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27.5.19

4 Amores: Pornea

Neste vídeo vamos começar nossa jornada pelo Amor, compreendendo desde o início que o Amor pode ser muitas coisas; os gregos tinham pelo menos 4 nomes para ele: Pornea, Eros, Filia e Ágape. Assim, o Amor é antes uma Caminho do que uma coisa só. Iniciando por Pornea, falaremos de como o instinto de perpetuação da espécie está por trás de muito do que fazemos no Amor; e ao final ainda convidamos Arthur Schopenhauer para nos falar um pouco mais sobre a Metafísica do Amor.

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21.8.18

O Sexo e a Morte (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago uma reflexão sobre a relação entre o sexo e a morte, que nasceram juntos há mais ou menos um bilhão de anos, quando os organismos evoluíram e deixaram de se reproduzir somente pela bipartição, algo que favoreceu muito a evolução das espécies. Também iremos avaliar se a violência ainda tem lugar no sexo sadio, e se as simulações de estupro no xvideos não deveriam ter o mesmo status da zoofilia: isto é, serem ilegais.

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13.7.18

Pensamento e linguagem

É possível haver pensamento sem linguagem?

Filósofos como Platão, Descartes, Kant e Henri Bergson acham que a linguagem é a manifestação de algo “superior”, como o intelecto, as ideias, a mente, a subjetividade ou, simplesmente, a razão.

Outros, como Charles Peirce, John Dewey, Wittgenstein e Habermas, em geral os linguistas e os estruturalistas, consideram que as capacidades de raciocínio, pensamento, recordação, memória e associação, enfim, o que se rotula como “mental”, dependem do aprendizado de signos, de apreensão e interpretação de imagens e símbolos.

Eu vou tentar aqui resolver essa pendenga histórica da filosofia sem citar filósofos (exceto Descartes, pois será necessário), apelando somente para o senso lógico de vocês. Pode parecer um assunto complexo a primeira vista, destinado a ser debatido “somente pelos grandes pensadores”, mas eu acho justamente o oposto: creio que qualquer um de nós com um pouco de bom senso, e sendo encaminhado passo a passo por certos conceitos, é capaz de perceber por si mesmo, de uma vez por todas, se há pensamento sem linguagem.

Então, vamos lá! A primeira coisa que precisaremos fazer é definir o que é exatamente pensamento e linguagem. Vamos começar pelo pensamento:

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso ou as características de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se o avaliador da realidade. Por exemplo, você pode ver três maçãs em cima de uma mesa, e ao comparar umas com as outras, poderá dizer qual é grande e qual é pequena. Qual é a menor de todas, qual a maior de todas, e qual a que é maior do que uma e menor do que a outra. Isso, é claro, considerando que elas tenham dimensões claramente díspares ao olho nu. Maçãs muito parecidas em tamanho serão classificadas pelo pensamento como iguais, seria necessária a ajuda de uma lente de aumento ou de alguma medição científica para determinarmos com exatidão plena qual a maior e qual a menor. Ainda assim, “maior” e “menor” farão parte de conceitos interpretados pelo pensamento.

Se formos nos limitar ao conceito do parágrafo acima, parece claro que seria impossível pensar sem usar linguagem, uma vez que estaríamos sempre avaliando alguma coisa, gerando uma intepretação clara e evidente a partir de uma observação da mente. Ocorre que o pensamento não é só isso, ou pelo menos foi assim que o definiu Descartes (e esta é a última vez que citarei um filósofo nesse artigo):

A essência do homem é pensar. (Por isso eu dizia): “Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma e que ignora muitas coisas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente”. (Logo quem pensa é consciente de sua existência): “penso, logo existo”.

Ora, pelo que foi dito acima, “penso, logo existo” seria tão válido quanto “imagino, logo existo”; ou “duvido, logo existo”; ou até mesmo “sinto, logo existo”. Nesse sentido chegamos à conclusão de que pensar não é somente o ato racional de se avaliar os objetos e elementos que percebemos em nossa mente, como também imaginar novos elementos, e até mesmo ter experiências misteriosas, como sentir dor ou amar apaixonadamente. Pois bem, agora vai faltar definirmos o que diabos é a linguagem...

Linguagem é geralmente definida como a capacidade especificamente humana para aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação. O estudo científico da linguagem, em qualquer um de seus sentidos, é chamado linguística. Os códigos e outros sistemas de comunicação construídos artificialmente, como aqueles usados ​​para programação de computadores, também podem ser chamados de linguagens – a linguagem, nesse sentido, é um sistema de sinais para codificação e decodificação de informações (guardem esse termo, “informação”).

De acordo com muitos estudiosos, a linguagem pode ter se originado quando os primeiros hominídeos começaram a cooperar, adaptando sistemas anteriores de comunicação baseados em gestos e sinais, compartilhando assim intencionalidade. Nessa linha, o desenvolvimento da linguagem pode ter coincidido com o aumento do volume do cérebro, e muitos linguistas acreditam que as estruturas da linguagem evoluíram a fim de servir a funções comunicativas e cognitivas específicas.

A linguagem, como o próprio termo parece indicar claramente, está diretamente relacionada à linguística, a capacidade exclusivamente humana de se interpretar símbolos e compartilhar informações por meio deles, como pela leitura e escrita de alfabetos, ou simplesmente pela vocalização de palavras e conceitos através da fala. Quem defende essa tese dirá que um papagaio pode até repetir o que um ser humano fala, mas não compreende aquilo que repete. Mas, será mesmo que os animais não possuem linguagem?

Bem, eu poderia citar a gorila Koko, por exemplo, que chegou a aprender mais de mil palavras e sinais, e conseguiu se comunicar claramente, embora de forma bem rudimentar, com pesquisadores. Mas ao invés disso vou trazer abaixo um vídeo gravado no Dolphin Quest Oahu, em Honolulu no Havaí, onde peixes treinados são capazes de reconhecer figuras geométricas (símbolos), e assim conseguir alguma comida em troca:

Seriam tais peixes capazes de compreender códigos simples? Seria a gorila Koko um exemplo vivo do surgimento da capacidade de interpretação de linguagem humana entre os animais? Isto vocês que devem definir, pois a maioria dos especialistas parece ter a certeza de que animais não compreendem linguagem.

Mas, para arrematar, precisaremos voltar a Descartes (ops, trouxe um maldito filósofo outra vez, me desculpem)...

Vocês se lembram que ele definiu o pensamento como algo que se imagina e que se sente, não é mesmo (está alguns parágrafos acima, caso queiram reler)? Pois bem, então imagine que você está imensamente apaixonado por alguém, como exatamente você vai explicar o seu sentimento em linguagem, em códigos simbólicos, em palavras escritas ou vocalizadas? Parece problemático, não?

E não precisamos nos referir a nada tão misterioso e transcendente como o “sentir amor”, ou ainda o “sentir dor”, ou mesmo o “adorar a Deus” ou “se assombrar com a Natureza”, podemos ter o mesmo tipo de problema ao observar aquelas mesmas maçãs em cima da mesa, e tentar explicar como exatamente percebemos “a vermelhidão do vermelho” em suas cascas. Pois que, no fundo, as palavras são tão somente cascas de sentimento, incapazes de abarcar completamente o sentimento e a imaginação humana (não a toa há um ditado popular que diz: uma imagem vale mais do que mil palavras).

Se um cientista, um linguista, quiçá um filósofo especialista em linguagem, fosse capaz de definir o amor em palavras, a poesia seria então ciência ou filosofia, e não arte.

Dessa forma, me parece que é claro que, dadas as definições usuais para “pensamento” e “linguagem”, que o pensamento precede a linguagem: enquanto esta é o fruto, aquele é a semente. E não só isso: há pensamentos que jamais conseguirão ser expressos claramente ou inteiramente em linguagem, há horizontes da mente humana intransponíveis, que jamais poderão ser comunicados inteiramente tanto aos demais, como a própria mente que “pensa, logo existe”.

Se, no entanto, consideramos a linguagem como um processo que lida com qualquer tipo de informação mental, não somente as humanas, ou as capazes de serem codificadas e decodificadas em linguagem humana, então seria melhor dizer que é impossível haver pensamento sem informação (e não sem linguagem)!

Informação, etimologicamente significa “dar forma a mente”. Me parece que os antigos, portanto, já tinham todo o mistério resolvido lá atrás: o pensamento dá forma a mente, mas não necessariamente uma forma unicamente racional, exprimível em linguagem humana. Muitas vezes, pensar é dar forma ao amor, dar forma ao medo, dar forma ao assombro perante o mistério da vida. Existimos, enfim, não somente porque sabemos que uma maçã é maior do que outra, mas essencialmente porque percebemos o vermelho, e não há outro instrumento na Natureza capaz de fazer o mesmo: interpretar o mundo, e não somente computar informações em linguagem.

Enfim, somos seres e não robôs. Se isto é algo “superior” ou “divino”, vai da crença de cada um. Mas não podemos ignorar os fatos, não podemos fingir que somos coisas pensantes, pois não há “coisa pensante”.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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30.8.17

Lançamento: O Livro da Reflexão, vol.3: As lições da ciência

As Edições Textos para Reflexão trazem mais um presente a todos os fiéis leitores deste blog, assim como a todos que um dia também virão refletir conosco. Afinal, a luz foi criada para ser refletida!

"Textos para Reflexão é um blog que fala sobre filosofia, ciência e espiritualidade. Este é o terceiro volume da série O Livro da Reflexão, que pretende ser uma coletânea dos melhores textos do blog. Nesta edição pretendo abordar a ciência, o ceticismo, a consciência e a evolução das espécies, todos temas recorrentes em minhas reflexões."

Um livro digital disponível para download gratuito em diversos formatos (exceto na Amazon, onde custa o valor mínimo permitido pela loja):

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30.1.17

É preciso cair para levantar

O texto abaixo foi retirado de uma das respostas de minha amiga Wanju Duli (Juliana Duarte) dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas do qual também participo. Os comentários ao final são meus.

Podemos falar um pouco sobre o significado de evolução ou progresso espiritual. Acredito que o termo "evolução" ficou muito conectado a Darwin, com um sentido de que se passa de um estágio mais baixo para outro mais alto de forma linear. No entanto, o próprio Darwin considerava o termo "evolução" inadequado. Afinal, segundo ele, cada espécie é bem-sucedida caso se adapte melhor ao ambiente em que vive. Isso não significa que um ser humano é necessariamente mais evoluído que um pássaro ou um tubarão, apesar de possuir razão. Caso a espécie humana fosse extinta, os seres mais bem-sucedidos seriam simplesmente os sobreviventes, do ponto de vista biológico. Através da razão, o homem criou tecnologia para voar ou respirar embaixo d'água, mas não necessariamente para tornar-se um ser moralmente bom, espiritualmente elevado ou feliz.

De acordo com Erasmo em Elogio da Loucura, "O homem não foi feito para ser perfeitamente feliz na terra". O próprio termo "progresso" nos lembra o positivismo, que não por acaso está na bandeira do Brasil. Ou seja, tanto "evolução" quanto "progresso" nos remetem à necessidade de avanços científicos para darmos um passo adiante, mas a experiência nos mostra que em alguns casos avanços da ciência podem até nos ser negativos. Nem preciso citar bombas e outras armas de guerra. Em vez disso, irei citar elementos ainda mais fundamentais. É evidente que descobertas que contribuam para saúde e conforto, e que economizem tempo e dinheiro, são boas, desde que bem utilizadas. Por outro lado, conforto e facilidades demais podem nos deixar mal acostumados e nos fazer perder alegrias simples. Deixar de plantar e cozinhar os próprios alimentos de certa forma nos desconectaram da natureza e nos fizeram esquecer um pouco do sentido natural da existência.

Uma coisa que consumimos muito ultimamente são comidas prontas, em nome do maior conforto e da economia de tempo. No entanto muitas comidas industrializadas são pobres em nutrientes, fazem mal para a saúde e baixam nossa imunidade. Consequentemente nossa saúde mental fica prejudicada pelo reflexo do que comemos.

[...] É óbvio que comer bem não é a receita mágica para a felicidade, mas é um fator importante que muitos livros de espiritualidade podem não levar em consideração. A "falta de tempo" é um dos fatores levantados para que as pessoas cozinhem menos e caminhem menos. Evolutivamente, nosso corpo e mente estão adaptados a funcionar gastando tempo caçando, colhendo e cozinhando. No momento em que deixamos de exercitar o corpo e comemos de forma inadequada, não somente a saúde do corpo é prejudicada, mas também a saúde mental. Isso interfere diretamente em nossa espiritualidade, pois podemos nos sentir deprimidos e sem energia.

Meu primeiro ponto é bem simples: para tratar do tópico "evolução" num sentido mental ou espiritual, devemos levar em consideração que não somos somente mente-alma-espírito, mas também corpo. É o corpo que fica doente, envelhece e morre. Foi por causa dessas condições do corpo que Buda iniciou sua busca espiritual. Um dia todos iremos passar pela morte corporal, e todos conhecemos a doença e a dor corporal. É também em nome delas, e não somente do sofrimento mental, que buscamos respostas na espiritualidade. As nossas perguntas começam na mente, mas também tiveram origem no corpo. As nossas respostas terminam na mente, mas também terminarão no corpo, já que todo bom caminho espiritual também deve gerar modificações físicas em nosso estilo de vida.

E agora vamos ao próximo ponto: "aperfeiçoamento mediante a ação lúcida e continuada da consciência". Anteriormente tratamos da natureza dos pensamentos e agora devemos pensar em que sentido esses pensamentos podem ser trabalhados visando uma evolução moral e espiritual. Para introduzir esse tópico tratarei do conceito de busca do aperfeiçoamento e da verdade citando um livro que admiro: O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse. Nesse livro se trata de um conceito que já existia desde a Grécia Antiga: a ideia de que todas as áreas do conhecimento estão, de alguma forma, conectadas umas com as outras. O cristianismo também adotou esse conceito, baseando-se na ideia de que Deus criou "o melhor dos mundos possíveis", e que tal universo é harmonioso e racional.

Hoje em dia temos dificuldade de entender como as diferentes áreas do conhecimento se conectam, pois somos incentivados a ter um conhecimento mais especialista do que generalista. Perdemos muito a ideia do polímata, homem universal ou renascentista, que sabia transitar em diferentes saberes. Por isso é dito no livro de Hesse que vivemos na "Idade Folhetinesca" e isso fica ainda mais evidente hoje com a internet: o conhecimento está tão fragmentado e reduzido em posts curtos de blogs ou frases de redes sociais para "não perdermos tempo" que ficamos com a impressão que sabemos muito de várias coisas, mas não sabemos conectar ou aprender a fundo nenhum desses saberes. Uma invenção medieval chamada "universidade" tenta resgatar isso, mas como ela não é mais baseada nas Sete Artes Liberais e sim em conhecimentos pragmáticos visando apenas o mercado de trabalho, ainda está longe dessa realização. 

No paradigma secularista e materialista do século XXI, vivemos num universo sem sentido, em que muitos eventos ocorrem de forma aleatória, incluindo nossa própria vida e morte. No meio desse caos, nossa única esperança para esquecer a dor e a morte é ter o máximo de prazer e conforto possível, obtidos principalmente através do dinheiro. Talvez alguns problemas das filosofias espiritualistas do século XX e XXI sejam fruto da tentativa de construir uma solução moral e espiritual dentro desse paradigma. Nele o objetivo máximo é ser feliz através do "prazer" e do "sentir-se bem" seja com êxtase e emoções fortes ou paz.

Para buscarmos uma evolução consciente, seria bom lembrarmos do que nos diziam os gregos e romanos da Antiguidade, a exemplo dos estoicos. Diz Sêneca em Aprendendo a Viver:

Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada [...] Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.

Nós vivemos numa sociedade em que o maior objetivo da vida é não ser pobre, sendo que Jesus disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus. Isso significa que não podemos servir a dois deuses: a Deus e ao Dinheiro. É óbvio que tantas pessoas hoje se sentem depressivas e desconectadas do divino: porque estão adorando ao Deus errado. Eu respeito muitos Deuses de várias culturas e religiões, mas algo me diz que adorar ao Deus Mamon, conforme a história mostra, não tem gerado nem mesmo uma felicidade temporária nesse mundo.

Buda e Jesus nos deram outra resposta: a filosofia do sofrimento. Buda nos diz que a vida é sofrimento e Jesus nos convida a imitá-lo sofrendo com ele e carregando sua Cruz. O sofrimento pode não ser o problema, mas a resposta. Quem sabe o problema da humanidade seja achar que a dor e a morte sejam um erro, fugindo deles desesperadamente e se agarrando num sonho de felicidade. A solução é ver a morte como a chave para a vida, para o renascimento: o mártir que morre para o "eu" e renasce no "outro" e em "Deus" encontra a verdadeira vida. É preciso cair e morrer para levantar e nascer. A vida e o mundo não são erros a serem corrigidos pela ciência.

Comentários
A última vez em que falei da Wanju Duli aqui no blog foi trazendo a melhor resenha que já recebi para um livro, quando ela destrinchou o meu Ad Infinitum. Deveria ter trazido mais coisa dela para cá, visto que se trata de uma das maiores conhecedoras (no sentindo abrangente do termo) de magia e ocultismo da web e do meio literário nacional. Espero ter me redimido com este belo trecho que pesquei de nosso debate sobre espiritualidade em geral (também temos outros participantes, provavelmente esse “debate” ainda renderá um livro no futuro). Você também pode encontrar a Wanju na coluna sobre Magia do Caos do portal Teoria da Conspiração.

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Crédito da foto: David Uzochukwu

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

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[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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11.10.15

Agora, sem as rodinhas!

Quando surgiu pela primeira vez na comunidade científica, a ideia de que todo o universo tivesse se originado de uma espécie de “átomo primordial” há bilhões de anos, e que vinha se expandindo desde então, pareceu tão absurda que um famoso astrônomo da época a chamou de Big Bang num programa de rádio da década de 1940.

A intenção de Fred Hoyle, o cientista britânico defensor da teoria do universo estacionário ou eterno, era ridicularizar a teoria do belga Georges Lamaître, aquele quem primeiro propôs a ideia de que o próprio espaço-tempo se encontrava em expansão. O fato de Lamaître, para além de físico e astrônomo, ser também um padre católico, certamente levou Hoyle a supor que ele estava se baseando mais nos dogmas do Gênesis do que em ciência genuína...

Mas hoje sabemos que a hipótese do Big Bang venceu a batalha contra o universo estacionário de Hoyle, e o que determinou a vitória foram os fatos: em 1966, já próximo da morte num leito de hospital, Lamaître foi comunicado que os astrônomos Arno Penzias e Robert Wilson haviam confirmado experimentalmente a existência da chamada radiação cósmica de fundo, uma espécie de “registro fóssil” em micro-ondas da época em que todo o universo era quente e denso, apenas cerca de 380 mil anos após o seu início.

Junto com outras evidências, como a de que as galáxias ainda hoje estão se afastando umas das outras, e a observação de uma imensa abundância de elementos leves no universo, hoje a teoria do Big Bang é de muito longe a hipótese mais aceita na comunidade científica, fazendo parte do chamado “modelo padrão”. Penzias e Wilson ganharam o Prêmio Nobel de Física de 1978 por sua descoberta. Se estivesse vivo, Lamaître certamente teria o seu Nobel garantido.

A ideia de um universo eterno, entretanto, era um conceito muito mais antigo do que o advento da própria astronomia moderna; um paradigma tão cristalizado na mente humana que eventualmente também se tornou quase que um dogma científico, ao ponto de ter tirado o sono até mesmo de Albert Einstein, que relutou o quanto pôde em admitir que o universo de fato se expandia. O célebre físico alemão chegou a dizer que este foi “o pior erro de sua carreira”.

Realmente não é fácil quebrar antigos paradigmas. Demócrito e outros filósofos atomistas da Grécia Antiga, por exemplo, acreditavam que os átomos eram eternos e imutáveis. Pitágoras e seus discípulos consideravam que todo o universo era ordenado por princípios imateriais eternos de harmonia e “verdades matemáticas”. Já Platão foi ainda mais longe, e generalizou a matemática transcendente pitagórica para uma visão mais ampla de Ideias arquetípicas e universais, que incluíam a Forma de cada objeto ou qualidade, como cavalos, seres humanos, cores e bondade. Segundo o grande filósofo grego, a própria realidade era composta por “sombras e reflexos das Formas transcendentais”.

Sempre foi complexo para a mente humana imaginar uma Natureza evolutiva, que não surgiu “pronta e acabada”, com todas as suas leis e variáveis imutáveis. E isso, é óbvio, se reflete também nas ideias científicas.

Ironicamente, o mesmo paradigma de universo estacionário com leis imutáveis gerou um baita problema para a visão ateísta do mundo... De acordo com o Princípio Antrópico, se as leis e constantes cosmológicas fossem ligeiramente diferentes após o Big Bang, não teria sido possível o surgimento de formas de vida baseadas em carbono, como nós aqui neste planetinha. Uma das respostas óbvias para tal enigma é que a própria Criação foi obra de alguma espécie de inteligência superior, ou seja, a ciência se vê forçada a retornar a hipótese de um Criador.

Para contornar esse “incômodo”, muitos cosmólogos preferem pensar que há inúmeros universos além do nosso, cada um deles com leis e constantes específicas. Nesses modelos de “multiverso”, o fato de calharmos de estarmos aqui, conscientes e maravilhados, se explica pela extraordinária sorte de fazermos parte de um dos bilhões e bilhões de universos que propiciou o surgimento da vida como a conhecemos. Segundo esses modelos, não faz o menor sentido reclamarmos de qualquer espécie de azar, pois a nossa sorte em estarmos aqui vivos é tão imensamente grande que equivale a uma chance estatística inferior a sermos atingidos por um raio a cada minuto durante toda a vida (e, nesse caso, também considerando as chances de sobrevivermos a todos eles).

Portanto, se as leis e constantes são imutáveis e tudo estava determinado desde o início dos tempos, tanto faz se calhamos de existir num dos universos que possibilitou a vida baseada em carbono, ou se este universo único foi criado conforme descrito no Gênesis, as chances estatísticas provavelmente se equivalem, e tudo passa a ser uma questão de “gosto pessoal” que defina qual aposta é menos absurda do que a outra.

No fundo, todas as teorias que postulam a existência de um multiverso possuem a crença comum na primazia da matemática sobre a realidade. Mesmo que existam muitos universos além do nosso, o que os sustenta, segundo tais ideias, são fórmulas matemáticas transcendentes, como por exemplo as que formam a espinha dorsal da teoria das cordas ou teoria M. Para resumir: tais teorias nada mais são do que uma espécie de pitagorismo ultrarradical.

Mas temos outra alterativa surpreendente, defendida pelo físico Rupert Sheldrake em seu monumental Ciência sem Dogmas. A opção ao pitagorismo é a evolução das regularidades da Natureza. Tais regularidades seriam mais semelhantes a hábitos adquiridos do que a leis imutáveis que estavam lá desde o início dos tempos, e ficariam mais fortes (ou “constantes”) pelo meio da repetição, da mesma forma que aprendemos a andar de bicicleta. Segundo Sheldrake, há um tipo de memória na Natureza, e o que acontece agora é influenciado direta ou indiretamente pelo que já ocorreu antes.

Hábitos ancestrais foram estabelecidos há bilhões de anos, e estão arraigados de tal forma na Natureza que se parecem mesmo com “leis imutáveis”. Dos fótons, prótons e elétrons surgiram as moléculas, depois as estrelas e as galáxias, então os planetas, os cristais, e ao menos aqui neste planetinha, as plantas e os seres humanos.

Entre as moléculas, por exemplo, a de hidrogênio é provavelmente a mais antiga – ela já existia antes da formação da primeira estrela. As “leis” e “constantes” associadas a esses padrões arcaicos de organização estão tão bem estabelecidas que atualmente já não apresentam nenhuma mudança detectável. Em contrapartida, algumas moléculas são novíssimas, como as centenas de compostos produzidos pela primeira vez por químicos de síntese em nosso próprio século. Nesse caso, os hábitos ainda estão se formando. O mesmo ocorre com novos padrões de comportamento em animais e novas habilidades humanas.

Se eliminarmos a biologia e nos mantivermos exclusivamente na física e na química, ainda assim esta teoria tem uma vantagem gritante se comparada às teorias que postulam um multiverso como forma de explicação ao Princípio Antrópico: ela fala de coisas que podem efetivamente serem observadas e testadas!

Na verdade, sabemos que os químicos que sintetizam novas substâncias muitas vezes têm grandes dificuldades de fazer com que elas se cristalizem. Às vezes leva muitos anos para os cristais surgirem pela primeira vez. Por exemplo, a turanose, um tipo de açúcar, durante décadas foi considerada um líquido, até que, na década de 1920, ocorreu a cristalização. Depois disso, esse açúcar formou cristais em todo o mundo [1].

O xilitol, álcool de açúcar usado como adoçante em gomas de mascar, foi preparado pela primeira vez em 1891 e considerado líquido até 1942, quando surgiram cristais pela primeira vez. O ponto de fusão desses cristais era de 61ºC. Depois de alguns anos surgiu outra forma de cristal, com ponto de fusão de 94ºC e, mais tarde, o primeiro tipo de cristal desapareceu da Natureza [2] (leia novamente este parágrafo se não compreendeu ainda o quão assombroso ele é)...

Nós tendemos a ver o universo sob o nosso ponto de vista, mas ironicamente postulamos que, ao contrário de nós mesmos, ele deveria ser como que um rio congelado, uma espécie de fórmula matemática supersimétrica, superelegante, transcendente e eternamente imutável. Dessa forma, tendemos a ver a Natureza como uma espécie de supercomputador programado desde o início dos tempos para obedecer às mesmas leis e constantes, sem a mísera variação. Entretanto, basta olhar a nossa volta, como uma árvore só pode existir após haver sido broto e, ainda antes, semente. Como os filhotes de passarinho devem ser alimentados por seus pais antes de criarem força nas asas e, eventualmente, se arremessarem aos céus. Como toda a metrópole tem o seu centro histórico e, dentro dele, o seu marco inicial.

Tudo evolui do simples para o complexo, e o grande destino da vida parece mesmo ser se organizar, de alguma forma extraordinária, em consciências capazes de observar o mundo – a Natureza vendo a si mesma, compreendendo a si mesma, se espantando consigo mesma.

E não podemos saber ainda, de fato, se há mesmo um Criador que pensou nisso tudo desde o início. Talvez, quem sabe, ele esteja aprendendo conosco. Talvez ele tenha preferido nos deixar livres para descobrir as coisas, tateando o Cosmos e evoluindo por nossa própria conta.

Como quando nossos pais nos levam ao parque para nos ensinar a andar de bicicleta. No começo, colocam rodinhas para que nos auxiliem a manter o equilíbrio. Talvez, quem sabe, todo o nosso passado mineral, vegetal e animal tenha sido como que um aprendizado com o auxílio das rodinhas...

Mas hoje, hoje despertamos, hoje somos seres conscientes encarando de volta a vastidão cósmica salpicada pelas mesmas fornalhas que fundiram os elementos de nosso corpo, habituadas há bilhões de anos a este caminho ancestral que vai do átomo primordial de Lamaître a um planetinha, quiçá bilhões e bilhões deles, plenos de vida, plenos de crianças a arriscar suas primeiras voltas de bicicleta.

Até o dia em que partiremos deste pequeno parquinho para os mundos e galáxias mais distantes, e quem sabe neste dia não poderemos olhar para o Alto e dizer:

“Olhem para nós! Agora, sem as rodinhas!”

***

[1] Crystals and Crystal Growing, por Allan Holden e Phyllis Singer (1961), pp. 80 e 81.

[2] Ibid., p. 81.

Crédito da imagem: Google Image Search/shutterstock

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2.9.15

Sapiens

Nesta contundente palestra para o TED Talks, Yuval Noah Harari, um proeminente professor de história israelense, tenta responder a pergunta: “Como nos transformamos de primatas insignificantes, que cuidavam de sua vidinha em algum canto da África, em soberanos do planeta Terra?”.

Antes de assistirem o vídeo abaixo, no entanto, é preciso tentar compreender como um historiador jovem (39 anos) conseguiu escrever um dos melhores livros do século 21, Sapiens, no qual se baseia sua palestra.

Ora, para início de conversa, já é revelador o fato de Harari começar a explicar a história humana, o mote de seu livro do início ao fim, pela parte em que ela sequer era registrada, isto é, antes do advento da escrita. Harari é afinal um pensador que se interessa pelas “grandes questões” do pensamento humano, e “como conquistamos o planeta?” é somente uma delas...

Dentre algumas outras, poderíamos citar: “Por que nossos ancestrais se reuniram para criar cidades, reinos e impérios?”; “Como passamos a acreditar em deuses, nações e direitos humanos?”; “Como aprendemos a confiar no dinheiro, em livros e em leis?”; ou ainda, “Como fomos escravizados pela burocracia, pelo consumismo e pela incessante busca da felicidade?”.

É tentando responder a tais questões que Harari vai muito além do âmbito “ortodoxo” do estudo histórico, e trata de biologia, psicologia, filosofia, mitologia, economia, política e sociologia com a mesma naturalidade com a qual o seu antigo professor falava de Revolução Francesa.

Além de ser extraordinariamente bem escrito, Sapiens não se limita apenas a descrever a história, como nos leva a refletir sobre o que ocorreu no passado, sobre como isso influencia o presente e o futuro e, sobretudo, sobre como as “narrativas tradicionais” muitas vezes são falhas, ou por contarem somente “a história dos vencedores”, ou pelo fato de ignorarem solenemente o nosso mundo interno, subjetivo, e a enorme importância que a linguagem e as ficções humanas exercem e exerceram sobre os eventos históricos.

A única fronteira que Harari se recusa a ultrapassar é o limite da ortodoxia acadêmica em relação às crenças. Apesar de elogiar o budismo, a sua postura para com as religiões é por vezes excessivamente ácida e superficial, pois apesar de ele basear boa parte de sua tese sobre a evolução humana em torno das mitologias da mente, em nenhum momento ele chega a tentar analisar o tema do ponto de vista místico. Mas se além de tudo o que já sabe, Harari ainda fosse um místico, seria talvez pedir demais para uma única mente.

Felizmente, existem outras mentes que podem complementar as reflexões de Sapiens; mas tal livro se encontra num patamar tão elevado que só me vem à cabeça gente como Joseph Campbell, Mircea Eliade e Alan Moore...

Compre Sapiens na Amazon, através do link abaixo, e contribua com este blog:

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Crédito da imagem: Google Image Search/Divulgação (Y. N. Harari)

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16.4.15

As maravilhas da vida

Entre os genuínos amantes da ciência e, sobretudo, da Natureza, é difícil encontrar algum que, já tendo assistido o Cosmos de Carl Sagan, não tenha se apaixonado a primeira vista...

A todos esses, a mera menção de uma frase, “o Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será”, dá um certo calafrio na alma, talvez porque seja precisamente lá, na alma, que a mensagem de Sagan nos tenha tocado da forma mais profunda.

Recentemente, Ann Druyan, viúva de Sagan e uma das redatoras do Cosmos, se juntou a National Geographic para produzir o novo Cosmos: Uma Odisseia no Espaço. No entanto, embora a série conte com o carisma de Neil deGrasse Tyson e todas as vantagens da tecnologia moderna, ainda assim não pode ser comparada ao original.

Também Morgan Freeman tem nos presenteado há alguns anos com o seu brilhante Grandes Mistérios do Universo, uma produção da Discovery Channel. Mas, mesmo tendo surpreendido a todos ao demonstrar que além de ser um ator monumental, é também um grande apresentador de divulgação científica, ainda assim, não é como Sagan...

Teria alguém, afinal, se aproximado da maestria de Sagan em 1980? Bem, eu não estaria escrevendo isso se não houvesse encontrado este cara:

Brian Cox é um inglês com pinta de Keanu Reeves. Não é para menos, apesar de parecer um cara perfeitamente normal, ele traz no seu currículo um doutorado em física de partículas, a participação, como tecladista, em ao menos duas bandas de pop rock, e o cargo de professor e pesquisador da Universidade de Manchester. Vocês devem imaginar que sujeitos com doutorado em física já não são lá tão normais, somando a isso o fato de ter iniciado a carreira como músico de uma banda de rock, bem, temos no mínimo uma mistura interessante não?

Mas o que o aproxima definitivamente de Sagan é simplesmente a sua paixão pela Natureza. Paixão essa que parece ter descoberto exatamente no Cosmos, mas que soube nos apresentar noutro formato. De fato, o professor Cox nunca pretendeu igualar Sagan, mas em suas escaladas de montanhas, em seus mergulhos no oceano, em suas explorações de cavernas e florestas tropicais, talvez tenha ido até mesmo além do mestre. É para isso que os mestres existem, afinal...

Com vocês, os 5 episódios de uma das séries que o professor Cox já apresentou para a BBC, Maravilhas da Vida [1]. O segundo episódio, em particular, é uma das conquistas mais extraordinárias da história da divulgação científica:


1. O que é a vida?
Neste episódio, Brian Cox visita o “Anel de Fogo”, no sudeste asiático. Numa região vulcânica, Brian explora a linha ténue que separa a vida da morte e coloca em xeque uma das questões mais antigas do mundo: o que é a vida? A resposta habitual remete para o sobrenatural, como é visível nas celebrações anuais do Dia dos Mortos nas terras altas das Filipinas. Brian propõe uma resposta alternativa ligada ao fluxo de energia que percorre o universo.


2. O universo em expansão
Em meio à rica história natural dos Estados Unidos, o professor Cox encontra criaturas surpreendentes que revelam como os sentidos evoluíram. Cada animal na Terra interage com o mundo de uma maneira diferente, usando um conjunto exclusivo de sentidos para detectar seu ambiente físico. A partir de organismos unicelulares para os seres sencientes, mais complexos. Brian acha que, ao longo de 3,8 bilhões anos, os sentidos têm impulsionado a vida em novas direções, nos levando a nossa própria curiosidade e inteligência.


3. Infinitas formas mais belas
O universo é quase totalmente desprovido de vida. A Terra, o planeta que chamamos de lar, parece desafiar as leis da física. Ela está repleta de vida de todas as cores, formas e tamanhos. Ninguém sabe ao certo quantas espécies diferentes estão vivas neste exato momento, o nosso melhor palpite é que seja perto de 8,7 milhões. Neste documentário, o professor Cox pergunta como, a partir de um cosmo sem vida governado pelas leis da física e da química, é possível que um planeta possa produzir tamanha maravilha.


4. O tamanho importa
Neste episódio, Brian viaja ao redor da Austrália para explorar a física do tamanho da vida. Começando com os maiores organismos do nosso planeta, de florestas de árvores gigantes de eucalipto, para os mares, nos levando até o gigante do oceano – o grande tubarão branco. A partir da segurança de uma gaiola de aço, Brian explica como os distintos contornos simplificados do grande tubarão branco foram moldadas pela física da água.


5. Nosso lar
Até onde sabemos, existe apenas um lugar no universo em que a vida conseguiu se originar: a Terra. Mas por quanto tempo esta resposta vai permanecer insatisfatoriamente conclusiva? Os astrônomos estão à beira de encontrar outros mundos semelhantes à Terra. O professor Cox pergunta o que é necessário para transformar um pequeno pedaço de rocha no espaço em um ambiente com vida.

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[1] Outras séries do mesmo apresentador que merecem menção: Maravilhas do Sistema Solar, Maravilhas do Universo e Universo Humano.

Crédito da imagem: Google Image Search/BBC/Divulgação (Brian Cox)

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8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

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7.10.14

A Igreja da Alma do Mundo

Há um trecho do Alcorão, na Surah Al Falaq, que nos incita a dizer: "Refugio-me no Senhor da Alvorada contra o mal daquilo que Ele criou".

Ora, o mal é a ignorância do bem. Não chegamos a existência perfeitos em conhecimento, sabedoria ou moral, e portanto estamos lentamente, passo a passo, desenvolvendo nossas potencialidades, depurando nossa ignorância, nosso mal... Pela lógica, é impossível atribuir a maldade a ideia de Deus. No entanto, é logicamente plausível que exista mal "naquilo que Ele criou", e que esse mal seja exatamente o atestado da eficiência e do sentido do sistema da Criação: fôssemos criados perfeitos, seríamos autômatos, robôs programados para fazer o bem (e isto não seria "ser bom").

Acredito que não exista uma ideia mais bela do que a ideia de se deixar um princípio, uma semente de perfeição, aflorar e se desenvolver por si mesma, bastando o contato do sol para que floresça, e nada mais... É claro que o próprio conceito de "perfeição" encerra inúmeras complexidades. Até que ponto ela iria? Quando seria o suficiente? Quando estaríamos, enfim, aptos a ver Deus "face a face"?

Já disse o Rabi da Galileia que "um dia faremos tudo o que ele fez, e muito mais". E disse também que éramos deuses... Quem sabe esta "perfeição" não resida num ponto do caminho, mas no caminho em si, e no sistema que o possibilitou existir?

Portanto, Deus, ou o que quer que tenha imaginado o Cosmos, não é mal, e nem devemos supor que alguma maldade de sua parte seria justificada pela "justiça divina". A justiça não faz o mal, ela aplica remédios. Tais medicinas podem ser amargas, é bem verdade, mas elas visam tão somente a nossa cura, e a nossa religação ao caminho.

Não há médico, porém, que possa nos prometer ou garantir a cura, nem o mais santo dos santos. Somente nós mesmos podemos nos curar, mas existem diversos tratamentos. Algumas pessoas chamaram algumas dessas receitas de "doutrinas religiosas", mas fato é que a nossa verdadeira igreja reside mesmo é em nosso coração. É somente lá, na Igreja da Alma do Mundo, que as orações tomam forma, as mais belas formas de todo o universo...

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Crédito da imagem: Vorrarit Anantsorrarak

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8.2.13

Empédocles: Amor e Ódio

Empédocles, um filósofo pré-socrático [1], acreditava que o Cosmos era regido por duas forças primordiais: o Amor unia a tudo, e o Ódio afastava. Difícil dizer hoje o porque de ele haver usado especificamente estes termos, mas talvez ele tenha percebido um parentesco entre as forças naturais, externas a alma, e as forças da própria alma.

Ora, hoje sabemos que o que Empédocles chamou de Amor, a ciência chamou de Gravidade. E a cosmologia atesta que o espaço-tempo continua a se expandir. Seria pelo Ódio que os agrupamentos de galáxias se afastam umas das outras? Acredito que Empédocles apenas lamentava pelo tanto de gente que nunca iria conhecer, pois que estavam afastados tanto no tempo quanto no espaço.

Mas há ainda uma espécie de pensamento que pode reconciliar a todos, tanto os unidos na Gravidade, quanto os afastados no Ódio... Não há substância que possa haver criado a si mesma a partir do nada, e portanto tudo o que há, galáxias, planetas, filósofos e amantes, etc, tudo é parte desta mesma substância incriada, que existe exatamente porque o nada inexiste.

Dentro dela, estamos todos navegando. Estamos todos profundamente conectados, uns com os outros, em nossa essência mas primordial. Hoje, mesmo a cosmologia poderia responder a Empédocles: "através dos átomos, todos estamos conectados - o Ódio era ilusão, o Amor venceu ao tempo e ao espaço".

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[1] "O mundo evoluiu da água por processos naturais. Sobrevive aquele que está mais bem capacitado", concluiu cerca de 2460 anos antes de Darwin e Wallace. Conforme Wallace, porém, era reencarnacionista.

Crédito da imagem: Google Image Search

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5.2.13

Silas Malafaia, Eli Vieira e o "gene da homossexualidade"

Normalmente não me envolvo muito com "polêmicas de última hora" nas redes sociais, mas esta em específico merece uma reflexão mais aprofundada...

O que me preocupa nesta história da entrevista do pastor Silas Malafaia para a Marília Gabriela, e na (em boa parte brilhante) resposta do geneticista Eli Vieira a polêmica da "influência genética na homossexualidade", é que sabemos hoje que não há "gene da homossexualidade", e que pode ser muito perigoso crer que exista um. Vamos refletir um pouco:

(a) A hipótese da influência genética decisiva em qualquer tipo de comportamento humano, ainda que sexual, não é conclusiva e tampouco decisiva. Talvez um dia encontrem uma associação direta e decisiva entre algum gene ou grupo de genes e um tipo de comportamento, mas este dia ainda não chegou [1]...

(b) Crer que exista um gene assim nos força a considerar a hipótese de que há outros genes do tipo. Por exemplo, vamos citar um trecho do livro "Evolução em quatro dimensões", de Eva Jablonka e Marion J. Lamb (Companhia das Letras):

"O livro A natural history of rape [Uma história natural do estupro], de Thornhill e Palmer, é um exemplo perfeito desse gênero [de suposta determinação genética decisiva].
Eles não afirmam não ser possível sobrepujar a manifestação de um comportamento como a propensão ao estupro, mas sugerem que isso é muito difícil por se tratar de um comportamento embutido num módulo mental que evoluiu. Nem é preciso dizer que não existe nem sombra de evidências para essas alegações evolutivas. São apenas histórias inventadas".

Entenderam o problema? (Obs: as autoras também são geneticistas brilhantes).

(c) Genes não são como deuses, astros ou orixás, que supostamente influenciam nossa personalidade. Não são, mas é exatamente assim que alguns dos "adoradores da ciência" os veem (e ainda criticam os astrólogos).

(d) Os homossexuais não tem de se "desculpar" por sua homossexualidade. Não tem de explicar que "são assim porque nasceram com um gene alterado", etc. Homossexualidade não é doença, mas algo perfeitamente natural. Se não acredita em mim, lhe dou duas palavras-chave para pesquisar online: "bonobos" e "homossexualidade na Grécia antiga" (Obs: alguns dos homens mais sábios da humanidade viveram na Grécia antiga).

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[1] E, admito: torço mesmo para que nunca chegue. Se chegar, o próximo passo será a "terapia genética para dar fim ao mal da homossexualidade", ou vocês acreditam que não?

Vejam também:

» 3 chimpanzés (também sobre os bonobos)
» Levítico: pedras não faltarão

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Crédito da imagem: Divulgação (Silas Malafaia e Eli Vieira)

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30.4.12

Um efeito estranho, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 184 a 187. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Como vimos, várias linhas de comprovação demonstram que os fenômenos mentais alteram significativamente a atividade cerebral. Essas linhas incluem nossos estudos de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética Funcional) sobre observação emocional objetiva e o impacto da terapia comportamental cognitiva na fobia de aranha [1], além dos estudos de neuroimagens funcionais do efeito placebo. Os resultados dessa última série de estudos deixam bem claro que a atividade cerebral pode ser motivada pela crença e pela expectativa mental do paciente em relação a um tratamento médico proposto [2].

Para interpretar os resultados desses estudos, precisamos de uma hipótese que explique a relação entre atividade mental e atividade cerebral. A hipótese da tradução psiconeural [HTP] é uma delas. Postula que a mente (o mundo psicológico, a perspectiva da primeira pessoa) e o cérebro (que faz parte do chamado mundo “material”, a perspectiva da terceira pessoa) representam dois domínios diferentes em termos epistemológicos que podem interagir porque são aspectos complementares da mesma realidade transcendental.

A HTP reconhece que os processos mentais (tais como vontades, metas, emoções, desejos e crenças) são naturalmente demonstrados por exemplos no cérebro, mas afirma que não são idênticos nem podem ser reduzidos a processos neuroelétricos e neuroquímicos [3]. Na verdade, os processos mentais – que não são passíveis de localização no cérebro – não podem ser eliminados.

O motivo de não ser possível localizar os processos mentais dentro do cérebro é o fato de não haver nenhuma maneira de apreender os pensamentos apenas pelo estudo da atividade dos neurônios. O problema é semelhante ao de tentar determinar o sentido de mensagens em uma língua desconhecida (pensamentos) apenas pelo exame de seu sistema de escrita (neurônios). Seria necessária uma Pedra de Roseta para compará-las com o sistema de escrita de uma língua conhecida. Mas não existe tal pedra e, portanto, é impossível qualquer comparação [4].

Em consequência, a terminologia mentalista que descreve esses processos permanece absolutamente essencial para uma explicação satisfatória da relação entre a dinâmica cerebral e o comportamento humano. Ninguém jamais viu um pensamento ou um sentimento, mas eles exercem tremendo impacto em nossa vida. Além disso, segundo a HTP, os processos conscientes e inconscientes são automaticamente traduzidos em processos neurais nos vários níveis da organização cerebral (redes biofísicas, moleculares, químicas). Por sua vez, os processos neurais resultantes são depois traduzidos para processos e eventos em outros sistemas fisiológicos, como o sistema imunológico ou endócrino.

[...] Em termos metafóricos, podemos dizer que o mentalês (a língua da mente) é traduzido para o neuronês (a língua do cérebro). Por exemplo, pensamentos aflitivos aumentam a secreção de adrenalina, mas os felizes aumentam a secreção de endorfina [5]. Esse mecanismo de transdução informacional representa destacada realização da evolução que permite que os processos mentais influenciem causalmente o funcionamento e a plasticidade do cérebro. De certo modo, é como escrever nossas palavras faladas num sistema de símbolos que pode ser lido por outros a distância.

[...] Uma evolução biológica teleologicamente orientada (isto é, intencional, em vez de aleatória) permitiu aos seres humanos moldar, de maneira consciente e voluntária, o funcionamento de nosso cérebro. Em consequência dessa poderosa capacidade, não somos robôs biológicos governados por genes e neurônios “egoístas”. Um dos resultados é podermos, de forma intencional, criar novos ambientes sociais e culturais. Por meio de nós, a evolução se torna consciente, isto é, impulsionada não apenas por instintos de sobrevivência e reprodução, mas também por complexos conjuntos de percepções, metas, desejos e crenças [6].

Em minha opinião, as realizações éticas resultam do contato com uma realidade transcendental por trás do universo [7], e não apenas da multiplicação de neurônios no córtex pré-frontal do cérebro humano. Não se sabe com clareza se, por si mesmos, os neurônios desenvolveriam algum sistema ético.

Graças ao mecanismo da tradução psiconeural, os valores associados a determinada visão do mundo espiritual podem ajudar-nos a governar nossos impulsos emocionais e a agir de maneira genuinamente altruística [8]. Nesses casos, a consciência moral substitui a programação inata como reguladora de comportamentos. Por sua vez, a capacidade de comportamentos racionais e éticos liberta-nos dos primitivos mandatos do cérebro da classe dos mamíferos [9]. Tal liberdade é responsável pelo fato de que, embora o genoma seja o mesmo em todas as sociedades humanas, algumas culturas valorizam e fomentam a violência e a agressão, enquanto outras as julgam negativas e jamais as empregam.

Por sorte, muitas culturas também começaram a incentivar as pessoas a se mover além do senso de obrigação com os familiares ou grupo social para uma apreciação e compaixão por toda vida, sobretudo por outros seres humanos, porque podemos com muita facilidade identificar-nos com eles.

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[1] Citado em outro trecho do livro. Basicamente se trata de uma técnica para ensinar uma mente a, lentamente, abandonar sua fobia de aranhas. Sim, a terapia envolve muitos contatos diretos com aranhas, só que em condições estritamente controladas.

[2] Por muito tempo nada poderia ser feito objetivamente ante a alegação cética de que os espiritualistas “simplesmente fingiam experiências místicas”... Hoje, entretanto, as tecnologias de scanning cerebral têm comprovado, objetivamente, que gente como budistas e freiras carmelitas (neste último caso, incluindo um estudo do próprio Dr. Beauregard) não somente têm efetivamente tais experiências, como muitas das “redes de luzes” que se acendem em seus cérebros parecem fazer parte de um “reino místico”, reservado somente a certos tipos de experiências contemplativas.

[3] Ou seja, não se pode, ao observar a luz passando por um poste de luz, afirmar que aquele poste a gerou. Sabe-se que, num blecaute, nenhuma luz passaria por ali... Então, talvez, no caso do cérebro (e dos bilhões de postes de luz neuronais), esta usina oculta do pensamento também exista em algum território por ser descoberto.

[4] Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão. Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”. Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

[5] É impressionante como este fato extraordinário passa desapercebido pela grande maioria de nós, inclusive dos neurocientistas: pensamentos causam alterações fisiológicas que podem ser efetivamente medidas – logo, eles existem (objetivamente), e eles podem alterar nossa realidade corporal. Isto é um fato.

[6] A Natureza nos guiou na guerra da fome e da morte por bilhões de anos, mas a partir do momento em que nasce a consciência, em que o ser “desperta para si mesmo”, aparentemente a ascensão é repentina. Em apenas algumas dezenas de milhares de anos, estamos nós aqui, com o conhecimento e a tecnologia para efetivamente intervir na evolução de nossa própria espécieesperemos que para melhor.

[7] Algo que pode ter ocorrido mais cedo em nossa história do que muitos imaginam.

[8] Isso não é exclusividade de espiritualistas e religiosos, mesmo os céticos, os cientistas materialistas e os ateus podem ser altruístas. A ironia é que, mesmo em alguns casos não crendo que sequer possuem uma mente, é através dela que elaboram suas próprias ações altruístas.

[9] Embora obviamente seja uma liberdade parcial; Ainda que nossa vontade muitas vezes não subjugue o puro instinto animal, fato é que pelo menos em algumas vezes a vontade vence – e a liberdade de escolha, de fato, existe!

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Crédito da foto: learnpure.com

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9.2.12

3 chimpanzés

Incrustados no meio da África vivem os animais que mais se assemelham aos seres humanos em termos genéticos. Compartilhamos aproximadamente 98 a 99% de seu DNA, e ainda assim somos muito distintos, principalmente devido as formidáveis capacidades do órgão que trazemos dentro da cabeça. Mas, será que somos tão diferentes assim?

Os chimpanzés se separaram do tronco evolutivo de nosso misterioso ancestral comum por volta de 4 a 7 milhões de anos atrás, talvez até mais. São animais que costumam andar pelo solo, embora ainda usando as mãos como apoio, e se alimentam, sobretudo, de frutas, folhas, sementes e pequenos animais que cruzam seu caminho. Durante os dias, nas planícies africanas, podem ser vistos nos galhos das árvores, aproveitando a sombra e mordiscando frutas... Como nós, são animais sociais, que vivem em grupos de apenas uns 5 até mais de 100 indivíduos. Aparentemente possuem culturas diferentes, dependendo da região em que habitam, e são capazes de ensinar técnicas rudimentares de uma geração a outra: uso de gravetos para extração de cupins de um cupinzeiro; uso e fabricação de pedras específicas, usadas como ferramenta para quebrarem sementes e frutos; e até mesmo ferramentas adaptadas para caça de pequenos mamíferos, algo bem mais raro.

Olhar os chimpanzés pode às vezes parecer uma experiência que transcende nossa espécie e nosso tempo: de certa forma, olhamos para aquilo que fomos, ou algo muito próximo, há milhões de anos atrás. Por exemplo, às fêmeas chimpanzés possuem hábitos mais solitários, passando a maior parte do tempo sozinhas. Nesses grupos, os machos dominantes exercem seu poder através de pura agressividade, sobre as fêmeas e os outros machos mais jovens ou fracos. Nesse sentido, a vida sexual dos chimpanzés não difere tanto assim da de outros primatas, como os gorilas, e nesse ponto o ser humano parece se distinguir totalmente: afinal, fazemos sexo não apenas para procriação, mas também e, principalmente, por prazer, e por amor...

Os estudiosos perceberam apenas em 1928 que os bonobos formavam uma família diferente dentro da espécie dos chimpanzés, com um comportamento muito peculiar, em que o sexo está em primeiro lugar, funcionando como substituto da agressividade. O bonobo é um dos raros animais para quem não existe relação direta entre sexo e reprodução. Ou seja, como os humanos, eles fazem mais amor do que filhos. Ao contrário da maioria dos primatas, a sociedade dos bonobos é dominada pelas fêmeas e não pelos machos.

Estudiosos como o antropólogo Richard Wrangham – autor de Demoniac males [1] – especulam que isso ocorreu pelo fato de, entre os bonobos, os vínculos mais duráveis se estabelecem entre as fêmeas, que passam grande parte do tempo em atividades sociais ou em brincadeiras sexuais. Wrangham acredita que essa organização social é resultado do tipo de alimentação desses macacos, que se adaptaram a comer frutos e pequenos animais, como os chimpanzés, além de folhas e raízes, como os gorilas. A facilidade de obter alimentos desestimulou o desenvolvimento da agressividade dos machos, mas incentivou as alianças entre as fêmeas. Essas alianças acabam resultando em mais poder para quem as estabelece.

Mas a “sociedade matriarcal dos bonobos” só se torna efetivamente possível porque, ao contrário da maioria das fêmeas de outras espécies, que só são receptivas ao sexo no período fértil, às fêmeas bonobos são atrativas e ativas sexualmente durante quase todo o tempo. Além de intensa atividade sexual com seus parceiros, em que tomam a iniciativa, elas simulam relações com outras fêmeas – é justamente através do sexo que estabelecem as alianças entre si. Os machos também participam dessa espécie de homossexualismo light. As atividades eróticas dos bonobos compreendem ainda sexo oral, masturbação mútua e beijos de língua.

Um dos “inconvenientes” da sociedade dos bonobos é que incestos e pedofilia são relativamente comuns... Isso parece ter sido motivo suficiente para muitos ditos cristãos demonizarem a espécie inteira, como se outras espécies também não praticassem incesto e pedofilia (e coisas muito piores). Na verdade, o problema com os bonobos é que eles fazem sexo, muito sexo, e nisso lembram a nós mesmos. Como sabemos, por muitos séculos, principalmente na Idade Média, o sexo foi considerado sujo, condenado e sentenciado as trevas... Mesmos nos dias atuais, em que o ímpeto sexual humano parece explodir de forma descontrolada, como rio há muito tempo represado, que finalmente rompe a represa, ainda há muita gente “conservadora e religiosa”, que abomina a visão de uma sociedade humana se parecendo com uma sociedade de bonobos.

Mas, será que temos lembrado mais os bonobos ou os chimpanzés? É preciso lembrar que para os bonobos o sexo é um elemento central de redução da agressividade nas relações entre os indivíduos. Embora já tenham sido registrados casos até mesmo de canibalismo entre os bonobos, estes são raríssimos – os bonobos, quando comparados aos chimpanzés, seriam uma sociedade de gandhis e madres teresas, ao menos no quesito agressividade. Nós, humanos, entretanto, temos sido ainda mais agressivos que os chimpanzés, com nossa própria espécie, com as outras, e com o meio ambiente como um todo.

Alguns nos chamam de “terceiro chimpanzé” [2], mas é óbvio que, ao mesmo tempo em que estamos conectados a todas as outras espécies na árvore da vida, temos uma diferença imensa de todas elas: a consciência humana, única em sua racionalidade e espiritualidade. Os chimpanzés fazem parte dos poucos animais que conseguem se reconhecer no espelho, e sob muitos aspectos parecem mesmo conosco, mas foi exatamente a nossa imensa inteligência que possibilitou que, dentre outras coisas, destruíssemos seu habitat natural até que entrassem na lista de espécies ameaçadas de extinção, da qual dificilmente sairão um dia... Não, nós não temos sido primatas promíscuos, que fazem sexo a torto e a direito, nós temos sido algo muito pior do que isso: primatas dominantes sedentos por territórios e recursos naturais, que não expulsam os outros primatas de seus territórios natais com grunhidos e intimidação, mas com fogo, pólvora, bombas e estranhas doutrinas religiosas.

O sexo humano pode sim se desencaminhar para a promiscuidade total, a pedofilia e outras bizarrices, mas ainda assim, na “escala de escuridão” em que os ditos cristãos o colocaram, ainda está muito, muito mais próximo da luz do que a agressividade, a intolerância e o fanatismo. Não foram os bonobos quem enviaram bombas atômicas para cidades de nações rendidas, ou adolescentes com bombas na cintura para se explodirem em mercados e praças públicas, não foram nem mesmo os chimpanzés – foram nós, os humanos.

Porém, ainda assim é tarde para ser pessimista: enquanto este mundo tem girado em torno de uma pedra ardente, de alguma forma as consciências dos homo sapiens tem despertado, uma a uma, e se dado conta de que estamos aqui não para sobreviver e domesticar a Natureza, mas, pelo contrário: para viver, e exaltar esta mesma força da vida que nos deu os chimpanzés e os bonobos, e todos os outros seres desta Terra, não através de um decreto divino, mas através de um mecanismo divino que tem evoluído ao longo das eras nas formas mais belas e surpreendentes; e do qual é o sexo, não a agressividade, o grande motor.


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[1] Apenas um título infeliz (“Machos demoníacos”) para um livro onde ele e o jornalista Dale Peterson discutem as semelhanças e diferenças entre chimpanzés, bonobos e seres humanos.

[2] Numa alusão aos outros dois chimpanzés: o chimapanzé-comum (Pan troglodytes) e o bonobo (Pan paniscus).

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» Veja também: 3 chimpanzés: um complemento

Crédito da foto: Fiona Rogers/Corbis (nem queira saber...)

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