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19.2.14

A educação de Casanova, parte 5

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 4


5.

Acordei numa viela estreita com o som das buzinas dos carros. Certamente não estava mais em Beyazit, e nem mesmo naquele continente, a julgar pelo inglês tipicamente americano, tipicamente apressado, que ecoava pela noitinha daquele lugar.

Que lugar? A dúvida prevaleceu somente até que eu deixasse a viela e contemplasse a Las Vegas Boulevard, com todos os seus neons, toda a sua alegria e toda a sua superficialidade. Pessoas vinham de todos os cantos do mundo se divertir e apostar em Las Vegas, mas o que era feito por lá, ficava lá... Eram como pequenas vidas breves que ocorriam no espaço de uma semana de turismo e de desejos desenfreados.

Mas o que diabos Asik tramava, o que queria me ensinar me enviando para tal lugar? Seria um teste? Será que ele acreditava que o velho Giacomo, o entediado, ainda estava no controle? Será que ele realmente achava que eu iria novamente me entregar aquela vida? Não vou negar que esta suposta desconfiança me deixava um tanto chateado – isso não era o costume de meu amigo.

Então ele se aproximou, sem que eu pudesse percebê-lo, e encostou levemente em meu ombro:

“Hola, Giacomo, bem vindo aos prados de neon!”

“Porque fez a Deusa me trazer até aqui? E porque aqui? E porque este chapéu de cowboy ridículo?”

“Ora, Giacomo, se me fosse conveniente apresentar-me como místico em todas as paragens, andaria sempre vestido com meu manto. Mas hoje em dia as pessoas não acreditam mais em místicos, então eu uso este chapéu, para que acreditem em mim, para que me chamem de ‘normal’ e me deixem em paz...”

“E qual é a lição que vim aprender aqui? Ou por acaso ainda não acredita que o velho Giacomo se foi?”

“Ora, meu velho amigo, lições aprendemos todos os dias, mas isto não significa que devemos abandonar quem fomos... Somos o que somos hoje exatamente por havermos sido o que fomos ontem. Não há nada por ser abandonado, nenhuma culpa intransponível, nenhuma fera por demais monstruosa. Todas as lições que aprendi até hoje, ao menos as que me serviram de alguma ajuda, foram lições de domesticação – domesticação das feras interiores!”

(era impressionante como o pensamento de Asik estava sempre pelo menos duas ou três voltas à frente do meu)

“Bem, neste caso fico feliz que não esteja duvidando de meu progresso na Grande Arte da Putaria. Mas, ainda me resta uma enorme dúvida acerca do que exatamente viemos fazer nesta Boulevard?”

Asik então apenas respondeu, “Ver os ursos dançantes, ora essa”, e em seguida chamou um taxi, no qual entramos e seguimos até uma distinta casa de festas a cerca de três ou quatro quilômetros da Boulevard.

Eu estava, é claro, um tanto curioso e cheio de questões acerca dos tais “ursos dançantes”, mas sabia que seria inútil tentar tirar mais alguma informação de meu amigo. Se havia uma coisa que ele prezava, era guardar mistério acerca dos eventos aos quais me conduzia...

Chegamos enfim num largo salão com um pequeno palco num canto, e cerca de quarenta ou cinquenta cadeiras e algumas mesas cheias de drinks e salgadinhos finos. Estava ainda vazio, e toda a informação que pude conseguir era a ilustração de uma cabeça de urso rechonchuda e circular, que mais parecia um personagem de desenhos animados infantis, e se encontrava acima do palco – seria uma festa para crianças?

“Não, não serão crianças que virão aqui a esta hora da noite, Giacomo” – disse Asik, prevendo meus pensamentos quando fiquei encarando a ilustração – “mas em todo caso devemos nos esconder ali naquele canto, pois que tampouco se trava de um evento para homens, ou mitos masculinos.”

E, enquanto nos escondíamos atrás de uma pilastra circular, o portão principal da casa de festas foi aberto (só então percebi que havíamos entrado sem convite) e dezenas de mulheres, algumas jovens, outras nem tanto, mas todas muito bem trajadas, adentraram o salão e se acomodaram, alegres, nas cadeiras.

Uma delas parecia ser a mais festejada de todas, atraindo todos os olhares para o seu vestido azul escuro com um decote que faria o velho Giacomo quase saltar do esconderijo em sua direção... Mas o que diabos era aquilo, afinal, uma festa de aniversário somente para mulheres? Tive de encerrar aquele mistério ali mesmo:

“Asik, meu amigo, o que diabos essas mulheres vieram fazer aqui? O que isso tem a ver com ursos?”

“Dançantes! Ursos dançantes, meu caro Giacomo... Viemos contemplar a maior festa dos casamentos de Las Vegas, a que ocorre ainda antes, a despedida de solteira!”


***

Esta foi a quinta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
Comece a ler do início | Veja a sexta parte


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