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28.9.15

Lançamento: A educação de Casanova

Neste conto em 10 capítulos, o autor nos convida a uma viagem por Istambul (Turquia), Las Vegas (EUA), Rio de Janeiro (Brasil) e, sobretudo, pelas profundezas da alma e da sexualidade humana. Uma história para amantes, amados, e para quem se dedica a amar mais e melhor a cada dia, um pensamento de cada vez...

Um e-book recomendado para maiores de 16 anos, que pode ser baixado ou lido gratuitamente nas seguintes lojas (em breve, também na Amazon):

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***

Eu considero este conto uma das melhores coisas que já escrevi, inclusive porque a inspiração para escrevê-lo surgiu aos poucos e de forma um tanto estranha. Primeiramente, me pareceu que se trataria de um conto erótico, e eu relutei por muito tempo em iniciá-lo... Quando finalmente comecei, percebi que seria uma aventura muito mais profunda do que havia imaginado de início.

Cada um dos três trechos em cidades diversas, que compõem juntos os 10 capítulos do conto, foi escrito em momentos diferentes, com intervalos de meses entre eles. No final, tudo acabou fazendo algum sentido, mas quando iniciei não fazia a menor ideia de para onde a história iria se encaminhar. Acredito que boa parte da "estranheza" do texto se refira também ao meu próprio sentimento de estranheza ante a sua temática e a inspiração que me impeliu a escrevê-lo.

É, enfim, um conto que superficialmente não tem muito a ver com a maior parte do que escrevo aqui no blog, mas se puderem mergulhar dentro dele, verão que acaba tendo tudo a ver... Boa leitura!

raph


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19.3.15

A educação de Casanova, parte final

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 9


10.

Quando se está a deriva em águas profundas, nunca se sabe até onde as correntes marinhas podem nos levar. Eu tentei nadar em direção a Janaína, mas subitamente percebi, enroscadas em meus tornozelos, as amarras que me atavam as profundezas. Neste momento tive medo, muito medo, mas criei coragem e olhei uma vez mais em direção à superfície, onde minha amada já desaparecia junto com os últimos reflexos da lua. Não sei bem como, mas mesmo lá no fundo, gritei com toda a vontade do meu pensamento:

“Meu amor, me ajude!”

E percebi, deslizando pelas águas fundas, um estranho brilho reluzente de alguma espécie de lâmina... Mas isto foi só por um breve momento, depois fui tragado pelas profundezas...

Lá no fundo, escuro como a noite eterna, vislumbrei e relembrei não somente quem havia sido, mas todos os homens que fui, desde antes das civilizações mais antigas de que a história já teve notícia.

Me vi como uma espécie de símio que ainda mal conseguia se colocar de pé. Meu plano de visão era totalmente terrestre, e eu ainda tinha de caçar os animais, ainda tinha de me alimentar de carne crua e cheia de sangue...Como podíamos viver sem contemplar as estrelas? Como sobrevivemos a tudo isso? Como, mesmo após tanto tempo, ainda aceitamos em nós alguns destes ecos animalescos do passado?

Ainda assim, em meio a tanto sangue e violência bestial, pude vislumbrar o despertar inesquecível do amor, da divina putaria... Pude ver como guardava a melhor parte da caçada para ofertar a uma fêmea ancestral. Pude ver como aquele jogo todo garantia que toda uma espécie pudesse não somente sobreviver num mundo selvagem, como lentamente, bem lentamente, aprender a caminhar de pé, e ver o céu, o sol, a lua, e todas, todas as estrelas da noite sem fim!

E subitamente, ao compreender como uma lótus tão bela podia nascer de um lamaçal tão denso, abri os olhos e percebi os parcos reflexos na lâmina cravada no fundo do mar. Aquela espada estranha era o presente de Janaína, mas a luz que conseguia adentrar tamanha profundidade era o presente do sol. Me senti seguro e reconfortado, mesmo indo tão fundo em mim – não há nada mais fundo do que Deus.

Criei forças para apanhar a lâmina, e com ela dilacerei todas as amarras que me prendiam ao passado. E, ao finalmente me livrar delas, tive uma clara revelação de tudo o quanto foi amor, e tudo o quanto foi bestialidade, não só na minha história, como em toda a história humana. Mas então já não sabia mais quem eu era, “Casanova” era agora tão somente um nome, uma casca que se desprendeu de algo muito maior, maior do que o mundo, maior do que qualquer coisa que alguém já pensou, imaginou ou calculou... A imagem daquilo que é lembrado para sempre, o eixo no qual gira tudo o que é, foi ou será...

Como um herói épico renascido, um mito renovado, nadei para a superfície do oceano, e me ancorei novamente no Campo do Leblon. Aquela praia continuava sendo a mesma, como qualquer outra praia do mundo, mas agora eu já não era o mesmo, agora eu enxergava as coisas como são.

Vinha nascendo a manhã, e Janaína havia desparecido por completo. Pouco importa, eu tinha todo o tempo do mundo para reencontrá-la... Finquei sua espada na areia (talvez alguém mais venha a precisar dela) e me sentei para observar o movimento do Cosmos:

Na beirinha, algumas crianças brincavam de construir castelos de areia e colecionar conchas. Os pescadores já vinham com suas redes e suas jangadas, apressados, mas a gurizada criava seus próprios barquinhos com as folhas secas que trouxeram das florestas.

Os pescadores arremessavam suas redes e conseguiam alguns peixes. Os barquinhos eram esfacelados pelas ondas, assim como os castelos... Mas as crianças não se importavam, elas já tinham inventado outras brincadeiras há essa altura.

Quanto milagre para um dia!

De fato, à partir daquele dia, não se passou um só momento em que não me sentisse profundamente excitado pelo simples fato de o vento passar, e as relvas farfalharem, e eu poder escutar a brisa, e sentir toda essa dança de vida que a grama faz.

Assim, nesta tranquilidade que se basta em si mesma, lembrei do que Dunia havia me segredado aos ouvidos, e que lhes disse que não poderia falar... Bem, agora eu posso, agora esta história está no fim, e não sou mais responsável por ela. Eis o segredo:

“Ninguém é capaz de gozar de olhos abertos.”

 

FIM

 

***

Esta foi a décima e última parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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26.2.15

A educação de Casanova, parte 9

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 8


9.

O crepúsculo tomava rapidamente o céu do Campo do Leblon, mas meus olhos estavam perdidos, enfeitiçados pela pele sideral de Janaína. Seu corpo era tão negro quanto a noite, tão escultural quanto a arte renascentista de meu tempo, e tão excitante quanto o florescimento da primavera. As gotas salgadas que escorriam por entre seus volumosos seios nus, no entanto, disputavam minha atenção com a estranha máscara que cobria seu rosto: uma espécie de rede de onde pendiam inúmeras joias iluminadas, ou talvez fossem estrelas...

O mar estava calmo e soturno, de modo que ela nem precisou sair inteiramente dele. Como uma sereia, manteve somente metade do corpo na superfície, e acenou para mim. Em uma de suas mãos, havia um pequeno espelho, que ela parecia querer me entregar.

Retirei meus sapatos e larguei na areia, dobrei ainda mais a bainha da minha calça, e me encaminhei lentamente, pé ante pé, para aquele mar morno, que guardava lembranças do sol recém-saído de cena. A essa altura a beleza de Janaína era quase insuportável aos olhos. Eu gostaria de poder fazer um elogio digno dela, mas aparentemente ela não entendia a minha língua – quem sabe não entendesse língua alguma, quem sabe a própria linguagem lhe fosse inteiramente inútil.

Finalmente estava ao seu lado, sentindo a sua fragrância marinha, um cheiro qualquer de vida abundante, de fecundidade infinita... Meu coração batia aos solavancos; eu tinha minha cota de amores mortais, mas jamais havia me apaixonado assim por algo divino.

Mesmo por entre a rede estelar que cobria sua face, eu podia sentir que ela sorria. Mas o seu sorriso era ao mesmo tempo algo doce e assustador. Não parecia significar somente uma simpatia pela vida, mas antes um desejo de que a vida caminhasse a frente, sempre a frente... Janaína me estendeu seu espelho, e eu compreendi que ela me convidava para uma grande aventura, talvez a maior delas – uma jornada da qual ninguém poderia retornar igual a como partiu, ocorreria necessariamente uma espécie de “modificação”...

As palavras do velho pescador ressoavam na minha mente, “Para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

Mas retomei minha coragem ao lembrar de que não estava naquela praia à toa, aquilo tudo também fazia parte da reeducação conduzida por meu amigo Asik, ou quem sabe fosse uma ideia exclusiva de sua amada Dunia, mas não importava, em todo caso eu estava no caminho certo, o caminho para a alma...

Tomei o espelho de suas mãos e olhei para o meu próprio reflexo nele. A princípio não pude ver muita coisa, pois o vidro estava muito enferrujado, mas logo Janaína tomou um pouco da água do mar em suas mãos e jogou sobre ele, e pude ver claramente a mim mesmo, naquela bela noite quente, ao mesmo tempo cheio de curiosidade e de angústia... A curiosidade falou mais alto, a curiosidade sempre fala mais alto...

Mergulhei em meus próprios olhos, e era como se houvesse mergulhado no próprio mar, no próprio oceano que separava o Campo do Leblon da terra natal de Janaína – tão distante, e tão próxima!

Lá no fundo submarino, a primeira coisa que vi foi a mim mesmo nos bordéis italianos, há muito tempo, exercendo com maestria minha arte de sedução. Então eu pude rever toda a minha glória sexual, e subitamente pude compreender que aquilo tudo havia sido tão somente um primeiro passo na via do amor. Era verdade que Casanova havia desejado e amado, a sua maneira, cada uma das mulheres que penetrou, mas também me era claro e cristalino, naquele momento no fundo do mar, como minhas penetrações haviam sido superficiais, como havia me dado por satisfeito em me manter somente nas margens da alma, sem jamais mergulhar no fundo do coração de mulher alguma, tampouco no subterrâneo de mim mesmo...

Mas eu não sabia, eu não tinha como saber... Ó Asik, ó Dunia, ó Janaína, me desculpem, eu não tinha como saber! Se soubesse, por um momento, o quão vasto era este oceano dentro de meus olhos, teria contemplado tal espelho há muitos séculos atrás. Enfim, vivemos decerto um dia de cada vez.

Olhei para a superfície das águas, e vi a beleza de minha amada em todo o seu esplendor. Mesmo do alto do céu, a própria lua conseguia trazer o reflexo do sol a escuridão submarina. Então eu pude me reconfortar inteiramente: não havia nada a temer, nem nada a duvidar, não havia por onde pudesse realmente mergulhar para fora dos deuses...


***

Esta foi a nona parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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17.2.15

A educação de Casanova, parte 8

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 7


8.

Seguindo o conselho de Duniazade, me aproveitei de uma migração de pássaros peregrinos para atravessar, pelos céus, todo o longo caminho que um dia os primeiros desbravadores desta grande Atlântida tiveram de percorrer, por entre planícies, terras secas e rios caudalosos, imensas cordilheiras e verdejantes florestas, até chegar a uma distinta cidade cravejada entre belas praias e montanhas onduladas, guardada por um deus convidativo, sempre de braços abertos.

De fato, cheguei bem a tempo da grande festa, encenada e reencenada desde tempos imemoriais... Quem diria que os nossos bailes de máscaras tão contidos, tão hipócritas, um dia se tornariam este tilintar incessante de vida por dentre vielas e avenidas. Quem diria que ainda haveria deuses antigos dispostos a carregar seus carros navais em procissão, e deuses dos quais nunca tínhamos ouvido falar na própria Europa!

Finalmente libreto do meu grande tédio, e reeducado na Grande Arte do Amor por meu amigo Asik, eu tinha novamente olhos de enxergar, e assim enxergava com toda a clareza que não foram meus irmãos exploradores os responsáveis por tamanha algazarra – nem navegantes portugueses, nem espanhóis, franceses ou holandeses. Quem trouxe todo aquele ritmo, todos aqueles toques de tambor, todos aqueles sorrisos, foram exatamente os acorrentados à força, os que foram expulsos de suas terras, de suas famílias e seus deuses, os que foram humilhados e explorados, e depois liberados à sua própria sorte... Apesar de tanto sofrimento, foram eles quem riram no final, foi a sua alma e a sua cultura que prevaleceu!

Talvez isso explicasse porque aquele deus estava finalmente de braços abertos, livre de sua horrenda cruz: talvez os seres dessa terra tenham sido influenciados pelos deuses do outro lado do oceano, e compreendido enfim que não havia nem nunca houve um “pecado original” a ser pago, e que a cada um cabe cuidar de sua própria alma... Talvez isso explicasse porque, nos dias ligeiros desta grande festa, todos os deuses e todos os homens e mulheres, e todos os santos e crianças, dançavam e pulavam juntos no ritmo do coração do mundo...

Por debaixo de belos aquedutos e ao lado de frondosas linhas de palmeiras-reais, eu pude ver muitos deles mascarados, mas suas máscaras em nada lembravam as de meus tempos de jovem sedutor em Veneza. Lá, elas serviam tão somente para adornar ainda mais aos egos, enquanto que aqui nesta terra tropical elas serviam realmente para substituir ao ego inteiramente, como faziam os romanos e os gregos antigos. Por alguns dias, em meio a um calor escaldante, todos os mascarados e mascaradas que desciam às ruas eram como parte de uma mesma família... Por alguns dias, os seres todos desta bela cidade encenavam um verdadeiro céu na terra...

Que bom poder haver chegado exatamente nesta época. Era tudo novo, belo e quente, mas algo me dizia que não era somente para festejar a vida que Dunia havia me indicado esta direção migratória. Afinal, a mitologia desta história trata de deuses, mas sobretudo de homens e mulheres, e todo o amor possível entre os seres. E, de fato, foi quando finalmente cheguei próximo a praia, voltada para aquele grandioso oceano por onde passaram tantos escravos carregando seus deuses no fundo da alma, que a vi de relance, mergulhando próximo ao horizonte, quase junto ao sol que já ia se pondo. Ao meu lado, havia um velho pescador negro que já ia recolhendo a sua rede. Foi a primeira pessoa com quem falei no Campo do Leblon:

“Quem é ela?”

“Ora seu moço, e você a viu?”

“Vi. Como não ver uma pérola negra em meio a esse mar esverdeado?”

“Você não é um turista qualquer não né moço? Sabe que vou lhe falar: para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

“Não sei se eu sou ou não um turista qualquer... Não tenho dinheiro, mas não preciso mais dele. Há muito tempo que sou um turista da alma, e trafego por entre o coração dos homens, mas principalmente das mulheres...”

“Então seu moço, você é mais ou menos como ela. Eu nunca me meti a tratar com ela por medo de ser enfeitiçado e carregado para o fundo do mar. Mas você não parece ser do tipo que tem medo algum do fundo do mar... Talvez ela lhe dê alguma bola afinal.”

“Obrigado pelo conselho meu amigo. Eu acho que estou já apaixonado. Meu Deus, já faz tanto tempo que nem me lembrava como era... Mas, me diga, pois quero ter alguma chance de ser ao menos um amigo, por qual nome ela é conhecida nessas praias de cá?”

“Desde que me conheço por gente, ela sempre foi assim, negra e bela, e nós sempre a chamamos Janaína...”


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Esta foi a oitava parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
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1.7.14

A educação de Casanova, parte 7

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 6


7.

Ainda ficamos por lá algumas horas, até que todas estivessem saciadas e dessem a noite por encerrada – para o alívio dos ursos dançarinos, que já mal conseguiam se manter rígidos... E todas foram embora, menos uma, envolta num vestido vermelho, azul e roxo, esvoaçante, que parecia ser formado por mil e um véus.

Então, ela se levantou e caminhou em nossa direção. Ela sabia de nossa presença todo o tempo! Eu deveria parecer surpreso, mas alguma coisa nela me era estranhamente familiar... Não sei se era o perfume do oeste, ou o seu olhar árabe, que parecia conter inúmeros oásis e seus desertos, mas algo em minha alma me confidenciou que se tratava da distinta amante de meu amigo.

“Sua mulher?” – eu perguntei a Asik.

“Eu a amo, mas ela não é minha.”

Sim, com isso meu amigo quis dizer que não havia o conceito de propriedade no amor que eles partilhavam. Eu já havia tido lições demais, e pelo menos isto eu aprendi, pelo menos isto!

Mesmo assim, havia ainda tantas dúvidas, tantas curiosidades acerca dela e da relação dos dois. Mas, ante tamanha beleza bronzeada pelo sol do oriente, eu não tive outra reação que não emudecer, e esperar que ela se apresentasse.

“Meu nome é Duniazade, mas pode me chamar de Dunia” – disse, estendendo a mão para que a beijasse, e nela havia dúzias de pequenas mandalas tatuadas, que mais pareciam algum código para antigos rituais de amor...

“Quando lhe vi, me pareceu familiar... Você já esteve em Veneza?”

“Nunca, mas me convide e um dia irei. O que lhe pareceu familiar não fui eu, Giacomo, mas o reflexo de Asik em mim.”

“Como assim?”

“Nós nos amamos profundamente, de modo que já não há, entre nossos corações, uma distância tão grande. Assim, de certa forma, é como se entre eu e ele, não houvesse nem um “eu”, nem um “ele”.”

“Me perdoe, mas como pode ser isso? Você estava aqui hoje e noutra noite eu e Asik estávamos em Beyazit, num caba...” – eu interrompi subitamente o que iria dizer, embora na verdade não houvesse razão para tal, foi tão somente um velho hábito compartilhado pelos homens, que ainda não havia ido embora...

“Num cabaré, Giacomo. E ela soube de tudo o que ocorreu por lá, pois temos muita curiosidade sobre as experiências um do outro, e sobre as amizades que cultivamos. Tudo o que tange os caminhos dos corações humanos nos interessa, cada pequeno olhar amoroso não nos passa desapercebido. O que alimenta nossas almas é este desejo de um pelo outro, e de todos por todos, é a esperança de um novo amanhã, de que o parto de um novo mundo finalmente se concretize...” – completou Asik.

Mas vocês não sentem desejos? Não traem?

“Meu amigo,” – prosseguiu – “sentimos muitos desejos, e cada vez mais intensos. Mas muitos dos desejos de outrora, superficiais, bestiais, já foram domesticados. Nós jamais trairíamos um ao outro por conta de uma noite de sexo, se é a sua dúvida. Mesmo esse termo que usam, “traição”, denota alguma espécie de “promessa” ou “contrato nupcial”, e já lhe esclareci que não acreditamos neste tipo de coisa. Em todos esses séculos, já tivemos experiências com outros seres, isto é bem verdade, mas perto de nosso amor, elas são como pequenos córregos fluindo para o oceano. No fim, tudo deságua na Alma do mundo, e nós somos parte desta corredeira, nós afluímos junto como o amor de todos, mas é em nossa união, em nosso entrelaçamento, que vislumbramos ao grande plano da Vida, e não trocaríamos tal experiência por nada nesse mundo!”

“E como é esse plano, o que os deuses lhes dizem quando estão conectados neste amor?”

Foi neste momento que Dunia se aproximou e sussurrou parte da resposta em meus ouvidos. E foram poucas palavras, mas que não podem ser transmitidas, já que palavras são tão somente cascas de sentimentos, e palavras de amor são como fagulhas da eternidade, que brilham intensas como explosões solares, mas que só podem ser compreendidas por quem sente parte desse calor.

Meus amigos, afinal, viveram por muitas eras, e já haviam caminhado por muitos desertos e muitas ruínas de civilizações, assim como por muitas novas plantações, e promessas de eras vindouras. Continuar ao seu lado seria como ser carregado no colo por algum anjo, e já era tempo de eu recomeçar a caminhar com minhas próprias pernas.

E, se eles já estavam tão adiantados no caminho, em nenhum momento os invejei, pois sabia que haviam passado pelos mesmos espinhais e deixado seu rastro de sangue em muitos espinhos. Asik havia me reeducado na Grande Arte da Putaria – ou Grande Arte do Amor, pois nomes são apenas nomes –, e agora era a minha vez de me aventurar novamente, de peito aberto, neste grande campo onde a Vida encena e reencena sua dança ancestral.

“Adeus, meus amigos, e até breve... Mas, vocês têm alguma sugestão para onde poderei ir a seguir?”

“Rume para o sul, Giacomo, para além do Amazonas. Soube que há uma grande festa por lá” – respondeu Dunia.


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Esta foi a sétima parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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24.6.14

A educação de Casanova, parte 6

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 5


6.

Após alguns minutos dois dos “ursos dançantes” adentraram o palco, com suas máscaras enormes e redondas, que mais lembravam a cara sorridente de um ursinho de desenho animado. Além delas, não usavam muito mais roupa, e mesmo estes trajes colantes pareciam destinados a ser despidos na sequência – o que de fato não demorou muito...

Com seus falos semi-enrijecidos e já totalmente nus (exceto pelas cabeças de urso), eles abandonaram o palco e passaram a desfilar por entre as mesas e cadeiras cheias de fêmeas absolutamente descontroladas. Era ensurdecedor, de muitas maneiras diferentes!

Eu não sei dizer ao certo o que exatamente aquela visão, aquela experiência de estar ali observando tudo aquilo, causou em mim... Certamente não eram os falos, que iam se enrijecendo com muitas apalpadas e chupões regados a muito chantilly, o que me excitava – eu sempre preferi as cavernas e pequenas fendas úmidas do que os grandes picos, então realmente não era isto –, mas então, o que era?

Contemplar todos aqueles olhares femininos, focados diretamente nos paus duros dos “ursos dançantes”, alguns totalmente confiantes, outros totalmente tímidos, de canto de olho, e tantos outros no meio termo entre os dois, chamou minha atenção para uma faceta feminina que eu certamente nunca havia observado. Seria para isso que Asik havia se dado ao trabalho de me trazer até aquela “festa”?

“Então, isto sim é algo de novo. Novo e excitante, não?” – cochichou meu amigo.

Mas eu ainda não conseguia responder. De fato, era óbvio que algo me incomodava naquela dança de ursos, mas eu não conseguia pôr em palavras; no que Asik me auxiliou:

“Sim, são seres sexuais frequentando Casas de Putaria, de forma muito parecida com a que temos visto nos últimos séculos, só que com uma diferença, ou melhor, uma inversão: as “putas” são os rapazes mascarados de pênis grandes; e os “endinheirados”, os “nobres abastados”, os “governantes”, são elas, são elas, Giacomo! Quanto tempo nós não esperamos por isto, meu caro?”

“Esperar por isto? Isto? Pois não lhe parece que elas estão a agir exatamente como nós temos agido? Não estão acometidas dos nossos desvios, nossos enganos, nossa ignorância e bestialidade? Foi para isso que serviu a dita revolução sexual, para que elas acabassem como nós, como homens?”

Foi neste momento que ele gargalhou. E quando Asik gargalhava assim, dava para saber que alguma lição estava para ser aprendida, pois ele nunca gargalhava propriamente da ignorância alheia, mas de uma sabedoria que estava prestes a se ver livre dos preconceitos que a desbotavam...

“Giacomo, meu caro, e você preferia o que, santinhas? Você acha mesmo que, após conquistarem os direitos que conquistaram no último século, elas não poderiam se divertir como nós? Não poderiam se desvirtuar como nós? Não poderiam chupar o seu tanto de picas como nós temos chupado o nosso tanto de bucetas?

(e quanto mais o fogo se aproximava dele, mais sua voz se elevava, e mais palavrões grosseiros saiam de sua boca divina)

Pois me diga, amigo, se o que pensa sobre o que vemos aqui não é ainda um resquício da sombra que se acometeu sobre você nos últimos anos? Não era isso que sempre desejou ver desde os seus tempos em Veneza? Mulheres livres, livres sim! Livres de verdade, para fazerem o que bem entenderem de seus corpos e suas almas e sua vida, inclusive lamber cacetes cheios de chantilly até não poderem mais! E não há aqui mais nenhum deus raivoso para as julgar, Giacomo, o velho barbudo não foi convidado!

Pois o que diabos elas podem fazer aqui neste salão que os bonobos já não tenham feito nas matas, e nós homens em cada canto habitado do planeta? Há alguma maldade intrínseca aqui, meu amigo, ou não seria o seu próprio olho que está gasto com as pregações de outrora?

Esfregue-os, Giacomo. Limpe-os. Abra sua alma. Rompa tais pensamentos. Deixe que o seu chumbo os leve para o fundo do mar, e nade para além da superfície, até esta praia dourada... E, então, olha para esta festa, olha para esta Grande Putaria, e me diga o que vê.

Me diga se algum urso dançarino compareceu aqui por falta de opções em sua vida, ou porque foi oprimido por um grupo dominante, ou porque foi traficado como escravo, ou porque foi coibido pela violência. Não! Não, Giacomo, elas estão aqui se divertindo com eles, elas estão aqui os chupando e apalpando, mas elas não lhes forçaram, e não foram violentas...

Aqui o Amor floresce, ainda bestial, mas liberto. Só há Amor quando a violência foi posta de lado, foi esquecida!”

E então, observando todas aquelas fêmeas maravilhosas e libertas, que não eram santas e certamente não precisavam ser, eu concebi brevemente em minha alma a dimensão do que ocorria – o início de um incêndio, um incêndio de pura liberdade.

Fazia séculos que eu não me sentia tão excitado com a vida, e com as mulheres. Era tempo de Casanova voltar as suas aventuras de conquista!


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Esta foi a sexta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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19.2.14

A educação de Casanova, parte 5

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 4


5.

Acordei numa viela estreita com o som das buzinas dos carros. Certamente não estava mais em Beyazit, e nem mesmo naquele continente, a julgar pelo inglês tipicamente americano, tipicamente apressado, que ecoava pela noitinha daquele lugar.

Que lugar? A dúvida prevaleceu somente até que eu deixasse a viela e contemplasse a Las Vegas Boulevard, com todos os seus neons, toda a sua alegria e toda a sua superficialidade. Pessoas vinham de todos os cantos do mundo se divertir e apostar em Las Vegas, mas o que era feito por lá, ficava lá... Eram como pequenas vidas breves que ocorriam no espaço de uma semana de turismo e de desejos desenfreados.

Mas o que diabos Asik tramava, o que queria me ensinar me enviando para tal lugar? Seria um teste? Será que ele acreditava que o velho Giacomo, o entediado, ainda estava no controle? Será que ele realmente achava que eu iria novamente me entregar aquela vida? Não vou negar que esta suposta desconfiança me deixava um tanto chateado – isso não era o costume de meu amigo.

Então ele se aproximou, sem que eu pudesse percebê-lo, e encostou levemente em meu ombro:

“Hola, Giacomo, bem vindo aos prados de neon!”

“Porque fez a Deusa me trazer até aqui? E porque aqui? E porque este chapéu de cowboy ridículo?”

“Ora, Giacomo, se me fosse conveniente apresentar-me como místico em todas as paragens, andaria sempre vestido com meu manto. Mas hoje em dia as pessoas não acreditam mais em místicos, então eu uso este chapéu, para que acreditem em mim, para que me chamem de ‘normal’ e me deixem em paz...”

“E qual é a lição que vim aprender aqui? Ou por acaso ainda não acredita que o velho Giacomo se foi?”

“Ora, meu velho amigo, lições aprendemos todos os dias, mas isto não significa que devemos abandonar quem fomos... Somos o que somos hoje exatamente por havermos sido o que fomos ontem. Não há nada por ser abandonado, nenhuma culpa intransponível, nenhuma fera por demais monstruosa. Todas as lições que aprendi até hoje, ao menos as que me serviram de alguma ajuda, foram lições de domesticação – domesticação das feras interiores!”

(era impressionante como o pensamento de Asik estava sempre pelo menos duas ou três voltas à frente do meu)

“Bem, neste caso fico feliz que não esteja duvidando de meu progresso na Grande Arte da Putaria. Mas, ainda me resta uma enorme dúvida acerca do que exatamente viemos fazer nesta Boulevard?”

Asik então apenas respondeu, “Ver os ursos dançantes, ora essa”, e em seguida chamou um taxi, no qual entramos e seguimos até uma distinta casa de festas a cerca de três ou quatro quilômetros da Boulevard.

Eu estava, é claro, um tanto curioso e cheio de questões acerca dos tais “ursos dançantes”, mas sabia que seria inútil tentar tirar mais alguma informação de meu amigo. Se havia uma coisa que ele prezava, era guardar mistério acerca dos eventos aos quais me conduzia...

Chegamos enfim num largo salão com um pequeno palco num canto, e cerca de quarenta ou cinquenta cadeiras e algumas mesas cheias de drinks e salgadinhos finos. Estava ainda vazio, e toda a informação que pude conseguir era a ilustração de uma cabeça de urso rechonchuda e circular, que mais parecia um personagem de desenhos animados infantis, e se encontrava acima do palco – seria uma festa para crianças?

“Não, não serão crianças que virão aqui a esta hora da noite, Giacomo” – disse Asik, prevendo meus pensamentos quando fiquei encarando a ilustração – “mas em todo caso devemos nos esconder ali naquele canto, pois que tampouco se trava de um evento para homens, ou mitos masculinos.”

E, enquanto nos escondíamos atrás de uma pilastra circular, o portão principal da casa de festas foi aberto (só então percebi que havíamos entrado sem convite) e dezenas de mulheres, algumas jovens, outras nem tanto, mas todas muito bem trajadas, adentraram o salão e se acomodaram, alegres, nas cadeiras.

Uma delas parecia ser a mais festejada de todas, atraindo todos os olhares para o seu vestido azul escuro com um decote que faria o velho Giacomo quase saltar do esconderijo em sua direção... Mas o que diabos era aquilo, afinal, uma festa de aniversário somente para mulheres? Tive de encerrar aquele mistério ali mesmo:

“Asik, meu amigo, o que diabos essas mulheres vieram fazer aqui? O que isso tem a ver com ursos?”

“Dançantes! Ursos dançantes, meu caro Giacomo... Viemos contemplar a maior festa dos casamentos de Las Vegas, a que ocorre ainda antes, a despedida de solteira!”


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Esta foi a quinta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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16.9.13

A educação de Casanova, parte 4

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 3


4.

Quando me recobrei de minhas reflexões ardentes, Asik já havia saído e a casa noturna já estava por fechar. Quase não reparava mais no cheiro de tristeza embriagada que pairava pelo ar viciado, nem me deixava carregar pelos olhares entediados dos demais... Meu amigo, meu grande amigo, havia me embriagado novamente com seu doce licor de vida, de pura e ardente vida!

Havia me deixado este bilhete, escrito num turco como era ainda usado séculos atrás:

“Bem vindo de volta a aventura, Giacomo. Aproveite a noite em Beyazit e, se for do seu agrado, rume para a Praça da Liberdade”.

Fiz o que a mensagem havia sugerido, porém sem nenhuma pressa ou angústia, pois já não me sentia apressado nem tinha nenhum senso de urgência para coisa alguma. Interessante como, quando estamos entediados e nada na vida nos interessa, ainda assim temos pressa de fazer alguma coisa, sabe-se lá o que! E, quando o tédio passa, quando enfim podemos realizar algo, sermos produtivos, mudar o mundo, que seja, subitamente não há mais nenhuma razão para se apressar...

Assim, como um indígena a apreciar as brisas que chegam dos vales e florestas, segui pelas vielas daquele bairro nem tão nobre nem tão vil, com as casas e prédios mais belos que via em décadas – simplesmente porque meus olhos estavam novamente atentos.

Vi grupos de amigos fumando narguilé na calçada oposta. Suas risadas, olhares e piadas soavam mais adocicados que o aroma dos fumos. Olhei-os como quem observa crianças a brincar pelo parque, tão livres e inocentes quanto sua consciência os permitia, e sorri, e meu sorriso era também um agradecimento por também haver feito tantos amigos ao longo dos séculos. Nenhum mito sobreviveria por tanto tempo sem amigos...

Caía uma garoa fina, finíssima, ou talvez fosse somente o efeito refrescante de se estar novamente são, ainda que embriagado e solitário numa viela mal iluminada de um bairro nem assim tão seguro de Istambul. Haveria de ser assaltado? Ofereceria meu coração, nesta noite ele é uma pedra preciosa a espera de ser levada!

Do lado oposto vinha um casal aos beijos. Subitamente o rapaz parou e atentou para minha pessoa. Veja esta: eu com medo de assalto e os outros com medo de serem assaltados por mim. Vamos parar com todo este medo, não vale a pena viver com medo, e se a morte quiser vir, que venha... Será breve e depois, bem ou mal, não teremos mais medo afinal de contas. Mesmo no Inferno eu só teria medo do que minha consciência poderia fazer de mim, só teria medo de me entediar novamente, e viver cego uma vez mais, na vida ou na morte. Não! Quero que esta embriaguez seja duradoura, quero chegar a Praça da Liberdade e prosseguir nesta aventura...

Passei pelo casal e acenei com um sorriso e um leve movimento de mão direita. O jovem casal era belíssimo, e a noite também, e não se importaram de sorrir de volta para mim, para logo após voltarem aos beijos apaixonados... Há tempos eu poderia marcar o rosto de menina tão bela, para tentar conquista-la noutro dia, como um troféu. Hoje, nesta noite aquecida pelo fogo de Asik, isto era totalmente desnecessário – bastava amar a vida para me imaginar como aquele belo rapaz a dar uns bons amassos na bela rapariga, como dizia o poeta de Lisboa. Nesta noite não era necessário nada mais do que a imaginação, e eu me sentia como um semideus.

A garoa passou e o suave lençol acinzentado da noite turca se moveu para outras paragens. No alto, por entre os pequenos prédios de Beyazit, a lua minguante mostrava-se, imponente, junto a estrela da manhã. A configuração rara lembrava a bandeira de inúmeras nações da região, inclusive aquela em que eu me encontrava naquele momento. Eu poderia me perguntar se isso significava alguma coisa, mas não o fiz: o céu noturno falava por si só, e a sua canção era divinamente silenciosa.

Mais alguns passos, algumas poucas quadras, e chegava na Praça. Ali, onde tantos jovens turcos se dirigiam para a Universidade, encontrei-a pouco antes do nascer do sol: seus véus brancos esvoaçantes foram carregados pelo vento, seu corpo estava frondosamente nu, rechonchudo com inimagináveis curvas, nádegas imensas, seios enormes e convidativos.

Corri, corri e me atirei neles, como um recém-nascido anseia amamentar. Bebi de seu leite aos borbotões, e ele tinha gosto de poeira de estrelas, do nascer de rosas e do escoar dos rios, de ciclos ininterruptos de estações e da formação e extermínio dos planetas. Bebi, e me embriaguei ainda mais. Eu, um mero aprendiz da arte de Asik, porém alimentado pela Mãe, adormeci como um bebê e sonhei que cavalgava o Cosmos inteiro no dorso de uma estrela cadente.


***

Esta foi a quarta parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
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11.7.13

A educação de Casanova, parte 3

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 2


3.

Era uma noite nem tão fria nem tão quente, em meio ao cheiro de destilados e perfumes nem tão caros nem tão baratos, sob uma iluminação levemente obscura, levemente rubra, e eu conseguia ouvir claramente a tudo o que Asik me dizia, ainda em meio ao som ambiente de conversas irrelevantes e músicas de décadas atrás. Asik falava diretamente da Alma, por isso jamais passaria desapercebido para aqueles que, como eu, já haviam estado lá:

“'O que Deus uniu, o homem não separe'... Dizem isto em seus altares dourados, mas no entanto vivem separados e desconectados uns dos outros, e mantém seus juramentos mais como uma forma de contrato nupcial; um contrato de aparências sociais! Giacomo, me perdoe, mas eu nunca acreditei em nada disso”.

“No entanto continua casado todos esses anos”.

“Mas de onde tirou essa ideia? Eu nunca fiz nenhum juramento a Deus, ele nunca exigiu isso de mim. Nunca houve cerimônia alguma dentro de qualquer igreja, somente fora; e uma longa e bela cerimônia que vem sendo encenada por nós dois a cada momento de nossas vidas. Giacomo, eu me casei com o Agora, eu me casei com o Amor de um pelo outro, reencenado eternamente a cada momento. Eu não sou e nem acredito em 'ser casado', mas eu acredito em estar amando, eu acredito em viver no Amor, eu acredito no vir a ser eterno”.

“Como pode ser isto Asik, se ela não está aqui neste momento? O que ela diria de estarmos os dois numa casa como esta, num prostíbulo obscuro em meio a Beyazit?”.

“Não sei o que ela diria, pois não tenho como entrar dentro dela para pensar como ela. Tenho apenas como ser Um com ela, e sentir o mesmo que ela sente, e o mesmo que toda a Natureza sente por todos nós; mas não tenho como pensar como ela, nem como modificar ou controlar ou censurar o que ela pensa, pois que ela é, como eu, como nós, uma livre pensadora.

E que importa eu haver marcado esta nossa conversa no restaurante mais nobre do bairro mais nobre de toda Istambul? O fato de não haver dançarinas seminuas em cima das mesas não significa que eu não possa estar pensando nelas. E eis uma coisa impossível de se saber, Giacomo: o que diabos outra pessoa está imaginando neste ou em qualquer outro momento; ou seja, o que está vendo com a mente, além do que haveria de ver somente com os olhos”.

“Belo, belíssimo como sempre meu amigo. Não sei onde aprendeu a encantar suas palavras com tamanha luz, mas elas talvez sejam belas na teoria, e nem tanto na prática. Afinal, há de convir que é bem mais provável que pense em certas coisas eróticas e indecentes quando belas formas femininas rebolam para cá e para lá há não mais do que alguns metros dos seus olhos sempre atentos”.

“Pois então vou lhe contar meu segredo, Giacomo. O ‘encantamento’ de minhas palavras e de meus pensamentos veio exatamente da indecência, do erotismo, da Grande Putaria! Eu pratico a Arte da Putaria, meu amigo, mas com erotismo, nunca com vulgaridade; com indecência concreta e original, jamais com decência dissimulada. Afinal, como bem sabe, eu tenho sido um assíduo observador apaixonado da Natureza, e se não fosse já pelos coelhos em sua procriação silenciosa ou pelos grunhidos dos lobos selvagens a acasalar na mata noturna, teria sido pela divina safadeza dos bonobos, estes macaquinhos adoráveis que nos ensinam tanto sobre nós mesmos, e sobre o sexo, e sobre a infatigável ânsia da Vida por ela mesma, por ainda mais e mais e mais e mais... Vida!”.

“Eu acredito em você. Suas palavras, como sempre, são como poções mágicas que dilaceram lentamente o meu tédio e minha apatia, como pequenas ondas a dissolver o calcário escuro que se forma na casca que encobre nossas almas. Mas o fato de acreditar em você não significa que eu seja como você, que consegue passar tantos e tantos anos amarrado a uma única mulher... Como isso é possível, como pode não querer se libertar disto de vez em quando?”.

“Giacomo, meu caro, onde tem aprendido essa linguagem vulgar? Terá sido nessa nova Europa que, apesar de já grávida de outra Europa, ainda guarda os preconceitos e as ideias fossilizadas da antiga?

Quem lhe disse que estou amarrado a alguém? Ainda que cordas estivessem me atando a qualquer mulher que fosse, em minha mente eu estaria ainda livre para pensar e imaginar qualquer outra mulher, real ou imaginária, natural ou lendária... O que uma mísera corda pode fazer contra a imaginação de quem pensa por si mesmo?

Mas eu não estou nem nunca estive amarrado, e esta é precisamente a razão de ainda estar casado no Amor, apesar de nunca haver sido casado. Pois que cordas são tão prejudiciais quanto duas árvores que foram plantadas uma próxima demais da outra, e cujas raízes emaranhadas disputam os mesmos nutrientes do solo. Ora, nós temos uma imensidão a nossa volta, e espaço mais do que suficiente para que todas as raízes encontrem os seus próprios nutrientes sem ter de roubar os nutrientes das demais árvores. Somente assim, algo afastadas umas das outras, as árvores conseguem crescer firmes e sadias, e estender seus inúmeros galhos em direção aos Céus, e beber sua Luz direto da Fonte”.

E assim, sendo transformado pelo fogo de Asik, meu coração acelerava uma vez mais, e o meu tédio ia indo embora... Subitamente, me interessava novamente pelos seios fartos daquela uma, e pelas nádegas suculentas e rebolativas daquela outra.

Porém, estranho de se pensar – eu estava me excitando novamente somente por partes de mulheres, e não por mulheres inteiras. Subitamente, me questionava se não havia, por longos e longos anos, buscado o Amor apenas nestas partes femininas ‘esquartejadas’ pelos olhos: uma imensa bunda, os seios torneados da moda, as coxas de uma amazona ou o quadril inimaginável de uma modelo digital.

Afinal, antigamente eu me excitava com o fato das mulheres esconderem seus corpos em longas saias vitorianas, exatamente por que assim imaginava como elas poderiam ser; mas então percebi que fui ludibriado e tive minha imaginação assaltada por belíssimas formas femininas a estampar os anúncios das novelas e dos outdoors deste mundo moderno. Me ocorreu então que eu não me excitava mais com esta ‘mulher frankenstein’ formada por várias partes desconexas de outras mulheres.

Havia me afastado não somente da Alma, mas do Corpo. Eu não estava entediado com as mulheres, afinal de contas, estava mesmo é entediado com minha própria imaginação viciada e empobrecida. Subitamente, mesmo eu podia começar a compreender como meu amigo Asik conseguia se manter ‘casado no Amor’, pois que cada dia lhe trazia um novo espírito e novíssimos pensamentos e fantasias, ainda que a mulher pudesse ser a mesma, e ainda que ele fosse o mesmo, no fundo estavam sempre se modificando, no fundo pensavam por si mesmos e imaginavam o que bem queriam imaginar, muito além dos outdoors e dos comerciais.

Foi assim que comecei a vencer meu tédio e a me reconectar a Grande Arte da Putaria.


***

Esta foi a terceira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
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13.6.13

A educação de Casanova, parte 2

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

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2.

Ele, como sempre, agiu como se não estivesse a sua frente um homem desesperado, mas tão somente como se minha presença fosse um evento dentre tantos outros da vida, mais ou menos importantes, e que para ele eram como se fossem uma mesma coisa, uma coisa pequena... Ele estava acostumado ao fogo, e perto dele quase tudo era algo pequeno:

“Você deve estar se perguntando porque eu lhe trouxe aqui, meu amigo. Não é um ambiente interessante?”.

Obviamente isto era parte da aula, então dei de ombros e concordei, embora ele soubesse que eu estava sendo irônico, pois seus olhos percebiam cada nuance das coisas mais pequeninas. Assim ele prosseguiu:

“Veja ali aquele menino. Não deve ter nem seus 18 anos, embora eu não acredite em idade... Vê que ali junto dele há um grupo de homens mais velhos? Com certeza o convidaram para sua iniciação sexual. E ele, entretanto, nasceu noutra época, vindo de outra Mansão, e aqueles homens pensam que o estão dando um presente, quando não estão. Isto é tão frequente por esses dias, Giacomo”.

“Não entendo, o menino pode ser ainda virgem, este não é um belo presente?”.

“Noutras épocas, meu amigo, quando não existiam outras alternativas para meninos terem uma iniciação quente com alguma mulher experiente. Mas hoje isto não é mais necessário... Quantos jovens como ele se iniciam em lugares como este? Muito poucos, muitos poucos, Giacomo. O mundo muda, nada fica parado”.

“Ainda assim, isto não é um presente?”.

“Para os que ofertam, certamente, já que receberam o mesmo presente de seus pais. Mas nem sempre o que passamos na juventude servirá igualmente para nossos filhos. Nossos filhos não são nossos filhos, mas os filhos da ânsia da vida por si mesma. Vem através de nós, mas são como presentes de um Outro... Somente eles podem decidir o que servirá para sua felicidade, pois os pais já habitam este mundo há muito tempo, estão já entediados e enrijecidos. Ou não é disso que reclamava há pouco?”.

“Mas eu não tive filhos, ou pelo menos não fui o pai deles...”.

“Somos convidados pela vida há muitas formas de fecundidade, Giacomo. Tudo o que amamos pode ser fecundado, pode ser parte de nossa prole. Mas isto não importa agora, o que estava querendo dizer é que o menino não busca somente perder a virgindade, ele é um desses novos românticos que nasceram para reacreditar no Amor.”

Não me diga que ele vai se apaixonar pela primeira puta que encontrar pela frente?”.

“Não pela primeira, ele vai escolher dentre todas as do recinto. Provavelmente a mais inocente, pois a inocência atrai a inocência. Só que a inocência não dura muito num cabaré de Beyazit, e o amor não poderá fluir por este rio... Então, não será um presente, mas antes um infortúnio. É claro que, no fim das contas, um infortúnio também pode ser um grande presente”.

“Então vai ser como eu, no início, que me apaixonava pelas prostitutas de Veneza e as convidava para navegar nas gôndolas?”.

“Não meu amigo. O mundo mudou”.

Chegaram às bebidas. Asik continuava um grande apreciador do çay, mas eu preferi um vinho doce, pois minha existência vinha demasiado amarga. Nunca tinha o visto bêbado, mas ele sempre me dizia que já estava inebriado de amor, e que se inebriar ainda mais seria desnecessário... Não que não bebesse vinho, apenas nunca ficava bêbado. Parece que bebia apenas porque os demais bebiam, e ele sempre procurou não se destacar na multidão...

Ora, era óbvio que o mundo havia mudado, mas seja lá como for, não haveria de ser uma mudança tão grande assim. Como havia dito, as felicidades e tristezas ainda se intercalavam umas as outras, cercadas pelo grande tédio... Eu queria saber mais, afinal Asik quase nunca se entediava, mas ele não me deu chances de perguntar:

“Veja aquele empresário da ilha do Oriente. Está já velho, mas insiste em fazer o mesmo que fazia enquanto jovem. É casado, bem sucedido nos negócios, e gerou alguns filhos... Mas sua família é sua empresa, e sua rotina familiar é composta de reuniões, grandes lucros e festas com mulheres compradas”.

“E que mal há nisso, afinal? Deixe-o curtir os momentos que lhe restam nesta vida”.

“Mal? Não há nenhum mal, Giacomo. Faz o que queres, há de ser o todo da Lei. Mas quando as pequenas vontades se dissociam do Amor, não há fecundidade, apenas estagnação... Ele não conta mais do que 40 anos, ainda viverá muito tempo, mas já é velho. Eu não acredito em idade, acredito em velhice e juventude!”.

Quando olhei melhor, vi que o homem tinha um olhar parecido com o meu. Mesmo por detrás dos olhos puxados, estávamos igualmente entediados. A única diferença entre nós naquele momento é que ele apalpava os seios fartos de uma bela moça. Mas nem querer apalpar os seios fartos de uma bela moça eu queria... Eu queria algo mais do que isso. Eu estava um tanto encrencado, pois seios fartos sempre foram o suficiente para me alegrar...

“E a mulher dele, o que faz? Cuida dos filhos?”.

“Não. Ela teve o azar de nascer nesta última geração em que os homens ainda pensavam como os homens de antigamente. Então ela encarou a liberdade feminina com o pensamento de um homem, mas com os pudores antigos das mulheres antigas. Como não tem coragem de se deitar com um homem de programa, seus programas são somente jantares românticos e, as vezes, uma sessão de cinema”.

“Está me dizendo que enquanto o marido viaja o mundo a negócios traçando putas de várias etnias distintas, ela permanece em casa e contrata amantes somente para que tenha com quem sair a noite?”.

“Exato”.

“E não vai nem para cama com eles?”.

“Não”.

“É por isso que digo que o casamento é uma maldição... Aliás, até hoje não compreendo porque foi se casar, Asik!”.

“Meu amigo, e quem lhe disse que eu acredito no casamento?”.


***

Esta foi a segunda parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
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12.6.13

A educação de Casanova, parte 1

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.


Vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, tem sido feito livremente; sou um agente livre.


1.

Eu poderia jurar que fazia séculos que não punha os pés nesta cidade. Tudo tem mudado no mundo, mas as felicidades e os prazeres continuam passageiros e fugazes, as grandes infelicidades continuam a atemorizar os homens, e de resto há somente este grande e tenebroso tédio nos intervalos entre umas e outras. Até algum tempo atrás, e já não me lembro mais quanto, eu me encontrava livre desta pequena tristeza, tão jovem quanto sempre fora, tão sedutor quanto um misterioso viajante. Mas ultimamente tenho envelhecido, meus pensamentos e minha alma vão tornando-se rígidos e enrugados, e meus olhares nada mais despertam nas mulheres...

Como, afinal, despertar alguma paixão nalguma bela jovem ou nem tão jovem, se eu mesmo padeço deste tédio que acomete a tudo e a todos na civilização moderna. Há pouco chamei-o “grande e tenebroso”, e me contradisse quando falei em “pequena tristeza”. Ora, uma grande infelicidade ainda pode ser mais interessante, pois após uma queda vem a fase em que ficamos novamente de pé, e após uma desilusão amorosa podemos contar com uma doce ilusão totalmente nova! Melhor seria uma grande infelicidade, uma grande tragédia, do que este tédio... Será que é por isso que os homens consideram se casar?

Esta vista do mar de Mármora continua tão bela quanto me lembrava. Os homens aprenderam a construir estas grandes torres, cada vez maiores, mas em matéria de beleza e sedução, ainda têm muito o que aprender com a natureza. E eu que sempre fora um agente livre, um mar esguio a banhar as mulheres seminuas ou nuas no verão, mas que desaparecia no inverno... E agora, agora um mar represado, entediado. Mas não se apiedem de mim, não estou aqui para chorar minhas mágoas, e sim para me curar.

Dizia Hipócrates que são nossas próprias forças internas quem realizam a cura, e que o médico é tão somente o agente que nos leva ao reencontro conosco mesmo. Acho que é precisamente isto que ocorre. Casanova, o grande Casanova, não come mais ninguém, e nem parece entusiasmado em comer mais ninguém... Ó, lástima, será necessário mesmo um grande médico do amor para me conduzir novamente ao meu próprio coração. Vim de tão longe atrás deste homem.

Beyazit é o bairro onde ele marcou o encontro. Não é preciso ser um especialista nas artes amorosas para perceber que se trata de um dos poucos bairros da cidade onde há prostituição. Além do que é já noitinha, isto tudo só pode ser um grande deboche da parte dele... Quem quer que tenha acreditado que fiz amor com 122 mil mulheres e prostitutas ao longo de uma única vida é muito ingênuo ou gosta de mitologia! Mas o pior é ver tantos jovens se divertindo, tantos homens ainda com esta grande vontade de procriar a espécie, e tantas mulheres os analisando e criteriosamente escolhendo aquele de maior potencial... E eu aqui, entediado, entediado até mesmo com Darwin!

Vejam bem, mulheres, não estou dizendo que todas as mulheres de Beyazit são prostitutas. Nesta rua mesmo, há apenas algumas. Os homens, por outro lado, são quase todos prostitutos... Eles se vendem para o próprio desejo desenfreado, em troca de um pouco de prazer. Eu atuava com maior refinamento e dignidade. Negociava com meu próprio desejo em prol de obter o maior prazer possível. O grande segredo de Casanova era este: “o desejo só é mantido vivo quando não é totalmente satisfeito”. Então, meu refinamento estava em me satisfazer aos poucos. Dizem que eram as mulheres que se apaixonavam perdidamente por mim, mas não: eu é que me apaixonava por elas, e as desejava ardentemente. Mas nunca satisfazia totalmente meu desejo, e era dessa forma que o mantinha vivo. Eu só poderia ser um grande amante, afinal, se as desejasse mais do que elas mesmo me desejavam.

E agora, nada, só o tédio... Não tenho mais desejo de nada, então como irei satisfazer uma mulher? As mulheres não são tão facilmente satisfeitas como os homens... Há homens que se satisfazem em copular com um corpo escultural. As mulheres, em sua maioria, percebem um pouco mais da alma. E eu, envelhecido, entediado, meio triste, não quero nem saber do que foi feito da escultura da minha alma a essa altura...

Preciso de um grande artista, um exímio escultor, ou ainda de um sábio restaurador. Meu amigo é tudo isto e muito mais. Casanova virou mito, mas aprendeu tudo o que sabe, ou quase tudo, deste homem árabe, que nunca precisou viajar pelos continentes para conhecer a alma dos homens e, sobretudo, das mulheres. Eu, é claro, fui por muito tempo um herege na arte do amor. Ele, pelo contrário, praticamente escreveu a bíblia de tal arte, não com uma pena ou caneta, mas com o próprio corpo e a própria alma e o olhar, o olhar!

Se um dia aprender a olhar como ele, me dou por satisfeito. Há homens que olham mulheres vestidas e as despem com o olhar. Ele não, ele veste as mulheres com o seu olhar, as preenche por todos os poros, e vira facilmente o centro de sua atenção. Caso queira, é claro... Nunca vou entender por que diabos se casou. Privar as mulheres de sua arte, concentrando-se sempre na mesma, é um desperdício, um grande egoísmo!

Se não satisfiz 100 mil, pelo menos que tenham sido mil. Ainda é melhor do que apenas uma. Ele escreveu a bíblia do amor, mas eu sou o seu grande apóstolo, o evangelizador! Eu trago a boa nova e a boa nova é um grande prazer, fugidio, mas que é genuíno... Melhor dar um pouco de prazer para mil do que muito prazer para somente uma. Além do que, o prazer nunca dura tanto afinal, do contrário não saberíamos distingui-lo das pequenas alegrias.

Eu entro pela porta apertada do cabaré. Quantos cabarés iguais não adentrei em minha existência! Os olhares mortos das prostitutas já cansadas, os olhares ainda mais entediados dos homens que se regozijam em se envolver com corpos sem que haja necessidade de se preocupar com as almas, as bebidas destiladas e a música de fundo... Tudo meio escuro e frio, com pinceladas de acinzentado aqui e ali, e uns poucos ainda iludidos querendo encontrar o amor de suas vidas neste tipo de ambiente. É tudo isto já uma lição de meu amigo, um lição merecida devo dizer, pois que não há como negar que eu mesmo já recorri a este tipo de ambiente muitas vezes, quando ainda não havia aprendido a refrear meu próprio desejo.

Lá está ele, com seu olhar de fogo. Se ele uma vez me ensinou a ser como as labaredas, terá de me curar, me transformar pelo fogo uma vez mais... Eu puxo uma cadeira e me sento à mesa. Olhando fundo na sua alma, pronuncio seu nome, quase como uma súplica:

“Asik, eu me desvirtuei, preciso novamente do seu aconselhamento”.


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Esta foi a primeira parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Veja a segunda parte

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