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2.6.15

A ascensão de Fernando Pessoa

Quanto mais se pensa que sabia de Fernando Pessoa, quanto mais se investigam seus heterônimos, seus escritos deixados em velhos baús e, principalmente, o misticismo latente de sua vasta obra poética, mais se desvela, mais luz do Alto nos chega refletida em tremenda pureza!

Neste vídeo do programa Presença e Harmonia, da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz, a qual Pessoa dedicou direta ou indiretamente diversos poemas), Frater Fabio Mendia – doutorando de ciências da religião e pesquisador da obra pessoana – recita e analisa com muita propriedade este que é um dos poemas ainda desconhecidos de Pessoa, e que circula principalmente entre o meio esotérico, por conta da sua abissal profundidade mística.

Como este poema não é encontrado nem mesmo nos mais conhecidos arquivos online da obra pessoana, encontrei somente alguns trechos dele na internet, no que fui obrigado a preencher as lacunas somente por ouvir a recitação de Mendia. Portanto, não devem tomar o texto abaixo como final, embora esteja tão próximo quanto possível.

É bem claro que o sentido profundo deste poema pode ser inalcançável pelos não iniciados nos caminhos espirituais, e é exatamente por isso que recomendamos enormemente que vejam as explicações de Mendia no vídeo antes de iniciar a sua leitura (ou releitura)...

Obs.: ele inicia a leitura do poema em 6:45

***

[Morning star (Estrela da manhã)]

I. A dúvida

Depus, cheio de sombra e de cansaço,
As armas da magia entre onde estão
Os livros sacros com quem tive o laço
Que dá à alma a Força e a Visão.
Ai, não pude depor meu coração!

Quão alto fui para o que todos são!
Quão baixo para quanto quis em mim!
Vi e toquei o que a outros é visão
Em sombras ou desejos, vaga e escura,
Na confusão da confusão sem fim.
Sou hoje minha própria sepultura.
Tenho deserto e alheio o coração.

Quantos, com longo estudo e fiel vontade,
Tentam pisar as sendas do Poder,
Sem que sintam uma única verdade,
Sem que invocado espírito apareça,
Sem que o dominem, se é aparecido,
Sem que sintam, como eu, sobre a cabeça,
A coroa dos magos – ah, mas essa,
Se é de glória no nítido esplendor,
É de espinhos no íntimo sentido.

Por mais alto que o mago suba e atinja
O comércio com os Anjos que há no além,
E da cor lívida do além se tinja,
Que mais que os outros que aqui dormem tem?

Se a ilusão, os símbolos e a sombra
São o que tudo rege,
Regerão o mesmo além que o nosso esforço empana
Com que delusão assim sem sombra?

Se tudo que nos fala nos engana
Por que é que os Anjos não enganarão?


II. A desilusão da razão

Vi Anjos, toquei Anjos, mas não sei
Se Anjos existem
. Tal me achei ao fim
Desse caminho de que regressei
E vi que nunca sairei de mim.

Vã ciência!
Ainda que aqui no rito certo
Os Anjos certos viessem a chamada,
Servos da invocação que os trouxe perto,
Mestres do templo que lhes foi a estrada...

Arte vã!
Pois tudo ainda em que há obtido
Deixas névoas que somos tais quais são,
Sem mais que uma presença sem sentido,
Passando como um cheiro, ou um ruído,
Nas câmaras rituais de ilusão.

Anos e anos de confusa ciência,
Lida e relida até ser meu ser,
Me ergueram a submersa consciência
A superfície clara do querer!

Tracei os signos certos, invoquei!
Obedeceram Anjos ao que eu quis...
Nada sou, nada fiz e nada sei!
Quantos se orgulhariam do que eu fiz...

(...)


III. A morte

Quem me diz que não há um Senhor do mundo?
Um espírito que me ilude?
Quem me diz que quanto mais no incógnito me aprofundo,
Mais de ilusão e de erro não me inundo?

Só sei que quanto maior, mais infeliz...
Ah, já não mais fé nem ciência nem certeza
Do que sou eu pra mim.
Vermes me minam de outra pior,
Bem mais negra natureza
Dos que ao mestre destroem na outra vala...

Tudo me é obscuro, ainda que com destreza
O caminho das sombras me ilumine
As dez luzes divinas da Cabala.


IV. A purificação

Meus pés pisam a câmara do meio,
Minhas mãos tocam o que os Anjos são.
Já de onde estou, percebo o limiar do íntimo sacrário.
Sinto o ar do ulterior silêncio tocar meu seio,
E rasgam-se olhos no meu coração!

Mas o que é tudo isso,
Se isso não é nada?
Que sei eu disso?
Que bem pode ser
Aquela aérea e falsa e linda estrada
Que nos desertos se consegue ver?

Venci? Perdi-me? Não sei dizer...
Poder! Poder!
Ah! A eterna maldição da substância do mundo!

Quem me dera me nascer a um novo coração
Só a ânsia de ser mesquinho,
Só um sono cheio de perdão...
E ser agora qual menino eu era,
Dos mesmos Anjos mais fiel vizinho...

Caminhei como os homens.
Sou como esse que viajou países por achar,
E não achou mais neles do que houvesse
Na pátria onde se houve de apartar.

Tudo é aqui:
Mais mar ou menos mar
.


V. O renascimento

Ah, não é senão essa outra coisa da alma
Que era no fundo incógnito que tem,
[Que] anseia pela grande, a verdadeira calma,
Sem querer nem poder... O sumo bem!

Então, com o escopro e o malhete do Alcançar,
Quebrei a pedra cúbica do altar!
E a pedra cúbica abriu-se em cruz...

Quebrar ao altar... Então a mim quebrei!
Então em sangue, sobre o centro da cruz me derramei...
E ali, sacrificado ou sacrifício,
Exausto, nulo, senti meu enfim
Aquele coração que era fictício!

Consegui!
Paz profunda meu irmão...

(...)


VI. A ascensão [Isaac Luria]

Em nós o fogo reina:
Que primeiro é desejo,
E depois, ardendo mais,
Deste mesmo desejo se purifica.

Consome aquilo de que se alimenta:
Os diversos desejos queima iguais,
E quer ser fogo universal e inteiro,
Chama sem lume, de si mesma rica.

Ah, mas depois que tudo é consumado,
Que o fogo por ser fogo pode arder,
Depois que é em si mesmo sublimado,
Com tal ardência exacerbado dura,
Que a si mesmo se queima, e faz não ser,
Seu ardor para dentro vira ansiado,
E a chama pura torna-se luz pura.

Assim tornado o ser que sou comigo,
Vi que quando cercara o que eu quisera,
Altar ou vara, livro e templo,
Nunca fora de mim estivera...
Só por um julgá-lo tal, fora inimigo.

E então vi que essa cruz em que converso,
[Onde] jazia o altar outrora meu,
Era em cruz de luz todo o universo,
E que essa cruz era quem fora eu.

Sobre ela, a luz perfeita em mim erguida
Caíra numa inteira identidade,
Pois essa pedra cúbica partida
E a minha alma em luz pura resolvida
Eram a mesma coisa:
Eram a Vida e a Verdade.


Fernando Pessoa

***

Crédito da foto: Google Image Search

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4.3.15

O deus de Schopenhauer

Trechos de Arthur Schopenhauer em O mundo como vontade e representação (cap. 34) (Contraponto). Tradução de M. F. Sá Correia. Os comentários ao final são meus.

Nota: Para aqueles que não são familiarizados com a obra de Schopenhauer, recomendamos a leitura do artigo O ornitólogo confuso antes de darem prosseguimento a leitura deste post...

Quando, elevando-se pela força da inteligência, se renuncia a considerar as coisas do modo vulgar; quando se deixa de procurar (à luz das diferentes expressões do princípio da razão) apenas as relações dos objetos entre si, relações que se reduzem sempre, em última análise, à relação dos objetos com nossa própria vontade, isto é, quando já não se considera nem o lugar, nem o tempo, nem o porquê, nem o para que das coisas, mas única e simplesmente sua natureza; quando, além disso, já não se permite nem ao pensamento abstrato, nem aos princípios da razão ocupar a consciência mas, em vez de tudo isto, se dirige todo o poder do espírito para a intuição; quando aí nos submergimos inteiramente e se enche toda a consciência com a contemplação tranquila de um objeto natural atualmente presente: paisagem, árvore, rochedo, edifício ou qualquer outro; ora, desde o momento em que nos perdemos neste objeto, como dizem com profundidade os alemães, isto é, desde o momento em que nos esquecemos da nossa individualidade, da nossa vontade e só subsistimos como puro sujeito, como claro espelho do objeto, de tal modo que tudo se passa como se só tal objeto existisse, sem ninguém que o percebesse, ou seja: que fosse impossível distinguir o sujeito da própria intuição e que ambos se confundissem numa único ser, numa única consciência inteiramente ocupada e preenchida por uma visão única e intuitiva; quando, enfim, o objeto se liberta de toda relação com o que não é ele, e o sujeito, de toda a relação com a [própria] vontade, então, aquilo que é conhecido deste modo já não é a coisa particular enquanto particular, mas a ideia, a forma eterna, a objetividade imediata da vontade [natural].

Neste grau, por conseguinte, aquele que é arrebatado nesta contemplação já não é um indivíduo (visto que o indivíduo se aniquilou nesta mesma contemplação), mas o sujeito que conhece, puro, liberto da [sua] vontade, da dor e do tempo. Esta preposição que parece surpreendente confirma, sabe-se muito bem, o aforismo que provém de Thomas Payne: “Do sublime ao ridículo há apenas um passo”; mas, graças ao que se segue, ela vai-se tornar mais clara e parecer menos estranha.

Era também isso que, pouco a pouco, [Benedito] Espinosa descobria, quando escrevia: “A mente é eterna, visto que concebe os fatos sob a forma de eternidade” (Ética, 5, prop. 31, escólio).

[...] O indivíduo que conhece, considerado como tal, e a coisa particular conhecida por ele estão sempre situados em pontos definidos do espaço e da duração [do tempo]; são elos das cadeias de causas e efeitos. O puro sujeito que conhece e o seu correlativo, a ideia, estão libertos de todas estas formas do princípio da razão: o tempo, o lugar, o indivíduo que conhece e aquele que é conhecido não significam nada para eles.

É apenas quando o indivíduo que conhece se eleva da maneira acima mencionada, se transforma em sujeito que conhece e transforma por este fato o objeto considerado como representação, [e este lhe] aparece puro e inteiro, é então, apenas, que se produz a perfeita objetivação da vontade [natural], visto que a ideia é apenas a sua objetividade adequada.

Esta resume em si, e na mesma qualidade, objeto e sujeito (visto que eles constituem a sua forma única); mas ela mantém entre eles um perfeito equilíbrio: por um lado, com efeito, o objeto é apenas a representação do sujeito; por outro lado, o sujeito que se esgota [ou se dissolve] no objeto da intuição torna-se esse mesmo objeto, atendendo a que a consciência é, daqui para a frente, a mais clara imagem dele. Este consciência constitui, para falar com propriedade, a totalidade do mundo considerado como representação.

[...] Do mesmo modo que na ideia, quando ela aparece, o sujeito e o objeto são inseparáveis, visto que é preenchendo-se com uma igual perfeição um ao outro que eles fazem nascer a ideia, a objetividade adequada da vontade, o mundo considerado como representação; também, do mesmo modo, no conhecimento particular, o indivíduo que conhece e o indivíduo conhecido permanecem inseparáveis, enquanto coisas em si, visto que se fizermos a abstração completa do mundo considerado verdadeiramente como representação, não nos resta mais nada a não ser o mundo considerado como vontade; a vontade [natural] constitui o “em si” da ideia, a qual é a objetividade perfeita da vontade; a vontade constitui do mesmo modo o “em si” da coisa particular e do indivíduo que a conhece, os quais são apenas a objetividade imperfeita da vontade.

Considerada como vontade [natural], independente da representação e de todas as suas formas, a vontade é uma só e idêntica no objeto contemplado e no indivíduo que ao elevar-se a esta contemplação toma consciência de si mesmo como puro sujeito; ambos, por conseguinte, se confundem, visto que eles são, em si, apenas a vontade [natural] que se conhece a si mesma; quanto à pluralidade e à diferenciação, elas só existem a título de modalidades do conhecimento, isto é, apenas no fenômeno e em virtude da sua forma, no princípio da razão.

Do mesmo modo que sem objeto nem representação não sou sujeito que conhece, mas simples vontade cega, também sem mim, sem sujeito que conhece, a coisa conhecida não pode ser objeto e permanece simples vontade, esforço cego. Esta vontade é, em si, isto é, fora da representação, uma só e idêntica a minha: é apenas no mundo considerado como representação, submetido, em todo caso, à sua forma mais geral que é a distinção do sujeito e do objeto, é somente no mundo assim considerado que se opera a distinção entre o indivíduo conhecido e o indivíduo que conhece.

Uma vez que se suprime o conhecimento, o mundo considerado como representação, não resta em definitivo mais do que simples vontade, esforço cego. Se a vontade se objetiva e se torna representação, ela coloca imediatamente o sujeito e o objeto; se, além disso, esta objetividade se torna uma pura e perfeita objetividade da vontade, ela coloca o objeto como ideia, liberto das formas do princípio da razão. Ela coloca o sujeito como puro sujeito que conhece liberto da sua individualidade e da sua servidão diante da vontade.

Absorvamo-nos, portanto, e mergulhemos na contemplação da natureza, tão profundamente que já só existamos como puro sujeito que conhece: sentiremos imediatamente por isso mesmo que somos, nessa qualidade, a condição, por assim dizer, o suporte do mundo e de toda a existência objetiva, visto que a existência objetiva só se apresenta, a partir de agora, a título de correlativo de nossa própria existência. Puxamos assim toda a natureza para nós, tão bem que ela já nos parece ser um acidente da nossa substância. É neste sentido que [Lorde] Byron diz:

Montanhas, ondas e céu, não serão uma parte de mim mesmo, uma parte da minha alma? Não serei eu, eu também, uma parte de tudo isso?
(Childe Harold, 3, 75)

E, como poderia aquele que sente tudo isso crer-se absolutamente mortal, em contradição com a natureza imortal? Não; mas ele será vivamente penetrado por essa palavra dos Upanixades, nos Vedas:

Eu sou todas as criaturas como um todo, e fora de mim não existe nenhum outro ser.
(Upanixades, 1, 122)

***

Comentário
E ainda lhe chamam de “filósofo do pessimismo”... Ora, este que foi um dos raríssimos a quem Nietzsche chamou de mestre, grande filósofo alemão, nada mais fez do que uma leitura ocidental dos textos ancestrais da antiga Índia. O pensamento de Schopenhauer está muito acima da mera filosofia, ele se encontra até hoje ancorado em algo eterno, mas a Academia reluta em admitir a profundidade do seu misticismo – talvez por simplesmente não o haver compreendido.
Assim como Espinosa, que chegou a compreensão de que “uma substância não pode criar a si mesma”, e assim como tantos outros antes dele, Schopenhauer se deu conta de uma ideia muito simples: não existe nada fora de Deus.
Ocorre que “Deus” é ainda somente uma palavra, e palavras nada mais são do que cascas de sentimento. De nada adianta ler o filósofo alemão de forma acadêmica, é preciso uma certa poesia no olhar e na leitura, é preciso ir além das cascas das palavras. O que quer que seja que cada um compreende por “Deus”, fato é que somos todos formados por sua substância. Seja tal substância a poeira estelar que forma nosso corpo, ou elementos mais etéreos e fugidios, como o próprio pensamento, fato é que o mundo de Schopenhauer se reduz a vontade e a representação, e se disto não decorre um entendimento exato da “substância em si”, talvez tenhamos de abandonar por um momento a nossa razão, e deixar que nossa mente “se eleve pela força da inteligência, e renuncie a considerar as coisas de modo vulgar” (e, ainda aqui, ele está citando os Vedas).
Assim, quem sabe, talvez possamos quebrar um pequeno graveto de madeira, levantar uma pedra do chão, e sentir, vividamente, que também somos parte de tudo o que há. Não existe absolutamente nenhum “pessimismo” em se pensar assim. Ou melhor, talvez seja mesmo necessário o pessimismo do ego, para que o otimismo da alma possa vir, finalmente, à tona...

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Crédito da imagem: Google Image Search/SmsRead

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20.2.15

Minha vida, por Oliver Sacks

Texto de Oliver Sacks para o New York Times. Tradução de Eduardo Pinheiro. Os comentários ao final são meus.

Um mês atrás, parecia que eu gozava de boa saúde, poderia se considerar até mesmo excelente. Aos 81 anos de idade, ainda nado 1500 metros por dia. Mas minha boa fortuna já havia se esgotado – algumas semanas atrás fiquei ciente de que tenho múltiplas metástases no fígado. Nove anos atrás descobrimos que eu tinha um raro tumor no olho, um melanoma ocular. Ainda que a radiação e o uso de lasers para remover o tumor me tenha deixado cego daquele olho, apenas em casos muito raros tumores deste tipo fazem metástase. Ainda assim, estou entre os 2% que não têm sorte.

Sinto gratidão pelos nove anos de boa saúde e produtividade desde o primeiro diagnóstico, mas agora me deparo com a morte. O câncer ocupa um terço de meu fígado, e embora seu avanço possa ser desacelerado, não há como parar esse tipo particular de câncer.

É só minha a decisão de como viver os meses que me restam. Tenho que viver da forma mais rica, profunda e produtiva que conseguir. E nisso me encorajo com as palavras de um de meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao descobrir aos 65 anos de idade que uma doença o levaria à morte, escreveu uma curta autobiografia num único dia de abril de 1776. A ela ele deu o título de Minha vida.

“Neste momento me deparo com uma dissolução muito rápida,” escreveu ele. “De minha condição, sofro muito pouco com dor, e o mais estranho é que, não obstante a grande derrocada de minha compleição, nunca cheguei a sofrer um momento sequer de esmorecimento do humor. Mantenho o mesmo ardor de sempre pelo estudo, e a mesma alegria na companhia dos outros.”

Tenho sorte de passar dos 80, e os 15 anos que superaram as seis décadas e cinco anos de Hume me foram igualmente plenos de trabalho e amor. Nesse período publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um bocado maior do que as poucas páginas de Hume) a ser publicada nessa primavera; tenho vários outros livros quase prontos.

Hume continuou, “Sou ... um homem de disposições brandas, em comando do meu próprio temperamento, de humor aberto, social e alegre, dado ao apego, mas pouco suscetível à inimizade, e de grande moderação em todas minhas paixões.”

Nisso não sou como Hume. Embora eu tenha vivido relacionamentos amorosos e amizades, e não tenha inimigos verdadeiros, não posso dizer (nem ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposição branda. Pelo contrário, sou um homem de disposição veemente, de entusiasmos violentos, e extremamente desprovido de moderação com relação a todas as minhas paixões.

Ainda assim, uma frase do ensaio de Hume me é marcante como especialmente verdadeira no meu caso: “É difícil”, escreveu ele, “alguém ter mais desapego pela vida do que neste momento.”Ao longo dos últimos dias, tenho sido capaz de ver minha vida como se de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem distante, e com um sentido aprofundado da conexão entre todas as partes. E isso não significa que minha vida acabou.

Pelo contrário, me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que me sobra que eu aprofunde minhas amizades, diga adeus para aqueles que amo, escreva mais, viaje se tiver a força, e alcance novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso demandará audácia, clareza e conversas diretas; tentar acertar minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para alguma diversão (e até mesmo para alguma bobeira, sem dúvida).

Repentinamente me sinto possuidor de um foco muito claro, e de perspectiva. Não há mais tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não vou mais assistir o jornal na TV todas as noites. Não vou mais prestar atenção para política ou para argumentos sobre aquecimento global.

Não se trata de indiferença, mas de desapego – ainda me importo muito com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com o crescimento da desigualdade, mas estas coisas não estão mais na minha alçada; pertencem ao futuro. Regozijo-me ao encontrar jovens capazes – até mesmo aqueles que fizeram minhas biópsias e diagnosticaram minhas metástases. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Cada vez estou mais consciente, nos últimos 10 anos mais ou menos, das mortes de meus contemporâneos. A minha geração está de saída, e senti cada morte como uma ruptura, como se parte de mim se rasgasse. Não haverá ninguém como nós quando nos formos, mas na verdade não há ninguém que seja como outro alguém, nunca houve. Quando as pessoas morrem, são insubstituíveis. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, e morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não tenho medo. Mas meu sentimento predominante é a gratidão. Amei e fui amado; ofereci muito, e recebi algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Comuniquei-me com o mundo com a comunicação especial dos escritores e leitores.

Acima de tudo, tenho sido um ser senciente, um animal pensante, nesse belo planeta, e isso por si só foi um enorme privilégio, e uma aventura.

***

Comentário
O neurologista Oliver Sacks costuma referir-se a si mesmo como um “cientista romântico”, ele acredita que a mente não pode ser descrita de maneira mecanicista, e que a neurologia moderna só será completa quando considerar a forma icônica e sentimental com que experienciamos a consciência e armazenamos nossas memórias. Seus livros são verdadeiros dramas, descrevendo casos neurológicos sempre no contexto da vida e experiência pessoal de cada paciente. Muitos desses casos são devastadores, e somente a habilidade com a escrita (ele tem vários bestsellers no mundo todo) do autor faz com que a leitura seja pouco menos impactante do que um soco no estômago...

Sacks faz questão de destacar que cada doença é uma história, principalmente em se tratando de doenças da mente, algo ainda tão desconhecido, tão distante da visão mecanicista da ciência moderna. Em muitos casos as habilidades perdidas são compensadas por novas habilidades ganhas, o que fica muito bem explicado nos diversos casos de autistas savants descritos em seus livros – e principalmente no caso de Temple Grandin (tema principal do seu livro mais conhecido, Um antropólogo em Marte).

Com a súbita revelação de sua condição “terminal”, Sacks provavelmente ganhará muita audiência na fase final da vida, mas talvez pelos motivos errados... A morte não é, afinal, nada de novo em sua história, ou na história de qualquer um de nós. Sacks não se tornou um escritor querido no mundo todo pela forma como encarou a morte, mas pela forma como encarou e ainda encara a vida. Este estudioso do cérebro humano, mesmo sem se apoiar propriamente em nenhuma doutrina espiritualista, transcendeu as doenças e os distúrbios mais devastadores de que se tem notícia, com música, com afeto, com a tal “paixão desprovida de qualquer moderação”.

Sua partida será sentida por todos os seus leitores, amigos, pacientes e familiares, mas ele não será esquecido, pois viveu muito além das fronteiras de sua própria mente, e adentrou a vasta escuridão das mentes mais arruinadas, trazendo uma luz que vem muito mais do seu coração do que do seu conhecimento da medicina. Este sim, foi um curandeiro de almas, na acepção completa dos termos. Este sim, deixará imensa saudade. Este sim, cumpriu seu papel neste mundo.

E o que dizemos para seres assim? “Até a volta, Oliver, e obrigado por tudo!”

***

Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação

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10.2.15

É a minha metafísica, é a minha física

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro III, cap. XIII) (Cia. Das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Seja qual for o fruto que podemos tirar da experiência, o que tiramos dos exemplos estrangeiros mal servirá para nossas instituições se não tirarmos proveito da experiência que temos de nós mesmos, que nos é mais familiar: e decerto suficiente para nos instruir no que precisamos. Estudo a mim mesmo mais que a outro assunto. É a minha metafísica, é a minha física.

Por qual arte Deus governa a nossa morada, o mundo;
de onde vem a lua quando se levanta, onde ela desaparece;
e de onde, reunindo todo mês seus crescentes, torna a ser cheia;
de onde vêm os ventos que comandam o mar com o que o Eurus leva com seu sopro;
e de onde vem que, sem cessar, a água retorna às nuvens?
quando vier o dia que derrubar as alturas do mundo, procurai, vós que vos atormentais com os labores do mundo.
(Propécio, e Lucano no último verso)

Nesse universo, deixo-me manejar com ignorância e negligência pela lei geral do mundo. Hei de conhecê-la o suficiente quando a sentir. Minha ciência não pode fazê-la mudar de caminho.

[...] Os filósofos, com muita razão, remetem-nos às regras da natureza: mas elas pouco se importam com tão sublime conhecimento. Eles as falsificam e apresentam-nos da natureza um rosto pintado, colorido demais e sofisticado demais: donde nascem retratos tão diversos de um objeto tão uniforme.

Assim como a natureza nos forneceu pés para andar, assim tem sabedoria para guiar-nos na vida. Sabedoria não tão engenhosa, robusta e pomposa como a que os filósofos inventam: mas afável, fácil, sossegada e salutar. E a quem tem a felicidade de saber empregá-la simples e ordenadamente, isto é, naturalmente, ela faz muito bem o que outra diz que faz. Entregar-se o mais simplesmente à natureza é entregar-se o mais sabiamente.

Oh! como a ignorância e a desocupação são um suave, macio e saudável travesseiro para repousar uma cabeça bem formada. Eu preferiria compreender bem a mim mesmo a compreender a Cícero [filósofo romano]. Se eu fosse um bom aluno, na experiência que tenho de mim encontraria o suficiente para me tornar sábio.

Quem conserva na memória o excesso de sua cólera passada, e até onde essa febre o arrasou, vê a feiura dessa paixão melhor que em Aristóteles e nutre por ela um ódio mais justo. Quem se lembra dos males que sofreu, dos que o ameaçaram, das ocasiões irrelevantes que o fizeram passar de um estado a outro, prepara-se com isso para as mutações futuras e para o reconhecimento da sua condição.

A vida de César não é mais exemplo para nós do que a nossa. Tanto de um imperador como de um homem do povo, é sempre uma vida, à qual todos os acontecimentos humanos dizem respeito. Nós nos dizemos tudo de que mais precisamos: basta escutarmos.

Quem se lembra de ter se enganado tantas e tantas vezes sobre seu próprio julgamento não é um tolo se não adotar para sempre a desconfiança? Quando vejo que me convenci, pela razão de outro, de uma ideia falsa, o que aprendo não é tanto o que ela me disse de novo, nem é de grande proveito a minha ignorância especial, mas em geral aprendo a minha debilidade e a traição de meu entendimento, e com isso posso melhorar todo o conjunto.

Com todos os meus outros erros faço o mesmo: e sinto nessa regra grande utilidade para a vida. Não olho para a espécie de erro nem para o erro individual como uma pedra em que tropecei. Aprendo a temer meu comportamento em qualquer lugar e trato de melhorá-lo. Saber que dissemos ou fizemos uma tolice é apenas isso; precisamos aprender que não passamos de um tolo, ensinamento bem mais amplo e importante.

[...] Se cada um de nós observasse de perto os efeitos e circunstâncias das paixões que o animam, como fiz com a que me coube como quinhão, ele as veria chegarem e lhes retardaria um pouco a impetuosidade e a corrida. Nem sempre elas nos saltam ao pescoço na primeira investida, há ameaças e graus.

O julgamento ocupa em mim uma cátedra magistral, pelo menos se esforça cuidadosamente para isso. Deixa meus sentimentos seguirem seu curso: tanto o ódio como a amizade, e até a que sinto por mim mesmo, sem se alterar nem se corromper. Se não consegue melhorar a seu jeito as outras partes, ao menos não se deixa deformar por elas: faz seu jogo à parte.

O preceito para que cada um conheça a si mesmo deve ser de grande importância, posto que aquele deus da ciência e da luz mandou colocá-lo no frontispício de seu tempo [Templo de Apolo, em Delfos], como que contendo tudo o que tinha para nos aconselhar. Platão diz também que a sabedoria não é outra coisa senão a execução dessa ordem: e Sócrates a verifica detalhadamente em Xenofonte.

Só os que tiveram acesso a cada ciência percebem suas dificuldades e sua obscuridade. Pois ainda é preciso certo grau de inteligência para poder observar o que ignoramos, e é preciso empurrar uma porta para saber que ela nos está fechada.

[...] Assim, nessa ciência de conhecer a si mesmo o fato de cada um se ver tão seguro de si e satisfeito, de cada um pensar ser entendido o suficiente no assunto significa que ninguém entende nada disso, como Sócrates ensina a Eutidemo. Eu, que não professo outra coisa, nisso encontro uma profundidade e uma variedade tão infinitas que meu aprendizado não tem outro fruto além de me fazer sentir tudo quanto me resta a aprender.

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo formato literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Buscar compreender a si mesmo é a melhor forma, afinal, de compreender o pouco que seja deste mundo tão, tão vasto.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Montaigne)

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9.1.15

O Mapa Natal

Por: Colorado Teus [1]

Textos para Reflexão é o nome de uma das fontes de conhecimento que mais me interessaram desde que comecei a estudar Filosofia e Espiritualidade; o primeiro contato que tive com o blog foi através do Projeto Mayhem, como uma coluna do blog Teoria da Conspiração.

Lembro-me de sua primeira série de textos que li, chamada 4 amores. O conhecimento ao que tive contato lendo esta série foi tão bom e empolgante que “obriguei” cerca de 10 amigos a ler e a compartilhá-la, depois disso virei um fã declarado e leitor assíduo desse blog. Porém, conhecimento científico e pesquisas profundas com fontes sérias é apenas um dos pilares deste blog. A beleza com que Raph Arrais escreve é de encantar, suas construções são poéticas, suas metáforas divinas, ao lermos seu blog sempre nos deparamos com trechos incríveis como:

Como uma estrela cadente em meio a um vazio pleno de paz, como uma memória, uma imagem daquilo que será lembrado para sempre, uma vez que sempre esteve em nossa volta. O amor de todos os seres, conscientes e à beira da consciência. O amor de todos os cânticos, de todas as orações, de todas as poesias, de todos os pensamentos, colocado aos pés de uma fonte de água cristalina, que jorra em cascata preenchendo todos os átomos e todas as galáxias do Cosmos. O amor em movimento, a ponte entre um mundo de morte e um mundo de vida.” – Raph Arrais, 4 amores (parte 4)

Mas nem só do blog vive o Textos para Reflexão, esperei por um bom tempo e comprei assim que saiu o livro Ad infinitum, um livro que mudou de certa forma meu jeito de ver o mundo e, principalmente, como construir discursos para não ofender pessoas que não compartilham das mesmas crenças que eu.

Sendo assim, sinto-me lisonjeado por receber seu convite para escrever um pouco sobre o blog e sua relação com o Mapa Natal, agradeço profundamente pela oportunidade. O Mapa se refere a data e hora exatas da primeira postagem do blog (27/11/2006 às 19:33 do horário de Brasília):

Começando da parte mais baixa, o Ascendente está em Gêmeos, o que significa que a maneira como o blog se coloca no mundo físico é através de uma grande variedade de conhecimentos, é uma boa janela para a multiplicidade de áreas e interdisciplinaridade, grande capacidade comunicativa e postagens muito frequentes.

A Lua recebe as influências de Aquário e Peixes, combinação também conhecida como Rei de Copas, na casa 9, a Lua do Artista Inteligente. Esta é uma combinação excelente para a criatividade aplicada ao raciocínio lógico, para a arte premeditada e preparada. Por estar na casa 9, este aspecto tende a aparecer quando se busca uma visão profunda e filosófica sobre algum assunto, quando faltam palavras para explicar uma energia que chega através de uma nova metáfora.

Mercúrio em Escorpião na casa 5, o Mercúrio do Detetive Perspicaz, que busca os detalhes mais profundos e inacessíveis. Como mercúrio rege a comunicação, isso se manifesta como uma comunicação muito bem detalhada e esmiuçada, de forma bela e harmoniosa.

Vênus em Sagitário na casa 7, o Vênus do Amante Filósofo, que busca o melhor de cada situação, eleva o astral de onde quer que esteja e tenta reunir partes que se sentem separadas.

Sol em Sagitário na casa 6, o Sol do Filósofo, a essência deste grupo é a Filosofia, o amor pela vida e pelo conhecimento. A busca de sentido e de compreensão de tudo ao redor é uma força primordial desta combinação, a utopia aqui é o esclarecimento sobre a importância da equidade e da justiça para uma vida harmônica e livre. Como está na casa 6, esta energia se manifesta através da perfeição e da lógica.

Marte em Escorpião na casa 6, o Marte do Guerreiro Intenso, aquele que persegue seus objetivos de maneira implacável e ultra diligente.

Júpiter recebe a influência tanto de Escorpião quanto de Sagitário, energia também conhecida como Rei de Paus, o Guru Filósofo, aquele que traz algo totalmente novo para a humanidade. Na casa 6 significa que este novo conhecimento terá suas melhores oitavas quando forem aplicáveis à rotina e ao dia-a-dia.

Plutão recebe a influência tanto de Sagitário quanto de Capricórnio, energia também conhecida como Rainha de Moedas, a Administradora, na casa 7. A imagem aqui seria uma vilã que vive cobrando aluguel, impostos, etc. Esta combinação indica que os maiores desafios que este blog precisa enfrentar é o de desenvolver sua essência para ajudar na melhoria dos relacionamentos das pessoas em questões físicas e burocráticas.

Saturno em Leão na casa 3, o Saturno do General Autêntico. Esta combinação indica dificuldades com o excesso de autoconfiança e orgulho, mas, quando bem desenvolvida, alguém que não foge forçadamente de seus princípios e valores mesmo perante a morte.

Urano em Peixes na casa 9, o Urano do Pai Bondoso, aquele que nunca deixa faltar aos outros o que tem para si, pois é capaz de doar sem o menor apego. Na casa 9 indica que o que mais tem para doar está ligado à área da Filosofia e Espiritualidade.

Para terminar, Netuno em Aquário na casa 9, o Paraíso para este blog é um local onde se vibra União e Filosofia, um local em que todos podem entrar e expor suas ideias sendo tratados igualmente.


Ao Textos para Reflexão e ao Raph Arrais meus sinceros agradecimentos por tudo que me proporcionaram em questões de conhecimento, amizade, apoio, auxílio e, principalmente, esperança por um mundo melhor. Apoio totalmente tudo que vem deste blog e vibro em sua direção minhas melhores energias.

Vai dar certo!


Comentário
Enquanto refletia sobre o tema do segundo volume do Livro da Reflexão, uma inspiração surgiu e praticamente me “ordenou” a pedir esta análise ao meu amigo Colorado Teus, que claramente tem muitas capacidades nesta área da astrologia hermética.

Para mim, que pouco entendo do assunto, é quase assustador como um Mapa bem interpretado pode se tornar um verdadeiro espelho de um momento do Cosmos, e de como aquele momento carrega sementes cheias de potencial de florescimento. Hoje, pouco mais de 8 anos depois, não tenho dúvida de que algumas dessas sementes têm germinado em solo fértil...

Vocês também fazem parte deste jardim!

raph

***

[1] Colorado Teus é um dos autores do blog Queremos Querer, colunista do Teoria da Conspiração e palestrante na área da espiritualidade.

Crédito das imagens: raph

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16.12.14

Deus, segundo as crianças

Nesta reportagem especial para a revista Serafina, da Folha de São Paulo, Ana Virginia Balloussier e Gabriel Cabral foram atrás de 9 crianças brasileiras, de 9 diferentes religiões, para através delas aprenderem um pouco mais sobre Deus. Nada mais sensato, afinal foram elas que acabaram de chegar da mansão do amanhã, e talvez a sua memória esteja mais aguçada que a nossa...

Clique na imagem para assistir o vídeo da reportagem em uma nova janela (caso não abra a janela, clique aqui):

Onde está seu Deus agora? Bom, depende.

Enquanto o Pai Nosso da católica Beatriz vive dentro de um coração, o da rastafári Núbia habita um deserto com montanha e cachoeira.

Deus é a atração principal do teatro, na visão do judeu Luke. Às vezes Deus é ela – a orixá que protege a aspirante a mãe de santo Manuella.

No censo do IBGE de 2010, a maioria dos brasileiros (64%, ou 123 milhões), diz ser "católica apostólica romana".

Mas quem tem fé nem sempre vai a Roma. Em segundo e terceiro lugar, estão os evangélicos (42 milhões, ou 22%) e os espíritas (3,8 milhões, 2%). E existe uma leva considerável de 643 mil brasileiros que declararam múltipla religiosidade.

Convidamos nove crianças de religiões distintas para desenhar o divino. Cada um por si e Deus para todos.


"Não tem um Deus físico. Deus é tudo e tudo é Deus. Ele é feito de luz. O arco-íris, no budismo, representa uma pessoa com coração iluminado"

Ariom Scheffler, 11, budista

***

"Oxum é a santa que me protege. Ela tá no mato, para curtir a vida. Uma professora uma vez contou que um lobo ia na porta da criança que não é batizada [como cristã]. Fiquei com medo, chorando"

Manuella Araújo da Costa, 10, candomblé

"Para nós não tem inferno, só céu. Assim: vamos fingir que você está no teatro. Se foi uma muito boa pessoa, ficaria na frente, mais perto de Deus. Se foi uma ruim pessoa, ficaria lá atrás"

Luke Saul Jospa, 9, judaísmo

***

"Sonhei que Jah estava no deserto e fazia todas as pessoas ficarem felizes. Ele é o meu coração e fica batendo em todos os momentos. Peço a Jah que o mundo fique bem limpinho"

Núbia Selassie Cestari Granello, 6, rastafári

"Deus é tudo para mim. Peço para Ele deixar chover, mas algumas vezes não penso na água. Penso em jogar Nintendo DS"

Mohamed Hussein Abid Ali, 8, muçulmano

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"Deus nos ama e nos ilumina. Ele me ajuda quando alguém briga comigo. Teve uma confusão na escola, e a professora disse que eu participei, mas só estava lá comendo meu lanche"

Pietra Hanna Castanho, 10, evangélica

"Desenhei o mestre Gabriel, o nosso guia. É muito legal beber [ayahuasca]. Tem gente que vomita, mas eu não sinto medo, sinto amor. E vontade de rir muito! Já vi árvores falando comigo"

Darah Cally Patrício, 8, União do Vegetal (dissidência do Santo Daime)

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"No antigo tempo, não cortavam cabelo, então Deus tem o cabelo longo. Hoje Ele tá no meio do coração de todo mundo. Eu rezo para Ele deixar a gente ficar com o recreio um pouquinho maior"

Beatriz Dias Samuel, 8, católica

"Deus criou a borboleta. Ela é bonita e feliz. Começa como se fosse um bicho horroroso, gosmento, e vira uma borboleta linda. É como o espírito que reencarna: você vai crescendo e evoluindo"

Clara Veiga Carvalho, 10, espírita

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Crédito das fotos: Gabriel Cabral (o desenho na última imagem é de Clara Veiga Carvalho)

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31.10.14

Filosofar é aprender a morrer

Trechos de Michel de Montaigne em Os Ensaios (Livro I, cap. XIX) (Cia. das Letras/Penguin). Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. Os comentários ao final são meus.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. É assim porque, de certo modo, o estudo e a contemplação retiram nossa alma de nós e a ocupam separada do corpo, o que constitui certo aprendizado da morte e tem semelhança com ela; ou então, é porque toda a sabedoria e a razão do mundo se concentram, afinal, nesse ponto de nos ensinar a não ter medo de morrer. Na verdade, ou a razão está escarnecendo de nós ou seu objetivo deve ser apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve tender, em suma, a fazer-nos viver bem e a nosso gosto, como dizem as Sagradas Escrituras.

Todas as opiniões do mundo chegam à conclusão de que o prazer é nosso objetivo, conquanto adotem meios diversos, do contrário as rejeitaríamos de início. Pois quem escutaria aquele que estabelecesse como objetivo nosso pesar e sofrimento? As discussões das escolas filosóficas, nesse caso, são verbais. Passemos por essas bagatelas tão solertes (Sêneca). Há aí mais teimosia e pirraça do que convém a uma nobre profissão. Mas, seja qual for o personagem que o homem adote, ele sempre representa, de permeio, o seu. Digam o que disserem, na própria virtude o objetivo último que visamos é a volúpia.

Agrada-me manter os ouvidos das pessoas com essa palavra que as contraria tão fortemente: e se ela significa um deleite supremo e extremos contentamento, é uma melhor acompanhante para a virtude do que qualquer outra coisa. Por ser mais viva, nervosa, robusta, viril, essa volúpia é mais seriamente voluptuosa.

[...] A felicidade e a beatitude que reluzem na virtude preenchem todas as suas dependências e avenidas, da primeira entrada até sua última barreira. Ora, um dos principais benefícios da virtude é o desprezo pela morte, o que fornece à nossa vida a mansa tranquilidade, dá-nos seu gosto puro e benfazejo sem o qual todo outro prazer está extinto. [...] Pois se a morte nos amedronta, é um contínuo motivo de tormento que nada consegue aliviar. Não há lugar onde ela não nos venha. Podemos virar incessantemente a cabeça para cá e para lá, como em terra suspeita: ela é como o rochedo sempre suspenso sobre Tântalo (Cícero).

[...] Amedrontamos nossa gente só em mencionar a morte, e a maioria se persigna, como diante do nome do diabo. [...] Porque essas sílabas atingiam muito rudemente seus ouvidos, e porque essa palavra lhes parecia de mau agouro, os romanos aprenderam a suavizá-la ou diluí-la em perífrases. Em vez de dizer “ele morreu”, dizem “ele parou de viver”, ou “ele viveu”. Consolam-se,  contanto que seja vida, ainda que passada.

[...] Jovens e velhos abandonam a vida da mesma maneira. Dela ninguém sai de outro jeito senão como se tivesse entrado naquele instante, acrescentando-se a isso que não há homem tão decrépito que não pense ainda ter vinte anos no corpo enquanto enxergar Matusalém diante de si. E ademais, pobre louco que és, quem te fixou os prazos da vida?

[...] É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la em toda parte. Meditar previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer liberta-nos de toda sujeição e imposição. [...] Por mim mesmo, não sou melancólico mas sonhador: não há nada de que me haja ocupado desde sempre como dos pensamentos sobre a morte, e até na época mais licenciosa de minha vida, entre as damas e os jogos, julgavam-me ocupado em digerir comigo mesmo algum ciúme ou a incerteza de uma esperança, enquanto eu pensava em não sei quem que fora surpreendido dias antes por uma febre alta, e em seu fim ao sair de uma festa parecida, com a cabeça cheia de ócio, amor e bons momentos, como eu: e eu mesmo martelava em meus ouvidos:

O presente já terá passado e nunca mais poderemos chamá-lo de volta (Lucrécio).

[...] Como sou homem que continuamente está incubando sues pensamentos e guardando-os dentro de si, a qualquer momento estou preparado, tanto quanto possa estar, e nada de novo me anunciará a chegada inesperada da morte. Devemos estar sempre com as botas calçadas e prontos para partir, tanto quanto de nós dependa, e sobretudo nos precavermos para que então só tenhamos de tratar conosco mesmos. Pois temos bastante trabalho sem outra sobrecarga. Um se queixa, mas que da morte, de que ela lhe interrompe o curso de uma bela vitória; outro, que deve partir antes de ter casado a filha, ou controlado a educação dos filhos; um sente falta da companhia da mulher, outro, do filho, que eram os principais confortos de sua existência. Por ora estou em tal situação, graças a Deus, que posso me ir quanto Lhe aprouver, sem me lamentar de coisa nenhuma.

Desligo-me de tudo: minhas despedidas de cada um estão quase feitas, exceto de mim. Nunca um homem se preparou para deixar o mundo mais pura e plenamente, e desapegou-se mais completamente do que eu tento fazer. As mortes mais mortas são as mais saudáveis.

[...] Que importa quando será nossa morte, já que é inevitável? Àquele que dizia a Sócrates: “Os trinta tiranos te condenaram à morte”, ele respondeu: “E a natureza a eles”. Que tolice nos atormentarmos no momento em que se dá a passagem à isenção de todo o tormento! Assim como nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim nossa morte trará a morte de todas as coisas.

[...] A morte não vos diz respeito nem morto nem vivo. Vivo, porque existis: morto, porque não mais existis. Ademais, ninguém morre antes de sua hora. O tempo que abandonais não era mais vosso que o tempo que se passou antes de vosso nascimento: e tampouco vos toca. Onde quer que vossa vida acabe, ela está toda aí. A utilidade do viver não está na duração: está no uso que dele fizemos. Uma pessoa viveu muito tempo e pouco viveu. Atentai para isso enquanto estais aqui. Ter vivido bastante está em vossa vontade, não no número dos anos. [...] Tudo não se mexe como vos mexeis? Há coisa que não envelheça convosco? Mil homens, mil animais e mil outras criaturas morrem neste mesmo instante em que morreis.

Pois nenhuma noite sucedeu ao dia, nenhuma aurora à noite em que não se ouviram, misturadas aos tristes vagidos, as lágrimas acompanhando a morte e os negros funerais (Lucrécio).

***

Comentário
Herdeiro da fortuna do avô, um rico comerciante de peixes da região de Bordeaux (na França), Michel se recolhe à vida privada com cerca de 38 anos, o que naquela época (séc. XVI) já era considerado uma idade relativamente avançada. Nos pouco mais de 20 anos que o separavam da morte, Michel dedicou-se inteiramente a contemplação do mundo e do tempo na vizinhança do seu castelo em Montaigne, tendo produzido as cerca de mil páginas dos seus Ensaios, que inauguraram um novo estilo literário.
Conforme discorreu sobre quase tudo, sem ser um especialista em nada, Michel é quase um Sócrates renascido que, na falta de um séquito de jovens questionadores, optou por se recolher a uma vida literária. Não que houvesse se tornado um ermitão, pelo contrário: foi exatamente da sua própria vida e das suas próprias amizades e experiências que retirou a matéria prima dos seus Ensaios.
De certa forma, Michel também foi o primeiro blogueiro da história. E, na medida em que procurou escrever antes para si mesmo, sem jamais imaginar a fama que seus escritos alcançariam, particularmente séculos após sua vida, Michel também nos dá uma lição profunda acerca dos reais motivos pelos quais os verdadeiros filósofos tingem as suas folhas em branco, ou os campos vazios das postagens dos seus blogs... Meditar sobre a morte é a melhor forma, afinal, de encontrar a fonte da vida.

***

Crédito da imagem: Google Image Search (foto da estátua de Montaigne em frente da Universidade de Sorbonne, em Paris)

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23.9.14

Emma Watson e a igualdade de gêneros: "Se não agora, quando?"

O discurso integral de Emma Watson na ONU, para o lançamento da campanha pró-feminismo HeForShe. Tradução de Nathália Campos (via Facebook).


Hoje estamos aqui lançando a campanha HeForShe. Eu estou falando com vocês porque precisamos de ajuda. Queremos acabar com a desigualdade de gêneros - e pra fazer isso, todo mundo precisa estar envolvido.

Essa é a primeira campanha desse tipo na ONU. Precisamos mobilizar tantos homens e garotos quanto possível para a mudança. Não queremos só falar sobre isso. Queremos tentar e ter certeza que é tangível.

Eu fui apontada como embaixadora da boa vontade para a ONU Mulheres há seis meses e quanto mais eu falava sobre feminismo, mais eu me dava conta que lutar pelos direitos das mulheres muitas vezes virou sinônimo de odiar os homens. Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que isso tem que parar. Para registro, feminismo, por definição é a crença de que homens e mulheres devem ter oportunidades e direitos iguais. É a teoria da igualdade política, econômica e social entre os sexos.

Eu comecei a questionar as suposições baseadas em gênero quando eu tinha oito anos, fui chamada de mandona porque eu queria dirigir uma peça para nossos pais - mas os meninos não foram.

Aos quatorze anos, fui [precocemente] sexualizada por membros da imprensa. Com quinze anos, minhas amigas começaram a sair dos times esportivos porque não queriam parecer masculinas. Aos dezoito, meus amigos homens não podiam expressar seus sentimentos.

[Então] eu decidi que eu era uma feminista. Isso não parecia complicado pra mim. Mas minhas pesquisas recentes mostraram que feminismo virou uma palavra não muito popular. Aparentemente, eu estou entre as mulheres que são vistas como muito fortes, muito agressivas, anti homens, não atraentes...

Por que essa palavra se tornou tão impopular? Eu sou da Inglaterra e eu acho que é direito que me paguem o mesmo tanto que meus colegas de trabalho do sexo masculino. Eu acho que é direito tomar decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho que é direito que mulheres estejam envolvidas e me representando em políticas e decisões tomadas no meu país. Eu acho que é direito que socialmente, eu receba o mesmo respeito que homens. Mas infelizmente, eu posso dizer que não existe nenhum país no mundo em que todas as mulheres possam esperar ver esses direitos. Nenhum país do mundo pode dizer ainda que alcançou igualdade de gêneros. Esses direitos são considerados direitos humanos, mas eu sou uma das sortudas.

Minha vida é de puro privilégio porque meus pais não me amaram menos porque eu nasci filha. Minha escola não me limitou porque eu era menina. Meus mentores não acharam que eu poderia ir menos longe porque posso ter filhos algum dia. Essas influências são as embaixadoras na igualdade de gêneros que me fizeram quem eu sou hoje. Eles podem não saber, mas são feministas necessários no mundo de hoje. Precisamos de mais desses.

Não é a palavra que é importante. É a ideia e ambição por trás dela, porque nem todas as mulheres receberam os mesmos direitos que eu. De fato, estatisticamente, muito poucas receberam. Em 1997, Hillary Clinton fez um famoso discurso em Pequim sobre direitos das mulheres. Infelizmente, muito do que ela queria mudar ainda é verdade hoje. Mas o que me impressionou foi que menos de 30% da audiência era masculina. Como nós podemos efetivar a mudança no mundo quando apenas metade dele é convidada a participar da conversa?

Homens, eu gostaria de usar essa oportunidade para apresentar o convite formal. Igualdade de gêneros é seu problema também. Até hoje eu vejo o papel do meu pai como pai ser menos válido na sociedade. Eu vi jovens homens sofrendo de doenças, incapazes de pedirem ajuda por medo de que isso os torne menos homens - de fato, no Reino Unido, suicídio é a maior causa de morte entre homens de 20-49 anos, superando acidentes de carro, câncer e doenças de coração. Eu vi homens frágeis e inseguros sobre o que constitui o sucesso masculino. Homens também não tem o benefício da igualdade.

Nós não queremos falar sobre homens sendo aprisionados pelos estereótipos de gênero, mas eles estão. Quando eles estiverem livres, as coisas vão mudar para as mulheres como consequência natural. Se homens não tem que ser agressivos, mulheres não serão obrigadas a serem submissas. Se homens não tem a necessidade de controlar, mulheres não precisarão ser controladas.

Tanto homens quando mulheres deveriam ser livres para serem sensíveis. Tanto homens e mulheres deveriam ser livres para serem fortes. É hora de começar a ver gênero como um espectro ao invés de dois conjuntos de ideais opostos. Deveríamos parar de nos definir pelo que não somos e começarmos a nós definir pelo que somos.

Todos podemos ser mais livres e é isso que HeForShe é sobre. É sobre liberdade. Eu quero que os homens comecem essa luta para que suas filhas, irmãs e esposas possam se livrar do preconceito, mas também para que seus filhos tenham permissão para serem vulneráveis e humanos e fazendo isso, sejam uma versão mais completa de si mesmos.

Você pode pensar: “Quem é essa menina de Harry Potter? O que ela está fazendo na ONU?”. É uma boa questão e, acreditem em mim, eu tenho me perguntado a mesma coisa. Não sei se sou qualificada para estar aqui. Tudo que eu sei é que eu me importo com esse problema e eu quero melhorar isso. E tendo visto o que eu vi e sendo apresentada com a oportunidade, eu acho que é minha responsabilidade dizer algo. Edmund Burke disse: “Tudo que é preciso para que as forças do mal triunfem é que bons homens e mulheres não façam nada.”

Com os nervos a flor da pele por conta deste discurso e em um momento de dúvida eu disse pra mim mesma: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Se você tem as mesmas dúvidas quando apresentado uma oportunidade, eu espero que essas palavras possam ajudar.

Porque a realidade é que se a gente não fizer nada, vai demorar 75 anos, ou até eu ter quase 100 anos antes que mulheres possam esperar receber o mesmo tanto que os homens no trabalho. 15,5 milhões de garotas vão se casar nos próximos 16 anos como crianças. E nas taxas atuais não vai ser até 2086 que todas as crianças da África rural poderão receber educação fundamental.

Se você acredita em igualdade, você pode ser um desses feministas “sem saber” sobre os quais eu falei mais cedo. E por isso, eu te aplaudo.

Estamos lutando, mas a boa notícia é que temos a plataforma. É chamada HeForShe. Eu convido você a ir em frente, ser visto e se perguntar: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”

Obrigada.

***

» Veja o discurso no YouTube (em inglês)

Crédito da imagem: Divulgação/HeForShe/ONU

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29.8.14

Os deuses esquecidos

Trechos do artigo original de Lupa Greenwolf (The Forgotten Gods of Nature) publicado em patheos.com. Tradução de Rafael Arrais.


Quando você pensa nos deuses da natureza, quem você imagina? Você imagina o Lorde Wicca ou a Dama (também amada por muitos pagãos não-wicanos), ela uma mulher de cabelos longos entrecruzados com videiras, frutas e grãos, ele um homem peludo e corpulento, acompanhado por grandes mamíferos selvagens? Você imagina Artémis ou Diana, caçadoras e donzelas e portadoras da lua? Ou talvez Gaia, grávida da própria Terra? Eu aposto que em nove de cada dez tentativas, a primeira divindade que pensou tomou uma forma humana, feminina ou masculina ou andrógina, mas quase certamente refletindo a sua própria imagem.

Mas eu quero lhe contar sobre os deuses esquecidos da natureza, aqueles cujas histórias nunca foram postas em papel porque os seus seguidores jamais escreveram sequer uma palavra ao longo da vida. Eu quero lhe contar sobre os deuses que se recusaram a abandonar suas formas naturais e juraram nunca se curvar ao macaco humano arrogante. Eu quero lhe contar sobre os deuses abaixo de seus pés, escondidos nas árvores, aninhados nas pedras dentre córregos ligeiros, assim como daqueles que cavalgam as brisas acima das nuvens e nunca se enraizaram na terra. Deixe-me lhe cantar algumas canções sobre divindades sem nome, todas apagadas pela ascensão das mulheres e dos homens e dos deuses humanos que eles nos trouxeram.

[...] Eu canto para você sobre o deus ventania da família do Pinheiro, cujas gerações dependem da sua brisa calma e agradável, mas que também podem ser arrancados do solo e tombados pela sua terrível tempestade. Eu canto para você sobre as orações sussurradas através das agulhas entrelaçadas e soltas em gentis redemoinhos de ar, clamando para que o deus dos ventos possa ser clemente nas tempestades primaveris e nas nevascas do inverno, nas noites frias do outono e nas chuvas repentinas do verão. Pois é ele o deus quem decide quais linhagens de árvores seguirão para o futuro, e é o seu vento caprichoso que transporta o pólen em segurança até a pinha – ou até o solo estéril, para que morra. E é também ele o deus quem carrega os troncos para longe em terrível cólera, deixando um de pé, e arrancando o seu companheiro de floresta num instante.

Eu canto para você sobre os panteões dos micetozoários e das amebas, estranhos e sem sexo, ao mesmo tempo mil vozes e somente um eco unificado. Eu canto para você sobre os tempos difíceis quando a madeira do mundo-tronco já apodreceu e o sol cozinha o solo, e enquanto morrem individualmente, conjuntamente perduram. As divindades requerem sacrifícios, as mil vozes em coro bradam por morte. Alguns morrem para dar luz aos demais, que fomentam a próxima geração para que possam se espalhar cada vez mais longe – estes se tornam uma parte de sua lista de santos, com vozes imortalizadas não em células, mas em espírito.

[...] Eu canto para você sobre o Criador dos peixes-palhaço, que pela manhã é um deus, e ao meio-dia brilha incandescente do mundo do alto, e que pela tardinha é uma deusa, que lança suas ovas ao aproximar da noite, e morre, apenas para renascer novamente como um deus na manhã vindoura. Eu canto para você sobre os seres submarinos que guardam vigília a cada noite, ansiosamente aguardando o retorno de seu Criador junto a luz, e acalmando os aflitos que se amontoam nas cavernas coraladas, em sua pouca fé.

[...] Eu canto para você sobre as incontáveis hostes divinas das formigas. Eu canto para você da grande deusa guerreira, e dos vigaristas que ambicionam tomar o seu poder. Todas as formigas conhecem a história da Grande Deusa Rainha, que arrancou as asas de seu rei quando ele ameaçou usurpar seu trono, e o arremessou a terra para morrer, para que ela pudesse reinar solitária em meio a sua hoste de devotos.

Eu canto para você sobre o Um e Muitos da família dos bambus, que é ao mesmo tempo todos os bambus e cada bambu. Eu canto para você sobre a dança do Um e Muitos, que cresce e cresce e cresce, e sempre se torna cada vez mais, e nunca se torna mais. Apenas uma vez a cada século, quando as estrelas se alinham nos lugares certos, é que o Um e Muitos se torna a Flor que Mata, e é dito que todos deverão morrer quando ela florescer, pois quem está vivo ainda hoje que se lembra disso de alguma outra forma? Mas dos restos mortais nos bambuzais, Um e Muitos crescerá novamente, e ressuscitará os mortos, que serão livres da memória de suas vidas passadas, para que possam crescer novos e sadios.

[...] Eu canto para você os cânticos de vitória dos deuses que reinam ainda hoje, os deuses dos lobos e dos cogumelos, dos carvalhos e das abelhas, e da corajosa e solitária deusa dos celacantos. Eu deixo para os que virão após mim a tarefa de cantar as canções dos deuses que ainda estão para nascer neste mundo – longo seja o seu reinado e o seu cuidado sobre o seu séquito.

Mas eu ainda canto para você sobre muitos outros deuses, deuses dos ventos e da água, deuses de cada mineral e dos eventos que os criaram. Eu canto para você sobre os deuses dos prótons, dos quarks, das forças atômicas que mantém os elétrons em suas órbitas. Eu canto para você sobre o deus da poeira cujas mensagens podem ser vistas nos cometas gelados a cruzar o espaço – e o próprio espaço é ainda um outro deus. Eu canto para você sobre o deus que serpenteia ao centro de cada sol, e que é visto novamente fundido em cada átomo. Eu canto para você acerca do vasto deus que coleciona asteroides para zombar dos sistemas solares de sua irmã mais velha, invejoso do seu poder. Eu canto para você de todos estes deuses, e de muitos, muitos mais...

São estes, portanto, os deuses sem nome, os deuses esquecidos, estes que se assentam na sombra dos panteões dos deuses humanos. Quando falar acerca dos deuses da natureza, não se esqueça deles. Quando falar acerca dos deuses da natureza, lembre-se de que a natureza não existe apenas em formas humanas – tampouco o Divino. Pois estes são deuses que residem muito além da imaginação daqueles que tingiram as paredes das cavernas ou escreveram em pergaminhos, deuses cujos nomes jamais foram pronunciados por vozes humanas, e cujas canções jamais alcançaram o ouvido de nenhuma mulher e de nenhum homem.

***

Crédito da foto: Tula Ben Ari

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6.7.14

As cartas de Deus

Poema de Walt Whitman em "Folhas de Relva" (Ed. Martin Claret). Tradução de Luciano Alves Meira. O comentário ao final é meu.


Eu disse que a alma não é mais do que o corpo,
e disse que o corpo não é mais do que a alma,
e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo,
e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral vestindo sua mortalha,
e eu ou tu sem um centavo no bolso podemos comprar a nata da terra,
e vislumbrar com um olho, ou apresentar um grão na sua vagem, confundindo o conhecimento de todas as eras;
e não há negócio ou emprego em que um jovem, seguindo carreira, não possa se tornar um herói;
e não há objeto que seja tão delicado que não posso funcionar como o centro em que se ligam todas as rodas que movem o Universo;
e digo para qualquer homem ou mulher, “Deixe que sua alma esteja tranquila e íntegra perante um milhão de universos.”

E digo para a humanidade, “Não tenha curiosidade sobre Deus”,
pois eu que sou curioso sobre todas as coisas não tenho curiosidade alguma sobe Deus.
(Não há uma gama de termos grande o suficiente com a qual eu possa dizer o quanto estou em paz sobre Deus e sobre a morte.)

Ouço e observo Deus em todos os objetos e ainda assim não compreendo Deus minimamente;
não posso compreender quem possa haver que seja mais maravilhoso do que eu.

Por que eu deveria ver Deus melhor do que este dia?
Eu vejo algo de Deus a cada hora das vinte e quatro horas do dia, e a cada momento,
nos rostos dos homens e mulheres eu vejo Deus, e em minha própria face no espelho;
encontro cartas de Deus espalhadas pelas ruas e todas elas são assinadas por Ele,
e deixo-as ficar onde se encontram, pois sei que onde quer que vá,
outras virão pontualmente – para toda a eternidade.

***

Grandes místicos e poetas não precisam ir longe para encontrar a Deus, e tampouco têm curiosidade sobre tal encontro.
Eles quebram um galho seco, removem uma pedrinha do lugar, observam a relva que preenche os campos, e não estão curiosos acerca do mistério divino.
Eles vivem este mistério, e leem a assinatura divina em cada pequeno pedacinho do Cosmos.
E eles vivem isto neste momento, pois não poderia haver outro.
E eles sabem que estão em Deus e Deus está neles, pois não haveria nenhum outro lugar onde um ou outro pudessem estar.
Não há neste vasto Universo, tampouco num milhão deles, alguém tão maravilhoso quanto você.
Não há nenhum grande herói ou vilão dos mitos de outrora que não seja você mesmo, e não há nenhum deus que não contemple a humanidade inteira.
De fato, não há nenhum deus além deste que sempre esteve ainda mais próximo de ti do que o seu próprio olho.
Não há, enfim, uma gama de termos grande o suficiente para descrever o que Walt Whitman sentia no momento em que escreveu tais palavras.
E palavras são somente as cascas do que se sentiu, os rascunhos da Eternidade, a flutuar pelos campos como as folhas secas carregadas pelo vento outonal...
Você pode ler suas assinaturas?

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Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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