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2.6.15

A ascensão de Fernando Pessoa

Quanto mais se pensa que sabia de Fernando Pessoa, quanto mais se investigam seus heterônimos, seus escritos deixados em velhos baús e, principalmente, o misticismo latente de sua vasta obra poética, mais se desvela, mais luz do Alto nos chega refletida em tremenda pureza!

Neste vídeo do programa Presença e Harmonia, da AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz, a qual Pessoa dedicou direta ou indiretamente diversos poemas), Frater Fabio Mendia – doutorando de ciências da religião e pesquisador da obra pessoana – recita e analisa com muita propriedade este que é um dos poemas ainda desconhecidos de Pessoa, e que circula principalmente entre o meio esotérico, por conta da sua abissal profundidade mística.

Como este poema não é encontrado nem mesmo nos mais conhecidos arquivos online da obra pessoana, encontrei somente alguns trechos dele na internet, no que fui obrigado a preencher as lacunas somente por ouvir a recitação de Mendia. Portanto, não devem tomar o texto abaixo como final, embora esteja tão próximo quanto possível.

É bem claro que o sentido profundo deste poema pode ser inalcançável pelos não iniciados nos caminhos espirituais, e é exatamente por isso que recomendamos enormemente que vejam as explicações de Mendia no vídeo antes de iniciar a sua leitura (ou releitura)...

Obs.: ele inicia a leitura do poema em 6:45

***

[Morning star (Estrela da manhã)]

I. A dúvida

Depus, cheio de sombra e de cansaço,
As armas da magia entre onde estão
Os livros sacros com quem tive o laço
Que dá à alma a Força e a Visão.
Ai, não pude depor meu coração!

Quão alto fui para o que todos são!
Quão baixo para quanto quis em mim!
Vi e toquei o que a outros é visão
Em sombras ou desejos, vaga e escura,
Na confusão da confusão sem fim.
Sou hoje minha própria sepultura.
Tenho deserto e alheio o coração.

Quantos, com longo estudo e fiel vontade,
Tentam pisar as sendas do Poder,
Sem que sintam uma única verdade,
Sem que invocado espírito apareça,
Sem que o dominem, se é aparecido,
Sem que sintam, como eu, sobre a cabeça,
A coroa dos magos – ah, mas essa,
Se é de glória no nítido esplendor,
É de espinhos no íntimo sentido.

Por mais alto que o mago suba e atinja
O comércio com os Anjos que há no além,
E da cor lívida do além se tinja,
Que mais que os outros que aqui dormem tem?

Se a ilusão, os símbolos e a sombra
São o que tudo rege,
Regerão o mesmo além que o nosso esforço empana
Com que delusão assim sem sombra?

Se tudo que nos fala nos engana
Por que é que os Anjos não enganarão?


II. A desilusão da razão

Vi Anjos, toquei Anjos, mas não sei
Se Anjos existem
. Tal me achei ao fim
Desse caminho de que regressei
E vi que nunca sairei de mim.

Vã ciência!
Ainda que aqui no rito certo
Os Anjos certos viessem a chamada,
Servos da invocação que os trouxe perto,
Mestres do templo que lhes foi a estrada...

Arte vã!
Pois tudo ainda em que há obtido
Deixas névoas que somos tais quais são,
Sem mais que uma presença sem sentido,
Passando como um cheiro, ou um ruído,
Nas câmaras rituais de ilusão.

Anos e anos de confusa ciência,
Lida e relida até ser meu ser,
Me ergueram a submersa consciência
A superfície clara do querer!

Tracei os signos certos, invoquei!
Obedeceram Anjos ao que eu quis...
Nada sou, nada fiz e nada sei!
Quantos se orgulhariam do que eu fiz...

(...)


III. A morte

Quem me diz que não há um Senhor do mundo?
Um espírito que me ilude?
Quem me diz que quanto mais no incógnito me aprofundo,
Mais de ilusão e de erro não me inundo?

Só sei que quanto maior, mais infeliz...
Ah, já não mais fé nem ciência nem certeza
Do que sou eu pra mim.
Vermes me minam de outra pior,
Bem mais negra natureza
Dos que ao mestre destroem na outra vala...

Tudo me é obscuro, ainda que com destreza
O caminho das sombras me ilumine
As dez luzes divinas da Cabala.


IV. A purificação

Meus pés pisam a câmara do meio,
Minhas mãos tocam o que os Anjos são.
Já de onde estou, percebo o limiar do íntimo sacrário.
Sinto o ar do ulterior silêncio tocar meu seio,
E rasgam-se olhos no meu coração!

Mas o que é tudo isso,
Se isso não é nada?
Que sei eu disso?
Que bem pode ser
Aquela aérea e falsa e linda estrada
Que nos desertos se consegue ver?

Venci? Perdi-me? Não sei dizer...
Poder! Poder!
Ah! A eterna maldição da substância do mundo!

Quem me dera me nascer a um novo coração
Só a ânsia de ser mesquinho,
Só um sono cheio de perdão...
E ser agora qual menino eu era,
Dos mesmos Anjos mais fiel vizinho...

Caminhei como os homens.
Sou como esse que viajou países por achar,
E não achou mais neles do que houvesse
Na pátria onde se houve de apartar.

Tudo é aqui:
Mais mar ou menos mar
.


V. O renascimento

Ah, não é senão essa outra coisa da alma
Que era no fundo incógnito que tem,
[Que] anseia pela grande, a verdadeira calma,
Sem querer nem poder... O sumo bem!

Então, com o escopro e o malhete do Alcançar,
Quebrei a pedra cúbica do altar!
E a pedra cúbica abriu-se em cruz...

Quebrar ao altar... Então a mim quebrei!
Então em sangue, sobre o centro da cruz me derramei...
E ali, sacrificado ou sacrifício,
Exausto, nulo, senti meu enfim
Aquele coração que era fictício!

Consegui!
Paz profunda meu irmão...

(...)


VI. A ascensão [Isaac Luria]

Em nós o fogo reina:
Que primeiro é desejo,
E depois, ardendo mais,
Deste mesmo desejo se purifica.

Consome aquilo de que se alimenta:
Os diversos desejos queima iguais,
E quer ser fogo universal e inteiro,
Chama sem lume, de si mesma rica.

Ah, mas depois que tudo é consumado,
Que o fogo por ser fogo pode arder,
Depois que é em si mesmo sublimado,
Com tal ardência exacerbado dura,
Que a si mesmo se queima, e faz não ser,
Seu ardor para dentro vira ansiado,
E a chama pura torna-se luz pura.

Assim tornado o ser que sou comigo,
Vi que quando cercara o que eu quisera,
Altar ou vara, livro e templo,
Nunca fora de mim estivera...
Só por um julgá-lo tal, fora inimigo.

E então vi que essa cruz em que converso,
[Onde] jazia o altar outrora meu,
Era em cruz de luz todo o universo,
E que essa cruz era quem fora eu.

Sobre ela, a luz perfeita em mim erguida
Caíra numa inteira identidade,
Pois essa pedra cúbica partida
E a minha alma em luz pura resolvida
Eram a mesma coisa:
Eram a Vida e a Verdade.


Fernando Pessoa

***

Crédito da foto: Google Image Search

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