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8.8.24

O Buda que Ri

Quando muitos ocidentais pensam em “Buda”, geralmente não visualizam o Buda histórico, seja meditando ou ensinando. Este “Buda verdadeiro” é conhecido mais precisamente como Buda Gautama ou Buda Sakyamuni, e é quase sempre retratado em profunda meditação ou contemplação. Geralmente a imagem ilustra um indivíduo muito magro com uma expressão séria no rosto, embora plena de paz.

A maioria dos ocidentais, no entanto, traz à mente um personagem gordo, careca e alegre chamado “O Buda que Ri” quando pensa no Buda. De onde veio essa figura?

O Buda que Ri surgiu dos contos populares chineses do século X. As histórias originais do Buda que Ri retratavam um monge zen budista chamado Chi-tzu, ou Qieci, de Fenghua, no que hoje é a província de Zhejiang. Chi-tzu era um personagem excêntrico, mas muito amado, que fazia pequenas maravilhas, como prever o tempo. A história chinesa atribuiu a data aproximada entre 907 e 923 d.C. para o nascimento de Chi-tzu, o que significa que ele viveu consideravelmente mais tarde do que o histórico Sakyamuni, o verdadeiro Buda.

De acordo com a tradição, pouco antes da morte, Chi-tzu revelou ser uma encarnação do Buda Maitreya. Maitreya é nomeado nas escrituras como o Buda de uma era futura. As últimas palavras de Chi-tzu foram:

Maitreya, verdadeiro Maitreya,
renascido inúmeras vezes,
de tempos em tempos manifestado entre os homens:
[mas] os homens de sua época não o reconhecem.

Os contos de Chi-tzu se espalharam por toda a China, e ele passou a ser chamado de Budai, que significa “saco de cânhamo”. Ainda segundo a tradição, ele carregava um saco cheio de coisas boas, como doces para crianças, e muitas vezes é retratado com muitas delas ao seu redor. Budai representa felicidade, generosidade e riqueza, e também é considerado um protetor das crianças, dos pobres e dos fracos.

Hoje, uma estátua de Budai pode ser encontrada perto da entrada na maioria dos templos budistas chineses. A tradição de esfregar a barriga de Budai para se obter sorte é uma prática popular; todavia, não é um ensinamento budista genuíno.

Seja como for, é um claro sinal da ampla tolerância do budismo à diversidade que este Buda risonho do folclore seja aceito na prática oficial. Para os budistas, qualquer qualidade que represente a natureza búdica deve ser encorajada, e o personagem folclórico do Buda que Ri não é visto como algum tipo de sacrilégio, mesmo que as pessoas inconscientemente possam confundi-lo com o Buda Gautama.

Budai também está associado ao último painel dos Retratos dos Dez Pastores de Bois. Estas são dez imagens que representam estágios de iluminação no zen budismo. O último painel mostra um mestre iluminado que entra em cidades e mercados para dar às pessoas comuns as bênçãos da iluminação.

A figura de Budai seguiu a disseminação do budismo em outras partes da Ásia. No Japão, ele se tornou um dos Sete Deuses da Sorte do Xintoísmo, e é chamado de Hotei. Ele também foi incorporado ao taoísmo chinês como uma divindade da abundância.

***

Este texto será um dos textos adiconais da minha tradução do “Atthaka Vagga, O Livro Budista das Oitavas”, a ser lançado em breve tanto em ebook como na versão impressa.

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Budai na entrada de um templo budista chinês); [ao longo] Google Image Search (Buda Gautama).

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19.6.24

Oceânico, parte final

« continuando da parte 2


Aquele que tenha explicá-lo, mente

Para realizarmos qualquer coisa, mesmo a mais banal, como ir até a sorveteria tomar um sundae ou uma banana split, antes de mais nada precisamos ter a vontade de agir. Segundo Freud, todos nós temos uma espécie de reservatório de energia psíquica, isto é, uma quantidade de energia disponível para realizar nossas atividades. Freud também chamou essa energia de libido, uma espécie de energia sexual. Tal energia pode se manifestar diretamente na vida sexual em si, como no sexo ou nas fantasias eróticas, mas Freud acreditava que ela também serve como um impulso, uma pulsão, para a realização das mais diversas atividades, mesmo aquelas que julgamos ter pouca ou nenhuma relação com o sexo. Por exemplo, para ele a atividade artística é uma forma de sublimação da libido: ao invés de buscar a satisfação de seus impulsos estritamente sexuais, o artista “desvia” tal energia para a execução de todo tipo de atividade artística. E isso também é válido para a ciência, o trabalho em geral, e até mesmo a espiritualidade. Aliás, essa foi a principal divergência de Freud com Carl Gustav Jung, o jovem psiquiatra que era uma espécie de “discípulo predileto” do fundador da psicanálise.

Ao contrário de Freud, Jung acreditava que a energia psíquica tinha uma origem espiritual, e que poderia se manifestar de diversas formas nas ações humanas, incluindo aí a sexualidade. Mas Freud permaneceu irredutível em sua crença de que tal energia era primordialmente sexual, e que poderia até influenciar a espiritualidade, mas não o contrário. Os dois grandes nomes da psicologia do século XX divergiram justamente no que seria o fundamento da energia psíquica. Ainda assim, é preciso analisar com cuidado a divergência de Jung, pois não é que ele achasse que a sexualidade não tinha papel extremamente importante na vontade humana (e nesse aspecto ele não discordava de Freud), apenas ocorre que Jung não era tão avesso à espiritualidade em geral, e de alguma forma acreditava que a sexualidade por si só não era suficiente para abarcar toda a experiência religiosa, que ela não daria conta de explicar o tal sentimento oceânico (que ele provavelmente chamaria de misticismo).

Foi Jung quem popularizou os termos introversão e extroversão (ou “extraversão”, como ele escrevia) quando fundou seu corpus teórico e clínico, que chamou de psicologia analítica. A premissa básica é que os introvertidos buscam energia internamente, em solitude, enquanto os extrovertidos a obtêm da própria relação com as pessoas ao seu redor. No entanto, embora hoje em dia muitos de nós nos descrevamos como “extrovertidos” ou “introvertidos”, e vejamos esses traços como partes essenciais de nossa identidade, as definições de Jung não eram tão polarizadas. Na visão de Jung, precisávamos buscar essa energia tanto nas relações externas quanto dentro de nós mesmos para sermos pessoas plenas. Longe de definir “o que somos”, como algo escrito em pedra, Jung considerava a introversão e a extroversão como tipos de consciência que podemos experimentar de maneiras diferentes em situações distintas. Tanto a introversão quanto a extroversão podem dominar nosso comportamento, mas também podemos nos beneficiar da outra, não dominante. Aproveitando ambas as fontes de energia, podemos realmente expandir nossa experiência de vida.

Jung trouxe da alquimia antiga essa noção de que precisamos equilibrar as nossas caraterísticas internas, e tal noção também perpassa a sexualidade sagrada, a união e o equilíbrio dos polos feminino e masculino, algo que todos nós carregamos conosco, a todo momento. Mas, para explicar isso melhor, será bom recorrermos ao taoismo chinês:

Bem, o taoismo é uma filosofia espiritual bastante vasta, aqui bastará nos focarmos nos conceitos de yin e yang. Eles descrevem duas forças fundamentais, opostas e complementares, que podem ser encontradas em tudo o que há na natureza. O yin é o princípio feminino, a terra, a passividade, a escuridão e a restrição, enquanto o yang é o princípio masculino, o céu, a atividade, a luz e a expansão. Claro que citei apenas alguns exemplos de opostos complementares aqui, pois a lista é infindável. Seja como for, não há qualquer espécie de hierarquia entre os dois princípios. Por exemplo, se dizemos que yang é positivo, ele só é positivo quando comparado a yin, que será negativo. Essa analogia se assemelha a carga elétrica atribuída a prótons e elétrons, de modo que um não é “bom” por ser positivo, tampouco o outro será “mau” por ser negativo.

Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento do universo possui um complemento do qual depende para a sua existência e que, por sua vez, também o traz dentro de si. Disso se tira que nada existe em estado absolutamente puro nem na absoluta passividade, mas sim em constante transformação. Há um símbolo que resume muito bem o yin e yang, e que muitos de vocês possivelmente já viram em algum lugar. Ele se chama taiji, e representa duas carpas vistas do alto, nadando em círculos num lago. Há uma carpa preta, de olho branco; e uma carpa branca, de olho preto. Ou seja, a carpa preta, yin, também tem um pouco de yang; e, da mesma forma, a carpa branca, yang, também carrega um pouco de yin consigo. E ainda temos um conceito essencial no símbolo em si: ambas as carpas jamais param de nadar, e do seu nado advém o equilíbrio e a harmonia de todas as coisas.

Com isso tudo em mente, será muito importante levar em consideração, daqui em diante, que na sexualidade sagrada, nos diversos rituais e práticas de magia sexual, sempre haverá uma conexão entre dois seres humanos, entre duas almas [1], e uma delas fará o papel ativo (yang), enquanto a outra assumirá o passivo (yin). Isso não significa que tais papeis não possam eventualmente se inverter. Tampouco significa, como alguns já devem ter percebido, que todo homem seja sempre ativo, e toda mulher, sempre passiva. Aliás, sequer podemos levar em consideração a própria orientação sexual de cada participante, pois um casal homossexual também terá aquele que se sente mais à vontade no papel de yang, e aquele que está mais próximo de yin. Ou, em outras palavras, no fundo no fundo somos todos alma.

Pois bem, eu sei que muitos gostariam de saber em detalhes como eram exatamente tais rituais sexuais milenares, o que era, o que é exatamente a magia sexual. O que eu posso dizer é que, de certa forma, a única coisa que separa a magia sexual de qualquer outro tipo de magia [2] é o contato íntimo entre os operadores de determinado ritual. Afinal, nada do que se faça com falos e orifícios deveria ser alguma novidade para um mago, de modo que o próprio ato sexual em si é mera parte de um processo, e não um fim em si mesmo.

Como em qualquer ato mágico, o sexo sagrado também busca uma alteração na consciência. Ao contrário de diversas outras técnicas, no entanto, como as que se valem do controle da respiração ou de encenações teatrais específicas, nesse tipo de magia há um momento de alteração radical do estado de consciência, que no mundo profano é chamado de orgasmo.

Ora, sejam ou não magos e sacerdotisas, todos os que já experimentaram ao menos um orgasmo sabem muito bem do que se trata, não é preciso descrever nada: o orgasmo é uma experiência. A questão é saber o que diabos exatamente é essa experiência. Há um termo em francês que também é sinônimo para orgasmo, la petite mort, a pequena morte. Ele compara o orgasmo à morte no sentido de que experimentamos uma alteração tão radical em nosso estado de consciência usual, que é como se tivéssemos “morrido por alguns instantes”. Mas é precisamente esse estado quase que alienígena de consciência, onde muitas vezes sequer temos noção do tempo e do espaço, que possibilita que a própria magia sexual ocorra de modo mais potente. Se quiser saber como é, poderia, por exemplo, nos momentos que antecedem um orgasmo, começar a pensar em natureza, em montanhas e florestas e riachos, em abundância de vida, na Deusa como ela é, ao invés de nádegas e falos.

Nos primórdios da humanidade a religião era matriarcal, a mulher era sagrada, e o seu corpo era um templo. No xamanismo ancestral, os ritos de iniciação eram realizados nas cavernas, pois suas entradas eram comparadas a vaginas, uma vez que o próprio interior da caverna era o ventre da Deusa. Pode parecer estranho pensar sobre isso hoje, mas até mesmo as catedrais góticas seguiram esse padrão simbólico, uma vez que a Igreja também era a “esposa” de Cristo. E, se até hoje bebemos simbolicamente o sangue de Jesus em certas cerimônias, não deveria causar grande surpresa que isso também tenha se originado em ritos muito, muito mais antigos.

No fim das contas, o sentimento oceânico de fato sempre esteve à nossa disposição. Não é sequer o caso de termos de buscá-lo lá fora, no topo de alguma montanha, no texto de algum grimório secreto, mas simplesmente de retirar as barreiras que nós mesmos erguemos contra ele, quiçá por ser tão avassalador, tão irracional, tão além das palavras. Delimitamos nosso ego quando deixamos de ser recém-nascidos na Criação, e experimentar o sentimento oceânico pode ser a via mais breve de retorno ao que sempre fomos.

Há uma wali (amiga de Allah), uma mística sufi que viveu no Oriente Médio, lá no século VIII, que soube descrever essa tal experiência de modo muito poético – quiçá o único modo com que ela possa, de fato, ser descrita:

Em Ishq-e Haqeeqi [3], não há nada se interpondo 
entre um coração e outro.

O querer falar nasce da saudade,
a verdade acerca do real sabor da vida.
Aquele que o provou, sabe;
aquele que tenta explicá-lo, mente...

Como você poderia descrever a verdadeira forma de Algo
em cuja presença você se torna um borrão?
E em cujo Ser você ainda existe e perdura?
E que vive como um signo eterno para a sua jornada?

(Rabia Basri)


***

[1] É claro que os adeptos da não monogamia também podem adentrar a sexualidade sagrada com três ou mais almas, de uma só vez. Apenas leve em consideração que cada alma adicional torna a operação exponencialmente mais complexa. Nada impede, entretanto, a simples alternância de casais dentro de uma relação não monogâmica.

[2] Se você crê que “magia” é o mesmo que “algo que não existe”, ou “algo que se faz contra Deus”, talvez não devesse sequer estar por aqui. Mas, se gostou do que leu até aqui e ficou curioso em descobrir o que é de fato magia, recomendo o meu livro Artemagia (Edições Textos para Reflexão).

[3] Ishq-e Haqeeqi, o amor divino, a experiência de união mística com Deus, algo que pode muito bem ser comparado ao sentimento oceânico. Você pode encontrar este e outros poemas de Rabia Basri no livro Rumi – Além das ideias de certo e errado (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] cena do filme Um método perigoso (respectivamente, Jung e Freud); [ao longo] Google Image Search (taiji taoista); Dennis Mahlmeister (O Grande Rito).

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17.6.24

Oceânico, parte 2

« continuando da parte 1


A religião matriarcal

Há muito nos acostumamos a ver por aí religiões dominadas pelos homens, com seus deuses nos postos de comando celeste, e seus sacerdotes ditando as regras cá embaixo. Mas, será que foi sempre assim? E, se não foi, quando é que as religiões deixaram de ser matriarcais e predominantemente ligadas ao feminino?

Se voltamos a época pré-histórica, é possível constatar que há um farto registro arqueológico de alguma espécie de culto feminino, ou pelo menos foram achadas inúmeras esculturas de alguma espécie de Deusa, com seios fartos e em geral bem corpulentas, que foram chamadas de Estatuetas de Vênus, sendo a mais célebre a Vênus de Willendorf, encontrada por um explorador na Áustria, em 1908, e que pode ter até 30 mil anos.

Bem, há 30 mil anos não existia agricultura, e a totalidade dos seres humanos vivia da caça e da coleta, perambulando aqui e ali em um nomadismo sem fim. Diz-se que nessa época o próprio nascimento de um bebê era um grande mistério, de modo que a figura da mulher era grandemente valorizada, até mesmo de forma religiosa, como a fonte primária da vida. Então, há cerca de 11,5 mil anos atrás nós descobrimos a agricultura, e lentamente fomos deixando de ser nômades e nos tornando sedentários.

É mais ou menos aqui que surge uma história relativamente conhecida de como as mulheres podem ter perdido seu posto religioso. Primeiro, eventualmente se entendeu que os homens também eram necessários no surgimento da vida, e o seu sêmen também foi associado à fertilização da terra pelas águas do céu (por isso na maioria dos panteões há um deus celeste que germina a deusa da terra), de modo que a figura da mulher não mais monopolizava o mistério da vida. Segundo, com o surgimento da agricultura, os grupos de caçadores-coletores viram que era mais vantajoso simplesmente se assentar em terrenos férteis e guardar os excedentes das colheitas para as épocas mais difíceis, como no pico do inverno. Assim eles começaram a guardar grãos em silos, e em volta desses silos surgiram aldeias cada vez maiores. Ocorre que isso não se deu da noite para o dia, e enquanto alguns agrupamentos formavam aldeias, outros grupos de nômades, muitas vezes famintos, ainda perambulavam no entorno.

Agora imagine que você é um caçador-coletor faminto, que já não acha mais nada para caçar, mas se depara com uma aldeia cheia de grãos, e que nessa aldeia, por falta de necessidade, muitos deixaram de se armar para a caça, e tenham optado por viver apenas da agricultura: isto é, você tem fome e está bem armado, e eles têm comida de sobra e mal sabem se defender, o que você acha que acontece então? Pois é, invariavelmente você rouba os grãos, e se deixar alguém vivo na aldeia já é lucro para eles.

Mas não acaba aí: alguns aldeãos sedentários eram mais espertos que outros, e eventualmente chegaram à conclusão de que era mais fácil comprar os caçadores nômades com comida, e transformá-los basicamente em soldados, em defensores dos limites da aldeia. Até que surgiram aldeias com muros de madeira, de pedra, e torres de defesa, e cidades, e metrópoles. Com isso, um mundo onde agricultores pacíficos poderia sobreviver com certa autonomia passou a ser dominado pela guerra de cidades-estado tentando defender seu próprio território – e eventualmente abocanhar a terra alheia. E, nesse mundo, era inviável que as posições de poder religioso e/ou político se mantivessem entre as mulheres. Segundo a moral dessa história, os homens derrotaram a religião matriarcal na base da porrada.

Ora, essa história sempre me pareceu um tanto verossímil. Claro que se trata de uma grande aproximação da realidade, sem condições de descrever como as coisas se passaram em maiores detalhes, sem muita precisão histórica ou de datas. Mas, ainda assim, verossímil. O problema é que ela delimita a chamada transição do matriarcado para o patriarcado numa data muito distante, muito anterior à formação das grandes civilizações do Ocidente e do Oriente. Segundo essa narrativa, não poderia haver mulheres em posição proeminente de poder religioso e/ou político em praticamente nenhuma dessas sociedades, salvo raríssimas exceções.

Bem, ocorre que eventualmente eu me deparei com situações onde as grandes sacerdotisas ainda eram a regra, e não a exceção, e isso numa época bem mais recente do que “logo após o surgimento das primeiras aldeias”. Muitos de vocês devem conhecer Pitágoras, e alguns devem saber que ele é considerado “o pai da filosofia”, visto que supostamente ele mesmo cunhou o termo, ele mesmo se considerava, acima de tudo, um filósofo, um amigo ou amante (filos) do saber (sophia). Ocorre que Pitágoras teve uma mestra no início de sua trajetória, chamada Temistocleia, uma sacerdotisa do templo de Apolo em Delfos. A conexão entre Pitágoras e Temistocleia é feita num trecho da Vida dos Grandes Filósofos, de Diógenes Laércio, um historiador que viveu no século III d.C (cerca de 8 séculos depois do filósofo). Lá no livro, Diógenes nos diz que “Pitágoras derivou a maior parte de suas doutrinas éticas a partir dos ensinamentos de Temistocleia, sacerdotisa de Delfos”.

As sacerdotisas dos templos em Delfos e outras grandes cidades da Grécia Antiga também eram chamadas de pitonisas, e além de realizar profecias e ensinar jovens filósofos, eram amplamente reconhecidas como grandes autoridades religiosas, o que certamente lhes conferia certa relevância política. E, vejam bem, não eram duas ou três, eram diversas mulheres, diversas sacerdotisas, que em sua época eram mais famosas e relevantes do que homens como Pitágoras. Prova disso é que o próprio Sócrates, alguns séculos depois, iniciou sua jornada na filosofia justamente porque outra sacerdotisa em Delfos disse a um amigo seu que ele era “o homem mais sábio de Atenas”. Se as pitonisas não fossem tão importantes, se o seu conselho oracular não fosse amplamente respeitado por todos, Sócrates não teria se disposto a buscar por alguém mais sábio, e talvez Platão sequer tivesse sobre o que escrever.

E, se nos parágrafos acima eu lhes trouxe um exemplo relevante de como existiram sacerdotisas com amplo poder religioso mesmo muitos séculos após “o advento da civilização”, em Quando Deus era mulher a escritora e pesquisadora norte-americana Merlin Stone nos traz inúmeros outros casos parecidos. A obra nos conta a história do antigo culto à Deusa Mãe, e de como o rito às deidades femininas foi suprimido ao longo dos séculos. Antes de publicá-la, em 1976, Stone passou quase uma década pesquisando as deusas na Antiguidade, período em que a vida social, política, econômica e cultural de muitos povos girava em torno da mulher.

Pessoalmente, o que achei mais curioso e importante na interpretação histórica de Stone foi a sua defesa de que a perseguição aos cultos da Deusa Mãe não tiveram motivação puramente religiosa, pois a política e, principalmente, a questão da herança, também foram tão ou mais importantes na equação. Afinal, como ela bem descreve no livro, na religião matriarcal a herança passava da mãe para os filhos, de modo que eram as sacerdotisas quem decidiam o rumo de suas vidas, e de seus templos, exatamente como o fazem hoje os sacerdotes de religiões patriarcais. Mas o mais interessante é como exatamente isso se dava, o que nos dá uma bela dica do porquê a própria sexualidade foi amplamente demonizada, juntamente com as sacerdotisas e suas deusas:

As mulheres [sacerdotisas] que residiam nos recintos sagrados da Deusa Mãe tomavam amantes dentre os homens da comunidade, fazendo amor com aqueles que vinham prestar honra à Deusa. Para aquelas pessoas o ato sexual era considerado sagrado, tão santificado e precioso que era efetuado dentro da casa da Criadora do Céu, da Terra e de toda a vida. Um dos muitos aspectos da Deusa, e pelo qual era reverenciada, era ser a deidade padroeira do amor sexual. [...] Na minha opinião, tais costumes sexuais devem ter se desenvolvido em virtude da primeira compreensão e tomada de consciência da relação entre sexo e reprodução. Já que essa conexão foi provavelmente observada de início pelas mulheres, pode ter sido integrada na estrutura religiosa como um meio de assegurar a procriação entre as mulheres que escolhiam viver e criar seus filhos dentro do complexo do templo, e também, possivelmente, como um método de controlar a gravidez.

(Merlin Stone, Quando Deus era mulher)

Ou seja, a Deusa subitamente se torna definitivamente mais diabólica para as religiões patriarcais; afinal, nos templos de culto à Deusa, são as mulheres quem decidem quando e com quem terão filhos, e são elas quem detém os direitos à herança, que é matrilinear. Assim, não admira que as religiões matriarcais e os cultos femininos tenham sido tão perseguidos na Antiguidade. E não admira, certamente, que até hoje a sexualidade, principalmente a sexualidade ditada pela mulher, seja tão demonizada, tão deturpada e distorcida de seu aspecto sagrado. Tudo isso, infelizmente, ainda é um eco de milênios atrás.

Mas, e como eram exatamente tais cerimônias religiosas que envolviam o sexo? Como a sexualidade sagrada pode nos ajudar a compreender melhor esse tal sentimento oceânico citado pelo amigo de Freud? Bem, isso certamente terá de ficar para o próximo texto.


» Na sequência, a pequena morte.

***

Bibliografia
Quando Deus era mulher, de Merlin Stone (Editora Goya/Aleph).
Mulheres que inspiram, diversas autoras (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (A Vênus de Willendorf); [ao longo] John Collier (A Sacerdotisa de Delfos); Foto que consta na capa da biografia de Merlin Stone, Merlin Stone Remembered: Her Life and Works.

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11.6.24

Oceânico, parte 1

Um debate entre amigos

Sigmund Freud, fundador da psicanálise e grande desbravador do inconsciente humano, costumava debater sobre a religião com um amigo, Romain Rolland, escritor e biógrafo de grandes espiritualistas do seu tempo, como Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda. O debate é usado como ponto de partida do célebre O mal-estar na civilização, de Freud, onde o autor cita que Rolland até concorda com as teses de O futuro de uma ilusão [1], mas afirma que a verdadeira religiosidade humana tem muito pouco a ver com isso tudo:

Eu lhe enviei meu pequeno manuscrito, no qual trato a religião como uma ilusão, e ele me respondeu que concordava inteiramente com a minha opinião, lamentando, todavia, que eu não tivesse apreciado corretamente a verdadeira fonte da religiosidade. Segundo ele, ela seria um sentimento peculiar que jamais o abandonava, sendo que a sua existência fora confirmada por muitas outras pessoas, de modo que ele supunha que ela estaria atuante em milhões de indivíduos.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Mais adiante na obra, Freud explica que para Rolland tal sentimento não era propriamente mero “artigo de fé”, mas um verdadeiro contato com algo ilimitado, sem fronteiras, eterno: um sentimento oceânico. Ora, mas Freud era um entusiasta da ciência, das observações objetivas dos casos clínicos, e confessa no livro que ele mesmo jamais conseguiu tocar esse tal sentimento que, segundo seu amigo, era a verdadeira fonte da religiosidade humana. Daí em diante, sem recorrer à desonestidade intelectual ou a alguma espécie de ceticismo de negação [2], Freud dedica o restante do primeiro capítulo da obra a tentar desvendar de onde viria tal sentimento oceânico.

É então que ele nos traz uma comparação curiosa com a percepção de mundo dos recém-nascidos. Segundo Freud, inicialmente o bebê não consegue diferenciar a si mesmo do restante do mundo a sua volta, mas aos poucos vai aprendendo que há “objetos distintos de si”, como o próprio seio da mãe, que só “aparece” quando chamado. Assim o bebê aprende que, ao chorar de fome, é amamentado por um objeto externo, que não era parte de si mesmo. Com o tempo, vamos aprendendo a nos dissociar do mundo, vamos delimitando nosso ego:

Originalmente o ego contém tudo, e só mais tarde separa, de si mesmo, um mundo exterior. Assim, o nosso presente sentimento do ego não passa de um atrofiado resíduo de um sentimento muito mais inclusivo – de fato, totalmente abrangente –, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o ego e o mundo que o cerca. Caso nós pudéssemos supor que esse sentimento primário do ego persistiu, em maior ou menor grau, na vida mental de muitas pessoas, ele poderia ser colocado, como um tipo de contraponto, lado a lado com o sentimento do ego da maturidade, que é mais nitidamente demarcado. Nesse caso, os conteúdos imaginativos a ele pertinentes seriam justamente aqueles da ausência de limites e de um vínculo ao universo como um todo, precisamente os mesmos que meu amigo utiliza para descrever o sentimento “oceânico”.

(Freud, O mal-estar na civilização)

Segundo a tese de Freud, o tal sentimento oceânico não teria uma fonte mística, não seria relacionado com um suposto contato real com a divindade ou alguma manifestação cósmica, mas antes seria tão somente o “resíduo” de um sentimento de nossa primeira infância, que por alguma razão jamais foi esquecido. Em resumo, é como se o que chamamos de misticismo fosse reduzido a alguma espécie de sentimento de amamentação cósmica, como se ainda bebêssemos algum leite metafísico direto da fonte eterna.

Como espiritualistas, devemos aplaudir Freud por ter ido até onde poderia ir, por ter se esforçado em tentar compreender o incompreensível. É como se algum mergulhador tivesse retornado do oceano em estado de êxtase, maravilhado com seu primeiro mergulho no mar, e tentasse descrever com palavras algo que não pode realmente ser descrito em palavras; e Freud, sem nunca ter mergulhado sequer numa piscina, tentasse explicar tal descrição com sua própria visão de mundo. Mas as palavras são apenas cascas de sentimento, e o misticismo de fato vai muito além disso.

O que quer que pensem de nós, em nada lembrará o que somos.

(Rumi)

Seja como for, também me parece que Freud teria sido mais feliz em sua analogia se considerasse o sentimento de um recém-nascido como algo mais digno de nota, e não somente parte de um mero instinto de sobrevivência. Pois o bebê chora quando tem fome, e é amamentado; mas, quando não tem fome, ele vive em uma espécie de estado de êxtase persistente. Ou, como bem resumiu Satyaprem, um budista brasileiro:

Uma criança é um buda que não sabe que é um buda.
Um buda é uma criança que sabe que é um buda.

Ou seja, a criança saudável e bem cuidada vive em seu próprio estado de iluminação, muito embora tal estado seja lentamente vencido pelo peso do mundo. Nascemos, e não nos entendemos como algo separado do resto, somos parte de tudo. Então, lentamente vamos construindo/delimitando um ego, tão necessário a nossa sobrevivência, mas que também necessariamente nos retira do Céu, e somos expulsos desse paraíso oceânico. Mas um buda, um iluminado, é aquele que, mesmo tendo caído no mundo adulto, consegue de alguma forma alcançar novamente tal estado, ainda que em curtos espaços de tempo (se é que o tempo pode ser medido no Céu).

Nada disso se explica com palavras. Se não entendeu, leia novamente o parágrafo acima, mas com o coração. E, se ainda não sabe ler com o coração, talvez seja porque sofre desse mal do Ocidente, que tenta se relacionar com o sagrado apenas do ponto de vista masculino, como uma espécie de fonte eterna de onde todas as coisas são criadas e cuidadas. Isso é uma visão bem diversa da do Oriente, que em geral considera que o sagrado é todas as coisas, de modo que jamais poderíamos estar longe, muito menos fora do Céu. Se não vemos o sagrado a nossa volta, se quando choramos de angústia não há nenhum seio da Grande Mãe que venha nos amamentar, quiçá tenhamos de retornar ao passado, quando a religião era ditada pelas mulheres, para beber uma vez mais desse leite.


» Na sequência, quando Deus era mulher.

***

[1] Outra obra de Freud, onde ele basicamente considera o monoteísmo do Ocidente como uma grande ilusão cuja função primordial é frear os instintos humanos e manter a sociedade “em ordem”.

[2] O ceticismo de negação afirma que algo não existe somente porque não há evidências objetivas da sua existência. No entanto, é impossível comprovar objetivamente que algo não existe, apenas que existe. Ou, usando as palavras de Carl Sagan, a ausência de evidência não é evidência de ausência.

Bibliografia
O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud (Edições Textos para Reflexão).

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Freud e Romain Rolland); [ao longo] Bia Octavia/unsplash.

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1.12.23

O andarilho de Copenhague

O texto abaixo foi escrito para compor o prefácio de Adquirir sua alma na paciência, o discurso de Soren Kierkegaard que tive a honra de traduzir de versões inglesas. Como a maioria dos meus prefácios, procurei falar sobre não apenas o que o autor nos trouxe em sua obra, mas também sobre como viveu sua vida. Creio que ganhamos muito ao nos imaginar, tal qual o pensador dinamarquês, simplesmente caminhando pelas vielas de Copenhague, saudando as almas que nos cruzam o caminho...


A vida só pode ser compreendida quando olhamos para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente.

Esta frase, retirada de uma das suas cerca de 7.000 páginas de diários, acabou se tornando uma das mais famosas de Kierkegaard; e, como toda célebre frase de um pensador, resume muito do que ele buscou falar em sua obra. Você arriscaria dizer sobre o que o pensador dinamarquês falou? Bem, se pensou em “autorreflexão”, “autoconhecimento”, ou ainda em “como lidar com a existência humana”, não está muito longe da resposta, seja ela qual for.

Tendo nascido e vivido em Copenhague, na Dinamarca, Soren Kierkegaard (1813 – 1855) foi ao mesmo tempo melancólico e bem-humorado, ao mesmo tempo filósofo e teólogo, mas quase sempre brilhante. Sua mãe, Ane Sorensdatter Kierkegaard, trabalhou como empregada doméstica antes de se casar com seu pai, Michael Pedersen Kierkegaard. Ela era uma pessoa simples, que não recebeu nenhuma educação formal, mas exerceu uma influência duradoura na vida do filho. Já seu pai, Michael, foi um comerciante de lã muito bem-sucedido. Mesmo sendo um homem severo, cultivava interesse por filosofia e costumava hospedar intelectuais em sua casa. Por conta da influência do pai, ele entrou em contato com os livros de Platão ainda bem jovem, e foi especialmente tocado pela figura de Sócrates.

Kierkegaard era o mais novo dos sete filhos do casal. Contudo, quando contava 22 anos, já havia perdido cinco dos seus irmãos, tendo restado apenas Peter Kierkegaard, que mais tarde veio a se tornar um bispo luterano. Logo depois, naquele mesmo ano de 1834, foi a vez da sua mãe deixar o mundo; e, poucos anos depois, em 1838, veio o falecimento do pai. Não admira, portanto, que o filósofo fosse íntimo dos grandes sofrimentos da existência humana, e que tenha se dedicado justamente a viver da melhor forma possível, apesar deles.

Com a herança da sua família, Kierkegaard pôde custear a sua educação, a sua vida e várias publicações das suas primeiras obras. Em 8 de setembro de 1840, Kierkegaard formalizou o pedido de noivado a Regine Olsen, jovem dinamarquesa que havia conhecido cerca de três anos antes. No entanto, ele logo se sentiu desiludido com as perspectivas da vida a dois. Encerrou o noivado em 11 de agosto de 1841, apesar de se acreditar que havia um amor profundo entre eles. Nos seus Diários, Kierkegaard menciona a sua crença de que sua “melancolia” o tornava impróprio para o casamento, mas o motivo exato para o rompimento permanece obscuro até hoje. Dali em diante, seu matrimônio seria com a filosofia e, por assim dizer, com a própria existência.

Uma das primeiras descrições da aparência física do pensador dinamarquês veio de Hans Brochner, um convidado para a festa de casamento do seu irmão, Peter, em 1836: “Eu achei [sua aparência] quase cômica. Na época ele estava com 23 anos de idade. Ele tinha algo bastante irregular em toda a sua forma e usava um penteado estranho. Seu cabelo subiu quase seis centímetros acima de sua testa em uma forma de crista desgrenhada, que lhe dava uma estranha aparência de espanto”. Já o próprio Kierkegaard se descreveu como alguém de composição frágil: “Franzino, raquítico e fraco para poder valer como um homem completo. [E ainda] melancólico, submetido ao sofrimento interior, profundamente ferido de muitas maneiras no íntimo da alma. Bem, a mim só uma coisa me foi concedida: uma inteligência eminente, com certeza para que eu não ficasse inteiramente desarmado”.

Em seu tempo, as ruas de Copenhague eram tortuosas, de modo que poucas carruagens passavam por elas. Kierkegaard amava caminhar pelas ruelas e simplesmente observar o dia a dia das pessoas comuns. Em 1848, ele escreveu: “Eu tinha verdadeira satisfação cristã no pensamento de que, se não houvesse outro, definitivamente havia um homem em Copenhague com quem todas as pessoas pobres poderiam abordar livremente e conversar na rua; se não houvesse outro, havia um homem que, qualquer que fosse o seu círculo social mais frequentado, não se esquivava do contato com os pobres, mas saudava toda empregada que lhe parecia familiar, todo servo, todo trabalhador comum”. Também podemos resumir boa parte da sua teologia sob esse ponto de vista: ao teólogo dinamarquês interessava mais a figura do Cristo andarilho e contador de parábolas do que toda a Igreja que se construiu ao redor dele.

Sócrates dizia que “uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida”, e o pensador dinamarquês levou essa afirmação as últimas consequências. Em O desespero humano, publicado em 1849 e, para alguns, uma das obras inaugurais da filosofia existencialista, Kierkegaard nos apresenta a autorreflexão como uma ferramenta para entender o problema do “desespero”, que para o pensador não derivava da depressão em si, mas antes da alienação do “eu”. Assim, ele classificou diversos graus de desespero. O mais inferior e comum é derivado da ignorância: o indivíduo mal sabe o que o “eu” significa, e não tem a menor consciência da natureza do seu “eu” potencial, a melhor versão de si. Tal desconhecimento é quase uma bênção, e tão sem consequência que Kierkegaard não estava certo se deveria ser classificado como desespero. Segundo ele, o verdadeiro desespero ocorre quando temos mais consciência de nós mesmos, uma vez que os graus mais profundos de desespero derivam de uma profunda consciência do “eu” aliada a uma profunda aversão por esse mesmo “eu”.

Quando algo dá errado, quando falhamos e, por exemplo, não passamos numa prova, nós aparentemente nos desesperamos porque perdemos algo. Mas numa análise mais atenta, segundo o pensador dinamarquês, fica óbvio que a pessoa não se desespera por conta do fato em si, como não passar na prova, mas antes por conta de si mesma. O “eu” que não conseguiu conquistar seu objetivo se torna intolerável. A pessoa queria se tornar um “eu” diferente, alguém que passou no vestibular, mas agora está presa a um “eu” fracassado, em desespero. Mas seria possível nos desviar desse desespero simplesmente sendo bem-sucedidos em tudo aquilo que desejamos alcançar?

Para responder esta pergunta, Kierkegaard usou como exemplo um homem que queria se tornar imperador. E demonstrou que, ironicamente, ainda que ele conseguisse alcançar seu objetivo, na verdade ainda teria abandonado o seu antigo “eu”. Ou seja, tanto em seu desejo quanto em sua conquista, ele queria “se livrar de si mesmo”. Ora, essa negação do “eu” é dolorosa: é avassalador o desespero de uma pessoa que quer se afastar de si, que “não possui a si mesma; que não é ela mesma”.

Mas ele também propôs, é claro, uma solução para tal dilema. Kierkegaard concluiu que um homem poderia alcançar a paz e a harmonia internas se tivesse a coragem de ser seu verdadeiro “eu”, em vez de querer ser outro. “Querer ser quem se é realmente é, na realidade, o oposto do desespero”, ele resumiu. O pensador acreditava que o desespero desaparece quando paramos de negar quem realmente somos e aceitamos a nossa verdadeira natureza.

Em um trecho dos seus Diários, datado de 1835, Kierkegaard esboçava a essência do que viria a tratar em suas obras posteriores:

O que eu realmente preciso é ter clareza sobre o que devo fazer e não o que eu preciso saber, a não ser na medida em que o conhecimento deve preceder cada ato. O que importa é encontrar um propósito, para ver o que realmente é que Deus quer que eu faça; o mais importante é encontrar uma verdade que é verdade para mim, encontrar a ideia pela qual estou disposto a viver e morrer.

Em sua busca por si mesmo, por quem realmente é, em oposição às inúmeras máscaras sociais ofertadas pela sociedade da época, Kierkegaard nos deu uma contribuição que já era muito relevante em sua época, e que hoje, na sociedade da ebulição da informação e das redes sociais, se tornou ainda mais relevante.

Mas foi em Adquirir a sua alma na paciência, um dos Quatro Discursos Edificantes, publicado em 1843, que o andarilho de Copenhague nos ofereceu a chave para o encontro e a conquista de nossa própria alma. Comentando uma passagem do Novo Testamento bíblico, Kierkegaard nos apresenta um conceito único de “paciência”: uma paciência que tem mais a ver com o mundo espiritual, mais com a sua teologia do que com a sua filosofia. Para um estudante de filosofia ou psicologia, tal conceito pode soar demasiadamente místico, até mesmo incômodo. Se for o caso, vá mais além, mergulhe em tal “incômodo”, desvele o que acha que é o misticismo, se aventure pelo misticismo real, a coisa em si: você mesmo – mas tenha toda a paciência do mundo!


Soren Kierkegaard morreu em 1855, aos 42 anos. Embora a causa de sua morte não seja clara, estudos recentes apontam que a possível causa foi uma doença na coluna vertebral (antes, se achava que ele havia falecido em decorrência da tuberculose). Seu corpo se encontra sepultado no Cemitério Assistens, em Copenhague.


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Crédito das imagens: [topo] Desenho não terminado de Kierkegaard feito pelo seu primo, Niels Christian Kierkegaard (c. 1840); [ao longo] Martinus Rorbye (pintura de 1831; retrata a Copenhague da época).

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28.11.23

Mas o que exatamente eu sou?

René Descartes foi um dos grandes pensadores modernos, tanto que é considerado por alguns como “o fundador da filosofia moderna”, e por outros como “o pai da matemática moderna”. E, de fato, ele foi tão ou mais importante para a ciência e a matemática quanto o foi para a filosofia em si. Entretanto, se formos analisar hoje pelo que Descartes é mais lembrado, será difícil escapar da sua célebre afirmação:

Penso, logo existo.

Tal frase, cuja tradução do latim original – cogito ergo sum – seria melhor definida como “Penso, logo sou”, surgiu em um livro que a princípio era quase que um prefácio para outras obras mais científicas, intitulado Discurso sobre o Método. Nesta obra, escrita em 1637 e publicada originalmente na Holanda, pois nessa época o pensador francês residia por lá, Descartes propõe um modelo quase matemático para conduzir o pensamento humano, uma vez que a matemática tem por característica a certeza, a ausência de dúvidas. De acordo com o próprio autor, parte da inspiração de seu método (descrito nesse tratado) veio de três sonhos ocorridos na noite de 10 para 11 de novembro de 1619: em tais sonhos lhe surgiu “a ideia de um método universal para encontrar a verdade”.

E o método de Descartes entrou para a história, ao ponto de se confundir com as bases do próprio método científico como veio a ser conhecido de lá para cá. Mas o que me interessa discutir aqui é a tal frase, o “penso, logo sou”. Como exatamente ele chegou nela?

Ora, Descartes estava preocupado com a validade das evidências que poderiam comprovar as verdades da nossa existência. Se devemos questionar tudo, por que devemos confiar nas informações que colhemos da natureza, já que tudo passa pela interpretação dos nossos cinco sentidos?

Tudo o que olhamos, cheiramos, escutamos, tocamos ou saboreamos só pode ser analisado pela consciência quando passa pelos nossos ouvidos, olhos, boca, tato e nariz. E, para piorar, essa interpretação é pessoal e intransferível. Como confiar que todas as pessoas perceberiam esses estímulos da mesma forma, permitindo que uma verdade se tornasse válida para todos?

O francês concluiu que nós só temos a capacidade de duvidar dos nossos sentidos (isto é, pensar) porque estamos vivos para receber esses estímulos. Ter a convicção da nossa existência seria a única coisa da qual não podemos duvidar. Eis as suas palavras, traduzidas do original:

“[...] ao analisar com atenção o que eu era, e vendo que podia presumir que não possuía corpo algum e que não havia mundo algum, ou lugar onde eu existisse, mas que nem por isso podia supor que não existia; e que, ao contrário, pelo fato mesmo de eu pensar em duvidar da verdade das outras coisas, resultava com bastante evidência e certeza que eu existia; ao passo que, se somente tivesse parado de pensar, apesar de que tudo o mais que alguma vez imaginara fosse verdadeiro, já não teria razão alguma de acreditar que eu tivesse existido; compreendi, então, que eu era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de lugar algum, nem depende de qualquer coisa material. De maneira que esse eu, ou seja, a alma, por causa da qual sou o que sou, é completamente distinta do corpo e, também, que é mais fácil de conhecer do que ele, e, mesmo que este nada fosse, ela não deixaria de ser tudo o que é.

Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. [Assim, percebi] que nada há no eu penso, logo sou que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir.”

Ou seja, ainda que tudo o que percebemos com os sentidos desde que nos entendemos por gente for algum tipo de ilusão, e ainda que não possamos obter uma certeza derradeira e absoluta sobre basicamente nenhuma verdade, ainda assim não podemos negar que existimos, que estamos aqui pensando sobre a existência. Descartes havia encontrado a única certeza genuína da filosofia, a única que não pode ser questionada. E vejam que, ainda assim, o fato de existirmos não significa que tenhamos sequer a certeza sobre a nossa própria vontade, ou liberdade de agir; porém, fato é que algo existe, e não nada.

Agora, me desculpem, mas nesse momento não posso deixar de sorrir ante tamanha ironia, isto é: que um dos tratados que servem de alicerce para o próprio método científico, que um dos pilares da racionalidade moderna seja mais lembrado justamente por sua afirmação mais mística, mais espiritual, ainda que a imensa maioria dos que esbarraram nela não tenha percebido sua profundidade abissal.

Sim, pois muitos se comportam diante dela como aqueles que estavam se preparando para a sua primeira aula de mergulho na praia mas, ao ver a placa informando “Perigo, correnteza forte”, preferiram se abster de mergulhar. Tivessem mergulhado, a primeira coisa que teriam de se deparar era com a continuação até mesmo óbvia da preposição de Descartes:

Penso, logo sou. Mas o que exatamente eu sou?

Então cairiam de cabeça no misticismo, ou seja, na tentativa de conceber a verdadeira natureza do que existe, do que é. E poderia falar aqui de Parmênides, dos estoicos, de Plotino ou Benedito Espinosa, mas será mais fácil se deixarmos a filosofia de lado e recorrermos à poesia, mais precisamente a poesia de Jalal ud-Din Rumi, um poeta sufi (o misticismo do Islam) que viveu no século XIII. Eis o que ele soube nos dizer sobre o tema:

Na verdade nós somos uma só alma, eu e você. Nos mostramos e escondemos, você em mim, eu em você.

Eis o sentido profundo da nossa relação: é que entre você e eu não existe nem eu nem você.

Os poemas de Rumi eram um eterno diálogo entre ele e Allah, ou Deus. Mas a ideia principal, a que permeia toda a sua obra, e também a de todo místico genuíno, é justamente esta: “entre eu e você, não existe nem eu nem você”. O que existe é o que é, sempre foi e será, justamente porque existe, porque não é nada. Mas isto não se entende com palavras.

Afinal, se fosse necessário pensar através de alguma espécie de linguagem, por mais rudimentar que fosse, então não existiríamos enquanto recém-nascidos, e só passaríamos a existir a partir de dado momento desta vida. Ocorre que mesmo tal ideia é absurda nesse contexto: “passar a existir”. Não faz o menor sentido. Mas isto também não se entende com palavras.

E, mesmo no ápice de sua racionalidade, o próprio Descartes intuiu a mesma coisa, embora talvez não tenha conseguido se expressar através de um conceito cristão. Pois o pensador francês ainda defende a existência de Deus poucas páginas após o trecho que eu trouxe acima. E, para tal, ele se vale de uma lógica que muitos consideram até mesmo infantil: ele afirmou basicamente que o fato de concebermos a ideia da perfeição e do infinito, mesmo sendo imperfeitos e finitos, era a prova da existência de Deus.

Faltou a Descartes justamente ir um pouco além, e mergulhar nos mares abissais do Grande Mistério. Nós não “concebemos” Deus, nós somos Deus. Nós somos o que existe.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (Descartes); [ao longo] Cristofer Maximilian/unsplash.

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12.9.23

Deuses endemoniados

Incertos os locais e os tempos em que viveram. Os tempos: mais de três mil anos atrás. [...] A área: o norte do subcontinente indiano, mas sem fronteiras precisas. Não deixaram objetos nem imagens. Deixaram somente palavras. Versos e fórmulas que marcavam rituais. Meticulosos tratados que descreviam e explicavam esses mesmos rituais. [1]

O Rigveda é um dos textos mais antigos da humanidade. Escrito em sânscrito, a ancestral língua sagrada dos hindus, ele detalha em minúcias os rituais e sacrifícios endereçados aos seus deuses primordiais, ou devas. Agni, deva do fogo, era tão importante que é o seu nome que inaugura a primeira linha do Rigveda. Depois dele, vieram muitos, muitos outros: Indra, Mitra, Varuna, Krishna, Shiva, Ganesha, a lista chegaria literalmente aos milhares.

Hoje o sânscrito é considerado uma língua morta, isto é, sem falantes nativos. Entretanto ele faz parte do conjunto de línguas oficiais da Índia, pois é até hoje extensivamente utilizado nos rituais religiosos, incluindo o canto de mantras. Mas, se hoje o sânscrito está longe de estar morto de fato, há milhares de anos ele serviu com base para a escrita de tantos documentos que pesquisadores estimam que há mais escritos antigos em sânscrito do que em latim e em grego antigo, somados.

Ao longo dos Vedas, os textos sagrados hindus, do qual o Rigveda foi o primeiro, os deuses são chamados de devas desde sempre. A palavra sânscrita deriva da raiz div, que significa “resplandecente, fonte de luz, luminoso”, e cujo uso como adjetivo remonta a algo “celeste, divino”. De vez em quando, os Vedas mais antigos associavam os devas a um outro nome, asura. Como veremos, este termo sânscrito foi consideravelmente ressignificado ao longo dos séculos, mas lá no início ele parecia se referir a uma qualidade: “poderoso”. Portanto, inicialmente muitos devas tinham a qualidade asura, e até mesmo alguns reis védicos eram associados ao termo. 

Com o passar do tempo, no entanto, asura veio a significar coisa muito diferente: primeiro, semideuses sobre-humanos com boas e más qualidades; e, eventualmente, algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. Ao que parece, os asura se tornaram deuses endemoniados, mas por que será que o termo passou por uma ressignificação tão radical?

uma teoria muito interessante que conecta o termo sânscrito a um termo muito parecido de um idioma que serviu como base para os textos sagrados do zoroastrismo, religião da antiga Pérsia: tal idioma era o avéstico, um primo do próprio sânscrito. Segundo os Gatas, os livros mais importantes da religião persa, cuja autoria é atribuída ao próprio Zoroastro, os deuses podiam ser divididos em duas classes: os ahuras eram aqueles dignos de adoração, enquanto os daevas deveriam ser evitados. O termo ahura estava, inclusive, associado ao próprio nome do deus e criador supremo dos seguidores dos Gatas: Ahura Mazda.

Com o passar do tempo, entre os zoroastristas os daevas foram sendo cada vez mais demonizados. Se antes eram somente deuses menores, indignos de adoração, eventualmente se tornaram... adivinhem? Isso mesmo: algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. E não é necessário se aprofundar muito mais para notar o que a teoria nos diz: para os hindus, os deuses (ahuras) dos Gatas se tornaram demônios (asuras), ao passo que para os zoroastristas foi justamente o oposto, os deuses (devas) dos Vedas é que viraram demônios (daevas).

Aliás, conhecendo a humanidade como conhecemos, não é difícil compreender como essa teoria pode ter base sólida na realidade. Afinal, quantos não foram os povos ditos civilizados que classificaram todo e qualquer estrangeiro como bárbaro? E quantos não foram os religiosos que chamaram seus rituais de “religião oficial”, e todos os demais de “magia e bruxaria”? Assim, para boa parte da humanidade, o deus de um povo era o demônio do outro, e vice versa; mas terá sido sempre assim?


Pelo que dela me contaram, acho que não há nada de bárbaro e selvagem nessa nação, a não ser que cada um chame de barbárie o que não é seu costume. Assim como, de fato, não temos outro critério de verdade e de razão além do exemplo e da forma das opiniões e usos do país em que estamos. Nele sempre está a religião perfeita, o governo perfeito, o uso perfeito e consumado de todas as coisas. [2]

Quando os padres europeus vieram ao Brasil, então recém-descoberto por eles (mas os índios chegaram milênios antes), se depararam com a dupla tarefa de evangelizar tanto os indígenas quanto os escravizados africanos. E, se entre os índios havia tantos povos distintos que foi difícil determinar um único conjunto de deuses, entre os africanos essa etapa foi mais simples, pois muitos deles cultuavam os chamados orixás, que eram como deuses da natureza.

Não demorou muito, e eles tentaram identificar qual dos orixás seria o representante do mal, isto é, o demônio. Como encontraram um símbolo de Exu com um pênis ereto, e como muitos deles associavam o sexo ao pecado, e o pecado ao mal eterno, ficou acertado assim, de forma um tanto apressada, que na falta de um representante melhor, Exu seria o Coisa Ruim.

Ora, ocorre que entre os orixás, assim como entre muitos outros panteões, inclusive o dos deuses gregos, não há um representante do mal, um adversário direto do Criador, muito menos um anjo caído. Veja bem: isto não significa que os orixás, ou até mesmo os demais deuses, não possam praticar atos de maldade, eles apenas não representam o mal. Os deuses em geral já cometeram desde adultérios a genocídio generalizado por meio de dilúvios, mas isso por si só não quer dizer que Zeus e Jeová (para dar nome aos bois) sejam demônios, muito pelo contrário. Então, por que diabos Exu deveria ser demônio somente porque foi visto com o pênis ereto?

Uma das possíveis explicações para a ausência de um representante do mal entre os orixás pode ser o fato de que os povos africanos que cultuavam tais entidades da natureza não travaram nenhum tipo de conflito cultural, onde a religião de um povo tentou se infiltrar no território de outro, como provavelmente se passou entre os hindus e os zoroastristas. Mas talvez a explicação seja ainda mais simples, talvez o próprio demônio não seja exatamente aquilo que a maioria pensa.

O termo “demônio” vem do latim, daemon (em grego, daimon) cuja tradução aproximada está mais próxima do que chamamos hoje de “espírito”. Aliás, a prova de que o termo não era originalmente associado a algum ser maléfico, ou grupo de entidades que representavam o mal, e somente o mal, é que os gregos antigos usavam termos como eudaemon, um espírito ordeiro, e cacodaemon, um espírito caótico. Mesmo o cacodaemon não seria necessariamente mal, mas antes uma espécie de espírito zombeteiro, que não seguia as regras. O próprio Sócrates, grande sábio da filosofia grega, dizia estar em contato constante com seu daemon, isto é, uma espécie de espírito guardião.

E, se ainda não foi o suficiente para mudar sua opinião, os gregos ainda tinham um termo muito curioso para expressar uma espécie de estado de plenitude do ser, de grande felicidade e contentamento ante a existência, eudaimonia. E o que significa eudaimonia? Ser habitado por um bom daemon, viver sob a influência de um bom espírito.

Assim, da próxima vez que alguém passar pelo seu caminho desesperado, temendo o demônio que dobrou a esquina, diga para que não fuja, diga para chamá-lo para tomar um café. Vai saber, talvez o seu demônio na realidade seja o seu próximo grande amigo.


(este texto eu dedico ao meu amigo Robson Belli, pelo conjunto da Obra; a ideia inicial surgiu de um comentário do Guilherme Romano no Boteco Mayhem)

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[1] Trecho do início de O ardor, de Roberto Calasso (trad. Federico Carotti; Companhias das Letras).

[2] Trecho dos Ensaios de Montaigne, mais precisamente do ensaio intitulado Sobre os canibais, onde ele comenta sobre o que ouviu falar dos índios brasileiros (trad. Rosa Freire D’Aguiar; Companhia das Letras).

Crédito das imagens: [topo] raph (puja, ou ritual do fogo, celebrado de forma muito similar aos Vedas, aqui em Campo Grande/MS, por Atmaji e seus discípulos); [ao longo] Google Image Search (representação clássica de Ahura Mazda); Guito Moreto/O Globo (Exu representado no desfile da Grande Rio na Marquês de Sapucaí; a escola venceu o Carnaval de 2022).

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4.7.23

O que está sempre vivo

Um homem do norte adentra sua casa no fim da tardinha. Os últimos raios de sol de um dia entre dias cada vez mais curtos, com cada vez menos claridade, adentram sua cabana de madeira. Lá dentro, sua família celebra o presente que ele vinha arrastando a duras penas pela estrada: não a carcaça de um animal, mas o tronco de uma árvore pequena, da família dos pinheiros, com suas folhas perenes – folhas que não morrem completamente nem mesmo no outono, que está prestes a ficar para trás.

Nas línguas antigas do norte europeu, esse tipo de árvore era chamada júl, e a preservação de um tronco pequeno em casa era parte das preparações para a celebração do solstício de inverno, que tinha o mesmo nome da árvore. Entre os de língua inglesa, tal celebração ficou conhecida como Yule, embora muitos escandinavos a chamem, até hoje, simplesmente de Júl.

A Terra não gira em torno do Sol com seu eixo totalmente vertical. Ele é relativamente inclinado, e por isso todo ano, enquanto nosso planeta completa uma volta em torno da estrela, nós temos dois solstícios. No solstício de verão no hemisfério sul, a parte de baixo da Terra está mais inclinada em direção ao Sol; porém, exatamente no mesmo dia, o hemisfério norte recebe menos raios de sol, tem o dia mais curto do ano, e daí se celebra o solstício de inverno. Meio ano depois, a situação se inverte, e enquanto o norte atravessa o dia mais longo do ano, o sul se encontra no mais curto – isto é, no menor período de luminosidade.

Além disso, para os astrônomos ancestrais, que observavam os astros a olho nu, já estava claro que o Sol nascia todos os dias num ponto um pouco diferente do anterior. E assim era até chegar o próximo solstício, quando o Sol começava a nascer de volta na outra direção do horizonte. No entanto, tais observadores também constataram que, logo após o solstício de inverno, o Sol ficava três dias nascendo exatamente no mesmo ponto do horizonte, para só então voltar a se deslocar. Foi tal fato astronômico que deu origem aos mitos de deuses e heróis que morrem para renascer três dias depois. Ademais, como o próprio solstício de inverno também traz consigo a noite mais longa do ano, em muitas culturas pagãs o ano-novo se iniciava justamente ali: uma morte seguida de um renascimento.

Ora, os povos ancestrais tinham o Sol em grande conta, ainda mais aqueles que viviam no norte europeu, e passavam invernos rigorosos com pouca (às vezes, nenhuma) luz solar. Para eles, o fato do astro seguir invencível, noite após noite, para renascer no dia seguinte, certamente o alçava à imortalidade, e decerto não foi difícil associá-lo a própria divindade. Assim, o ritual do corte de um pinheiro, de um júl, para trazê-lo até em casa e com ele passar todo o inverno, também tinha um simbolismo parecido, afinal as folhas do pinheiro são perenes, seguem verdes por semanas mesmo após o corte – elas representam o que sempre está vivo.

Além disso, o próprio fato das raízes de uma árvore como esta estarem fincadas no solo, enquanto seu tronco segue vertical por alguns metros, e seus galhos tentam alcançar o céu, faz dela um símbolo vivo da conexão entre o mundo e o reino celeste, a própria terra dos deuses. Séculos e séculos depois, na mesma região do mundo, um mito peculiar veio do Oriente Médio, e aos poucos conquistou a mente de boa parte das pessoas, de modo que as celebrações pagãs, então conectadas estritamente ao movimento do Sol, passaram por grande ressignificação. O próprio Sol não era mais propriamente um deus, mas a representação de um homem-deus: o Cristo que, crucificado, ressuscitou três dias depois.

Mas fica mais estranho que isso. Para os descendentes dos europeus que vieram se estabelecer no hemisfério sul, como no Brasil, as celebrações cristãs passaram a ser celebradas de modo invertido, de modo que o Natal, antigo Yule, não é celebrado no solstício de inverno, mas no de verão! E os pinheiros caseiros, transformados em árvores plásticas cheias de bolotas coloridas, já não tinham mais nenhuma conexão simbólica possível com os júl ancestrais.

E assim, enquanto no norte todos passam pela noite mais longa, pela morte do Sol, para celebrar seu renascimento três dias depois, no sul estamos suando a pino num jantar cheio de carne e vinho. Na verdade, no sul nós não deveríamos estar celebrando Yule, mas Litha, a festividade do solstício de verão, a celebração do dia mais longo do ano, quiçá a mais antiga festa religiosa da humanidade.

Bem antigamente, antes de Litha os pagãos celebravam Beltane, que marcava o início do verão. Era um festival da fertilidade, no sentido de que boa parte das colheitas já vinha sendo realizada. Nessa festa, grandes fogueiras eram feitas com gravetos de júl e carvalhos, árvores tidas como sagradas. Tais fogueiras eram consideradas portadoras de energia divina, e eram mantidas acesas por semanas e semanas, até que chegasse Litha, quando as pessoas tinham o costume de saltar por suas labaredas, agora próximas do apagamento, para absorver sua energia.

Séculos e séculos depois, ainda hoje pulamos as fogueiras das festas juninas, que foram ressignificadas pela Igreja para homenagear o nascimento de São João Batista, aquele que batizou o Cristo, e que foi o primeiro mártir do cristianismo. Ocorre que, mesmo isso, fazemos ao contrário no hemisfério sul: celebramos o dia mais longo do ano, o início do verão, quando estamos atravessando o dia mais curto, o início do inverno.

É verdade que a Igreja conseguiu dissociar as celebrações cristãs das pagãs, transformando a posição do Sol em símbolos que já não tinham quase nada que ver com ele. Mas foi no hemisfério sul que isso se deu de forma mais completa e absoluta, pois além de nossas festividades cristãs estarem dissociadas das estações do ano, elas ainda se encontram invertidas.

Por outro lado, para aqueles sulistas que se prestam a voltar a realizar tais festividades, sem necessariamente abandonar o Cristo, tal separação não é de todo ruim: afinal, você pode celebrar o Sol Invicto no fim de junho, e voltar a celebrar sua contraparte humanizada, o nascimento do Cristo, no Natal. Você pode, de fato, comemorar o nascimento de um deus duas vezes por ano.

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Crédito das imagens: [topo] Bruno Leschi/unsplash; [ao longo] Sérgio Bernardo/JC Imagem.

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31.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte final)

« continuando da parte 4


Esta é uma verdade

Ainda antes que os homens fossem homens, espécies ancestrais de hominídeos conheceram o fogo. A primeira visão dele deve ter sido inesquecível, eterna: primeiro, mais um relâmpago no céu; depois, um trovão assustador ressoando pela terra inteira. Mas isso já era conhecido, a novidade é que havia logo ali, bem à frente, um arbusto em chamas. Uma sarça ardente e sagrada, queimando, abençoada com um pedacinho do sol.

Foi pela domesticação do fogo que os seres arcaicos aprenderam a caçar de modo mais eficiente e, principalmente, a cozinhar a carne caçada. Foi isso que possibilitou que as imensas quantidades de energia gastas na ingestão de carne crua pudessem ser canalizadas para o cérebro. O resultado disso foi o surgimento dos homens: nós somos os filhos e as filhas do fogo.

Desde que a chama não se apague, qualquer templo, qualquer concepção divina, qualquer nova religião poderá perdurar para sempre, atemporal como o fogo e o sol e a natureza. Em suas chamas, em incessante mutação, os xamãs de outrora tinham muitas visões, e delas extraíam conselhos para a sobrevivência da tribo. Eles filosofavam pelo fogo, se devotavam a ele de corpo e alma, para que seus irmãos pudessem prosperar na terra.

Até hoje não há artista, sensitivo ou pastor que saiba exatamente de onde vem sua intuição, aquela vontade antes do próprio querer, aquela voz que diz, “Será assim”, e para a qual eles respondem, “Que assim seja”.

Imersos na atemporalidade do fogo, tais guias da humanidade se assemelham aos primeiros contadores de histórias em torno da fogueira da aldeia. É pela palavra que eles encaminham seu rebanho, mas mesmo a palavra antes foi luz em suas almas. Luz vinda de onde? Luz feita do quê? Não importa, a luz foi criada para ser refletida, não explicada.

Somente eles aprenderam, de alguma forma que mal sabem explicar, a roubar o fogo dos deuses, e compartilhá-lo com os seres de baixo. Você pode achar que tal regalia coube somente aos grandes santos, profetas e gurus, mas infelizmente não foi assim: há também muita sombra e escuridão entre os arautos do fogo.

Pense nas atrocidades que já foram cometidas em nome daqueles que afirmavam falar em nome de algum deus, ou mesmo alguma ideologia infalível. Até mesmo os cientistas se tornaram submissos àqueles que dizem representar o seu deus, o deus-da-matéria-que-a-tudo-explica. Não é preciso dar detalhes: você sabe do que estou falando.

Aos que brincam com fogo, coube a maior das responsabilidades, que é evitar que ele consuma a tudo e a todos. Na escala correta, ele pode iluminar o templo do coração de muitas almas; na errada, ele pode destruir vilarejos, bibliotecas, templos alheios, países inteiros.

Somente a água pode equilibrar tal balança. É só com o exercício constante da empatia que aquele que se depara com as verdades universais poderá se abster de dizer, “Esta é a verdade”; e, no lugar, constatar, “Esta é uma verdade”.

Pois se o seu deus é algum senhor de exércitos, que demanda que todos se curvem à sua vontade ou desapareçam da terra, então que os deuses tenham piedade de nós. Mas, se o seu deus é como o sol que aquece a manhã, e jamais deixa de vencer a noite, e que não descansará até que toda a tribo se torne céu, então, meu irmão, minha irmã, bem-vindo, bem-vinda ao caminho.

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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Kimson Doan/unsplash.

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30.1.23

Terra, fogo, água e ar (parte 4)

« continuando da parte 3


As palavras mágicas

Imaginem a surpresa dos aldeões iletrados ao simplesmente observarem os escribas, os construtores e os magos em geral: gente que conseguia se comunicar somente pelo ar. Um construtor desconhecido chega num vilarejo e, ao apresentar um pedaço de papiro para outro construtor que nunca viu na vida, logo ambos parecem ser não somente colegas de longa data, como sabem exatamente o que irão construir a seguir, nos mínimos detalhes. Pura magia!

Era, então, a era da civilização humana. Os primórdios de um tempo em que nem todos precisavam sobreviver à duras penas, ao custo do trabalho braçal, do suor do corpo: havia também alguns poucos afortunados que, por conhecerem as palavras mágicas, por saberem lê-las em paredes, letreiros ou papéis, podiam se dar ao luxo de se dedicar somente ao ar, enquanto os analfabetos cuidavam da terra.

Decerto inúmeros sábios caminharam pelo mundo, mas foram somente os poetas, os filósofos e os escritores que foram lembrados pelas demais gerações, pois foram eles que dominaram a tecnologia primordial das brisas, o livro. Com o livro, seja sagrado ou não, eles eternizaram suas lendas, suas ideais mais iluminadas e sombrias, seus relatos mais fantasiosos e verdadeiros, sua visão de mundo, enfim, sua própria história. Pouco se sabe do que pensavam os xamãs ancestrais, os pajés e líderes de tribos selvagens, dentre outras coisas porque a eles jamais foi permitido contar sua própria história às gerações e aos povos futuros.

Sim, a história sempre foi escrita pelos vencedores, mas também havia dois tipos de conquistadores de terras: aqueles que davam pouco valor à cultura alheia, e aqueles que, de alguma forma, entendiam que todos os povos eram um só, que toda a humanidade deveria, mais dia menos dia, se entender, equalizar seus mitos de origem, mesclar seus deuses uns com os outros, ou seja: tornar-se uma só tribo, pois que o mundo é um só. Isso não significa aniquilar culturas, substituindo um deus pelo outro, pelo contrário: isso quer dizer que todos os deuses podem se irmanar, como os primeiros construtores, e para tal basta que sejam capazes de falar a mesma língua.

Porém, mesmo passados os tempos da guerra da fome e da morte, mesmo com o mundo se encaminhando para uma terra de cooperação, e não de matança e disputas inúteis, o ar ainda guardaria muitos perigos invisíveis em suas elucubrações infindáveis.

O homem redescobriria a ciência, e a chamaria de “moderna”, e começaria a declarar coisas sem sentido. Por exemplo: que a cor vermelha não existe, pois é somente um comprimento de onda eletromagnética; ou que dois amantes apaixonados jamais podem realmente se tocar, pois que os átomos se repelem entre si; ou ainda que a noite não é salpicada de deuses luminosos, que todas aquelas luzes são apenas sóis de outros sistemas, irradiando algo da mesma consistência que aquilo que sai de uma lamparina.

Ora, tais burocratas do conhecimento já não eram mais capazes de compreender toda a beleza da poesia romântica, nem todos os matizes das pinturas grandiosas, muito menos o que os antigos sentiam ao contemplar a noitinha, sem ter nenhum aparelho para registrar tamanha beleza que não seus próprios olhos.

Decerto eles mal sabiam que até mesmo os xamãs, os magos e os druidas tinham suas bibliotecas em plena floresta, e que sabiam “ler” cada filamento de uma planta, cada ranhura de uma casca de tronco, cada signo de uma flor. Que os sábios antigos também sabiam se mover pelo ar, sem, no entanto, ter de abandonar a terra. Com seus pés firmes, tal qual raízes, eles elevavam seus pensamentos aos céus, mas nenhuma tempestade era capaz de lhes levar embora.

Com suas facas, espadas e foices, eles sabiam quais galhos cortar, e quais preservar: quais dariam frutos saborosos, e quais estavam acometidos de ervas daninhas. Mas, acima de tudo, eles jamais abandonavam a terra, pois eram incapazes de esquecer a sua origem.

Nós só podemos contemplar o céu porque estamos aqui, bem posicionados, na terceira pedra do sol.

» Na sequência, os mistérios do fogo.


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Bibliografia
Kabbalah Hermética (Marcelo Del Debbio). Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] CHUTTERSNAP/unsplash.

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