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4.8.13

Astrum

Texto de Paracelso em "Filosofar pelo fogo” (Ed. Madras) – trechos das págs. 181 e 182. Tradução de Idalina Lopes. O comentário ao final é meu.

Tratemos agora do terceiro fundamento sobre o qual repousa a arte médica, ou seja, a alquimia. Se o médico não lhe dedica o maior cuidado e dela não adquire uma profunda experiência, toda sua arte corre o risco de permanecer inútil. Pois a Natureza é tão sutil, tão penetrante em suas diversas produções, que dela só podemos extrair seus benefícios com o auxílio de uma grande arte.

De fato ela não revela nada que se mostre realizado por si mesmo, e cabe, portanto, ao homem finalizar seus desejos; essa realização leva o nome de alquimia.

Assim, o alquimista é semelhante ao padeiro que assa o pão, ao vinhateiro que faz o vinho, ao tecelão que confecciona um tecido. E consequentemente é alquimista qualquer um que leve ao termo desejado pela Natureza o que nela cresce para o proveito do homem.

Saibam que a respeito dessa arte deve ser feita aqui uma distinção notável: se alguém tomasse uma pele de carneiro e, deixando-a em estado bruto, a usasse como pelica ou casaco, seria o maior exemplo da grosseria e inabilidade em comparação com a arte do peleteiro e do fabricante de tecido. Tão grosseiro e inábil é aquele que, recebendo algum dom da Natureza, não o usa.

[...] Mas hoje todos os ofícios manuais escrutaram a Natureza e adquiriam a experiência de suas propriedades, de forma que eles sabem, em todas as operações que são as suas, seguir suas vias e extrair o que nela existe de mais elevado.

Ora, hoje isso não é mais posto em prática em medicina – onde, no entanto, isso seria o mais necessário – e, que, no estado em que ela se encontra hoje, é a mais grosseira e inábil das artes.

[...] Ora, a própria Natureza o avisa, por meio das coisas, ao que você deve se dedicar a fim de oferecer à sua medicina toda a sua eficácia. O que o verão efetua com as peras e com as uvas também deve ser introduzido e realizado na medicina. E, quando sua medicina seguir tais preceitos, você também estará em condição de obter bons resultados.

Por isso é necessário agora mais uma vez relembrar que sua medicina deve dar frutos como o verão o faz com os seus. Saiba que o verão age assim com a ajuda do Astrum, e não sem ele.

Quando o Astrum exerce no tempo desejado a sua influência, saiba mais uma vez que sua preparação médica deve lhe ser rigorosamente ordenada e submetida; pois é ele que realiza a obra de arte.

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Comentário
Françoise Bonardel, filósofa e professora da Universidade de Sorbonne, é a responsável por essa grandiosa antologia de textos alquímicos publicada pela Madras. Segundo ela, o Astrum (em alemão, Gestirn) é um termo usado sobretudo desde Paracelso para designar o princípio ígneo (do fogo) capaz de fazer crescer e multiplicar as sementes das coisas.

O Astrum pressupõe, no entanto, para ser operativo, que a semente de cada coisa tenha sido excitada pelo calor celeste; e, portanto, que o microcosmo (pequeno mundo; humano) tenha sido colocado em estrita correspondência com o macrocosmo (grande mundo; cósmico), principalmente graças ao “fogo secreto” da Arte...

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Ora, não é de surpreender que a Academia seja hoje tão “reticente” em lembrar que os primeiros grandes cientistas da história ocidental (ignorando-se os da Grécia antiga e, sobretudo, os da ilha de Samos) eram quase todos alquimistas, astrólogos, ocultistas, magos ou, no mínimo, filósofos da Natureza.

De fato, termos como “alquimia”, “arte médica”, “fogo secreto” ou “grande arte” são muito mal compreendidos pela quase totalidade dos cientistas atuais. Para que pudessem descobrir o real significado de tais termos há 500 anos atrás, teriam antes de se livrar de mais de um século de preconceitos estabelecidos pela Academia atual em torno de qualquer ideia que possa lembrar, mesmo que vagamente, a espiritualidade. Neste aspecto, nem os filósofos modernos lhes seriam de muita ajuda – teriam mesmo é que se debruçar nos livros de ocultismo (esta antologia poderia ser já um bom começo).

Mas, ainda assim, a mera leitura de antigos Manuais de Natação não seria o suficiente para lhes ensinar sobre a Experiência do Mergulho... Que diabos seria essa tal “arte médica”, esta “alquimia” de que nos fala Paracelso?

Não tenho nenhuma pretensão de lhes explicar, mas antes de tentar lhes despertar na alma alguma luz que pode estar ali guardada por falta de uso: Ora, “cumprir o desejo da Natureza”, “frutificar as sementes através da medicina”, “transformar chumbo em ouro”, tudo isso são metáforas, mas metáforas muito poderosas – que querem se comunicar com a alma, e não com a mera “intelectualidade” ou com o mero “raciocínio mecanicista”, conforme a Academia tende a interpretar o termo “razão” nos dias atuais.

Para ser um Médico como Paracelso, não basta decorar patologias e títulos de doenças catalogadas, é preciso também ser um médico de si mesmo, um conhecedor dos Astros, um cirurgião do Amor. Dessa forma, irá praticar a Grande Arte não somente nos pacientes, mas em toda a Vizinhança ao mesmo tempo, e assim cumprir a Vontade que vem do Alto. Irá, enfim, tratar das causas, e não dos efeitos.

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Crédito da imagem: Wikipedia

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