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22.1.18

Reflexões políticas, parte final

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Ideias que humilham, ideias que iluminam

Em março de 2011 um grupo de adolescentes pichou mensagens contra o governo no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul da Síria. O ato foi reprimido de forma brutal: alguns dos adolescentes foram presos e torturados pelas forças policiais do presidente Bashar al-Assad. Tal ação foi como uma faísca a acender uma explosão de revoltas populares em boa parte do país. Os sírios em geral já se queixavam a algum tempo do alto desemprego e da falta de liberdade política, inspirados pela chamada Primavera Árabe; assim, com a reação desproporcional do governo às manifestações que se seguiram (incluindo a morte de manifestantes), uma epidemia revolucionária cobriu as principais cidades sírias, e eventualmente surgiu uma guerra civil contra o governo central. Essa guerra dura até hoje (início de 2018), e deixou boa parte do território em ruínas.

Ora, é claro que devemos considerar a importância estratégica da Síria em meio ao complexo jogo político milenar do Oriente Médio. De um lado tínhamos o interesse da Rússia em manter seu principal aliado no domínio daquela região; do outro, tínhamos os EUA e boa parte da Europa interessados justamente em minar a influência russa. Os grupos rebeldes, como de costume, foram financiados pelos EUA, e desse caldeirão descontrolado surgiu o chamado Estado Islâmico. A moral da história é que não devemos financiar revoluções em culturas que desconhecemos... No entanto, há ainda outro ensinamento antes desse, este sim válido para todo e qualquer país democrático, independente da região do planeta: o que garante a democracia é justamente o diálogo político, a convivência pacífica, os acordos tácitos possíveis entre lados opostos, os partidos e o Congresso. Sem eles, sem alguma espécie de Estado, com suas instituições mais ou menos independentes, as coisas descambam para as “soluções antigas”: violência, guerra civil, massacres étnicos etc.

Então, se por um lado a Síria era um caso muito específico de uma região particularmente problemática do planeta, por outro o fato é que quando a política deixou de existir por lá, o que se seguiu foi algo sombrio e nefasto, algo muito pior do que mera discordância de ideias e debates de bar. E, se formos analisar como tudo isso começa, chegamos à ideia de que um lado precisa não somente vencer um debate de ideias, mas humilhar o adversário; e, depois, se possível, acabar com a sua carreira política, acabar com o seu partido, acabar com a sua vertente ideológica. Dessa forma, fica muito claro que há ideias que vêm para humilhar e destruir, e ideias que vêm para iluminar e engrandecer o debate. Das primeiras, surgiram os regimes totalitários mais sanguinários de nossa história; das últimas, surgiram os próprios alicerces de toda a civilização digna do nome.

O meu objetivo principal desde que comecei a falar de política aqui no Textos para Reflexão não foi o de defender um ou outro lado em específico [1], nem mesmo o de fazer uma análise política ou econômica aprofundada. Como poeta, eu estou mais interessado nas relações humanas do que nos ideais políticos e/ou partidários. Como amante da sabedoria, eu estou mais interessado no debate construtivo do que nos embates que buscam tão somente “destruir e humilhar o argumento contrário”. Como cidadão, eu estou mais interessado em compreender todas as nuances da polis, todos os seus pontos de vista e receitas para o melhor caminho, do que em ingressar em seitas ideológicas que creem piamente que acharam a solução de todos os nossos problemas.

Mas, enfim, antes de encerrar esta série precisamos endereçar mais uma vez o problema dos eixos ideológicos. Como vimos no início, o eixo “esquerda-direita” se mostrou absolutamente incapaz de abarcar todas as formas de ideologia política. Depois, vimos como o Diagrama de Nolan, com seu eixo adicional de “totalitarismo-liberdade”, foi capaz de abranger uma gama bem maior de ideais políticos. Finalmente, começamos a ver o Diagrama rachar ao analisarmos totalitarismos de esquerda e de direita, e depois se esfacelar completamente quando consideramos a questão da globalização (e do “globalismo”). Em nossa viagem até aqui, portanto, ficou um tanto claro como a mera existência de um eixo ideológico, por si só, é incapaz de encerrar todas as questões pertinentes a ele, e definir completamente a posição de cada ideologia.

Por exemplo, ainda no caso da globalização: ora, poderíamos construir um novo eixo à partir dela, e se numa ponta teríamos os grandes entusiastas da própria expansão das trocas econômicas e culturais entre todos os cantos do planeta, como uma Rota da Seda a percorrer todos os países, no outro teríamos o pessoal mais nacionalista, que acredita que a abertura cultural e comercial pode prejudicar a difusão de sua própria cultura local, alterando de forma nem sempre positiva os seus valores mais tradicionais, que garantiam a estabilidade política e ideológica da nação.

Bem, os nacionalistas costumam ficar no espectro do “politicamente incorreto” nessa questão, mas será que eles mereceriam ser demonizados? Será que nada do que falam merece ser levado em consideração? Será que uma cultura de séculos baseada em valores religiosos e conservadores estaria preparada para ser “invadida” por filmes com cenas de sexo, nudez e uso de drogas? E, por outro lado, será que uma cultura de séculos baseada em valores democráticos e progressistas estaria preparada para receber grandes levas de imigrantes com um pensamento completamente diverso? Tudo isso são questões que muitos nacionalistas conservadores levantam, e que não merecem ser demonizadas, mas debatidas. No mínimo, ainda que eles sejam “voz vencida”, pelo menos ficarão mais satisfeitos por terem sido ao menos ouvidos. Pode ser muito, muito perigoso deixar conservadores à margem das decisões políticas, dentre outras coisas porque ainda que eles não costumem se organizar tanto para irem as ruas protestar, quando finalmente o fazem, as ruas costumam se abarrotar de gente, uma vez que é perfeitamente normal que todas as sociedades tenham uma proporção maior de conservadores do que de progressistas (fica a dica).

***

Em meados do ano passado, quando inclusive já havia começado a escrever esta série, esbarrei na internet com uma espécie de teste de coordenadas políticas e ideológicas chamado 8values. Nele, após respondermos a 70 afirmações razoavelmente bem elaboradas com assertivas que iam de “concordo fortemente” a “discordo fortemente”, chegamos a um resultado final que mede nossas coordenadas políticas não somente em um ou dois eixos, mas em quatro eixos (com oito valores ideológicos, daí o nome do teste: “oito valores”, em português). E isso foi o que mais me chamou a atenção nele, pois parecia fazer todo o sentido usarmos alguns eixos a mais para definir melhor onde se situam exatamente nossas ideias políticas e econômicas:

O eixo econômico
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a igualdade, as políticas públicas e a maior distribuição de renda. E, do outro lado, o polo que defende o mercado, o incentivo ao livre-mercado e a valorização do crescimento econômico.

O eixo diplomático
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende o nacionalismo, a defesa da independência governamental em relação às regulações globais e o maior controle do fluxo de imigrantes. E, do outro lado, o polo que defende a globalização, a defesa dos tratados de cooperação global e a maior abertura das fronteiras aos imigrantes.

O eixo civil
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a liberdade individual, a descriminalização do uso de drogas e uma interferência mínima do Estado nas questões de cunho privado de cada um, como sua sexualidade. E, do outro lado, o polo que defende a autoridade estatal, o combate ao uso de drogas e a possibilidade do Estado intervir em questões de cunho privado, invadindo a privacidade alheia se necessário.

O eixo social
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a tradição, os valores religiosos e conservadores, e uma crítica aos ditames do chamado Estado Laico. E, do outro lado, o polo que defende o progresso, os valores do racionalismo científico, e uma crítica a qualquer tipo de interferência religiosa no Estado.

***

Claro que, ainda assim, tais eixos continuam não sendo valores absolutos, pois as ideologias humanas não são como a temperatura, que pode ser medida em graus. Elas se misturam e se interconectam a todo momento; elas passam por ciclos e movimentos pendulares; elas num tempo podem parecer lógicas e pragmáticas, e noutro, utópicas e apaixonadas.

O que é mais importante compreender de tudo isso é que ninguém é obrigado a “pensar em bloco”, pois de fato não existe “venda casada” quando falamos de ideologias. Por exemplo: não é porque um sujeito defende a descriminalização de todos os tipos de drogas que ele necessariamente precise defender a descriminalização do aborto; não é porque alguém se coloca contra os grandes tratados de comércio internacional que ele necessariamente precise defender o fechamento das fronteiras aos imigrantes de países pobres; não é porque uma pessoa defenda as políticas de distribuição de riquezas aos mais necessitados (como o Bolsa Família) que ela necessariamente precise se posicionar contra toda e qualquer privatização de empresas estatais... Os exemplos aqui seriam infindáveis.

O que o 8values nos ajuda, portanto, é a percebermos o quanto podemos ter em comum com nossos adversários de debates políticos, o quanto muitas vezes podemos discordar tão somente num dos eixos, enquanto concordamos em geral nos três demais. Muitas vezes, afinal de contas, debatemos mais por defendermos apaixonadamente certas “ideologias pré-moldadas” do que por realmente discordarmos absolutamente uns dos outros. O maior e mais antigo remédio para isso é aprender a pensar por si mesmo, e deixar de ser mero papagaio de seitas ideológicas mundo afora.

***

O teste 8values foi criado em Abril de 2017 por um usuário anônimo do GitHub, cujo codinome é TristanBomb. Eu gostei tanto do teste que recentemente o traduzi para o português e o hospedei em meu site. Caso queiram realizá-lo, cliquem aqui.

Algum tempo depois de haver lançado o teste em português tive a curiosidade de tentar entrar em contato com o autor original (hoje ele é um projeto colaborativo, mas a essência do teste ainda é inteiramente dele), e acabei descobrindo que se trata de um garoto do Arizona, nos EUA, provavelmente viciado em Civilization, que criou todo o projeto como um trabalho escolar quando tinha, pasmem, dezesseis anos...

Então, gostaria de levar isso em consideração e voltar à frase de Eduardo Galeano, para encerrar a série:

Este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante.


***

[1] Dito isso, não nego nem nunca neguei que sou de centro-esquerda e defendo o modelo político-econômico escandinavo, apesar de ter lucidez suficiente para saber que o Brasil não é uma Suécia tropical, e talvez jamais seja. No entanto, espero ter deixado claro em meus textos que somente pelo fato de eu “defender um lado” não significa que eu deseje ver “o outro lado exterminado” – muito pelo contrário, como já disse inúmeras vezes: quando o outro lado é exterminado, temos a certeza de que uma ditadura foi instaurada.

» Veja também o debate Entre a esquerda e a direita

Crédito das imagens: [topo] Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images (soldados infantis da guerra na Síria); [ao longo] 8values/TristanBomb/raph.

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2 comentários:

Blogger Haroldo disse...

Excelente texto. Dá ficção científica, mais especificamente de Star Trek deveríamos seguir a primeira diretriz, a da não interferência. Lembra muito seu texto. HGSilva

23/1/18 14:16  
Blogger raph disse...

Obrigado Haroldo, você tocou mesmo num ponto central do debate sobre a Globalização e a relação entre Estado e Mercado: uma coisa é a "intervenção" na economia, seja pelo Estado em si, seja pelos corruptores monopolistas (através do que chamo, resumidamente, da "compra de Congressos"); outra muito diferente é a "regulação" da economia, e esta regulação deveria justamente controlar o poder dos monopólios (principalmente proibindo fusões), e não favorecê-los (como faz uma Anatel da vida).

Dentro de certas condições de diálogo e bom senso, creio que a centro-esquerda e a centro-direita econômicas concordariam com "mais regulação e menos intervenção". A questão é que em boa parte dos Congressos elas também já estão na folha de pagamento dos corruptores.

Abs
raph

23/1/18 14:58  

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