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4.8.13

Astrum

Texto de Paracelso em "Filosofar pelo fogo” (Ed. Madras) – trechos das págs. 181 e 182. Tradução de Idalina Lopes. O comentário ao final é meu.

Tratemos agora do terceiro fundamento sobre o qual repousa a arte médica, ou seja, a alquimia. Se o médico não lhe dedica o maior cuidado e dela não adquire uma profunda experiência, toda sua arte corre o risco de permanecer inútil. Pois a Natureza é tão sutil, tão penetrante em suas diversas produções, que dela só podemos extrair seus benefícios com o auxílio de uma grande arte.

De fato ela não revela nada que se mostre realizado por si mesmo, e cabe, portanto, ao homem finalizar seus desejos; essa realização leva o nome de alquimia.

Assim, o alquimista é semelhante ao padeiro que assa o pão, ao vinhateiro que faz o vinho, ao tecelão que confecciona um tecido. E consequentemente é alquimista qualquer um que leve ao termo desejado pela Natureza o que nela cresce para o proveito do homem.

Saibam que a respeito dessa arte deve ser feita aqui uma distinção notável: se alguém tomasse uma pele de carneiro e, deixando-a em estado bruto, a usasse como pelica ou casaco, seria o maior exemplo da grosseria e inabilidade em comparação com a arte do peleteiro e do fabricante de tecido. Tão grosseiro e inábil é aquele que, recebendo algum dom da Natureza, não o usa.

[...] Mas hoje todos os ofícios manuais escrutaram a Natureza e adquiriam a experiência de suas propriedades, de forma que eles sabem, em todas as operações que são as suas, seguir suas vias e extrair o que nela existe de mais elevado.

Ora, hoje isso não é mais posto em prática em medicina – onde, no entanto, isso seria o mais necessário – e, que, no estado em que ela se encontra hoje, é a mais grosseira e inábil das artes.

[...] Ora, a própria Natureza o avisa, por meio das coisas, ao que você deve se dedicar a fim de oferecer à sua medicina toda a sua eficácia. O que o verão efetua com as peras e com as uvas também deve ser introduzido e realizado na medicina. E, quando sua medicina seguir tais preceitos, você também estará em condição de obter bons resultados.

Por isso é necessário agora mais uma vez relembrar que sua medicina deve dar frutos como o verão o faz com os seus. Saiba que o verão age assim com a ajuda do Astrum, e não sem ele.

Quando o Astrum exerce no tempo desejado a sua influência, saiba mais uma vez que sua preparação médica deve lhe ser rigorosamente ordenada e submetida; pois é ele que realiza a obra de arte.

***

Comentário
Françoise Bonardel, filósofa e professora da Universidade de Sorbonne, é a responsável por essa grandiosa antologia de textos alquímicos publicada pela Madras. Segundo ela, o Astrum (em alemão, Gestirn) é um termo usado sobretudo desde Paracelso para designar o princípio ígneo (do fogo) capaz de fazer crescer e multiplicar as sementes das coisas.

O Astrum pressupõe, no entanto, para ser operativo, que a semente de cada coisa tenha sido excitada pelo calor celeste; e, portanto, que o microcosmo (pequeno mundo; humano) tenha sido colocado em estrita correspondência com o macrocosmo (grande mundo; cósmico), principalmente graças ao “fogo secreto” da Arte...

***

Ora, não é de surpreender que a Academia seja hoje tão “reticente” em lembrar que os primeiros grandes cientistas da história ocidental (ignorando-se os da Grécia antiga e, sobretudo, os da ilha de Samos) eram quase todos alquimistas, astrólogos, ocultistas, magos ou, no mínimo, filósofos da Natureza.

De fato, termos como “alquimia”, “arte médica”, “fogo secreto” ou “grande arte” são muito mal compreendidos pela quase totalidade dos cientistas atuais. Para que pudessem descobrir o real significado de tais termos há 500 anos atrás, teriam antes de se livrar de mais de um século de preconceitos estabelecidos pela Academia atual em torno de qualquer ideia que possa lembrar, mesmo que vagamente, a espiritualidade. Neste aspecto, nem os filósofos modernos lhes seriam de muita ajuda – teriam mesmo é que se debruçar nos livros de ocultismo (esta antologia poderia ser já um bom começo).

Mas, ainda assim, a mera leitura de antigos Manuais de Natação não seria o suficiente para lhes ensinar sobre a Experiência do Mergulho... Que diabos seria essa tal “arte médica”, esta “alquimia” de que nos fala Paracelso?

Não tenho nenhuma pretensão de lhes explicar, mas antes de tentar lhes despertar na alma alguma luz que pode estar ali guardada por falta de uso: Ora, “cumprir o desejo da Natureza”, “frutificar as sementes através da medicina”, “transformar chumbo em ouro”, tudo isso são metáforas, mas metáforas muito poderosas – que querem se comunicar com a alma, e não com a mera “intelectualidade” ou com o mero “raciocínio mecanicista”, conforme a Academia tende a interpretar o termo “razão” nos dias atuais.

Para ser um Médico como Paracelso, não basta decorar patologias e títulos de doenças catalogadas, é preciso também ser um médico de si mesmo, um conhecedor dos Astros, um cirurgião do Amor. Dessa forma, irá praticar a Grande Arte não somente nos pacientes, mas em toda a Vizinhança ao mesmo tempo, e assim cumprir a Vontade que vem do Alto. Irá, enfim, tratar das causas, e não dos efeitos.

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Crédito da imagem: Wikipedia

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31.7.13

Sobre a leitura e os livros

Texto de Arthur Schopenhauer em "A arte de escrever” (Ed. LP&M) – trechos do capítulo “Sobre a leitura e os livros”. Tradução de Pedro Süssekind. As notas ao final são minhas.

A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o prazer e ocupam o pensamento [1]. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor.

Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? [2]

Em consequência disso, que lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar em nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar.

Mas é este o caso de muitos eruditos: leem até ficarem burros. Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que um trabalho contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo a sua elasticidade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios.

E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago [...], também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras. Com isso não se chega à ruminação: mas é por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos [3].

[...] Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele deixou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos [4].

Nenhuma qualidade literária pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aparição em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só assim possuiremos tais qualidades in actu.

Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever, na medida em que ela nos mostra o uso que podemos fazer de nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência deles. Sem eles, não aprenderemos coisa alguma pela leitura, a não ser uma forma fria e morta, de modo que não nos tornaremos nada mais do que imitadores banais [5].

[...] Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo. Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade. [...] Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos livros bons e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos [6].

Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico literário compactuam [7].

Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura o seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo.

[...] Como as pessoas leem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das ideias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama [8].

Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público [9]. [...] Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com frequência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito.

Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, e o tempo e a energia são limitados.

***

[1] Vale lembrar que na época de Schopenhauer os pobres trabalhavam por quase todas as horas despertas de seus dias, sobrando muito pouco tempo livre para o lazer que, em todo caso, devido ao analfabetismo geral, geralmente nada tinha o que ver com livros.

[2] O autor faz um elogio da leitura como “fuga da realidade” sem se esquecer de seu maior perigo: a alienação pela fossilização da capacidade de pensar por si mesmo. Na sequência ele fala do problema e de como remedia-lo.

[3] Apesar da metáfora meio bruta com a ruminação, Schopenhauer está falando de algo essencial a todo leitor, estudante ou buscador da sabedoria: a reflexão. Não à toa este blog tem o título que tem :)

[4] Neste curto parágrafo o autor resume todo o problema da linguagem e das palavras: serão sempre, como bem disse o poeta John Galsworthy, tão somente cascas de sentimento. Nenhum manual de natação poderá algum dia nos fazer experimentar exatamente o que sente aquele que mergulha no mar – somente saberemos ao mergulharmos nós mesmos.

[5] Khalil Gibran resumiu o tema numa frase: “Homem algum poderá revelar-vos senão o que já está meio adormecido na aurora do vosso entendimento”. Alcançar, desvelar e desenvolver aos próprios dons naturais é e sempre será muito mais importante do que o mero acúmulo mental de frases, citações e histórias de outros autores.

[6] Se já criticava ferozmente a crescente produção de livros irrelevantes naquela época, imagina o que o autor acharia do atual mercado editorial!

[7] Não é de surpreender que Schopenhauer tenha feito tão poucos amigos, e tantos inimigos, no meio acadêmico de sua época. Entretanto, apesar de não medir as palavras que utilizava, ele falava muitas verdades inconvenientes. De fato, até hoje as coisas não mudaram quase nada.

[8] As Edições Textos para Reflexão foram criadas também no intuito de remediar um pouco este quadro que, afinal, dura até hoje. Lá irão encontrar grandes obras em domínio público, e pelo preço de um café (no caso das versões digitais). Obs.: Infelizmente não há nenhuma tradução de Schopenhauer para o português em domínio público, mas temos uma de Nietzsche já publicada.

[9] Muito embora, em raríssimas ocasiões, o “grande público” seja incitado a ler obras grandiosas, como por exemplo os livros de J. R. R. Tolkien, na ocasião do lançamento das versões deles nos cinemas mundiais.

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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18.7.13

Desiderata

Desiderata, do latim "coisas desejadas", é um poema que foi encontrado num livro da igreja de Saint Paul, em Baltimore, nos EUA. Muitos o atribuíram a um autor anônimo, e a data de sua publicação é igualmente considerada por muitos como o ano de 1692. Na realidade, se trata de um poema do escritor americano Max Ehrmann (1872–1945), e que foi escrito em 1927. O motivo da confusão é que em 1956 o poema foi inserido numa compilação de textos devocionais pelo reverendo que na época presidia a igreja de Saint Paul. 1692 é, em realidade, o ano de fundação desta igreja. Isso tudo, entretanto, não retira a grandiosidade do poema:


Vá placidamente por entre o barulho e a pressa e lembre-se da paz que pode haver no silêncio.

Tanto quanto possível, sem sacrificar seus princípios, conviva bem com todas as pessoas.

Diga a sua verdade calma e claramente e ouça os outros, mesmo os estúpidos e ignorantes, pois eles também têm sua história. Evite as pessoas vulgares e agressivas, elas são um tormento para o espírito.

Se você se comparar aos outros, pode tornar-se vaidoso ou amargo, porque sempre existirão pessoas superiores e inferiores a você.

Usufrua suas conquistas, assim como seus planos. Manter-se interessado em sua própria carreira, mesmo que humilde, é um bem verdadeiro na sorte incerta dos tempos.

Tenha cautela em seus negócios, pois o mundo é cheio de artifícios, mas não deixe isso te cegar à virtude que existe. Muitos lutam por ideais nobres e por toda parte a vida é cheia de heroísmo.

Seja você mesmo. Sobretudo, não finja afeições.

Não seja cínico sobre o amor, porque, apesar de toda aridez e desencantamento, ele é tão perene quanto a relva.

Aceite gentilmente o conselho dos anos, renunciando com benevolência às coisas da juventude.

Alimente a força do espírito para ter proteção em um súbito infortúnio. Mas não se torture com temores imaginários. Muitos medos nascem da solidão e do cansaço.

Adote uma disciplina sadia, mas não seja exigente demais. Seja gentil consigo mesmo.

Você é filho do Universo, assim como as árvores e as estrelas. Você tem o direito de estar aqui.

E mesmo que não lhe pareça claro, o Universo, com certeza, está evoluindo como deveria.

Portanto, esteja em paz com Deus, não importa como você O conceba.

E, quaisquer que sejam as suas lutas e aspirações no ruidoso tumulto da vida, mantenha a paz em sua alma.

Apesar de todas as falsidades, maldades e sonhos desfeitos, este ainda é um belo mundo. Alegre-se. Empenhe-se em ser feliz!

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robison

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21.5.13

Exercícios para manter o foco

Texto retirado do artigo "Por onde andam seus pensamentos?", de Ingrid Wickelgren, jornalista científica e editora da Scientific American nos EUA. Publicado no Brasil pela revista Mente Cérebro de Maio de 2013 (Duetto Editorial). Os comentários ao final são meus.


É possível pensar que a concentração seja uma forma intensa de atenção. Embora a capacidade de se manter atento a algo varie de pessoa para pessoa, como a maioria absoluta das habilidades também essa pode ser treinada e fortalecida. O importante é incorporar os exercícios ao cotidiano, ainda que sejam dedicados a eles apenas alguns minutos por dia, principalmente no início. Aos poucos, o tempo dedicado à atividade pode ser ampliado.

A seguir, algumas sugestões de exercícios simples que ajudam a ampliar a concentração:

1. De olho no horizonte
De pé, em posição ereta, com os braços ao longo do tronco, sinta o peso do seu corpo e olhe para um ponto fixo à sua frente. Desloque o peso do corpo para o pé esquerdo e flexione o joelho direito elevando-o lentamente enquanto inspira profundamente. Delicadamente, segure o joelho com as duas mãos por alguns segundos e mantenha a coluna naturalmente ereta. Faça cinco respirações profundas. Abaixe a perna enquanto solta o ar. Repita o procedimento levantando a outra perna. Ao terminar, pense que uma linha imaginária passa pela sua coluna vertebral e vai até o topo de sua cabeça, mantendo-o equilibrado em todos os seus movimentos.

2. Olhos abertos, olhos fechados
Esse exercício é feito em duas etapas. Primeiro, escolha um objeto qualquer, como um lápis, por exemplo. Coloque-o na sua frente. Olhe firmemente e concentre sua atenção nele. Deixe que o objeto ocupe todo o espaço mental durante o tempo que for possível. Aumente gradualmente o tempo de duração do exercício. Na segunda fase, feche os olhos e visualize em sua mente o mesmo objeto. Concentre-se nesta imagem virtual, atendo-se a todos os detalhes, pensando apenas nessa tarefa. Caso se distraia, recomece a imaginar o objeto e aumente progressivamente a duração do exercício. Com a prática, verá que fica cada vez mais fácil manter-se focado.

3. Tique-taque
Escolha um ambiente silencioso, sente-se em posição confortável. Pegue um relógio que faça barulho e coloque-o a trabalhar. Concentre sua atenção no ritmo e deixe que o som ocupe todo o seu espaço mental. Se alguns pensamentos passarem por sua mente, não se apegue a eles, deixe-os passar e retome a concentração.

4. Mensagem do bem
Sente-se de maneira confortável, com a coluna reta e escolha uma palavra ou frase positiva (por exemplo, “eu me sinto bem”, “sou grato pelo que tenho em minha vida” ou “sou capaz de aprender”). Repita-a várias vezes, primeiro de olhos abertos, depois de olhos fechados. Deixe que o som das palavras ocupe a sua mente, até que sinta como se o som não viesse de sua boca, mas tomasse conta de todo a ambiente. Pense nas palavras escritas recobrindo objetos e as paredes ao seu redor, com se você estivesse ouvindo um disco uma ou várias vezes. De forma progressiva, aumente a duração do exercício.

5. A chama da vela
Como essa prática é mais longa, com duração de aproximadamente 15 minutos, convém ler as orientações a seguir até se familiarizar com elas, para que não precise se ater ao texto durante sua realização.

Ao criar a imagem mental de uma chama, o fluxo de pensamentos que causam distração tende a ficar mais lento e você poderá atingir uma sensação de bem-estar, com mais consciência de seu corpo:

(a) Acomode-se num ligar calmo e confortável. Acenda uma vela e coloque-a a cerca de um metro à sua frente. Sente-se com as pernas cruzadas no chão, sobre uma almofada ou, se preferir, numa cadeira, mantendo as costas retas contra o encosto e as pernas separadas. Feche os olhos e tome a consciência de cada uma das partes do seu corpo, relaxando uma de cada vez. Respire calma e profundamente, enquanto percorre mentalmente todo o seu corpo.

(b) Mantenha-se nessa posição, com os olhos fechados. Conscientize-se do ritmo de sua respiração, que ficará cada vez mais regular. Abra os olhos e foque na chama da vela. Se os seus pensamentos tentarem “fugir”, traga-os lentamente de volta à chama. Relaxe os músculos faciais e mais uma vez feche os olhos. Inspire e expire profundamente, prestando atenção a esse movimento, sentindo o abdômen subir e descer. Leve o tempo que for necessário até sentir-se relaxado, como se estivesse sendo embalado por ondas produzidas pela respiração. Pense que está calmo e tranquilo.

(c) Visualize a imagem da chama na sua mente. Permaneça focado em seus movimentos intermináveis. Isso ocupa a totalidade da sua mente. É como se você estivesse hipnotizado pela dança e cores da chama. Quando um pensamento tomar conta de sua mente, deixe-o ser consumido pelo fogo. Aproxime um pouco mais o rosto da chama e sinta seu calor, sempre de forma relaxada. Após algum tempo comece a mover sues músculos e membros lentamente e alongue-se devagar, antes de se levantar.

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Comentários
Ora, de onde diabos a autora retirou estas “sugestões de exercícios simples”? De alguma prática de yoga ou tai chi chuan? Da Magia prática de Franz Bardon? De algum exercício iniciante de alguma ordem magística?
Na realidade, não importa de onde ela retirou tais conhecimentos, nem mesmo a ironia de vê-los publicados pela Scientific American. O que importa é que eles funcionam. Tanto para céticos quanto para espiritualistas...

Crédito da imagem (gif animado): Anônimo/Google Image Search

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7.5.13

O mundo assombrado pelas teorias

Este texto me foi enviado por um amigo de longa data e que também se interessa por filosofia. Seu nome é Silvio Soares Santos (não "aquele" Silvio Santos...):


Parece-me muito claro que como método de conhecimento rigoroso e objetivo, o conhecimento oriundo do modelo científico, propõe-se a fundamentar empiricamente os fenômenos naturais que constituem o mundo. Fundamentar empiricamente, não significa explicar os porquês sobre um evento fenomênico, mas apenas organizar estruturalmente o ‘como’ eles ocorrem.

Hume (1711 – 1776)[1] na obra Ensaio sobre o entendimento humano já afirmara que a ciência parte da observação e baseia-se na ideia de causa e efeito sobre os eventos constantes na natureza. Hume afirma que o sujeito do conhecimento apenas apreende os fatos concretos da realidade, sendo estes revelados pela experiência sensível. O procedimento utilizado como fundamento sensível é então a experiência. Porém, como não se podem fazer todas as experimentações e também porque a mente humana é que relaciona um evento com outro evento, o conhecimento científico tem como sustento apenas o hábito das repetições, analisadas por nossa lógica. A lógica é puramente mental e cognoscente, portanto, não representa com garantia a realidade factual e material.
Ou seja, a natureza não é obrigada a seguir nossas leis, nem ser cúmplice de nossas demonstrações. Acabamos assim, em uma espécie de crença instrumentalizada, objetiva, técnica e lógica, muito propensa a irracionalidade por diversas instâncias.

Obviamente que ninguém é maluco de dizer que o mundo prático não é funcional. Porém, nos parece funcional, por que a nossa lógica o cria assim. Relacionamos causas a seus efeitos, teorizamos leis após hipotetizarmos possíveis explicações. Aí nesse ponto, consideramos irrelevantes, os termos arbitrários inventados pelo cientista, como ‘a ideia de força’ aplicada no movimento.

Quanto às generalizações e as teorias dedutivas que partem de observações indutivas, estas também oferecem como problemas alguns pontos.
Primeiramente, a deficiência da observação, que além ser relativa pela não garantia de observarmos da mesma forma o mesmo evento e da contribuição da mente na complementação das percepções sobre as leituras das sensações, temos a problemática do instrumental, que pode interferir e influenciar os resultados.

Em segundo lugar, aparece a interferência direta do observador e a relação arbitrária dos eventos entre si. Nada garante que a cor vermelha que vejo seja o mesmo vermelho que você vê, caro leitor-observador. Nada garante que a queda de um lápis, segue as mesmas leis da queda de uma pedra lá na montanha. E a ‘coisa’ fica ainda mais complicada quando generalizamos uma mesma lei para todos os eventos, inclusive aqueles que ainda não ocorreram.

Em suma, o hábito é a única forma de se sustentar leis. Como reflexão, podemos tomar exemplos de teorias que pareciam corresponder conclusivamente aos eventos que ocorriam e foram abandonadas ou modificadas. Também podemos trazer para a crítica, os eventos anômalos que a Ciência não consegue explicar com sua teoria aplicada.

Aqui, me ausento de reflexões mais apuradas, sobre, por exemplo, o interesse econômico e político aos quais a Ciência pode estar sujeita, e mesmo as implicações éticas sobre o procedimento científico, pois não vem ao caso, de acordo com o que foi proposto nessa atividade discursiva.
Penso que o modelo tradicional ou convencional de Ciência, deva ser revisto, pois, o mundo moderno técnico-científico, não é o melhor dos mundos possíveis.

***

[1] HUME, D. Ensaio sobre o entendimento humano. Tradução de Maria Eloisa P. Tavares. Traduzido do texto disponível em inglês em gutenberg.org/files/36120/36120-h/36120-h.htm#OF_THE_DIGNITY_OR_MEANNESS_OF_HUMAN_NATURE


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19.4.13

Um encontro amazônico

Texto de Ana Aranha para o blog Reportagem 3x4, os comentários ao final são meus:

Os seis trabalhadores da construção civil estavam perdidos em meio à floresta amazônica, no norte de Rondônia. Algumas horas antes, eles tinham corrido mato a dentro para fugir do caos que tomara o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, onde a Polícia Militar reprimia o movimento grevista, em 2011. Depois de andar cerca de seis quilômetros, o grupo tentava encontrar o caminho de volta à obra, ou a estrada, ou qualquer sinal de urbanidade. Sem sucesso.

Ao invés disso, foram encontrados.

Sem perceber que estavam sendo cercados, os trabalhadores uniformizados se viram rodeados por oito índios nus. Eles tinham o rosto e corpo pintados, flechas em punho e “murmuravam" palavras em uma língua que os trabalhadores não conheciam. Mas logo interpretaram o sentido: estavam rendidos.

Hoje, excepcionalmente, esse espaço não será dedicado a um retrato, mas a um encontro. Encontro que pode servir de pista para compor o retrato dos povos indígenas que habitam o nosso país e os quais temos tanta dificuldade de entender.

Assustados, os trabalhadores da usina se comportaram como prisioneiros dos índios. Seguiram seus passos e pararam quando eles sinalizaram. O coração disparava a cada vez que os índios se reuniam em círculo. Observaram a construção de uma espécie de churrasqueira com gravetos, onde um porco do mato foi assado. Disfarçando o mal estar, comeram cada pedaço de carne que lhes foi oferecido. À noite, um dos trabalhadores foi repreendido pelos colegas por espiar os seios da índia mais nova, a regra era olhar para o chão.

A madrugada avançou, alguns índios deitaram e adormeceram. Os trabalhadores ficaram alertas. Pela manhã, caminharam até chegar a um local onde se ouvia um barulho familiar. Os índios sinalizaram em direção ao som, disseram algumas frases que ninguém entendeu e foram embora. Os trabalhadores correram na direção indicada até que, exaustos, chegaram à rodovia federal BR 364.

Esse relato foi registrado pela historiadora Ivaneide Bandeira Cardozo, da ONG indigenista Kanindé, que entrevistou um dos trabalhadores na presença de um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio). Ela acredita que os homens e mulheres descritos sejam parte de um grupo que a entidade e a Funai tentam rastrear há anos. “Pela descrição, parecem ser Kawahiba isolados”.

“Isolados” são os índios que não têm contato com a nossa sociedade, ou porque nunca cruzaram com um não-índio (casos cada vez mais raros) ou porque recusam o contato.

Na região que foi alagada pela usina de Jirau, havia rastros de um grupo isolado e nômade. A empresa repassou dinheiro para que a Funai mapeasse esses rastros. Depois de identificados, eles deveriam ganhar uma área de proteção. Mas o investimento não foi suficiente para encontrar ou proteger os índios.

Ao contrário, foram eles que encontraram e salvaram os funcionários da usina. “É difícil entender o que passou na cabeça dos índios quando viram os trabalhadores perdidos”, reflete Ivaneide. “Por que decidiram ajudar? Nunca vamos saber”.

O encontro ocorrido em 2011 é o reflexo oposto do desencontro que se deu na Câmara dos Deputados essa semana. Na terça dia 16, em uma cena inédita, os deputados federais correram pelo plenário como uma manada assustada. Fugiam de homens seminus, pintados de urucum e que balançavam seus chocalhos para protestar contra a mudança da lei que define como as terras indígenas são demarcadas.

Se o comportamento dos índios isolados e dos deputados deixa alguma pista, é que continuamos longe de entender os povos que habitam a nossa terra.

Quando retornaram à usina, os trabalhadores contaram sobre o encontro, mas o supervisor deu risada, chamando-os de mentirosos. Como se fosse impossível haver índios nas proximidades da obra, cravada no meio da floresta amazônica.

Para Ivaneide, a precisão dos detalhes é a maior evidência da veracidade da história. “Os trabalhadores eram de outros estados, uma pessoa sem convivência com indígenas não poderia saber tanto. Ele descreveu a pintura no peito, os traços no rosto dos homens, diferente das mulheres, a pena do gavião real, como tratavam a ponta das flechas. Até os detalhes de como montaram o moquém, que é onde assam a carne”. Segundo ela, o relato bate com hábitos comuns a etnias que vivem ou viveram na região, algumas consideradas extintas.

Existem 82 pistas de grupos indígenas isolados no Brasil, é a maior concentração de povos isolados do mundo. Em março desse ano, os funcionários da Funai fizeram uma carta aberta com um “pedido de socorro”. Nela, escrevem que não há equipe para proteger esses grupos, cujos territórios estão sendo invadidos pelas grandes obras, madeireiros e traficantes.

Como lidar com índios isolados é um dos temas mais complexos dentro da política indigenista. Talvez a pequena mensagem deixada pelo grupo que resgatou os trabalhadores e pelos que invadiram o congresso seja justamente sobre os nossos limites. Os índios tem um modo diferente de ser, nem sempre seremos capazes de entende-los. Talvez esses encontros sejam os momentos para refletir sobre os impactos das nossas escolhas. E fazer um esforço para, a partir dessa nova realidade, respeitar as escolhas deles.

***

Comentário
Quando publiquei esta imagem emblemática em nossa página no Facebook, provavelmente a primeira coisa que todos imaginaram é que estava fazendo uma crítica ao chamado "ativismo de redes sociais", que muitas vezes faz muito barulho, mas não provoca nenhuma ação concreta. Ora, e isto ocorre mesmo, mas desde que o ativismo esteja restrito a zona virtual...

O outro sentido da frase, "os índios não tem Facebook", é o de conclamar todos os ativistas do Facebook a divulgar a causa indígena (eles não tem Facebook, e nós temos). Ao contrário de muitos outros ativismos virtuais, este sempre foi real - o Facebook serve somente como meio de divulgação para a luta indígena. Os índios ficaram com o trabalho mais difícil, e estão fazendo sua parte (até mesmo porque, no caso deles, a outra opção é a extinção completa do que resta de sua cultura e território)... Que tal fazer a nossa também?

Sim, nós ficamos com a parte mais fácil, a de clicar em "compartilhar". Mas há várias outras formas de se compartilhar esta ideia. Porém, ainda que tudo o que faça é clicar num botão virtual, ainda isto é melhor do que não fazer nada.


Você pode clicar na imagem acima para abri-la no Facebook e compartilhar, ou pode simplesmente escrever seu próprio texto de apoio a essa causa. O importante é mantermos o pensamento em movimento. Não é impossível mudar esta situação, os índios no Plenário estão apenas nos relembrando disso.


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19.3.13

Não temos teologia...

Texto de Bill Moyers em "O Poder do Mito” (Ed. Palas Athena) – trechos da introdução do livro. Tradução de Carlos Felipe Moisés. As notas ao final são minhas.

Um jornalista, é o que se diz, goza do privilégio de se educar em público; somos os felizardos a quem se permite gastar o tempo num contínuo curso de educação para adultos. Ninguém me ensinou mais que Joseph Campbell [1], e quando eu lhe disse que ele deveria assumir a responsabilidade pelo que adviesse de me haver adotado como aluno, ele riu e citou a velha sabedoria romana: “Os fados guiam àquele que assim o deseje; aquele que não o deseja, eles arrastam” [2].

Ele ensinou, como o fazem os grandes professores, pelo exemplo. Não era seu hábito tentar convencer ninguém do que fosse (exceto uma vez, quando persuadiu Jean a se casar com ele). Pregadores se equivocam, ele me disse, quando tentam “persuadir pessoas à fé; fariam melhor se revelassem a radiância de sua própria descoberta”. [...] Assim fez Campbell. Era impossível escutá-lo – ouvi-lo de verdade – sem experimentar, na própria consciência, um emocionante frescor de vida, o crescimento da própria imaginação.

Ele concordava em que a “ideia-guia” do seu trabalho era procurar “o caráter comum dos temas nos mitos do mundo, visando à constante exigência, na psique humana, de uma centralização em termos de princípios profundos”. “Você se refere à busca do sentido da vida?”, perguntei. “Não, não, não”, ele disse. “À experiência de estar vivo.”

Eu tinha dito que a mitologia é um mapa interior da experiência, traçado por alguém que empreendeu a viagem. Creio que ele não endossaria a prosaica definição do jornalista. Para ele, mitologia era “a canção do universo”, “a música das esferas” – música que nós dançamos mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Ouvimos seus refrões, “quer quando escutamos, com altivo enfado, a ladainha ritual de algum curandeiro do Congo, quer quando lemos, com refinado enlevo, traduções de poemas de Lao Tsé, ou rompemos a casca de um argumento de S. Tomás de Aquino, ou apreendemos, num relance, o sentido radiante ou bizarro de uma lenda esquimó”.

Ele imaginou que esse imenso e cacofônico coral começou quando nossos primeiros ancestrais contaram histórias uns aos outros, a respeito dos animais, que eles matavam para comer, e a respeito do mundo sobrenatural, para onde os animais pareciam ir quando morriam. “Lá fora, em alguma parte”, para além do plano visível da existência, estava o “senhor dos animais”, que exercia sobre os seres humanos o poder de vida ou morte: se ele deixasse de mandar de volta as feras, para serem novamente sacrificadas, os caçadores e sua prole morreriam de inanição. Por isso as sociedades primitivas aprenderam que “a essência da vida subsiste graças ao matar e comer; esse é o grande mistério que os mitos têm que enfrentar”. A caça tornou-se um ritual de sacrifício, e os caçadores encenavam atos de expiação diante dos espíritos dos animais que partiam, esperando coagi-los a retornar, para serem sacrificados de novo. As feras eram vistas como enviados do outro mundo, e Campbell admitiu “um mágico, maravilhoso acordo” gestando-se entre o caçador e a caça, como se eles estivessem aprisionados num círculo “místico, atemporal”, de morte, sepultamento e ressurreição. Sua arte – pinturas nas paredes das cavernas – e sua literatura oral deram forma ao impulso que passou a se chamar religião [3].

Quando esses indivíduos primitivos passaram da caça ao plantio, as histórias que contavam para explicar os mistérios da vida mudaram, também. Então, a semente se tornou o símbolo mágico do ciclo infinito. A planta morria, era enterrada e sua semente renascia. Campbell mostrou-se fascinado pelo fato de esse símbolo ter sido incorporado pelas grandes religiões do mundo, como a revelação da verdade eterna a vida provém da morte, ou, como ele dizia: “A bem-aventurança provém do sacrifício” [4]. “Jesus tinha o olho”, ele dizia. “Que magnificente realidade ele viu no grão de mostarda!”

Ele citaria as palavras de Jesus, do Evangelho de São João: “Em verdade, em verdade vos digo, a menos que caia na terra e morra, o grão de trigo ficará inerte e abandonado; mas, se morrer, dará muitos frutos”. E logo em seguida citaria o Alcorão: “Você pensa que entrará no Jardim da Bem-Aventurança sem as provações que afligiram aqueles que entraram antes de você?”. Ele vagou por toda essa vasta literatura do espírito, inclusive traduzindo escrituras hindus, do sânscrito, e continuou a coligir histórias mais recentes, que adicionou à sabedoria dos antigos. Uma história particularmente apreciada por ele falava de uma mulher aflita que se dirigiu ao santo e sábio hindu Ramakrishna, dizendo: “Ó, Mestre, não sei se amo a Deus”. E ele perguntou: “Não há nada, então, que você ame?”. Ela aí respondeu: “Meu pequeno sobrinho”. E ele lhe disse: “Eis aí seu amor e dedicação a Deus, no seu amor e dedicação a essa criança”.

“E aí está”, disse Campbell, “a suprema mensagem da religião: 'Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes' [Mateus 25,40].”

Homem espiritual, ele encontrou na literatura da fé os princípios comuns ao espírito humano. Mas esses princípios têm de ser libertados dos liames tribais, caso contrário as religiões do mundo continuarão a ser como no Oriente Médio e na Irlanda do Norte [5], hoje – uma fonte de desdém e agressão. As imagens de Deus são muitas, ele dizia, chamando-as “máscaras da eternidade”, que ao mesmo tempo escondem e revelam “a Face da Glória”.

Ele desejou saber o que significa o fato de Deus assumir tão diferentes máscaras em diferentes culturas, apesar de histórias semelhantes serem encontradas em tradições divergentes – histórias da criação, nascimentos virginais, encarnações, morte e ressurreição, segundos retornos, dias do julgamento. Ele apreciava a perspicácia das escrituras hindus: “A verdade é uma; os sábios a chamam por diferentes nomes”. Todos os nossos nomes e imagens de Deus são máscaras, ele dizia, referindo-se à suprema realidade que, por definição, transcende a linguagem e a arte. Um mito é uma máscara de Deus, também – uma metáfora daquilo que repousa por trás do mundo visível. Não obstante as divergências, ele dizia, as religiões todas estão de acordo em solicitar de nós o mais profundo empenho no próprio ato de viver, em si mesmo. O pecado imperdoável, no livro de Campbell, é o pecado da inadvertência, de não estar alerta, de não estar inteiramente desperto.
 
Nunca encontrei alguém que soubesse contar melhor uma história. Escutando-o falar de sociedades primitivas, fui transportado às largas planuras sob a imensa cúpula do céu aberto, ou à espessa floresta, sob o pálio das árvores, e comecei a entender como as vozes dos deuses falavam através do vento e do trovão, e como o espírito de Deus flutuava em todo riacho da montanha, e toda a terra florescia como um lugar sagrado – o reino da imaginação mítica. E perguntei: Agora que nós, modernos, limpamos a terra de todo mistério – agora que fizemos, segundo a descrição de Saul Bellow, “uma faxina na crença” –, qual será o alimento de nossa imaginação? Hollywood e os enlatados para TV?

Campbell não era pessimista. Ele acreditava que existe um “nível de sabedoria, para além dos conflitos entre ilusão e verdade, através do qual as vidas podem voltar a ser irmanadas”. Encontrar esse nível é a “questão primordial desta época”. Nos seus últimos anos, ele buscava uma nova síntese entre ciência e espírito.  “A mudança de uma visão geocêntrica para uma visão heliocêntrica do mundo”, escreveu ele, depois que os astronautas chegaram à Lua, “parece ter removido o homem do centro e o centro parece tão importante. Espiritualmente, porém, o centro está onde está o olhar. Poste-se numa elevação e contemple o horizonte. Poste-se na Lua e contemple a Terra inteira se erguendo – ainda que através da televisão, na sua sala de visita.” O resultado é uma insuspeitada expansão do horizonte, que poderia servir, em nossa época, como as antigas mitologias serviram, no passado, para abrir as portas da percepção “para o prodígio, ao mesmo tempo terrível e fascinante, de nós mesmos e do universo”.

Para ele, não foi a ciência que diminuiu os seres humanos ou nos divorciou da divindade. Ao contrário, as novas descobertas da ciência “nos reúnem aos antigos”, por nos tornarem capazes de reconhecer, no todo do universo, “um reflexo ampliado de nossa própria e mais íntima natureza; assim, somos de fato seus ouvidos, seus olhos, seu pensamento e sua fala – ou, em termos teológicos, os ouvidos de Deus, os olhos de Deus, o pensamento de Deus, a Palavra de Deus”. A última vez que o vi, perguntei-lhe se ele ainda acreditava – como tinha escrito uma vez – “que estamos participando, neste momento, de um dos grandes saltos do espírito humano para o conhecimento, não só da natureza exterior, mas também do nosso próprio e profundo mistério interior”.

Ele pensou um pouco e respondeu: “O maior salto que já houve”.

Quando soube de sua morte, demorei-me um pouco folheando o exemplar de The Hero with a Thousand Faces [6] que ele havia me oferecido. E pensei no tempo em que fizera minha descoberta do mundo do herói mítico. Vagueava pela pequena biblioteca pública da cidade onde cresci e, procurando ao acaso nas estantes, apanhei um livro que descortinou maravilhas para mim: Prometeu roubando o fogo dos deuses em benefício da raça humana; Jasão enfrentando o dragão para conquistar o Velocino de Ouro; os cavaleiros da Távola Redonda procurando o Santo Graal. Mas enquanto não cruzei com Joseph Campbell não fui capaz de compreender que os westerns a que eu assistia nas matinês de sábado tomavam muito de empréstimo, livremente, a esses contos antigos. E que as histórias aprendidas na escola dominical correspondiam àquelas de outras culturas, que reconheciam a suprema aventura da alma, o esforço dos mortais para apreender a realidade de Deus. Ele me ajudou a ver as conexões, a compreender como as peças se juntam, e não apenas a temer menos, mas a dar as boas vindas ao que ele descreveu corno “um portentoso futuro multicultural”.

Ele foi criticado, é certo, por lidar com interpretações psicológicas do mito, por parecer confinar o papel contemporâneo do mito a uma função ou ideológica ou terapêutica. Não tenho competência para intervir nesse debate e deixo a outros a tarefa de fazê-lo. Ele nunca pareceu aborrecido pela controvérsia. Apenas continuou a ensinar, abrindo aos outros novos caminhos de visão.

Acima de tudo, foi da vida autêntica que ele viveu que nos instrui. Quando dizia que os mitos são chaves para a nossa mais profunda força espiritual, a força capaz de nos levar ao maravilhamento, à iluminação e até ao êxtase, ele se expressava como alguém que tinha estado nos lugares que convidava os outros a visitar.

O que me atraiu nele? Sabedoria, sem dúvida; ele era extremamente sábio. E aprendizagem; ele de fato “conhecia o vasto escopo de nosso passado panorâmico, como poucos homens jamais conheceram”. Mas havia mais.

Uma história é a maneira de contá-la. Ele era um homem de mil histórias. Eis uma de suas favoritas: No Japão, durante um congresso internacional sobre religião, Campbell entreouviu outro delegado norte-americano, um filósofo social de Nova Iorque, dizendo a um monge xintoísta: “Assistimos já a um bom número de suas cerimônias e vimos alguns dos seus santuários. Mas não chego a perceber a sua ideologia. Não chego a perceber a sua teologia”. O japonês fez uma pausa, mergulhando em profundo pensamento, e então balançou lentamente a cabeça.  “Penso que não temos ideologia”, disse.  “Não temos teologia. Nós dançamos.”

E assim fez Joseph Campbell – sob a música das esferas.

***

[1] O Poder do Mito é, na realidade, a compilação de uma entrevista de Joseph Campbell (um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX) para o jornalista Bill Moyers, que gerou também uma série de vídeos já lendária. Esta introdução é escrita, portanto, pelo jornalista.

[2] Ver O cão e a carroça, onde Alain de Botton desenvolve esta ideia, dentro do estoicismo.

[3] Para mais sobre a arte rupestre e sua clara relação com as origens da religião, ver a série de artigos Xamãs ancestrais.

[4] Mas é preciso cuidado ao interpretar o significado de “sacrifício”.  Já que foi Jesus mesmo quem disse: “Quero amor, não sacrifício”. Um sacrifício no amor é aquele que sacrifica uma parte da vida, por outra parte que lhe é superior – ao menos, para quem se sacrifica. Por exemplo: quem pratica caridade nos finais de semana, sacrifica parte de seu “tempo de descanso” em troca de algo que vale muito mais do que ele. Neste caso, tempo não é dinheiro.

[5] Na Irlanda do Norte, ao menos, os conflitos entre católicos e protestantes parecem se encaminhar para a paz já há alguns anos (este texto é do final da década de 80).

[6] O herói de mil faces, publicado no Brasil pela Pensamento.

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Crédito da foto: O Poder do Mito/Divulgação (Bill Moyers e Joseph Campbell)

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6.3.13

A revelação de Hermes Trimegisto

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 258 a 261. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas notas ao final são minhas.

Sob a denominação de hermetismo, compreende-se a totalidade das crenças, ideias e práticas transmitidas na literatura hermética [1]. Trata-se de uma coletânea de textos de desigual valor, redigidos entre o século III a.C. e o século III d.C. Distinguem-se duas categorias: os escritos pertencentes ao hermetismo popular (astrologia, magia, ciências ocultas, alquimia) e a literatura hermética erudita, em primeiro lugar os 17 tratados, em grego, do Corpus Hermeticum [2]. Apesar de suas diferenças de propósito, conteúdo e estilo, há entre os dois grupos de textos certa unidade de intenção, a qual evoca as relações entre o taoismo filosófico e o taoismo popular ou a continuidade entre as expressões “clássicas” e “barrocas” da ioga [3]. Cronologicamente, os textos do hermetismo popular são os mais antigos, sendo que alguns deles datam do século III a.C. Quanto ao hermetismo filosófico, o seu desabrochar deu-se sobretudo no segundo século da Era Cristã.

Como era de prever, essa literatura reflete mais ou menos o sincretismo judaico-egípcio (e portanto também certos elementos iranianos); reconhece-se, ademais, a influência do platonismo; mas, desde o século II d.C., o dualismo gnóstico torna-se predominante. “Pelos seus atores, pelo seu cenário, pelos seus mitos, a literatura hermetista pretende ser egípcia. Essa pretensão, pelo menos para alguns textos antigos, baseia-se em certo conhecimento do Egito ptolomaico ou romano, conhecimento cuja realidade não devemos subestimar” [4]. As personagens (Thoth, Agatodêmon, Amon, etc.), os cenários (Mênfis e Tebas, Hermópolis, Saís, Assuã, etc.), certos motivos da teologia faraônica, a familiaridade com as tradições egípcias antigas, constituem indicações que devemos levar em conta.

A identificação de Thoth com Hermes já era conhecida por Heródoto (II, 152). Para os escritores da época helenística, Thoth era o patrono de todas as ciências, o inventor dos hieróglifos e um temível mágico. Teria criado o mundo por meio da palavra; por outro lado, os estoicos haviam identificado Hermes com o lógos [5].

Os escritos do hermetismo popular exerceram um papel importante na época imperial. [...] O conhecimento, e portanto o domínio da natureza, era possibilitado pela divindade. Por conseguinte, a ciência de tipo hermético constitui, ao mesmo tempo, um mistério e a transmissão iniciatória desse mistério; o conhecimento da natureza é obtido pela oração e pelo culto ou, em um nível inferior, por meio da sujeição mágica. Nesse corpus amorfo de receitas mágicas e de tratados referentes à magia natural e às ciências ocultas, voltamos por vezes a deparar com concepções características da literatura erudita.

No Koré Kósmou (14-18), a criação das almas é descrita como uma operação alquímica. A oração que serve de fecho ao Asclepius é reencontrada, em grego, numa receita mágica. A importância dessa literatura hermética “popular” não deve ser subestimada [...]. Sua cosmologia e suas ideias mestras (a doutrina das simpatias e correspondências, em primeiro lugar a correspondência entre macrocosmo e microcosmo) tiveram considerável êxito desde a baixa Idade Média até aproximadamente o fim do século XVIII; voltamos a encontrá-las não só nos platônicos italianos e em Paracelso, como também em cientistas tão diferentes como John Dee, Ashmole, Fludd e Newton [6]. [...]

[Os tratados de literatura hermética erudita] diferem pelo gênero literário e, sobretudo, por sua doutrina. Já em 1914, Bousset observara que o Corpus Hermeticum apresenta duas teologias inconciliáveis; uma otimista (de tipo monista-panteísta), a outra pessimista, caracterizada por um forte dualismo. Para a primeira, o cosmo é belo e bom, porquanto é penetrado por Deus [7]. Ao se contemplar a beleza do cosmo, chega-se à divindade. Deus, que é ao mesmo tempo Um (C.H., XI, 11) e Todo (XII, 22), é Criador, e recebe o nome de “Pai”. O homem ocupa o terceiro lugar na tríade, depois de Deus e do cosmo [8]. Sua missão é “admirar e adorar as coisas celestes, cuidar das coisas terrestres e governá-las” (Asclepius, 8). O homem é, em última análise, o complemento necessário da Criação; é “o ser vivo mortal, ornamento do Ser vivo imortal” (C.H., IV, 2).

Por outro lado, na doutrina pessimista, o mundo é fundamentalmente mau, “não é obra de Deus, pelo menos do primeiro Deus, pois esse primeiro Deus mantém-se infinitamente acima de toda matéria, está oculto no mistério do seu ser: só podemos, portanto, atingir a Deus fugindo do mundo, devemos nos comportar aqui embaixo como um estrangeiro” [9]. Lembremos, por exemplo, a gênese do mundo e o drama patético do homem segundo o primeiro tratado do Corpus, o Poimandres: o intelecto superior andrógino – o noûs – cria inicialmente um demiurgo que modela o mundo, em seguida o Ánthrôpos, o homem celeste; este último desce na esfera inferior, onde, “iludido pelo amor”, se une à natureza (Phúsis) e gera o homem terrestre. Daí em diante, o Ánthrôpos divino cessa de existir como pessoa distinta, porque ele anima o homem: sua vida transforma-se na alma humana e sua luz converte-se em noûs.

É por essa razão que, sozinho entre os seres terrestres, o homem é, ao mesmo tempo, mortal e imortal. No entanto, com o auxílio do conhecimento, o homem pode “tornar-se deus”. Esse dualismo, que desvaloriza o mundo e o corpo, sublinha a identidade entre o divino e o elemento espiritual do homem; tal como a divindade, o espírito humano (noûs) caracteriza-se pela vida e pela luz. Como o mundo é “a totalidade do mal” (C.H., VI, 4), temos de nos tornar “estrangeiros” no mundo (XIII, 1) para que possamos efetuar o “nascimento da divindade” (XIII, 7); de fato, o homem regenerado dispõe de um corpo imortal, é “filho de Deus, o Todo no Todo” (XIII, 2).

Essa teologia, solidária de uma cosmogonia e de uma soteriologia específicas, tem uma estrutura “gnóstica” por excelência. Seria, porém, imprudente vincular ao gnosticismo propriamente dito os tratados herméticos que compartilham o dualismo e o pessimismo. Certos elementos mitológicos e filosóficos de tipo “gnóstico” fazem parte do Zeitgeist da época: por exemplo, o menosprezo do mundo, o valor salvífico de uma ciência primordial, revelada por um Deus ou por um ser sobre-humano e comunicada sob o signo do segredo. Acrescentemos que a  importância decisiva atribuída ao conhecimento, transmitida sob a forma de iniciação a alguns discípulos, lembra a tradição indiana (os Upanixades, o Samkhya e o Vedanta), assim como o “corpo imortal” do homem regenerado apresenta analogias com o hata-ioga, o taoismo e as alquimias indiana e chinesa [10].

***

[1] O hermetismo parece ser bastante antigo, mas foi primordialmente através da literatura que ele sobreviveu até os dias atuais. Ou, pelo menos, é o que os historiadores podem confirmar. Se as práticas magísticas atuais relacionadas ao hermetismo têm algum parentesco com aquelas de mais de 2 mil anos atrás, é muito complexo saber.

[2] Nota do autor: Dispomos ainda da tradução latina, conhecida pelo nome de Asclepius, de um “Discurso perfeito” (Lógos téleios) cujo original se perdeu e de uma trintena de exercícios conservados no Anthologium de Estobeu, c.500.

[3] Mircea realmente fala sobre quase todas as religiões em sua obra. Infelizmente morreu antes de terminar a última parte (motivo do vol. III ser mais breve que os demais), onde caberia um resumo das tradições xamânicas e da mitologia e ritualística africana. Foi uma grande perda para os amantes de mitologia o fato de ele não ter conseguido terminar estes textos.

[4] Nota do autor: Jean Doresse, L’hermétisme égyptianisant, p.442.

[5] Nota do autor: Uma tradição que remonta aos primeiros Ptolomeus relata que Thoth, o primeiro Hermes, viveu “antes do dilúvio”; o segundo Hermes, o Trimegisto, lhe sucedeu, e depois vieram seu filho Agatodêmon e seu neto Tat. Todas essas personagens são citadas no tratado Kórê Kósmou. A genealogia é autenticamente egípcia.

[6] Alguns princípios herméticos também são reencontrados na ciência a partir do fim do século XIX, particularmente na cosmologia, na física de partículas e na física quântica. Enquanto “assim em cima, assim embaixo” pode ser relacionado diretamente as simetrias espaciais e temporais do espaço-tempo (a gravidade atua na Terra da mesma forma que em galáxias há milhões de anos-luz), “tudo vibra, nada está parado” certamente pode ser reencontrado no mundo subatômico.

[7] Benedito Espinosa resumiu tal pensamento antigo de forma magistral em sua Ética.

[8] Um pouco parecido com a tríade do cristianismo (Pai, filho e espírito santo), com a diferença que o cosmo é correspondente ao espírito santo, a preencher tudo que há; e, mais fundamental, pelo fato de “o homem” não ser apenas “um único homem”, mas toda a humanidade. Ao afirmar “sois deuses, dia virá que farão tudo que tenho feito e ainda muito mais”, mesmo Jesus estava se alinhando mais ao hermetismo “otimista” do que ao cristianismo.

[9] Devemos lembrar que esta é apenas a análise que os estudiosos modernos fazem desta doutrina. Ela em muito se assemelha a crítica da Igreja ao gnosticismo; até mesmo porque, de fato, o gnosticismo influenciou o hermetismo (e o zoroastrismo influenciou a ambos). Se formos analisar “ao pé da letra”, a ideia de que há um primeiro Deus que criou o cosmo e depois “se retirou”, deixando o governo do mundo físico (uma sombra do “mundo espiritual”) ao cargo de um deus mau, ela certamente parecerá absurda. Por outro lado, se nós formos recorrer a interpretações mais aprofundadas (que o “mundo ilusório” existe apenas na visão de quem ainda não tem olhos para ver o Reino de Deus; que o “deus mau” é um aspecto de nossa própria ignorância; etc.) mesmo o hermetismo “pessimista” passa a alcançar um sentido espiritual mais profundo.

[10] O problema de se estudar este tipo de conhecimento atualmente, é que tendemos a vê-lo somente como um conhecimento, uma literatura, uma teoria espiritual. Seja no gnosticismo, seja no hermetismo e em inúmeras outras escolas iniciáticas, a gnose em si não se traduz apenas em “conhecimento adquirido”, mas sim em “iniciação, renovação espiritual”. Devemos lembrar que o lógos grego inicialmente significava “palavra escrita ou falada”, mas após Heráclito passou a ter significados mais amplos. O lógos como “capacidade de racionalização” é o que foi traduzido para a modernidade simplesmente como “razão”; porém, há ainda outras interpretações antigas. O lógos também significava, na época helenística, um “princípio cósmico de Ordem e Beleza”. Aquele filósofo ou sábio que buscava esta espécie de razão, muito diferentemente da razão moderna, buscava uma razão permanentemente conectada ao Cosmos. Uma razão religiosa por excelência, embora isto hoje soe um absurdo para os racionalistas...
Além disso tudo, devemos sempre levar em consideração os conselhos de outro especialista em mitologia do século passado, Joseph Campbell:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é.

Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

***

Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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1.3.13

O que é matéria e energia escura?

Texto de Cesar Grossmann para o site HypeScience. As notas ao final são minhas.


A matéria escura e a energia escura são soluções propostas para explicar alguns fenômenos gravitacionais, e, até onde sabemos, são coisas distintas.

Embora juntas respondam por mais de 95% do nosso universo, só sabemos de sua existência por meios indiretos, observando seus efeitos sobre o universo e tentando deduzir suas propriedades a partir deles.

Matéria escura
A matéria escura foi proposta nos anos 1930 por Fritz Zwicky para explicar a diferença entre a massa gravitacional e a massa luminosa de aglomerados de galáxias (Fritz Zwicky estava trabalhando com curvas de rotação de galáxias).

A massa gravitacional de um objeto é determinada pela medida da velocidade e raio da órbita de seus satélites, um processo igual à medição da massa do sol usando a velocidade e distância radial dos planetas.

A massa luminosa é determinada pela soma de toda luz e convertendo este número em uma estimativa de massa, baseado na nossa compreensão sobre como as estrelas brilham. Esta comparação de massa-para-luz indica que a energia na matéria luminosa contribui com menos de 1% da densidade média de energia do universo.

Certamente existe mais matéria nas galáxias que não emite luz, mas as evidências indicam que há um limite máximo para a matéria normal (aquela feita de átomos) presente no universo. Evidências vindo da medição da radiação cósmica de fundo, por exemplo, apontam que no máximo 5% da densidade de massa-energia do universo e 20% da massa dos aglomerados está na forma de átomos.

Mas do que é feita a matéria escura? Muitos físicos e astrônomos acham que a matéria escura é provavelmente uma nova partícula que ainda não foi detectada em aceleradores de partículas ou em raios cósmicos.

Para ser uma partícula de matéria escura, ela tem que ter bastante massa, provavelmente mais que um nêutron, e interagir muito fracamente com a matéria normal, de forma a dificilmente reagir produzindo luz.

O protótipo do candidato é algo parecido com um neutrino, só que todos os tipos de neutrinos conhecidos são muito leves e muito raros para explicar a matéria escura [1].

E como a matéria escura afeta o universo? Aparentemente, ela é responsável pelas estruturas que vemos no universo, como galáxias e aglomerados; é ela que “segura” estes objetos imensos, não deixando que se desfaçam.

Como curiosidade, a proposta de uma matéria escura na década de 1930 por Fritz Zwicky não foi levada a sério porque o suíço tinha entrado em atrito com muitos colegas na comunidade astronômica. Em 1962, a astrônoma Vera Rubin fez a mesma descoberta, que novamente não foi levada à sério, desta vez porque ela era uma mulher. Ela persistiu e conseguiu atenção da comunidade em 1978, com um estudo profundo de 11 galáxias, inclusive a nossa [2].

Energia escura
A energia escura tem sua origem nos trabalhos para entender a expansão acelerada do universo. Basicamente, a teoria atual não consegue explicar essa aceleração. Uma das especulações é que a aceleração é consequência de uma nova forma de matéria, apelidada “energia escura”, que também não foi detectada até agora.

É chamada de “escura” porque deve interagir muito fracamente com a matéria, como a matéria escura, e é chamada de energia porque uma das coisas de que estamos certos é que ela contribui com cerca de 70% da energia total do universo. Se descobrirmos o que é, podemos então trocar o nome para algo menos misterioso.

Com o estabelecimento do modelo cosmológico do Big Bang, acreditava-se que a expansão inicial de 13,7 bilhões de anos atrás estaria diminuindo com o tempo, mas duas equipes de pesquisadores independentes descobriram em 1998 que a expansão estava acelerando.

A aceleração é determinada pela medida dos tamanhos relativos do universo em diferentes eras. De uma forma específica, os astrônomos medem o redshift ou desvio para o vermelho do espectro e a distância da luminosidade de explosões estelares chamadas supernovas tipo 1a.

O tempo que a luz da supernova leva para chegar aos telescópios é descoberto examinando a distância da luminosidade, enquanto a mudança do tamanho do universo entre a explosão e a observação é determinada pelo desvio para o vermelho. Uma comparação destes tamanhos em uma sequência de tempo revela que o universo está crescendo cada vez mais rápido. Desde esta descoberta, os equipamentos ficaram mais sensíveis e os dados foram confirmados pela medição de outros fenômenos cosmológicos.

A teoria da relatividade prevê que a aceleração cósmica é determinada pela densidade média de energia e pressão de todas as formas de matéria e energia no universo. Só que as quantidades da matéria normal, da energia normal, e da matéria escura não respondem pela densidade de energia necessária para a aceleração – tem que ser outra coisa.

Uma das hipóteses mais aceitas é que o universo é preenchido por um mar de energia quântica de ponto zero, que exerce uma pressão negativa, como uma tensão, fazendo com que o espaço-tempo sofra uma repulsão gravitacional. É a chamada constante cosmológica, introduzida por Einsten em outro contexto (e referida por ele como seu maior erro) [3].

E como a energia escura afeta o universo atualmente? Ela é responsável pela aceleração cósmica, e equipes internacionais de astrônomos estão trabalhando para refinar a medida desta aceleração. Dela depende o julgamento da constante cosmológica de Einstein, uma possível compreensão da teoria fundamental da natureza (gravidade quântica e o estado quântico do universo), e o destino do universo (Big Chill ou Big Rip?).

Diferenças entre as duas
As duas, matéria escura e energia escura, possuem diferenças enormes. A matéria escura atrai e a energia escura repele, ou seja, a matéria escura é usada para explicar uma atração gravitacional maior que o esperado, enquanto a energia escura é usada para explicar uma atração gravitacional negativa [4].

Além disso, os efeitos da matéria escura se manifestam em uma escala de 10 megaparsecs (um megaparsec corresponde a 3,2 milhões de anos luz, aproximadamente) ou menor, enquanto que a energia escura parece que só se torna relevante em escala de 1.000 megaparsecs ou mais.

Finalmente, é importante questionar se os fenômenos da matéria escura e da energia escura podem ter uma explicação gravitacional. Talvez as leis da gravidade sejam diferentes do que desenhou a teoria de Einstein. Esta é uma possibilidade, só que até hoje a teoria da relatividade não falhou em nenhum teste. Além disto, novas imagens de aglomerados revelaram um comportamento que é inconsistente com teorias gravitacionais alternativas, como a MOND – ou seja, a matéria escura está ali.

Nossas melhores mentes estão trabalhando no problema e nossa melhor tecnologia está examinando o cosmos, e, por enquanto, não há outra explicação para os efeitos que observamos: a matéria escura e a energia escura são reais. A composição do universo atual, até onde sabemos, é de 4,2% matéria normal, 24% matéria escura e 71,6% energia escura [5]. [en.Wikipedia 1 2, Nasa Ask an Astronomer, How Stuff Works, Nasa Astrophysics, Dummies, National Radio Astronomy Observatory, Scientific American, Space.com, WMAP's Universe]

***

[1] Um "ser de neutrinos" seria improvável pois elementos leves são simples demais para a complexidade necessária a um ser vivo. Já um "ser de matéria escura", apesar de hipotético, não seria um absurdo lógico, pois a matéria escura é responsável pela maior parte da massa (ou pelo menos da atração gravitacional) do universo, logo pode ser tão candidata a formação de um ser vivo quanto a matéria comum, que interage com a luz.

[2] Conforme o usual: primeiro o ceticismo (e, muitas vezes, o preconceito), e então, somente muito tempo após, a aceitação. É assim, uma descoberta de cada vez, que mudamos nossos paradigmas e nossa visão do que vem a ser, afinal, o Cosmos.

[3] Até mesmo quando errou racionalmente, intuitivamente Einstein acertou em cheio...

[4] Há milênios atrás, Empédocles chamou a atração e repulsão cósmicas de "amor e ódio".

[5] Os materialistas eliminativos creem que a matéria já detectada é capaz de explicar a consciência e todos os demais mistérios da mente humana. Há que se ter um boa dose de fé para apostar tudo apenas nestes míseros 4% (do qual conhecemos uma parcela ínfima, em todo caso).

No geral, um resumo excelente de Cesar Grossmann, que merece ser compartilhado e divulgado entre cientistas e espiritualistas (ou, pelo menos, entre aqueles que leram e compreenderam a pergunta #82 do Livro dos Espíritos)...

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Crédito da imagem: HypeScience

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25.2.13

2013: o ano do livro digital

Texto de Raquel Cozer para a revista Superinteressante (Fevereiro/2013). As notas ao final são minhas.

O Big Bang dos livros digitais no Brasil finalmente aconteceu. Foi em 5 de Dezembro de 2012. Num intervalo de menos de 24 horas, estrearam a Amazon brasileira (trazendo junto seu leitor eletrônico, o Kindle), a canadense Kobo (rival da Amazon) [1] e a loja de livros digitais do Google. A Apple, aliás, tinha estourado a largada: para conseguir vender e-books em português antes de todas as outras, começou a oferecê-los em dólares mesmo, em outubro [2].

O Brasil já tinha suas próprias lojas de livros digitais, locais, desde o final de 2009. Mas faltavam dois detalhes essenciais para que vivêssemos o cenário que os Estados Unidos vislumbraram no final de 2007, quando a Amazon lançou o Kindle por lá. Faltavam aparelhos de leitura a preços razoáveis e um acervo que fosse digno desse nome. Ambos foram impulsionados pela chegada das lojas estrangeiras.

Gadgets para ler até já existiam por aqui, claro, já que os tablets também servem para isso [3]. Mas com a Amazon e a Kobo chegaram os aparelhos feitos apenas para a leitura, com tela que não brilha. Seus olhos agradecem. E tem o preço. Enquanto o iPad custa mais de R$1.000, um Kindle ou um Kobo saem por menos de R$300.

Outro problema começou a ser resolvido antes mesmo de as lojas estrangeiras chegarem. Como a vinda delas era iminente, as editoras nacionais passaram a digitalizar em massa seus catálogos. No começo de 2012, tínhamos 6 mil livros digitais em português. No de 2013, 15 mil [4]. Nem é tanto perto das centenas de milhares de títulos que as editoras têm a oferecer. Mas, para o leitor, o que existe agora já é um mundo. Especialmente no Brasil, onde quem não mora nas cidades grandes enfrenta uma barra para encontrar uma livraria.

Este leitor já dependia das lojas virtuais para comprar livros, mas, com a chegada dos digitais, não precisa mais esperar dias para recebê-los [5]. Sessenta segundos o separam daquilo que ele quer ler. Mesmo que esse leitor more numa capital, ele aprende que pode baixar um livro em menos tempo do que leva para fazer baliza no estacionamento do shopping.

Essa comodidade trouxe algo novo: nos países em que o livro digital já pegou, as pessoas começaram a ler mais. Uma pesquisa do Pew Research Center nos EUA mostrou que os leitores de e-books leem 24 livros por ano, ante 15 livros para quem se mantém fiel apenas ao impresso. Natural: para começar, livro digital não ocupa espaço. E espaço é um artigo precioso no mercado de livros. O metro quadrado nas livrarias é escasso. Custa caro. Então não é fácil encontrar por aí obras que não sejam os best-sellers de sempre. Por que elas vão gastar espaço com livros que vendem pouco? Já as lojas de e-books têm um espaço virtualmente infinito. Em tese, dá para comprar qualquer obra ali. Aquele livro que você sempre quis ter e nunca nem viu numa livraria quase que certamente vai existir um dia no formato digital. Nisso, cada leitor encontra o que mais gosta. Cada tampa acha a sua panela. E as pessoas acabam lendo mais [6].

E eles não leem mais só porque é mais fácil comprar. É mais fácil na hora de ler também. Baixou O Amanuense Belmiro para o vestibular e não sabe o que é a palavra “amanuense”? É só por o dedo em cima dela e um dicionário diz. Até deixar marcas de leitura no livro ficou mais tranquilo. Você seleciona o trecho com o dedo e ele já aparece em destaque. É tão intuitivo que uma hora você vai se pegar tentando selecionar palavras com o dedo num livro de papel [7].

Ah, também dá para ver quais trechos foram mais marcados pelos outros leitores [8]. Legal que, desse jeito, dá para aprender algumas coisas inusitadas sobre a cabeça das pessoas. Tipo: o livro mais sublinhado de todos os tempos no Kindle, fora a Bíblia, é Steve Jobs, de Walter Isaacson. E o trecho mais marcado ali é “finja que está no controle, e as pessoas vão achar que você está”. Aliás, esse tipo de dissimulação é mais ou menos o que a Amazon vem fazendo. A empresa gosta de divulgar que já vende mais e-books que livros em papel. Mas isso não significa que o livro digital já assumiu o controle do mercado. A verdade é que, mesmo com a clientela digitalizada da Amazon, só um em cada quatro leitores americanos já experimentaram um Kindle, um Kobo ou qualquer outro leitor [9].

Mesmo assim, a adesão ao digital surpreende. Outra pesquisa da Pew mostra que, há pouco mais de um ano, apenas 16% dos leitores tinham tido contato com livros digitais. Agora essa fatia está em 23%. Ou seja: é, sim, apenas um quarto. Mas até há pouco tempo era um sexto, então o que temos é um ritmo de crescimento impressionante. Chegar aos 100%, ao que parece, é questão de tempo. No Brasil não deve ser diferente. E em algum momento o livro impresso talvez seja para o digital aquilo que os manuscritos já foram para o livro de papel: uma sombra do passado. Tanto que a palavra que denomina o profissional que faz manuscritos está morta. É “amanuense”.

O livro de papel vai acabar, então? Por inusitado que pareça, não. A massificação dos livros digitais pode até ser boa para quem gosta de livros impressos. Livro, afinal, é também um objeto de decoração. Mesmo quem hoje praticamente só lê livros digitais gosta de exibir uma estante cheia de lombadas – o fetiche por livros, vale lembrar, é até maior do que aquele que ainda movimenta a indústria de discos de vinil. E agora só vão sobreviver no mercado de impressos as editoras que fizerem os livros mais bonitos, caprichados, daqueles que dá gosto de folhear. As tranqueiras podem ficar só no digital mesmo. Ainda mais porque, com ele, ninguém sabe o que você está lendo.

***

[1] Ainda em 2011 a Kobo foi vendida para a empresa de e-commerce japonesa Rakuten. Ela é hoje, na realidade, uma empresa japonesa.

[2] De todas as gigantes do livro digital, portanto, só falta chegar ao Brasil a Barnes & Noble (com o seu eReader, o Nook). Isto é, se é que ele vai sobreviver a concorrência.

[3] Para quem não tem recursos ou interesse em investir muito dinheiro em tablets, recomendo os tablets da coreana Genesis, com um custo-benefício assustador. Eles servem como leitores digitais, com o bônus de também permitirem o uso do Google Android e todos os seus recursos (web, YouTube, Angry Birds, etc).

[4] Há também uma crescente publicação de livros clássicos gratuitos (em português, já que em inglês já são milhares deles), particularmente na loja da Amazon. Se você ainda não leu nenhum livro de Platão, por exemplo, encontrará boa parte deles gratuitamente por lá... Isto por si só praticamente já “paga” o custo de um Kindle, por exemplo.
No entanto, mesmo os livros digitais pagos devem ser, em sua maioria, consideravelmente mais baratos que suas versões em papel. Qualquer livro digital com (o equivalente a) menos de 300 páginas sendo vendido atualmente por mais de R$20 tem um olho bem gordo da editora embutido – a margem de lucro é astronômica para estes casos.

[5] Eu pessoalmente achei esta uma vantagem importantíssima dos livros digitais. Me lembro que tive de esperar mais de uma semana para receber o A dance with dragons, do George R.R. Martin, quando ele saiu na Saraiva (felizmente a Saraiva lançou diretamente no Brasil, senão teria de esperar mais de um mês para importá-lo). No próximo livro da série, dificilmente irei esperar mais do que alguns minutos para começar a ler. Para este tipo de literatura, acho uma grande vantagem.

[6] A jornalista nem comentou acerca da enorme janela que o mercado de livros digitais abre para novos autores. Enquanto boa parte das editoras no Brasil levam de um a dois anos para avaliar manuscritos de autores iniciantes (e provavelmente recusa 99,9% deles), nas lojas da Kindle e da Kobo qualquer autor pode publicar seu próprio livro (desde que, é claro, saiba diagramar para o formato digital, ou contrate alguém que saiba). Como vocês devem saber, eu já aproveitei esta oportunidade.

[7] Não sei quanto a nós, adultos, mas tudo indica que as crianças e adolescentes de hoje já lerão mais neste formato digital do que no antigo, num futuro bastante próximo.

[8] Embora isto na prática ainda só funcione “nos best-sellers de sempre”.

[9] E, no Brasil, certamente menos ainda. Porém, vale lembrar duas coisas: (1) Que não é necessário um eReader para ler um livro digital, qualquer tablet, smartphone ou PC já é capaz de ler um; e (2) Que a tecnologia ainda vai avançar, e muito. Pensem, por exemplo, no dia em que as telas maleáveis, praticamente da finura de uma folha de papel, servirem como eReaders? Neste futuro cada vez mais próximo, em eReader será basicamente um livro mais fino, onde cada página trará conteúdo quase infinito.

Crédito da foto: Amazon.com (Divulgação)

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