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10.2.15

É a minha metafísica, é a minha física

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro III, cap. XIII) (Cia. Das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Seja qual for o fruto que podemos tirar da experiência, o que tiramos dos exemplos estrangeiros mal servirá para nossas instituições se não tirarmos proveito da experiência que temos de nós mesmos, que nos é mais familiar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisamos. Estudo a mim mesmo mais que a outro assunto. É a minha metafísica, é a minha física.

Por qual arte Deus governa a nossa morada, o mundo;
de onde vem a lua quando se levanta, onde ela desaparece;
e de onde, reunindo todo mês seus crescentes, torna a ser cheia;
de onde vêm os ventos que comandam o mar com o que o Eurus leva com seu sopro;
e de onde vem que, sem cessar, a água retorna às nuvens?
quando vier o dia que derrubar as alturas do mundo, procurai, vós que vos atormentais com os labores do mundo.
(Propécio, e Lucano no último verso)

Nesse universo, deixo-me manejar com ignorância e negligência pela lei geral do mundo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não pode fazê-la mudar de caminho.

[...] Os filósofos, com muita razão, remetem-nos às regras da natureza: mas elas pouco se importam com tão sublime conhecimento. Eles as falsificam e apresentam-nos da natureza um rosto pintado, colorido demais e sofisticado demais: donde nascem retratos tão diversos de um objeto tão uniforme.

Assim como a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e pomposa como a que os filósofos inventam: mas afável, fácil, sossegada e salutar. E a quem tem a felicidade de saber empregá-la simples e ordenadamente, isto é, naturalmente, ela faz muito bem o que outra diz que faz. Entregar-se o mais simplesmente à natureza é entregar-se o mais sabiamente.

Oh! como a ignorância e a desocupação são um suave, macio e saudável travesseiro para repousar uma cabeça bem formada. Eu preferiria compreender bem a mim mesmo a compreender a Cícero [filósofo romano]. Se eu fosse um bom aluno, na experiência que tenho de mim encontraria o suficiente para me tornar sábio.

Quem conserva na memória o excesso de sua cólera passada, e até onde essa febre o arrasou, vê a feiura dessa paixão melhor que em Aristóteles e nutre por ela um ódio mais justo. Quem se lembra dos males que sofreu, dos que o ameaçaram, das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar de um estado a outro, prepara-se com isso para as mutações futuras e para o reconhecimento da sua condição.

A vida de César não é mais exemplo para nós do que a nossa. Tanto de um imperador como de um homem do povo, é sempre uma vida, à qual todos os acontecimentos humanos dizem respeito. Nós nos dizemos tudo de que mais precisamos: basta escutarmos.

Quem se lembra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio julgamento não é um tolo se não adotar para sempre a desconfiança? Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ela me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo a minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto.

Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante.

[...] Se cada um de nós observasse de perto os efeitos e circunstâncias das paixões que o animam, como fiz com a que me coube como quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a impetuosidade e a corrida. Nem sempre elas nos saltam ao pescoço na primeira investida, há ameaças e graus.

O julgamento ocupa em mim uma cátedra magistral, pelo menos se esforça cuidadosamente para isso. Deixa meus sentimentos seguirem seu curso: tanto o ódio como a amizade, e até a que sinto por mim mesmo, sem se alterar nem se corromper. Se não consegue melhorar a seu jeito as outras partes, ao menos não se deixa deformar por elas: faz seu jogo à parte.

O preceito para que cada um conheça a si mesmo deve ser de grande importância, posto que aquele deus da ciência e da luz mandou colocá-lo no frontispício de seu tempo [Templo de Apolo, em Delfos], como que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz também que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem: e Sócrates a verifica detalhadamente em Xenofonte.

Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoramos, e é preciso empurrar uma porta para saber que ela nos está fechada.

[...] Assim, nessa ciência de conhecer a si mesmo o fato de cada um se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, como Sócrates ensina a Eutidemo. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro uma profundidade e uma variedade tão infinitas que meu aprendizado não tem outro fruto além de me fazer sentir tudo quanto me resta a aprender.

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo formato literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Buscar compreender a si mesmo é a melhor forma, afinal, de compreender o pouco que seja deste mundo tão, tão vasto.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Montaigne)

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