Pular para conteúdo
11.6.24

Oceânico, parte 1

Um debate entre amigos

Sigmund Freud, fundador da psicanálise e grande desbravador do inconsciente humano, costumava debater sobre a religião com um amigo, Romain Rolland, escritor e biógrafo de grandes espiritualistas do seu tempo, como Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda. O debate é usado como ponto de partida do célebre O mal-estar na civilização, de Freud, onde o autor cita que Rolland até concorda com as teses de O futuro de uma ilusão [1], mas afirma que a verdadeira religiosidade humana tem muito pouco a ver com isso tudo:

Eu lhe enviei meu pequeno manuscrito, no qual trato a religião como uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com a minha opinião, lamentando, todavia, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Segundo ele, ela seria um sentimento peculiar que jamais o abandonava, sendo que a sua existência fora confirmada por muitas outras pessoas, de modo que ele supunha que ela estaria atuante em milhões de indivíduos.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Mais adiante na obra, Freud explica que para Rolland tal sentimento não era propriamente mero “artigo de fé”, mas um verdadeiro contato com algo ilimitado, sem fronteiras, eterno: um sentimento oceânico. Ora, mas Freud era um entusiasta da ciência, das observações objetivas dos casos clínicos, e confessa no livro que ele mesmo jamais conseguiu tocar esse tal sentimento que, segundo seu amigo, era a verdadeira fonte da religiosidade humana. Daí em diante, sem recorrer à desonestidade intelectual ou a alguma espécie de ceticismo de negação [2], Freud dedica o restante do primeiro capítulo da obra a tentar desvendar de onde viria tal sentimento oceânico.

É então que ele nos traz uma comparação curiosa com a percepção de mundo dos recém-nascidos. Segundo Freud, inicialmente o bebê não consegue diferenciar a si mesmo do restante do mundo a sua volta, mas aos poucos vai aprendendo que há “objetos distintos de si”, como o próprio seio da mãe, que só “aparece” quando chamado. Assim o bebê aprende que, ao chorar de fome, é amamentado por um objeto externo, que não era parte de si mesmo. Com o tempo, vamos aprendendo a nos dissociar do mundo, vamos delimitando nosso ego:

Originalmente o ego contém tudo, e só mais tarde separa, de si mesmo, um mundo exterior. Assim, o nosso presente sentimento do ego não passa de um atrofiado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo – de fato, totalmente abrangente –, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Caso nós pudéssemos supor que esse sentimento primário do ego persistiu, em maior ou menor grau, na vida mental de muitas pessoas, ele poderia ser colocado, como um tipo de contraponto, lado a lado com o sentimento do ego da maturidade, que é mais nitidamente demarcado. Nesse caso, os conteúdos imaginativos a ele pertinentes seriam justamente aqueles da ausência de limites e de um vínculo ao universo como um todo, precisamente os mesmos que meu amigo utiliza para descrever o sentimento “oceânico”.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Segundo a tese de Freud, o tal sentimento oceânico não teria uma fonte mística, não seria relacionado com um suposto contato real com a divindade ou alguma manifestação cósmica, mas antes seria tão somente o “resíduo” de um sentimento de nossa primeira infância, que por alguma razão jamais foi esquecido. Em resumo, é como se o que chamamos de misticismo fosse reduzido a alguma espécie de sentimento de amamentação cósmica, como se ainda bebêssemos algum leite metafísico direto da fonte eterna.

Como espiritualistas, devemos aplaudir Freud por ter ido até onde poderia ir, por ter se esforçado em tentar compreender o incompreensível. É como se algum mergulhador tivesse retornado do oceano em estado de êxtase, maravilhado com seu primeiro mergulho no mar, e tentasse descrever com palavras algo que não pode realmente ser descrito em palavras; e Freud, sem nunca ter mergulhado sequer numa piscina, tentasse explicar tal descrição com sua própria visão de mundo. Mas as palavras são apenas cascas de sentimento, e o misticismo de fato vai muito além disso.

O que quer que pensem de nós, em nada lembrará o que somos.

(Rumi)

Seja como for, também me parece que Freud teria sido mais feliz em sua analogia se considerasse o sentimento de um recém-nascido como algo mais digno de nota, e não somente parte de um mero instinto de sobrevivência. Pois o bebê chora quando tem fome, e é amamentado; mas, quando não tem fome, ele vive em uma espécie de estado de êxtase persistente. Ou, como bem resumiu Satyaprem, um budista brasileiro:

Uma criança é um buda que não sabe que é um buda.
Um buda é uma criança que sabe que é um buda.

Ou seja, a criança saudável e bem cuidada vive em seu próprio estado de iluminação, muito embora tal estado seja lentamente vencido pelo peso do mundo. Nascemos, e não nos entendemos como algo separado do resto, somos parte de tudo. Então, lentamente vamos construindo/delimitando um ego, tão necessário a nossa sobrevivência, mas que também necessariamente nos retira do Céu, e somos expulsos desse paraíso oceânico. Mas um buda, um iluminado, é aquele que, mesmo tendo caído no mundo adulto, consegue de alguma forma alcançar novamente tal estado, ainda que em curtos espaços de tempo (se é que o tempo pode ser medido no Céu).

Nada disso se explica com palavras. Se não entendeu, leia novamente o parágrafo acima, mas com o coração. E, se ainda não sabe ler com o coração, talvez seja porque sofre desse mal do Ocidente, que tenta se relacionar com o sagrado apenas do ponto de vista masculino, como uma espécie de fonte eterna de onde todas as coisas são criadas e cuidadas. Isso é uma visão bem diversa da do Oriente, que em geral considera que o sagrado é todas as coisas, de modo que jamais poderíamos estar longe, muito menos fora do Céu. Se não vemos o sagrado a nossa volta, se quando choramos de angústia não há nenhum seio da Grande Mãe que venha nos amamentar, quiçá tenhamos de retornar ao passado, quando a religião era ditada pelas mulheres, para beber uma vez mais desse leite.


» Na sequência, quando Deus era mulher.

***

[1] Outra obra de Freud, onde ele basicamente considera o monoteísmo do Ocidente como uma grande ilusão cuja função primordial é frear os instintos humanos e manter a sociedade “em ordem”.

[2] O ceticismo de negação afirma que algo não existe somente porque não há evidências objetivas da sua existência. No entanto, é impossível comprovar objetivamente que algo não existe, apenas que existe. Ou, usando as palavras de Carl Sagan, a ausência de evidência não é evidência de ausência.

Bibliografia
O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Freud e Romain Rolland); [ao longo] Bia Octavia/unsplash.

Marcadores: , , , , , ,

0 comentários:

Postar um comentário

Toda reflexão é bem-vinda:

‹ Voltar a Home