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8.8.13

Um ser ondulante

Trecho do Projeto Rumi:

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando a eternidade,
suas raízes se aprofundando na eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Deus.

***

Mantido assim, para amamentação,
sem consciência, provando nuvens de leite,
nunca tão satisfeito.


Comentário

Enquanto transpirava paixão, perda e saudade em seus poemas, foi exatamente num sonho que Rumi conseguiu localizar Shams; conforme nos contou Aflâki, o seu principal biógrafo:

Uma noite, Rumi sonhou com Shams. Sentado numa pequena taverna em Damasco, ele jogava dados com um jovem francês, este também um buscador espiritual. Shams havia ganho todas as partidas e o perdedor, desesperado, estava a ponto de se lançar violentamente sobre ele. Rumi despertou subitamente da visão e pediu que seu filho, Sultan Walad, fosse até Damasco salvar Shams do perigo.
Walad viajou imediatamente e, ao chegar, de fato o encontrou na referida taverna sendo agredido e insultado pelo jovem. Walad se prostrou aos pés de Shams, depositou ouro e prata sobre suas sandálias e implorou, em nome do pai, que ele regressasse a Konya. Ao ouvir isso, o jovem francês compreendeu que havia insultado um grande mestre a também se prostrou a seus pés, envergonhado e implorando para que Shams o aceitasse como discípulo.
Shams o recusou dizendo: “Retorna à Europa; visita os buscadores de lá, seja o seu líder e recorde-se de nós em suas orações”. Então, Shams concordou em regressar a Konya e Sultan Walad o guiou, prosseguindo a pé por todo o caminho ao lado do cavalo em que Shams seguia montado.

Se o relato é verdadeiro, é sem dúvida um mistério a identidade deste jovem francês que vagava por Damasco no remoto século XIII. Quem sabe se tratava de um sobrevivente dos cátaros [1], tão brutal-mente perseguidos pelos ditos cristãos na Europa? Quem sabe, um cavaleiro em busca de aventuras em terras lendárias – afinal, o código de amor cortês e o ideário da cavalaria espiritual foram adotados no Ocidente quando o mundo europeu entrou em contato com a tradição sufi.

Isto também nos remete a Francisco de Assis, o grande santo do cristianismo na época e, segundo muitos, o maior cristão que caminhou neste mundo após Jesus de Nazaré...
Conforme nos conta o blog “Saindo da Matrix” [2]:

A atmosfera e organização da Ordem franciscana é mais parecida com os dervixes (Ordem sufi) que qualquer outra coisa. Além dos contos sobre Francisco serem muito parecidos com os dos professores sufis, todos os tipos de pontos coincidem. Como os sufis, os fran-ciscanos não se preocupam com sua salvação pessoal (o que era considerado uma vaidade). Francisco iniciava suas pregações com a frase “Que a paz de Deus esteja com você”, que ele disse ter recebido de Deus, mas que era (obviamente) uma saudação árabe. Até a roupa, com seu capote coberto e mangas largas, é a mesma dos dervixes de Marrocos e da Espanha, por onde Francisco se aventurou em 1212, plena época das cruzadas, dedicando-se a tentar converter os sarracenos pela não-violência.
O próprio nome da Ordem, “Fraternidade dos Irmãos Menores”, pressupõe haver os Irmãos Maiores, e os únicos com esse nome na época eram os “Grandes Irmãos”, uma Ordem sufi fundada por Najmuddin Kubra, “o Grande”. As conexões impressionam. Uma das maiores características deste grande sufi era sua misteriosa influência sobre os animais. Desenhos o mostram cercado de pássaros; ele amansou um cachorro feroz apenas olhando para ele (exatamente como Francisco fez com um lobo). Todas essas histórias eram conhecidas no Ocidente 60 anos antes de Francisco nascer.
Por tudo isso, não é de se espantar que, em Damietta, no Egito, de alguma forma Francisco e seus companheiros tenham conseguido cruzar a linha de batalha onde os Cruzados lutavam com os Árabes e se encontrar pessoalmente com o sultão Malik el-Kamil (e ser bem recebido). Diz-se que Francisco desafiou os líderes religiosos muçulmanos a um teste de fé através do fogo, mas eles recusaram. Então Francisco propôs entrar no fogo primeiro e, se ele saísse de lá incólume, o sultão teria que reconhecer o Cristo como o verdadeiro Deus. O sultão não aceitou, mas ficou tão impressionado com a fé deste homem que permitiu aos franciscanos acesso livre aos locais sagrados para os cristãos, como a sagrada sepultura. Deu um salvo-conduto para que eles pudessem trafegar e até mesmo pregar em terras árabes, e ainda pediu para que ele o visitasse novamente.

Aquilo que as igrejas e os estados separaram, o misticismo reúne novamente: todas as almas navegam neste mesmo segredo.

***

Obs.: A história da amizade entre Rumi e Shams será contada em detalhes na versão final do livro, este é somente um trecho dela (e, sim, no livro ela é contada aos poucos, acompanhando os poemas de certos capítulos).

[1] O catarismo (do grego katharós, “puro”) foi um movimento cristão, considerado herético pela Igreja Católica. Ele se manifestou  no sul da França e no norte da Itália do final do século XI até meados do séculos XIV. Suas ideias tinham fortes paralelos com o gnosticismo do início da era cristã. Os historiadores indicam sua formação a partir da expansão das crenças dos bogomilos (Reino dos Búlgaros) e dos paulicianos (Oriente Médio). Eles afirmavam ser “os verdadeiros cristãos”. Traziam em sua doutrina a assinatura da mensagem sincrética do iniciado persa Mani, que tinha espalhado pelo mundo antigo sua doutrina gnóstica.

[2] Blog pessoal de meu amigo Acid (Sidharta Campos). O trecho foi retirado do post intitulado “São Francisco de Assis” (29/05/2007).

Crédito da imagem: Pintura de Frank Cadogan Cowper.

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2 comentários:

Blogger Rato Saltador disse...

O pintor é Frank Cadogan Cowper:

http://www.artmagick.com/pictures/artist.aspx?artist=frank-cadogan-cowper

http://en.wikipedia.org/wiki/Frank_Cadogan_Cowper

Achei pela busca de imagens do google. Você pode procurar a partir de um arquivo de imagem, em vez de usar palavras chaves. É bem útil. :D

Abs!

9/8/13 08:26  
Blogger raph disse...

Valeu Saltador!

9/8/13 10:13  

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