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28.6.15

O óbito da ignorância

A Casa Branca, pela entrada da noitinha, com iluminação especial em diversas cores, celebrando a decisão histórica da Suprema Corte americana.

Foi por conta de uma certidão de óbito que os EUA finalmente foram incluídos no rol dos países que deixaram de proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ao lado de Holanda (a pioneira) e diversos países europeus, assim como Uruguai, Argentina, Brasil, Canadá, México, África do Sul e Nova Zelândia:

Mapa com os países onde o casamento gay já é legal.

“Quando conheci meu marido, eu soube que queria ficar com ele pelo resto da minha vida, até que a morte nos separasse. A maioria das pessoas sente isso quando encontra o amor de sua vida”, disse a BBC o americano Jim Obergefell, 48 anos, ao falar sobre John Arthur, seu parceiro por 21 anos.

Eles se conheceram em 1992 e durante duas décadas construíram uma vida juntos em Cincinnati, Ohio. Em 2011, Arthur foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, doença que não tem cura, e começou a perder o controle de seus movimentos musculares e a fala. Ambos sabiam que o tal “até que a morte os separe” estava cada vez mais próximo, e decidiriam aproveitar uma decisão prévia da Suprema Corte americana, de 2013, que permitia o seu casamento em certos estados da federação.

O casal arrecadou US$ 13 mil com familiares e amigos e alugou um jato com equipe médica para viajar a Maryland, Estado onde o casamento gay já era permitido na época. Em 11 de julho de 2013, Obergefell e Arthur trocaram votos e alianças em uma cerimônia de menos de dez minutos, realizada dentro do avião, na pista de um aeroporto em Baltimore.

Após voltarem para casa, entraram com uma ação para que o casamento fosse formalmente reconhecido na certidão de óbito, quando Arthur morresse. Após decisão favorável de um juiz federal, o Estado de Ohio recorreu, e o caso chegou à Suprema Corte.

Foi precisamente este caso que acarretou na decisão histórica e acirrada (5 votos a 4) do último dia 26 de julho de 2015, que basicamente estendeu o direito ao casamento homossexual de alguns estados para todo os EUA. Foi para que na certidão de óbito do grande amor de sua vida não constasse a palavra “solteiro” no lugar de “casado” que Obergefell, indiretamente, ajudou a acelerar o óbito da intolerância e da ignorância na maior potência do mundo ocidental.

Claro que, não fosse por este caso, teria sido por outros. Para além do apoio incondicional a decisão da maior rede social da internet, o Facebook, o que acarretou no florescimento de milhões de fotos de perfil mais coloridas nos dias subsequentes, essas foram algumas das grandes empresas que demonstraram explicitamente o seu apoio à decisão americana:

Logos da Apple, Microsoft, Google, Facebook, YouTube, Twitter, Tumblr AmericanAirlines, Uber e Vevo.

***

Uma questão bíblica
No Levítico, a Bíblia nos explica que “quando um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão” (Le 20:13). Teoricamente, todos os judeus andarilhos, que então viviam em tribos nos desertos do Oriente Médio, deveriam seguir estritamente tal lei ou seriam “punidos por Javé”. Isto fazia algum sentido na época, pois era um povo nômade, que não dispunha de cadeias para punir infratores, e nem podia se dar ao luxo de contar com homens “efeminados” que, para além de não poderem guerrear, não ajudariam na procriação, que era vital naqueles tempos.
Estar ainda ancorado nas leis do Levítico, mesmo no século XXI, é no mínimo uma enorme ignorância, até mesmo porque quem se vale dessa passagem para condenar a homossexualidade está sendo algo hipócrita, na medida em que provavelmente não segue as demais leis do mesmo livro da Bíblia, como por exemplo: “não cortar o cabelo muito curto, nem danificar as extremidades da barba” (Le 19:27); “sacrificar dois pombos a Deus 8 dias após cada menstruação” (Le 15:13-14); “jamais comer carne de porco” (Le 11:7) etc.

Pederastia
A origem desta palavra remonta a antiga Grécia, berço da democracia e de inúmeras ideias que até o nosso século ainda iluminam o Ocidente. Ela significa, literalmente, “amor por garotos”.
Na Antiguidade, a pederastia era uma relação entre um homem mais velho e um adolescente. Em Atenas este indivíduo mais velho era chamado de erastes, e sua função era a de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado – chamado de eromenos, cuja recompensa para seu amante estaria em sua beleza, juventude e potencial.
Não está claro se tal relação passava muito além de uma iniciação sexual que durava não mais do que alguns anos, mas fato é que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes, mas sim pela extensão com que tais desejos ou comportamentos se conformavam às normas sociais, que eram baseadas por sua vez no gênero, idade e status social.
Naquela época, o sexo entre homens era aceito, contanto que não deixassem de buscar constituir família nem de se alistarem para a defesa de suas cidades.

Bonobos
Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.
Este “matriarcado” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, as fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualidade light.
Este é apenas o mais evidente de muitos casos de relações homossexuais na natureza. Assim, se por acaso algum dito pastor, seguidor de algum estranho deus raivoso, lhe disser que ser gay é “antinatural”, você pode lhe responder assim: “Senhor Pastor, o senhor por acaso já ouvir falar dos bonobos?”.

A visão budista
Um dos alunos de Chagdud Tulku Rinpoche, o Precioso Senhor da Dança, um reconhecido mestre budista tibetano, conta que uma vez presenciou tal conversa do mestre com uma senhora que havia acompanhado uma de suas palestras:
Ela: “Mestre, o que é um homossexual?”; Ele: “Um homossexual é uma pessoa que faz sexo com o mesmo sexo.”; Ela: “Acho que o senhor não entendeu… Como o budismo vê o homossexualismo?”; Ele: “Nós não vemos o homossexualismo. No budismo, não temos o costume de ver as pessoas fazendo sexo.”; Ela: “Mestre, o que eu quero saber é a opinião do budismo sobre pessoas que fazem sexo com o mesmo sexo.”; Ele: “Alguém pode dar opinião sobre quem não conhece? Você está falando em “pessoas”. Que pessoas?”; Ela: “Qualquer uma! Qualquer uma!”; Ele: “Todas as pessoas são milagres.”; Ela: “Mas afinal o homossexualismo é certo ou errado?”; Ele: “Atos homossexuais consensuais são atos de amor.”
Tudo isso com a mesma expressão de quem vê um passarinho azul. Seguem-se aplausos e gargalhadas. Rinpoche sorri...
Há ainda este vídeo onde outro mestre, Dzongsar Khyentse Rinpoche, do Butão, fala mais prolongadamente sobre o tema. Em ambos os casos, vemos que os budistas estão mais preocupados com seu autoconhecimento e iluminação do que com a sexualidade alheia [1].

A Igreja, o Pecado e a Verdade
Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”, afirmou o Papa Francisco em 2013, durante a entrevista concedida aos jornalistas que o acompanhavam no voo de volta à Itália depois da visita de uma semana ao Brasil, surpreendendo boa parte dos vaticanistas presentes.
É óbvio, no entanto, que não há nenhuma chance no horizonte próximo de que a Igreja Católica apoie o casamento homossexual. E nem há qualquer problema nisso... A luta pelos direitos dos gays é uma luta travada na esfera secular e laica, e não na esfera religiosa. O casamento gay nada tem a ver, nem poderia ter, com o casamento conforme os rituais da doutrina cristã.
Da mesma forma, além de certos ativistas da causa gay mais agressivos e ignorantes, nenhum gay ou simpatizante está querendo atacar ou denegrir a Igreja, e muito menos o Cristo, ao lutar por seus direitos, pela igualdade, a tolerância, o amor e, sobretudo, o fim da ignorância.
Afinal, foi ele mesmo, o doce rabi da Galileia, quem nos enxortou a amar a todos, a todos, sem exceção. E, se você ainda crê realmente que a homossexualidade é um tenebroso pecado, então eu lhe convido a conhecer a Verdade e se livrar das trevas da ignorância. Espero que o conteúdo deste artigo possa lhe ajudar em parte – afinal, foi também o rabi quem nos disse que a Verdade nos libertará...

***

[1] Vale lembrar, no entanto, que o casamento homossexual ainda não é permitido oficialmente nem no Tibete (China) nem no Butão.

Crédito das imagens: [topo] Monica M. Davey/EPA (Casa Branca com iluminação em homenagem a decisão histórica da Suprema Corte americana); [ao longo] Quartz (mapa com os países onde o casamento homossexual já se tornou legal); FCKH8.com (algumas das grandes companhias que apoiaram a decisão da Suprema Corte; para boicotá-las será necessário abandonar a era da internet e voltar a vida dos anos 1970/80).

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26.6.15

Hipátia e Sinésio, parte 2

« continuando da parte 1

A Herculiano,

[...] Nós vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos próprios ouvidos a Senhora [Hipátia] que presidia, com legitimidade, sobre os mistérios da filosofia. E se acaso aqueles que compartilham tal laço de união são chamados a se relacionar, daí uma lei divina nos incita, a nós que estamos unidos pela mente, a nossa melhor parte, a honrar as qualidades uns dos outros.

[...] Viver de acordo com a razão é o alvo de todos os homens. Busquemos, portanto, tal alvo em vida; supliquemos que Deus transforme nossos pensamentos em coisas divinas, e nos dediquemos, tanto quanto for possível, a colher a sabedoria de todos os lados.


Esta outra carta de Sinésio, da qual trago somente alguns trechos [1], foi endereçada a Herculiano em 395 d.C. Nesta época ambos eram alunos de Hipátia em Alexandria, porém Herculiano (de quem sabemos muito pouco além do nome e do fato de provavelmente se tratar de um membro de alguma família rica da região) foi obrigado a retornar a sua terra natal. Logo Sinésio seguiria o mesmo caminho, e após alguns anos inesquecíveis aprendendo com sua mestra, também retornaria para onde nasceu, Cirene.

Ele ainda teria viajado algumas vezes para visitar Hipátia nos anos seguintes, porém as visitas vinham se tornando cada vez mais raras e complicadas, primeiro porque Sinésio já havia e se casado e tido seu primeiro filho, e segundo porque sua capacidade intelectual o levou, ainda que provavelmente a contragosto, a atuar na esfera política.

Em 399 Sinésio chefiou uma comitiva até Constantinopla, para negociar uma redução de impostos para sua cidade junto ao imperador Arcádio. Foi obrigado a residir por cerca de 3 anos na cidade, mas finalmente retornou com sua missão cumprida. Talvez tenha conseguido visitar prolongadamente Alexandria durante os anos seguintes, mas logo foi obrigado a retornar a Cirene novamente, desta vez para uma tarefa ingrata: comandar a defesa de suas fronteiras contra invasores vindos do deserto.

Novamente foi vitorioso, tendo inclusive elaborado um novo modelo de catapulta para as defesas da cidade. Desta feita, seus concidadãos ficaram tão entusiasmados com seus serviços prestados que decidiram lhe conceder um presente que ele, na verdade, aceitou com muita relutância: o cargo de Bispo em Cirene.

Naquele século ainda não fazia muito tempo que o cristianismo tinha sido conclamado a “religião oficial” do Império Romano. Nesta aurora da igreja cristã, os cargos de liderança eclesiástica muitas vezes tinham mais a ver com os afazeres governamentais e políticos do que propriamente com a condução das práticas religiosas.

Noutra de suas cartas que sobreviveram aos séculos, Sinésio conversa com outro companheiro das aulas de Hipátia, Olímpio, sobre a necessidade de evitar a luta por cargos, honras e carreiras políticas que satisfaçam somente ambições superficiais, e não valores humanos autênticos. Nessa correspondência, Sinésio parece consciente de que não conseguirá mais se afastar das suas obrigações na vida pública, e fala acerca do prazer de ainda poder desfrutar de alguns períodos de tranquilidade nas paisagens rurais em torno de Cirene, inteiramente dedicados à reflexão: “Temos tempo para a filosofia, mas não para fazer o mal”.

Mas ah!, quem dera todos os bispos da igreja fossem homens como Sinésio, fosse assim não somente sua mestra poderia haver escapado de seu triste destino, como todo o mundo ocidental seria outro, melhor, mais justo e mais iluminado pelo sol... A história, infelizmente, não transcorreu dessa forma.

Os eventos que terminaram no brutal assassinato de Hipátia tiveram muito mais a ver com uma disputa política pelo poder em Alexandria do que propriamente com uma disputa religiosa, tanto mais com uma disputa entre o cristianismo e o helenismo. Não, a disputa mais incendiária, desde aquele tempo, já era entre cristãos e judeus...

Os dois atores principais que ansiavam estabelecer um poder hegemônico sobre o governo de Alexandria eram Orestes, o prefeito augustal e governador secular da cidade, e Cirilo, o Patriarca (espécie de arcebispo) alexandrino. Ora, muito embora um representasse diretamente a igreja cristã, e outro exercesse um cargo público, fato é que ambos eram batizados e professavam publicamente o cristianismo. Onde estava, portanto, a disputa entre cristãos, judeus e pagãos?

Ocorre que no início daquele século, Alexandria era uma das maiores cidades do mundo, e uma potência comercial onde residiam muitas comunidades de relativa riqueza. Dentre elas, a mais rica era certamente o grupo pagão, cuja ancestralidade helênica havia garantido nobres heranças. Logo após tínhamos a comunidade judaica e enfim a comunidade cristã, que exatamente por ser a mais pobre (em média), era também a mais numerosa.

Orestes, como governador astuto, tentava sustentar suas chances de ascensão à hegemonia praticando relações amistosas com todos os três grupos. Cirilo, por outro lado, sabia que a sua única chance de agaranhar o poder total sobre a cidade seria com a vitória do cristianismo sobre as demais crenças, assim eliminando de vez quaisquer chances que Orestes poderia ter de vencer aquele embate político. Vejam bem, “embate político”, pois naquele contexto a religião era usada como mera desculpa para manobrar o povo em direção a este ou aquele projeto de poder (como vemos, até hoje não mudou tanta coisa, não é mesmo?).

Pelos seus desentendimentos constantes com a comunidade judaica alexandrina, é presumível que Cirilo tivesse um ódio pessoal para com os judeus em geral. Após várias trocas de ameaças que evoluíram com os anos, os judeus organizaram um ataque que terminou por matar muitos monges armados (chamados parabolani, que eram uma espécie de “guarda armada do Patriarca”), assim como diversos cristãos desarmados, num incêndio criminoso numa igreja.

Cirilo respondeu duramente ao ataque, destruindo sinagogas, saqueando as casas dos judeus mais abastados, e enfim expulsando toda a comunidade judaica da cidade. Este foi um resultado catastrófico para as pretensões de Orestes, pois ao mesmo tempo perdera o apoio tanto de toda a comunidade judaica (que fora banida) como de muitos cristãos, que não perdoaram o ataque dos judeus e passaram a apoiar Cirilo.

Ao governador restava somente o apoio dos helênicos; e dentre eles, todos sabiam, a maior autoridade moral se centrava em Hipátia, que além de tudo era amiga pessoal de Orestes e muitas vezes lhe aconselhava diretamente... Ora, a luz de Hipátia era ofuscante demais para que Cirilo arriscasse um debate direto, era preciso se livrar da filósofa com uma artimanha mais suja e sorrateira, uma arma usada somente pelos homens mais mesquinhos e ignorantes, mas mesmo assim extremamente eficaz: a boataria.

Numa comunidade composta majoritariamente de iletrados e propensos as mais diversas crenças mágicas, não foi muito difícil “convencer” as pessoas de que aquela mulher pagã, de família nobre e antiga, que se atrevia não somente a ensinar aos homens assuntos “não religiosos”, como também a aconselhar diretamente o governador, decerto seria uma diabólica praticante de magia negra, uma bruxa que seduzia a todos que escutavam suas palavras!

Assim chegamos aos tenebrosos eventos do dia 8 de março de 415 d.C., que prefiro não descrever, então os deixo com as palavras de Sócrates Escolástico [2]:

Foi então que a inveja se irrompeu contra esta mulher. Sucedia que ela passava muito tempo com Orestes, o que deu procedência as calúnias que a condenavam entre o povo ligado à Igreja, como se ela fosse a culpada de Orestes haver se distanciado do Patriarca. Com efeito, alguns homens que lhe faziam iradamente a mesma acusação a seguiram quando voltava para casa. Então, a arrancaram de sua carruagem e a arrastaram para o interior da igreja chamada Cesarion. Rasgaram suas roupas e depois a mataram usando cacos de cerâmica [ostraka]. Quando terminaram seu esquartejamento, tendo dilacerado cada um de seus membros, levaram o corpo para um lugar chamado Cinaron e lá o queimaram.

***

Assim deixou este mundo a maior das filósofas, cuja vida foi ainda mais grandiosa por haver sido a vida de uma mulher em meio a um mundo de homens, um brutal mundo de homens...

Se nos serve de algum consolo, tal notícia nunca chegou aos ouvidos de Sinésio, que havia morrido pelo menos um ano antes, em meio à amargura de não receber mais nenhuma correspondência de sua mestra.

Não nos cabe dizer o motivo exato pelo qual Hipátia deixou de responder ao seu querido e fiel aluno. Na sua condição de bispo, o envolvimento de Sinésio na disputa em Alexandria provavelmente não teria a auxiliado em muita coisa, embora certamente colocasse o seu cargo e a sua própria vida em risco. A filósofa, em sua sabedoria, provavelmente estaria a par do fato, e preferiu deixar que Sinésio pensasse que ela o havia esquecido.

Mas se há uma coisa essencial nesta triste e grandiosa história, é que ela não pode e não deve, jamais, ser esquecida...

***

[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.

[2] Trecho de Historia ecclesiastica. Retirado do livro de Maria Dzielska.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo Hipátia de Alexandria, a grande mestra no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

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21.10.14

Da convivência

"Se vivemos em sociedade, temos de aprender a conviver com todo o tipo de gente... Temos mesmo?"

Conviver sim, mas não necessariamente converter ou ser convertido.

O sábio não nega o mundo, não se torna ermitão, mas também compreende que certas pessoas têm a capacidade de compreender certas coisas, e outras não têm (incluindo o próprio sábio).

Se as igrejas não fossem baseadas em dogmas, hierarquias e evangelizações, o mundo racional teria uma relação mais cordial com elas. Mas igrejas continuam sendo comunidades de pessoas, e só entraremos no céu de mãos dadas (doa a quem doer).

Se todos pensassem da mesma forma, a política seria absolutamente desnecessária, e teríamos um só partido agregando a todos. Seria, de fato, uma utopia a ser buscada, no entanto precisamos tomar muito cuidado com ideias falsas de "concordância geral". Afinal, é preferível termos o embate de ideias, e as tentativas de acordos, ainda que mal sucedidos, do que a ilusão de que todos concordam em tudo, construída por um sistema ditatorial.

O sábio não menospreza as ideias divergentes, pois sabe que é graças a elas que pode elaborar as suas próprias. Afinal, como ele poderia discursar sobre o calor, se o frio não existisse?

De fato, aqui estamos todos a buscar a sabedoria... Assim como a gravidade deste planetinha é a mesma de galáxias tão distantes que escapam do nosso horizonte cósmico, as leis naturais não distinguem sábios de ignorantes, e essa é precisamente a promessa divina: a de que todo ignorante um dia também será sábio.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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30.9.14

Deus tá vendo essa zoeira!

É este o slogan de um dos jogos de cartas mais polêmicos dos últimos tempos, o Pequenas Igrejas, Grandes Negócios.

Quando ouvi falar a primeira vez deste projeto, foi da boca do seu próprio criador, meu amigo Marcelo Del Debbio. O Marcelo, como muitos devem saber, é um dos divulgadores de ocultismo e espiritualidade mais conhecidos do país, assim como um dos críticos mais veementes da “picaretagem” de alguns dos ditos espiritualistas de todos os credos.

A primeira coisa que pensei foi que a temática do jogo parecia ser, em geral, um ataque meio gratuito aos evangélicos. Tive medo de que o resultado final fosse um tanto generalista e enfiasse todos os evangélicos no mesmo saco. Obviamente, para muitos evangélicos “picaretas”, é exatamente isso o que pensam do jogo desde o primeiro momento em que souberam dele.

Mas o resultado final não foi bem esse... Antes de chegarmos lá, é preciso lembrar que o sistema do jogo já vinha sendo bolado há cerca de quatro anos pelo Marcelo e o seu amigo, Norson Botrel, ambos designers de jogos de RPG há muitos anos. Porém, na hora de finalizar tudo e efetivamente criar as ilustrações, imprimir as cartas, etc., eles tiveram de pedir ajuda a diversos outros amigos...

As ilustrações ficaram a cargo do Roe Mesquita, o design e o projeto gráfico, com Rodrigo Grola, e o marketing e a edição dos vídeos de divulgação com o PH Alves (do Conversa entre Adeptus). Todo esse pessoal é muito gente boa e também faz parte da comunidade espiritualista que se criou em torno do blog do Marcelo, o Teoria da Conspiração, mas ainda faltava um elemento essencial: Como pagar o trabalho dessa gente toda? Como pagar a impressão dos primeiros baralhos?

Foi aí que o Marcelo decidiu recorrer ao crowdfunding, usando o site Catarse. No crowdfunding, um projeto qualquer é apresentado com uma meta de financiamento (em reais) e, geralmente, uma série de bônus para aqueles que doarem valores maiores. No caso do Pequenas Igrejas, Grandes Negócios (PIGN), a meta mínima para a produção do jogo era de 29 mil reais. A cada 5 mil reais extras arrecadados, eram prometidos novas cartas e suplementos disponíveis desde o lançamento. Se o financiamento total ultrapassasse a última marca da lista, 75 mil reais, eles ainda prometiam entregar sleeves (embalagens plásticas) para cada carta do baralho a quem houvesse investido acima de certo valor.

Ao final de cerca de 2 meses de crowdfunding, o PIGN se tornou um dos projetos mais bem sucedidos do Catarse, tendo arrecadado quase 93 mil reais! Eu mesmo fui um dos 12 que doaram os valores mais altos disponíveis (400 reais, nem tanto se comparado a outros projetos do Catarse), e garanti uma carta com o meu pastor no jogo, o Bispo Sinésio!

Há algumas semanas atrás a minha edição do jogo chegou por correio, com assinaturas de diversos integrantes do projeto, e com quase 400 cartas, incluindo todas as cartas bônus disponíveis... A grande questão então passou a ser: será que eu usaria esse jogo apenas para ficar rindo das cartas, ou será que daria para jogá-lo realmente? Bem, com a ajuda do pessoal que segue o blog do Marcelo aqui na minha cidade, consegui jogar algumas partidas bem divertidas...

Na verdade o jogo é bem mais do que uma simples crítica bem humorada a “picaretagem” de alguns ditos espiritualistas. Ele realmente funciona como jogo, e acredito que não deveríamos esperar menos de designers como o Marcelo e o Norson. Como não sou exatamente um especialista em jogos de cartas do tipo (eles mesmos dizem que se inspiraram em Magic: The Gathering, BANG!, UNO e Munchkin para criar o mix de regras), não posso afirmar que se trata “do melhor jogo de cartas de todos os tempos”, mas certamente é um jogo tão divertido de jogar quanto o Munchkin (o que mais conheço da lista anterior), com a vantagem de ser ambientado num “universo brasileiro” – ou melhor, “num mundo onde as igrejas são usadas por pessoas trapaceiras e inescrupulosas para lavar dinheiro do crime, vender porcarias inúteis, explorar a boa fé de pessoas ignorantes e obter poder político; um universo muito diferente da nossa realidade, onde as igrejas são centros comunitários de ajuda ao próximo, gerenciadas por baluartes do bom caratismo”.

O que nos traz de volta a questão inicial: será que o PIGN coloca num mesmo saco tanto os “picaretas” quanto os verdadeiros espiritualistas? Na verdade, não, nem de longe... Para começar, apesar do jogo se focar, como o próprio título diz, nas igrejas, a verdade é que há críticas a “picaretas” de várias vertentes religiosas – para citar dois exemplos, temos no baralho os pastores “Mãe Binah” e “ET Bilu Bilu”, que estão longe de se referirem a pastores evangélicos do “mundo real”.

Além disso, em nenhum momento é citado o nome de Jesus. Não que isso por si só fizesse alguma diferença, mas não deixa de ser revelador o respeito que mantiveram ao seu nome. Em PIGN, encontramos “Jezuis”, e não “Jesus”.

Por fim, o que mais achei curioso no jogo é que todas as cartas de ataque (o objetivo do jogo é acabar com a reputação dos pastores adversários, daí existirem as “cartas de ataque”) se referem a notícias que foram vinculadas na mídia real (independente de serem verdadeiras ou não, mas o absurdo todo é que a grande maioria é verdadeira).

Assim, quando atacamos nossos amigos na mesa de jogo usando cartas como “Igreja é dona do maior complexo de saunas gays da Europa” (carta #215), “Religioso afirma que sexo ilícito é causa dos terremotos” (#187), “Pastor ex-gay quer criar ‘Conselho estadual para a defesa dos direitos héteros’” (#192), “Barak Obama está possuído pelo demônio, afirma pastor que faz exorcismo por Skype” (#162), ou ainda “Ex-obreira fica grávida do Diabo e dá à luz 3 caveiras de plástico!” (#31), ficamos nos perguntando se este jogo chegou mesmo a conseguir ser mais absurdo do que a nossa realidade – e então, ao menos nos resta o consolo: Deus tá vendo essa zoeira!

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» O PIGN pode ser adquirido na loja online da Daemon Editora

Crédito das imagens: Divulgação/PIGN

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21.8.14

Marina e o Tao da Política

Quero me desculpar uma vez mais com os leitores por ter de me aventurar novamente na política, e mais precisamente no atual momento político do Brasil. Eu sempre tento evitar tocar no tema, mas desta vez não tive como me segurar, é algo que precisa sair de mim, transbordar em palavras... Portanto, como não sou nenhum especialista em ciências políticas, vou tratar do tema através do que eu entendo, e que a meu ver está em sua essência, o taoísmo (ou a arte de se perceber e compreender os opostos).

“Não sou nem de esquerda nem de direita”. Há muitos especialistas em ciências políticas que abominam quando alguém diz isto. Para os especialistas da chamada “direita”, denota algum grau de alienação. Para os especialistas da chamada “esquerda”, denota que “o sujeito é de direita, mas não quer admitir”. Então, vamos lá, eu admito, sou de Esquerda. Mas não a esquerda dos projetos de poder, não a esquerda do neofeudalismo, não a esquerda das revoluções pela força das armas...

Eu bem sei que o Che Guevara vende muitas camisetas, mas não posso concordar com ele quando diz que “há que endurecer, mas sem perder a ternura”. Para mim, não há como endurecer sem perder a ternura, uma coisa é totalmente incompatível com a outra. A Revolução que eu acredito não é armada, é a Revolução da liberdade das ideias, do compartilhamento de informações, da junção de etnias, culturas e visões de mundo diversas. Meu revolucionário não se chama Che, mas Aaron, Aaron Swartz, o homem do amanhã (que infelizmente, foi massacrado pelo mundo do ontem).

E, se eu sou de Esquerda, devo agradecer todos os dias por haver Direita. E devo respeitá-la quando o respeito é recíproco. Num país do século 21 onde não há oposição, onde não há visões contrárias, não há Política e tampouco liberdade. Há feudalismo (ou neofeudalismo), há sobretudo um grande resquício de Idade Média. Por outro lado, nem sempre os “sonhos de soberania do reinado” vêm do governo; tantas vezes vêm daqueles que controlam o sistema, a informação, e que se veem cada vez mais desesperados num século onde o conhecimento é cada vez mais livremente compartilhado, onde os pensamentos voam cada vez mais libertos.

“É somente porque há escuridão que sabemos o que é a luz. É somente porque há frio que sabemos o que é o calor. É somente porque há tempestade que sabemos o que é a tranquilidade”. Taoísmo básico. Uma eterna dança de opostos – e o mesmo, é claro, ocorre na Política. O problema está em associar o “bem” a um dos lados, e o “mal” ao outro. Os extremistas são grandes especialistas neste tipo de coisa, os verdadeiros mestres da falácia do “8 ou 80” – “ou está comigo, ou está contra mim”.

No entanto, é até estranho de se pensar, mas os extremistas necessitam ardentemente uns dos outros. Bin Laden necessitava ardentemente de George Bush, e vice versa. O Hamas necessita ardentemente de um governo de extrema direita em Israel, e vice versa. Até mesmo aqui pelo Brasil, como vimos nas manifestações populares de Junho de 2013 e nos meses subsequentes, os Black Blocs necessitavam ardentemente de uma polícia militarista e violenta, e vice versa... Um antigo rabino já havia resumido muito bem, “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”.

O que muitos de nós que são seduzidos pelas extremidades não percebem é que os extremistas acabam por ajudar uns aos outros. O maior “mal” dos extremistas não é o “lado oposto”, mas o fim do conflito, o mundo dos moderados, dos pacíficos, dos mansos. Dizem que os mansos estão “em cima do muro”, que são “alienados” e etc. Um antigo andarilho (que também era muito manso) já havia resumido isto também:

“A alma vem primeiro. Se você não mudar o que a alma deseja, você irá apenas substituir a dominação romana por outra dominação, e nada nunca irá mudar. Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta. É o desejo de riquezas e poder que faz com que o homem queira dominar os outros. É o desejo que precisamos mudar, precisamos primeiro libertar a alma. Com amor.” [1]

Então chegamos ao atual momento político do país, onde dois partidos que vieram da mesma família ideológica brigam entre si como irmãos raivosos, e creem piamente que um é o oposto do outro. O irmão da “direita” acusa o outro de “haver tomado controle do parquinho, e não querer mais sair de jeito nenhum”; já o irmão da “esquerda” retruca que “todos os garotos ricos estão com vocês, e eles falam um monte de mentiras para tentar convencer os garotos pobres de que queremos controlar os brinquedos, e isso não é verdade!”.

A verdade... A verdade é uma coisa complicada em Política. Uma das principais razões da criação da Política e da Democracia, e que pareceu clara aos filósofos gregos, é que “ninguém é o dono da verdade, até mesmo porque não existe verdade absoluta”. Desta forma, a Política nasceu como forma de criar um diálogo muito necessário entre os pensamentos e crenças opostas, de forma que não seja necessária uma guerra ou matança para decidir quem, afinal, “tinha razão”. E, da mesma forma, os acordos servem para que a vontade da maioria seja realizada, sem que no entanto a vontade da minoria seja ignorada, ridicularizada, ou censurada...

O maior divertimento para quem, como eu, se equilibra na mureta do caminho do meio, é observar como as pessoas raivosas de um lado muitas vezes se comportam como o reflexo das pessoas raivosas do outro. Isto nunca foi tão evidente quanto quando Marina Silva surgiu como possibilidade de “terceira via” para o governo do Brasil.

Antes de mais nada, devo dizer que eu não voto em Marina no primeiro turno das eleições de 2014. Mas não deixo de votar nela porque a abomino, deixo de votar nela simplesmente porque acredito que exista um candidato imensamente superior a ela e a todos os demais, que se chama Eduardo Jorge. Eu poderia lhes trazer mais parágrafos e parágrafos explicando o motivo pelo qual Eduardo, assim como tantos outros bons candidatos que não abandonaram suas ideologias na Política do país, dificilmente vencerá alguma eleição enquanto não jogar o jogo do Grande Negócio Eleitoral, e aceitar os milhões de financiamento das empreiteiras e outras grandes empresas, e então ser eleito com o rabo preso (e etc.), mas acredito que isto todos vocês já estão cansados de saber. Então, prossigamos...

Quando Marina tentou criar sua Rede, preferiram liberar para o Kassab e encrencar com ela. Quando Marina se aliou a Eduardo Campos, disseram que “ela jamais aceitaria ser vice” e que “ela quer somente o poder”. Quando, finalmente, a tragédia em Santos nos privou da companhia do neto do grande Miguel Arraes na vida política brasileira, Marina despontou como possibilidade altamente viável para vencer as eleições para a presidência. E adivinhem o que ocorreu? Os extremistas passaram a acusá-la de “pertencer ao outro lado”. Eu não sei quanto a vocês, mas eu me divirto muito comparando frases como estas [2]:

“Depois de Collor de Mello e FHC, Marina é o novo ilusionismo da direita.” (Sergio Saraiva)

“Confesso ao leitor: tenho calafrios com a imagem de um segundo turno entre Dilma e Marina. É uma visão assustadora.” (Rodrigo Constantino)

Daqui a pouco podem ser grandes amigos...

Se é quase automático o repúdio da extrema direita a candidatura de Marina, é um tanto quanto irônico que muitos “direitistas” se vejam quase que obrigados a apoiá-la num segundo turno, por aparentemente (segundo as pesquisas de opinião) ser a única capaz de retirar a presidenta Dilma Rousseff do poder.

É mais hilário, no entanto, ver a extrema esquerda se comportar exatamente como a direita, só que para atacar uma adversária que, até outro dia, estava brincando no mesmo parquinho.

É hilário ver as línguas venenosas nos blogs chapa branca e nas redes antissociais alertarem para “a teocracia evangélica que se aproxima”, enquanto quase que ao mesmo tempo, vemos Dilma se dirigir nestes termos aos religiosos da Assembleia de Deus [3]:

“O Brasil é um Estado laico, mas, citando um salmo de Davi, eu queria dizer que feliz é a nação cujo Deus é o Senhor.” (Dilma Rousseff)

Eu quero crer que Dilma estava apenas lendo um discurso do seu “marqueteiro” de campanha. Pois além da frase já não fazer o menor sentido, denota no mínimo um grau enorme de falsidade, considerando que a presidenta sempre foi, para dizer o mínimo, “católica não praticante”. O que o Grande Negócio Eleitoral não faz pelas ideologias e as crenças dos políticos...

Agora, vejamos o que a própria Marina, que sempre foi extremamente religiosa (só que de verdade: antes católica, e depois evangélica), tem a dizer sobre a relação entre a fé e o Estado [4]:

“Eu acho que a grande conquista do nosso país é ser um Estado Laico. Um Estado Laico não pode ser confundido com um estado ateu. Um Estado Laico serve para defender os direitos de quem crê e de quem não crê. E a construção da laicidade do Estado é uma construção da Reforma Protestante, é uma pena que as pessoas tenham esquecido disso. Havia uma Igreja oficial que na época estava intimamente ligada ao Estado, e esta foi uma grande contribuição do protestantismo, o conceito de separação entre Igreja e Estado.” (Marina Silva)

Então, Marina é conta às pesquisas com células-tronco? Contra a legalização do aborto? Contra o casamento gay? Muito provavelmente... Porém, ao contrário de outros políticos de ideologias maquiadas pelo marketing eleitoral, ela **sempre** defendeu suas convicções, e não mudou de ideia para ganhar votos. Da mesma forma, nada, absolutamente nada, indica que o fato de ela ser eleita acarretará no arquivamento ditatorial destas ideias. Ela pode fazer plebiscitos (aliás, como Dilma propõe em muitas áreas essenciais), vetar de forma ditatorial, jamais (e ainda que fosse o caso, o próprio PT, na oposição, ajudaria em muito a derrubar qualquer veto do tipo).

Finalmente, temos o costumeiro ataque da “esquerda” que visa associar Marina aos grandes empresários e banqueiros, como se isto por si só fizesse dela uma “bruxa do mal”... Quanto a esta última questão, prefiro deixar uma frase do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que reflitam, e aproveito para encerrar esta minha breve excursão pelo pântano da política brasileira [5]:

“Não tem lugar no mundo onde o [banco] Santander esteja ganhando mais dinheiro que no Brasil” (ex-presidente Lula)

***

[1] Em realidade um trecho de A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis. Porém, acho verossímil que Jesus tivesse uma visão parecida. Em todo caso, o que importa aqui é a mensagem em si.

[2] Escolhi dois jornalistas que dão voz a opiniões de extrema esquerda (Luis Nassif Online) e extrema direita (Rodrigo Constantino/Veja). Não quero aqui fazer nenhum tipo de comparação entre eles para além disso. A frase de Saraiva foi retirada do artigo O discreto charme de Marina Silva, publicado no blog de Luis Nassif. A frase de Contantino foi retirada de sua coluna para a Veja, intitulada Marina vem aí? Ou: A Rede da demagogia.

[3] Fonte: Reuters Brasil.

[4] Retirado de vídeo que anda viralizando no YouTube, intitulado Marina Silva - Democracia, laicidade e não preconceito (o trecho inicia em torno de 01:45). Fiz uma ligeira adaptação ao final para deixar mais clara a citação.

[5] Fonte: Estadão. O ex-presidente Lula citava o episódio envolvendo o banco Santander, que emitiu, uma semana antes, um comunicado sugerindo que se a presidente Dilma Rousseff fosse reeleita haveria uma deterioração na economia brasileira.

Crédito das imagens: [topo] raph (montagem com imagens de Che Guevara e Aaron Swartz); [ao longo] raph (montagem em cima de cartaz do filme Malévola da Disney, com Angelia Jolie)

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12.4.14

Noé – o que merece ser salvo? (parte final)

« continuando da parte 1

O mito moderno
De acordo com Richard Saul Wurman, em seu livro Ansiedade de Informação, uma edição de domingo do jornal The New York Times tem cerca de 12 milhões de palavras e contém mais informação do que aquela que um cidadão do século 17 recebia ao longo de toda a vida. A capacidade de computação mundial aumentou 8 mil vezes nos últimos 40 anos. Com esse ritmo, especialistas calculam que produzimos mais informação na última década do que nos 5 mil anos anteriores. E todo esse acúmulo causa ansiedade.

A velocidade com que a informação viaja o mundo é algo muito recente, com o qual os seres humanos ainda não sabem lidar – e muito menos aprenderam a filtrar. Já foram cunhados até alguns termos para definir a ansiedade trazida pelos novos meios de comunicação: technologyrelated anxiety (ansiedade que surge quando o computador trava, que afeta 50% dos trabalhadores americanos), ringxiety (impressão de que o seu celular está tocando o tempo todo) e a ansiedade de estar desconectado da internet e não saber o que acontece no mundo, que já contaminou 68% dos americanos [1].

Uma outra consequência de tamanha “globalização da informação” é a de que hoje somos prontamente informados de todos os grandes desastres naturais, genocídios e conflitos armados que ocorrem ao redor do globo. Certamente o seu bisavô, por mais bem informado que fosse, não estaria muito preocupado com um acidente de trem na Espanha, um estupro coletivo na Índia ou um ataque de algum esquizofrênico numa universidade americana. E, mesmo as notícias da Primeira Guerra Mundial não eram tão impactantes quanto as notícias das guerras de hoje – na sua época a guerra era descrita em alguns parágrafos de jornal, hoje ela muitas vezes é filmada ao vivo com câmeras de alta definição.

Dessa forma, se no mito de Noé o fim do mundo era um anúncio divino que nem todos levaram a sério (exceto Noé e sua família), nos dias atuais o fim do mundo parece ocorrer de tempos em tempos no noticiário, ao ponto de sermos obrigados a nos tornar, de certa forma, “insensíveis” a tanta desgraça anunciada nas dezenas ou centenas de canais de notícia de nossa TV a cabo e em nossos portais favoritos da web.

Não é que hoje o mundo esteja mais violento do que há milênios atrás, pelo contrário: hoje vamos a um estádio ver jogadores praticando esportes, e não se matando; hoje não há mais escravidão, ao menos oficialmente; hoje as mulheres que apanham de seus maridos têm uma opção de escolha que antes lhes era absolutamente negada. O mundo melhorou fora das zonas de guerra, sem dúvida, mas o problema é que hoje podemos saber de tudo (ou quase tudo) de catastrófico e violento que ocorre nos quatro cantos do globo.

Como sobreviver a essa época tão fluida e tão cheia de atrativos, a esse verdadeiro “dilúvio de informações”? Talvez, quem sabe, a Arca de Noé possa ser uma possibilidade de salvação. Afinal, se a construção de nossa Arca pode ser tão difícil e custosa, ela nos traz um grande consolo, um grande alento, em sua conclusão: teremos, enfim, uma embarcação só nossa, onde guardamos a informação que nos importa de verdade, assim nos livrando de todo um mar revolto de irrelevâncias.

A Arca moderna nada mais é, portanto, do que o pensamento próprio, livre de dogmas de crença ou descrença, livre da enxurrada de informações que nada acrescentam ao nosso autoconhecimento e ao nosso caminho espiritual. Para sobreviver no mundo moderno como um indivíduo de pensamento livre, sem dúvida precisaremos aprender mais acerca das técnicas de construção de Noé.

O que merece ser salvo?
Se o mito pode ser reinterpretado à luz da era moderna, nada nos impede de voltar atrás e interpretá-lo a nossa maneira também no contexto da época bíblica. Afinal, há certamente uma boa parte do mito que se encontra mesmo fora do tempo, que é eterna...

Uma lição que sempre me saltou aos olhos é que o Criador não pediu a Noé para que salvasse alguma relíquia, algum plano de construção de templos, e tampouco algum livro sagrado. Nem ouro, nem prata nem joias – o que havia de mais valioso para ser salvo do Grande Dilúvio era a vida, a vida!

E não somente os seres vivos em si, mas a sua simbologia. Afinal, já na época de Noé os animais eram também símbolos, informações vivas que representavam a Criação. Não bastaria, portanto, salvar somente o elefante macho, era preciso salvar também a fêmea, para que a continuidade da espécie, a continuidade do símbolo “elefante”, fosse garantida.

Nesse sentido, a Arca de Noé era, de certa forma, a Igreja sonhada por nosso querido Francisco de Assis: uma casa não somente de homens e mulheres, mas de vida, de toda a vida.

Quantas vilas, cidades e templos já existiam na época de Noé? Quantas estátuas dedicadas as mais diversas divindades? Quantos manuscritos sagrados e poemas épicos? Nada disso passou do Dilúvio. Nada sobrou, exceto a vida ela mesma...

Aquilo que ultrapassa vidas
Há algo que permeia todos os mitos referentes a um Grande Dilúvio nas mais variadas culturas ancestrais: com Arca ou sem Arca, fato é que somente um herói, ou um casal, ou um grupo muito pequeno de pessoas, sobrevive para repovoar o mundo todo após as águas aplainarem.

Ora, se formos transportar esta metáfora para o conceito de reencarnação, tão antigo quanto as primeiras religiões e mitologias, temos que o Dilúvio, o fim do mundo pelas águas, nada mais é do que a “morte”; e o mundo novo, a espera de ser povoado, nada mais é do que a “próxima vida”.

Nesse contexto, o que seria capaz de cruzar a fronteira entre uma e outra vida, senão tudo aquilo que conseguimos trazer para a nossa Arca?

É bem verdade que a maioria de nós sequer começou a aprender a construir uma Arca – mas quem disse que não somos capazes? Ainda que de início nosso barco seja pequeno e quebradiço, facilmente virado pelas ondas, o que importa é que iniciamos a aprendizagem.

E é precisamente esta aprendizagem, de construção de arcas, aquilo que ultrapassa vidas, a ciência mais preciosa e primordial de toda a existência... Não importa se hoje não acreditamos que seja realmente possível construirmos uma Arca tão grande quanto a de Noé. Não importa se nos parece inverossímil que ela pudesse mesmo carregar todas as espécies não marinhas do planeta. Pois há algo de sobrenatural nesta ciência, algo que escapa a lógica usual de todas as ciências...

Tudo é natural, e assim está bom. Mas há algo que salta por sobre, que ultrapassa as maiores barreiras; algo que é capaz de vencer até mesmo a morte; algo atemporal, eterno, infinito.

É precisamente esta Arca de Amor a única coisa que realmente possuímos, a única coisa que realmente importa, a única coisa que vale a pena construir... E cada martelada, cada tábua posta no lugar, cada gota de suor a escorrer de nossa testa, terão valido a pena.

Até que ela, a Grande Arca, consiga abarcar o mundo todo. De modo que o mundo todo será nossa Arca, e nossa Arca será todo o mundo. E somente assim poderemos, de verdade, estabelecer nossa Aliança com o Tudo. Somente assim poderemos ser carregados pelas marés internas da alma até atracarmos, um dia, nas praias do Reino de Deus:

“Senhor, árdua foi a construção da minha Arca, e longa foi a minha navegação; mas eu cheguei, eu finalmente cheguei!”

***

[1] Os dois primeiros parágrafos desta parte do artigo foram retirados de Sobre a ansiedade, por Karin Hueck para a Revista Superinteressante (Novembro de 2008).

Bibliografia: Guia Ilustrado Zahar de Mitologia (Philip Wilkinson e Neil Philip); Enciclopédia de Mitologia (Marcelo Del Debbio); O Poder do Mito (Joseph Campbell e Bill Moyers)

Crédito da imagem: Noé – O filme (Divulgação)

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12.3.14

O reformador da Igreja do Carmo

Cerca de 2.000 pessoas assistiram à missa celebrada às 11h de 09/02/14 pelo frei Cláudio van Balen (81 anos, nascido na Holanda) na Igreja Nossa Senhora do Carmo, zona sul de Belo Horizonte. O frade, ligado à ala mais progressista da Igreja Católica e defensor da Teologia da Libertação - e que há cinco décadas celebra a missa nesse horário -, havia sido afastado em janeiro pela Arquidiocese de Belo Horizonte e Província Carmelita de Santo Elias, mas retornou à função após pressão dos fiéis.

A presença de 2.000 pessoas na missa representa o dobro do público que normalmente frequentava as celebrações das 11h de domingo na igreja. O templo, que tem capacidade para 800 pessoas sentadas, foi tomado por fiéis que acabaram ocupando espaços laterais e parte do altar, e dezenas de pessoas ficaram do lado de fora da igreja.

Depois que o sinete do altar tocou três vezes, frei Cláudio van Balen entrou e foi aplaudido com entusiasmo pelos fiéis - alguns choravam. O frade, então, levantou a mão direita pedindo silêncio, e a missa pôde começar. Balen nada falou sobre o seu afastamento... [fonte: uol]

***

Neste programa da GloboNews, canal de TV a cabo, o jornalista Fernando Gabeira vai atrás dessa e de muitas outras histórias que cercam o frade holandês, que mora há tantos anos no país que, além de se considerar brasileiro, ainda fala um português adocicado pelo delicioso sotaque mineiro.

"Ele nos fala de uma nova fé, sem as antigas ideias de culpa e de medo de algum julgamento; uma fé descontraída, que caminha junto com a cidadania, onde todos os atos visam um mundo melhor, uma convivência mais amorosa" - é mais ou menos isto que os fiéis de van Balen falam dele, e até mesmo por isso fica a indagação, "E por que diabos uma ala da Igreja deseja afastá-lo do seu ofício a qualquer custo?". Gabeira nos ajuda a responder:

(clique na imagem para assistir a reportagem no site da GloboNews)


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19.1.14

Esperando Jesus, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 1

É claro que eu me recusei a participar dos “turnos” da vigília pela madrugada. Se eu bem compreendi na época, muitos dos jovens que participavam das vigílias nos retiros consideravam, não se sabe se simbolicamente ou literalmente, que Jesus poderia aparecer a eles, seja às 3h ou 4h da matina, e dizer algo como:

“Oi, fico feliz que tenham me aguardado, eu finalmente retornei ao mundo!”

O que me pareceu puro absurdo naquela época, entretanto, foi melhor compreendido quando cheguei a conhecer, muitos anos depois, a entrevista de Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia do século passado, para Bill Moyers. Esta célebre entrevista rendeu um livro e também uma série de vídeos, dentre os quais retirei a passagem abaixo, que trago aqui como forma de ilustrar melhor o que eu quero dizer:

Queremos pensar em Deus. Deus é um pensamento. Deus é uma ideia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico.

Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

Portanto, embora muitos dos jovens naquele retiro talvez acreditassem realmente que Jesus poderia chegar na capela durante a madrugada, literalmente em carne e osso, ainda assim esta crença não merece ser alvo do deboche costumeiro dos descrentes (incluindo a mim mesmo, na época).

Pois que, se pensarmos no Cristo como uma metáfora para o nosso eu angélico, que anseia por domesticar seu lado animal (não acho que a crucificação seja necessária, mas enfim) e renascer como um ser mais humano, que deixou de olhar para o pântano dos desejos desenfreados, e agora mira na senda do Paraíso (com ou sem piscinas), então temos que esperar pelo Cristo nas madrugadas é não somente um ritual belíssimo, como potencialmente transformador. Muito mais profundo do que apenas confessar pecados e repetir orações decoradas...

E, se anteriormente tais jovens viviam de crenças literais, não importa tanto assim, pois o importante é a experiência. Da teoria eles podem ler e compreender melhor depois, mas a experiência religiosa é o que conta, e isto eles já estavam tendo desde cedo – neste sentido posso compreender perfeitamente como a prática dos rituais católicos também ajuda a moldar uma alma mais aberta para a luz do Alto, e mais predisposta a ser incendiada pelo Amor. Não vejo porque se ter vergonha de haver participado deste tipo de ritual (embora certamente na época eu pensasse de outra forma).

Na manhã do outro dia fui “carinhosamente” levantado da cama pelas canções religiosas. Eram três jovens percorrendo todos os quartos e acordando todo mundo. Dois deles dedilhavam seus violões, enquanto outra cantava, felizmente, até com bastante afinação. Nem me lembro da hora que acordei – uma das características interessantes desses retiros espirituais é que facilmente perdemos a noção da hora (e, naquela época, vale lembrar, ninguém tinha celular).

Eram canções que se estendiam pelo café da manhã, almoço, e até o início da última tarde de orações na igrejinha. Ainda me lembro de alguns refrãos até hoje...

Eis que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas,
Que faço novas todas as coisas! [1]

Voa Jesus pequeno pássaro,
Vamos cantar seu louvor,
Aleluia, aleluia, aleluia! [2]

Embora eu tivesse estranhado a proibição de usar a piscina, a estranha obsessão com pecados, e até mesmo o conselho de se tomar banho de água fria para “evitar a vontade da masturbação” [3], foi durante toda aquela cantoria, divina cantoria, que pude compreender um pouco melhor toda a alegria que brota da experiência religiosa genuína.

Eu certamente não entraria para algum grupo católico e dificilmente tão cedo iria participar de outro retiro daquele tipo (e até hoje não participei), mas isto não significa que eu não houvesse compreendido, de alguma forma, o porquê daqueles jovens haverem escolhido aquela doutrina e aquelas práticas religiosas – havia, certamente, uma grande alma em toda aquela música cantada em voz de dentro; e como disse um poeta, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Mas isto não foi tudo. Talvez todo este relato nem merecesse estar aqui se não fosse pelo que presenciei nas orações da última tarde. Ao contrário da tarde anterior, quando houve muitas palestras, esta foi inteiramente dedicada ao ritual e as orações. Eu certamente mal me lembro dos rituais hoje em dia, mas há algo que dificilmente esquecerei: as católicas (sim, porque acredito que eram todas mulheres) que oravam e oravam e oravam, intensamente, até entrarem nalguma espécie de transe e simplesmente desabarem no chão!

Eu vi meninas chaparem, literalmente, a cabeça no chão, após um momento de transe intenso, e serem deixadas ali, deitadas, até que acordassem por conta própria logo depois...

Como observei bem que nenhuma delas se machucou com gravidade, embora certamente fosse o caso de haver pelo menos um certo derramamento de sangue, depois fui perguntar a uma amiga da minha prima sobre como nenhuma delas se machucou. Ela respondeu apenas que:

A gente não se machuca não. O Espírito Santo segura a gente e nos protege”.

Bem, eu certamente não vi o Espírito Santo amortecer a queda de nenhuma delas, mas certamente foi impressionante ouvir todos aqueles estrondos no piso de madeira da igrejinha e depois não ver nem uma gota de sangue no chão.

De resto, findara a tarde e todos retornamos para o Rio no mesmo ônibus com o qual chegamos em Secretário. Felizmente não fez tanto calor naquele final de tarde, e eu até consegui voltar sentado ao lado de uma das amigas da minha prima em quem eu estava de olho...

Mas não rolou nada, eu era muito tímido, e em todo caso nunca gostei muito de banho de água fria.

***

[1] Refrão da letra de Paulo Roberto. Talvez lhe interesse ouvir para ter uma ideia do tipo de experiência que vivenciamos por lá:

[2] Trecho da música do grupo Canção Nova (com pequenas alterações).

[3] Conselho este que eu nunca segui (independente da masturbação), a não ser quando o chuveiro elétrico pifou, ou durante os apagões.

***

Crédito da foto: Rádio Catedral

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17.1.14

Esperando Jesus, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Após algumas horas num ônibus sem ar condicionado, enfrentando o trânsito usual da saída do Rio de Janeiro para a região serrana, a visão daquela enorme piscina com água azul a refletir o sol de quase meio-dia era a imagem do Paraíso naquele exato momento.

Isto foi há cerca de 20 anos, em 1994, quando eu ainda era um adolescente viajando a convite de minha prima católica com o seu grupo da Igreja. Era um retiro católico formado na maior parte por jovens da Zona Sul carioca. Teoricamente não havia perigo algum, e seria uma excelente oportunidade para conhecer mais do catolicismo. Mesmo assim, houve quem dissesse, na minha família, para “ter cuidado com a lavagem cerebral”...

Eu nunca tive educação religiosa, e mesmo assim sempre me interessei muito por religião. Mas é preciso deixar claro que religião não é o mesmo que igreja: religação a Deus é uma coisa bem distinta de “uma comunidade dos eleitos de Deus”. Eu não buscava nenhuma “salvação”, desta forma, tampouco algum “céu prometido”; queria apenas conhecer a Deus, e a melhor forma sempre me pareceu ser a via da contemplação e da observação de todos aqueles que já estavam aqui antes de mim a buscá-lo – afinal, alguém deve ter achado algum atalho que eu ainda não conhecia.

Mas o atalho para o mergulho naquela piscina me foi barrado. Quando perguntei a uma amiga da minha prima se a gente podia colocar roupa de banho para mergulhar ainda antes do almoço, ela respondeu assim:

“Está doido? Isto aqui é um retiro espiritual; aqui ninguém pode ficar com pouca roupa, e daí ninguém pode mergulhar!”

Eu então pensei comigo mesmo, “Tudo bem, tudo bem, só vamos ficar aqui de hoje para amanhã, não pode ser tão ruim assim”...

Após o almoço simples, mas bastante saboroso, houve uma reunião na pequena igrejinha. Ao todo, o sítio em Secretário, cidadezinha próxima de Itaipava, no meio do caminho entre o Rio e Juiz de Fora, devia contar com cerca de 50 a 60 jovens católicos em retiro (além de mim), e uns 5 a 10 padres e/ou coordenadores. Alguns destes últimos também eram palestrantes, e usaram algumas horas daquele início de tarde para falar sobre passagens da Bíblia, a vida de Jesus, o amor, a fé, etc. – enfim, nenhuma novidade até ali.

Quando as palestras encerraram, entretanto, ocorreu algo curioso: os jovens se reuniram em pequenos grupos de 5 ou 6 pessoas e começaram a conversar entre si sobre a vida de cada um. Isto eu achei bem interessante, pois como era muito tímido, me dava uma oportunidade de “quebrar o gelo” com aquele pessoal na maioria desconhecido até então.

O problema foi quando apareceu um dos padres no nosso grupo, e começou a perguntar sobre “o problema de cada um”. O que se seguiu foi uma espécie de terapia em grupo, onde cada um falava sobre suas inseguranças e angústias, etc. Foi quando finalmente chegou a minha vez:

“Mas, seu padre, eu não tenho problema nenhum, ou pelo menos não me lembro de nenhum em especial para falar agora”.

“Tem certeza, meu filho?” – respondeu o padre com um olhar inquisitivo – “Você não sabe que todos somos pecadores? Confesse-nos um dos seus pecados; confie em mim, vai ser melhor resolver isso logo, e com as bênçãos de Deus!”

Mas a minha prima não me disse de nada daquilo, eu não estava preparado para aquela espécie de terapia – na verdade praticamente um confessionário. Eu nunca havia ido à igreja alguma me confessar e sinceramente não prestava atenção especial a nenhum dos meus pecados...

Assim, como insisti em não me “confessar”, passei a ser malvisto pelo padre e pelos outros jovens do grupo. Achei aquilo tudo péssimo, pois como era bem tímido na época, já começava a imaginar os comentários que se seguiriam, “Sabe o Rafael, primo da Alessandra [1]? Pois é, veio até aqui e não teve coragem de se confessar!”

Muito tempo depois, relembrando o ocorrido, refleti sobre como o ato de confessar, e a certa obsessão com os pecados, é parte tão importante do dia a dia espiritual da maioria dos católicos (eu quero dizer, católicos praticantes). Nunca me pareceu lógica, filosófica ou espiritualmente, a ideia de que Jesus veio a Terra para pagar por nossos pecados na cruz. Ainda que fizesse sentido que alguém pudesse redimir os pecados de outro alguém (e eu não acho que faz sentido algum), o que seria dos novos pecados? Ou será que Jesus teria de retornar a Terra, de tempos em tempos, para ser novamente crucificado e nos redimir? A ideia sempre me pareceu estranha, realmente estranha!

Mas me agradava a ideia de que poderíamos nos redimir de nosso pecados nos confessando. Na verdade a origem etimológica da palavra “pecado” vem de um conceito de “errar o alvo”. E, quem erra o alvo, pode sempre tentar de novo, contanto que não desista deste alvo. O problema não é bem errar, mas insistir no erro, e fingir que está tentando acertar apenas se confessando como quem conversa com um poste (ou um bode [2]), e recitando orações decoradas para “se redimir”.

Ora, sem a alma não dá, não há espiritualidade genuína sem que a alma esteja presente em cada desejo, em cada vontade, até que elas se tornem a boa ação. E a maior das boas ações é a reforma de si mesmo, a alquimia interna, a construção do Céu em nossa própria consciência: um pensamento de cada vez. Acertar um alvo, para então mirar o próximo, ad infinitum!

Em todo caso, na época eu não tinha esta maturidade toda, e optei por me afastar um pouco do grupo e ir caminhar pelos montes em volta da área do sítio, contando vacas e bois nos outros montes próximos, ouvindo o piar dos passarinhos e o som do vento a escorar pelos ombros e pelo gramado que insistia bravamente em crescer em cada palmo de terra... Até que veio o pôr do sol, e eu achei por bem retornar para o quarto onde iria dormir naquela noite.

Foi quando botei os pés no quarto de duas beliches, onde dormiria com três outros jovens (todos homens, é claro), que me deparei com a pergunta mais insólita de todo o retiro:

“Oi, aí está você fujão! Não pense que vai se safar da vigília hoje hein? Me diga aí, você prefere esperar Jesus das 3h até às 3:30h, ou das 4:30h às 5h?”


» Na continuação, Jesus pela madrugada, belas músicas, e orações intensas!

***

[1] Todos os nomes, afora o meu, são fictícios.

[2] Nas cerimônias hebraicas do Yom Kipur, dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente.
Na teologia cristã, a história do bode expiatório é interpretada como uma prefiguração simbólica do autossacrifício de Jesus, que chama a si os pecados da humanidade, tendo sido expulso da cidade por ordem dos sacerdotes.

***

Crédito da imagem: William Holman Hunt ("O Bode Expiatório")

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22.9.13

A surpreendente resposta de Papa Franciso a um ateu

Segue abaixo a transcrição da Carta Aberta de Papa Franciso ao Jornalista Eugenio Scalfari. A carta do Papa pretende ser uma resposta a duas cartas abertas que Scalfari escreveu a Francisco e publicou nos dias 7 de Julho e 7 de Agosto de 2013 no editorial do La Repubblica, jornal italiano do qual é fundador e colunista. Em ambas, Scalfari formula - como alguém que tem uma cultura iluminista e não procura a Deus - “perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco”. Pois “aqui e hoje não sou um jornalista - escreve Scalfari - sou um não crente que há anos está interessado e apaixonado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José [...]. Tenho uma cultura iluminista e não procuro a Deus. Acho que Deus seja uma invenção consoladora e ilusória da mente dos homens”.

A resposta de Francisco é surpreendente e praticamente inaugura um diálogo direto e profundo, até recentemente impensável, entre a Santa Sé e os ateus humanistas e moderados. A forma com que Francisco consegue acolher e responder as questões de Scalfari, sem pretender impor sua fé e muito menos condenar o ceticismo do jornalista, é certamente uma aula de embate de ideias, onde as pedras, longe de se chocarem e arrancarem lascas uma das outras, produzem faíscas luminosas e, quem sabe até, um fogo até então desconhecido...

Não irei comentar ao final do texto, como costumo fazer com textos de autores selecionados que trago a este blog, mas no entanto gostaria muito que lessem este trecho abaixo, de autoria do grande estudioso de mitologia do século passado, Joseph Campbell, que foi retirado do monumental O Poder do Mito. Após lerem o trecho, terão plenas condições de analisar o que diz o Papa Francisco de forma ainda mais profunda, até onde as palavras podem chegar:

Deus é um pensamento. Deus é uma idéia. Mas a sua referência é algo que transcende o pensamento. Ele existe além da existência... Além da categoria de ser ou não ser. Ele existe ou não? Nem existe, nem não existe. Qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros nesse sentido... Assim como uma metáfora do mistério humano e cósmico. Quem pensa que sabe, não sabe. Quem sabe que não sabe, este sim, sabe.

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

* * *

E finalmente, a carta de Francisco, na íntegra (retirada do vatican.va):

Vaticano, 4 de Setembro de 2013

Prezado Dr. Scalfari,

Com viva cordialidade queria, através desta, procurar, ainda que apenas em linhas gerais, responder à carta que houve por bem dirigir-me, nas páginas do jornal La Repubblica de 7 de Julho, com uma série de reflexões pessoais, que haveria de desenvolver nas páginas do mesmo jornal do dia 7 de Agosto.

Começo por lhe agradecer a solicitude que teve em ler a Encíclica Lumen fidei. De facto, esta – na intenção do meu amado Predecessor, Bento XVI, que a idealizou e em grande parte redigiu e de quem a herdei com imensa gratidão – tem em vista não só confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já que se reconhecem, mas também suscitar um diálogo sincero e rigoroso com quem, como o senhor, se define «um não-crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré».

Parece-me, pois, muito positivo, tanto para nós individualmente como para a sociedade em que vivemos, determo-nos a dialogar sobre uma realidade tão importante como é a fé, que faz apelo à pregação e à figura de Jesus.

Em particular, penso que há hoje duas circunstâncias que tornam obrigatório e precioso este diálogo. Aliás o mesmo constitui – como se sabe – um dos objectivos principais do Concílio Vaticano II, querido por João XXIII, e do ministério dos Papas, que desde então até aos nossos dias – cada um com a própria sensibilidade e contribuição – têm caminhado pelo sulco traçado pelo referido Concílio.

A primeira circunstância – como lembram as páginas iniciais da Encíclica – decorre do facto de, ao longo dos séculos da modernidade, se ter assistido a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência na vida do homem foram expressas, desde o início, precisamente através do símbolo da luz, tem sido muitas vezes rotulada como a obscuridade da superstição, que se opõe à luz da razão. E assim se chegou à incomunicabilidade entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado, e a cultura moderna de traça iluminista, por outro. Chegou o tempo – o próprio Vaticano II inaugurou a estação – de um diálogo aberto e sem preconceitos, que reabra as portas para um encontro sério e fecundo.

A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, decorre do facto de este diálogo não constituir um acessório secundário da existência do crente; antes, pelo contrário, é sua expressão íntima e indispensável. A este respeito, deixe-me citar-lhe uma declaração, na minha opinião muito importante, da Encíclica: dado que a verdade testemunhada pela fé é a do amor – como lá se sublinha – «resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos» (n. 34). Este é o espírito que me anima nas palavras que lhe escrevo.

A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus: um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha existência; mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que vivi e graças à qual encontrei o acesso ao entendimento da Sagrada Escritura, à vida nova que flui, como jorros de água, de Jesus através dos sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, verdadeira imagem do Senhor. Sem a Igreja – creia-me! –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora ciente de que este dom imenso da fé está guardado em frágeis vasos de barro que é a nossa humanidade.

Ora, é precisamente a partir desta experiência pessoal de fé vivida na Igreja que me sinto à vontade para perscrutar as suas perguntas e procurar, juntamente com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos talvez começar a fazer um pedaço de caminho juntos.

Desculpe, se não sigo passo a passo as argumentações que propôs no editorial de 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso – ou pelo menos está mais de acordo com o meu génio – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não entro sequer na modalidade de exposição que segue a Encíclica e na qual o senhor entrevê a falta duma secção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.

Para começar, limito-me a observar que uma tal análise não é secundária. Trata-se efectivamente – seguindo aliás a lógica que guia o desenrolar da Encíclica – de deter a atenção sobre o significado daquilo que Jesus disse e fez e assim, em última instância, sobre aquilo que Jesus foi e é para nós. De facto, as Cartas de Paulo e o Evangelho de João, especialmente referidos na Encíclica, estão construídos sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré, cuja resolução chega ao seu auge na páscoa de morte e ressurreição.

Por isso, é preciso confrontar-se com Jesus – diria – na dimensão concreta e tosca da sua história, tal como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelhos, o de Marcos. Aí se constata que o «escândalo», que as palavras e a actividade de Jesus provocam ao seu redor, deriva da sua extraordinária «autoridade» – termo este, atestado já desde o Evangelho de Marcos mas que não é fácil de traduzir em italiano. A palavra grega é exousia, que literalmente se refere àquilo que «provém do ser» que se é. Trata-se portanto, não de algo exterior ou forçado, mas de algo que brota de dentro e se impõe por si mesmo. Realmente Jesus impressiona, desinstala, reforma a partir – Ele mesmo o disse – da sua relação com Deus, que trata familiarmente por Abbá, o qual Lhe confere esta «autoridade» para que Ele a aplique a favor dos homens.

Assim, Jesus prega «como alguém que tem autoridade», cura, chama os discípulos para O seguirem, perdoa... Todas estas coisas, no Antigo Testamento, são prerrogativa de Deus, e só Deus. A pergunta, que mais vezes reaparece no Evangelho de Marcos – «Quem é este que... ?» – e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como finalidade exercer um poder sobre os outros mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isto até ao ponto de arriscar a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até cair no estado de abandono na cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus até ao fim.

E é precisamente então – como exclama o centurião romano ao pé da cruz, no Evangelho de Marcos – que, paradoxalmente, Jesus Se mostra como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu ser, que o homem, todo o homem, se descubra e viva, também ele, como seu verdadeiro filho. Para a fé cristã, isto é certificado pelo facto de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre aqueles que O rejeitaram, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até ao fim, para testemunhar este dom imenso.

A fé cristã acredita nisto: Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, ilustre Dr. Scalfari, tem razão quando vê, na encarnação do Filho de Deus, o perno da fé cristã. Já Tertuliano escrevia: «caro cardo salutis – a carne [de Cristo] é o perno da salvação». É que a encarnação, ou seja, o facto de o Filho de Deus ter tomado a nossa carne e compartilhado alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas da nossa existência até ao grito da cruz, vivendo tudo no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o amor incrível que Deus tem por cada homem, o valor inestimável que lhe reconhece. Por isso, cada um de nós é chamado a assumir o olhar e a opção de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, pensar e agir. Esta é a fé, com todas as suas expressões que são descritas concretamente na Encíclica.

* * *

Além disso, no mesmo editorial de 7 de Julho, o senhor pergunta-me como entender esta originalidade da fé cristã, assente precisamente na encarnação do Filho de Deus, face a outras crenças que por sua vez gravitam em torno da transcendência absoluta de Deus.

Eu diria que a sua originalidade está precisamente no facto de que a fé nos faz participar, em Jesus, na relação que Ele mesmo tem com Deus que é Abbá e, nesta luz, participar na relação que Ele tem com todos os outros homens, incluindo os inimigos, sob o signo do amor. Por outras palavras, a filiação de Jesus, como no-la apresenta a fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros, mas para nos dizer que, n’Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus visa a comunicação, não a exclusão.

Claro, daqui segue-se também – e não é pouco – a distinção entre a esfera religiosa e a esfera política, que está sancionada no «dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com nitidez por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. De facto, a Igreja é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, ou seja, o amor e a misericórdia de Deus que envolvem todos os homens, apontando para a meta escatológica e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a árdua tarefa de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isto não significa fuga do mundo nem vontade de qualquer hegemonia, mas serviço ao homem, ao homem todo e a todos os homens, a partir das periferias da história e mantendo desperto o sentido da esperança que impele a realizar o bem em todas as circunstâncias e com o olhar sempre fixo no além.

Na conclusão de seu primeiro artigo, o senhor pergunta-me ainda o que dizer aos irmãos judeus sobre a promessa que Deus lhes fez: terá ela caído completamente no vazio? Trata-se de uma questão – pode crer – que nos interpela radicalmente como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II redescobrimos que o povo judeu continua a ser, para nós, a raiz santa donde germinou Jesus. Na amizade que cultivei durante todos estes anos com os irmãos judeus, na Argentina, também eu muitas vezes questionei a Deus na oração, especialmente quando a mente se detinha na recordação da experiência terrível do Holocausto. O que lhe posso dizer – com palavras do apóstolo Paulo – é que nunca esmoreceu a fidelidade de Deus à aliança estabelecida com Israel e que, através das terríveis provações destes séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E nunca lhes agradeceremos suficientemente por isso, não só como Igreja, mas também como humanidade. Além disso, perseverando eles precisamente na sua fé no Deus da aliança, lembram a todos, inclusive a nós cristãos, o facto de que permanecemos, como peregrinos, à espera do regresso do Senhor e, por conseguinte, devemos manter-nos sempre abertos a Ele, sem nos fecharmos jamais no que já conseguimos.

E assim chego às três perguntas que me coloca no artigo de 7 de Agosto.

Parece-me que, nas duas primeiras, aquilo que lhe está a peito é entender a atitude da Igreja com quem não partilha a fé em Jesus. Antes de mais nada, pergunta-me se o Deus dos cristãos perdoa a quem não acredita nem procura acreditar. Admitido como dado fundamental que a misericórdia de Deus não tem limites quando alguém se Lhe dirige com coração sincero e contrito, para quem não crê em Deus a questão está em obedecer à própria consciência: acontece o pecado, mesmo para aqueles que não têm fé, quando se vai contra a consciência. De fato, ouvir e obedecer a esta significa decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal; e é sobre esta decisão que se joga a bondade ou a maldade das nossas acções.

Em segundo lugar, o senhor pergunta-me se é um erro ou um pecado pensar que não existe nada absoluto e, consequentemente, também não há uma verdade absoluta mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas. Para começar, eu não falaria – nem mesmo para aqueles que acreditam – de verdade «absoluta» dando ao termo absoluto o sentido daquilo que está desligado, que carece de qualquer relação, porque a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! E tanto é assim, que cada um de nós capta a verdade e exprime-a a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive, etc. Isto não quer dizer que a verdade seja variável e subjectiva. Longe disso! Significa, sim, que ela se nos dá sempre e só como um caminho e uma vida. Porventura não disse o próprio Jesus: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»? Por outras palavras, sendo a verdade, em última análise, uma só coisa com o amor, requer a humildade e a abertura para ser buscada, acolhida e expressa. Concluindo, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos e, para sair dos estrangulamentos duma contraposição... absoluta, talvez seja necessário reformular em profundidade a questão. Penso que isto seja hoje absolutamente necessário para se estabelecer aquele diálogo sereno e construtivo que eu almejava ao início deste meu texto.

Na última questão, pergunta-me se, com o desaparecimento do homem da terra, desaparecerá também o pensamento capaz de pensar Deus. É certo que a grandeza do homem está em ser capaz de pensar Deus, isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas, a relação é entre duas realidades. Deus – tal é o meu pensamento e a minha experiência, mas são muitos os que, ontem e hoje, os compartilham! - não é uma ideia, ainda que muito elevada, fruto do pensamento do homem; Deus é realidade com o «R» maiúsculo. Jesus no-Lo revela – e vive em relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Por isso, Deus não depende do nosso pensamento. Aliás, mesmo quando acabar a vida do homem sobre a terra – e, segundo a fé cristã, este mundo tal como o conhecemos está destinado em todo o caso a perecer –, não deixará de existir o homem; e com ele, de um modo que ignoramos, o próprio universo também não. A Escritura fala de «um novo céu e uma nova terra» e afirma que, no final – num onde e quando que nos ultrapassam mas para os quais, na fé, tendemos com desejo e expectativa – Deus será «tudo em todos».

E assim concluo, ilustre Dr. Scalfari, estas minhas reflexões, suscitadas por tudo o que me quis comunicar e perguntar. Receba-as como uma tentativa de resposta, provisória mas sincera e confiante, ao convite que vislumbrei para fazermos um pedaço de estrada juntos. A Igreja – creia-me! – apesar de todas as lentidões, infidelidades, erros e pecados que possa ter cometido e pode ainda cometer nos que a compõem, não tem outro sentido e finalidade que não seja viver e testemunhar Jesus: Ele, que foi enviado pelo Abbá para «anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista, mandar em liberdade os oprimidos, proclamar um ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4,18-19 ).

Com fraterna amizade,

Franciscus PP.

 

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Crédito da imagem: Google Image Search

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