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17.1.14

Esperando Jesus, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Após algumas horas num ônibus sem ar condicionado, enfrentando o trânsito usual da saída do Rio de Janeiro para a região serrana, a visão daquela enorme piscina com água azul a refletir o sol de quase meio-dia era a imagem do Paraíso naquele exato momento.

Isto foi há cerca de 20 anos, em 1994, quando eu ainda era um adolescente viajando a convite de minha prima católica com o seu grupo da Igreja. Era um retiro católico formado na maior parte por jovens da Zona Sul carioca. Teoricamente não havia perigo algum, e seria uma excelente oportunidade para conhecer mais do catolicismo. Mesmo assim, houve quem dissesse, na minha família, para “ter cuidado com a lavagem cerebral”...

Eu nunca tive educação religiosa, e mesmo assim sempre me interessei muito por religião. Mas é preciso deixar claro que religião não é o mesmo que igreja: religação a Deus é uma coisa bem distinta de “uma comunidade dos eleitos de Deus”. Eu não buscava nenhuma “salvação”, desta forma, tampouco algum “céu prometido”; queria apenas conhecer a Deus, e a melhor forma sempre me pareceu ser a via da contemplação e da observação de todos aqueles que já estavam aqui antes de mim a buscá-lo – afinal, alguém deve ter achado algum atalho que eu ainda não conhecia.

Mas o atalho para o mergulho naquela piscina me foi barrado. Quando perguntei a uma amiga da minha prima se a gente podia colocar roupa de banho para mergulhar ainda antes do almoço, ela respondeu assim:

“Está doido? Isto aqui é um retiro espiritual; aqui ninguém pode ficar com pouca roupa, e daí ninguém pode mergulhar!”

Eu então pensei comigo mesmo, “Tudo bem, tudo bem, só vamos ficar aqui de hoje para amanhã, não pode ser tão ruim assim”...

Após o almoço simples, mas bastante saboroso, houve uma reunião na pequena igrejinha. Ao todo, o sítio em Secretário, cidadezinha próxima de Itaipava, no meio do caminho entre o Rio e Juiz de Fora, devia contar com cerca de 50 a 60 jovens católicos em retiro (além de mim), e uns 5 a 10 padres e/ou coordenadores. Alguns destes últimos também eram palestrantes, e usaram algumas horas daquele início de tarde para falar sobre passagens da Bíblia, a vida de Jesus, o amor, a fé, etc. – enfim, nenhuma novidade até ali.

Quando as palestras encerraram, entretanto, ocorreu algo curioso: os jovens se reuniram em pequenos grupos de 5 ou 6 pessoas e começaram a conversar entre si sobre a vida de cada um. Isto eu achei bem interessante, pois como era muito tímido, me dava uma oportunidade de “quebrar o gelo” com aquele pessoal na maioria desconhecido até então.

O problema foi quando apareceu um dos padres no nosso grupo, e começou a perguntar sobre “o problema de cada um”. O que se seguiu foi uma espécie de terapia em grupo, onde cada um falava sobre suas inseguranças e angústias, etc. Foi quando finalmente chegou a minha vez:

“Mas, seu padre, eu não tenho problema nenhum, ou pelo menos não me lembro de nenhum em especial para falar agora”.

“Tem certeza, meu filho?” – respondeu o padre com um olhar inquisitivo – “Você não sabe que todos somos pecadores? Confesse-nos um dos seus pecados; confie em mim, vai ser melhor resolver isso logo, e com as bênçãos de Deus!”

Mas a minha prima não me disse de nada daquilo, eu não estava preparado para aquela espécie de terapia – na verdade praticamente um confessionário. Eu nunca havia ido à igreja alguma me confessar e sinceramente não prestava atenção especial a nenhum dos meus pecados...

Assim, como insisti em não me “confessar”, passei a ser malvisto pelo padre e pelos outros jovens do grupo. Achei aquilo tudo péssimo, pois como era bem tímido na época, já começava a imaginar os comentários que se seguiriam, “Sabe o Rafael, primo da Alessandra [1]? Pois é, veio até aqui e não teve coragem de se confessar!”

Muito tempo depois, relembrando o ocorrido, refleti sobre como o ato de confessar, e a certa obsessão com os pecados, é parte tão importante do dia a dia espiritual da maioria dos católicos (eu quero dizer, católicos praticantes). Nunca me pareceu lógica, filosófica ou espiritualmente, a ideia de que Jesus veio a Terra para pagar por nossos pecados na cruz. Ainda que fizesse sentido que alguém pudesse redimir os pecados de outro alguém (e eu não acho que faz sentido algum), o que seria dos novos pecados? Ou será que Jesus teria de retornar a Terra, de tempos em tempos, para ser novamente crucificado e nos redimir? A ideia sempre me pareceu estranha, realmente estranha!

Mas me agradava a ideia de que poderíamos nos redimir de nosso pecados nos confessando. Na verdade a origem etimológica da palavra “pecado” vem de um conceito de “errar o alvo”. E, quem erra o alvo, pode sempre tentar de novo, contanto que não desista deste alvo. O problema não é bem errar, mas insistir no erro, e fingir que está tentando acertar apenas se confessando como quem conversa com um poste (ou um bode [2]), e recitando orações decoradas para “se redimir”.

Ora, sem a alma não dá, não há espiritualidade genuína sem que a alma esteja presente em cada desejo, em cada vontade, até que elas se tornem a boa ação. E a maior das boas ações é a reforma de si mesmo, a alquimia interna, a construção do Céu em nossa própria consciência: um pensamento de cada vez. Acertar um alvo, para então mirar o próximo, ad infinitum!

Em todo caso, na época eu não tinha esta maturidade toda, e optei por me afastar um pouco do grupo e ir caminhar pelos montes em volta da área do sítio, contando vacas e bois nos outros montes próximos, ouvindo o piar dos passarinhos e o som do vento a escorar pelos ombros e pelo gramado que insistia bravamente em crescer em cada palmo de terra... Até que veio o pôr do sol, e eu achei por bem retornar para o quarto onde iria dormir naquela noite.

Foi quando botei os pés no quarto de duas beliches, onde dormiria com três outros jovens (todos homens, é claro), que me deparei com a pergunta mais insólita de todo o retiro:

“Oi, aí está você fujão! Não pense que vai se safar da vigília hoje hein? Me diga aí, você prefere esperar Jesus das 3h até às 3:30h, ou das 4:30h às 5h?”


» Na continuação, Jesus pela madrugada, belas músicas, e orações intensas!

***

[1] Todos os nomes, afora o meu, são fictícios.

[2] Nas cerimônias hebraicas do Yom Kipur, dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente.
Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do autossacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da humanidade, tendo sido expulso da cidade por ordem dos sacerdotes.

***

Crédito da imagem: William Holman Hunt ("O Bode Expiatório")

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2 comentários:

Blogger Juliano disse...

Depois de semanas com uma guia aberta mostrando os textos da série "Festa Estranha" me surpreendi em ver que ela aumentou :-)

E sabe que neste domingo mesmo (dois dias após a publicação deste seu texto... será coincidência?) durante a missa na Igreja Católica ouvindo que Jesus veio tirar o pecado do mundo, consegui uma compreensão (talvez errada) que nunca vi em nenhum lugar... provavelmente influenciado pelo O Poder do Mito (vou voltar a página para lhe agradecer por mais esta indicação :-) ) e também pelo seu livro Raph.

Se todos seguirmos o exemplo de Jesus (que acredito ter sido o maior exemplo de amor incondicional), seu ensinamento "amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo", não existirá mais o pecado.

Me pareceu bem menos sobrenatural, místico e mais racional, fácil de entender.

Abraço.

22/1/14 14:32  
Blogger raph disse...

Oi Juliano,

Bem, penso que há uma passagem do próprio AT que resume isto tudo muito bem:

"Vinde, e tornemos ao SENHOR, porque ele despedaçou, e nos sarará; feriu, e nos atará a ferida.
Depois de dois dias nos dará a vida; ao terceiro dia nos ressuscitará, e viveremos diante dele.
Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.
Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque a vossa benignidade é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa.
Por isso os abati pelos profetas; pelas palavras da minha boca os matei; e os teus juízos sairão como a luz,
Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos.

Oséias 6:1-6"

***

Há quem traduza para "quero amor e não sacrifício"; penso que fica ainda mais belo...

Mas há que se ler o AT, e esta passagem em específico, com Joseph Campbell em mente :)

Abs!
raph

22/1/14 16:42  

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