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22.1.18

Reflexões políticas, parte final

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Ideias que humilham, ideias que iluminam

Em março de 2011 um grupo de adolescentes pichou mensagens contra o governo no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul da Síria. O ato foi reprimido de forma brutal: alguns dos adolescentes foram presos e torturados pelas forças policiais do presidente Bashar al-Assad. Tal ação foi como uma faísca a acender uma explosão de revoltas populares em boa parte do país. Os sírios em geral já se queixavam a algum tempo do alto desemprego e da falta de liberdade política, inspirados pela chamada Primavera Árabe; assim, com a reação desproporcional do governo às manifestações que se seguiram (incluindo a morte de manifestantes), uma epidemia revolucionária cobriu as principais cidades sírias, e eventualmente surgiu uma guerra civil contra o governo central. Essa guerra dura até hoje (início de 2018), e deixou boa parte do território em ruínas.

Ora, é claro que devemos considerar a importância estratégica da Síria em meio ao complexo jogo político milenar do Oriente Médio. De um lado tínhamos o interesse da Rússia em manter seu principal aliado no domínio daquela região; do outro, tínhamos os EUA e boa parte da Europa interessados justamente em minar a influência russa. Os grupos rebeldes, como de costume, foram financiados pelos EUA, e desse caldeirão descontrolado surgiu o chamado Estado Islâmico. A moral da história é que não devemos financiar revoluções em culturas que desconhecemos... No entanto, há ainda outro ensinamento antes desse, este sim válido para todo e qualquer país democrático, independente da região do planeta: o que garante a democracia é justamente o diálogo político, a convivência pacífica, os acordos tácitos possíveis entre lados opostos, os partidos e o Congresso. Sem eles, sem alguma espécie de Estado, com suas instituições mais ou menos independentes, as coisas descambam para as “soluções antigas”: violência, guerra civil, massacres étnicos etc.

Então, se por um lado a Síria era um caso muito específico de uma região particularmente problemática do planeta, por outro o fato é que quando a política deixou de existir por lá, o que se seguiu foi algo sombrio e nefasto, algo muito pior do que mera discordância de ideias e debates de bar. E, se formos analisar como tudo isso começa, chegamos à ideia de que um lado precisa não somente vencer um debate de ideias, mas humilhar o adversário; e, depois, se possível, acabar com a sua carreira política, acabar com o seu partido, acabar com a sua vertente ideológica. Dessa forma, fica muito claro que há ideias que vêm para humilhar e destruir, e ideias que vêm para iluminar e engrandecer o debate. Das primeiras, surgiram os regimes totalitários mais sanguinários de nossa história; das últimas, surgiram os próprios alicerces de toda a civilização digna do nome.

O meu objetivo principal desde que comecei a falar de política aqui no Textos para Reflexão não foi o de defender um ou outro lado em específico [1], nem mesmo o de fazer uma análise política ou econômica aprofundada. Como poeta, eu estou mais interessado nas relações humanas do que nos ideais políticos e/ou partidários. Como amante da sabedoria, eu estou mais interessado no debate construtivo do que nos embates que buscam tão somente “destruir e humilhar o argumento contrário”. Como cidadão, eu estou mais interessado em compreender todas as nuances da polis, todos os seus pontos de vista e receitas para o melhor caminho, do que em ingressar em seitas ideológicas que creem piamente que acharam a solução de todos os nossos problemas.

Mas, enfim, antes de encerrar esta série precisamos endereçar mais uma vez o problema dos eixos ideológicos. Como vimos no início, o eixo “esquerda-direita” se mostrou absolutamente incapaz de abarcar todas as formas de ideologia política. Depois, vimos como o Diagrama de Nolan, com seu eixo adicional de “totalitarismo-liberdade”, foi capaz de abranger uma gama bem maior de ideais políticos. Finalmente, começamos a ver o Diagrama rachar ao analisarmos totalitarismos de esquerda e de direita, e depois se esfacelar completamente quando consideramos a questão da globalização (e do “globalismo”). Em nossa viagem até aqui, portanto, ficou um tanto claro como a mera existência de um eixo ideológico, por si só, é incapaz de encerrar todas as questões pertinentes a ele, e definir completamente a posição de cada ideologia.

Por exemplo, ainda no caso da globalização: ora, poderíamos construir um novo eixo à partir dela, e se numa ponta teríamos os grandes entusiastas da própria expansão das trocas econômicas e culturais entre todos os cantos do planeta, como uma Rota da Seda a percorrer todos os países, no outro teríamos o pessoal mais nacionalista, que acredita que a abertura cultural e comercial pode prejudicar a difusão de sua própria cultura local, alterando de forma nem sempre positiva os seus valores mais tradicionais, que garantiam a estabilidade política e ideológica da nação.

Bem, os nacionalistas costumam ficar no espectro do “politicamente incorreto” nessa questão, mas será que eles mereceriam ser demonizados? Será que nada do que falam merece ser levado em consideração? Será que uma cultura de séculos baseada em valores religiosos e conservadores estaria preparada para ser “invadida” por filmes com cenas de sexo, nudez e uso de drogas? E, por outro lado, será que uma cultura de séculos baseada em valores democráticos e progressistas estaria preparada para receber grandes levas de imigrantes com um pensamento completamente diverso? Tudo isso são questões que muitos nacionalistas conservadores levantam, e que não merecem ser demonizadas, mas debatidas. No mínimo, ainda que eles sejam “voz vencida”, pelo menos ficarão mais satisfeitos por terem sido ao menos ouvidos. Pode ser muito, muito perigoso deixar conservadores à margem das decisões políticas, dentre outras coisas porque ainda que eles não costumem se organizar tanto para irem as ruas protestar, quando finalmente o fazem, as ruas costumam se abarrotar de gente, uma vez que é perfeitamente normal que todas as sociedades tenham uma proporção maior de conservadores do que de progressistas (fica a dica).

***

Em meados do ano passado, quando inclusive já havia começado a escrever esta série, esbarrei na internet com uma espécie de teste de coordenadas políticas e ideológicas chamado 8values. Nele, após respondermos a 70 afirmações razoavelmente bem elaboradas com assertivas que iam de “concordo fortemente” a “discordo fortemente”, chegamos a um resultado final que mede nossas coordenadas políticas não somente em um ou dois eixos, mas em quatro eixos (com oito valores ideológicos, daí o nome do teste: “oito valores”, em português). E isso foi o que mais me chamou a atenção nele, pois parecia fazer todo o sentido usarmos alguns eixos a mais para definir melhor onde se situam exatamente nossas ideias políticas e econômicas:

O eixo econômico
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a igualdade, as políticas públicas e a maior distribuição de renda. E, do outro lado, o polo que defende o mercado, o incentivo ao livre-mercado e a valorização do crescimento econômico.

O eixo diplomático
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende o nacionalismo, a defesa da independência governamental em relação às regulações globais e o maior controle do fluxo de imigrantes. E, do outro lado, o polo que defende a globalização, a defesa dos tratados de cooperação global e a maior abertura das fronteiras aos imigrantes.

O eixo civil
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a liberdade individual, a descriminalização do uso de drogas e uma interferência mínima do Estado nas questões de cunho privado de cada um, como sua sexualidade. E, do outro lado, o polo que defende a autoridade estatal, o combate ao uso de drogas e a possibilidade do Estado intervir em questões de cunho privado, invadindo a privacidade alheia se necessário.

O eixo social
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a tradição, os valores religiosos e conservadores, e uma crítica aos ditames do chamado Estado Laico. E, do outro lado, o polo que defende o progresso, os valores do racionalismo científico, e uma crítica a qualquer tipo de interferência religiosa no Estado.

***

Claro que, ainda assim, tais eixos continuam não sendo valores absolutos, pois as ideologias humanas não são como a temperatura, que pode ser medida em graus. Elas se misturam e se interconectam a todo momento; elas passam por ciclos e movimentos pendulares; elas num tempo podem parecer lógicas e pragmáticas, e noutro, utópicas e apaixonadas.

O que é mais importante compreender de tudo isso é que ninguém é obrigado a “pensar em bloco”, pois de fato não existe “venda casada” quando falamos de ideologias. Por exemplo: não é porque um sujeito defende a descriminalização de todos os tipos de drogas que ele necessariamente precise defender a descriminalização do aborto; não é porque alguém se coloca contra os grandes tratados de comércio internacional que ele necessariamente precise defender o fechamento das fronteiras aos imigrantes de países pobres; não é porque uma pessoa defenda as políticas de distribuição de riquezas aos mais necessitados (como o Bolsa Família) que ela necessariamente precise se posicionar contra toda e qualquer privatização de empresas estatais... Os exemplos aqui seriam infindáveis.

O que o 8values nos ajuda, portanto, é a percebermos o quanto podemos ter em comum com nossos adversários de debates políticos, o quanto muitas vezes podemos discordar tão somente num dos eixos, enquanto concordamos em geral nos três demais. Muitas vezes, afinal de contas, debatemos mais por defendermos apaixonadamente certas “ideologias pré-moldadas” do que por realmente discordarmos absolutamente uns dos outros. O maior e mais antigo remédio para isso é aprender a pensar por si mesmo, e deixar de ser mero papagaio de seitas ideológicas mundo afora.

***

O teste 8values foi criado em Abril de 2017 por um usuário anônimo do GitHub, cujo codinome é TristanBomb. Eu gostei tanto do teste que recentemente o traduzi para o português e o hospedei em meu site. Caso queiram realizá-lo, cliquem aqui.

Algum tempo depois de haver lançado o teste em português tive a curiosidade de tentar entrar em contato com o autor original (hoje ele é um projeto colaborativo, mas a essência do teste ainda é inteiramente dele), e acabei descobrindo que se trata de um garoto do Arizona, nos EUA, provavelmente viciado em Civilization, que criou todo o projeto como um trabalho escolar quando tinha, pasmem, dezesseis anos...

Então, gostaria de levar isso em consideração e voltar à frase de Eduardo Galeano, para encerrar a série:

Este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante.


***

[1] Dito isso, não nego nem nunca neguei que sou de centro-esquerda e defendo o modelo político-econômico escandinavo, apesar de ter lucidez suficiente para saber que o Brasil não é uma Suécia tropical, e talvez jamais seja. No entanto, espero ter deixado claro em meus textos que somente pelo fato de eu “defender um lado” não significa que eu deseje ver “o outro lado exterminado” – muito pelo contrário, como já disse inúmeras vezes: quando o outro lado é exterminado, temos a certeza de que uma ditadura foi instaurada.

» Veja também o debate Entre a esquerda e a direita

Crédito das imagens: [topo] Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images (soldados infantis da guerra na Síria); [ao longo] 8values/TristanBomb/raph.

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24.2.17

Reflexões políticas, parte 1

O parto de um novo mundo

Era uma vez um grande mercado de peixes situado numa grande metrópole. Todo dia, ainda antes do sol nascer, muitos compradores representantes dos mais badalados restaurantes japoneses da cidade vinham comprar salmão a peso de ouro. Esse pessoal sabia que o salmão de maior qualidade tem a cor da carne avermelhada, e por isso pagava mais caro por ele.

Com o tempo, no entanto, começaram a surgir boatos de que os vendedores do mercado estavam passando gato por lebre, ou seja, fingindo vender um salmão de maior qualidade, quando na verdade se tratava de salmão de cativeiro, onde os criadores usavam corantes artificiais na ração para conferir a mesma cor avermelhada ao produto final.

Os consumidores vieram questionar os comerciantes do mercado, e estes lhes responderam mais ou menos assim: “Olha, a única forma que teríamos para nos certificar de que todo o salmão é da mesma qualidade seria contratarmos especialistas independentes para trabalharem nessa regulação; isto, no entanto, aumentaria consideravelmente o preço do salmão por aqui”.

Neste momento, os compradores tiveram de se deparar com um imenso dilema, que na verdade explica boa parte da discussão política e econômica da modernidade: o que é mais vantajoso, um mercado desregulado que vende produtos mais baratos, porém potencialmente perigosos, ou um mercado regulado que vende produtos mais caros, por uma promessa de maior segurança?

Na verdade, usei a metáfora do salmão somente pela simplicidade mesmo, pois hoje em dia a quase totalidade deste mercado não passa por uma regulação minuciosa. No entanto, há muitos outros mercados que necessitam de regulação, seja para combater os monopólios e carteis de grandes empresas, seja simplesmente para resguardar os direitos dos consumidores de não serem enganados na cara dura.

O bom senso nos indica algo até mesmo óbvio, e que de certa forma já ocorre em boa parte do mundo: há que se ter uma certa regulação dos mercados, mas não ao ponto de torná-los inviáveis para os comerciantes – afinal todo comércio necessita de algum lucro, do contrário ninguém iria arriscar seu rico dinheiro investindo nele.

No entanto, o ser humano sofre de uma latente e um tanto resiliente atração pelo maniqueísmo. Mani foi um filósofo cristão do século III que propunha que o mundo era o palco de uma guerra eterna entre um Deus Bom e um Demônio Mal. Claro que o maniqueísmo, assim como o zoroastrismo que foi sua fonte original, são bem mais complexos do que esta dualidade superficial dá a entender... mas, como muitas outras doutrinas e filosofias, o maniqueísmo passou para a enciclopédia da história de uma forma um tanto resumida, e este resumo decaiu precisamente neste “dualismo ralo”.

Assim, nas visões econômicas atuais, podemos tentar distribuir as ideias numa linha com dois pontos opostos: na extremidade esquerda, temos a ideia de que o Estado deve regular praticamente tudo, inclusive o quanto cada comerciante pode ter de lucro em sua atividade, pois que a distribuição de toda e qualquer renda excedente garantirá que tudo funcione bem para todos; já na outra ponta, a direita, temos a ideia de que o Mercado deve ser regulado o mínimo possível, deixando que os comerciantes lucrem o quanto conseguirem, pois que o livre mercado e a concorrência garantirão que tudo funcione da melhor forma.

Se recorrermos novamente ao bom senso, veremos que qualquer uma das extremidades desta linha, quando livre das considerações opostas, na realidade não funciona assim tão bem quanto o prometido. E, se é difícil imaginar os motivos, basta recorrer a nossa história recente para vermos inúmeros exemplos de como guinadas muito grandes para uma das duas pontas costumam terminar em tragédias econômicas, principalmente em se considerando um mundo cada vez mais globalizado, onde o mercado de peixes se estende por todos os continentes.

Talvez não tenha sido por uma razão puramente econômica que os modelos comunistas, baseados em alta regulação estatal, tenham desmoronado junto com o Muro de Berlim, mas o fato é que não deram muito certo. Por outro lado, nós estamos atualmente vivendo uma das maiores crises econômicas da história, e ela se originou precisamente pela falta de regulação do mercado imobiliário americano. Ou seja, não é preciso ser especialista em economia global ou análise política para compreender o óbvio: nós precisamos das duas coisas, a regulação estatal e o livre mercado, funcionando em harmonia.

Por que diabos então as pessoas ainda brigam tanto por conta disso? É a pergunta que necessariamente surge desta pequena reflexão.

Eu confesso a vocês que, se tal pergunta fosse simples de ser respondida, o mundo seria outro – no mínimo, as pessoas iriam economizar bastante tempo em debates nas redes sociais.

Mas, eu proponho responder a tal indagação com uma outra, que talvez nos ajude a chegar mais próximo de um entendimento mais abrangente da questão: Imaginem se todas as pessoas fossem de esquerda ou de direita, e concordassem em absolutamente tudo no que hoje teimam em discordar?

Nós tivemos muitos períodos históricos em que o debate político teve, oficialmente, somente um lado. No entanto, nos países e regiões do planeta que passaram por tais períodos, tivemos os governantes mais sangrentos, e os regimes mais totalitários, seja num extremo, seja noutro.

Aqui neste blog vocês devem ter percebido que eu tento evitar, na medida do possível, falar de Política. Assim, não foi da noite para o dia que eu decidi voltar ao tema. A realidade é que nosso mundo passa por mais um período raro da história humana: aqueles períodos em que os sistemas antigos já faliram, são como zumbis se arrastando pela estrada, mas os novos sistemas ainda não tiveram tempo de nascer.

Eduardo Galeano vislumbrou tal gestação numa praça espanhola durante uma manifestação popular, e chegou a sábia conclusão de que “este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante”... Assim, eu não tenho grandes pretensões de ver tal nascimento nos anos ou nas décadas seguintes, mas penso que talvez alguém que esteja lendo isso possa um dia viver lá.

Esta minha singela nova série de reflexões políticas não procurará tratar de nada senão deste parto de um novo mundo. A única coisa que peço aos que por ventura se interessarem em prosseguir é que compreendam que a Política não se faz pelo extermínio da esquerda ou da direita, mas pelo consenso e a harmonia possível entre elas.

A Política existe para que os debates e as leis transcorram e sejam elaboradas em mesas de representantes do povo, e não em palácios e gabinetes habitados por homens cheios de dogmas e ideologias compradas.

Não é fácil lidar com as ideias contrárias, mas seria pior se elas não pudessem sequer serem manifestadas. Se não podemos concordar em tudo, que nossa discordância seja construtiva, que as pedras se choquem para produzir faíscas de novas ideias, e não somente para arrancar lascas umas das outras.

Sigamos adiante.


» A seguir, mais um eixo é adicionado ao nosso espectro político.

***

Crédito da foto: Mike Gates

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21.6.13

A gravidez do mundo

Como muitos devem saber, eu não entendo nada de política, nem me interesso muito por ela. Talvez exatamente por isso os analistas queiram ouvir um pouco do que eu tenho a dizer sobre a Primavera...

Primeiramente há a questão polêmica da “direita vs. esquerda”. Lhes digo que o cartaz mais interessante que vi na última semana de movimentos nas ruas dizia assim: “Esquerda? Direita? Eu quero é ir para frente!”. Isto não é algo que se limita ao Brasil; mesmo na Primavera da Espanha e da Turquia vimos manifestações parecidas de quase toda a juventude. Dizem que a juventude é apolítica porque não se alinha nem a “esquerda” nem a “direita”, será mesmo?

Segundo Denis Russo Burgierman, diretor de redação da Superinteressante e ativista pró-descriminalização de certas drogas, “esquerdo-direitistas são pessoas que acreditam que todo o bem que existe no mundo provém de apenas uma fonte. Há dois tipos de esquerdo-direitistas – aqueles que acham que a fonte de todo o bem é o Mercado e aqueles que acham que é o Estado. A estes chamamos esquerdistas, aqueles são os direitistas”. Pois bem, eu chamo a ambos de esquerdo-direitistas, pois que são apenas dois lados de uma mesma moeda, dois pontos extremos que ainda insistem numa espécie de maniqueísmo (“bem vs. mal”) que inexiste na Política.

De Política, com “P” maiúsculo, eu até acho que entendo alguma coisa. Desde que surgiu a Democracia na Antiguidade, sua essência se baseou exatamente num debate público que busca não a unanimidade de opiniões, mas a busca do entendimento e da reconciliação dos opostos em prol de uma certa ordem e uma certa direção conjunta a ser seguida pela Nação. Dessa forma, a Política existe não para que todos concordem em tudo, mas para que convivam em harmonia apesar de suas discordâncias.

É por isso que todo o extremista é anti-Político a priori. Ele não busca a Política para um entendimento, mas busca a política para a supressão das opiniões contrárias, custe o que custar... São os extremistas que devem ser combatidos e reeducados na medida do possível, pois foi através deles que surgiram regimes autoritários de “esquerda” e de “direita”, ainda que pudessem se auto intitular democráticos. Mas a Democracia só existe na Política, e não na política.

Você pode achar que o Brasil é uma Democracia, mas eu não posso concordar inteiramente com isso. Não tem nada a ver com o fato de termos o PT no governo – o PT não é o único culpado pelo que foi feito na política brasileira, mas talvez se arrependa amargamente pelo que deixou de fazer. Eu explico: numa Democracia, deve valer a máxima “1 pessoa, 1 voto”. No entanto, o que temos no Brasil e em diversos países que se dizem democráticos é uma outra máxima que nos contaminou desde meados do século passado: “X reais, 1 voto” (ou “X dólares, 1 voto”; “X euros, 1 voto”; etc).

Não estou querendo dizer que no nosso país exista compra direta de votos, mas sim indireta. O voto é obrigatório e qualquer partido para ter alguma chance de chegar ao poder precisa gastar milhões em gigantescas campanhas de marketing. O que isto tudo tem a ver com Política? Quase nada... Isto tudo tem a ver com algo que chamo, na falta de um nome melhor, “negócio eleitoral”.

Afinal, não se enganem, nenhuma empreiteira, nenhum banco, nenhuma multinacional financia um partido por ideologia, nem muito menos para melhorar a qualidade da educação e da saúde de um país. Eles fazem um investimento de risco, a médio e longo prazo. Alguns até conseguem eliminar todo o risco do investimento, ao investir em todos os partidos com chance de chegar ao poder. A última vez que um Político teve alguma chance de se eleger para um cargo majoritário com uma campanha financiada por pessoas físicas, e não jurídicas (ou seja, grandes empresas), foi na última eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 2012. Não por acaso, o candidato do PSOL foi massacrado pelos “marketeiros” tanto da “esquerda” quanto da “direita”. Isto não quer dizer que ele seja um santo messias, quer dizer apenas que era o único que realmente tinha uma ideologia não comprada!

Então não é a toa que os que entendem alguma coisa de Política defendem uma Reforma Política urgente no Brasil, com financiamento público e exclusivo de campanhas, sem voto obrigatório, etc. Assim teremos a chance de ver diversos Políticos com suas ideologias próprias (e não compradas pelas empreiteiras) se candidatando e tendo chances reais de vencer eleições. Assim teremos, eventualmente, o ressurgimento da Política e da Democracia neste país.

E isto ainda seria só o primeiro passo... Com o ressurgimento da Democracia, então tanto a Esquerda quanto a Direita, tanto os defensores do Estado quanto os defensores do Mercado, poderiam debater e chegar a concordâncias possíveis para o nosso avanço sempre à frente. Isto seria muito mais saudável para o debate público do que o “combate a corrupção” (os únicos que são favoráveis a corrupção são os próprios corruptos, então de que vale defender o óbvio?).

Pois um Mercado totalmente livre, sem nenhuma regulamentação e intervenção do Estado, descamba para uma sociedade extremamente consumista (que pode eventualmente consumir tantos recursos naturais, que a própria espécie humana se veja ameaçada [1]) e para períodos de crises e “estouros de bolhas especulativas” na economia (sendo que os banqueiros jamais pagam a conta, exceto talvez na Islândia). Da mesma forma, um Estado totalmente controlador do Mercado, longe de corresponder a teoria de Marx, na prática tem descambado mais para uma espécie bizarra de “feudalismo moderno” (embora ainda existam todos os tipos de lendas acerca de como “o Comunismo na verdade deu certo”).

É por isso que devemos agradecer esta Primavera. Se vamos citar um trecho do nosso hino nacional, que seja antes este: “E o Sol da Liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pária nesse instante”. Afinal, ninguém parece ter compreendido e resumido melhor o sentimento e o sentido de esperança trazido pelos jovens da Mansão do Amanhã do que Eduardo Galeano. Foi numa breve entrevista dada aos jovens espanhóis na praça Catalunya que ele deu a mais profunda declaração Política deste início de século, e é com ela que eu encerro este artigo:

Aqui vejo reencontro, energia de dignidade e entusiasmo. O entusiasmo vem de uma palavra grega que significa “ter os deuses dentro”. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da Natureza, eu digo para mim mesmo: “Isto é o que faltava para me convencer de que viver vale a pena”.

Então estou muito contente de estar aqui, porque é o testemunho de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política e da realidade individual, onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível.

Este mundo de merda está grávido de um outro!

O mundo a espera de nascer é diferente, e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos. O mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas, como as desta praça.

Alguns me perguntam “o que vai acontecer?”; “e depois, o que vai ser?”. Pela minha experiência, eu respondo: “Não sei o que vai acontecer... Não me importa o que vai acontecer, mas o que está acontecendo!”. Me importa o tempo que “é”.

***

[1] Se todo o mundo tivesse os padrões de consumo dos EUA (do início deste século), precisaríamos de uns 3,5 planetas para dar conta da demanda por recursos naturais. Dizem que o equilíbrio do consumo sustentável demandaria que todo o globo tivesse os padrões de consumo aproximados da Paris da década de 60. Nada mal.

Crédito da imagem: Google Image Search + Gibran + raph

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