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22.1.18

Reflexões políticas, parte final

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Ideias que humilham, ideias que iluminam

Em março de 2011 um grupo de adolescentes pichou mensagens contra o governo no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul da Síria. O ato foi reprimido de forma brutal: alguns dos adolescentes foram presos e torturados pelas forças policiais do presidente Bashar al-Assad. Tal ação foi como uma faísca a acender uma explosão de revoltas populares em boa parte do país. Os sírios em geral já se queixavam a algum tempo do alto desemprego e da falta de liberdade política, inspirados pela chamada Primavera Árabe; assim, com a reação desproporcional do governo às manifestações que se seguiram (incluindo a morte de manifestantes), uma epidemia revolucionária cobriu as principais cidades sírias, e eventualmente surgiu uma guerra civil contra o governo central. Essa guerra dura até hoje (início de 2018), e deixou boa parte do território em ruínas.

Ora, é claro que devemos considerar a importância estratégica da Síria em meio ao complexo jogo político milenar do Oriente Médio. De um lado tínhamos o interesse da Rússia em manter seu principal aliado no domínio daquela região; do outro, tínhamos os EUA e boa parte da Europa interessados justamente em minar a influência russa. Os grupos rebeldes, como de costume, foram financiados pelos EUA, e desse caldeirão descontrolado surgiu o chamado Estado Islâmico. A moral da história é que não devemos financiar revoluções em culturas que desconhecemos... No entanto, há ainda outro ensinamento antes desse, este sim válido para todo e qualquer país democrático, independente da região do planeta: o que garante a democracia é justamente o diálogo político, a convivência pacífica, os acordos tácitos possíveis entre lados opostos, os partidos e o Congresso. Sem eles, sem alguma espécie de Estado, com suas instituições mais ou menos independentes, as coisas descambam para as “soluções antigas”: violência, guerra civil, massacres étnicos etc.

Então, se por um lado a Síria era um caso muito específico de uma região particularmente problemática do planeta, por outro o fato é que quando a política deixou de existir por lá, o que se seguiu foi algo sombrio e nefasto, algo muito pior do que mera discordância de ideias e debates de bar. E, se formos analisar como tudo isso começa, chegamos à ideia de que um lado precisa não somente vencer um debate de ideias, mas humilhar o adversário; e, depois, se possível, acabar com a sua carreira política, acabar com o seu partido, acabar com a sua vertente ideológica. Dessa forma, fica muito claro que há ideias que vêm para humilhar e destruir, e ideias que vêm para iluminar e engrandecer o debate. Das primeiras, surgiram os regimes totalitários mais sanguinários de nossa história; das últimas, surgiram os próprios alicerces de toda a civilização digna do nome.

O meu objetivo principal desde que comecei a falar de política aqui no Textos para Reflexão não foi o de defender um ou outro lado em específico [1], nem mesmo o de fazer uma análise política ou econômica aprofundada. Como poeta, eu estou mais interessado nas relações humanas do que nos ideais políticos e/ou partidários. Como amante da sabedoria, eu estou mais interessado no debate construtivo do que nos embates que buscam tão somente “destruir e humilhar o argumento contrário”. Como cidadão, eu estou mais interessado em compreender todas as nuances da polis, todos os seus pontos de vista e receitas para o melhor caminho, do que em ingressar em seitas ideológicas que creem piamente que acharam a solução de todos os nossos problemas.

Mas, enfim, antes de encerrar esta série precisamos endereçar mais uma vez o problema dos eixos ideológicos. Como vimos no início, o eixo “esquerda-direita” se mostrou absolutamente incapaz de abarcar todas as formas de ideologia política. Depois, vimos como o Diagrama de Nolan, com seu eixo adicional de “totalitarismo-liberdade”, foi capaz de abranger uma gama bem maior de ideais políticos. Finalmente, começamos a ver o Diagrama rachar ao analisarmos totalitarismos de esquerda e de direita, e depois se esfacelar completamente quando consideramos a questão da globalização (e do “globalismo”). Em nossa viagem até aqui, portanto, ficou um tanto claro como a mera existência de um eixo ideológico, por si só, é incapaz de encerrar todas as questões pertinentes a ele, e definir completamente a posição de cada ideologia.

Por exemplo, ainda no caso da globalização: ora, poderíamos construir um novo eixo à partir dela, e se numa ponta teríamos os grandes entusiastas da própria expansão das trocas econômicas e culturais entre todos os cantos do planeta, como uma Rota da Seda a percorrer todos os países, no outro teríamos o pessoal mais nacionalista, que acredita que a abertura cultural e comercial pode prejudicar a difusão de sua própria cultura local, alterando de forma nem sempre positiva os seus valores mais tradicionais, que garantiam a estabilidade política e ideológica da nação.

Bem, os nacionalistas costumam ficar no espectro do “politicamente incorreto” nessa questão, mas será que eles mereceriam ser demonizados? Será que nada do que falam merece ser levado em consideração? Será que uma cultura de séculos baseada em valores religiosos e conservadores estaria preparada para ser “invadida” por filmes com cenas de sexo, nudez e uso de drogas? E, por outro lado, será que uma cultura de séculos baseada em valores democráticos e progressistas estaria preparada para receber grandes levas de imigrantes com um pensamento completamente diverso? Tudo isso são questões que muitos nacionalistas conservadores levantam, e que não merecem ser demonizadas, mas debatidas. No mínimo, ainda que eles sejam “voz vencida”, pelo menos ficarão mais satisfeitos por terem sido ao menos ouvidos. Pode ser muito, muito perigoso deixar conservadores à margem das decisões políticas, dentre outras coisas porque ainda que eles não costumem se organizar tanto para irem as ruas protestar, quando finalmente o fazem, as ruas costumam se abarrotar de gente, uma vez que é perfeitamente normal que todas as sociedades tenham uma proporção maior de conservadores do que de progressistas (fica a dica).

***

Em meados do ano passado, quando inclusive já havia começado a escrever esta série, esbarrei na internet com uma espécie de teste de coordenadas políticas e ideológicas chamado 8values. Nele, após respondermos a 70 afirmações razoavelmente bem elaboradas com assertivas que iam de “concordo fortemente” a “discordo fortemente”, chegamos a um resultado final que mede nossas coordenadas políticas não somente em um ou dois eixos, mas em quatro eixos (com oito valores ideológicos, daí o nome do teste: “oito valores”, em português). E isso foi o que mais me chamou a atenção nele, pois parecia fazer todo o sentido usarmos alguns eixos a mais para definir melhor onde se situam exatamente nossas ideias políticas e econômicas:

O eixo econômico
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a igualdade, as políticas públicas e a maior distribuição de renda. E, do outro lado, o polo que defende o mercado, o incentivo ao livre-mercado e a valorização do crescimento econômico.

O eixo diplomático
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende o nacionalismo, a defesa da independência governamental em relação às regulações globais e o maior controle do fluxo de imigrantes. E, do outro lado, o polo que defende a globalização, a defesa dos tratados de cooperação global e a maior abertura das fronteiras aos imigrantes.

O eixo civil
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a liberdade individual, a descriminalização do uso de drogas e uma interferência mínima do Estado nas questões de cunho privado de cada um, como sua sexualidade. E, do outro lado, o polo que defende a autoridade estatal, o combate ao uso de drogas e a possibilidade do Estado intervir em questões de cunho privado, invadindo a privacidade alheia se necessário.

O eixo social
Neste eixo, temos de um lado o polo ideológico que defende a tradição, os valores religiosos e conservadores, e uma crítica aos ditames do chamado Estado Laico. E, do outro lado, o polo que defende o progresso, os valores do racionalismo científico, e uma crítica a qualquer tipo de interferência religiosa no Estado.

***

Claro que, ainda assim, tais eixos continuam não sendo valores absolutos, pois as ideologias humanas não são como a temperatura, que pode ser medida em graus. Elas se misturam e se interconectam a todo momento; elas passam por ciclos e movimentos pendulares; elas num tempo podem parecer lógicas e pragmáticas, e noutro, utópicas e apaixonadas.

O que é mais importante compreender de tudo isso é que ninguém é obrigado a “pensar em bloco”, pois de fato não existe “venda casada” quando falamos de ideologias. Por exemplo: não é porque um sujeito defende a descriminalização de todos os tipos de drogas que ele necessariamente precise defender a descriminalização do aborto; não é porque alguém se coloca contra os grandes tratados de comércio internacional que ele necessariamente precise defender o fechamento das fronteiras aos imigrantes de países pobres; não é porque uma pessoa defenda as políticas de distribuição de riquezas aos mais necessitados (como o Bolsa Família) que ela necessariamente precise se posicionar contra toda e qualquer privatização de empresas estatais... Os exemplos aqui seriam infindáveis.

O que o 8values nos ajuda, portanto, é a percebermos o quanto podemos ter em comum com nossos adversários de debates políticos, o quanto muitas vezes podemos discordar tão somente num dos eixos, enquanto concordamos em geral nos três demais. Muitas vezes, afinal de contas, debatemos mais por defendermos apaixonadamente certas “ideologias pré-moldadas” do que por realmente discordarmos absolutamente uns dos outros. O maior e mais antigo remédio para isso é aprender a pensar por si mesmo, e deixar de ser mero papagaio de seitas ideológicas mundo afora.

***

O teste 8values foi criado em Abril de 2017 por um usuário anônimo do GitHub, cujo codinome é TristanBomb. Eu gostei tanto do teste que recentemente o traduzi para o português e o hospedei em meu site. Caso queiram realizá-lo, cliquem aqui.

Algum tempo depois de haver lançado o teste em português tive a curiosidade de tentar entrar em contato com o autor original (hoje ele é um projeto colaborativo, mas a essência do teste ainda é inteiramente dele), e acabei descobrindo que se trata de um garoto do Arizona, nos EUA, provavelmente viciado em Civilization, que criou todo o projeto como um trabalho escolar quando tinha, pasmem, dezesseis anos...

Então, gostaria de levar isso em consideração e voltar à frase de Eduardo Galeano, para encerrar a série:

Este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante.


***

[1] Dito isso, não nego nem nunca neguei que sou de centro-esquerda e defendo o modelo político-econômico escandinavo, apesar de ter lucidez suficiente para saber que o Brasil não é uma Suécia tropical, e talvez jamais seja. No entanto, espero ter deixado claro em meus textos que somente pelo fato de eu “defender um lado” não significa que eu deseje ver “o outro lado exterminado” – muito pelo contrário, como já disse inúmeras vezes: quando o outro lado é exterminado, temos a certeza de que uma ditadura foi instaurada.

» Veja também o debate Entre a esquerda e a direita

Crédito das imagens: [topo] Dimitar Dilkoff/AFP/Getty Images (soldados infantis da guerra na Síria); [ao longo] 8values/TristanBomb/raph.

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17.1.18

Reflexões políticas, parte 4

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O avanço dos monopólios globais

Donald Trump nunca foi exatamente muito querido para além da sua base eleitoral em seu próprio país, mas não podemos ignorar que aqueles que lhe apoiam costumam defender algumas de suas ideias de forma bastante fervorosa. E não, nem todos são conservadores de direita.

Por exemplo, no Peru, a coalisão de esquerda Frente Ampla organizou várias manifestações de apoio a Trump ainda durante a eleição de 2016. E, mesmo após a sua surpreendente vitória, eles continuaram a se manifestar em seu favor e contra o então presidente, Barack Obama. O objetivo deles era muito claro: Trump havia prometido cancelar o Tratado Transpacífico (TPP) assim que tomasse posse. O que a esquerda do Peru queria era derrubar mais um grande tratado de livre-comércio que favorecia a Globalização e as grandes empresas multinacionais.

O TPP vinha sendo costurado ao longo de pelo menos 5 anos pelo governo Obama com a China e outros países que são banhados pelo Oceano Pacífico. Antes da saída dos EUA, o TPP reunia 40% da economia mundial, e um mercado de pelo menos 800 milhões de consumidores. Até mesmo o atual vice-presidente dos EUA, Mike Pence, o defendeu enquanto era governador do Estado de Indiana, em 2014: “comércio significa empregos, mas também segurança”.

E, de fato, desde o advento da bomba nuclear, o mundo civilizado se inclinou para um esforço de integração econômica, social, cultural e política entre as nações que, de uma década para outra, subitamente tinham toda a razão para não guerrearem mais abertamente pela conquista de territórios, pois com as novas armas a destruição mútua de dois países nucleares envolvidos num conflito seria praticamente garantida. A todo este movimento das três últimas décadas do século passado se convencionou dar o nome “Globalização”. Em 2000, o Fundo Monetário Internacional (FMI) identificou quatro aspectos básicos da Globalização: comércio e transações financeiras, movimentos de capital e de investimento, migração e movimento de pessoas e a disseminação de conhecimento.

Muito bem, e apenas três dias após assumir o cargo de presidente dos EUA, Trump cumpriu o prometido e se retirou do TPP. Não foi somente a esquerda peruana que aplaudiu, muitos eleitores de Bernie Sanders, que perdeu as prévias do Partido Democrata para Hillary Clinton, também se entusiasmaram. Ora, até mesmo o próprio Sanders elogiou a medida de Trump: “Agora é a hora de desenvolvermos novos tratados de comércio que beneficiem as famílias de trabalhadores, e não somente as corporações multinacionais”. Sanders, como muitos devem saber, está muito mais a esquerda dentro do partido Democrata do que a mulher de Clinton. Alguns americanos chegaram a acusá-lo de ser “socialista”. Muito radical!

Bem, nesse momento vocês já devem ter percebido a imensa estranheza da coisa toda: se Trump foi considerado um candidato de extrema-direita durante a eleição de 2016, e Sanders era basicamente o representante da extrema-esquerda (até onde é possível ser de extrema-esquerda no sistema americano, obviamente), como é possível que eles concordassem em gênero, número e grau acerca da necessidade do seu país se retirar o mais breve possível do potencial maior tratado de livre-comércio da história da humanidade? Mesmo recorrendo ao Diagrama de Nolan [1], continuamos confusos: era para a esquerda combater o comércio desregulado e as grandes multinacionais, era para a esquerda, e somente a esquerda, ter tamanho asco da Globalização. Então, onde diabos Trump está situado, seria ele de esquerda?

Para resolver tal enigma eu confesso que tive de recorrer aos meus amigos da direita econômica. Devo dizer que, obviamente, a maior parte não é nenhum fã de Trump, mas foi de nossas conversas que pude entender um pouco melhor como foi que, afinal de contas, parte da direita passou a se contrapor a grandes acordos como o TPP. Eles dizem que o ódio deles é diferente do ódio da esquerda, pois eles odeiam na realidade o Globalismo, e não a Globalização... Pois é, agora teremos de tentar entender o que é esse tal de Globalismo.

Em minhas pesquisas pelas “mídias alternativas”, eu encontrei o depoimento mais sensato acerca do que seria o Globalismo na voz de Rodrigo Constantino, uma espécie de “herói nerd” da direita, isto é, do chamado liberalismo econômico. Me baseando no vídeo do Constantino no YouTube, eu consegui traçar mais ou menos as diferenças entre Globalização e Globalismo:

Características da Globalização
(a) Defesa da implementação de acordos de livre-comércio simples para a redução efetiva das barreiras comerciais e/ou do protecionismo.

(b) Tende a favorecer a maior integração entre os povos e culturas, diminuindo as chances de guerras (sobretudo nucleares).

(c) Empregos locais são afetados (são transferidos para países onde a mão de obra é mais barata, muitas vezes por poder ser explorada livremente em regimes ditatoriais), mas há benefícios à economia do país como um todo, gerando crescimento e novas oportunidades (sobretudo nas áreas tecnológicas).

(d) Tende a gerar menos burocracia e mais livre-comércio (em teoria).

Características do Globalismo
(e) Tende a favorecer os grandes acordos comerciais validados por “superburocratas sem rosto”, não eleitos diretamente pelo povo; como, por exemplo, os burocratas de Bruxelas (Suíça), que determinam os rumos econômicos da União Europeia.

(f) Na verdade a complexidade burocrática tende a aumentar em acordos econômicos “esotéricos”, cheios de cláusulas que em realidade favorecem mais a manutenção do monopólio global das multinacionais do que propriamente um livre-comércio genuíno.

(g) Assim, os empregos locais continuam sendo afetados, mas não está tão claro se o domínio dos mercados globais por multinacionais de fato melhora a economia geral dos países (isto é: o que melhora de fato a economia global é o livre-comércio, algo que não está garantido aqui).

(h) Ao invés de uma real integração de culturas, há uma tendência de imposição cultural por parte de multinacionais de mídia, como a Disney ou Hollywood como um todo (algo não necessariamente tão ruim, os nerds adoram!).

(i) Mais burocracia nos grandes acordos de comércio mundial garante o avanço dos monopólios globais, e não o livre-comércio. Tudo se torna como “um jogo de cartas marcadas”, onde só sobrevivem os “amigos do Rei”.

***

Ou seja, o que a gente que fala em Globalismo quer dizer é que o sonho do livre-comércio mundial, da grande integração de culturas sem a supressão de umas pelas outras, da ideia da garantia da paz através da maior integração econômica num mundo genuinamente livre e democrático, isto é, as grandes promessas da Globalização, que tudo isso está colocado em xeque pelo avanço dos “superburocratas sem rosto” que desejam tão somente implementar uma agenda de comércio global que favoreça somente as grandes multinacionais. Isto é, aqueles conglomerados empresariais que, no frigir dos ovos, são exatamente os que financiam os “superburocratas” e os mantém, como fantoches, onde estão.

Mas, se eu entendi bem, o que o Constantino fez foi justamente listar, um por um, todos os pontos negativos da Globalização. Afinal, não é nem preciso ser hermetista para saber que sim: obviamente a Globalização não ocorreria sem que os grandes grupos de poder tentassem ditar o seu rumo de maneira a se manterem exatamente onde estão – no topo do mundo.

Talvez seja por isso que desde que o processo de Globalização se acentuou o número de bancos nos EUA tenha se reduzido drasticamente, o que foi impulsionado pela crise de 2008. Ora, seja porque eles vêm sendo comprados por bancos maiores, seja porque simplesmente não conseguem mais “competir” com os “amigos do Rei” e entram em falência, o resultado é o mesmo: maior concentração de mercado, maior monopólio, maior poder a uma elite cada vez menor do sistema financeiro. Aonde está o sonho do livre-mercado, afinal? Talvez ele tenha sido uma espécie de mito estranho, que já existiu, e não existe mais.

Também poderíamos levantar algumas questões. Uma delas: se a maior potência econômica democrática do planeta terceiriza boa parte de seus empregos do setor industrial para outra potência ascendente, porém ditatorial e supostamente comunista, ela está defendendo propriamente o livre-mercado ou o chamado “capitalismo de Estado”? Outra: se a democracia supostamente mais bem sucedida do globo é a maior aliada de um Estado teocrático onde surgiram as ideias fundadoras do maior grupo terrorista de nosso tempo, ela está defendendo propriamente a liberdade de crenças ou os seus próprios interesses? Diga-me com quem andas que eu te direi quem és – isso também é válido nas relações comerciais?

Enfim, eu poderia falar muito mais sobre a doença do capitalismo, mas isso já foi tratado em nossa série Entre a esquerda e a direita [2], portanto me perdoem, mas vou voltar ao tema anterior para podermos encerrar...

Voltemos aos manifestantes da esquerda peruana, que gritavam e brandiam seus cartazes contra o TPP. Diga-me, com sinceridade: você acha mesmo que eles estavam lá para defender o ideário dos “superburocratas sem rosto” de Bruxelas, ou estavam tão somente tentando defender a manutenção dos seus próprios empregos? Ora, e o mesmo foi feito por boa parte dos eleitores que deram a vitória a Trump em estados americanos onde historicamente venciam os democratas. Eles estavam pensando em si mesmos, na manutenção e/ou melhora das suas condições de vida, e não em favorecer o avanço de multinacionais sobre os países alheios, ainda que muitos desses conglomerados empresariais sejam fruto do próprio sistema americano. Eles não querem saber o quanto uma multinacional de petróleo lucrou com a invasão do Iraque, eles querem um emprego com salário digno e, se possível, paz. Somente isso.

E, se os que chamam os aspectos nefastos da Globalização de Globalismo são simplesmente incapazes de dividir o mesmo espaço na rua com aqueles que sempre enxergaram o que havia de intrinsecamente errado no processo de Globalização conforme orquestrado por algumas multinacionais e um punhado de “superburocratas sem rosto”, quem vocês acham que sai ganhando nessa história?


» Na sequência, encerramos a série: o Diagrama de Nolan já foi pro saco, agora precisaremos de alguns eixos a mais...

***

[1] Se não sabe do que se trata o Diagrama de Nolan, recomendamos muitíssimo que leia esta série desde o seu início.

[2] Em Entre a esquerda e a direita eu convidei dois amigos de espectros opostos das ideologias políticas para debatermos sobre política, economia e os rumos da nossa sociedade. Você pode ler sobre o tema específico da “doença do capitalismo” aqui, com meus comentários aqui.

Crédito das imagens: [topo] AP (peruanos protestam contra o TPP em Lima); [ao longo] Google Image Search (uma ilustração alegórica dos “superburocratas sem rosto”).

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3.3.17

Reflexões políticas, parte 3

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O debate exterminado

Uma revolução pode ser compreendida de muitas formas. Em certo sentido a história humana, particularmente no campo político, está sempre em revolução, em mudança constante. Também há as revoluções internas, que se dão na mente e na alma de cada um, e as externas, que envolvem mudanças na sociedade em geral. Para não correr o risco de ser mal interpretado, e também para fazer uma separação mais clara entre revolucionários e progressistas, vou usar o termo revolucionário extremista para me referir aos revolucionários radicais. Explico melhor:

Ora, se dissemos que um progressista se diferencia de um conservador pela maneira como compreende a velocidade ideal pela qual devem se suceder as mudanças políticas, sociais e legais, em nenhum momento entendemos que o progressista deva desconsiderar completamente as ideias do conservador, e vice-versa. Afinal, esta é a essência da Política: ouvir o outro lado, buscar o consenso possível entre as ideias aparentemente opostas, sempre considerando que numa democracia há maiorias e minorias, e todas devem ser escutadas quando se trata do debate público.

Assim, um revolucionário extremista é aquele que já não deseja mais dialogar, ouvir o outro lado. Ele está disposto a impor a sua opinião a qualquer custo. Muitos revolucionários deste tipo costumam pegar em armas e criar guerras civis para tentar tomar o poder pela força. Outros, provavelmente os mais perigosos, tentam se eleger por vias democráticas; mas, uma vez no poder, tratam de tentar “mudar as regras do jogo” para que simplesmente não possam mais, nunca mais, perder uma eleição.

Quando um progressista desiste do debate político e passa a crer que a mudança deve ocorrer pela força, seja das armas, seja de um projeto de poder que visa acabar com a democracia em maior ou menor grau, ele se torna um revolucionário extremista. Ou seja, é aquele que crê que o futuro deve ser imposto a força, pois já não há mais tempo para debate algum no presente.

Em reação a tais ideias é que surgem, justamente, os reacionários, que também são revolucionários, só que a revolução deles visa um retorno ao passado que eles conhecem bem (ou pelo menos creem nisso), e não um salto às cegas para um futuro desconhecido. Os conservadores podem se tornar reacionários justamente quando também desistem do debate no presente, e passam a crer que o retorno a “época dourada” do passado, quando “tudo funcionava bem, e havia menos corrupção e crimes em geral”, deva ser realizado igualmente na base da força – o que geralmente envolve golpes militares.

Fica mais simples resumir tudo com uma ideia (considerando que se trata tão somente de um resumo): é quando passam a defender o totalitarismo, ou seja, o fim do debate político e da democracia, que conservadores se tornam reacionários, e progressistas se tornam revolucionários extremistas.

Muito bem, agora só nos resta falar dos totalitarismos em si. Em geral, não é muito difícil compreender o que é o totalitarismo: é onde o debate foi exterminado, e somente uma única vertente política predomina; da mesma forma, geralmente só há de fato um único partido capaz de vencer eleições (isto é, quando há eleições). É também quando a mídia em geral deixa de criticar o seu governo, e passa e exaltá-lo todos os dias (geralmente sendo muito bem paga para tal). Finalmente, os totalitarismos costumam estar ligados a grandes líderes messiânicos, “salvadores da pátria”, por vezes com características mitológicas.

Quando um totalitarismo já está instaurado, as divisões passam a ser entre os que apoiam os totalitários e aqueles que lutam pela liberdade. É neste momento, e somente nele, que os revolucionários e os reacionários podem ser perdoados por se tornarem radicais: é que a Política já foi assassinada, e a luta deles passa a ser pelo retorno da possibilidade do debate. Mesmo aqui, entretanto, é preciso ter muito cuidado: é ponto passivo entre reacionários e revolucionários extremistas que a democracia ou “não existe de fato” ou está em vias de falência, e eles costumam usar essa percepção como justificativa para o seu próprio desejo de impor pela força as suas próprias ideias. Podemos, quem sabe, julgar assim: se ainda há um Congresso funcionando, por mais corrupto que seja, ainda há representação política, e a democracia ainda vive – mesmo que com a ajuda de aparelhos.

Por convenção de quase todos os comentaristas políticos, o que determina o alinhamento dos totalitarismos em esquerda ou direita já não é mais o aspecto econômico, e é precisamente aqui que o nosso precioso Diagrama de Nolan começa a rachar – mas tudo bem, ele não poderia mesmo resumir toda a complexidade das nossas ideias políticas. Assim sendo, a minha análise abaixo tenta buscar mais o bom senso do que a rigidez geométrica:

Um totalitarismo de esquerda costuma estar mais alinhado, obviamente, aos revolucionários extremistas. Ele geralmente se inicia por revolta popular ou guerra civil, e busca erradicar em boa medida o passado, isto é: o sistema político, legal e social que estava instaurado. É também muito comum, como já dito acima, que um totalitarismo de esquerda surja de um projeto de poder que se elegeu democraticamente, mas que busca acabar com a democracia uma vez no poder. É muito raro ver um totalitarismo de esquerda tomar o poder com a ajuda de algum poder religioso organizado, pois eles geralmente favorecem a tradição antiga. Apesar de estar ligado inicialmente a movimentos populares, o resultado final desse tipo de totalitarismo costuma ser a mera substituição de uma elite por outra.

Por oposição lógica, um totalitarismo de direita costuma estar mais alinhado aos reacionários. Ele geralmente se inicia por um golpe militar, muitas vezes com algum apoio do poder religioso já estabelecido, que prefere conservar a tradição como está, e das elites financeiras e midiáticas, que obviamente preferem manter a sua partilha atual das riquezas. Ele busca se livrar do futuro, e na medida do possível retroagir aos sistemas do passado, particularmente no que tange a legislação mais conservadora. Não é raro vermos um totalitarismo de direita estar alicerçado numa narrativa quase mitológica da história de um país, que é muitas vezes apenas uma invenção (o que às vezes também pode ser chamado de nacionalismo radical).

Muitas vezes vemos discussões acerca de “qual totalitarismo matou mais?”. Nesse sentido, acho proveitoso consultarmos o historiador Leandro Karnal:

Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. [1]

A moral da história é que, seja de esquerda ou de direita, todo o totalitarismo é igualmente ruim na medida em que cerceia a liberdade, sufoca a democracia e, inevitavelmente, tolhe a possibilidade do florescimento da Política.

Assim acredito que tenhamos percorrido em boa medida o Diagrama de Nolan. Mas, se ele se rachou um pouco em nossa análise dos totalitarismos, em breve ele irá se quebrar por completo, quando falaremos de globalização e globalismo, e de como o que era direita pode ter virado esquerda, e vice-versa.


» A seguir, o que Donald Trump e um punhado de manifestantes da esquerda peruana têm em comum.

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[1] Retirado do artigo O fantasma de Stalin.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Charlie Chaplin em O Grande Ditador); [ao longo] Pawel Kuczynski

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26.2.17

Reflexões políticas, parte 2

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A tradição em reforma

Se imaginarmos a linha que liga os extremos de esquerda e direita econômica (dos quais falei no último artigo) como um plano horizontal, e uma outra linha vertical cortando esta primeira ao centro, em que no topo temos um extremo de totalitarismo governamental, onde geralmente a democracia é inexistente ou precária, e na ponta inferior, uma forma de governo plenamente democrática, que garante todas as liberdades individuais de seus cidadãos, então chegaremos a uma das versões do Diagrama de Nolan (ver a imagem acima).

David Nolan, um ativista político americano, criou este diagrama em 1969. Nolan via uma esquerda progressista que defendia somente as liberdades individuais, mas era favorável a intervenções do Estado na economia, ao mesmo tempo em que percebia na direita conservadora de seu país uma defesa somente da liberdade do Mercado, e não exatamente dos indivíduos (por exemplo, a união estável entre casais homossexuais não era então reconhecida pela lei). Assim, Nolan adicionou mais um eixo na divisão entre esquerda e direita, como forma de divulgar as ideias do libertarianismo, que defende uma regulação estatal mínima tanto na economia quanto na vida pessoal de cada cidadão [1].

De certa forma, é impossível defender a democracia plena sem concordar em alguma medida com o libertarianismo, mas antes de falar de totalitarismo e liberdade, eu vou falar de conservadorismo e progressismo:

Podemos considerar que desde os girondinos e jacobinos, na Revolução Francesa, o mundo político (principalmente o ocidental) tem avançado em suas reformas passo a passo, ora estimulado pelos reformistas, ora refreado pelos tradicionalistas. Obviamente que os tradicionalistas são conservadores e defendem que as reformas sejam feitas da forma mais lenta e gradual possível, preocupados que são com a possibilidade de que uma série de passos descuidados a frente venham a precipitar todo o sistema num abismo do qual necessitará de muitas gerações para escapar; os reformistas, pelo contrário, acreditam que as mudanças vêm ocorrendo de forma muito lenta, e que o progresso social deve se dar de forma mais urgente, ainda que alguns passos apressados eventualmente possam nos levar para algumas armadilhas pelo caminho.

É muito importante notar que ambos os movimentos creem que é necessário o aprimoramento das leis e das condições sociais, eles tendem a discordar apenas na velocidade em que tais mudanças devam ocorrer para que elas de fato funcionem da melhor forma. Quando compreendido desta forma, não há a menor razão para que o debate entre conservadores e progressistas se dê de forma dogmática, crendo que o pensamento oposto está intrinsecamente errado: é provável que o melhor caminho surja precisamente do consenso entre eles. A isto chamamos, mais uma vez, Política.

Vamos citar um exemplo contemporâneo: em junho de 1971, o então presidente dos EUA, Richard Nixon, afirmou numa conferência de imprensa que o abuso do uso de drogas ilegais era o “inimigo público número um” dos Estados Unidos. A chamada Guerra às Drogas, que já estava em curso, se radicalizou bastante nas décadas seguintes. Com o passar dos anos, entretanto, muitos pensadores progressistas começaram a alertar para o fato de que ela se parecia muito mais com uma espécie de “enxugamento de gelo”; que, além de não resolver definitivamente o problema, ainda transferia muitos recursos para o crime organizado, conforme havia ocorrido no período da Lei Seca, quando os americanos continuaram consumindo bebidas de um jeito ou de outro, e Al Capone se tornou um criminoso célebre pelo seu poder.

A ideia dos progressistas não era afirmar que o consumo de toda e qualquer droga deveria ser liberado e estimulado mas, pelo contrário, de que as dependências químicas seriam melhor administradas e tratadas pelos médicos do que pelos policiais. Para quê, afinal, gastar imensos orçamentos em segurança pública somente para impedir que um cidadão se aproxime das drogas se a experiência milenar da relação entre seres humanos e substâncias do tipo tem nos dito que isto provavelmente jamais irá acabar?

Ora, os primeiros progressistas que vieram com este papo foram demonizados, como é comum ocorrer com todos aqueles que se erguem para criticar o senso comum: “as drogas fazem mal!”... Foi preciso que algumas décadas se passassem para que, tal qual água mole batendo em pedra dura, o seu discurso começasse a ser assimilado pela sociedade em geral. Hoje, temos muitos políticos que foram convencidos de que a Guerra às Drogas, afinal, tem feito mais mal do que bem – um dos que mudaram de ideia foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, muitos estados americanos seguiram os exemplos de diversos países europeus, e legalizaram a venda da maconha, que sozinha respondia por bem mais da metade do lucro dos traficantes ilegais. O país que inaugurou a Guerra às Drogas hoje tem dificuldades em saber o que fazer com tanto dinheiro arrecadado nos impostos deste novíssimo mercado. Uma boa dica seria: investir em clínicas públicas de tratamento de dependentes químicos. Assunto resolvido.

Mas é claro que tal mudança não se deu da noite para o dia, e passou por anos de debates e da cuidadosa elaboração de planos de legalização. É possível que em muitos países a liberação da venda da maconha tenha aumentado, e não diminuído, o número de usuários, mas o que não podemos dizer é que o tratamento dos dependentes piorou – afinal, nesses países hoje eles são considerados doentes, e não criminosos.

No exemplo acima falamos de um debate entre progressistas e conservadores que varou décadas, mas que no fim das contas parece ter chegado a um consenso vantajoso para todas as partes envolvidas. Provavelmente, daqui a mais algumas décadas, o período em que a maconha foi considerada proibida será lembrado da mesma forma que hoje é lembrada a Lei Seca. Hoje, é ponto passivo entre a grande maioria dos conservadores que a Lei Seca foi um erro.

Isto não quer dizer, no entanto, que os conservadores estarão sempre errados, e que a tendência natural da história seja comprovar os seus equívocos: mesmo no campo das drogas, há muitas delas potencialmente muito mais perigosas que a maconha, e que não respondem sozinhas por um lucro muito expressivo do tráfico. É possível que elas devam permanecer proibidas, e assim, percebemos que os conservadores também tinham razão. Após essa reflexão, podemos afirmar com certa convicção que um mundo sem conservadores seria tão trágico quanto um mundo sem progressistas.

O mesmo talvez não possa ser dito dos extremistas reacionários, revolucionários e totalitários, mas fato é que estes também compõem o nosso espectro político de dois eixos. Mas este artigo já se estendeu o suficiente, precisarei usar o próximo para falar deles...


» A seguir, como exterminar o debate e sempre ter razão.

***

[1] Os críticos de Nolan chamam o seu Diagrama de Propaganda de Nolan, mas creio que em geral ele é muito útil para esclarecer as ideias políticas que não tem a ver com economia.

Crédito das imagens: [topo] raph (minha adaptação do Diagrama de Nolan); [ao longo] Google Image Search (Al Capone)

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24.2.17

Reflexões políticas, parte 1

O parto de um novo mundo

Era uma vez um grande mercado de peixes situado numa grande metrópole. Todo dia, ainda antes do sol nascer, muitos compradores representantes dos mais badalados restaurantes japoneses da cidade vinham comprar salmão a peso de ouro. Esse pessoal sabia que o salmão de maior qualidade tem a cor da carne avermelhada, e por isso pagava mais caro por ele.

Com o tempo, no entanto, começaram a surgir boatos de que os vendedores do mercado estavam passando gato por lebre, ou seja, fingindo vender um salmão de maior qualidade, quando na verdade se tratava de salmão de cativeiro, onde os criadores usavam corantes artificiais na ração para conferir a mesma cor avermelhada ao produto final.

Os consumidores vieram questionar os comerciantes do mercado, e estes lhes responderam mais ou menos assim: “Olha, a única forma que teríamos para nos certificar de que todo o salmão é da mesma qualidade seria contratarmos especialistas independentes para trabalharem nessa regulação; isto, no entanto, aumentaria consideravelmente o preço do salmão por aqui”.

Neste momento, os compradores tiveram de se deparar com um imenso dilema, que na verdade explica boa parte da discussão política e econômica da modernidade: o que é mais vantajoso, um mercado desregulado que vende produtos mais baratos, porém potencialmente perigosos, ou um mercado regulado que vende produtos mais caros, por uma promessa de maior segurança?

Na verdade, usei a metáfora do salmão somente pela simplicidade mesmo, pois hoje em dia a quase totalidade deste mercado não passa por uma regulação minuciosa. No entanto, há muitos outros mercados que necessitam de regulação, seja para combater os monopólios e carteis de grandes empresas, seja simplesmente para resguardar os direitos dos consumidores de não serem enganados na cara dura.

O bom senso nos indica algo até mesmo óbvio, e que de certa forma já ocorre em boa parte do mundo: há que se ter uma certa regulação dos mercados, mas não ao ponto de torná-los inviáveis para os comerciantes – afinal todo comércio necessita de algum lucro, do contrário ninguém iria arriscar seu rico dinheiro investindo nele.

No entanto, o ser humano sofre de uma latente e um tanto resiliente atração pelo maniqueísmo. Mani foi um filósofo cristão do século III que propunha que o mundo era o palco de uma guerra eterna entre um Deus Bom e um Demônio Mal. Claro que o maniqueísmo, assim como o zoroastrismo que foi sua fonte original, são bem mais complexos do que esta dualidade superficial dá a entender... mas, como muitas outras doutrinas e filosofias, o maniqueísmo passou para a enciclopédia da história de uma forma um tanto resumida, e este resumo decaiu precisamente neste “dualismo ralo”.

Assim, nas visões econômicas atuais, podemos tentar distribuir as ideias numa linha com dois pontos opostos: na extremidade esquerda, temos a ideia de que o Estado deve regular praticamente tudo, inclusive o quanto cada comerciante pode ter de lucro em sua atividade, pois que a distribuição de toda e qualquer renda excedente garantirá que tudo funcione bem para todos; já na outra ponta, a direita, temos a ideia de que o Mercado deve ser regulado o mínimo possível, deixando que os comerciantes lucrem o quanto conseguirem, pois que o livre mercado e a concorrência garantirão que tudo funcione da melhor forma.

Se recorrermos novamente ao bom senso, veremos que qualquer uma das extremidades desta linha, quando livre das considerações opostas, na realidade não funciona assim tão bem quanto o prometido. E, se é difícil imaginar os motivos, basta recorrer a nossa história recente para vermos inúmeros exemplos de como guinadas muito grandes para uma das duas pontas costumam terminar em tragédias econômicas, principalmente em se considerando um mundo cada vez mais globalizado, onde o mercado de peixes se estende por todos os continentes.

Talvez não tenha sido por uma razão puramente econômica que os modelos comunistas, baseados em alta regulação estatal, tenham desmoronado junto com o Muro de Berlim, mas o fato é que não deram muito certo. Por outro lado, nós estamos atualmente vivendo uma das maiores crises econômicas da história, e ela se originou precisamente pela falta de regulação do mercado imobiliário americano. Ou seja, não é preciso ser especialista em economia global ou análise política para compreender o óbvio: nós precisamos das duas coisas, a regulação estatal e o livre mercado, funcionando em harmonia.

Por que diabos então as pessoas ainda brigam tanto por conta disso? É a pergunta que necessariamente surge desta pequena reflexão.

Eu confesso a vocês que, se tal pergunta fosse simples de ser respondida, o mundo seria outro – no mínimo, as pessoas iriam economizar bastante tempo em debates nas redes sociais.

Mas, eu proponho responder a tal indagação com uma outra, que talvez nos ajude a chegar mais próximo de um entendimento mais abrangente da questão: Imaginem se todas as pessoas fossem de esquerda ou de direita, e concordassem em absolutamente tudo no que hoje teimam em discordar?

Nós tivemos muitos períodos históricos em que o debate político teve, oficialmente, somente um lado. No entanto, nos países e regiões do planeta que passaram por tais períodos, tivemos os governantes mais sangrentos, e os regimes mais totalitários, seja num extremo, seja noutro.

Aqui neste blog vocês devem ter percebido que eu tento evitar, na medida do possível, falar de Política. Assim, não foi da noite para o dia que eu decidi voltar ao tema. A realidade é que nosso mundo passa por mais um período raro da história humana: aqueles períodos em que os sistemas antigos já faliram, são como zumbis se arrastando pela estrada, mas os novos sistemas ainda não tiveram tempo de nascer.

Eduardo Galeano vislumbrou tal gestação numa praça espanhola durante uma manifestação popular, e chegou a sábia conclusão de que “este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante”... Assim, eu não tenho grandes pretensões de ver tal nascimento nos anos ou nas décadas seguintes, mas penso que talvez alguém que esteja lendo isso possa um dia viver lá.

Esta minha singela nova série de reflexões políticas não procurará tratar de nada senão deste parto de um novo mundo. A única coisa que peço aos que por ventura se interessarem em prosseguir é que compreendam que a Política não se faz pelo extermínio da esquerda ou da direita, mas pelo consenso e a harmonia possível entre elas.

A Política existe para que os debates e as leis transcorram e sejam elaboradas em mesas de representantes do povo, e não em palácios e gabinetes habitados por homens cheios de dogmas e ideologias compradas.

Não é fácil lidar com as ideias contrárias, mas seria pior se elas não pudessem sequer serem manifestadas. Se não podemos concordar em tudo, que nossa discordância seja construtiva, que as pedras se choquem para produzir faíscas de novas ideias, e não somente para arrancar lascas umas das outras.

Sigamos adiante.


» A seguir, mais um eixo é adicionado ao nosso espectro político.

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Crédito da foto: Mike Gates

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