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24.6.14

A educação de Casanova, parte 6

A educação de Casanova

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 5


6.

Após alguns minutos dois dos “ursos dançantes” adentraram o palco, com suas máscaras enormes e redondas, que mais lembravam a cara sorridente de um ursinho de desenho animado. Além delas, não usavam muito mais roupa, e mesmo estes trajes colantes pareciam destinados a ser despidos na sequência – o que de fato não demorou muito...

Com seus falos semi-enrijecidos e já totalmente nus (exceto pelas cabeças de urso), eles abandonaram o palco e passaram a desfilar por entre as mesas e cadeiras cheias de fêmeas absolutamente descontroladas. Era ensurdecedor, de muitas maneiras diferentes!

Eu não sei dizer ao certo o que exatamente aquela visão, aquela experiência de estar ali observando tudo aquilo, causou em mim... Certamente não eram os falos, que iam se enrijecendo com muitas apalpadas e chupões regados a muito chantilly, o que me excitava – eu sempre preferi as cavernas e pequenas fendas úmidas do que os grandes picos, então realmente não era isto –, mas então, o que era?

Contemplar todos aqueles olhares femininos, focados diretamente nos paus duros dos “ursos dançantes”, alguns totalmente confiantes, outros totalmente tímidos, de canto de olho, e tantos outros no meio termo entre os dois, chamou minha atenção para uma faceta feminina que eu certamente nunca havia observado. Seria para isso que Asik havia se dado ao trabalho de me trazer até aquela “festa”?

“Então, isto sim é algo de novo. Novo e excitante, não?” – cochichou meu amigo.

Mas eu ainda não conseguia responder. De fato, era óbvio que algo me incomodava naquela dança de ursos, mas eu não conseguia pôr em palavras; no que Asik me auxiliou:

“Sim, são seres sexuais frequentando Casas de Putaria, de forma muito parecida com a que temos visto nos últimos séculos, só que com uma diferença, ou melhor, uma inversão: as “putas” são os rapazes mascarados de pênis grandes; e os “endinheirados”, os “nobres abastados”, os “governantes”, são elas, são elas, Giacomo! Quanto tempo nós não esperamos por isto, meu caro?”

“Esperar por isto? Isto? Pois não lhe parece que elas estão a agir exatamente como nós temos agido? Não estão acometidas dos nossos desvios, nossos enganos, nossa ignorância e bestialidade? Foi para isso que serviu a dita revolução sexual, para que elas acabassem como nós, como homens?”

Foi neste momento que ele gargalhou. E quando Asik gargalhava assim, dava para saber que alguma lição estava para ser aprendida, pois ele nunca gargalhava propriamente da ignorância alheia, mas de uma sabedoria que estava prestes a se ver livre dos preconceitos que a desbotavam...

“Giacomo, meu caro, e você preferia o que, santinhas? Você acha mesmo que, após conquistarem os direitos que conquistaram no último século, elas não poderiam se divertir como nós? Não poderiam se desvirtuar como nós? Não poderiam chupar o seu tanto de picas como nós temos chupado o nosso tanto de bucetas?

(e quanto mais o fogo se aproximava dele, mais sua voz se elevava, e mais palavrões grosseiros saiam de sua boca divina)

Pois me diga, amigo, se o que pensa sobre o que vemos aqui não é ainda um resquício da sombra que se acometeu sobre você nos últimos anos? Não era isso que sempre desejou ver desde os seus tempos em Veneza? Mulheres livres, livres sim! Livres de verdade, para fazerem o que bem entenderem de seus corpos e suas almas e sua vida, inclusive lamber cacetes cheios de chantilly até não poderem mais! E não há aqui mais nenhum deus raivoso para as julgar, Giacomo, o velho barbudo não foi convidado!

Pois o que diabos elas podem fazer aqui neste salão que os bonobos já não tenham feito nas matas, e nós homens em cada canto habitado do planeta? Há alguma maldade intrínseca aqui, meu amigo, ou não seria o seu próprio olho que está gasto com as pregações de outrora?

Esfregue-os, Giacomo. Limpe-os. Abra sua alma. Rompa tais pensamentos. Deixe que o seu chumbo os leve para o fundo do mar, e nade para além da superfície, até esta praia dourada... E, então, olha para esta festa, olha para esta Grande Putaria, e me diga o que vê.

Me diga se algum urso dançarino compareceu aqui por falta de opções em sua vida, ou porque foi oprimido por um grupo dominante, ou porque foi traficado como escravo, ou porque foi coibido pela violência. Não! Não, Giacomo, elas estão aqui se divertindo com eles, elas estão aqui os chupando e apalpando, mas elas não lhes forçaram, e não foram violentas...

Aqui o Amor floresce, ainda bestial, mas liberto. Só há Amor quando a violência foi posta de lado, foi esquecida!”

E então, observando todas aquelas fêmeas maravilhosas e libertas, que não eram santas e certamente não precisavam ser, eu concebi brevemente em minha alma a dimensão do que ocorria – o início de um incêndio, um incêndio de pura liberdade.

Fazia séculos que eu não me sentia tão excitado com a vida, e com as mulheres. Era tempo de Casanova voltar as suas aventuras de conquista!


***

Esta foi a sexta parte de A educação de Casanova, por raph em 2014.
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