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17.1.26

Manual de Canto

Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?

Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?

No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.

 

Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.

Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?

Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?


“Mas eu temo a morte.”

“Por quê?”

“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”

“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”

“Não, me diga, mevlana...”

“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”


Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...


“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”

“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”


raph'26

***

Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash

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12.3.25

Lançamento: Hafiz - A gargalhada de Deus

As Edições Textos para Reflexão retornam à poesia sufi.

Mesmo tendo vivido no séc. XIV, Hafiz de Shiraz é até hoje um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Rumi em termos de popularidade e influência.

Após ter se aventurado a traduzir os poemas de Rumi e Omar Khayyam, era inevitável que Rafael Arrais chegasse a outro grande expoente da poesia mística do Islam. São pelo menos 60 poemas à espera de serem desvelados e degustados. Boa jornada!

A obra já está disponível na Amazon, em e-book, e também na versão impressa:

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» Leia o prefácio da edição


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26.11.24

Hafiz, aquele que fala do que nos transcende

O amor não tem limites, é eterno, é para sempre.

Hafiz acreditava no amor como a causa de todas as coisas.

Khwaja Shamsuddin Mohammad Hafiz Shirazi (c. 1315 – 1390), conhecido como Hafiz, é um dos mais célebres poetas persas, cujos poemas capturaram os corações e as mentes de inúmeras pessoas ao longo dos séculos. Sua coleção de poemas acerca do amor rivaliza tão somente com Jalal ud-Din Rumi em termos de popularidade e influência (Rumi foi um poeta místico do séc. XIII que viveu na atual Turquia).

A energia mística do amor e da paixão em seus poemas tem sido uma fonte de inspiração para muitos poetas, compositores e artistas em geral. A poesia de Hafiz é um precioso tesouro de riquezas simbólicas, mas também traz consigo uma paradoxal ambiguidade de imagens. Ele se vale de tais ferramentas para transmitir as emoções mais profundas da melhor maneira possível.

As odes de Hafiz, conhecidas como gazeis (ou gazals), são muitas vezes carregadas de emoções variadas, e revelam o poeta na sua busca por Allah (ou Deus) em sua própria alma.

Ó belo garçom,
traga a taça de vinho,
coloque-a em meus lábios.

A via do amor parecia fácil em seu início,
mas o que surgiu dela
foram as mais diversas provações.

Hafiz foi um escritor e cientista que viveu na cidade de Shiraz (no atual Irã) no séc. XIV, quando ela fazia parte do antigo reino persa. O nome de seu pai era Baha ud-Din Muhammad, um comerciante de carvão, mas ele morreu de forma trágica quando o poeta ainda era uma criança. Em sua adolescência, Hafiz foi aprendiz de padeiro e viveu uma vida cheia de dificuldades junto com a mãe. Com o tempo, no entanto, ele dominou todos os aspectos religiosos e científicos ao seu alcance, de modo que no início da fase adulta ele já era reconhecido como um grande expoente da literatura e das ciências em toda a região.

É interessante saber que ele havia memorizado por completo o Alcorão, o livro sagrado do Islam, e foi justamente por isso que lhe deram o nome de Hafiz, cuja tradução é “memorizador”.

Ele também era conhecido como Lesan Al-Ghayb, ou “aquele que fala sobre o oculto, o desconhecido, o que nos transcende” (séculos depois, o criador da série de ficção científica Duna, Frank Herbert, emprestou esse conceito para o personagem principal da trama). Hafiz parecia falar daquilo que existe além das palavras.

Um cavaleiro sombrio, o medo das ondas,
um redemoinho tão implacável!
Como pode o fardo tão leve das praias
saber da angústia em nossas profundezas?

A visão de mundo do poeta é inseparável do contexto do Islam medieval, assim como do gênero da poesia de amor persa, mas ainda assim é impossível defini-lo com exatidão. Hafiz é um místico que zomba dos místicos. Ele é conhecido como aquele que compreendeu o Alcorão com o coração, e mesmo assim não se cansa de fazer graça com a hipocrisia dos religiosos. Ele demonstra sua própria vocação espiritual, enquanto sua poesia está repleta de referências à intoxicação do vinho, algo que pode ser literal para alguns, e puramente simbólico para outros.

Vá, vá e cuide dos seus próprios assuntos.
Por que você me culpa?
Meu coração se rendeu ao amor,
o que você sabe sobre tal rendição?

O aspecto mais sublime da poesia de Hafiz é justamente a sua ambiguidade. Em seus poemas, os temas são organizados de forma tão intrincada que podem ter diferentes impactos na alma do leitor, de acordo com o seu estado emocional no ato da leitura.

Muitos dos seus poemas são até hoje usados como provérbios e ditados, sobretudo na região da antiga Pérsia, atual Irã. Já o seu senso travesso de ironia atraiu muitos poetas e compositores ocidentais ao longo dos séculos – incluindo Goethe, Brahms e Wagner.

O Divan (termo persa que significa literalmente “coleção de poemas”) de Hafiz contém 500 sonetos, 42 quadras e diversas odes que ele escreveu ao longo de meio século. Ele foi publicado em dezenas de variações, sendo improvável que qualquer uma delas possua de fato a totalidade de sua obra poética.

O seu túmulo está localizado ao norte de Shiraz, em um belo monumento cercado de bosques, onde a fragrância das flores se faz presente na maior parte do ano. Nos dias atuais, é uma das atrações turísticas mais importantes e visitadas do Irã.

Hafiz acreditava que o caminho para Allah residia nos mistérios do amor. Para ele, o amor não apenas criou este mundo, como é a resposta para todas as questões que afligem nossa alma.

Eu segui pelo meu próprio caminho no amor,
e hoje tenho uma má reputação.
Mas como poderia um segredo permanecer oculto,
se rodasse pelas línguas de todas as rodas de fofoca?

Se é a presença do Amado o que busca, Hafiz,
por que se importar com o que dirão de ti?
Permaneça junto Aquele que reside em seu coração,
deixe de lado os delírios de grandeza.

***

Após ter lançado dois livros com poemas de Rumi selecionados e traduzidos de versões inglesas, chegou a hora de mergulhar na poesia de Hafiz. Ao longo de 2025 estarei intercalando outras traduções com mais uma jornada no misticismo sufi. Assim que tiver mais notícias, trarei aqui no blog.

Rafael Arrais

***

Crédito das imagens: Mahmoud Farshchian (artista iraniano inspirado pela obra de Hafiz)

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27.11.23

Lançamento: Mensagem Sufi de Liberdade Espiritual

As Edições Textos para Reflexão retornam ao sufismo com seu maior divulgador no Ocidente.

Hazrat Inayat Khan nasceu na Índia e desde o berço conviveu com a música e a poesia, eventualmente se tornando reconhecido no Ocidente tanto como músico quanto como místico sufi. Muitas de suas palestras foram compiladas por seus estudantes numa coleção de livros conhecida como A Mensagem Sufi: este é o primeiro deles.

A nova tradução de Rafael Arrais já está disponível na Amazon, em e-book:

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10.8.23

Voltei ao Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi

Voltei a participar do canal Conhecimentos da Humanidade para falar de Rumi, do sufismo, e de minha jornada pessoal na Ordem Sufi Naqshbandi. Há outras lives onde falo do mesmo tema, mas ainda que você tenha visto alguma, saiba que esta é bem especial, pois nela ficará sabendo de certos detalhes de minha jornada com o sufismo que eu nunca falei em lugar nenhum (e nem o Bruno). Assista abaixo:

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29.12.22

As traduções de Rumi

Neste vídeo Raph traz o conteúdo de sua palestra proferida no evento Primavera de Rumi, realizado em Outubro (2022) no Farol do Saber Khalil Gibran, em Curitiba. Trata-se de um breve resumo da história da poesia de Rumi e suas traduções para o inglês e o português. Também são abordadas algumas polêmicas acerca da supressão arbitrária de menções a Maomé nas traduções inglesas, principalmente as de Coleman Barks. Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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16.8.22

Live sobre mantras com MariAisha Savitri

Em mais uma Live do canal Textos para Reflexão, pegamos emprestada a gravação do Boteco Mayhem comigo, Rafael Arrais, e MariAisha Savitri, espiritualista, estudante e praticante de mantras, dona do Espaço SuryAmar e representante da Ordem Sufi Naqshbandi no estado do Mato Grosso do Sul. A Mari comanda atividades quinzenais e intercaladas de canto de mantras e de zikr (mantras do sufismo) em seu espaço, e neste vídeo trouxemos alguns dos nossos cantos e seus significados. E, sim, nós cantamos alguns deles ao vivo! Assista abaixo:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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15.4.22

Lançamento: Rubaiyat de Omar Khayyam

As Edições Textos para Reflexão trazem a poesia persa para o formato digital.

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente.

Nessa versão, contamos com a primorosa tradução de Rafael Arrais – também tradutor de Rumi, outro grande poeta associado ao misticismo sufi, e membro da Ordem Sufi Naqshbandi. Além disso, a edição traz mais de 30 ilustrações de grandes artistas.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle e na Google Play:

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18.3.22

Odes ao vinho (que não se colhe da videira)

Hoje Nixapur é uma cidade modesta situada no nordeste do Irã, mas há cerca de mil anos ela era uma das maiores cidades do mundo, sendo um ponto importante da famosa Rota da Seda. Na época, em meio aos impérios persas, nela nasceu e morreu um cientista, astrônomo e matemático chamado Omar Khayyam. Dizem que também foi poeta, e teria nos deixado centenas de poemas compostos por quatro versos – os rubaiyat, plural de rubai (poema em quarteto). Muitos séculos depois, tais versos foram transpostos ao inglês por um poeta de ascendência irlandesa chamado Edward FitzGerald, que foi o grande responsável por tornar o Rubaiyat de Omar Khayyam célebre em todo o Ocidente. Em suas versões portuguesas, o Rubaiyat recebeu o epíteto de “Odes ao vinho”, pelo simples fato da bebida ser muito celebrada em suas quadras. No entanto, até hoje persiste o debate acerca do significado desse vinho, e do Rubaiyat como um todo: uns dizem que se trata de vinho literal, e estes classificam a obra como agnóstica e hedonista; mas há tantos outros que afirmam que se trata do vinho “que não se colhe da videira”, de uma metáfora das experiências místicas do sufismo (o misticismo do Islã), e esses incluem a obra de Khayyam entre os grandes poemas místicos da humanidade.

Quem sabe o Rubaiyat possa ser lido das duas formas; talvez caiba somente a quem lê, a quem interpreta e mergulha na profundidade (ou superficialidade?) de seus versos, dizer, sentir do que eles se tratam. Um brinde a vida, e outro brinde a morte: bem-vindo ao Rubaiyat de Omar Khayyam.

O poeta que observava estrelas
Filho de um fabricante de tendas, Omar Khayyam nasceu em Nixapur por volta do ano 1040, e faleceu em 1123. Seu verdadeiro nome era Ghiyat ud-Din Abu Fat Omar Ibn Ibrahim al-Khayyam. Sua vida esteve conectada a personagens que também marcaram a história: Hassan Sabbah, o lendário “Velho da Montanha”, e Nizam al-Mulk, que foi vizir do sultão Alp Arslan.

Quando jovens, Hassan e Nizam foram atraídos a Nixapur pela fama do imã Novassak (na época, um ancião), buscando a sua instrução. Lá conheceram Khayyam, que já estudava matemática e astronomia, e entre eles nasceu uma duradoura amizade. Desta amizade veio uma espécie de pacto: quem primeiro fosse bem-sucedido financeiramente na vida deveria ajudar os outros dois.

Quem chegou lá primeiro foi Nizam, que foi um secretário e depois vizir do sultão Alp Arslan, o Leão. Logo, seus amigos foram lembrá-lo do pacto de Nixapur. O pedido de Hassan foi por um cargo na Corte; porém, ao se envolver em intrigas palacianas, logo caiu em desgraça, retirando-se às montanhas do sul do mar Cáspio, onde eventualmente veio a se tornar o lendário “Velho da Montanha”, o mestre da Ordem dos Assassinos.

Já o pedido de Khayyam foi consideravelmente mais modesto: uma espécie de pensão vitalícia para que pudesse voltar a Nixapur e se dedicar tão somente à matemática e à observação das estrelas. E sua pensão foi quantia suficiente para que pudesse passar o restante de seus dias entregue ao cultivo do estudo e da poesia. Cercou-se de amigos e com eles dedicou-se a aproveitar a vida. Dizem que seu maior prazer era simplesmente beber e conversar com amigos, sob a luz da lua, no terraço de sua casa, geralmente ao som de tocadores de alaúde e, volta e meia, apreciando a arte das dançarinas persas.

Envolto em tal atmosfera, Khayyam iniciou a composição dos seus famosos rubaiyat. Eram poemas que cantavam o amor, o vinho, a vida e a morte; às vezes, de um pessimismo aterrador, noutras tantas, de uma exaltada homenagem à existência.

Além de poeta, foi um celebrado homem de ciências. Escreveu um famoso tratado de álgebra, elaborou tabelas astronômicas e reformulou o calendário muçulmano, tendo recomendado a adoção do ano bissexto cinco séculos antes de tal ideia ser retomada no Ocidente, com a promulgação do Calendário Gregoriano.

Após sua morte, um de seus amigos mais jovens e discípulo, Kuajah Nizam, escreveu sobre ele o seguinte: “Nós costumávamos conversar com o mestre em um jardim. Um dia, ele nos disse: Vocês irão achar meu túmulo no local onde o vento do norte possa cobri-lo de rosas. Anos depois, ao retornar para Nixapur após uma longa ausência, me dirigi ao lugar que tinham me indicado como sendo o túmulo do meu mestre. Encontrei-o junto a um jardim. As árvores, exuberantes em plena primavera, inclinavam seus galhos por cima de um muro vizinho, enquanto uma brisa suave desfolhava suas flores. Ao cair, pétala por pétala, cobriam o túmulo de muitas cores...”

Uma releitura ocidental
Os rubaiyat persas seriam hoje algo solenemente ignorado no Ocidente, não fosse pelo fato do poeta Edward FitzGerald (1809 – 1883) ter tomado conhecimento da obra de Khayyam, vertendo-a para o inglês e publicado sua tradução em 1859.

Entretanto, FitzGerald não foi propriamente um tradutor, mas antes um adaptador. Alguns afirmam que sua obra poderia ser intitulada: “De como Omar Khayyam teria escrito Rubaiyat, acaso se chamasse Edward FitzGerald e vivesse na Inglaterra vitoriana”. Dito isso, não se pode negar o fato de que ele foi o grande responsável por tornar o erudito persa conhecido no Ocidente. À sua tradução, aliás, seguiram-se várias outras, tornando Rubaiyat um dos livros de poesia mais traduzidos e vendidos do século XX, merecendo inclusive diversas edições luxuosas, ilustradas por artistas renomados.

Em certo aspecto, Rubaiyat é um livro de poesia diferente de todos os demais: cada vez que uma nova edição é publicada, surge uma obra diversa. Isso se deve a alguns fatores: primeiro, o próprio Khayyam parece não ter somente composto os próprios rubaiyat, como colecionado muitos que circulavam em Nixapur na época; segundo, alguns rubaiyat podem ter sido introduzidos posteriormente a sua morte, provavelmente por poetas apócrifos que gostariam de ver seus versos eternizados sob a autoria de um cientista renomado; e, terceiro, no fim das contas a tradução da poesia persa para outra língua é quase sempre uma releitura.

Para além disso tudo, ainda resta a polêmica acerca do Rubaiyat ser ou não uma obra mística. Ora, no prefácio de sua tradução o próprio FitzGerald associou-a ao epicurismo, uma visão filosófica da vida mais focada nas pequenas alegrias e prazeres ditos “mundanos” do que em experiências religiosas. Farid ud-Din Attar (1145 – 1221), um célebre místico islâmico conterrâneo de Nixapur, disse certa vez que “Khayyam não era um místico, mas um livre-pensador”.

Entretanto, em 1867, J. Nicolas, o cônsul francês na Pérsia, realizou uma nova tradução do Rubaiyat, afirmando que o poeta era um sufi, e que suas quadras traziam, de forma alegórica, o pensamento e os ensinamentos desta vertente mística do Islã. Segundo esta visão, a taberna seria a mesquita; o vinho, a essência de Allah; o cálice, o mundo inteiro (por onde se espalha o vinho que não se colhe na videira); e a embriaguez em si, o êxtase místico, o contato direto com o amor divino.

A lição que fica é que o Rubaiyat será, sobretudo, aquilo que causar no coração de seus leitores. E, se você for mais um deles, então responda por si mesmo: do que, afinal, se trata o Rubaiyat de Omar Khayyam?

***

O Rubaiyat de Omar Khayyam será o próximo lançamento das Edições Textos para Reflexão, na tradução de Rafael Arrais (a partir da versão inglesa de Edward FitzGerald), em um e-book ilustrado por diversos artistas cuja obra já entrou em domínio público (o que infelizmente não é o caso do tailandês Niroot Puttapipat, cuja arte ilustra este artigo).

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Crédito das imagens: Niroot Puttapipat

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22.7.21

Raph fala sobre Rumi e o sufismo no canal Escola Mazalot

Bem-vindos a primeira Live do canal Textos para Reflexão! Nesta Live, transmitida conjuntamente com o canal Escola Mazalot, fui o convidado do apresentador Gustavo Tirelli. Tive a oportunidade de falar sobre o início do meu caminho espiritual, de como conheci a poesia de Rumi e, através da publicação de traduções da sua obra, acabei eu mesmo me tornando um praticante do sama, a dança do giro sufi, e me iniciando na Ordem Sufi Naqshbandi. Espero que gostem:

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21.7.21

Raph fala sobre Rumi e o sufismo no canal Consciência Próspera

No dia 20/07/2021 fui convidado a falar sobre Rumi e o sufismo no canal Consciência Próspera. Trata-se de um programa de entrevistas capitaneado pelo educador e escritor Samuel Souza de Paula. Desde 2010 ele já entrevistou mais de 700 espiritualistas de diversos ramos e vertentes, de Monja Coen a Marcelo Del Debbio.

Tive a oportunidade de falar sobre o início do meu caminho espiritual, de como conheci a poesia de Rumi e, através da publicação de traduções da sua obra, acabei eu mesmo me tornando um praticante do sama, a dança do giro sufi, e me iniciando na Ordem Sufi Naqshbandi. Espero que gostem:

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14.7.21

Lançamento: Rumi - Além das ideias de certo e errado

As Edições Textos para Reflexão enfim retornam à poesia!

Em Rumi - Além das ideias de certo e errado, Rafael Arrais volta a traduzir e comentar a vasta obra poética do grande expoente do sufismo, o misticismo do Islã. Dando continuidade ao que foi iniciado em outro livro, A dança da alma, o tradutor, que hoje também é praticante do sufismo, se aprofunda ainda mais nos abismos poéticos de Rumi.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle; e na versão impressa, tanto na Amazon quanto no Clube de Autores:

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Alguns poemas de Jalal ud-Din Rumi, Shams de Tabriz e Rabia Basri que estão no livro já foram postados aqui no blog, vejam:

» Poemas de Rumi
» Poemas de Shams de Tabriz
» Poemas de Rabia Basri

***

Leiam também Rumi - A dança da alma:

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5.7.21

Poemas de Rumi

Jalal ud-Din Rumi foi um místico sufi do século XIII que, após ter cruzado seu caminho com um andarilho chamado Shams de Tabriz, passou a compor poemas de imensa profundidade espiritual, que o fizeram conhecido em todo o mundo – inclusive no Ocidente. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas traduzidos de versões inglesas. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Eu e você]

Na verdade nós somos uma só alma,
eu e você.
Nos mostramos e escondemos,
você em mim,
eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação:
é que entre você e eu
não existe nem eu
nem você.

 

[Um momento de felicidade]

Este é um momento de felicidade,
eu e você sentados na varanda:
duas formas, dois rostos,
uma só alma,
você e eu.

A beleza das flores
e o canto dos pássaros
nos ofertam a água da vida
quando entramos neste jardim,
eu e você.

As estrelas do céu vêm nos ver,
e mostramos a elas a lua,
você e eu.

Eu e você,
unidos em êxtase e alegria,
libertos do juízo e da razão,
você e eu.

Os beija-flores do Paraíso bicam açúcar
enquanto nós rimos,
eu e você.

Ainda mais mágico,
estamos aqui ao mesmo tempo
no Iraque, na Pérsia,
você e eu:
numa forma aqui na Terra,
e noutra forma, no Paraíso.

E na Terra do Açúcar,
uma só alma,
eu e você.

 

[Morri como mineral]

Morri como mineral,
e tornei-me planta.
Morri como planta,
e surgi como animal.
Morri como animal,
e sou humano...

Ó caminhantes,
por que tanto medo?
O que perdemos ao morrer?

Eu sei que morrerei de novo,
como humano, até que possa enfim
voar com os anjos, abençoado.

E mesmo como anjo, terei de morrer.
Todos perecem, exceto Allah...

Quando eu tiver sacrificado
minha alma de anjo,
me tornarei o que a mente
sequer pode conceber!

Ah! Que seja!
Que eu não exista!
Pois a não-existência proclama,
como um órgão,
que retornaremos ao Amado.

[O néctar]

Qualquer alma que tenha bebido o néctar do seu amor
foi elevada aos céus.

Eu bebi o líquido da vida e entrei em êxtase.
Veio a morte, me farejou de pertinho,
mas foi o seu perfume que ela sentiu.
Desse dia em diante, a morte perdeu suas esperanças em mim.

 

[O segredo]

O amor não tem nada o que ver
com os cinco sentidos ou as seis direções;
o seu único objetivo é experimentar
a atração exercida pelo Amado.

Depois, quem sabe, Allah permitirá
que os segredos sejam revelados.
Então, os segredos serão contados com a mesma eloquência
das metáforas mais confusas.

É que o segredo não partilha sua intimidade
com ninguém mais, ninguém
além do conhecedor do segredo.
Aos ouvidos de um descrente
o segredo não é segredo algum.

 

Veja mais poemas em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado EM BREVE (em e-book e versão impressa):

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Rumi); [ao longo] Hossein Irandoust; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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9.6.21

Poemas de Shams de Tabriz

Shams de Tabriz foi um místico sufi andarilho que eventualmente cruzou seu caminho com Jalal ud-Din Rumi, e o influenciou diretamente em seu caminho na poesia. Essa história já foi relatada aqui no blog, em um post intitulado O encontro de dois oceanos.

Aqui trago apenas alguns dos seus textos, selecionados, traduzidos do inglês e adaptados à métrica poética por mim mesmo. Eles farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[O Ancestral]

A verdade é o Ancestral,
o ser que não tem início.

Onde aquele que foi criado
poderá encontrar o incriado?
Como poderá compreender?
Como poderá saber onde reside
a Alma de todas as coisas?

 

[A face de Allah]

Se olhar a sua volta, poderá encontrar a face de Allah em cada pequena coisa.
Ele não se esconde numa igreja, mesquita ou sinagoga, mas se espalha sobre tudo que há.

Ninguém vive após vê-lo face a face.
Ninguém morre após vê-lo face a face.
Aquele que o encontra, permanece com ele
na Eternidade.

 

[Eternidade]

O passado é uma interpretação. O futuro, uma ilusão.
O mundo não se move pelo tempo como numa linha reta,
do passado ao futuro;
na realidade é o tempo que flui através de nós,
em infindáveis espirais de percepção.

Eternidade não significa tempo infinito,
mas simplesmente a ausência de tempo.
Se você deseja viver a iluminação eterna,
tire de sua mente o passado e o futuro,
e viva este momento.

[Céu e Inferno]

Não busque pelo Céu
nem tema o Inferno no futuro:
ambos já estão aqui presentes.

Sempre que conseguimos amar sem expectativas,
sem barganhas ou negociações,
nós já estamos no Céu.

Sempre que deixamos o ódio nos dominar,
e colocamos barreiras entre nossos corações,
nós já estamos no Inferno.

 

[Santidade]

Eles dizem que eu sou um santo.
Eu respondo: “Que seja, mas o que isso me traz de felicidade?”

Se eu me orgulhasse da santidade,
já não seria santo.
Mas se alguém observa com atenção
os princípios do Corão e os ditos do Profeta,
ele já estará envolto em santidade.

Assim, eu faço parte da santidade do santo,
do amor do Amado,
e sigo sempre constante em meu caminho.

 

Veja mais poemas de Shams de Tabriz em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Mausoléu de Shams em Khoy, no Irã); [ao longo] Google Image Search; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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4.6.21

Poemas de Rabia

Rabia Basri foi uma santa dos primórdios do sufismo, o misticismo do Islã. Sua poesia avassaladora influenciou diretamente grandes místicos sufis que lhe sucederam, como Farid ud-Din Attar e Jalal ud-Din Rumi. Eu conto mais sobre as lendas da sua vida em outro artigo.

Aqui trago apenas alguns dos seus poemas, que farão parte do meu próximo livro sobre Rumi, intitulado Rumi – Além das ideias de certo e errado (veja a capa ao final):

 

[Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno]

Se eu lhe adorar pelo medo do Inferno,
me queime no Inferno;
se eu lhe adorar pelo anseio do Paraíso,
me expulse do Paraíso;
mas se eu lhe adorar pelo que você é,
não esconda de mim a sua face!

 

[Minha paz]

Irmãos, minha paz é minha solitude.
Meu Amado está a sós comigo nessa paz,
ele sempre esteve.

Em todas as terras e mundos,
jamais encontrei nada
que fosse equivalente ao seu amor:
este amor que arrasta as montanhas
das areias do meu deserto.

Se eu fosse morrer de desejo,
e meu Amado ainda não estivesse satisfeito,
o meu desespero seria eterno.

Abandonar tudo o que ele criou,
mas agarrar firme em minhas mãos
a prova derradeira de que ele sempre me amou:
é esse o nome e o destino da minha busca.

 

[A porteira]

Eu tenho todas as qualificações para trabalhar como porteira, e essas são as razões:

O que está dentro de mim, eu não deixo sair.
O que está fora de mim, eu não deixo entrar.

E se alguém adentra meu território,
logo mais sai outra vez.
Eu não lhe digo respeito, ele não me diz respeito;
pois eu sou uma Porteira do Coração,
não um bocado de argila molhada.

[Outra noite se vai]

Ó Amado, outra noite se vai,
outro dia se eleva.
Me diga se minha conduta foi boa esta noite,
para que eu possa estar em paz;
ou se foi mais um dia perdido,
para que eu possa chorar o que foi perdido.

Eu juro que desde o primeiro dia
em que você me trouxe de volta à vida,
desde que tornou-se meu Amado,
eu não dormi outra vez.

E ainda que você me enxote da sua porta,
eu juro que jamais iremos nos separar de novo,
pois em meu coração você arde,
em meu coração você vive
para sempre.

 

[Em minha alma]

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
onde eu me ajoelho.

A oração deveria nos levar a um altar
onde não existem
nem muros nem nomes.

Acaso não há uma região do amor
onde o altar real sequer é iluminado pelas velas,
onde o êxtase derrama-se em si mesmo
e se perde,
onde as asas estão plenamente vivas,
mas já não possuem nem mente
nem corpo?

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
que se dissolvem...

Neste momento
onde eu me ajoelho
todas as construções se dissolvem,
tudo se dissolve
em Allah.

 

Veja mais poemas de Rabia em nosso próximo livro sobre Rumi, que deve ser lançado até o final de 2021 (em e-book e versão impressa):

***

Crédito das imagens: [topo] Light in Babylon (Michal Elia Kamal); [ao longo] Lance Gerber/Desert X Al Ula; Rafael Arrais e svklimkin/unsplash license (capa do livro).

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26.11.20

Bate-papo Mayhem: Rumi, o Sufismo e os poetas da alma, com Raph

Oi pessoal. Recentemente fui novamente convidado a participar do programa Bate-papo Mayhem, apresentado pelo meu amigo Marcelo Del Debbio. Desta vez eu falei sobre os mistérios da poesia, da sua relação com a magia, e também sobre Rumi, Shams, Rabia Basri e o misticismo sufi:

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28.9.20

Rabia Basri, a santa dos primórdios do sufismo

Conta a lenda que no século VIII, num pequeno vilarejo próximo a atual Basra, cidade no extremo sul do Iraque, uma mulher foi vista circulando pela viela principal segurando um lampião numa mão e um vaso d’água na outra. Veio então um mercador e lhe perguntou o que diabos ela estava fazendo, uma vez que a mulher parecia enxergar algum outro mundo que os demais não podiam ver. Ela respondeu:

“Eu quero apagar as chamas do Inferno e botar fogo no Paraíso.”

O mercador, que felizmente não era lá tão religioso ao ponto de ficar transtornado com aquela resposta, ainda assim procurou saber o motivo dela, ao que a mulher a sua frente complementou:

“O Paraíso e o Inferno estão bloqueando meu caminho até Allah. Se eu devo adorá-Lo por temor do Inferno, que eu queime no Inferno. Se eu devo adorá-Lo pelas recompensas prometidas no Paraíso, que eu seja expulsa dele para sempre. Mas, se já não existirem nem Inferno nem Paraíso, então que eu possa adorá-Lo por quem Ele é, e que Ele não esconda mais de mim a sua face, e que já não haja nada mais além de Ishq-e Haqeeqi [amor verdadeiro].”

Ishq-e Haqeeqi, o amor real e verdadeiro, o amor de Allah, onde todos os místicos buscam mergulhar, é uma palavra árabe que define os primórdios do sufismo, o misticismo do Islã. A tal mulher da história é Rabia Basri, santa sufi que influenciou diretamente diversos místicos e poetas posteriores, desde Farid ud-Din Attar a Jalal ud-Din Rumi.

Muito pouco se sabe sobre ela, e muitos dos poemas a ela atribuídos podem muito bem ser da autoria de terceiros. Neste caso, as lendas em torno da sua existência – isto é, a sua mitologia – provavelmente contam mais do que a sua vida real. Mesmo o seu nome, Rabia Basri, significa algo trivial: algo como “a quarta (rabi’a) filha da família, residente de Basra”. No entanto, considerar que uma mulher pobre, camponesa, iletrada, que jamais deixou algo escrito, e que viveu nos primórdios do Islã, ainda assim possa ter influenciado de tal forma o sufismo, e sido reconhecida como santa ainda em vida, diz o tanto que Rabia foi especial.

Segundo o mito, sua família não teve condições de sobreviver intacta durante um longo período de secas e fome, de modo que Rabia eventualmente foi vendida como escrava. Então, ela fazia a faxina e ajudava a cuidar da casa do seu mestre, e todas as noites, sem exceção, rezava em meditação profunda. Desde cedo, ela buscava estar no amor de Allah (no “campo além das ideias de certo e errado”, como definiu Rumi, o célebre poeta sufi, séculos depois). Uma bela noite, seu mestre se dirigiu até seu quatro para espiá-la – quem sabe, pelo fato dela já estar mais crescidinha –; e percebeu, estupefato, que uma luz irradiava dela enquanto rezava a Allah. Na manhã seguinte, decidiu declará-la livre, possivelmente por temer alguma punição divina por manter uma santa em cativeiro.

Assim Rabia se tornou uma mística e asceta em pleno Islã do século VIII. Não há muitas informações confiáveis acerca de como se manteve solitária e supostamente virgem num brutal mundo de homens. Mas há uma outra história, um pouco mais confiável por ter sido contada por um sábio reconhecido de sua época, que pode jogar alguma luz sobre o tema.

Antes de chegarmos a ela, é preciso considerar um problema de datas. Hasan al-Basri foi um teólogo sufi que viveu boa parte da vida naquela mesma região. No entanto, ele nasceu em 642 e morreu no ano 728, ao passo que Rabia supostamente nasceu entre os anos 714 e 718 e morreu no ano 801. Quando Hasan encontrou-se com Rabia, certamente era um ancião no fim da vida; Rabia, porém, muito provavelmente já não era mais uma pré-adolescente. Assim, talvez ela tenha nascido pelo menos uma década antes das datas consideradas mais aceitas. Bem, pelo menos se considerarmos a história de Hasan verdadeira. Vamos a ela:

"Eu passei a noite inteira e a manhã seguinte com ela. Em nenhum momento passou pela minha mente que ali, em sua presença, eu era um homem, tampouco que ela era uma mulher. Quando a vi a primeira vez, eu percebi que meu espírito estava falido, que eu era como um mendigo; enquanto ela, ela era a pessoa mais rica que eu já havia encontrado."

O relato de Hasan se refere a uma noite em que se dirigiu a tenda de Rabia em busca de um genuíno diálogo entre místicos. É preciso ressaltar que um teólogo sufi como Hasan não fazia votos de celibato. Isso quer dizer, obviamente, que ele não tinha nenhuma obrigação de negar seus instintos sexuais. No entanto, quando passou uma noite só numa tenda com uma mulher muito mais jovem do que ele, “em nenhum momento passou por sua mente que ele era um homem e ela era uma mulher”. Talvez isso explique como Rabia passou a vida inteira solitária: nenhum pretendente, ante sua presença, parece ter conseguido levar adiante alguma proposta de casamento – ela já estava “casada” com Allah, era algo até mesmo óbvio.

Assim, Rabia passou toda a vida voltada para o convívio íntimo com Allah, em todos os momentos. Ao ponto de, ao morrer, perto dos oitenta e poucos anos de idade, ter em suas posses tão somente um tapete de junco, um manto, um jarro de cerâmica e um colchão que também lhe servia para rezar e meditar. Afinal, para ela, tudo parecia se dissolver em Allah, ela nunca precisou de nada além Dele:

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
onde eu me ajoelho.

A oração deveria nos levar a um altar
onde não existem
nem muros nem nomes.

Acaso não há uma região do amor
onde o altar real sequer é iluminado pelas velas,
onde o êxtase derrama-se em si mesmo
e se perde,
onde as asas estão plenamente vivas,
mas já não possuem nem mente
nem corpo?

Em minha alma
há um templo, um santuário, uma mesquita, uma igreja
que se dissolvem...

Neste momento
onde eu me ajoelho
todas as construções se dissolvem,
tudo se dissolve
em Allah... [1]

Quando Hasan faleceu, toda Basra se mobilizou em seu funeral. Afinal, tratava-se de um proeminente teólogo. Anos mais tarde, na morte de Rabia, provavelmente a comoção foi consideravelmente menor. Apesar de santa, Rabia era uma mulher, e a menos que fosse alguma rainha ou princesa, não havia motivos para realizar um funeral tão luxuoso para uma mulher. Foi o próprio Hasan quem disse, no entanto, que perto dela ele era “um mendigo”, e ela era “a pessoa mais rica que já havia encontrado”.

Os místicos sabem reconhecer a verdadeira riqueza. Ishq-e Haqeeqi, como somente ela soube (tentar) descrever:

Neste amor, não há nada se interpondo
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada? [1]

***

[1] Poema atribuído a Rabia Basri (tradução de Rafael Arrais).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Wikipedia (representação de Rabia moendo grãos; retirada de um dicionário persa).

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29.10.19

Rumi, Shams e o Segredo de Allah

Neste vídeo falaremos sobre o grande encontro místico entre o poeta sufi Jalal ud-Din Rumi e o andarilho misterioso Shams de Tabriz, que ficou conhecido na tradição do sufismo, o misticismo islâmico, como o encontro de dois oceanos. Ao final, recito um poema de Rumi.

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22.10.19

O encontro de dois oceanos

Conta a lenda que no dia 28 de novembro de 1244 em Konya, na atual Turquia, numa região que era então conhecida como Rum (ou Sultanato de Rum), o grande teólogo islâmico Jalal ud-Din Rumi, herdeiro espiritual da tradição do próprio pai, Baha’ud Din Walad, ensinava a cerca de uma ou duas dúzias de discípulos às margens de um pequeno lago da região, sob o sol da tardinha persa.

Do próprio pai, Rumi aprendeu teologia e os cânones da literatura clássica árabe. De um dos discípulos do pai, por cerca de uma década aprendeu todos os segredos do chamado “conhecimento inspirado”, a fonte para se trilhar a via mística. No entanto, aquela altura, já perto dos 40 anos, ele era mais conhecido como um mestre da filosofia, da poesia clássica, da teologia, da jurisprudência e da moral – muito mais um propagador de conhecimentos, sejam intelectuais ou espirituais, do que propriamente um místico. Isso estava para mudar naquele dia...

Vindo pela estrada que beirava a margem do lago onde estavam, surgiu um andarilho de idade relativamente avançada, envolto num manto negro de feltro ordinário, com sapatos um tanto desgastados, que aparentava carregar consigo o pouco que necessitava para cruzar grandes distâncias a pé. Seu olhar era ao mesmo tempo atraente, magnético, inquisitivo e assustador, de modo que antes que ele abrisse a boca, a aula já havia sido interrompida. Quando ele falou, apontando para a pilha de livros ao lado de Rumi, tinha a atenção de todos os presentes:

“O que há nesses papeis?”

“Aqui só há palavras,” – respondeu Rumi – “em que podem lhe interessar?”

O andarilho, que agora mais de perto se via claramente tratar-se de um sufi (isto é, uma espécie de místico asceta nômade), simplesmente caminhou até ao lado de Rumi, apanhou a pilha de livros e, num rompante repentino de aparente insanidade, atirou tudo nas águas do lago!

Rumi levantou-se, furioso, e o repreendeu:

“Você faz ideia do que fez? Alguns desses livros continham manuscritos importantes de meu pai, que não se encontram copiados em nenhum outro lugar!”

Então, para espanto de todos os presentes, que o testemunharam à posteridade, o sufi se encaminhou até a beirada do lago e, entoando uma espécie de cântico meditativo, de alguma forma fez com que os ventos soprassem em sua direção, trazendo todos os livros de volta para a margem. Ele os recolheu e levou de volta a Rumi. Para a surpresa geral, estavam perfeitamente secos.

“Qual é o segredo envolvido nisso?” – indagou o teólogo.

“Aqui só há êxtase espiritual,” – respondeu o sufi – “em que pode lhe interessar?”

Antes que pudesse refletir sobre a enigmática resposta, Rumi constatou que os manuscritos do pai estavam em branco:

“Ei! Mas as palavras de meu pai sumiram; faça com que elas retornem, feiticeiro!”

“Jalal ud-Din, deixa para trás as palavras de seu pai, elas já tiveram a sua utilidade. Agora é hora de escrever as suas próprias palavras.”

“Como sabe meu nome?”

“Meu antigo mestre, em Tabriz, me disse que em Konya vivia um grande conhecedor da nossa religião islâmica, que já havia cruzado seu caminho com Farid ud-Din Attar e Ibn Arabi, e que hoje vivia enjaulado numa gaiola de palavras. Então eu, que também sou conhecido como parinda [o pássaro, ou o voador] resolvi vir até aqui para libertar outro pássaro.”

Desde esse dia, enquanto ambos estiveram livres para tal, Jalal ud-Din Rumi e aquele sufi andarilho, chamado Shams de Tabriz, jamais deixaram de dialogar sobre Allah, sobre o amor, sobre a via mística, enfim: sobre tudo o que não se encontra nas palavras e nos livros. Tal conjunção de almas ficou conhecida na tradição do sufismo como “o encontro de dois oceanos”.

Shams se recusava a dar maiores detalhes da sua história de vida. Uns dizem que a sua família era ismaelita, uma vertente dissidente e minoritária do Islã, e costumavam se passar por loucos ou tolos, talvez de modo a não levantar maiores suspeitas sobre suas práticas religiosas heterodoxas. Outros afirmam que ele era originalmente um membro da tribo dos Hashishins da Síria, liderada pelo lendário Alaodin, “O Velho da Montanha”, cujas práticas religiosas admitiam variadas formas de estados alterados de consciência, principalmente através da dança. Ora, mais tarde, privado da companhia de Shams, Rumi iria desenvolver um método de dança mística rodopiante conhecida como sama, que mais tarde seria aperfeiçoada pelo seu filho mais velho – talvez ele a tenha aprendido de Shams, ou talvez tenha sido indiretamente influenciado por ele.

Fato é que, uma vez privados das aulas de seu mestre, que agora passava seus dias e suas noites na companhia inseparável daquele estranho andarilho místico, dialogando sobre assuntos que não se liam em nenhum livro, os discípulos de Rumi tramaram para afastá-los. Na primeira vez em que Shams deixou Konya na surdina, temendo causar maiores problemas naquela comunidade, Rumi iniciou a sua jornada pela poesia mística, motivo principal por ser celebrado até hoje, no mundo árabe e fora dele. Desesperado ante a ausência do amigo, Rumi começou a lhe endereçar belíssimas cartas em formato poético, até o dia em que conseguiu convencê-lo a retornar de Damasco, onde havia residido durante a sua ausência.

Ante tal insistência, no entanto, os discípulos resolveram assassinar Shams, e enterrá-lo num poço da região. Com a ausência derradeira do amigo, Rumi começa a dançar em transe, recitando os poemas que o imortalizaram, todos eles cuidadosamente anotados pelos seus discípulos (quiçá alguns deles os próprios assassinos de Shams)...

Não importa, os dias e as noites em que eles passaram juntos estão hoje marcados na Eternidade, pois poucas vezes se viu na história humana dois místicos que se complementassem tão bem um ao outro: Rumi, o teólogo ortodoxo que, não obstante, dissolveu-se inteiramente nas profundidades do Amor; e Shams, o santo andarilho de origens incertas e nebulosas, cuja estatura espiritual ofuscava a todos, como o Sol.

Quando [finalmente] encontrei Rumi, a primeira condição foi de que não me apresentasse como um mestre. Allah ainda não criou o homem que possa ser como um mestre para ele. Eu tampouco estou em condições de ser o discípulo de alguém, já estou muito além dessa etapa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 33)

Eu tinha em Tabriz um mestre espiritual, Abu-Bakr, e foi dele que obtive todas as santidades. No entanto, havia em mim algo que meu mestre não pôde ver; de fato, ninguém era capaz de vê-lo. Mas Rumi o viu.
Eu era água estagnada, fervendo e entornando-me sobre mim mesmo e já começando a cheirar mal, até que a existência de Rumi me encontrou; então aquela água começou a correr e continua correndo doce, fresca, saborosa. (Shams de Tabriz, Maqalat, 245-246)

***

O amor não é condescendência,
nem livros ou qualquer marca em papel,
nem o que uma pessoa diz para a outra.

O amor é uma árvore
com seus galhos se elevando ao Alto,
suas raízes se aprofundando na Eternidade
e nenhum tronco!

Você o viu?
A mente é cega para ele.
Seu desejo é incapaz de observá-lo.
A saudade que sente desse amor
vem do seu interior.

Quando se tornar o Amigo,
sua saudade será como o náufrago no oceano
agarrado a um pedaço de madeira...

Eventualmente, madeira, homem e oceano
se tornam um ser ondulante:
Shams de Tabriz, o segredo de Allah.

(Jalal ud-Din Rumi)

***

Crédito das imagens: Google Image Search

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