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7.9.14

Lançamento: Cancioneiro

As Edições Textos para Reflexão voltam a publicar Fernando Pessoa.

Em Cancioneiro, temos uma extensa seleção dos poemas que Pessoa escreveu e assinou o seu próprio nome, isto é, que não pertencem a nenhum dos seus heterônimos.

Se há muitos que já se afastaram desta compilação por haver sido rotulada de esotérica, mística e hermética, nos dias de hoje os amantes de Pessoa são cada vez mais atraídos por ela pelos exatos mesmos atributos...

Um livro digital já disponível nas seguintes lojas:

Amazon Kindle Kobo Livraria Cultura

***

Abaixo, seguem alguns poemas da edição:

[Entre o sono e o sonho]

Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

***

[Tenho tanto sentimento]

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

***

[Grandes mistérios]

Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

***

[Fresta]

Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quando a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado,

Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.

***

[Iniciação]

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.

...

O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.

Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.

...

A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.

...

Neófito, não há morte.

(Fernando Pessoa)


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2 comentários:

Blogger Bovver disse...

Raph,

Não seria possível o lançamento dos post do Mori x Deldebbio nos mesmos moldes do livro do DelDebbio?

Em PDF, EPUB e outros mais...como se trata de um tema bastante interessante, acho que ficaria legal para poder levar a qualquer local...

8/9/14 12:39  
Blogger raph disse...

Sim eu já pensei nisso, só deve demorar um pouco pq tenho um projeto de uma nova tradução que deve tomar o resto do ano... Tb precisarei da aprovação deles, mas acho que eles aprovam sim :)

Abs!
raph

8/9/14 19:04  

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