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4.6.15

Mergulhando em corações, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Há anos atrás Marcos estava meio desiludido com toda a sua busca espiritual. Havia nascido no Brasil, mas morado no Japão, nos EUA e noutros cantos deste planetinha, até que resolveu “se aposentar do trabalho formal” e viajar para a Índia, em busca da fonte original de tantos textos sagrados que havia lido ao longo da juventude.

Marcos estava num restaurante indiano, não propriamente “afogando as mágoas”, pois dificilmente se acha bebida alcóolica por lá [1], mas antes, quem sabe, finalmente encarando a própria tristeza. Faltava ainda algo em sua busca, algo essencial...

Dizem que quando o discípulo está pronto, o mestre aparece, e foi exatamente neste restaurante que Marcos encontrou Atmaji conversando com amigos, admiradores e discípulos. Marcos entrou na roda, e nunca mais saiu... Virou um dos discípulos de Atmaji, e ainda hoje vive entre o Oriente e o Brasil. É através de seu mestre que prossegue firme em seu caminho de autoconhecimento e autorrealização, seja acordado ou sonhando.

A diferença é que não existe mais Marcos. Desde que foi iniciado no ashram [2] de Atmaji, aquele que era Marcos vem, passo a passo, se transformando em Abhishek Ji. Não se trata só da mudança do nome mundano para o nome divino – lentamente, ele mesmo também morre para o seu eu anterior, e renasce como alguém destinado a iluminação.

Atmaji é, quem sabe, décadas mais velho que Abhishek, mas já alcançou a iluminação há muitos anos. Fora farmacêutico e praticante de diversos tipos de yoga, mas após haver alcançado a iluminação, fez como outros mestres, e resolveu dedicar o restante dos seus dias neste planetinha para tentar auxiliar os demais a se iluminarem junto com ele...

Foi assim que ele concordou em acompanhar Abhishek numa viagem pelo Brasil e, eventualmente, até a sua cidade natal, Campo Grande/MS, que curiosamente é a mesma cidade em que eu vivo hoje. Afinal, não estaria lhes contando toda essa história se não houvesse eu mesmo os encontrado por essas bandas de cá.

***

Para nós que seguimos na trilha espiritual através do estudo de diversas religiões, doutrinas, filosofias e mitologias diferentes, quase que como “turistas de egrégoras”, a melhor coisa é poder contar com amigos na caminhada. No caso, foi através de amigos tanto do Mayhem [3] quanto de um grupo que se reúne para entoar mantras hindus e sufis que eu fiquei sabendo da tal Festa Indiana do sábado a noite, que por acaso era organizada por Abhishek e pelos donos do espaço de meditação e yoga onde ela seria realizada.

A primeira coisa que notei ao chegar com a Vânia, uma amiga do Mayhem, foi a bela decoração do lugar. A festa seria num espaço aberto, onde montaram uma tenda (também aberta) com um longo tapete, cheio de almofadas decoradas, sofás e bancos longos de madeira, tudo no estilo indiano. As pessoas podiam ficar sentadas no tapete, nas almofadas ou nos bancos, e apreciar a miríade de pequenas velas, vasos de plantas e estatuetas de deuses hindus. Atrás das cadeiras onde sentariam Atmaji e seu discípulo brasileiro, podíamos admirar um belo pôster de Krishna e Radha, sua amante.

Lá me acomodei no espaço de um dos longos bancos, próximo a Marcelo, outro amigo do Mayhem, e ao grupo dos mantras. O interessante é que havia encontrado MarciAisha (que era quem organizava a entoação de mantras semanal num studio de dança árabe) exatamente através de minhas traduções de Rumi, o poeta sufi persa. MarciAisha me procurou nas redes sociais querendo saber mais sobre Rumi, e assim ficamos amigos... Pois bem, e eu estava lá naquela festa principalmente por conta de outra tradução que venho tocando neste ano, a do Bhagavad Gita [4].

Ou seja, a minha ideia era mais me “ambientar” neste universo do hinduísmo, e ter uma experiência direta com seus cantos, sua dança, e seus seguidores. Para falar a verdade, não imaginava que o tal “guru iluminado” fosse acrescentar muito a minha noite naquela festa, mas logo veria que estava muito enganado...

Assim que Atmaji e Abhishek chegaram, boa parte das cerca de 60 pessoas da festa foi ao seu encontro para abraçarem e tirarem fotos com o mestre indiano. Após algum tempo, foi nossa vez de nos aproximar... Foi MarciAisha (que já o conhecia) quem me apresentou a Abhishek, e após conversarmos rapidamente sobre viagens de trens na Índia e traduções do Gita em inglês, chegou a minha vez de ser apresentado ao mestre.

Ora, eu definitivamente não chamo muita gente de mestre. Que eu me lembre, nesta vida encontrei pessoalmente somente dois: o Professor Hermógenes, com quem dialoguei algumas vezes no Rio de Janeiro (onde nasci), e Marcio Lupion, de quem vi somente uma palestra uma vez (e foi o suficiente)... Mas quando me aproximei de Atmaji e olhei seus olhos por detrás das lentes de seus óculos, fui repentinamente inundado de uma doce e perene alegria. Era como se ele, como os demais mestres que havia tido o privilégio de encontrar, vivesse num outro tempo, num mundo mais próximo da essência das coisas do que de seu fluxo constante e ilusório.

Ele juntou minhas mãos com as dele e, num inglês tipicamente indiano, me perguntou meu nome, onde nasci e há quanto tempo morava em Campo Grande. Eu respondi tudo em meio às risadinhas que me surgiam a boca, só por estar por ali ao seu lado. Depois nos abraçamos... Eu tive vontade de ficar abraçado por muito tempo, e ele não esboçava nenhuma reação de encerrar tal abraço. No fim das contas, fui eu quem ficou meio sem jeito e me apartei...

Em seguida, vieram outros conversar com Atmaji, e eu fiquei me perguntando, “Por que era tão importante ele saber onde nasci e há quanto tempo moro aqui?”.


» Na continuação, um mergulho no Coração do Mundo...

***

[1] Embora isso possa estar mudando.

[2] Ashram, na antiga Índia, era um eremitério hindu onde os sábios viviam em paz e tranquilidade no meio da natureza. Hoje, o termo ashram é, normalmente, usado para designar uma comunidade formada intencionalmente com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros, frequentemente orientado por um místico ou líder religioso.

[3] O Projeto Mayhem é basicamente um grupo de colaboradores, leitores, estudantes e simpatizantes do Teoria da Conspiração, o portal ocultista de Marcelo Del Debbio. Deu tão certo que hoje existem grupos em muitas cidades do país.

[4] A quem possa interessar, o livro de Rumi já foi lançado; já o Bhagavad Gita continua sendo traduzido...

» Saiba mais sobre Atmaji em seu site (em inglês): upanisha.org

Crédito das fotos: Om Namastê (o espaço onde foi realizada a festa)

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