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19.10.09

Livro: A Evolução Desconhecida e outras reflexões

Coletânea dos artigos de Rafael Arrais no livro A Evolução Desconhecida e outras reflexões

Conforme prometido, comemorando os 3 anos deste blog, acaba de ser lançado o livro "A Evolução Desconhecida e outras reflexões" - uma coletânea com os melhores artigos publicados por Rafael Arrais nesses 3 anos. Clique na imagem para ir até o site e baixar o livro gratuitamente em PDF!

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13.10.09

Oferendas ancestrais

O bipedalismo, ou seja, a capacidade de se andar apenas com dois membros, e não com quatro, é uma característica desenvolvida por pouquíssimos animais ao longo da evolução das espécies. Como se sabe, um desses animais é o homo sapiens. Segundo a teoria de Darwin-Wallace, o homo sapiens evoluiu a partir de um ancestral comum com o chimpanzé, ou pelo menos esta era a teoria mais aceita até alguns anos atrás. Uma outra teoria acerca da evolução humana postulava que o bipedalismo foi desenvolvido sobretudo quando os humanos arcaicos, ancestrais do homo sapiens, abandonaram as regiões africanas de densas florestas e se aventuraram nas pradarias, onde a capacidade para arrancar frutos e carregar comida e armas de caça seria, talvez, mais importante do que a velocidade e equilibrio conferidas pelo andar em quatro patas, o que seria muito mais útil para se fugir de predadores.

No entanto, descobertas da arqueologia nas últimas décadas tem colocado em xeque tais teorias. Particularmente a descoberta do esqueleto de Ardi (ardipithecus ramidus) encontrado em 1992. O esqueleto demorou três anos para ser escavado pela equipe do Projeto Médio Awash, em Aramis, na Fenda de Afar, Etiópia. Sua reconstrução foi realizada por dezenas de cientistas de todo o mundo, sendo que atualmente a liderança dos estudos está em mãos de Tim White. Ele trabalha com Paleontologia e Arqueologia Paleolítica na África desde 1974, sendo professor de biologia da Universidade da Califórnia em Berkley e codiretor do projeto que atuou na retirada do achado.

Após mais de uma década de análises minuciosas, as conclusões finais dos arqueólogos e cientistas envolvidos foram finalmente publicadas na revista Nature de Outubro de 2009. A datação de Ardi como tendo vivido a 4,4 milhões de anos, e sua combinação única de bipedalidade indiscutível com os dentes molares pequenos, assim como a curiosa semelhança dos pés com os pés de outros símios, capazes de agarrar objetos com as mãos, lança muito mais dúvidas do que certezas no estudo dos cientistas.

Primeiro, fica comprovado que o "elo perdido", ou a espécie ancestral que o homo sapiens teria em comum com outros símios, teria vivido há muito mais tempo do que antes se imaginava, há pelo menos 7 milhões de anos. Isso levanta a curiosa hipótese de que os chimpanzés evoluíram por muito mais tempo após terem se "dissociado" de nosso galho evolutivo. Nesse sentido, é possível que muitas características dos chimpanzés sejam exclusivas deles, e nunca tenham estado realmente presentes em humanos arcaicos.

Mas a questão mais curiosa é que, além da bipedalidade ter se desenvolvido há muito mais tempo do que antes se imaginava (sabe-se também que ela ocorreu milhares de anos antes do aumento e evolução do cérebro humano), estudos da região onde Ardi foi encontrada comprovaram que, em sua época, há mais de 4 milhões de anos, aquela região da Etiópia era cercada por densas florestas! Isso significa que a ciência precisa arranjar uma nova e arrojada explicação para o motivo dos humanos arcaicos teremos evoluído para a bipedalidade e os caninos menores, ainda milhares de anos antes de desenvolverem a cognição peculiar da mente do homo sapiens.

Uma das hipóteses que mais me agradaram foi a descrita no documentário da Discovery Channel. Segundo essa teoria, o bipedalismo e a redução dos dentes caninos foi acompanhada das primeiras convenções sociais entre os caçadores-coletores. As fêmeas passaram a preferir machos menos agressivos, e passaram também a trocar sexo por comida, além de se comprometerem por mais tempo com a "educação" dos filhos. Isso favoreceu nos machos, e consequentemente em toda a espécie, o bipedalismo: assim poderiam se deslocar por distâncias maiores, e carregar oferendas (pequenos pedaços de comida, sejam frutos ou carne de animais abatidos) por sexo. A redução dos caninos talvez indicasse que os machos não precisavam mais competir agressivamente pelas fêmeas, e que a troca de carinho (sim, talvez pudéssemos usar esta palavra) era mais reconfortante e necessária, então, do que as lutas sangrentas pelo direito de copular com as fêmeas.

Será que isso faz sentido? Será que nossas convenções sociais, nossa organização em famílias de indvíduos, tem uma origem ancestral, bem mais antiga até do que nossa cognição avançada?

Hoje se sabe que o altruísmo é uma forma de evolução da espécie. Grupos de indivíduos capazes de colaborar entre si tem maiores chances de sobrevivência do que indivíduos solitários que caçam sozinhos. Sim, eles tem maior reserva de alimento, mas muito menos proteção contra outros predadores, e contra a própria solidão da vida selvagem... Caso possamos fazer uma associação entre o altruísmo e o que o homem moderno chama de amor, talvez o estudo científico da evolução humana nos traga lições muito mais profundas do que a mera compreensão do mecanismo pelo qual nossos corpos evoluíram. Talvez compreendamos que não foram apenas dentes que deixaram de ser pontiagudos, ou mãos que passaram a ser capazes de produzir ferramentas especializadas, mas antes a evolução social que potencializou nossas chances de sobrevivência, e nos tornou a espécie dominante deste planeta.

Talvez, as oferendas ancestrais de humanos arcaicos em troca de sexo, dando origem aos rudimentos do que hoje chamamos de família, tenha sido o momento-chave que possibilitou toda a evolução seguinte. Afinal, a partir do momento que deixamos de rastejar junto ao solo, buscando comida e sobrevivência, e passamos a andar eretos, e a enxergar as estrelas no céu, e os olhos e a face de nossos semelhantes, possivelmente tenhamos passado a desenvolver o rudimento da consciência de nós mesmos, e do que afinal viemos fazer nesta terra.

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Crédito da imagem: J.H.Matternes

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2.8.09

Reflexões sobre a reencarnação, parte 3

continuando da parte 2...

Terminarei esta série de artigos considerando algumas peculiaridades da crença na reencarnação, e talvez consiga mostrar como mesmo os reencarnacionistas nem sempre pensam na vida sob esta ótica mais "abrangente".

Toda e qualquer idade

Na linguagem vulgar, um adulto é um ser humano que é considerado pelos restantes como tendo atingido uma idade que lhe permite contrair casamento e, em geral, realizar outras ações que são restritas a esses indivíduos. A definição legal de entrada na idade adulta varia entre os 16 e os 21 anos, dependendo da região. Algumas culturas africanas consideram adultos todos os maiores de 13 anos, mas a maior parte das outras civilizações enquadram essa idade na adolescência. Aqui está resumida a questão principal pela qual as pessoas insistem em classificar umas as outras pela idade; É uma questão sobretudo de padronização social, as pessoas gostariam muito de poder classificar umas as outras pelo tempo em que estão pelo mundo: "esta já pode casar", "aquela já pode trabalhar", "aquela outra já pode se aposentar". Nada mais lógico, de fato esse tipo de classificação ajuda muito na organização da sociedade em geral... Mas, será que ela é realmente determinante sobre o que uma pessoa estaria ou não apta a realizar, ou sobre o que uma pessoa deveria ou não ter a liberdade de fazer?

Sabemos, decerto, que um ser humano tem sua personalidade mais ou menos formada na época em que é considerado adulto. Isso, porém, talvez não seja verdade em algumas culturas africanas - talvez com 13 anos uma personalidade não esteja ainda muito bem formada. Será? Quem pode dizer?

Este é um dos mistérios que a ciência ainda não alcança. Porque uns levam décadas para atingir seu potencial cognitivo, não muito acima ou abaixo da média geral, enquanto outros praticamente "nascem sabendo", tem idéias inatas, "relembram" as coisas - ao invés de as aprender, apenas as reaprendem. Lembro que não pretendo convencer ninguém, mas para quem já acredita na reencarnação, tais exemplos são evidentes, de fato tão evidentes quanto um elefante andando no corredor de um shopping: impossível não ver. O que são então crianças, adolescentes, adultos, idosos? São espíritos milenares habitando corpos com maior ou menor tempo de decomposição. A cada dia que passa, os corpos morrem, e os espíritos se desenvolvem em suas potencialidades, desde que estejam administrando bem suas próprias existências.

Como dizia Gibran: "vossos filhos não são vossos filhos, são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma". É evidente, corpos geram corpos, mas espíritos foram gerados há muito mais tempo. Toda e qualquer potencialidade, desde a capacidade de respirar de modo inconsciente até a capacidade de, conscientemente, controlar a própria respiração a níveis refinadíssimos, foram construídas, desenvolvidas, desveladas pelo próprio espírito a navegar pelo turbilhão de eras cósmicas. Se um Mozart tem "facilidade" para a música, isso decerto não foi um "dom divino" nem uma "configuração fortuita de partículas no cérebro" - que Deus não distribui "dons" a bebês que por ventura lhe pareçam mais simpáticos a cada dado nascimento, assim como não é de uma combinação aleatória de partículas que este nasce um gênio e aquele um néscio. É o espírito milenar quem toca as teclas do cérebro, quem comanda a sinfonia do corpo, quem orquestra a valsa de sua própria vida.

E, perto de tantas vidas, perto de tantas eras e civilizações dos homens, o que é a idade senão um número que consta em um registro de cidadãos de algum país? Talvez mais uma informação "relevante" para as revistas de celebridades...

Aliás, o que diabos é um país? Quem já viu uma fronteira? Se viu, por acaso fotografou, tem a prova? Até agora as únicas "fronteiras" que eu vi me pareceram mais como muros e grades com tamanhos variados, frequentados por homens de farda e outros que creem piamente que uma barreira de pedras pode separar um homem de outro. Então os homens cercados por muros acreditam que todos aqueles que estão "de um lado do muro" pertencem a um mesmo grupo, e devem torcer para a mesma seleção de futebol, e cantar o mesmo hino, e venerar a mesma bandeira... Todos os que estão "do outro lado do muro" podem ser inimigos, não fazem parte do mesmo grupo, e muitas vezes o comandante de um grupo irá até mesmo convencer alguns de seus membros a invadir o muro alheio, e matar qualquer outro homem fardado (isto é, com a farda estrangeira) que por ventura se interponha em seu caminho.

Mas o passado é uma nação estrangeira. A história foi escrita pelos vencedores das guerras por fronteiras ilusórias dentro de uma mesmo pedaço de pedra chamado Terra... Quem será que pode nos trazer a visão da história dos perdedores de guerras? Dos mutilados por hordas de bárbaros e dos torturados por não aceitarem os dogmas de fé? Talvez, nós mesmos. Que o vento do espírito sopra onde é enviado por seres com muito mais conhecimento e sabedoria do que nós. Ora podemos ser o invasor, ora o invadido. Ora aquele que mata, ora aquele que morre. Desde épocas já esquecidas pelos livros de história, o próprio sistema da natureza, e sua Lei de Causa e Efeito, tenta nos passar uma mensagem adiante - todos somos espíritos.

Qual minha nacionalidade? O Cosmos. Qual minha raça? Um corpo de alguma espécie adequada a potencialidade de meu espírito. Qual minha idade? Milhares, milhões de anos, quem sabe. Qual o meu time de futebol? Torço para o time dos filósofos gregos. Sim, estou apenas querendo fazer você refletir sobre como são relativos tais conceitos...

A lógica da reencarnação nos traz uma visão muito mais abrangente da existência, mas não me parece que ainda tenhamos uma compreensão plena dela. Em suma, não a vivemos em plenitude. Reflita sobre isso, quando se pegar pensando que "está ficando velho", ou que não deveria mais frequentar este ou aquele lugar, ver este ou aquele filme, ler este ou aquele livro, por não serem adequados a sua idade. Que é idade? Que conceito é esse que nos tortura? A natureza nos presenteia a cada dia, diante de nossos olhos pouco atentos, uma imensidão de ciclos de mortes e renascimentos. Não existe vida sem morte, nem morte sem vida, mas a vida é atemporal, um caminho do qual não vemos o final, e a morte é apenas um momento que se repete algumas vezes durante o longo percurso. Diante dessa infinitude de vidas e de seres, toda e qualquer idade não poderia ser nada mais do que a idade em que o ser se coloca, a idade que ele acredita ter.

Ó reencarnacionista, qual é a sua idade... De verdade?

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Crédito da foto: jakza

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27.7.09

Reflexões sobre a reencarnação, parte 2

continuando da parte 1...

A Lei de Causa e Efeito, em filosofia, parte da definição de que "nenhum efeito é quantitativamente maior e/ou qualitativamente superior à causa". Segundo as doutrinas espiritualistas, é um conceito que determina que todo ato moral ocasiona uma resposta da natureza, que mais cedo ou mais tarde "retornará" a quem o efetuou - ou, em outras palavras, "cada um colhe o que plantou".

Pela dor ou pelo amor

Eu dizia que a reencarnação não opera a esmo, e de fato a compreensão da Lei de Causa e Efeito é a essência da compreensão da reencarnação. Primeiramente, é preciso diferenciar a Lei de Causa e Efeito do conceito de Karma: enquanto que normalmente o conceito de Karma sugere uma dívida a ser resgatada, a Lei de Causa e Efeito nos apresenta a idéia de que o futuro depende das ações e decisões do presente. Uma causa positiva gera uma efeito positivo, enquanto que uma causa negativa gera um efeito igualmente negativo. Ou seja, a compreensão do Karma vem muitas vezes associada a conceitos como "punição divina" ou "destino", como se só houvesse uma forma de purificar nosso espírito: pelo sofrimento e pela quitação de dívidas morais pregressas. Já a Lei de Causa e Efeito é mais abrangente e, principalmente, mais fluida: somos nós, e somente nós, os construtores de nosso próprio destino. Nada está escrito em pedra, nenhum evento infortuno é absolutamente inevitável, pois pela mesma via com que contraimos débitos para com a harmonia de nossa própria consciência, poderemos saldar com créditos. Evolui-se pela dor, isso é certo; Mas também evolui-se pelo amor, e isso depende de nossa vontade.

Acredito que seja mais simples ilustrar tal conceito com uma alegoria. Não cabe a nós julgar o porque do sofrimento alheio, disso só mesmo sabe o próprio ser que sofre, e o Deus onisciente, mas como se trata de uma alegoria, queiram desculpar-me.

Imaginemos um padre inquisidor na época medieval que, por sua crença cega, tenha enviado inúmeras pessoas inocentes para a morte na fogueira, por acusações de "bruxaria"... Certamente este espírito que acreditava ser "extremamente religioso" há de ter tido uma inesquecível desilusão quando compreendeu o resultado de seus atos com a consciência plena, seja ainda antes de desencarnar, seja após a morte. Ignoremos o tempo que tal espírito tenha passado em confusão mental ante a própria nebulosidade de sua consciência; Passemos os séculos adiante e imaginemos que tal espírito, após muito vagar a esmo pela escuridão de sua alma, tenha refletido e compreendido a extensão macabra de seus atos pregressos, e neste momento esteja por decidir (certamente com o auxílio de espíritos superiores em moral) quais eventos deseja vivenciar em sua próxima encarnação, com o objetivo de se depurar, de purificar as chagas de sua alma o mais breve possível...

Eis que os espíritos superiores lhe oferecem duas opções (lembremos que isto é tão somente uma alegoria): morrer em um incêndio, da mesma forma que matou tantos inocentes nos séculos passados, ou ser um médico da Cruz Vermelha, passando a vida a atender queimados em guerras e nas regiões mais inóspitas e pobres do planeta, sem no entanto padecer de uma queimadura sequer durante toda uma vida... O que você escolheria? Morrer queimado, porém sem muito esforço ou responsabilidade pela própria melhora, ou passar toda uma vida praticando caridade, convivendo com o sofrimento alheio e auxiliando da melhor forma possível?

Obviamente que qualquer homem são escolheria a segunda opção. O problema, no entanto, é que não basta escolher simplesmente, é preciso arregaçar as mangas e efetivamente praticar a caridade. Oh, e quantos, quantos de nós temos falhados miseravelmente em cumprir aquilo que prometemos aos seres de luz. Em tão somente amar e tomar as rédeas de nossa vida, enquanto tantos outros se limitam a passar pela vida como um barco de papel a flutuar pelo mar. Mas eis que, quando somos postos à prova, preferimos a acomodação, o fascínio de nosso próprio ego, as promessas vãs da matéria que nada mais é do que fumaça condensada, a transformar-se eternamente.

Os estóicos diziam que devíamos nos preocupar somente com aquilo que podemos modificar. Não podemos mudar as leis naturais nem o ânimo dos homens cegos, mas podemos compreender as leis naturais e agir à seu favor - e podemos servir de auxílio para todos aqueles que seguem ainda cegos pelas estradas milenares. Mas os estóicos sabiam: nosso problema é com nós mesmos, é com nossa própria consciência. Nós somos nosso próprio mal, e não poderia ser de outra forma...

Certamente a linguagem poética e alegórica não irá agradar aqueles que desejam, meticulosamente, avaliar a Lei de Causa e Efeito como quem calcula a velocidade de um objeto arremessado pelo ar. Mas não é pela razão pura que a compreenderemos: necessitamos do auxílio da intuição... Será que podemos perceber, em nossa consciência, quando tomamos atitudes que vão contra a harmonia da natureza? Pratiquem! Será que podemos aprender, tal qual a criança no jardim de infância, a fazer caridade, talvez simplesmente por dar o primeiro passo, e visitar algum asilo ou pediatria? Pratiquem! Será que podemos olhar para trás e, analisando as escolhas de nossa própria vida, refletir sobre aquelas que nos trouxeram as recompensas realmente profundas, a sabedoria verdadeira? Pratiquem!

Já foi dito que não há lei além de faz o que tu queres, e que sob a vontade, o amor é a lei... Nada poderia resumir melhor, talvez, a Lei de Causa e Efeito. Não se trata de ajustar as contas com um deus-que-pune-pecados, nem tampouco sofrer egoisticamente circundando a própria culpa, mas sim ter a coragem, o ânimo e a vontade para se colocar novamente de pé e encarar, frente a frente, as próprias faltas. E tomar o remédio amargo para a melhora. Amargo, sim, mas que não deixa de ser remédio. Escolher, na medida em que conquista cada vez mais sabedoria, o caminho do amor e da caridade, e não o da dor e da tragédia. Mas sobretudo compreender que, por bem ou por mal, pela dor ou pelo amor, caminha-se sempre a frente!

À seguir, irei discorrer sobre algumas peculiaridades da crença na reencarnação, como por exemplo "não acreditar em idade"... Será que somos realmente reencarnacionistas?

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Crédito da foto: jackosak

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9.7.09

Reflexões sobre a reencarnação, parte 1

Esta série de artigos sobre reencarnação não irá se preocupar em demonstrar evidências de que a reencarnação é uma lei da natureza. Ao invés disso, irei falar sobre aspectos da reencarnação, e da crença na reencarnação, que geralmente não são muito abordados, embora mereçam - na minha opinião - uma reflexão mais cuidadosa. Se você procura por evidências da reencarnação, irá encontrar outros posts neste blog que tratam do assunto. Vale dizer, é claro, que esta série de artigos tampouco se propõe a convencer ninguém acerca da realidade ou irrealidade da reencarnação.

Potencialidade e personalidade

O reencarnacionismo é uma crença que data dos primórdios das civilizações egípcia e orientais, estando entre nós a bastante tempo. Não é muito complicado compreender o princípio básico da reencarnação: somos espíritos que habitam corpos durante o período em que estão aptos a receber um espírito; Quando as leis naturais fazem com que o corpo humano não consiga mais sustentar a vida orgânica, o espírito então se desliga, pois de nada lhe adiantaria continuar habitando um cadáver. Por analogia, é simples compreender se pensarmos em um distinto senhor que troca de roupas toda a vez que elas estão gastas e puídas - não lhe convém comparecer ao trabalho, ou a alguma festa, com uma roupa inapropriada. Da mesma forma, espíritos trocam de corpos como este senhor troca de roupas. Porém, lembremos que isso é apenas uma analogia. Importante é, entretanto, lembrar que não há nada de sombrio na morte do corpo: é exatamente ela que permite a vida. Sem morte física não existiria vida física, pois no universo tudo está em constante mudança, e o sistema da natureza é todo encadeado em sutis e elegantes leis de causa e efeito. O que não tinha vida, no entanto, continuará não tendo: o espírito sopra onde é chamado, e habita os corpos e orbes que o seu nível de evolução, a sua potencialidade espiritual, lhes permite.

Há muitos espiritualistas que creem que o espírito é imaterial, mas isso não parece ser a verdade, ou pelo menos não é o que os espíritos dizem. Através da codificação do célebre Livro dos Espíritos, na pergunta #82 formulada por Kardec, temos a resposta de que os espíritos são incorpóreos (não possuem um corpo fisico), mas não imateriais, pois que tudo é formado por matéria; Muito embora a matéria que forme o espírito seja fluida, e ainda não detectada pela ciência (talvez porque não interaja com a luz, à semelhança de aproximadamente 96% da matéria do universo, segundo postula a teoria da Matéria Escura).

Também há muitos desinformados que atribuem a reencarnação crenças anedóticas como, por exemplo, a possibilidade de reencarnarmos em um porco, ou uma vaca, ou um inseto, etc. É verdade que a metempsicose postula sobre essa possibilidade, mas não a rencarnação. A reencarnação está associada a evolução, e também a simetria das leis da natureza, que são as mesmas por todo o Cosmos. Nesse sentido, a teoria de Darwin-Wallace é de vital importância para o reencarnacionismo. Assim como faz todo sentido dizer que ramos científicos como a biologia perderiam todo o sentido sem a teoria da evolução das espécies, o mesmo pode ser dito em relação ao reencarnacionismo. De fato, não é à toa que um dos criadores desta teoria era reencarnacionista e espiritualista. Ora, isso porque os espíritos não reencarnam somente entre o homo sapiens, mas vem necessariamente reencarnando desde a formação da vida na Terra, por milhões e milhões de anos e encarnando em milhares de espécies. Ocorre que, apenas no estágio em que os espíritos adquirem a capacidade de se reconhecerem como indivíduos, é que estarão aptos a habitar corpos de espécies onde o cérebro lhes permitirá ter um processo de consciência mais elaborado. Porém, segundo o espiritualismo, não é o cérebro quem gera a consciência, mas o espírito quem comanda o cérebro, e o corpo, através do processo de consciência.

A reencarnação não trata, portanto, apenas do homem, e apenas da Terra, mas sim de todos os seres vivos da natureza, na Terra e em outros planetas onde haja vida. Ou seja: o que tem vida, o que vivifica os corpos orgânicos, terá sempre vida. E o que não tinha vida, o que era só o corpo, continuará em seu ciclo natural. Como dizia Lavoisier, "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Ora, a vida é o que evolui, o que se transforma de forma não-entrópica, o que organiza a matéria. Aquilo que não tinha vida é o que continua a ser jogado para cá e para lá pelo turbilhão da natureza em seu movimento eterno, como a poeira estelar que possibilitou o surgimento da vida orgânica em nosso planeta.

Há que saber diferenciar, no entanto, potencialidade de personalidade.

Personalidade é tudo aquilo que distingue um indivíduo de outros indivíduos, ou seja, o conjunto de características psicológicas que determinam a sua individualidade pessoal e social. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo e único para cada indivíduo. O termo deriva do grego persona, com significado de máscara, que designava a "personagem" representada pelos atores teatrais no palco. Todos somos chamados a construir nossas personalidades, a vida em sociedade pede isso. A questão está em saber diferenciar nossa essência espiritual da máscara construída por nossa mente - a máscara para a alma. Não é culpa da mente que tenhamos que usar essas máscaras, isso também é algo que faz parte da evolução natural dos seres. Ora, todo ser que se reconhece como indivíduo passa a ter a necessidade de construir este indivíduo, de saber como diferencia-lo, como representa-lo e apresenta-lo para os outros. Ocorre que muitos de nós não estão à altura do desafio, não conseguem suportar a angústia de encarar a si próprios, de elaborar da melhor forma possível os seus próprios medos, incertezas, sua moral, etc. Então torna-se mais simples apenas seguir um padrão social, e ao invés de elaborar nossa personalidade por nós mesmos, copiar aquelas que são mais aceitas no mercado da sociedade.

O problema é que nossa essência é única, diz algo somente a nós próprios, necessita de aprendizagem que outros não necessitam, e é capaz de fazer o que outros não fazem. Copiando a máscara alheia, é capaz de termos sérios problemas. O nariz pode apertar e não permitir que respiremos direito, o material pode incomodar a pele e fazer coçar até ferir, o elástico pode arrebentar e nos deixar expostos sem uma máscara para nos proteger... Ora, máscaras são necessárias, mas somente até que compreendamos que tudo o que somos realmente é nossa essência espiritual - aí então não precisaremos mais delas, e saberemos viver a vida em paz, enxergando em todos que cruzam a nossa frente a fagulha divina de espíritos antigos, arqueados em exaustão de tanto rodar pelas trilhas das encarnações terrenas.

As personalidades são como máscaras que usamos de encarnação em encarnação, são mais caras para nós do que nosso corpo, porém tão dispensáveis e passageiras quanto ele. Eis que trocamos de máscaras como trocamos de roupa. Já a potencialidade é diferente: ela está sempre caminhando à frente, é ela o sentido de termos de viver por tanto tempo, através de tantas vidas e tantas histórias que nos parecem ainda absolutamente disconexas. Amala e Kamala foram duas crianças selvagens achadas a oeste de Calcutá, na India, em 1920. Elas foram aparentemente abandonadas na floresta ainda bebês e foram criadas por lobos. Enquanto estiveram entre os homens, não se comportaram de forma muito diversa dos lobos - andavam com as mãos no chão, comiam carne crua, não sabiam pronunciar as palavras mais simples, etc. O cético irá pular de alegria e ver aí, sem muita reflexão, a prova de que o espírito sequer existe... Mas, analisando de forma mais profunda, alguns talvez compreendam que se tratam de potencialidades não despertas.

Ora, um homo sapiens criado por lobos talvez nunca seja muito mais do que um lobo, mas será, cognitivamente, pelo menos um ser do mesmo nível de um lobo. Já o inverso seria impossível: um lobo jamais chegaria ao nível de cognição dos homo sapiens, mesmo que seja educado e treinado pelos melhores adestradores de animais... Isto porque a potencialidade do espírito do lobo não se compara a potencialidade do espírito de um homem. Potencialidade cognitiva, ética, de nível de consciência e raciocínio, etc. Não sejamos ingênuos, mesmo Mozart nunca teria sido gênio se não houvesse sido apresentado a um piano ainda quando criança, imaginem então se houvesse sido também criado por lobos. As leis da natureza valem para todos, se o cérebro em nossa infância não é estimulado da maneira correta, há muito pouco que possamos fazer depois. O espírito necessita despertar suas potencialidades através da interação simbólica, intuitiva, interpretativa e amorosa com o mundo que o cerca. Se isso não ocorre, o cérebro físico não se desenvolve, a personalidade defeituosa não possibilita que a individualidade se manifeste, e a potencialidade da alma permanece adormecida, esperando uma nova oportunidade.

Não existem atalhos neste caminho: todos temos, invariávelmente, que trilha-lo, passo a passo, vida a vida; Sempre em busca do maior desenvolvimento dessas potencialidades da alma, que se manifestam através do corpo mas não fazem parte do corpo, e que não estão em DNA algum. Entretanto, Deus não nos criou princípios inteligentes e nos largou a esmo no Cosmos, ora encarnando na secura das tribos nômades do Quênia, ora no aconchego de uma distinta família burguesa da Suécia, ora perfeitamente saudáveis, ora com doenças que limitam nossas vidas a poucos dias de vida... Não, a reencarnação não é algo que se opera de forma aleatória, ela obedece a leis bastante específicas. Sem seu correto entendimento, é talvez impossível compreender a profundidade e a lógica da justiça do reencarnacionismo.

Por isso, à seguir vamos refletir sobre a Lei de Causa e Efeito.

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Crédito da imagem: The Bhaktivedanta Book Trust International

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3.7.09

Há vagas no céu

O sociólogo Domenico de Masi defende uma abordagem mais lúdica e prazeirosa do trabalho. Segundo ele, não é próprio da espécie humana gostar de trabalhar, e os tempos modernos nos trazem a possibilidade de que todos trabalhem meio expediente, ganhando menos mas nos dedicando mais ao tempo ocioso de forma criativa, e principalmente abrindo mais vagas para quem está desempregado. Domenico apontou um ponto de convergência em todas as religiões: em nenhuma delas se trabalha no Paraíso. "Tenha o Paraíso sido criado por Deus, tenha sido inventado pelos homens, se o trabalho fosse um valor positivo, no Paraíso se trabalharia", afirma.

Especulam os analistas que em uma década terá havido uma verdadeira revolução na forma como encaramos o trabalho, como informa este trecho da interessante reportagem da revista Galileu de Julho de 2009:

"Para começar, esqueça essa história de emprego. Em dez anos, emprego será uma palavra caminhando para o desuso. O mundo estará mais veloz, interligado e com organizações diferentes das nossas. Novas tecnologias vão ampliar ainda mais a possibilidade de trabalhar ao redor do globo, em qualquer horário. Hierarquias flexíveis irão surgir para acompanhar o poder descentralizado das redes de produção. Será a era do trabalho freelance, colaborativo e, de certa forma, inseguro. Também será o tempo de mais conforto, cuidado com a natureza e criatividade.

A globalização e os avanços tecnológicos (alguns deles já estão disponíveis hoje) vão tornar tudo isso possível. E uma nova geração que vai chegar ao comando das empresas, com uma presença feminina cada vez maior, vai colocar em xeque antigos dogmas. Para que as empresas vão pedir nossa presença física durante oito horas por dia se podem nos contatar por videoconferência a qualquer instante? Para que trabalhar com clientes ou fornecedores apenas do seu país se você pode negociar sem dificuldades com o mundo inteiro? Imagine as possibilidades e verá que o mercado de trabalho vai ser bem diferente em 2020. O emprego vai acabar. Vamos ter que nos adaptar. Mas o que vai surgir no lugar dele é mais racional, moderno e, se tudo der certo, mais prazeroso."

Por ocasião dos eventos de minha vida, tenho trabalhado de casa (ou home office, como queiram chamar) aproximadamente desde 2005. Moro em Mato Grosso do Sul e trabalho para uma empresa do Rio de Janeiro - no entanto, o fato de trabalhar com web talvez explique o fato de eu ter, sem querer, "chegado mais cedo ao futuro". De qualquer forma, fato é que existem vantagens e desvantagens de se trabalhar de casa. Entre as desvantagens temos, principalmente, a falta de contato humano, a sensação de se estar "o dia todo enfurnado em casa", e uma maior cobrança e desconfiança de quem lhe pede o trabalho - afinal eles não estão do seu lado para ver o que está fazendo. Entre as vantagens temos, principalmente, um ambiente com menos stress para se trabalhar, o fato de não precisarmos nos deslocar fisicamente pela cidade e evitar o trânsito, e a possibilidade de desenvolver a disciplina e a qualidade do trabalho - o que reduz a desconfinaça de quem lhe contrata quanto a este método ainda heterodoxo no país. Em relação a esta breve descrição, tenho duas dicas importantes: a primeira é que uma ida a cafeteria após o almoço é psicologicamente essencial, pois evita a sensação de estarmos o dia todo em casa, e faz com que vejamos o sol, vejamos pessoas, etc; a segunda é que a disciplina é vital: sem ela, ou sem a intenção genuína de desenvolve-la, é praticamente impossível manter um emprego à distância (a não ser que o seu empregador seja realmente disperso).

Mas retornemos ao Paraíso de Domenico: será que, como ele afirma, todas as religiões compreendem que não há trabalho no céu? Não é preciso ser muito estudioso de teologia para encontrar diversos autores, e mesmo doutrinas religiosas, que defendem que há sim trabalho no céu, inclusive porque este "céu" seria, antes de mais nada, uma condição conquistada por nossa própria consciência e paz de espírito. Ora, diz-se que Deus trabalhou por alguns dias para construir todo o Cosmos, e depois descansou - mas será que ele está até agora "sentado no trono", esperando-nos para ficar lá, parados, admirando-o em êxtase por toda a eternidade? É esta a "mais profunda idéia de perfeição" que conseguimos extrair do entendimento de Deus?

Eu posso falar por mim: se entendemos toda a natureza como um sistema construído e mantido por Deus, isso significa que ele não só trabalhou naqueles dias iniciais, como decerto nunca "descansou", nunca deixou de trabalhar - afinal, as simetrias espaciais e temporais do Cosmos estão aí para nos provar isso. Se sábios disseram que "o trabalho dignifica o homem" e que "devemos ser julgados por nossas obras", porque esperar que justamente o Paraíso, justamente o Reino de Deus, seja um jardim onde ninguém precisa aparar a grama? Será que não existe jardineiro no céu?

Acredito eu que há duas idéias para o trabalho. Para uns, o trabalho é tudo o que fazemos para garantir o sustento e a manutenção meterial, uma espécie de mal necessário, talvez mesmo uma "escravidão consentida", para que possamos desfrutar de nosso tempo livre. E, como "tempo é dinheiro", marchamos apressadamente, como formigas desnorteadas em um grande formigueiro humano; Trabalhamos apressadamente, comemos apressadamente, interagimos com as pessoas (e conosco mesmo) apressadamente. Tudo para que, lá no final, percebamos que vivemos também apressadamente: todo nosso "tempo livre" escorreu pelas mãos, e ao invés de termos realizado obras das quais nos orgulhar, tudo o que conquistamos foi, quando muito, números em uma conta bancária.

Já para outros, e talvez sejam hoje a grande minoria, o trabalho é uma obra viva. É a essência do que são, o grande objetivo de estarem por aqui. Não trabalham para acumular migalhas eletrônicas em uma tela de home banking, mas para realizar algo, e de preferência contribuir para que a comunidade, a cidade, o país, enfim - para que toda a humanidade realize algo de bom. Estes não vêem a sua frente chefes carrascos ou gerentes mesquinhos, mas apenas seres, com maior ou menor ignorância, que tocam a vida da melhor forma possível. Não trabalham para eles, não seguem ordens: trabalham para si mesmos, e para o mundo. Da mesma forma, não vêem os que lhe estão abaixo na escala salarial como seres inferiores, mas apenas como seres iguais a ele, realmente iguais, e extremamente importantes no contexto do sistema global. Se não existissem lixeiros, nossa vida seria um lixo. Se não existissem condutores, não sairíamos do lugar. Se não existissem pequenos comerciantes, não teríamos onde comprar. Ou seja: não é uma lógica tão difícil de ser compreendida.

Foi preciso a grande ameaça do aquecimento global para que finalmente o mundo empresarial se conscientiza-se de que a ecologia deve fazer parte do objetivo a médio e longo prazo de toda empresa. É um tanto desalentador que a humanidade ainda precise de pressões do sistema-natureza para que volte a caminhar na passada correta. Mas, se somos realmente um bando de preguiçosos aniosos por achar um céu onde encostar, pelo menos a natureza nos demonstra que ainda pode, talvez por mais algumas décadas, nos esperar para essa caminhada conjunta. Deste trabalho conjunto entre homo sapiens e natureza, há muito mais a se comemorar do que temer. Afinal, se o homem não destruir a si próprio, é bem possível que saia dessa crise compreendendo enfim que em todo o Cosmos, em todas as suas infinitas moradas, tudo o que há é trabalho!

Será que, quando chegarmos enfim ao céu, não serão os jardineiros os grandes beneficiados? Para eles, haverá sempre vaga no céu. Para todos os outros, talvez tenham de retornar para a terra e arranjar outro trabalho. Pois que se Deus trabalha sem cessar, ele não poderia esperar que entrássemos em seu Reino de outra maneira que não de mãos dadas, cada qual sabendo sua divina função a empenhar, cada qual compreendendo que embora não passe de mais uma formiga do imenso formigueiro divino, não deixa de ser essencial para Deus, e para todo esse sistema infinito.

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Crédito da foto: FAROOQ KHAN/epa/Corbis

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23.6.09

Placebo-Nocebo

Hipócrates, pai da medicina, dedicou sua vida ao estudo de formas racionais para o tratamento de doenças. Era avesso a superstição e as práticas de "barganha" com os deuses em busca de curas milagrosas. Dizia que "tudo acontece conforme a natureza", a cura "está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias", e por isso mesmo nenhum médico poderia prometer cura, e sim tratamento: "Tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças".

A medicina moderna, no entanto, parece ter a tendência a analisar o corpo como uma máquina. Fascinados pelos avanços da tecnologia, talvez tais médicos pensem que a maquinaria avançada possa fazer todo diagnóstico e tratamento quase que no "piloto automático", e que eles devem tão somente estar muito bem informados acerca das últimas descobertas das ciências médicas... Acupuntura? Homeopatia? Medicina-alternativa? Relação amorosa entre médico e paciente? Tudo isso se resume a pseudociências que não tem quase nenhum efeito no tratamento como um todo. Os poucos que admitem algum efeito, o colocam na conta do fenômeno placebo-nocebo.

Em qualquer tratamento farmacológico, os efeitos terapêuticos relacionam-se a dois tipos de fatores: específicos (dose, duração, via de administração, farmacodinâmica, farmacocinética, interações medicamentosas, etc.) e não específicos (história e evolução natural da doença, regressão à média, aspectos sócioambientais, variabilidade inter e intraindividual, desejo de melhora, expectativas e crenças no tratamento, relação médico-paciente, características não-farmacológicas do medicamento, etc). O fenômeno placebo-nocebo faz parte destes últimos.

Etimologicamente, o termo placebo se origina do latim placeo, placere, que significa agradar, enquanto o termo nocebo se origina do latim nocere, que significa inflingir dano. De forma generalizada, entende-se efeito ou resposta placebo como a melhoria dos sintomas e/ou funções fisiológicas do organismo em resposta a fatores supostamente inespecíficos e aparentemente inertes (sugestão verbal ou visual, comprimidos inertes, injeção de soro fisiológico, cirurgia fictícia, etc.), sendo atribuível, comumente, ao simbolismo que o tratamento exerce na expectativa positiva do paciente.

Para muitos céticos, basta taxar toda melhora ou cura efetiva conseguida através de tratamentos da medicina-alternativa como efeito placebo (como é mais conhecido o fenômeno) para se livrarem, como que num piscar de olhos, do problema de ter de explicar tais fenômenos fora do âmbito científico tradicional. Ora, mas não basta apenas classifica-los como placebo, é preciso compreender o que exatamente é o fenômeno em si. Do contrário, ficará parecendo, para quem tem a compreensão um pouco mais profunda, que os céticos estão apenas afirmando algo como: "Não fazemos a menor idéia de como isso ocorre, mas é um efeito que chamamos de placebo, e por enquanto basta-nos saber disso." - Ou seja, é a mesma coisa que não afirmar objetivamente nada.

Felizmente, também há céticos que se aprofundam um pouco mais no problema: "Médicos em um estudo eliminaram verrugas com sucesso, pintando-as com uma tinta colorida e inerte, e prometendo aos pacientes que as verrugas desapareceriam quando a cor se desgastasse. Em um estudo de asmáticos, pesquisadores descobriram que podiam produzir a dilatação das vias aéreas simplesmente dizendo às pessoas que elas estavam inalando um broncodilatador, mesmo quando não estavam. Pacientes sofrendo dores após a extração dos dentes sisos tiveram exatamente tanto alívio com uma falsa aplicação de ultrassom quanto com uma verdadeira, quando tanto o paciente quanto o terapeuta pensavam que a máquina estava ligada. Cinqüenta e dois por cento dos pacientes com colite tratados com placebos em 11 diferentes testes, relataram sentir-se melhor -- e 50 por cento dos intestinos inflamados realmente pareciam melhores quando avaliados com um sigmoidoscópio." - Tudo isso foi retirado de um artigo cético sobre o assunto.

Um dos maiores placebos da história é aquele que diz que a vitamina C evita resfriados. Quem não toma vitamina C para evitar resfriados? Quem não conhece alguém que toma? No entanto, tudo indica que qualquer melhora nesse sentido é causada muito mais por nossa crença na melhora do que por algum fator químico da própria vitamina C. Então, após todos esses anos, será que ninguém parou para se perguntar: "Então se a vitamina C não trata a gripe comum, o que diabos trata?"

Não sabemos exatamente como o fenômeno funciona, mas temos quase certeza que seu mecanismo passa pela mente. Nesse sentido, se faz necessário voltar os olhos para a milenar medicina oriental, e sua defesa de que praticamente toda doença tem origem na mente, ou no espírito, sendo o efeito físico apenas o estágio final de um processo que conhecemos muito pouco na chamada "medicina moderna". E não seria extremamente desconcertante descobrirmos que, talvez no final, a medicina altamente tecnológica esteja apenas queimando dinheiro em tratamentos avançados para doenças que poderiam ser evitadas de formas um tanto mais simples, humanas, econômicas? Ora, era Hipócrates quem dizia que são nossas própria forças quem curam nossas doenças, o tratamento visa principalmente, estimular nosso ânimo para a melhora... Ou, em outras palvaras, "mente sã, corpo são".

A acupuntura, por exemplo, é amplamente utilizada na veterinária. Porque ninguém questiona a acupuntura veterinária, mas questiona a acupuntura em humanos? O princípio do tratamento não é o mesmo? - Obviamente que a medicina-alternativa não serve para todo tratamento, e nem deve ser utilizada em substituição a convencional, mas em sua complementação. Na saúde pública brasileira, por exemplo, há relatos de experiências de substituição de analgésicos (para a dor) por seções de acupuntura, com enorme sucesso: os analgésicos saem muito mais caro, e se as pessoas conseguem deixar de sentir dor apenas com acupuntura, isso é uma economia imediata da verba pública. Além disso, a acupuntura tem bem menos contra-indicação do que a grande maioria dos remédios [1].

Patch Adams, um dos maiores médicos de nosso tempo, é provavelmente quase que ignorado nos grandes centros acadêmicos. Mas sua terapia do amor é uma enrome esperança para os que defendem que a medicina seja humanizada, e passe a utilizar a tecnologia em seu favor, e não continue como que sendo utilizada pela tecnologia, confundindo homens com máquinas. Seria injusto generalizar e afirmar que toda doença tem cunho psicológico, e que nosso humor é o único responsável por nossas enfermidades. Por outro lado, sabemos que a dor é vital para a melhora, e que sem a capacidade de sentir dor, provavelmente estaríamos extintos a muito tempo. Ora, existem dores de origem claramente física, como a dor decorrente de uma contratura muscular, ou de um vírus transmitido por um mosquito, por exemplo... Mas em relação a grande maioria das dores que nos acometem na vida, não podemos afirmar se são apenas físicas, ou emocionais - e, se forem primordialmente emocionais, psicológicas, mentais, é da mente que devemos tratar primeiro, e não do corpo. Do contrário, corremos o risco de ficarmos tal qual aqueles que tentam tapar a luz do Sol com a peneira, ou retirar água do poço com um balde furado.

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[1] Estudes recentes chegaram inclusive a resultados curiosos onde a acupuntura "falsa" obteve resultado mais positivo do que a medicina tradiconal, e tão positivo quanto a acupuntura "real". Fonte: Acupuntura "falsa" supera medicina comum em teste (Folha de S.Paulo).

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Artigos científicos recomendados:

» Bases psiconeurofisiológicas do fenômeno placebo-nocebo: evidências científicas que valorizam a humanização da relação médico-paciente.

» Acupuntura: bases científicas e aplicações.

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Crédito da foto: Wikipedia (Patch Adams)

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12.6.09

Uma breve história da magia, parte 3

continuando da parte 2...

Ritual da irradiação mental de certas cores para a auto-cura de certas enfermidades

Sei que havia prometido um ritual mágico na terceira e última parte desse breve estudo, mas é necessário que antes eu defina alguns conceitos:

1- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com nossa definição de magia - "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" - visa a indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc; Isso pôde ser comprovado inclusive por magistas renomados como o próprio Aleister Crowley, que já completou certos rituais, por força das necessidades, apenas pela disciplina da mente, por assim dizer. Obviamente que certos rituais são muito complexos para que nossas mentes consigam realiza-los sem nenhum auxílio de simbologia através de itens materiais, mas felizmente o ritual que apresento é muito simples e pode ser feito apenas com o pensamento corretamente direcionado.

2- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhum irradiação no sentido físico-científico do termo. Inclusive neste ritual em específico a irradiação estará direcionada ao próprio corpo do ativador do ritual.

3- Por cores entendo exatamente nossa interpretação simbólica das cores. Pela ciência sabemos que cores não existem, e sim espectros da luz, pois que tudo que chamamos de "cor" são frequências específicas de onda dos fótons (quantas de luz, ou do eletromagnetismo). Nossa interpretação - poderia-se dizer, subjetiva - dessas cores é essencialmente uma simbologia mental. Qual a vermelhidão do vermelho? Isso não pode ser medido objetivamente, depende da subjetividade de cada um. Além disso, para os daltônicos o vermelho certamente será algo muito distinto dos que não tem esse tipo de característica na visão. Disso se tira que o importante é o conceito que aplicamos mentalmente a uma cor, e não a cor em específico. Neste ritual o azul é o catalizador da cura, mas contanto que utilizem o mesmo conceito ao pensarem em qualquer outra cor, podem usa-la no lugar do azul sem problema algum (o azul seria apenas a cor tradicional utilizada para esse efeito, segundo a cromoterapia).

4- Por auto-cura entendo a própria capacidade natural da mente e do corpo de curarem a si próprios. Como dizia Hipócrates, pai da medicina: "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças". Por isso também nenhum médico promete cura, e sim tratamento. Este ritual visa o tratamento por "mentalizações de certos conceitos em forma de certas cores"; Não poderia ser resumido de melhor forma, acredito eu... A pergunta cética "é preciso acreditar para que funcione?" sequer faz sentido aqui, pois antes é preciso compreender para que funcione. É a própria compreensão de si mesmo, o próprio foco mental, que cataliza a cura. Se você já não acredita, de antemão, que o ritual possa trazer-lhe qualquer efeito benéfico, é melhor nem tentar realiza-lo. No entanto, talvez o estudo do efeito placebo, conceito científico, lhe traga maior luz sobre o que ocorre aqui - visto que, para a ciência, a mente tem o poder de cura quando acredita nesse poder; Falta-lhe, entretanto, a compreensão do mecanismo pelo qual o efeito placebo funciona exatamente.

5- Finalmente, vale dizer que aprendi esse ritual inicialmente com a médium Narci Castro de Souza (lembrem-se que minha definição de ritual mágico é abrangente, conforme dito anteriormente, e engloba desde o xamanismo às missas cristãs). Porém, adaptei-o a minha maneira, de modo que provavelmente pouco tem a ver com o original, exceto pela essência do que pretende realizar.

O ritual passo a passo
(Vale lembrar ainda que rituais mágicos não devem servir de "comprimido" para qualquer mero desconforto ou pequena enfermidade. Mesmo em se tratando de remédios físicos [como um anti-inflamatório], a dosagem exagerada fará com que o organismo não reaja mais a química do remédio; O mesmo ocorre na prática exagerada, e consequentemente sem o foco devido, de rituais mágicos)

A- De preferência, encontre um local (físico) tranquilo para a prática. Pode ser algum lugar sem ruídos de sua própria casa, algum jardim ou parque bucólico, uma praia vazia, etc. Não é necessário o uso de música, mas se está acostumado a usa-la para meditar ou relaxar, tanto melhor.

B- Feche os olhos e respire profundamente por algum tempo (depende de sua capacidade de relaxar, assim que conseguir esquecer "o mundo lá fora" por alguns instantes, estará bom). Imagine (mentalize com o devido foco mental) que está se transportando para um lugar de natureza exuberante, onde as "energias" que movem a natureza estão em estado puro. Se estiver em uma praia, imagine a essência de uma praia: a areia que erodiu ao longo de milhões de anos, a água mais pura e cristalina, o Sol que brilha e acalenta sem queimar, etc.

C- Imagine o céu em azul límpido, com núvens passageiras (aqui já estamos ativando a cor azul, como disse pode usar alguma outra, contanto que siga a essência do ritual - que é a irradiação da cor natural para dentro de si próprio). As aves que flutuam sem esforço nas brisas, e cantam para saudar o visitante conhecido (você mesmo). A mesma brisa que move as núvens e sustenta as aves também passa pelo seu corpo, e te envolve com a leveza de uma carícia.

D- Pense, brevemente, no motivo pelo qual está aqui: na enfermidade que deseja tratar. Lembre-se que na natureza não há garantia de cura, mas que ainda assim nos curamos inúmeras vezes de inúmeors males e enfermidades ao longo da vida. Pense: "tomara que esta seja mais uma vez". Então comece a respirar (apenas respirar ainda, sem exprirar) e imagine que o ar que respira é o próprio azul do céu, que desce e se irradia pelo seu corpo através da respiração.

E- Direcione este azul que entrou em seu corpo pela respiração para o local exato de sua enfermidade. Aqui, quanto maior for seu conhecimento biológico do corpo humano, e do mecanismo da respiração, tanto melhor. Se já estudou o que os remédios fazem para tratar certas enfermidades, imagine este azul como a essência da química curativa de tais remédios. Quanto maior a compreensão e conhecimento do que ocorre em um tratamento, melhor a eficácia do foco mental e da catalização do tratamento em si. Porém, o conceito essencial é o de que este azul, vindo diretamente do céu, está irradiando sobre sua enfermidade e absorvendo as células enfermas (ou a própria enfermidade em si), lentamente transformando-se em vermelho (novamente a cor não importa, o vermelho seria a enfermidade em si).

F- Agora expire, sem pressa, este vermelho. Imagine que a enfermidade é lentamente dissipada nas consecutivas respirações (do azul de tratamento) e expirações (do vermelho da enfermidade). O vermelho expelido não prejudica a natureza à volta, lentamente se dissipa ao se misturar com o ar. A enfermidade não deve ser encarada como punição, mas como um estado não natural do organismo, que em essência é naturalmente saudável. Viver traz enfermidades pois na natureza tudo se transforma, mas a essência da vida em si é saudável e infinita. Isso tudo são pensamentos que podem ser levados em consideração nessa hora.

G- Então agradeça a possibilidade de fazer uso das "energias" que movem a natureza. Agradeça aos animais que o saudaram, agradeça a possibilidade de viver. Então se despeça de todos que lá estão e imagine que está se transportando de volta ao local físico onde iniciou a meditação.

H- Abra os olhos e diga ou pense "graças a Deus", ou ainda "graças ao Cosmos", etc.

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Nota: se eventualmente algum evento estranho ao passo a passo descrito ocorrer durante o ritual, aproveite-o apenas na medida em que se sentir bem. Se em algum momento sentir-se mal, seja por influência do que for, interrompa o ritual imediatamente passando diretamente para o passo H. Se esse mal-estar ocorrer frequentemente durante outros rituais, você poderá simplesmente deixar de os realizar, ou procurar alguma casa de estudos ocultos, ou alguma igreja onde se sinta bem, até que isso não mais ocorra durante os rituais.

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Crédito da foto: Onne van der Wal/Corbis

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9.6.09

Uma breve história da magia, parte 2

continuando da parte 1...

A evolução da simbologia mágica

Uma das maiores conquistas evolutivas do homo sapiens é a capacidade de reconhecer e interpretar símbolos. O termo "símbolo", com origem no grego σύμβολον (sýmbolon), designa um elemento representativo que está (realidade visível) em lugar de algo (realidade invisível) que tanto pode ser um objeto como um conceito ou idéia. Um símbolo pode ter representação gráfica (bidimensional ou tridimensional), sonora e até mesmo gestual - sendo o catalisador da linguagem e da cognição humana. Como diz o ditado: "uma imagem vale mais do que mil palavras"; No entanto, mesmo as palavras nada mais são do que símbolos elas mesmas.

A simbologia, tendo estado presente na evolução humana desde a pré-história, obviamente surgiu antes da escrita, que nada mais é do que um código de interpretação de símbolos bidimensionais (palavras). Quando nossos ancestrais pintavam animais nas cavernas, não estavam representando somente o animal em si, mas toda uma gama de conceitos simbólicos que hoje em dia talvez não possamos desvendar, mas provavelmente envolvia o animal em si, o espírito do animal (simbólicamente o conceito ou essência do animal), uma celebração pela oportunidade da caça do alimento, um pedido aos deuses pela abundância da caça, e talvez muitos outros conceitos. Não nos importa, para esse pequeno estudo em específico, procurar compreender as condições de nossos antepassados no horizonte tribal, mas sim o mecanismo peculiar pelo qual nossas mentes evoluíram na capacidade de interpretação simbólica.

Um mero símbolo, fosse um gravura na caverna, um escultura de pedra ou metal, um grito de guerra ou o gesto de um xamã, representava por si só uma série de conceitos e idéias entrelaçadas e encadeadas, que de certa forma evoluíram conosco ao longo das encarnações, não exatamente porque de alguma forma obscura nossos genes passaram essas informações adiante, mas simplesmente porque nós mesmos, ou nossas mentes, estavam lá - vivendo no horizonte tribal, caçando e sobrevivendo na imensidão do mundo. Não que seja impossível compreender a evolução da simbologia humana de outra forma, mas principalmente dentro do estudo da magia e do ocultismo, a reencarnação sempre foi um conceito chave, muito embora tenha sido mal compreendido ao longo dos tempos.

Além disso, a prática de magia surgiu primordialmente através da figura do xamã, uma espécie de mediador entre a tribo e os espíritos da natureza. A palavra xamã vem do russo, tungue saman corresponde à práticas dos povos não budistas das regiões asiáticas e árticas especialmente a Sibéria. Outros povos lhes darão outros nomes, como o pajé indígena da América do Sul ou o seiðr dos povos vikings da Europa, mas o que importa é que provavelmente foram os primeiros magistas da espécie humana. Há muitos céticos que atribuem o surgimento dessa mediação entre o xamã e os espíritos à crenças religiosas antigas de homens que, por não conseguirem compreender a natureza, atribuiram-lhe o mecanismo à função de seres sobrenaturais. Porém, o estudioso do oculto saberá muito bem distinguir o que era animismo e o que representava simplesmente o contato ancestral dos povos primitivos com os guias espirituais que, de uma forma ou de outra, sempre estiveram velando pela evolução terrestre. Nesse vai e vem de tribos e seres, a evolução espiritual se entrelaça e confunde com a evolução da cultura humana, e certamente não poderia ser diferente. Fato é que não há povo de caçadores-coletores que não seja guiado, em última instância, por um xamã (e toda nossa espécie surgiu desses povos).

Já a religião correu por caminhos ainda mais estreitos e obscuros. O horizonte tribal já havia passado, e com a agricultura surgiu o horizonte agrícola... Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. Deus era a Lua. O matriarcado e o canibalismo dominaram grande parte do período em que se cultuou a Grande Deusa, e o nascimento era o grande mistério.

Porém, o homem antigo continuava evoluindo, já compreendia melhor o mecanismo do seu nascimento (físico), e acabou por compreender que sem a luz do Sol, o solo não poderia ser fértil: em realidade o Grande Deus era o Sol. Ele passou a ser adorado por diversos nomes por todas as partes, sendo Osíris o nome mais relacionado ao estudo do oculto, pois foi durante seu culto que muito do que se estuda até hoje em ocultismo surgiu no Egito antigo, através da grande mente de Hermes Trimegisto, o três vezes grande. Essa nova "iluminação" resultou em avanços sem precedentes para a civilização. Armados com o conhecimento solar dos ciclos das estações, os lavradores começaram a organizar o culto das lavouras. Cidades surgiram e com elas as economias e os exércitos dos grandes Estados-nação. O patriarcado superou o matriarcado e as deusas de inúmeras culturas se tornaram "esposas" de novas divindades masculinas. O Sol no entanto "morria" todas as noites e "ressuscitava" todos os dias, sua morte era o novo mistério. E assim os deuses dos grandes cultos - Orfeu, Hércules, Dionisio e até mesmo Cristo - foram assassinados e ressuscitaram. A narrativa de Perséfone nos Mistérios de Elêusis é um exemplo perfeito da evolução da simbologia da Grande Deusa para a simbologia do Grande Deus.

Foi necessária a compreensão científica de que o Sol era "apenas" uma esfera incandenscente em volta da qual a esfera terrestre fazia viagens anuais, de acordo com a gravitação universal, para que o grande mistério da morte fosse lentamente sendo deixado de lado. Não havia mais necessidade de temer as trevas, nem a morte. Para quem nunca compreendeu a Deus, e cultuava um "deus da barganha", que enviava os seres para o Inferno ou para o Céu, de acordo com seus pecados, a questão da existência retornou em plena força: nada mais estaria garantido sem a acomodação dessa crença vazia da barganha de nada por coisa alguma, e portanto a transição não foi pacífica - que o digam as fogueiras medievais. Desde esses novos tempos temos visto a queda do colonialismo e a destruição dos últimos vestígios do domínio patriaracal dos reis europeus, juntamente com o poder da Igreja. A simbologia do culto a Grande Mãe (violentamente reprimida durante o culto solar) foi transformada pela evolução da consciência humana, e ressurgiu na forma de movimentos relacionados ao meio ambiente, ecologia e a emancipação das mulheres na sociedade moderna.

Nessa nova época, a que muitos chamam de Nova Era, a consciência espiritual da humanidade desperta aparentemente subitamente, como se doutrinas a exemplo do espiritismo e da umbanda sagrada fossem completamente novas, revelaçoes divinas; O estudate do oculto, entretanto, percebe claramente o encadeamento da teia da vida e da lenta evolução humana, passo a passo em direção ao infinito. Ação e reação, causa e efeito. Um turbilhão de símbolos a girar pelo universo imenso e abrangente - o que a consciência humana é capaz de perceber e compreender hoje, pagou com o sangue e o suor de milhões de anos de evolução. Nós temos percorrido um longo caminho, cheio de armadilhas e passadas em falso, cheio de ignorânica e incompreensão, cheio de doutrinas míopes, porém certamente não absolutamente cegas... O Deus que buscávamos no mistério do ventre da Terra-Mãe, que tateamos na escuridão das noites aflitos pela ausência do Sol-Pai, e que hoje temos a chance de compreender à fundo através do estudo meticuloso dos mecanismos da natureza, é o mesmo do qual nascemos, o mesmo ser-substância eterno e imutável para a qual inevitávelmente iremos um dia retornar, senão fisicamente, decerto espiritualmente. O que está em cima é como o que está embaixo, mas nunca estivemos "longe" ou "fora" de Deus: essa é a grande fórmula mágica, a grande compreensão, o grande mistério do existir.

Na continuação, irei encerrar com um ritual mágico, para ninguém dizer que nunca ensinei nada oculto por aqui...

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Bibliografia (da parte 2): "A Magia de Aleister Crowley" - Lon Milo DuQuette (apenas no que tange a história dos eóns da magia) - editora Madras; "O Espírito e o Tempo" - J. Herculano Pires - editora Paidéia.

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Crédito da imagem: Wikipedia (lista de deuses da Suméria em escrita cuneiforme)

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8.6.09

Uma breve história da magia, parte 1

O que diabos é magia?

No mundo atual, quando crianças aprendemos que magia é basicamente um poder sobrenatural que somente magos e seres fantásticos possuem. Há algumas décadas Tolkien nos trouxe o grande mago Gandalf, em seus livros épicos O Hobbit e a trilogia Senhor dos Anéis - de lá para cá nem sempre temos tido a sorte de encontrar personagens tão interessantes na ficção. Hoje em dia os livros e filmes do estudante de magia Harry Potter dão a esperança de que toda criança pode aprender magia: se estudar no lugar certo e, principalmente, se não perder sua varinha mágica em algum lugar.

Há também quem confunda magia com truques de mágica, para esses gente como Houdini e, mais atualmente, David Blaine e Chris Angel, são os grandes magos de nossa época... Para muitos magia nada mais é do que o fruto do chamado pensamento mágico, que basicamente é um nome mais bonito para superstição - prática ritual de religiosos que perderam o compromisso com a realidade das leis naturais, e creem piamente no sobrenatural; ou de loucos que caminham na contra-mão da ciência, por exemplo: alquimistas que ainda tentam transformar chumbo em ouro (literalmente, é claro).

Com tanta ignorância espalhada aos sete ventos, não é de se admirar que o verdadeiro significado da magia tenha se perdido há muito dentre o chamado conhecimento popular. Na falta de um nome melhor, vou chamar a definição dada nos dois parágrafos acima de magia fantástica. Não quero no entanto induzi-los ao erro: decerto Tolkien sabia muito bem o que pertencia a mitologia e suas metáforas profundas, e o que era criação de sua mente, quando compôs Gandalf e outros seres fantásticos da terra média; assim como, mesmo no conhecimento popular sabe-se muito bem que os truques e ilusionismos de mágicos como Houdini e Blaine nada tem a ver com rituais de magia (ainda que não se saiba exatamente o que diabos é magia).

Pois bem, se quer saber o que é magia, se quer saber se já participou inadvertidamente de alguma espécie obscura de ritual mágico, eu lhe digo que não somente certamente participou, como certamente é um mago, ou magista, em maior ou menor grau, ainda que nunca tenha percebido... Todo ser dotado de mente pensante é um mago, e pratica magia, em maior ou menor grau. A magia não é privilégio de sociedades secretas, de ocultistas ou escritores de auto-ajuda: um ator de teatro que consegue levar a platéia as lágrimas atuando em um drama, é um mago mediano; um poeta que consegue passar inúmeras imagens e pensamentos através de símbolos escritos em versos, é um bom mago; até mesmo uma pastor evangélico que, através de sua interpretação fervorosa da leitura bíblica, consegue incitar grande fé em multidões de seguidores fascinados por sua oratória, é um grande mago!

No documentário "The mindscape of Alan Moore", o célebre escritor e magista inglês resumiu de forma contundente o que é magia (e não é necessário chama-la de outro nome senão o original): "Magia é a arte (a arte original), a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência". Aí está resumido todo o real significado de magia. Não se trata de rituais que pretendem criar efeitos sobrenaturais na natureza, mas da cuidadosa manipulação da simbologia compreendida pela cognição humana no intuito de incitar na consciência um estado alterado, onde se pode compreender a realidade de uma forma mais direta, talvez pudesse se dizer: menos racional e mais espiritual ou sentimental. [1]

A maioria dos alquimistas nunca pretendeu um dia realmente transformar, literalmente, chumbo em ouro. Porém, mentalmente e metaforicamente, essa é a mesma transformação que um budista talvez procure em suas meditações transcendentais, ou um católico fervoroso procure em sua comunhão com Deus, ou mesmo um xamã ou pajé em sua relação direta com a natureza e seus espíritos - tranformar chumbo em ouro é transformar uma mente fechada em aberta, uma consciência restrita em abrangente, um conhecimento limitado em virtualmente infinito. Nesse e em muitos outros sentidos, a magia sempre foi o mecanismo pelo qual se realizou o religare, a religação a Deus, ou simplesmente a religião.

Entretanto, obviamente nem toda magia é boa, assim como nem todo pensamento ou estado de consciência é construtivo. Da mesma forma que pensamentos sombrios brotam nas mentes presas em sentimentos de culpa, ódio e vingança, a forma pela qual tais pensamentos são guiados através de manipulações da simbologia mágica é igualmente sombria, ou o que muitos conhecem popularmente como magia negra. Mas aqui, novamente, não é a cor que importa: é a intenção.

Magia é essencialmente vontade. Não há como realizar boa magia sem ter o controle e a compreensão da própria vontade. A vontade no entanto nem sempre é construtiva ou visa a evolução espiritual dos seres. Por isso também se diz que o amor é a lei, o amor sob a vontade... Que isso seja levado sempre em conta a todo aspirante a magista.

Na continuação, falarei brevemente da história da prática de magia, dos xamãs da Sibéria aos umbandistas do Brasil...

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[1] O termo "racional" se refere a razão destituída de qualquer espiritualidade, como é compreendida no meio acadêmico moderno. Acostumamos a interpretar esse termo como uma analogia a racionalidade e inteligência do ser humano, porém em sua origem, no logos grego, ele significava algo a mais (retirado da Wikipedia): "significava inicialmente a palavra escrita ou falada - o Verbo. Mas a partir de filósofos gregos como Heráclito passou a ter um significado mais amplo. Logos passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza". Essa interpretação do logos como "uma razão conectada ao Cosmos" atinge seu ápice na filosofia estóica. Nesse sentido de logos, a compreensão seria ao mesmo tempo racional e espiritual, e portanto adequada ao contexto utilizado em nosso pequeno estudo.

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Crédito da pintura: Wikipedia (John William Waterhouse)

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1.6.09

Homem-máquina

Alan Turing era uma criança brilhante e solitária. Seu intelecto independente não se encaixava nas expectativas dos professores; ele estava nos últimos lugares de sua classe em várias disciplinas. Entretanto em 1935, quando tinha 23 anos, impressionou os colegas na Universidade de Cambridge (ele era inglês) inventando a caracterização matemática de uma máquina que iria se tornar uma das contribuições mais importantes da história da computação. A teórica máquina de Turing pode computar respostas para um problema matemático baseado num programa. Ela consiste em um dispositivo de entrada de dados, um conjunto de estados internos que correspondem a um programa e a um dispositivo de saída. Qualquer computador moderno, em essência, é uma máquina de Turing.

Em 1950, quando os microchips de silício ainda não existiam, Turing percebeu que, conforme os computadores ficassem mais espertos, a questão da inteligência artificial iria acabar surgindo. No artigo Máquinas computacionais e inteligência, Turing substituiu a pergunta “As máquinas podem pensar?” por “Pode uma máquina – um computador – passar no jogo da imitação?”. Isto é, pode dialogar de forma tão natural a ponto de fazer com que uma pessoa pense que seu interlocutor é humano?

Turing tirou essa ideia de um jogo no qual um dos participantes, chamado de entrevistador, precisa determinar, fazendo uma série de perguntas, se uma pessoa em outra sala é homem ou mulher. Turing substitui a pessoa na outra sala por um computador. Para passar no teste de Turing, a máquina precisaria responder qualquer pergunta do entrevistador com a competência linguística e a sofisticação de um ser humano. Ao final de seu artigo, Turing previu que em 50 anos – ou seja, mais ou menos até o ano 2000 – seríamos capazes de construir computadores tão bons na imitação que um entrevistador médio teria apenas 70% de chances de identificar se estava falando com uma pessoa ou uma máquina.

Até agora a previsão não se realizou. Nenhum computador conseguiu, na verdade, passar no teste de Turing. Um ser humano com excelente raciocínio matemático leva em torno de 10 segundos para calcular a soma 3.456.732 + 2.245.678; um computador médio da primeira década do século 21 pode realizar o cálculo em 0,000000018 segundo. Não é de admirar que na aurora da ciência da computação o homem se maravilhava a tal ponto com a tecnologia que predizia coisas miraculosas para um futuro próximo. Como dizia Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”; mas talvez faltasse aos homens em êxtase com sua tecnologia a percepção de que a maior máquina que já colocamos as mãos, que já operamos, é exatamente a máquina da mente.

Não é tão difícil imaginar a causa da falha miserável na previsão de Turing: computadores processam informações de forma digital, convertidas em bits. A mente interpreta informações de forma analógica, sem qualquer tipo de conversão. Enquanto um bit de informação pode ser “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, e assim por diante, a mente pode interpretar um mesmo input de informação de maneiras praticamente infinitas, se for necessário.

Somente na questão da linguagem humana um computador já é invariavelmente limitado na imitação da mente: é crucial levar em conta o contexto em que as frases são ditas, mas o computador não consegue reconhecê-las com facilidade. A palavra “banco”, por exemplo, pode significar um “assento” ou uma “instituição financeira” dependendo da situação em que é usada. Este é um exemplo simples, imaginem então como um computador poderá um dia interpretar uma frase como “eu estava apaixonado, seu beijo era tão doce quanto as maçãs do Paraíso e seu perfume me lembrava um jardim perdido no tempo”... Certamente a poesia não pode ser computada.

Apesar disso, há quem confunda a mente humana com o cérebro, e dessa maneira acredite piamente que nós funcionamos exatamente como uma máquina, e que é questão de tempo até que a inteligência artificial não apenas imite a cognição humana, mas a suplante!

Vejamos como o materialismo soube ocultar o absurdo que salta aos olhos daqueles que sabem enxergar além dele: se o cérebro é o único responsável pela geração do processo de consciência, então concluímos que tudo o que ele faz é interpretar e processar as informações sensoriais que lhe chegam a todo segundo. Dessa forma, o cérebro reage ao ambiente e vai lentamente formando uma base de memória, na teoria a única responsável por sua personalidade, sentimento e moral. Mal comparando a um computador moderno, teríamos que o hard disk (HD) corresponderia as memórias armazenadas no hipocampo. O processador corresponderia a capacidade de interconexão das sinapses entre as células neurais, o que possibilitaria o raciocínio e a cognição em maior ou menor grau. O processo de consciência corresponderia ao computador ativo, computando com o auxílio de sua memória temporária (RAM); e ao final, quando desligado (sono), eliminaria todas as informações sem grande importância, armazenando o que restasse no hipocampo (HD). Analisando superficialmente essa analogia é instigante: será que não seríamos, no final, apenas máquinas avançadas?

Mas isso é facilmente posto abaixo por uma simples constatação: a de que o computador computa informações, e nunca as interpreta. Se o computador pode parecer humano, é somente pelo processo de imitação, pois ele nada decide, nada escolhe, nada interpreta. Somos nós quem fazemos as escolhas, somos nós quem teclamos o teclado, quem clicamos com o mouse, quem escolhemos entre “ok” e “cancelar” em um formulário, quem comentamos nos blogs, quem criamos todo o conteúdo online e offline, etc. Exatamente por isso que não é pela analogia da mente humana com as máquinas que conseguiremos um dia compreender a existência, a capacidade de fazer escolhas, o processo de consciência, o pensamento...

Até hoje não se sabe onde está a consciência, nem do que é formada. Como falei com maiores detalhes noutros artigos, percebemos a atividade elétrica no cérebro, o baile eletromagnético do pensamento, como quem observa a eletricidade passando pelos fios dos postes nas ruas (os “fios que falam”, segundo o Chefe Seattle), mas não fazemos a menor ideia, dentro da ciência, da origem do pensamento, da “usina elétrica” dos fios do cérebro... Enquanto não soubermos onde está a consciência, ou o que exatamente a inicia, não teremos condições de afirmar o quê, em nós, que faz as escolhas, que tecla as teclas do cérebro, que opera a máquina.

O sistema homem-máquina torna possível que o cérebro envie “sinais neurais” que podem ser decodificados para comandar ferramentas e máquinas. No ano 2000, uma equipe coordenada pelo brasileiro Miguel Nicolelis, então na Universidade de Duke, implantou eletrodos no córtex cerebral de uma fêmea de macaco-da-noite, chamada Belle: um computador decodificou a atividade neural da macaquinha e usou os sinais para mover o braço de um robô. Esse tipo de experiência é um grande feito científico, pois tais pesquisas podem resultar em melhorias extraordinárias na qualidade de vida de pessoas paralisadas ou amputadas... Mas não significa que devemos nos deixar cegar pelo brilho reluzente do avanço científico. Nenhum braço robótico jamais se moverá porque quer, mas sim porque decodificou e computou informação neural, porque foi comandado a se mover. Da mesma forma, resta saber se é o cérebro quem nos comanda, se tudo o que somos se resume a reações de partículas no cérebro, ou se ele mesmo é ainda mera ferramenta, uma grandiosa máquina que nossa mente comanda todos os dias de nossa vida.

Quem poderá dizer? Talvez a computação quântica rompa a barreira do “0” e “1”, e permita que os computadores computem informações de modo tão avassalador que sua imitação do ser humano vença finalmente o teste de Turing. Mas ainda assim, será mera imitação. Nem mesmo Turing se iludiu ao ponto de imaginar que um dia uma máquina de computar seria o mesmo que uma máquina de interpretar, ou, noutras palavras, que uma máquina fosse capaz de tomar decisões morais.

E foram talvez por questões de “falsa moralidade” que um dos maiores matemáticos do século passado tenha se suicidado. Como homossexual declarado, no início dos anos 1950 foi humilhado em público, impedido de acompanhar estudos sobre computadores, julgado por “vícios impróprios” e condenado a terapias à base de estrogênio, um hormônio feminino o que, de fato, equivalia à castração química e que teve o humilhante efeito secundário de lhe fazer crescer seios.

Deprimido, em 7 de Junho de 1954, com apenas 41 anos, faleceu após ter comido uma maçã envenenada. Uma máquina não se sentiria humilhada, não se preocuparia com questões subjetivas de sexualidade, mas igualmente não seria capaz de alcançar a genialidade de Alan Turing, o homem ao qual devemos a invenção teórica que mais auxilia a evolução tecnológica da humanidade – o computador nasceu da mente de Turing. É pena que sua genialidade não tenha sido capaz de vencer a ignorância e o preconceito do ser humano.

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Os três primeiros parágrafos deste artigo são quase que transcrições diretas de trechos do artigo Pensamento eletrônico, de Yvonne Ralley, professora-assistente do departamento de filosofia da Faculdade Felican, em Lodi, Nova Jersey, e publicado na edição especial Desevendando o cérebro, da Scientific American Brasil (editora Duetto, #19, Maio 2009).

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Crédito da foto: Kraftwerk (banda alemã)

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