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11.11.24

Lançamento: Raízes do Estoicismo (os clássicos de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio)

As Edições Textos para Reflexão lançam o seu primeiro box de filosofia estoica.

O estoicismo ficou conhecido como a filosofia que ajuda as pessoas a atravessarem momentos de crise, mas em realidade vai muito além disso: ensina-nos a viver. Esta edição traz traduções comentadas das principais obras do estoicismo: dois dos mais celebrados textos de Sêneca, o Manual de Epicteto e as Meditações do imperador Marco Aurélio.

Este compilado com traduções de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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18.10.24

O estoicismo oculto

Se há uma função pela qual o estoicismo se tornou mundialmente conhecido, é a de auxiliar as pessoas a atravessarem momentos de crise. Isso, por si só, já explica o porquê da filosofia estoica ter voltado às prateleiras dos títulos mais vendidos em nossas livrarias. Mas, dito assim, “auxiliar as pessoas nos momentos de crise”, pode parecer que o estoicismo é uma espécie de autoajuda, e é mesmo: a raiz da autoajuda, ou seja, conhecer a si mesmo pela prática da filosofia, para assim ajudar a si mesmo a viver uma vida melhor. A questão está, portanto, em não ler o estoicismo de forma superficial, como quem segue uma receita de bolo. Afinal, não é porque este ou aquele guru lhe disse que o estoicismo era isto ou aquilo, que você deveria adentrar esta filosofia, e sim porque você mesmo a leu, conheceu, praticou, e viu que funciona, que de fato modificou sua vida para melhor. A filosofia estoica, afinal, é muito, muito mais do que um fenômeno de marketing.

Os grandes expoentes do estoicismo viveram em sua fase romana. Sêneca (ca. 3 a.C. – 65 d.C.) foi um dos mais célebres pensadores do Império Romano, tendo ao mesmo tempo alcançado altos patamares na Política de seu tempo, ao ponto de ter sido um conselheiro do imperador. Já Epicteto (ca. 50 – 135 d.C.) teve origem muito diversa: nascido como um escravo grego, eventualmente se tornou um homem livre, vivendo e lecionando em Roma até perto de sua morte. Marco Aurélio (121 – 180 d.C.), por sua vez, estava na outra ponta da escala social. Era sobrinho e filho adotivo do imperador Antonino Pio, a quem sucedeu em 161 d.C. para governar o maior império do mundo, enquanto ainda encontrava tempo para escrever suas Meditações.

Seja como for, se foi em Roma que o estoicismo se tornou imensamente popular, com seus filósofos mais preocupados em falar de uma vida virtuosa, voltada para problemas práticos, como mudar o que se pode mudar, e aceitar o que não temos controle para decidir, foi na antiga Grécia que ele nasceu – pela mente de um personagem quase lendário, Zenão de Cítio.

Nascido na ilha do Chipre, na cidade de Cítio, em torno de 332 a.C., Zenão chegou a Atenas aos 22 anos, por volta de 310 a.C. Foi descrito como um homem de pele morena, franzino, sempre de cara séria e vestido com roupas leves. Vivia de maneira frugal e comia moderadamente, sobretudo pão e mel. Amava um bom vinho, embora bebesse raramente. Era sociável até certo ponto, frequentando muitos banquetes, embora temesse a multidão, raramente sendo visto com mais do que duas ou três pessoas ao seu redor. As fontes variam sobre as circunstâncias de sua chegada a Atenas. Elas concordam no fato de que ele era um comerciante que importava mercadorias da Fenícia, mas, segundo alguns, teria perdido toda a sua carga em um naufrágio; e, para outros, vendeu toda a sua mercadoria e depois resolveu se dedicar somente à filosofia, que teria descoberto por acaso ao perambular por Atenas.

Durante aproximadamente uma década, seguiu os ensinamentos de três correntes filosóficas que tinham suas origens no célebre Sócrates: os megáricos dialéticos, dos quais não nos restou quase nada; os cínicos e, sobretudo, a Academia de Platão. Zenão abriu sua própria escola aproximadamente em 301 a.C., sob o pórtico de Atenas conhecido na época como Pórtico das Pinturas (Stoa Poikile), daí o nome de Stoa, do qual derivou o termo “estoicismo”, ou simplesmente “O Pórtico”. O sucesso foi rápido e, por ocasião da sua morte, em torno de 262 a.C., a cidade lhe prestou honrarias dignas de um sábio.

As principais características da escola inaugurada por Zenão, que hoje em dia vemos tão em voga, são a busca por se levar uma vida virtuosa, pautada na ética e no autocontrole, assim como aceitar aquilo que não podemos mudar, e focar naquilo que pode ser feito, isto é, aceitar corajosamente o destino e a morte, e ter uma visão mais racional da vida, avaliando constantemente nossos sentimentos, e os mantendo sob controle.

Mas toda a filosofia antiga, além da parte comportamental e ética, também se propunha a responder questões como “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”, com sua própria cosmogonia. No caso do estoicismo, o Cosmos é finito, com a Terra, o Sol, a Lua e os demais planetas e estrelas; porém eles rejeitavam a ideia de um vácuo, um vazio absoluto, pois para eles tudo era conectado de alguma forma.

Antes do Cosmos, no entanto, existia o pneuma, o sopro divino, a substância que é a origem de tudo, a força criativa, isto é, o Deus Primordial que tudo criou a partir de si próprio. Segundo os estoicos, a criação do Universo se inicia com o fogo, que tudo moldou; e, da mesma forma, tudo há de aniquilar no fim dos tempos. No estoicismo, Deus (ou Zeus), como a substância original, dava origem ao universo, aos demais deuses, à natureza e aos seres humanos; mas, ao mesmo tempo, tudo era composto desse Deus-Substância. Seja como for, não sobraram muitas orações estoicas, nada de apelo aos deuses, visto que eles acreditavam que isso não era algo muito necessário em um universo racionalmente ordenado.

Em suas raízes, a filosofia estoica é monista, ou seja: “tudo é um”; e também panteísta, Deus como um princípio associado à natureza, compondo tudo o que existe. Além disso, é materialista, atribuindo um corpo físico até mesmo para a alma, e muito focada na mecânica dualista de “ativo e passivo”, que afirma que tudo o que existe é capaz de agir ou de receber uma ação. O Cosmos material, entretanto, é preenchido com o pneuma, com o sopro divino, que é racional e ordena a realidade.

Embora tenha sido convenientemente deixado de lado por boa parte dos estudiosos acadêmicos, o estoicismo também guarda um lado profundamente espiritual, até mesmo esotérico: dentre as suas principais contribuições para a cena esotérica do Ocidente estão a ideia do perenialismo e a doutrina das correspondências.

É comum, ao pensarmos nos primeiros seres humanos, que os imaginemos como ignorantes, desprovidos de conhecimento e ingênuos, pois somos influenciados pelas ideias da biologia evolutiva, que considera que os humanos vão se tornando mais inteligentes e complexos após muitas e muitas gerações. Para os estoicos, no entanto, era justamente o contrário: para eles os primeiros humanos, surgidos do fogo criador, eram homens e mulheres de profunda capacidade intelectual, com uma natureza até mesmo semidivina, capazes de compreender o Cosmos de forma precisa, sem falhas de interpretação. Eles eram considerados muito superiores, em todos os sentidos, aos homens da época de Zenão. Os estoicos também acreditavam que a primeira linguagem surgiu diretamente do contato do homem com a natureza divina e profunda, sendo que a natureza e a linguagem eram conceitos intimamente conectados.

Por isso a filosofia estoica era tão preocupada com a linguagem, com o significado das palavras, e sempre recomendava que tentássemos encontrar a sua origem profunda, primeva. Tal conhecimento poderia revelar a real natureza da natureza, que era considerada divina. Para os estoicos, as verdade primordiais estavam preservadas na filosofia da natureza, nas leis e nos mitos religiosos.

Aliás, os mitos eram vistos como extremamente importantes, por serem superiores à simples narrativa, assim como pelo seu profundo caráter épico: eles carregavam verdades que precisavam ser interpretadas e compreendidas. Assim, por meio da linguagem e do estudo dos mitos, era possível exercer a piedade, no sentido espiritual do termo, e decifrar o entendimento divino por trás dessas histórias de heróis e deuses. Ou seja, os estoicos foram pioneiros em defender interpretações não literais dos contos mitológicos, como uma forma de se conectar espiritualmente à natureza divina.

Assim, vemos conceitos importantes do estoicismo que viriam a influenciar o perenialismo, ou a filosofia perene, que busca identificar a verdade que une todas as religiões, algo que posteriormente iria ser mais aprofundado por espiritualistas da era moderna, como René Guénon e Helena Blavatsky. Ou seja, eles acreditavam que analisar as diversas crenças poderia dar origem a um corpo de entendimento que é comum a todas elas, que existe uma verdade que é expressa em todas as religiões. E não só isso, como a própria busca do significado das palavras e do entendimento profundo da linguagem, segundo eles, era algo que poderia nos levar à compreensão da natureza.

É engraçado considerar tudo isso como advindo de uma filosofia que hoje em dia é vista como algo tão racional, tão voltado para o dia a dia mundano.

Bem, e a principal conexão estoica com a espiritualidade é justamente a ideia da ligação entre as coisas: os estoicos acreditavam que havia um princípio ordenador, um pneuma, que ligava os objetos e mantinha a natureza racionalmente coesa. E o pneuma não somente conectava as coisas, como também espalhava sinais e símbolos na própria natureza, para que fossem interpretados pelos seres que a contemplassem. Dessa forma, o sábio poderia contemplar o leão, e por meio de uma compreensão oculta, associá-lo ao Sol. Ou ainda identificar tanto o leão quanto o Sol com o ouro. Tal doutrina parte do desejo estoico de buscar compreender as pistas e os sinais deixados pela inteligência divina.

E é por tudo isso que você pode, sim, ser ao mesmo tempo um estoico e um espiritualista, e se dedicar tanto a uma vida virtuosa quanto à busca pelos sinais divinos ocultos na natureza a sua volta. Essas são as verdadeiras raízes do estoicismo, e quando Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio falam em “viver de acordo com a natureza”, são tais ideias que eles têm em mente.


Bibliografia
História da filosofia ocidental, de Bertrand Russell; Epicteto e a sabedoria estoica, de Jean-Joël Duhot; A odisseia da filosofia, de José Francisco Botelho; Canais Esoterica (por Dr. Justin Sledge) e Barbarismo Esotérico (por João Drewes) no YouTube.

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Crédito das imagens: Google Image Search

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27.9.24

Lançamento: Da Felicidade, de Sêneca

As Edições Textos para Reflexão retornam ao estoicismo.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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22.8.24

A felicidade possível

Em abril do ano 65 d.C., numa vila nos arredores de Roma, a filosofia ocidental viveu mais um grande drama: após Sócrates, era a vez de outro expoente do amor a sabedoria ter a sua sentença de morte. O seu nome era Sêneca, um espanhol nascido aproximadamente no ano 3 a.C., que teve como pai um habitante instruído de Roma. Ele seguiu carreira política e vinha sendo razoavelmente bem-sucedido quando o imperador Cláudio o exilou na Córsega (em 41 d.C.), por conta de uma birra da imperadora Messalina. Mas a segunda esposa de Cláudio, Agripina, o retirou de seu exílio forçado (em 48 d.C.) e o nomeou tutor de seu filho, então com 11 anos. Sêneca, entretanto, não teve a mesma sorte de Aristóteles: o seu pupilo cresceu para se tornar o imperador Nero, aquele que entrou para a história como o louco que pôs fogo em Roma.

Aos 28 anos, com distúrbios mentais cada vez mais agravados, Nero foi informado da existência de uma conspiração para afastá-lo do trono. Fora de si, ele buscou vingança contra todos a sua volta (incluindo sua própria mãe, seu meio-irmão e sua esposa, além de inúmeros nobres e senadores, todos sentenciados à morte). Embora não houvesse prova alguma do envolvimento de Sêneca na tentativa de golpe, e a despeito de ter sido o seu tutor e depois um ministro leal por mais de uma década, Nero o sentenciou à morte como medida de precaução.

Um centurião foi enviado a sua casa com as instruções do imperador: Sêneca deveria dar cabo da própria vida imediatamente, escolhendo o método que achasse melhor. Os familiares e amigos do filósofo empalideceram e começaram a chorar assim que souberam da notícia. Todavia, segundo o relato de Tácito, um historiador daquela época, Sêneca permaneceu inabalado, e tratou de acalmar todos a sua volta:

Ora, meus amigos, onde está sua filosofia? E o que foi feito da decisão de jamais se deixarem abater diante da iminência de qualquer desgraça que, durante tantos anos, todos temos incentivado uns aos outros a manter? Decerto ninguém aqui ignorava que Nero era cruel! Após matar a própria mãe e o irmão, só lhe restava matar seu conselheiro e tutor.

Em seguida, Sêneca se voltou para sua esposa, Paulina, e lhe deu um longo e afetuoso abraço, recomendando que achasse consolo para aquela tragédia em uma vida bem vivida. Mas ela não podia conceber uma vida sem o filósofo ao seu lado, e lhe pediu permissão para cortar os pulsos juntamente com ele. A princípio, ainda segundo Tácito, ele não impôs barreiras ao seu desejo:

Não impedirei que você dê um exemplo tão admirável. Podemos morrer com uma força moral idêntica, embora o seu fim seja muito mais nobre que o meu.

No entanto, o centurião e seus soldados impediram que aquela tragédia fosse ainda mais cruel, quiçá na esperança de serem lembrados como meros cumpridores de ordens, e não como monstros. Já o que se sucedeu ao próprio Sêneca, segundo os relatos, foi algo extraordinário, quase sobrenatural.

Mesmo após ter cortado os pulsos, as veias dos tornozelos e da parte interna dos joelhos, o sangue simplesmente não fluía com rapidez suficiente de seu corpo já quase septuagenário. Foi então que, lembrando da morte de Sócrates, 464 anos antes, Sêneca pediu a seu médico que lhe preparasse uma taça de cicuta. Afinal, assim como outros expoentes do estoicismo [1], ele tinha a figura de Sócrates na mais alta conta, um verdadeiro exemplo de como era possível vencer as tragédias do mundo com a ajuda da filosofia. Em uma carta escrita anos antes daquele dia, ele já havia deixado registrada tal admiração:

Ele viveu em tempos de guerra e sob o jugo de tiranos (...), mas todas essas provações afetaram tão pouco seu espírito que suas feições jamais se alteraram [na morte]. Que privilégio tão raro e maravilhoso! Ele manteve a mesma atitude até o fim. (...) Em meio a tantos reveses da [deusa] Fortuna, ele foi imperturbável.

Seja como for, o desejo de Sêneca em seguir Sócrates até na morte não pôde ser concretizado. Ele bebeu a cicuta, duas vezes, mas continuava bem vivo! Depois de tantas tentativas em vão, ele finalmente pediu que o colocassem em um banho de vapor, onde sufocou lentamente até a morte, sereno e impassível diante do revés derradeiro.

Com sua morte, Sêneca ajudou a consolidar um dos pilares do estoicismo, uma abordagem comedida e serena em relação as tragédias e os desprazeres da vida. Ao se portar tal qual Sócrates em seus momentos finais, ele comprovou que sua filosofia não era somente algo teórico, metafísico, mas sim extremamente prático. Sêneca tentou ser filósofo 24 horas por dia, e tudo indica que foi extremamente bem-sucedido nisso, do contrário dificilmente teria continuado filósofo nos momentos derradeiros. Foi justamente porque praticou sua filosofia em boa parte da vida que foi, verdadeiramente, um filósofo.

Podemos ter uma boa ideia de como era esta prática pela espécie de reflexão que Sêneca recomendava a todos que fizessem todos os dias, pela manhã, de preferência logo após despertar:

Nenhuma dádiva da [deusa] Fortuna nos pertence de fato.
Nada, seja público ou privado, é estável: os destinos dos homens, assim como os das cidades, estão sujeitos a um turbilhão. Qualquer edificação que tenha levado longos anos para ser erguida, à custa de grande sacrifício e graças ao bom humor dos deuses, pode dispersar-se ou desfazer-se em um único dia. Não, aquele que disse “um dia” exagerou, dando um prazo longo demais para um revés repentino: uma hora, um átimo, é o bastante para promover a queda de impérios.
Com que frequência cidades da Ásia foram destruídas por um único tremor de terra? Quantas aldeias na Síria, ou na Macedônia, já não foram engolidas? Quantas vezes devastações desse tipo já não deixaram o Chipre em ruínas?
Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer.
Mortal você nasceu; mortal você dá à luz.
Não se surpreenda com nada, espere tudo.

A sua morte não foi o único exemplo de como a sua sabedoria não estava limitada à teoria. Quando exilado na ilha de Córsega, ele se viu repentinamente privado de todos os luxos de que dispunha, afinal aquela ilha em específico estava muito distante de gozar dos benefícios da civilização romana. Assim, as condições de vida no exílio deveriam ter formado um doloroso contraste com a vida em Roma. No entanto, em uma carta a sua mãe, Sêneca explicou como havia conseguido se adaptar às circunstâncias, graças aos anos de meditação pela manhã, regados a água e sopa rala:

Nunca confiei na Fortuna, mesmo quando ela parecia estar oferecendo paz. Todas aquelas bênçãos que generosamente derramou sobre mim  riquezas, cargos, prestígio  eu releguei de tal maneira que ela pudesse retomá-las sem me causar grandes aflições. Sempre mantive grande distância entre mim e seus favores. Ela tão somente me tirou o que havia concedido, portanto nada arrancou de mim.

Há uma espécie de metáfora estoica que resume muito bem tanto o pensamento de Sêneca quanto de outros expoentes dessa filosofia. Ela foi formulada pelo filósofo Zenão de Cítio, fundador do estoicismo, e “repaginada” pelos seus discípulos, Cleantes e Crisipo, sucessivamente. A sua referência mais antiga é relatada pelo sacerdote romano Hipólito:

Quando um cão atrelado a uma carroça quiser acompanhá-la, ele é puxado por ela e avança, fazendo com que seu gesto espontâneo coincida com a necessidade. Mas se o cão decidir não se mexer, o movimento da carroça irá obrigá-lo a segui-la, de qualquer maneira. O mesmo se passa com os homens: mesmo que não queiram, eles são forçados a obedecer o que o destino lhes reservou.

Ou seja, um homem é livre para seguir em qualquer direção que queira. Todavia, como sugere a metáfora, se os seus movimentos são limitados, é melhor acompanhar a direção da carroça do destino do que ser arrastado por ela. Embora o nosso primeiro impulso possa ser o de lutar contra a guinada repentina do veículo, caso ele siga noutra direção, o nosso sofrimento decorrerá exclusivamente de nossa resistência. Se vivemos de acordo com as necessidades da natureza, aceitando tanto a liberdade momentânea de seguirmos na direção desejada quanto a necessidade, igualmente momentânea, de irmos para onde não gostaríamos de ir, então não há realmente nada que possa nos abalar.

Os filósofos antigos tinham um belo nome para tal estado de contentamento: eudaimonia. A sua tradução literal seria algo como “o estado de ser habitado por um bom daemon, ou espírito”. Os estoicos, provavelmente, diriam que é simplesmente o estado alcançado quando “vivemos de acordo com a natureza”. Isto é, quando temos perfeita noção da natureza e do mundo a nossa volta, e sabemos que há coisas que podemos decidir, e outras que nos escapam totalmente o controle. Assim, seria inútil buscar a felicidade todo o tempo, algo literalmente impraticável, de modo que o mais sábio é sabermos discernir a felicidade possível em meio a um mundo impermamente e, muitas vezes, brutalmente dolorido. Mas viver apenas lamentando as dores do mundo seria tão equivocado quanto buscar somente os prazeres, todo o tempo. O estado de contentamento com a vida, eudaimonia, surge justamente da sabedoria que reconhece a felicidade possível, mesmo que a carroça volta e meia nos arraste para aqui e acolá.

Sêneca foi o filósofo estoico que mais deixou obras inteiras para a posteridade, e dentre mais de uma centena de cartas, peças de teatro e diálogos filosóficos, quiçá aquela que melhor resuma o seu pensamento seja justamente a que fala da felicidade possível, De Vita Beata, cujo título foi traduzido do latim como Da Felicidade ou A Vida Feliz.

***

[1] O estoicismo é uma escola de filosofia helenística que floresceu na Grécia Antiga e, posteriormente, também na Roma Antiga. Os estoicos acreditavam que a prática das virtudes filosóficas era suficiente para alcançar a eudaimonia (ver restante do artigo) e, consequentemente, uma vida bem vivida. Foi fundada na antiga Atenas por Zenão de Cítio, em torno de 300 a.C.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Sêneca); [ao longo] A Morte de Sêneca; pintura de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906); Olu Eletu/unsplash

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25.4.23

Lançamento: Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios de Montaigne

As Edições Textos para Reflexão retornam à filosofia com uma seleção de seis dos melhores Ensaios de Montaigne.

Ao falar de si mesmo, da filosofia e do mundo com extrema elegância, bom senso, acidez e honestidade intelectual, Montaigne não apenas fundou um novo gênero literário (o ensaio), como demonstrou que os chamados pensadores, ou filósofos, não precisam falar somente de coisas grandiosas, muito sérias e cosmogônicas. Ele trouxe as reflexões do dia a dia para o grande palco da filosofia, e na posteridade decerto fez incontáveis bons amigos: seus leitores.

Filosofar é aprender a morrer e outros ensaios é a mais nova tradução de Rafael Arrais – um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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27.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte 2)

« continuando da parte 1


Há quase dois mil anos o homem mais poderoso do mundo foi obrigado a passar a última década de sua vida isolado da sua cidade natal e da maior parte de seus amigos e familiares. Enquanto comandava de sua tenda militar as estratégias de defesa da fronteira norte do seu Império, nas suas parcas horas vagas ele se dedicava à escrita. Não um livro sobre a guerra, não uma história qualquer que talvez viesse a ser publicada e lhe conferisse alguma fama na posteridade. Não, o imperador não dava nenhum valor para aplausos e exaltações, o seu único objetivo era salvaguardar o seu Império – leia-se: o seu povo.

O seu livro era na realidade um bloco de anotações para si mesmo, ensinamentos que havia adquirido em vida, dos livros, dos mentores, da própria experiência de estar vivo. O seu objetivo era aconselhar a si mesmo, dia após dia, para que pudesse cumprir sua missão sem fraquejar ante a tristeza e o desespero da guerra.

Este homem era Marco Aurélio, Imperador de Roma (121– 180 d.C.), e o seu alicerce era a própria filosofia. Talvez ela ainda possa ser útil, dois mil anos depois:

A filosofia e a crise
Quando estava no colégio, eu nunca tive aula de filosofia. A filosofia não era sequer mencionada. Assim, por desconhecê-la totalmente, a minha opinião sobre ela era a mesma do cidadão comum: “algo difícil, que provavelmente não serviria para nada”.

Isso mudou quando, já adulto, encontrei um livro de Platão na estante do meu pai e comecei a ler. Fédon (ou Da alma) foi para mim mais do que uma história, mais do que um registro histórico de uma época remota, mais do que alguma espécie de ensinamento moral: aquele livro me demonstrou do que a filosofia, o amor genuíno ao saber, era realmente capaz. Aquelas páginas antigas podiam de fato me melhorar, e tornar a minha própria relação com a vida algo mais profundo. Não era mera questão de “autoajuda para momentos de dificuldade”, mas uma conexão genuína com os sofrimentos e os prazeres da existência, a vida e a morte, a dor da perda, a magnanimidade do amor. Aquele livro me ensinou a pensar, a pensar para melhor viver.

Marco Aurélio também conheceu Platão, e certamente leu o Fédon, mas foi no estoicismo que achou a base definitiva para ancorar sua alma. Essa corrente filosófica surgiu em Atenas (Grécia), já após Platão e Aristóteles, quando por volta do ano 301 a.C. um estrangeiro de origem fenícia chegou a cidade e passou a divulgar sua doutrina e atrair discípulos. Seu nome era Zenão de Cítio.

Ao contrário de muitos filósofos da época, Zenão preferia realizar suas palestras em locais públicos, sendo o seu ponto favorito uma espécie de “pórtico” (stoa, em grego) da cidade. Por conta da palavra stoa, a nova doutrina veio a ser conhecida como estoicismo. Zenão teve alguns discípulos que vieram a se tornar relativamente famosos, mas do ponto de vista histórico existiram três estoicos tardios, nascidos séculos após Zenão, que foram muito mais importantes que ele próprio: Sêneca, Epicteto e o próprio Marco Aurélio.

Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.), a exemplo de Marco Aurélio, conseguiu ser bem sucedido na filosofia e na política, tendo alcançado o cargo de senador romano. Foi Epicteto (60 – 100 d.C.), entretanto, o grande exemplo seguido pelo imperador filósofo. Ao contrário dos outros dois expoentes do estoicismo, Epicteto teve origem humilde e foi escravo por boa parte da vida; mesmo assim tal fato não o impediu de ter sido um dos pensadores mais originais da história da filosofia, ao ponto da própria obra de Marco Aurélio ser mais uma espécie de comentário alongado de Epicteto do que algo propriamente original.

A própria essência do estoicismo foi de tal forma resumida no início do Manual de Epicteto, que poderíamos dizer que todo o restante pode ser desenrolado, como um fio, desta reflexão inicial:

“As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Enquanto Marco Aurélio impedia que invasões bárbaras devastassem o Império Romano a partir do norte, no restante dele o povo desfrutava de uma vida boa e pacífica, ao menos para os padrões da época. Foi com a morte do imperador que o Império iniciou a sua decadência, e jamais voltou a ser o que era.

Penso que tal ideia sirva como uma bela metáfora para o que se passa em nossa própria mente. Precisamos defendê-la dos maus pensamentos, que insistem em romper suas fronteiras. Precisamos estar a postos, em todos os momentos, para que saibamos o que é de fato nosso pensamento, e o que é influência externa; o que é de fato a nossa vontade genuína, a nossa essência, e o que é mera sedução de ideias estrangeiras; em suma: o que depende de nós, e o que não deveria nos afligir, pois está além da nossa decisão.

Marco Aurélio passou anos tendo de defender o Império da crise. Nós talvez tenhamos que nos aquartelar em casa somente por alguns meses. Nenhum de nós talvez tenha a resiliência do imperador, mas o que importa nesse tempo de crise é que saibamos que é sim possível olhar para dentro e reconhecer enfim quem nós somos de fato, isolados do mundo, perto da essência. Para tal a filosofia pode ser de grande ajuda.

DIA 1
Hoje resolvi estabelecer uma quarentena entre eu e o mundo. Que ela seja o mais duradoura possível, e que de agora em diante eu possa reconhecer o meu próprio pensamento.

Para que eu possa expressar no mundo quem eu realmente sou, e não quem eles gostariam que eu fosse. Para que minha fortaleza e meu templo estejam sempre aqui comigo, e não mais nalgum lugar lá fora. Para que eu chore, mas que sejam genuinamente as minhas lágrimas. Para que eu sorria, mas que seja por um sentimento de alegria verdadeira.

Daqui em diante, passo a passo, tentarei ser o imperador de mim mesmo. E o mundo continuará sendo o que tiver de ser...


» Na sequência, o Apocalipse.

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (estátua de Marco Aurélio); [ao longo] Maxim Duzij/unsplash

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31.8.19

Lançamento: Meditações de Marco Aurélio

As Edições Textos para Reflexão retornam a filosofia com a obra de Marco Aurélio, o imperador romano que mais se aproximou do ideal platônico de um “rei-filósofo”.

Meditações é um dos marcos do estoicismo e da história da filosofia ocidental. A tradução (a partir de versões inglesas) é de Rafael Arrais, que também já traduziu o Manual de Epicteto e diversas obras poéticas e espiritualistas da humanidade.

Já disponível em ebook e versão impressa:

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Abaixo, segue o Prefácio da obra (por Rafael Arrais):


Em sua famosa obra, A República, Platão defende que o Estado ideal deveria ser governado por uma espécie de “rei-filósofo”. No entanto, mesmo na época o pensador grego sabia que se tratava de algo muito difícil de vir a acontecer:

“Se nunca aconteceu, nos séculos passados, que um filósofo fosse obrigado a se encarregar do governo de um Estado [...], se algum dia realmente vier a acontecer, poderemos então afirmar que existe uma República semelhante a esta que imaginamos, quando a Musa Filosófica se tornar senhora de uma cidade.” (A República, Livro VI)

O próprio Platão, convidado pelo governante de Siracusa, tentou implantar o seu sistema de governo idealizado no “mundo real”, mas falhou miseravelmente. Ora, se nem mesmo quem imaginou os reis-filósofos encontrou um, diríamos que alguém assim nunca existiu, certo?
Bem, se houve algum homem que se aproximou dos ideais platônicos, e conseguiu ser bem sucedido tanto na condução do Estado quanto no caminho da filosofia, este homem foi Marco Aurélio, imperador de Roma.
Marco Aurélio foi o último dos cinco imperadores que governaram o Império Romano num período conhecido como Pax Romana (Paz Romana), que durou até a sua morte, em 180 d.C. Curiosamente, como ainda veremos, a última década de sua vida foi quase toda dedicada a defender o Império de invasores bárbaros – havia paz dentro do Império, mas não em suas fronteiras.
Nascido em 121 d.C., devido a morte prematura do pai ele foi criado como filho adotivo do bom imperador Antonino Pio, também seu tio, a quem sucedeu no governo em 161 d.C. Devido a haver sido educado pelos melhores mentores e sábios de sua época, Marco Aurélio conheceu a fundo a filosofia grega, e veio a se apaixonar pelo estoicismo.
Esta corrente filosófica surgiu em Atenas já após Platão e Aristóteles, quando por volta do ano 301 a.C. um estrangeiro de origem fenícia chegou a cidade e passou a divulgar sua doutrina e atrair discípulos. Seu nome era Zenão de Cítio.
Ao contrário de muitos filósofos da época, Zenão preferia realizar suas palestras em locais públicos, sendo o seu ponto favorito uma espécie de “pórtico” (stoa, em grego) da cidade. Por conta da palavra stoa, a nova doutrina veio a ser conhecida como estoicismo.
Zenão teve alguns discípulos que vieram a se tornar relativamente famosos, mas do ponto de vista histórico existiram três estoicos tardios, nascidos séculos após Zenão, que foram muito mais importantes que ele próprio: Sêneca, Epicteto e o próprio Marco Aurélio.
Sêneca (3 a.C. – 65 d.C.), a exemplo de Marco Aurélio, conseguiu ser bem sucedido na filosofia e na política, tendo alcançado o cargo de senador romano. Foi Epicteto (60 d.C. – 100 d.C.), entretanto, o grande exemplo seguido pelo imperador filósofo. Ao contrário dos outros dois expoentes do estoicismo, Epicteto teve origem humilde e foi escravo por boa parte da vida; mesmo assim tal fato não o impediu de ter sido um dos pensadores mais originais da história da filosofia, ao ponto da própria obra de Marco Aurélio ser mais uma espécie de comentário alongado de Epicteto do que algo propriamente original.
A própria essência do estoicismo foi de tal forma resumida no início do Manual de Epicteto, que poderíamos dizer que todo o restante pode ser desenrolado, como um fio, desta reflexão inicial:

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.” (Manual, I)

Assim, um estoico focava a sua atenção não propriamente nos eventos do mundo, mas na sua interpretação, na sua opinião acerca de tais eventos. Ou, como repetia Marco Aurélio, “tudo é opinião”.
No entanto, sem dúvida seria bem mais simples se dedicar à filosofia estoica e à reflexão acerca da própria opinião no espaço reservado de uma escola filosófica, numa casa de campo afastada das grandes cidades, quiçá simplesmente viajando a turismo pelo mundo. Todavia, nada disso foi possível ao imperador Marco Aurélio, que tinha literalmente o maior império de seu tempo dependendo dos seus cuidados. O fato de ele ter sido bem sucedido em seu caminho filosófico, mesmo diante de tantas responsabilidades e atribulações, faz dele quase que um exemplo de homem divino, embora ele próprio pouco se importasse com a fama.
Aliás, Marco Aurélio jamais desejou publicar obra alguma. As suas Meditações, que tinham a si mesmo como destinatário, eram nada mais que diários pessoais, escritos sabe-se lá a qual custo em meio ao seu governo. De fato, ele passou os últimos dez anos de sua vida residindo longe do conforto de Roma, defendendo a fronteira norte do Império dos ataques de povos bárbaros, como os Quados e, principalmente, os Marcomanos. E ao que tudo indica foi precisamente nesses anos, quem sabe para ajudar a si mesmo a ser resiliente a guerra, quem sabe por puro amor a filosofia, que Marco Aurélio escreveu e presenteou a história da filosofia com as Meditações.
Coube a Cássio Dião, um historiador da época, relatar o esforço descomunal do imperador em não deixar a chama filosófica se apagar, mesmo em meio aos dias mais sombrios:

“Marco não encontrou a boa sorte que merecia, pois ele não era dotado de um físico vigoroso e se viu envolvido em um turbilhão de problemas durante praticamente todo o seu reinado. Mas, na parte que me toca, eu o admiro ainda mais por essa razão, já que, em meio a dificuldades incomuns e extraordinárias ele conseguiu sobreviver e preservar o Império.”

Assim, na sequência ficamos com as reflexões de um dos maiores governantes e filósofos que já passou pelo mundo, que embora tenham ficado conhecidas como as Meditações de Marco Aurélio, na realidade foram intituladas pelo próprio autor como Pensamentos para mim mesmo...


O tradutor.


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18.7.19

A filosofia pode ser terapêutica?

Segundo os pensadores do período helenístico, sim.

Na verdade, a filosofia naquela época era diferente de como a praticamos hoje. Se na filosofia moderna o conhecimento filosófico é ensinado como um discurso nas universidades, dedicada a tentar resolver os problemas da natureza do conhecimento – por exemplo, racionalismo versus empirismo, materialismo versus metafísica, objetividade versus subjetividade – na antiguidade clássica os filósofos viam a própria filosofia como uma “forma de viver”.

Ou seja, os filósofos estavam preocupados com os problemas da ética. E com ética eu não me refiro a moral. Não se tratava de simplesmente descobrir o “comportamento correto”, tal como seria numa moral religiosa, seja cristã, judia, budista ou qualquer outra.

A ética se refere ao modo como nos relacionamos com as coisas do mundo, com as outras pessoas e até mesmo com nossos próprios desejos. É muito mais um exercício a ser desenvolvido que uma norma a ser seguida. É neste sentido que a ética, numa concepção helenista, se aproxima do que hoje entendemos como o campo da psicologia, ou melhor, das psicoterapias.

Uma psicoterapia é também uma forma de pensar a maneira como nos relacionarmos com nossa vida, repensar nossos investimentos e cuidar daquilo que nos faz sofrer. Toda terapia – independente de sua abordagem – segue um ideal ético, ainda que cada terapia tenha a sua própria ética.

O terapêutico é a maneira como lidamos com o sofrimento, e para os helenistas, o sofrimento não é por acaso. Ele tem origem em nosso pensamento. Isto é, seja por pensamentos incorretos, raciocínios distorcidos ou modos patológicos de enxergar a realidade, nós sofremos.

E se a filosofia é, por excelência, o meio para nos fazer pensar melhor, não é estranho imaginar que ela poderia nos fazer sofrer menos também. [1]

Por trás do pensamento, no entanto, há o próprio desejo. Aquilo que o homem quer do mundo e na vida. Pensamos de determinada maneira porque queremos algo disso. Ao questionar o pensamento, a filosofia estaria na verdade investigando, explorando e tratando os nossos desejos, origem de nossos pensamentos, e causa do sofrimento.

Deste modo, as escolas filosóficas helenistas e suas diferentes propostas éticas eram, em última instância, modos de lidar e educar o próprio desejo. A filosofia aparece como uma terapia do desejo. [2]

Apresentarei a vocês neste texto resumidamente as três principais escolas do pensamento helenista e suas respectivas formas de lidar com o desejo:

O Epicuranismo e a busca pelo desejo verdadeiro
Fundada por Epicuro, esta escola entendia que o homem sofre porque ele tem “maus desejos”. Isto é, desejos ruins e artificiais, como a busca por dinheiro, fama, glória etc. Estes desejos seriam impróprios não por uma simples razão moralista, mas porque, de algum modo ou de outro, os filósofos percebiam que tais desejos não podiam trazer uma verdadeira felicidade. Eles não correspondiam ao que as pessoas realmente necessitavam na vida.

A verdadeira felicidade viria dos desejos verdadeiros, estes sim que deveriam ser buscados e valorizados. Epicuro, por exemplo, acreditava que a riqueza seria um bem vazio se não pudesse ser compartilhada com outras pessoas, criando com elas momentos de alegria. Deste modo, o dinheiro não é um verdadeiro desejo, mas sim a companhia de boas amizades. A busca por riqueza seria um desejo artificial, enquanto cultivar uma boa amizade ou um amor recompensaria melhor a nossa natureza.

A terapêutica de Epicuro dedicava-se, portanto, em descobrir que aquelas coisas que perseguimos normalmente são artificiais. Necessitamos descobrir quais são os nossos verdadeiros desejos, porque eles sim podem nos trazer a felicidade.

Por outro lado, esta terapêutica lida com o problema de que nem sempre reconhecemos o nosso desejo como ruim. Isto é, alguém pode gostar de seu mau desejo. A ética epicurista só seria praticável a alguém num momento em que já se percebe num nível “patológico”.

O Ceticismo e as expectativas
Outra escola importante da antiguidade era o ceticismo. Hoje usamos esta palavra para nos referir a pessoas que são cientificistas, que não acreditam ou duvidam de algo, ou até mesmo que são ateias. Porém, originalmente, os céticos eram aqueles que duvidavam de que existisse uma visão única sobre algo, que duvidavam de que havia uma verdade.

Podemos ver que os céticos concordavam com a visão de Epicuro de que o sofrimento humano tem origem em suas falsas crenças, em seus falsos desejos. Porque muitas vezes pensamos que aquilo que desejamos é verdadeiro e bom, e depois de perseguir tal ilusão nos decepcionamos e sofremos.

No entanto, os céticos discordavam dos epicuristas que a solução estaria em cultivar desejos melhores. Para eles, isto simplesmente não existia. Seria apenas trocar um falso desejo por outro, que inevitavelmente também nos faria sofrer em algum momento.

Aos céticos, o problema era a própria expectativa criada pelo desejo. A terapia cética buscava assim criar uma indiferença ao próprio desejo, pois, se somos indiferentes ao que desejamos, nos tornaríamos imunes aos sofrimentos das altas expectativas.

Porém, é necessário questionar até que ponto a expectativa seria algo evitável, ou mesmo se a indiferença seria vantajosa, e não apenas uma maneira de fugir dos paradoxos da vida e do desejo. Quem suportaria uma vida indiferente a tudo?

O Estoicismo e o autocontrole
Finalmente, a última das três principais escolas da antiguidade é o estoicismo. Esta deixou para a posterioridade o seu ideal ascético, tendo influenciado em muito o cristianismo. O objetivo estoico é substituir as paixões humanas pela razão. Seus filósofos acreditavam que nós não somos simples animais, movidos pelas nossas emoções, mas que através de nossa capacidade racional podemos alcançar uma vida superior.

Os estoicos viam o sofrimento no desejo. Em nossas paixões. Pois ao querermos coisas e não podermos tê-las ou transformá-las, terminaríamos frustrados. Nossas emoções nos fariam sempre demasiadamente humanos, mesquinhos pelos nossos interesses, incapazes de uma visão superior sobre a vida e a sociedade. O ideal estoico dizia então que o homem devia usar sua maior virtude, a racionalidade, para dominar a as suas paixões e exercitar o autocontrole.

É curioso que, como terapeuta, percebo que a maioria dos nossos clientes procuram o atendimento motivados por um ideal estoico. Geralmente percebem que há algo neles que não podem controlar, e desejam ter maior domínio sobre isso em suas vidas para não mais sofrerem.

No entanto, os estoicos precisam confrontar-se com a dificuldade – quiçá a impossibilidade muitas vezes – de serem sempre racionais ou não possuírem emoções ou paixões autênticas, por mais que estas pareçam injustas ou contraditórias. Será que o homem pode estar sempre no controle de si mesmo?

***

Vemos, portanto, que os ideais terapêuticos que nossos clientes buscam ou que profissionais e influenciadores promovem por aí não nasceram da psicologia moderna. Inocentes são aqueles que acreditam nisso. Eles existem desde muitos séculos na filosofia, se não são anteriores a ela mesma.

É neste sentido que a filosofia pode ser sim terapêutica, já que a origem de nossa ética emerge dela, mesmo que disto não saibamos. Que alguém busque um desejo verdadeiro que lhe traga felicidade, que tente lutar contra suas próprias expectativas ou queira controlar a si mesmo através da racionalidade, tudo isto faz parte de um ideal ético filosófico.

Se a filosofia pode ser terapêutica é porque antes a terapia é filosófica. Cabe questionar, para além disso: qual é afinal a nossa ética?

***

[1] Nota do Editor: antigamente o blog Textos para Reflexão tinha uma espécie de “slogan” – pensar para melhor viver. É interessante que, anos depois do “slogan” haver sumido, a sua essência tenha reaparecido aqui :)

[2] Mais sobre este tema pode ser lido no livro The Therapy of Desire de Martha Nussbaum.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Bill Ringer/Unsplash

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16.7.19

Traduzindo o Imperador

Vocês devem ter reparado que faz algum tempo que não temos um novo lançamento nas Edições Textos para Reflexão. Isto porque faz alguns meses que eu estou me dedicando quase que exclusivamente à tradução de Meditações de Marco Aurélio, o imperador de Roma (a partir da versão inglesa de George Long).

Além de ter sido o último imperador da chamada Pax Romana, um longo período de relativa paz e progresso no Império Romano, Marco Aurélio é um dos expoentes do estoicismo, uma vertente filosófica originária na Grécia no século 3 a.C. que exerceu profunda influência na ética cristã. Assim, se trata quem sabe do homem que mais se aproximou do ideal de “rei-filósofo” cunhado na República de Platão.

Estou com aproximadamente 2/3 da tradução concluída, espero publicar na Amazon (em e-book e impresso!) em no máximo dois meses... Abaixo, trago alguns trechos retirados dos primeiros livros (ou capítulos) da minha tradução, e também a capa:


Livro II, trecho I

Inicie a manhã dizendo para si mesmo: hoje devo cruzar meu caminho com os intrometidos, os ingratos, os arrogantes, os traiçoeiros, os invejosos e os mal-humorados. Tudo isso lhes afeta pelo fato de serem ignorantes do bem e do mal. Eu, porém, que contemplei a natureza do bem, e vi a beleza, e que igualmente observei o mal, e percebi o seu horror, e que ainda refleti sobre a natureza daqueles que incorrem no erro, e descobri que eles também me são aparentados, não somente pelo sangue ou pelo nascimento, mas por participarem da mesma inteligência e da mesma origem divina, já não posso temer que me causem dano algum.
Pois que ninguém [além de mim] pode reformar o meu próprio mal, tampouco eu poderia me zangar com um parente, muito menos odiá-lo. Pois que nós fomos criados para a cooperação mútua, como os pés, as mãos, as pálpebras, os dentes superiores e inferiores.
Assim, agir contra o próximo é algo contrário à natureza, e deve ser evitado.


Livro II, trecho XII

Quão rápido todas as coisas desvanecem: em todo o universo, os próprios corpos, e no tempo, a lembrança deles. O que será a natureza de todas as coisas sensíveis, particularmente aquelas que nos atraem pela isca do prazer, ou nos aterrorizam pela dor, ou ainda aquelas cujo brilho passageiro nos desatina?
Quão sem valor, desprezíveis, sórdidas, perecíveis e mortas: cabe a nossa faculdade intelectual tomar consciência disto. E igualmente observar a quem as opiniões e os buchichos conferem fama; e refletir acerca do que é a morte, e o fato de, se um homem a encara em si mesmo, e por um poder de abstração reflexiva, a separa de todos os fantasmas imaginários que lhe associamos, ele então enfim perceberá que ela é nada mais do que uma operação da natureza; e se alguém tem medo de uma operação natural, é infantil. No entanto, a morte não é apenas uma operação da natureza, mas também algo que conduz ao seu cumprimento. [...]


Livro IV, trecho XLIX

Seja como às rochas contra as quais as ondas se quebram incessantemente, mantenha-se firme e domestica a fúria das águas ao seu redor.
Estou infeliz porque este infortúnio me ocorreu? Pelo contrário, estou satisfeito! E minha satisfação decorre do fato de que, apesar de tal infortúnio haver se sucedido em minha vida, eu continuo livre do sofrimento, nem revoltado com o dia de hoje, nem temeroso quanto ao futuro.
Pois que tal infortúnio poderia ocorrer na vida de qualquer homem, mas nem todos os homens se conservariam livres do sofrimento ante tal evento. Por que então este evento seria um infortúnio, e aquele outro, uma sorte?
E como você julgaria qualquer evento um infortúnio, se ele não desvia um homem da sua natureza? E acaso algo lhe parece como um desvio da natureza de um homem, se não é contrário à vontade da própria natureza? Ora, você conhece a vontade da natureza – terá, então, isto que se passou o impedido de continuar sendo justo, magnânimo, moderado, prudente, protegido contra a irreflexão e a falsidade? Terá roubado a sua modéstia, a sua liberdade, e tudo o mais que constitui o caráter essencial da sua natureza?
Assim sendo, lembre-se de aplicar tal princípio em cada ocasião que possa lhe causar aborrecimento: tal evento não é em si mesmo um infortúnio, nem motivo de infelicidade, mas poder suportá-lo com coragem é ao mesmo tempo uma sorte e um motivo de satisfação.


Livro V, trecho XXVII

Viva junto aos deuses. Vive próximo aos deuses aquele que lhes mostra diuturnamente que a sua alma se encontra satisfeita com a sua própria sorte, realizando tudo o que determina o seu daemon, que Zeus conferiu a cada homem como um guardião e um guia, uma parte da sua divindade. E ele se reflete em nossa razão e em nossa sabedoria.

Meditações de Marco Aurélio; tradução de Rafael Arrais
(em breve, na Amazon e outras lojas...)


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8.11.18

O que a filosofia nos ensina sobre o ódio

Nunca se falou tanto sobre o ódio. O cenário político e o crescimento dos conflitos sociais nos últimos anos têm nos chamado a atenção para esse afeto. Hoje vemos inclusive que o ódio pode ser um fenômeno social, capitalizado para interesses políticos.

Mas como a filosofia pode nos ensinar a lidar com esse afeto? Vejamos o que nos diz Sêneca em seu diálogo Sobre a Ira, a face mais agressiva do ódio.

A ira, diz-nos Sêneca, é o desejo de causar dano ao outro porque temos o sentimento que nos foi causado algum dano antes. Neste sentido, a ira é um desejo de vingança. Retribuir um dano sofrido.

Muitas vezes não se trata de um dano físico, como um golpe, mas toda sorte de prejuízos que achamos ter sofrido por consequência das ações de outra pessoa. Por exemplo, se acreditamos que perdemos a mulher que amamos para outra pessoa, passaremos a odiar a mulher que perdemos ou nosso rival amoroso porque achamos que fomos prejudicados por eles.

Temos nossa primeira lição sobre o ódio: ele nasce da sensação de prejuízo. A partir disto, raivosos, queremos reparar o dano que sofremos igualmente prejudicando ou atacando quem consideramos inimigo.

Quando hoje se fala em discurso de ódio, não se trata de simplesmente odiar um grupo em particular. É odiar um grupo por acreditar que tais indivíduos são, diretamente ou indiretamente, responsáveis pela minha infelicidade.

O ódio aos homossexuais, por exemplo, e a consequente perseguição que esse grupo sofre, parte do fato que muitas pessoas se sentem ofendidas pela simples existência deles. Não importa que os gays não estejam fazendo nada além de simplesmente existirem e amar como desejam. Muitas pessoas aprenderam a odiar qualquer coisa que seja diferente de sua concepção de mundo ou que possa balizar os seus próprios desejos, e a diferença lhes agride. Trata-se, claro, de um problema de quem não suporta a diferença.

E Sêneca vai além. É impossível vivermos sem encontrarmos algo do qual não tenhamos motivos de censura ou aversão. É natural que haja coisas que apreciamos enquanto outras repudiamos. Faz parte da própria diversidade humana.

Basta rolar o feed de notícias das redes sociais ou ligarmos a televisão que veremos muitas coisas que desaprovamos. Seja um caso de corrupção que saiu no jornal ou a agressão injusta que uma pessoa querida nossa sofreu. Estamos sempre sujeitos a nos revoltarmos com as coisas que acontecem ao nosso redor. É muito fácil que o ódio surja a qualquer momento.

Porém, o ódio não é um afeto que soluciona nossos problemas.

Odiar um político corrupto pelo que ele fez ou um ex-amigo pela traição que ele cometeu consigo não irá reparar os danos causados. É possível sim que, por vingança, você queira fazer algo. Mas será que a vingança irá realmente curar as feridas?

Sêneca nos diz que algumas coisas não valem o ódio. A serenidade da alma é o bem mais precioso, e perder isso talvez seja o verdadeiro dano que você irá se causar.

Na filosofia estoica de Sêneca, o problema não é o dano que você venha a sofrer. A vida é inevitavelmente de dificuldades e desastres. O verdadeiro sofrimento está em aceitar que essas tragédias estraguem o seu humor, o seu dia, ou mesmo a sua vida.

Portanto, é melhor curar-se do ódio que tentar se vingar, pois a vingança absorve muito tempo e nos expõe a uma multidão de outras ofensas que nos causariam ainda mais dano. Além disso, satisfazer-se com as misérias alheias é uma satisfação muito pequena diante de outras que você proporcionar a si mesmo.

Ainda que nunca estejamos imunes ao ódio, e reações enérgicas podem ser algumas vezes justas e necessárias, vale como regra geral o conselho estoico: é melhor economizar suas energias de tentar se vingar ou atacar alguém investindo em sua própria felicidade.

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Jason Rosewell/Unsplash

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31.8.17

A filosofia para viver bem (parte 1)

1. Entre o Céu e a Terra

A filosofia não foi sempre uma abstração praticada pelos acadêmicos. Na Grécia Antiga, existiram alguns pensadores mais pragmáticos, que exploravam questões mais cotidianas. Problemas sobre como enfrentar a morte de um amigo, como agir corretamente em determinada situação ou aproveitar a vida da melhor forma possível.

O objetivo da vida para um grego antigo era alcançar a eudaimonia. Geralmente, traduzimos por alcançar a felicidade ou o desenvolvimento das potencialidades. De forma mais simples, podemos dizer que chegar a eudaimonia é aprender a viver bem. Em todos os sentidos: crescer enquanto ser humano, desfrutar da vida, ser uma pessoa boa.

Isto é muito mais difícil do que parece, pois, na vida, somos acometidos por toda sorte de problemas que geralmente nos impedem de nos dizermos felizes. Preocupações, ansiedades, medos, conflitos.

Os filósofos entendiam que o caminho para a eudaimonia se daria, portanto, através da ataraxia.

Ataraxia pode ser traduzida como “imperturbilidade”, ou um estado livre de tensões. Uma vez que as tensões da vida são aquilo que nos impedem de desfrutar das nossas experiências ou fazer escolhas com sabedoria, a prática da ataraxia buscava alcançar um estado de tranquilidade, livrando-se de tensões desnecessárias, mantendo o equilíbrio e a consciência das nossas emoções.

Como alcançar esse estado de tranquilidade? Os filósofos discordaram justamente quanto a isso.

Cada um deles tinha uma concepção de como deveríamos reagir ao mundo ou lidar com a vida. Duas escolas do período helenístico se destacaram enquanto doutrinas neste sentido: o epicurismo e o estoicismo.

Os epicuristas entendiam que a vida devia ser prazerosa. Porém, deveríamos ter cuidado com os excessos. Desejos exacerbados ou fúteis podem nos conduzir às perturbações, medos e sofrimentos.

Para Epicuro, a felicidade podia ser alcançada quando realizássemos nossos desejos de forma estável e equilibrada. Epicuro mesmo tinha uma vida extremamente simples. A amizade era uma coisa essencial para si. Portanto, vivia cercado pelos seus amigos, compartilhando com eles seus pensamentos num belo jardim. Uma vida extremamente simples, mas prazerosa e equilibrada.

Os estoicos, por sua vez, acreditavam que seríamos felizes quando não tivéssemos mais motivos para sofrer. Portanto, deveríamos abandonar nossos desejos, paixões, ou qualquer tentativa desnecessária de mudar o curso do mundo.

Segundo Zenão, somos como um cão amarrado a uma carroça. Esta última representa o mundo, os eventos maiores que nós mesmos, o destino. Quando a carroça avança, somos puxados pelo curso do mundo. Se lutarmos contra ela, iremos nos machucar. O cão também não pode ficar parado. A carroça obriga-o a se mexer.

Isto não significa que não temos liberdade. A coleira tem uma folga suficiente para o cão poder andar livremente enquanto acompanha a carroça. Ele só não pode ir para além do laço que o prende. Deste modo, temos a liberdade de escolher como nos comportar, responder ou pensar durante os eventos. Só não podemos – sozinhos – crer que vamos curvá-los ao nosso desejo.

Pensamos que só podemos ser felizes quando as coisas são como desejamos, quando elas estão além do nosso poder para conquistar ou alterar. O objetivo estoico é desenvolver uma espécie de indiferença perante as paixões e frustrações, de modo que os acontecimentos não afetem nosso humor. A felicidade advém, para um estoico, não de experiências simples e prazerosas (como diria um epicurista), mas de uma vida virtuosa.

Hoje podemos reconhecer ambas as escolas sob outros nomes, ainda em disputa: o ascetismo e o hedonismo.

Segundo o ideal asceta, o objetivo da vida é nos elevarmos acima dos prazeres e sofrimentos do mundo, transcendendo a realidade inferior do mundo.

A visão hedônica define que o mundo é tudo que possuímos, e não há nada de inferior nele.  Portanto, devemos aproveitar a vida que temos, desfrutando dos prazeres e aprendendo com os sofrimentos.

Há ainda uma terceira escola que geralmente é esquecida da tradição clássica.  Vamos falar dela no próximo texto da nossa série.

» Continua aqui

Igor Teo é psicanalista e escritor. Para saber mais acesse o seu site pessoal.

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Crédito da imagem: Olu Eletu/unsplash

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17.6.16

Para ser feliz, parte 2

« continuando da parte 1

Muitos certamente já tiveram a oportunidade de assistir uma partida de futebol num grande estádio, junto a milhares de pessoas. No entanto, mesmo os que não tiveram, devem ter visto pela TV como esses eventos são animados, nem que tenha sido durante uma transmissão de Copa do Mundo. Afinal, nós somos o país do futebol!

Agora imaginem uma final entre dois times de grande torcida, onde quem vencer o jogo leva o caneco. Milhares de pessoas cantando, pulando, rezando juntas para que aquela cobrança de falta entre no ângulo do goleiro, indefensável... ou, que seja isolada na arquibancada.

De fato, sob esse ponto de vista, cada lance de uma partida de futebol, cada cartão amarelo, cobrança de falta, bola na trave ou gol, irá provocar um efeito de alegria ou melancolia na medida de sua importância para o resultado final da partida, isto é, na medida em que contribuí ou não para a vitória do time para o qual estamos torcendo, seja só naquele dia, seja desde criancinha.

E, desnecessário dizer, aqueles que torcem para este ou aquele time desde a infância, que acompanham os campeonatos futebolísticos como se fossem um verdadeiro embate mitológico de semideuses, são exatamente os que irão experimentar a maior intensidade de alegria ou de melancolia em cada gol, em cada partida, em cada final de temporada...

Eu tive um professor de arte que pensava um pouco diferente o futebol em si. Ele torcia para um time, de fato, mas não se importava muito com os resultados dos jogos. O que lhe causava maravilha era a própria festa que a sua torcida fazia no estádio (e não era qualquer estádio, mas o próprio Maracanã!). Ele gostava tanto daquela sensação intensa de pura vida que sentia ali que admirava mesmo as torcidas adversárias, e encontrava beleza mesmo quando via a sua própria torcida apreensiva, por estar perdendo o jogo, ou ainda calada e chorosa, por haver acabado a partida atrás no placar.

Esse professor me ensinou muito sobre arte somente por relatar tais experiências. Em seus olhos, em sua alma, era nítido que ele havia desvelado o que estava por detrás dessas ondas de felicidade e tristeza que agitavam o mar, pois que eram sempre passageiras, e encontrado a pérola sem nome, o tesouro reservado aqueles que conseguem perceber a beleza que há em tudo.

Penso que Cecília Meireles soube resumir melhor isso que não pode ser dito:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Talvez a grande qualidade das poetisas, dos professores de arte e das criancinhas seja exatamente esta: perceber a Arte de cada momento, e não se aventurar nessas apostas arriscadas, nesses jogos de azar que trazem uma hora alegria, outra hora tristeza. Afinal, nenhum time fica invicto para sempre...

Há muito tempo, ainda antes de Cristo, floresceu na antiga Grécia uma filosofia um tanto peculiar, o estoicismo. O que os estoicos defendiam, essencialmente, é que não valia a pena colocar nossa felicidade lá fora, pois tudo o que não depende de nossa vontade é mais ou menos como um jogo de futebol: há dias em que somos vitoriosos e felizes, é certo, mas isso só ocorre ao custo de muitos outros dias em que perdemos, e ficamos arrasados. Os sábios do pórtico sabiam que a grande riqueza da vida era a própria vida:

A filosofia não visa assegurar qualquer coisa externa ao homem. Isso seria admitir algo que está além de seu próprio objeto. Pois assim como o material do carpinteiro é a madeira, e o do estatuário é o bronze, a matéria-prima da arte de viver é a própria vida de cada um. [1]

O grande ensinamento dos estoicos, que os discípulos de um de seus maiores sábios, Epicteto, incluíram logo no início do seu Manual (um verdadeiro manual para a vida), é este que trata de delimitar o que depende e o que não depende de nossa vontade, de modo a que não nos aflijamos com o último, e busquemos sempre o primeiro:

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho.

É por isso que as crianças estão felizes todo o tempo quando vão assistir a uma partida de futebol num grande estádio pela primeira vez. Para elas, o resultado do jogo é o que menos importa; ante tamanha algazarra, tamanha festa de adultos que, de vez em quando, parecem mesmo se permitirem voltar a suas épocas de criança, tudo o que elas podem perceber é a essência da vida, escancarada a céu aberto.

Mas tudo isso vai até o primeiro gol, a primeira vitória ou derrota, ou mesmo aquele empate que não agradou ninguém: nesse momento elas percebem que os adultos a sua volta escolheram, apostaram num dos lados, e entraram neste jogo infindável de vitórias e derrotas, de felicidade que surge da tristeza e tristeza que surge da felicidade, pois que de fato são irmãs.

E assim, o que resta aos sábios, aos artistas, aos poetas, aos adultos que não esqueceram sua criança interior, que não nos alertar para essa imensa armadilha?

Há muita coisa que ganhamos e perdemos nesta vida: dinheiro, status social, fama, amizades, amores, doenças, tristezas, alegrias, e até mesmo partidas de futebol, mas nada disso precisa necessariamente determinar o que realmente sentimos, o que realmente somos, neste e em todos os outros momentos da vida.

Para os estoicos, a virtude era o suficiente para a felicidade, isto é, para ser feliz bastava ser virtuoso. Mas, o que eles entendiam por “virtude” era precisamente esta capacidade de saber discernir a essência do passageiro, o ser do ter, em suma, o que somos daquilo que nunca fomos.

Por força do hábito, muitos chamaram isso de “felicidade”. Mas, aquilo que vi nos olhos do meu professor de arte, ou que os pais veem no sorriso dos filhos em sua primeira vez num estádio, isso nunca teve nem nunca terá um nome.

» Na próxima parte, a verdadeira vontade...

***

[1] Epicteto, Discursos.

Crédito das imagens: [topo] Pexels.com; [ao longo] Google Image Search

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9.12.15

Memes para reflexão, parte final

« continuando da parte 4

(clique nas imagens abaixo para abri-las em nossa galeria de memes no Facebook)

De que adianta ser um mestre?
Há uma ideia recorrente de uma visão superficial do misticismo que vê o mestre espiritual como um grande ser iluminado, digno de toda reverência, cujos ensinamentos praticamente não podem ser questionados... Mas em quê exatamente isso auxilia o cominho dos discípulos do mestre, e do próprio mestre?

Nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, pois sabe que, se chegou aonde chegou, foi não somente pelo auxílio dos caminhantes de outrora, como pela lenta lapidação de si mesmo, da própria alma, um pensamento de cada vez, um passo de cada vez.

E, se aceita que outros lhe chamem assim, “mestre”, é porque sabe muito bem que houve época em sua andança espiritual em que ele mesmo também teve a necessidade de crer que existia algum guru espiritual que o pegaria pela mão e caminharia junto dele, sem que houvesse necessidade de ir a fundo de si mesmo, e encarar a própria sombra, os próprios medos, as próprias culpas, inteiramente só...

Mas então, depois que descobriu que não existem mestres, e que cada um só pode mesmo ser o mestre de si, também passou, quase que na mesma passada, a compreender que o único mestre é o amor:

Pois o amor é paciente, o amor é gentil. Ele não é ciumento, nem invejoso, nem soberbo, nem rancoroso. Ele sempre aguarda; ele sempre confia; ele sempre persiste; e ele jamais acaba. (Paulo de Tarso, Carta aos Coríntios)

É assim que podemos conhecer a fundo toda exegese bíblica, uma centena de mantras hindus, todas as nobres verdades de Buda e tudo o que se comentou sobre elas ao longo dos séculos, toda a filosofia grega, toda a simbologia do tarô, toda a história da ciência moderna, e muito mais, mas, sem a vivência de tais conhecimentos, sem a conexão com a essência da realidade, sem o mergulho íntimo nesse amor eterno, o que seríamos? Seríamos realmente mestres de alguma coisa?

É assim que chegamos a este meme de Yoda, um mestre jedi que também não chama a si mesmo de mestre, e que é a própria imagem da força espiritual: ela vem de dentro, não de fora. Ela é oculta, não aparente. E ela jamais acaba...

Pertencer a uma Ordem Iniciática não faz de você uma pessoa melhor;
ter muitos conhecimentos magísticos não faz de você uma pessoa melhor;
estar em uma religião não faz de você uma pessoa melhor;
ser uma pessoa melhor faz de você uma pessoa melhor.
(Frater Alef)


O que pode ser mudado
Recentemente surgiu nas redes sociais uma espécie de movimento filosófico  que prega o “ficar de boas”, ou seja, o “estar em paz com a vida”. Ele foi chamado, como muitos devem saber, deboísmo.

O que nem todos devem saber, no entanto, é que o sucesso do deboísmo se deve em grande parte a sua similaridade com outra corrente filosófica muito mais antiga, o estoicismo:

Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar. (Discursos de Epicteto, III, 24)

A condição principal para a pacificação da alma, tanto no estoicismo como em diversas outras correntes filosóficas e/ou religiosas, é justamente a compreensão de que somos apenas pequenos atores em uma peça teatral cujo roteiro supera em muito a nossa atual compreensão. Não nos cabe querer dirigir o que não compreendemos, e ademais seria inútil tentar: há sim muitas coisas que escapam ao nosso controle, a nossa decisão, ao nosso poder.

Mas é justamente nesse “deixar levar” das coisas que não temos realmente controle que nós passamos a voltar nosso foco mental, nossa atenção, para aquilo que é realmente importante, aquilo que podemos mudar: a nossa reação interna, a forma como interpretamos o mundo; em suma, cada um de nossos pensamentos que surge, genuinamente, de nossa mente, de nossa alma, e que “não veio de fora para nos importunar”.

E é precisamente nesse entendimento, nessa compreensão do que pode e do que não pode ser mudado, que iniciamos finalmente na via da sabedoria; e então, se a total pacificação da alma pode ainda se encontrar distante, fato é que a cada passo neste caminho nos tornamos mais confiantes, mais tranquilos, mais “deboas”...

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho. (Manual de Epicteto, I)


Deuses dançarinos
Uma vez Friedrich Nietzsche, o grandioso bigodudo da filosofia alemã, disse que “só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.

O que o alemão criticava não era a religiosidade, tampouco a espiritualidade poética de deuses dançarinos, mas antes a sisudez e a ortodoxia do cristianismo de sua época, em que os fiéis se abstinham quase que totalmente de suas experiências místicas, de suas danças sagradas, para reler os relatos antigos das experiências dos outros, de muitos séculos atrás.

Fato é que o cristianismo, de lá para cá, acabou realmente se tornando menos sisudo, menos ortodoxo, e mais carismático, em muitos sentidos, e talvez isso agradasse Nietzsche... Ele certamente preferiria dançar ao lado de Jesus do que ouvir a uma missa, se levantando, sentando e gesticulando junto com os demais, em momentos pré-estabelecidos.

No fundo, o que este e os demais memes quiseram lhes trazer é tão somente uma reflexão bem humorada acerca de tais assuntos transcendentes. Levar a vida muito a sério, sem dançar de vez em quando, não parece ser o caminho mais eficiente para a espiritualidade...

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

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