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15.8.13

Interesses impessoais

Texto de Bertrand Russell em "A conquista de felicidade” (Ed. Saraiva/Nova Fronteira) – trechos das págs. 166 a 170. Tradução de Luiz Guerra. O comentário ao final é meu.


Os interesses impessoais, além de sua importância como fator de relaxamento, têm outras vantagens. Para começar, ajudam a manter o senso de proporção. É fácil deixarmo-nos absorver por nossos próprios projetos, nosso círculo de amizades, nosso tipo de trabalho, até o ponto de esquecermos que tudo isso constitui uma parte mínima da atividade humana total – e também pensarmos que a maior parte do mundo em nada afeta o que fizemos.

O leitor pode perguntar: por que devo me lembrar disso? Tenho várias respostas. Em primeiro lugar, é bom ter uma imagem do mundo tão completa quanto nos permitam nossas atividades necessárias. Nenhum de nós vai ficar muito tempo neste mundo, e cada qual, durante os poucos anos de sua vida, precisa aprender o máximo que puder sobre este estranho planeta e sua posição no universo. Não aproveitar as oportunidades de conhecimento, por mais imperfeitas que sejam, é como ir ao teatro e não prestar atenção na peça.

O mundo está cheio de fatos trágicos ou cômicos, heroicos, extravagantes ou surpreendentes, e aqueles que não encontram interesse no espetáculo estão renunciando a um dos privilégios que a vida nos oferece.

Por outro lado, o senso de proporção torna-se muito útil, e às vezes bastante consolador. Todos somos propensos à excitação exagerada, à preocupação exagerada, à impressão exagerada da importância do pequeno pedacinho de terra em que vivemos, e do pequeno espaço de tempo compreendido entre nosso nascimento e nossa morte.

Toda essa excitação e essa supervalorização de nossa própria importância nada têm de bom. É certo que nos fazem trabalhar mais, mas não nos farão trabalhar melhor. É preferível pouco trabalho com bom resultado a muito trabalho com mau resultado, embora não seja esse o pensamento dos partidários da vida superativa.

Os que se preocupam muito com seu trabalho se acham em constante perigo de cair no fanatismo, que consiste basicamente em recordar uma ou duas coisas desejáveis, esquecendo-se de todas as demais, e supor que qualquer dano incidental que causemos, tratando de conseguir essas coisas, não tem importância.

Não existe melhor precaução contra esse temperamento fanático que uma concepção ampla da vida humana e de sua posição no universo. Pode parecer que estamos invocando uma concepção demasiadamente grande para a ocasião, mas, fora desta aplicação particular, é algo que tem um grande valor por si só.

Um dos defeitos da moderna educação superior é que ela se transformou num puro treinamento para adquirir certas habilidades e cada vez se preocupa menos em ampliar a mente e o coração por meio do exame imparcial do mundo.

Vamos imaginar que estejamos empenhados em uma campanha política e que trabalhemos com todas as nossas forças pela vitória de nosso partido. Até aí, tudo bem. Mas ao longo da campanha pode perfeitamente acontecer que se apresente alguma oportunidade de vitória que implique o uso de métodos calculados para fomentar o ódio, a violência e a desconfiança. Por exemplo, podemos ter a ideia de que a melhor tática para ganhar uma disputa seja insultando uma nação estrangeira. Se nosso alcance mental só abrange o presente, ou se assimilamos a doutrina de que importa apenas o que chamamos de eficiência, adotaremos esses métodos tão equívocos. Pode ser que graças a eles consigamos atingir nossos propósitos imediatos, mas a longo prazo as consequências mostram-se desastrosas.

Em contrapartida, se nossa bagagem mental inclui as épocas passadas da humanidade, sua lenta e parcial saída do estado de barbárie e a brevidade de toda a sua história em comparação com os períodos astronômicos, se essas ideias modelaram nossos sentimentos habituais, nos daremos conta de que a batalha momentânea em que estamos empenhados não pode ser tão importante a ponto de nos arriscarmos a dar um passo atrás, retrocedendo às trevas de onde tão lentamente saímos.

Além disso, se somos derrotados em nosso objetivo imediato, nos servirá de sustento esse mesmo sentido do momentâneo que nos levou a rechaçar o uso de métodos degradantes. Mais além de nossas atividades imediatas, teremos objetivos a longo prazo – que pouco a pouco irão tomando forma –, nos quais uma pessoa não será um indivíduo isolado, mas sim parte do grande exército daqueles que têm guiado a humanidade para uma existência civilizada.

Quem haja adotado essa maneira de pensar nunca se verá abandonado por uma certa felicidade de fundo, seja qual for sua sorte pessoal. A vida se transformará em uma comunhão com os grandes de todas as épocas e a morte pessoal não será mais que um incidente sem importância.

Se me coubesse organizar a educação superior, [...] tentaria fazer com que os jovens adquirissem uma viva consciência do passado, que se tornassem plenamente conscientes de que o futuro da humanidade será, quase com toda a segurança, incomparavelmente mais longo que seu passado e que, também, adquirissem plena consciência de o quanto é pequeno o planeta sobre o qual vivemos, tanto quanto de que a vida neste planeta não passa de um incidente passageiro.

Juntamente a tais fatos, [...] apresentaria a esses jovens outro conjunto de fatos, esboçados para gravar em suas mentes a grandeza de que é capaz o indivíduo e convencê-los de que em toda a profundidade do espaço estrelar nada que tenha tanto valor é conhecido.

Há muito Spinoza escreveu sobre a servidão e a liberdade. Devido ao seu estilo e a sua linguagem, suas ideias são de difícil acesso, exceto para os estudantes de filosofia, mas o que pretendo dizer aqui distingue-se muito pouco do que ele disse.

Uma pessoa que tenha percebido o que seja a grandeza da alma, ainda que temporária e brevemente, já não poderá ser feliz, caso se deixe transformar em um ser mesquinho, egoísta, atormentado por males triviais, com medo do que lhe haja reservado o destino. A pessoa capaz de grandeza de alma abrirá de par em par as janelas de sua mente, deixando que penetrem livremente através delas os ventos de todas as partes do universo.

Ela se verá a si própria, verá a vida e verá o mundo com toda a verdade que nossas limitações humanas permitam; dando-se conta da brevidade e da insignificância da vida humana, e compreenderá, também, que nas mentes individuais se acha concentrado tudo o que de valor existe no universo conhecido.

Comprovará que o homem, cuja mente espelha o mundo, chega a ser, em certo sentido, tão grande quanto o mundo. E experimentará, inclusive, uma profunda alegria ao emancipar-se dos medos que assombram o escravo das circunstâncias – e, no fundo, continuará sendo feliz, malgrado todas as vicissitudes de sua vida exterior.

***

Comentário
Do alto de todo o seu ateísmo pleno de espiritualidade, Bertrand Russell consegue nos trazer uma mistura rara de conhecimento científico, político e espiritual. O que ele aconselha sobre levarmos sempre em consideração, na vida, o quanto somos pequenos em relação a totalidade do Cosmos e, o quanto somos, ainda assim, grandes em nosso amor pelo Cosmos e pelos seres que o habitam, é uma espécie de ensinamento que permeia tanto a filosofia epicurista e estoica quanto as belas “preposições geométricas” de Benedito Espinosa. Agindo assim, colocamos nosso interesse, nosso pensamento e, principalmente, nosso amor, além das fronteiras ilusórias de nosso eu – transbordamos o casulo e voamos, como borboletas, por toda a imensidão que nos abarca.

Perto da imensidão da natureza, nossas angústias e desejos soam como poeira e folhas espalhadas pelo vento no jardim. Quaisquer que sejam as diferenças entre as pessoas e seus desejos e angústias, elas não são nada perto das diferenças entre os seres humanos mais poderosos e os grandes desertos, as altas montanhas, geleiras e oceanos, a luz das estrelas. Existem fenômenos naturais tão grandes que tornam as variações entre duas pessoas quaisquer ridiculamente pequenas. Ao passar um tempo em amplos espaços, a consciência de nossa própria insignificância na hierarquia social pode se transformar na consciência reconfortante da insignificância de todos os seres humanos no Cosmos.

Podemos superar o sentimento de que somos insignificantes não nos tornando mais importantes ou desejando fama, poder ou status, mas reconhecendo a insignificância relativa de todos. Nossa preocupação com quem é alguns milímetros mais alto do que nós pode dar lugar a uma reverência a coisas infinitamente maiores que nós, uma força que podemos ser levados a chamar de natureza, vida, infinito, eternidade – ou simplesmente Deus.

Mas, sobretudo, quem mantém os pés no chão florido das amizades duradouras e a mente na imensidão estrelar do Cosmos, este não poderá jamais ser seduzido pelas efêmeras promessas dos chamados “bens materiais”. Pois que terá ao seu lado o amor ao saber, as reflexões diárias, a liberdade de pensamento, e a possibilidade permanente de se dirigir a janela do ser, escancaradamente aberta, e observar a paisagem – toda esta deliciosa impermanência que o cerca, sem jamais se apegar de fato a coisa alguma além do amor em si mesmo.

***

Crédito das imagens: Joel "Boy Wonder" Robinson

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4 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Uma bela reflexão, como sempre! Para mim, uma praia deserta e a imersão no mar sempre me fizeram uma espécie de "solutio" psíquica, como a descrita. Creio que deve ser parecido a ver nossa "bolinha de gude azul" vagando no tecido do espaço-tempo, mas sem ter em mente a noção limitada de tempo e de espaço...rs

15/8/13 19:44  
Blogger raph disse...

A segunda imagem (do barquinho) parece captar bem essa doce sensação de "pequenez" ante a Natureza :)

15/8/13 21:15  
Blogger Rato Saltador disse...

Genial!

Me lembrou esta palestra do Mário Sérgio Cortella:

http://www.youtube.com/watch?v=nDiBI2RKfr8

18/8/13 17:16  
Blogger raph disse...

Sim tem muito a ver com ela mesmo... Os filósofos se entendem bem :)

18/8/13 22:14  

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