoje. Lá irão encontrar grandes obras em domínio público, e pelo preço de um café (no caso das versões digitais). Obs.: Infelizmente não há nenhuma tradução de Schopenhauer para o português em domínio público, mas temos uma de Nietzsche já publicada.

[9] Muito embora, em raríssimas ocasiões, o “grande público” seja incitado a ler obras grandiosas, como por exemplo os livros de J. R. R. Tolkien, na ocasião do lançamento das versões deles nos cinemas mundiais.

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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