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16.9.13

A educação de Casanova, parte 4

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 3


4.

Quando me recobrei de minhas reflexões ardentes, Asik já havia saído e a casa noturna já estava por fechar. Quase não reparava mais no cheiro de tristeza embriagada que pairava pelo ar viciado, nem me deixava carregar pelos olhares entediados dos demais... Meu amigo, meu grande amigo, havia me embriagado novamente com seu doce licor de vida, de pura e ardente vida!

Havia me deixado este bilhete, escrito num turco como era ainda usado séculos atrás:

“Bem vindo de volta a aventura, Giacomo. Aproveite a noite em Beyazit e, se for do seu agrado, rume para a Praça da Liberdade”.

Fiz o que a mensagem havia sugerido, porém sem nenhuma pressa ou angústia, pois já não me sentia apressado nem tinha nenhum senso de urgência para coisa alguma. Interessante como, quando estamos entediados e nada na vida nos interessa, ainda assim temos pressa de fazer alguma coisa, sabe-se lá o que! E, quando o tédio passa, quando enfim podemos realizar algo, sermos produtivos, mudar o mundo, que seja, subitamente não há mais nenhuma razão para se apressar...

Assim, como um indígena a apreciar as brisas que chegam dos vales e florestas, segui pelas vielas daquele bairro nem tão nobre nem tão vil, com as casas e prédios mais belos que via em décadas – simplesmente porque meus olhos estavam novamente atentos.

Vi grupos de amigos fumando narguilé na calçada oposta. Suas risadas, olhares e piadas soavam mais adocicados que o aroma dos fumos. Olhei-os como quem observa crianças a brincar pelo parque, tão livres e inocentes quanto sua consciência os permitia, e sorri, e meu sorriso era também um agradecimento por também haver feito tantos amigos ao longo dos séculos. Nenhum mito sobreviveria por tanto tempo sem amigos...

Caía uma garoa fina, finíssima, ou talvez fosse somente o efeito refrescante de se estar novamente são, ainda que embriagado e solitário numa viela mal iluminada de um bairro nem assim tão seguro de Istambul. Haveria de ser assaltado? Ofereceria meu coração, nesta noite ele é uma pedra preciosa a espera de ser levada!

Do lado oposto vinha um casal aos beijos. Subitamente o rapaz parou e atentou para minha pessoa. Veja esta: eu com medo de assalto e os outros com medo de serem assaltados por mim. Vamos parar com todo este medo, não vale a pena viver com medo, e se a morte quiser vir, que venha... Será breve e depois, bem ou mal, não teremos mais medo afinal de contas. Mesmo no Inferno eu só teria medo do que minha consciência poderia fazer de mim, só teria medo de me entediar novamente, e viver cego uma vez mais, na vida ou na morte. Não! Quero que esta embriaguez seja duradoura, quero chegar a Praça da Liberdade e prosseguir nesta aventura...

Passei pelo casal e acenei com um sorriso e um leve movimento de mão direita. O jovem casal era belíssimo, e a noite também, e não se importaram de sorrir de volta para mim, para logo após voltarem aos beijos apaixonados... Há tempos eu poderia marcar o rosto de menina tão bela, para tentar conquista-la noutro dia, como um troféu. Hoje, nesta noite aquecida pelo fogo de Asik, isto era totalmente desnecessário – bastava amar a vida para me imaginar como aquele belo rapaz a dar uns bons amassos na bela rapariga, como dizia o poeta de Lisboa. Nesta noite não era necessário nada mais do que a imaginação, e eu me sentia como um semideus.

A garoa passou e o suave lençol acinzentado da noite turca se moveu para outras paragens. No alto, por entre os pequenos prédios de Beyazit, a lua minguante mostrava-se, imponente, junto a estrela da manhã. A configuração rara lembrava a bandeira de inúmeras nações da região, inclusive aquela em que eu me encontrava naquele momento. Eu poderia me perguntar se isso significava alguma coisa, mas não o fiz: o céu noturno falava por si só, e a sua canção era divinamente silenciosa.

Mais alguns passos, algumas poucas quadras, e chegava na Praça. Ali, onde tantos jovens turcos se dirigiam para a Universidade, encontrei-a pouco antes do nascer do sol: seus véus brancos esvoaçantes foram carregados pelo vento, seu corpo estava frondosamente nu, rechonchudo com inimagináveis curvas, nádegas imensas, seios enormes e convidativos.

Corri, corri e me atirei neles, como um recém-nascido anseia amamentar. Bebi de seu leite aos borbotões, e ele tinha gosto de poeira de estrelas, do nascer de rosas e do escoar dos rios, de ciclos ininterruptos de estações e da formação e extermínio dos planetas. Bebi, e me embriaguei ainda mais. Eu, um mero aprendiz da arte de Asik, porém alimentado pela Mãe, adormeci como um bebê e sonhei que cavalgava o Cosmos inteiro no dorso de uma estrela cadente.


***

Esta foi a quarta parte de A educação de Casanova, por raph em 2013.
Comece a ler do início | Veja a quinta parte


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4 comentários:

Blogger Rato Saltador disse...

Fala grande!

To adorando a série, muito boa! Quando se fala de espiritualidade e sexualidade quase automaticamente eu associo com Osho. Já leu alguma coisa dele?

Abs!

18/9/13 15:53  
Blogger raph disse...

Oi Saltador,

Na verdade não, o pouco que li do Osho foi em blogs e posts de amigos no Facebook, apenas citações curtas mesmo...

Abs!
raph

18/9/13 17:35  
Blogger Rato Saltador disse...

Eis um exemplo, dentro do espírito da série: http://www.palavrasdeosho.com/2011/09/sexo.html#.Ujo5zMaeiGU

Osho já esteve muito presente em determinado momento da minha vida. Hoje estou navegando outros mares... :D

É uma criatura extremamente controversa, mas muita coisa dele vale a pena.

18/9/13 19:50  
Blogger raph disse...

Ele realmente soube resumir muito bem a questão neste trecho (em seu link), mas também é certo que não falou nenhuma grande novidade aos espiritualistas, particularmente os que se voltaram mais para o Oriente.

É um dos motivos de ninguém saber ao certo o que foi da vida amorosa de Da Vinci, e do porque Chico Xavier falava tão profundamente da sexualidade sem jamais a haver praticado, etc.

Abs!

19/9/13 10:59  

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