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22.6.15

Olhos Azuis

Foi numa escola da pacata cidade de Riceville, no interior do estado de Iowa, nos Estados Unidos, que um dos experimentos sociológicos mais impactantes e esclarecedores do século passado foi primeiramente implementado em crianças, e nem mesmo Jane Elliott poderia prever a forma como ele moldaria as vidas de todos naquela classe infantil.

Era 5 de abril de 1968, e o célebre ativista dos direitos humanos, Martin Luther King Jr., acabara de ser assassinado no dia anterior. Jane pensou em como poderia ensinar sobre os efeitos devastadores do racismo na sociedade americana da época, e elaborou um experimento que duraria todo o dia de aula, onde as crianças (todas elas brancas, como Jane) seriam obrigadas a sentir na pele, ainda que de forma branda e temporária, o que significava exatamente ser um negro na sociedade da época.

Jane decidiu que as crianças de olhos castanhos seriam "inferiores", e deveriam usar uma espécie de colar pelo resto do dia de aula. Então, a professora passou o resto do dia incentivando os alunos de olhos azuis ou verdes, e descriminando os que usavam os colares... Ela mesma não sabia o que poderia ocorrer, mas aquele dia se tornou ao mesmo tempo traumático e inesquecível para boa parte dos seus alunos.

Desde então Jane teve de conviver com a raiva da maioria dos moradores da cidade, seus filhos foram importunados por boa parte da vida escolar, o restaurante dos seus pais fechou as portas por falta de clientes etc. Mas Jane não se arrependeu, não desistiu, pois ela compreendeu que havia tocado fundo na ferida, e que precisava seguir em frente se quisesse realmente fazer alguma diferença na conscientização das pessoas para este problema que, tantas vezes, é ignorado ou tratado como "algo de menor importância", ao menos pelo grupo dominante.

No documentário Blue Eyed (Olhos Azuis), que podemos assistir abaixo na íntegra, vemos como décadas depois o experimento de Jane ainda continua atual e impactante, mesmo quando aplicado a "adultos brancos de olhos azuis", em plena Nova York... Na cerca de uma hora e meia de filme, vemos como muitos adultos da classe dominante jamais tiveram alguma ideia de como é passar uma tarde sendo tratado como "inferior". Acredito que toda a experiência por que passaram foi muito importante para que passassem a enxergar o racismo pelo que ele realmente é, em essência: uma grandiosa e persistente ignorância.

Mas a grande questão é, "Terá mudado alguma coisa de 1968 para cá?". Sim, mudou, e para melhor, como deve ser... No entanto, como infelizmente costuma ocorrer, se trata de uma mudança lenta, lenta demais. Poderíamos erguer um céu de irmandade e tolerância neste mundo, mas para tal ainda falta nos livrarmos das travas da ignorância, uma reflexão de cada vez. Para você, também pode começar hoje:

Ao final da Segunda Guerra, quando eles limpavam os campos de concentração na Alemanha, um ministro luterano disse: "Quando se voltaram contra os judeus, eu não era judeu e não fiz nada. Quando se voltaram contra os homossexuais, eu não era homossexual e não fiz nada. Voltaram-se conta os ciganos e também não fiz nada. Quando se voltaram contra mim, não havia mais ninguém para me defender." Pensem sobre isso... (Jane Elliott)

***

Crédito da foto: Google Image Search/Divulgação (Jane Elliott)

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2 comentários:

Blogger Lapso disse...

Incrível demais! É engraçado o tanto de coisas que erguemos em cima da ignorancia e as consequencias que surgem... Salvei o documentário pra ver depois.

24/6/15 14:56  
Blogger raph disse...

Vale cada minuto :)

24/6/15 23:44  

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Toda reflexão é bem-vinda:

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