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9.7.09

Reflexões sobre a reencarnação, parte 1

Esta série de artigos sobre reencarnação não irá se preocupar em demonstrar evidências de que a reencarnação é uma lei da natureza. Ao invés disso, irei falar sobre aspectos da reencarnação, e da crença na reencarnação, que geralmente não são muito abordados, embora mereçam - na minha opinião - uma reflexão mais cuidadosa. Se você procura por evidências da reencarnação, irá encontrar outros posts neste blog que tratam do assunto. Vale dizer, é claro, que esta série de artigos tampouco se propõe a convencer ninguém acerca da realidade ou irrealidade da reencarnação.

Potencialidade e personalidade

O reencarnacionismo é uma crença que data dos primórdios das civilizações egípcia e orientais, estando entre nós a bastante tempo. Não é muito complicado compreender o princípio básico da reencarnação: somos espíritos que habitam corpos durante o período em que estão aptos a receber um espírito; Quando as leis naturais fazem com que o corpo humano não consiga mais sustentar a vida orgânica, o espírito então se desliga, pois de nada lhe adiantaria continuar habitando um cadáver. Por analogia, é simples compreender se pensarmos em um distinto senhor que troca de roupas toda a vez que elas estão gastas e puídas - não lhe convém comparecer ao trabalho, ou a alguma festa, com uma roupa inapropriada. Da mesma forma, espíritos trocam de corpos como este senhor troca de roupas. Porém, lembremos que isso é apenas uma analogia. Importante é, entretanto, lembrar que não há nada de sombrio na morte do corpo: é exatamente ela que permite a vida. Sem morte física não existiria vida física, pois no universo tudo está em constante mudança, e o sistema da natureza é todo encadeado em sutis e elegantes leis de causa e efeito. O que não tinha vida, no entanto, continuará não tendo: o espírito sopra onde é chamado, e habita os corpos e orbes que o seu nível de evolução, a sua potencialidade espiritual, lhes permite.

Há muitos espiritualistas que creem que o espírito é imaterial, mas isso não parece ser a verdade, ou pelo menos não é o que os espíritos dizem. Através da codificação do célebre Livro dos Espíritos, na pergunta #82 formulada por Kardec, temos a resposta de que os espíritos são incorpóreos (não possuem um corpo fisico), mas não imateriais, pois que tudo é formado por matéria; Muito embora a matéria que forme o espírito seja fluida, e ainda não detectada pela ciência (talvez porque não interaja com a luz, à semelhança de aproximadamente 96% da matéria do universo, segundo postula a teoria da Matéria Escura).

Também há muitos desinformados que atribuem a reencarnação crenças anedóticas como, por exemplo, a possibilidade de reencarnarmos em um porco, ou uma vaca, ou um inseto, etc. É verdade que a metempsicose postula sobre essa possibilidade, mas não a rencarnação. A reencarnação está associada a evolução, e também a simetria das leis da natureza, que são as mesmas por todo o Cosmos. Nesse sentido, a teoria de Darwin-Wallace é de vital importância para o reencarnacionismo. Assim como faz todo sentido dizer que ramos científicos como a biologia perderiam todo o sentido sem a teoria da evolução das espécies, o mesmo pode ser dito em relação ao reencarnacionismo. De fato, não é à toa que um dos criadores desta teoria era reencarnacionista e espiritualista. Ora, isso porque os espíritos não reencarnam somente entre o homo sapiens, mas vem necessariamente reencarnando desde a formação da vida na Terra, por milhões e milhões de anos e encarnando em milhares de espécies. Ocorre que, apenas no estágio em que os espíritos adquirem a capacidade de se reconhecerem como indivíduos, é que estarão aptos a habitar corpos de espécies onde o cérebro lhes permitirá ter um processo de consciência mais elaborado. Porém, segundo o espiritualismo, não é o cérebro quem gera a consciência, mas o espírito quem comanda o cérebro, e o corpo, através do processo de consciência.

A reencarnação não trata, portanto, apenas do homem, e apenas da Terra, mas sim de todos os seres vivos da natureza, na Terra e em outros planetas onde haja vida. Ou seja: o que tem vida, o que vivifica os corpos orgânicos, terá sempre vida. E o que não tinha vida, o que era só o corpo, continuará em seu ciclo natural. Como dizia Lavoisier, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Ora, a vida é o que evolui, o que se transforma de forma não-entrópica, o que organiza a matéria. Aquilo que não tinha vida é o que continua a ser jogado para cá e para lá pelo turbilhão da natureza em seu movimento eterno, como a poeira estelar que possibilitou o surgimento da vida orgânica em nosso planeta.

Há que saber diferenciar, no entanto, potencialidade de personalidade.

Personalidade é tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros indivíduos, ou seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua individualidade pessoal e social. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único para cada indivíduo. O termo deriva do grego persona, com significado de máscara, que designava a "personagem" representada pelos atores teatrais no palco. Todos somos chamados a construir nossas personalidades, a vida em sociedade pede isso. A questão está em saber diferenciar nossa essência espiritual da máscara construída por nossa mente - a máscara para a alma. Não é culpa da mente que tenhamos que usar essas máscaras, isso também é algo que faz parte da evolução natural dos seres. Ora, todo ser que se reconhece como indivíduo passa a ter a necessidade de construir este indivíduo, de saber como diferencia-lo, como representa-lo e apresenta-lo para os outros. Ocorre que muitos de nós não estão à altura do desafio, não conseguem suportar a angústia de encarar a si próprios, de elaborar da melhor forma possível os seus próprios medos, incertezas, sua moral, etc. Então torna-se mais simples apenas seguir um padrão social, e ao invés de elaborar nossa personalidade por nós mesmos, copiar aquelas que são mais aceitas no mercado da sociedade.

O problema é que nossa essência é única, diz algo somente a nós próprios, necessita de aprendizagem que outros não necessitam, e é capaz de fazer o que outros não fazem. Copiando a máscara alheia, é capaz de termos sérios problemas. O nariz pode apertar e não permitir que respiremos direito, o material pode incomodar a pele e fazer coçar até ferir, o elástico pode arrebentar e nos deixar expostos sem uma máscara para nos proteger... Ora, máscaras são necessárias, mas somente até que compreendamos que tudo o que somos realmente é nossa essência espiritual - aí então não precisaremos mais delas, e saberemos viver a vida em paz, enxergando em todos que cruzam a nossa frente a fagulha divina de espíritos antigos, arqueados em exaustão de tanto rodar pelas trilhas das encarnações terrenas.

As personalidades são como máscaras que usamos de encarnação em encarnação, são mais caras para nós do que nosso corpo, porém tão dispensáveis e passageiras quanto ele. Eis que trocamos de máscaras como trocamos de roupa. Já a potencialidade é diferente: ela está sempre caminhando à frente, é ela o sentido de termos de viver por tanto tempo, através de tantas vidas e tantas histórias que nos parecem ainda absolutamente disconexas. Amala e Kamala foram duas crianças selvagens achadas a oeste de Calcutá, na India, em 1920. Elas foram aparentemente abandonadas na floresta ainda bebês e foram criadas por lobos. Enquanto estiveram entre os homens, não se comportaram de forma muito diversa dos lobos - andavam com as mãos no chão, comiam carne crua, não sabiam pronunciar as palavras mais simples, etc. O cético irá pular de alegria e ver aí, sem muita reflexão, a prova de que o espírito sequer existe... Mas, analisando de forma mais profunda, alguns talvez compreendam que se tratam de potencialidades não despertas.

Ora, um homo sapiens criado por lobos talvez nunca seja muito mais do que um lobo, mas será, cognitivamente, pelo menos um ser do mesmo nível de um lobo. Já o inverso seria impossível: um lobo jamais chegaria ao nível de cognição dos homo sapiens, mesmo que seja educado e treinado pelos melhores adestradores de animais... Isto porque a potencialidade do espírito do lobo não se compara a potencialidade do espírito de um homem. Potencialidade cognitiva, ética, de nível de consciência e raciocínio, etc. Não sejamos ingênuos, mesmo Mozart nunca teria sido gênio se não houvesse sido apresentado a um piano ainda quando criança, imaginem então se houvesse sido também criado por lobos. As leis da natureza valem para todos, se o cérebro em nossa infância não é estimulado da maneira correta, há muito pouco que possamos fazer depois. O espírito necessita despertar suas potencialidades através da interação simbólica, intuitiva, interpretativa e amorosa com o mundo que o cerca. Se isso não ocorre, o cérebro físico não se desenvolve, a personalidade defeituosa não possibilita que a individualidade se manifeste, e a potencialidade da alma permanece adormecida, esperando uma nova oportunidade.

Não existem atalhos neste caminho: todos temos, invariávelmente, que trilha-lo, passo a passo, vida a vida; Sempre em busca do maior desenvolvimento dessas potencialidades da alma, que se manifestam através do corpo mas não fazem parte do corpo, e que não estão em DNA algum. Entretanto, Deus não nos criou princípios inteligentes e nos largou a esmo no Cosmos, ora encarnando na secura das tribos nômades do Quênia, ora no aconchego de uma distinta família burguesa da Suécia, ora perfeitamente saudáveis, ora com doenças que limitam nossas vidas a poucos dias de vida... Não, a reencarnação não é algo que se opera de forma aleatória, ela obedece a leis bastante específicas. Sem seu correto entendimento, é talvez impossível compreender a profundidade e a lógica da justiça do reencarnacionismo.

Por isso, à seguir vamos refletir sobre a Lei de Causa e Efeito.

***

Crédito da imagem: The Bhaktivedanta Book Trust International

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8 comentários:

Blogger Kardia disse...

Interessadíssima...
Continuarei a ler :)
Passemos pois à análise de causa x efeito. Pensando bem, já temos aqui algo dessa relação transformada em ato: Li...gostei...continuo a ler...transformação dialética de minhas crenças (quer eu venha a acreditar, ou não, em reencarnação, minha forma de pensar sobre o assunto estará para sempre modificada).

Um abraço

29/7/09 14:41  
Blogger raph disse...

"quer eu venha a acreditar, ou não, em reencarnação, minha forma de pensar sobre o assunto estará para sempre modificada"

Seu comentário foi extremamente feliz, obrigado.

Realmente, é sempre interessante quando reconhecemos nossas dúvidas, e não nos atrelamos a nenhuma certeza.

Abs
raph

29/7/09 16:31  
Blogger Rafael disse...

"(...)enxergando em todos que cruzam a nossa frente à fagulha divina de espíritos antigos, arqueados em exaustão de tanto rodar pelas
trilhas das encarnações terrenas."

Achei uma frase muito poética, mas...
Todos que cruzam a nossa frente estariam exaustos de tanto rodar pelas encarnações?

10/11/11 12:59  
Blogger raph disse...

Opa,

Olha, considerando que temos encarnado desde bactérias até roedores até os hominídios que precederam o despertar da consciência como a vicenciamos no homo sapiens, é bem provável que estejam todos bastante arqueados hehe...

Mas, cansado, daí depende... Depende do espírito, depende da boa vontade de cada um... Será que nossos átomos de carbono estão cansados de tanto viajar pelo espaço, desde as fornalhas estelares até a crosta terrestre? Bem, eles não tem consciência ainda para responder... Mas acredito eu que para alcançar a felicidade é preciso, no mínimo, estar preparado para viajar bastante, lá fora e aqui dentro, e encarnar e desencarnar quantas vezes forem necessárias.

Abs
raph

10/11/11 14:22  
Blogger Rafael disse...

Eu entendi a frase mais como uma abordagem aos que realmente estão rodando a tempos por aí sem ter captado a faísca da compreensão...àqueles que cansados do caos e do viver mecânico terão que perambular por várias gerações aprisionados às moléculas...

Mas embora estes sejam a maioria, não são todos...

um abraço

10/11/11 15:09  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Parabéns como sempre, amigo!

Sobre corpo-persona-espírito, quando falas sobre o cérebro não estimulado, podemos dizer que isso evidencia a necessidade do veículo - no caso a mente - estar livre, em bom funcionamento, para o espírito se manifestar, poder olhar pela luneta desembaçada. Logo, o resultado do molde da persona (extremamente flexível, somos um vaso a ser feito) é determinante na expressão do espírito - nesse caso, o existencialismo se mostra correto parcialmente: a existência precede o despertar da essência/potencialidades. Isso a meu ver, é um argumento que está ok, faz sentido, mas para uma abordagem cética também faz sentido se tirar o espírito, tpw: não temos como saber! Será que me entendeu? A complexidade, sutilidade e particularidade dessas coisas torna-as muito difíceis de serem observadas/investigadas ou mesmo provadas porque faz sentido nos dois planos, cético e espiritualista. É algo que você acaba tendo que acreditar por intuição, ou por prazer...ou por achar que faz mais sentidos de acordo com seus motivos. Vou ler seus posts recomendados sobre as provas.

No blog do Deldebbio ele diz que os responsáveis por colocarem as almas nos corpos são seres, consciências supra-humanas, os chama Engenheiros de Karma. Eu sempre imaginei que fosse a natureza mesmo, com suas leis, que direcionava cada um, meio que um magnetismo pelas afinidades, necessidades, e sei lá mais o que operando no desconhecido método dessa lei. Oque vc acha dessa hipótese de seres como o Sr. Emadaiô de Dragon Ball Z terem essa missão/trabalho?

Segundo: onde vc acha que nasce o ser? De acordo com o budismo TUDO é consciência, até mesmo minerais; seria aí o começo do ser? ou até mesmo nos átomos? E antes de estar no átomo? Seriam os espíritos resultado da força que rege tudo, simplismente energia, movimento, que vai caminhando em direção às mais diversas possibilidades e sendo forjado por elas?

Dentre essas divagações, cheguei até a pensar que podemos ser, no futuro (se ascendermos), sóis, ou galáxias, ou seja, que essas coisas têm consciência, e derrepente muito maior que a nossa, assim como os índios dizem que há o espirito do rio, da árvore, da floresta... enfim... tudo teria seu espírito. É uma visão um pouco confusa, e teria de admitir de que um espírito mestre `governa` os demais, como o da floresta governa as árovres, e eu governo o espirito de todas as células do meu corpo, mas atribuir como esses seres - se é que assim pode ser chamados - sentem o mundo é um pouco complicado.

Desculpe pelo tamanho do post. Espero que comente, pois vejo que tens grande conhecimento e essas dúvidas têm me intrigado. Grato!!!

28/8/12 20:51  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Melhor dizendo, não sabemos se controlamos todas as células do nosso corpo. Aparentemente não, mas vai saber... talvez inconscientemente exista um comando pra tudo, e se assim for, talvez elas não tenham livre-arbítrio, ou seja algo muito limitado. Enfim, a idéia final pode ser expressa assim: consciência englobando cada vez mais consciência. Talvez seja essa a forma que assumem os seres (suas consciências) o que reforçaria o sentido da afirmação espírita (hermética ou sei lá onde lí isso), de que quando mais o ser evolui, mais responsabilidade ganha - essencial para abrigar um número crescente de consciências.

28/8/12 20:59  
Blogger raph disse...

Oi Franco :)

- Sobre as "evidências sugestivas" da reencarnação, acredito que as mais difundidas no estudo científico sejam os estudos de crianças que lembram vidas passadas. Neste caso recomendo esta série:

http://textosparareflexao.blogspot.com/2011/04/caso-parnad-parte-1.html

- Sobre a questão dos "engenheiros do karma", acredito que em essência a decisão caiba a nossa própria consciência, que consciente ou inconscientemente se sente "atraída" para certas "provas". Os tais "engenheiros" nada mais seriam do que espíritos "muito mais conscientes que nós" que podem nos auxiliar no "bom encaminhamento". Somente em casos raros acredito que os "engenheiros" tenham permissão de "encaminhar forçosamente". Importante compreender que entendo o carma mais como uma lei de causa e efeito, o que explico melhor na parte 2 desta série.

- Quando e como nascem os espíritos, ou princípios inteligentes, nem os espíritos dos livros de Kardec souberam responder. Porém, pela lógica podemos conceber que "nada nasce do nada" e que por isso mesmo "uma substância, incriada, gerou tudo a partir de si mesma". Creio que somos na essência mais profunda informações geradas pela mente cósmica, pois concordo com Hermes: o Todo me parece essencialmente mental.

- Muitos se indagam acerca "do objetivo de tudo isso"... Eu gosto muito da teoria do Biocosmos, que postula que a função do sistema universo é a orgiem da vida cada vez mais organizada e complexa, cada vez mais consciente. "Sois deuses, farão tudo que faço e ainda muito mais"... Quem sabe daqui há muitos aeons, nós sejamos mesmo deuses, donos de nossos próprios universos, tecendo nosso próprio espaço-tempo com nossas mentes? Mas este dia está muito longe ainda.

Abs
raph

29/8/12 10:40  

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